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Estudos de Psicologia (Natal)

versão impressa ISSN 1413-294X

Estud. psicol. (Natal) vol.15 no.2 Natal maio/ago. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2010000200005 

ARTIGOS

 

Habilidades Sociais Educativas Parentais e comportamentos de pré-escolares

 

Parental Social Educational Skills and behavior of preschoolers

 

 

Vanessa Barbosa Romera LemeI; Alessandra Turini Bolsoni-SilvaII

IUniversidade de São Paulo
IIUniversidade Estadual Paulista - Bauru

 

 


RESUMO

O estudo teve por objetivos, a partir dos relatos de 20 mães de crianças com problemas de comportamento (Grupo clínico) e de 20 mães de crianças sem problemas de comportamento (Grupo não clínico): a) comparar as freqüências das habilidades sociais e dos problemas de comportamento das crianças; b) descrever as situações em que as crianças apresentavam os comportamentos problema e socialmente habilidosos; c) descrever os comportamentos das mães diante dos comportamentos dos filhos; d) descrever os comportamentos dos filhos diante dos comportamentos maternos. Pré-escolares foram selecionados por professoras que responderam a uma escala e os dados foram coletados através de entrevista e de escala com as mães. Os resultados indicaram que as crianças do Grupo não clínico apresentaram mais habilidades sociais e menos problemas de comportamento externalizantes que as crianças do Grupo clínico. As mães do Grupo não clínico relataram mais Habilidades Sociais Educativas Parentais de expressão de sentimentos e enfrentamento, e Comunicação e menos práticas negativas, que as mães do Grupo clínico.

Palavras-chave: habilidades sociais educativas parentais; habilidades sociais; problemas de comportamento.


ABSTRACT

The study had for objectives, from the reports of 20 mothers of children with behavior problems (Clinical group) and 20 mothers of children without behavior problems (Non-clinical group): a) compare the frequencies of social skills and behavior problems of children; b) describe the situations where the children had behavior problems and social skills; c) describe the behaviors of mothers face behaviors of the children; d) describe the behaviors of children ahead of maternal behaviors. Pre-school they were selected age by teachers who responded to a scale and who were collected through interview and scale with the mothers. The results indicated that children of Non-clinical group had more social skills and fewer externalizing behavior problems than children of the Clinical group. The mothers in the Non-clinical group reported more Parental Social Educational Skills expression of feelings and coping and Communication and less negative parenting practices, than mothers of children with behavior problems.

Keywords: parental social educational skills; social skills; behavior problems.


 

 

Os pais podem orientar os comportamentos dos filhos através da utilização de várias estratégias e técnicas que são denominadas pela literatura (Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva, Del Prette, & Del Prette, 2002; Gomide, 2003; Hoffman, 1994; Maccoby & Martin, 1983; Marturano & Loureiro, 2009) de diversas formas, tais como práticas parentais (Alvarenga & Piccinini, 2001; Gomide, 2003; Hoffman, 1994), estilos parentais (Gomide, 2003; Maccoby & Martin, 1983) e habilidades sociais educativas dos pais (Bolsoni-Silva et al., 2009; Del Prette & Del Prette, 2002). Há estudos que enfatizam os comportamentos dos pais, isto é, investigam as práticas parentais, ao passo que, há pesquisadores que focalizam os estilos parentais. Conforme Darling e Steinberg (1993) ainda que as práticas e os estilos não sejam incompatíveis entre si, quando se considera que todos, de forma geral, procuram investigar aspectos da interação entre pais-filhos, eles contemplam especificidades distintas. Hoffman (1994) afirma que as práticas parentais envolvem estratégias utilizadas pelos pais em situações cotidianas específicas de interação entre pais-filhos. Por sua vez, segundo Pacheco, Silveira e Schneider (2008), os estilos parentais são mais estáveis que práticas parentais e "[...] envolvem dimensões da cultura familiar como a dinâmica da comunicação familiar, do apoio emocional e de controle presentes nas interações entre pais-filhos (p.67)".

O processo de socialização das crianças envolve as funções materna e paterna de forma interdependente (Pacheco et al., 2008). Estudos têm indicado que mães e pais podem diferenciar-se quanto às suas práticas e estilos parentais (Costa, Teixeira, & Gomes, 2000; Pacheco et al., 2008; Silva, 2000; Tudge et al., 2000). De forma geral, as pesquisas indicam que as mães participam mais na educação dos filhos que os pais (Silva, 2000) e são mais exigentes e responsivas (Costa et al., 2000; Pacheco et al., 2008). Por outro lado, os pais envolvem-se mais com atividades de lazer com os filhos que as mães (Tudge et al., 2000).

No presente estudo será utilizado o termo Habilidades Sociais Educativas Parentais (HSE-P, Bolsoni-Silva et al., 2009), o qual pode ser entendido como sendo o conjunto de habilidades sociais educativas dos pais, aplicáveis à prática educativa dos filhos (Silva, 2000) e que contribuem com o desenvolvimento e com a aprendizagem dos mesmos (Del Prette & Del Prette, 2002). As Habilidades Sociais Educativas Parentais podem ser relacionadas aos estilos parentais e às práticas educativas parentais, uma vez que as HSE-P englobam as práticas educativas tidas como positivas (Gomide, 2003) e indutivas (Alvarenga & Piccinini, 2001; Hoffman, 1994), como por exemplo, indicar à criança as conseqüências do seu comportamento para si e para os outros, expressar sentimentos positivos, negativos, opiniões e estabelecer limites com consistência. Essas práticas educativas, juntamente com as consideradas como negativas (tais como uso de agressão verbal, física e ameaças), por sua vez, constituem, conforme Gomide (2003), os estilos parentais.

Os pais podem, então, educar os filhos, por exemplo, através de Habilidades Sociais Educativas Parentais (Bolsoni-Silva et al., 2009) que possibilitam à criança desenvolver diversas habilidades sociais, adquirir independência, autoconfiança e responsabilidade (Del Prette & Del Prette, 2005). Mas, por outro lado, os pais podem utilizar, para controlar o comportamento dos filhos, práticas negativas (Gomide, 2003), aumentando a chance do desenvolvimento de problemas de comportamento (Gomide, 2003; Patterson, Reid, & Dishion, 1992/2002). Não há um consenso na literatura quanto à definição, à classificação e o diagnóstico para os problemas de comportamento, contudo, neste trabalho, esses serão entendidos como

[...] déficits e/ou excessos comportamentais que prejudicam a interação da criança com pares e adultos de sua convivência [...] e que dificultam o acesso da criança a novas contingências de reforçamento, que por sua vez, facilitariam a aquisição de repertórios relevantes de aprendizagem (Bolsoni-Silva, 2003, p.10).

Vários estudos (McClelland, Morrison, & Holmes, 2000; Molina & Del Prette, 2006; Patterson et al., 2002/1992) têm encontrado correlações negativas entre o desenvolvimento de habilidades sociais e indicativos de problemas de comportamento em crianças e adolescentes. Além disso, a literatura tem indicado algumas características que podem influenciar no surgimento e/ou na manutenção dos problemas de comportamento infantis: a) há uma maior incidência em meninos do que em meninas de problemas de comportamento, especialmente os classificados como externalizantes (Bongers, Koot, Ende, & Verhulst, 2004; Kaiser & Hester, 1997); b) os problemas de comportamento quando surgem na infância são mais difíceis de serem extintos (Campbell, 1995); c) há uma disposição para a estabilidade, isto é, os problemas de comportamento, principalmente os externalizantes, que surgem na infância, podem continuar na adolescência, podendo repercutir negativamente também na vida adulta (Bongers et al., 2004; Campbell, 1995; Kaiser & Hester, 1997); d) contudo, os problemas de comportamento também podem ser transitórios, ou seja, surgir numa determinada faixa etária e diminuir em outra (Campbell, 1995).

Frente às possíveis conseqüências perniciosas que podem ser causadas por práticas parentais negativas, muitas pesquisas empíricas (Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva, 2003; Ferreira & Marturano, 2002; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000), realizadas no contexto nacional, têm procurado investigar múltiplos aspectos das estratégias educativas utilizadas pelos pais, bem como as suas influências no comportamento infantil. Ao analisar tais estudos, verificou-se que, apesar de alguns pesquisadores (tais como, Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva, 2003; Ferreira & Marturano, 2002; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000) terem procurado investigar as estratégias educativas utilizadas pelos pais, a literatura nacional carece de mais pesquisas que procurem, por exemplo, avaliar o contexto (variáveis antecedentes e conseqüentes) em que são apresentados as práticas educativas dos pais e os comportamentos dos filhos.

Para a Análise do Comportamento, tais informações são importantes na medida em que permitem realizar uma análise de contingências para, então, propor estratégias de intervenção. São poucos os estudos brasileiros (Alvarenga & Piccinini, 2001; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000) que procuram descrever as situações em que os comportamentos maternos e/ou das crianças ocorrem e que tentam (por exemplo, Bolsoni-Silva, 2003; Silva, 2000) descrever variáveis relacionadas ao repertório socialmente habilidoso de pré-escolares, o qual tem sido atribuído como um fator de proteção para o surgimento e/ou manutenção de problemas de comportamento. Ferreira e Marturano (2002) encontraram que as mães de crianças em idade escolar com indicativos de problemas de comportamento apresentavam menos supervisão e suporte às atividades escolares da criança e mais práticas negativas, que as mães de crianças sem indicativos de problemas de comportamento. Por sua vez, as mães das crianças sem indicativos de problemas de comportamento relataram apresentar um repertório comportamental elaborado de Habilidades Sociais Educativas Parentais, isto é, organizavam e planejavam mais o cotidiano da criança, estavam mais disponíveis a ajudar com questões relativas à escola e lazer, demonstravam-se mais preocupadas com as crianças, pois monitoravam mais as atividades livres e de estudo dos filhos. Ao analisar esses resultados, nota-se que as autoras não sinalizaram quais as situações que poderiam estar mais relacionadas à apresentação, pelas mães, das HSE-P e das práticas negativas e dos problemas de comportamento dos filhos. Apenas Alvarenga & Piccinini (2001), Parreira e Marturano (1998) e Silva (2000) procuraram avaliar as situações em que os filhos apresentavam os comportamentos, bem como as reações dos pais frente aos mesmos.

Parreira e Marturano (1998) ao realizar uma pesquisa com 30 mães de crianças em idade escolar, com dificuldades de aprendizagem, observaram que as situações mais relatadas pelas mães para os problemas de comportamento foram momentos de frustração, de relações interpessoais e de brincadeira/lazer. As autoras verificaram que diante dos comportamentos dos filhos, as mães relataram utilizar, com mais freqüência, práticas negativas, mas também disseram apresentar, ainda que com menos freqüência, suporte, intrusão/restrição e orientação, isto é, Habilidades Sociais Educativas Parentais, sugerindo, assim, algumas reservas comportamentais (Kanfer & Saslow, 1976). Na mesma direção, Silva (2000) realizou um estudo com o objetivo de comparar características de relacionamento entre pais (20 mães e 20 pais) e filhos (pré-escolares) com e sem indicativos de problemas de comportamento. Encontrou que os filhos apresentavam as habilidades sociais em situações tais como as que envolviam expressão de sentimentos e enfrentamento e negociação durante escolha de roupas e comidas, quando os filhos estavam tristes, com raiva e quando os mesmos eram contrariados. Segundo a autora, os pais e as mães das crianças sem problemas de comportamento apresentaram com mais freqüência que os pais e as mães das crianças com problemas de comportamento, Habilidades Sociais Educativas Parentais. Por sua vez, Silva (2000) identificou que, diante dos problemas de comportamento dos filhos, os pais e as mães das crianças com e sem problemas de comportamento apresentavam práticas negativas (por exemplo, ameaçar e agredir verbalmente), o que sugeriu dificuldade em estabelecer limites aos filhos. Assim, a autora indicou que as HSE-P que mais diferenciaram os pais e as mães das crianças com e sem problemas de comportamento foram aquelas utilizadas em momentos de interação positiva. Em outra pesquisa, Alvarenga & Piccinini (2001) compararam as práticas educativas relatadas por mães de pré-escolares com (Grupo clínico, 13 crianças) e sem problemas de comportamento externalizantes (Grupo não clínico, 17 crianças). Os autores encontraram que as mães das crianças com problemas de comportamento apresentavam, com mais freqüência, práticas negativas, quando comparadas às mães de crianças sem problemas de comportamento, quando os filhos, por exemplo, desobedeciam, teimavam, faziam birras e agrediam.

Ao analisar os estudos descritos, nota-se que há uma lacuna no conhecimento, pois a maioria dos estudos (Alvarenga & Piccinini, 2001; Ferreira & Marturano, 2002; Parreira e Marturano, 1998) investiga as práticas parentais relacionadas aos problemas de comportamento das crianças. Somente Silva (2000) procurou avaliar também o repertório socialmente habilidoso, contudo, realizou um estudo qualitativo com um número pequeno de participantes, indicando a necessidade de novos estudos relacionados a esta temática.

Com a descrição das situações em que as habilidades sociais e os indicativos de problemas de comportamento ocorrem, bem como dos comportamentos das mães e dos filhos, será possível obter, para além de medidas distais, tais como nível sócio-econômico ou instrucional dos pais, análises mais proximais e dinâmicas (Matos, 1983). Com essas informações coletadas poderão ser identificadas classes de respostas topograficamente diferentes, mas que possuem as mesmas conseqüências. Tais informações poderão permitir a descrição de variáveis relacionadas às contingências que podem estar mantendo os comportamentos das mães e dos filhos, bem como será possível formular hipóteses para análises funcionais comportamentais descritivas (Sturmey, 1996). Neste tipo de análise não há a manipulação direta das variáveis, mas sim a operacionalização dos comportamentos alvo que devem ser descritos e agrupados em classes de respostas (mesma função). Conseqüentemente, deve-se também fazer uma análise das contingências (reforçamento e/ou punição) que mantém os comportamentos. Assim, a análise funcional comportamental descritiva não permite testar hipóteses, uma vez que apresenta uma natureza correlacional, contudo, permite avaliar um conjunto maior de comportamentos que podem ser posteriormente testados. Neste sentido, conforme Goldiamond (2002/1974), no que se refere a procedimentos de intervenção, seriam desenvolvidos no repertório do indivíduo outros comportamentos funcionalmente equivalentes (tais como as habilidades sociais e as HSE-P) aos problemas de comportamento e às práticas negativas parentais, as quais poderão ser utilizadas em intervenção que poderão aproveitar as reservas comportamentais dos pais e dos filhos.

Tendo por base tais pressupostos, a pesquisa tem por objetivos: a) comparar as freqüências das habilidades sociais e dos problemas de comportamento das crianças com e sem indicativos de problemas de comportamento; b) descrever as situações em que as habilidades sociais e os problemas de comportamento das crianças ocorrem; c) descrever os comportamentos das mães frente às habilidades sociais e aos problemas de comportamento das crianças; d) descrever os comportamentos das crianças frente aos comportamentos maternos.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 40 mães de crianças com idade entre quatro e seis anos e 19 professoras. As crianças estavam matriculadas do Jardim I ao Pré, em sete Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI), de uma cidade do interior de São Paulo com 343.350 habitantes. A amostra foi dividida em dois Grupos: a) 20 mães de crianças com indicativos de problemas de comportamento (Grupo clínico); b) 20 mães de crianças sem indicativos de problemas de comportamento (Grupo não clínico). A idade média das mães do Grupo não clínico foi de 33 anos e do Grupo clínico foi de 31 anos. A maioria das crianças que compunham o Grupo não clínico eram meninas (15,75%); inversamente, o Grupo clínico era composto prioritariamente por meninos (15,75%). O grau de escolaridade das mães de ambos os Grupos se situava entre o ensino médio incompleto e completo. A maioria das mães de ambos os Grupos vivia a primeira união conjugal legal ou por consenso. A renda familiar dos Grupos não clínico e clínico concentrou-se entre os valores de R$ 600,00 a R$ 1.500,00.

Instrumentos

Os instrumentos utilizados na seleção da amostra e na coleta de dados foram:

a) Escala Comportamental Infantil B de Rutter, versão para professores (ECI-B, Santos, 2002) e Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter, versão para pais (ECI-A2, adaptada por Graminha, 1994). A ECI-B, versão para professores é composta por 26 itens e a ECI-A2, versão para pais, é composta por 36 itens. Cada item dessas escalas consiste numa afirmação breve referente ao comportamento da criança e procura avaliar indicativos de problemas comportamentos ocorridos nos últimos 12 meses, no qual professores e pais são solicitados a indicar se uma resposta "se aplica" (escore 2), "se aplica em parte" (escore 1) ou "não se aplica" (escore 0). A soma dos três pontos que são atribuídos a cada item, permite caracterizar as crianças que necessitam de atendimento psicológico ou psiquiátrico (soma dos pontos > a 9, na ECI-B; soma dos pontos > a 16, na ECI-A2). O instrumento ECI-A2 foi adaptado por Graminha (1994) para a realidade brasileira a partir da aplicação numa amostra de 1731 crianças com idade entre três a treze anos, com índices satisfatórios de fidedignidade e determinação de ponte de corte. A ECI-B foi traduzida por Santos (2002), que verificou que o ponto de corte original da escala discriminava crianças com alto e baixo rendimento escolar;

b) Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para Pais (QRSH-Pais, Bolsoni-Silva, Marturano & Loureiro, no prelo). O QRSH-Pais é composto por 22 itens contendo comportamentos indicativos de habilidades sociais apresentados por crianças, no qual os pais devem responder se uma resposta "se aplica" (escore 2), "se aplica em parte" (escore 1) ou "não se aplica" (escore 0). Os escores são somados, permitindo o escore total da criança avaliada. Este questionário visa avaliar habilidades sociais de pré-escolares por suas mães e se destina a crianças de quatro a sete anos de idade. A partir do estudo piloto (com 13 pais/mães), realizado para a pesquisa de Silva (2000), foram definidas três categorias (Expressão de sentimento e enfrentamento, Interação social positiva e Disponibilidade social e cooperação) para o QRSH-Pais, as quais foram organizadas conforme os relatos dos pais nas entrevistas estruturadas sobre o repertório comportamental dos filhos. Bolsoni-Silva et al. (no prelo) ao realizarem um estudo de validação do QRSH-Pais, com 131 pré-escolares, encontraram índices satisfatórios de consistência interna, validade concorrente e discriminante.

c) Entrevista sobre Comportamentos Infantis e Parentais (E-CIP, Leme, 2008). A E-CIP trata-se de uma entrevista estruturada que contém 58 itens, sendo que destes, 22 correspondem às habilidades sociais avaliadas no QRSH-Pais (Bolsoni-Silva et al., no prelo); e os 36 itens restantes, referem-se aos indicativos de problemas de comportamentos investigados na ECI-A2. A partir das respostas que foram indicadas pelas mães com escore "1" ou "2" nos instrumentos QRSH-Pais e ECI-A2, a pesquisadora procura investigar, com outras perguntas, as "situações" em que os filhos apresentam as habilidades sociais e os indicativos de problemas de comportamento, os "comportamentos das mães" frente a esses e os "comportamentos dos filhos" frente aos comportamentos das mães. Para avaliar a fidedignidade do instrumento, foram coletados dados com 10 mães, cujas medidas foram obtidas com um mês de distanciamento. A partir desses dados, foi realizado o teste de correlação de Spearman, sendo encontrada correlação significativa a 5% (0,84). Contudo, ressalta-se que este instrumento ainda não possui as propriedades psicométricas validadas.

Procedimento de coleta de dados

Para a seleção da amostra, 19 professoras de sete Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI) foram solicitas, após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a indicarem crianças com indicativos de problemas de comportamento e crianças sem esses indicativos e a responderem a ECI-B. Para participar do estudo, as crianças indicadas pelas professoras como apresentando problemas de comportamento deveriam atingir o escore da ECI-B (escore > 9) e as crianças sem essa indicação não deveriam atingir esse escore. Além disso, as crianças deveriam morar com ambos os pais e esses deveriam viver numa situação conjugal legal ou por consenso. Em seguida, as mães das crianças indicadas pelas professoras foram contatadas para se verificar o interesse em participar do estudo; neste caso, a pesquisadora agendava um encontro na residência e/ou no local de trabalho da mãe para a coleta dos dados. Todas as mães assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e responderam aos seguintes instrumentos: ECI-A2; QRSH-Pais; E-CIP. As crianças indicadas pelas professoras como apresentando indicativos de problemas de comportamento pela ECI-B (escore > 9) deveriam apresentar índice clínico também na ECI-A2 (escore > 16). Por sua vez, as crianças indicadas pelas professoras sem problemas de comportamento não deveriam apresentar esses índices clínicos segundo os relatos das professoras e das mães.

 

Resultados

Os escores por itens e totais dos instrumentos QRSH-Pais, ECI-A2 e ECI-B foram tratados estatisticamente (Teste U de Mann-Whitney) a fim de fazer comparações intergrupais. Foram analisados os itens da escala ECI-A2 que se referiram aos "problemas de comportamento externalizantes" (Achenbach & Edelbrock, 1979). Já os itens do QRSH-Pais foram agrupados em três categorias (Bolsoni-Silva, 2003), a saber: a) Expressão de sentimentos e enfrentamento; b) Interação social positiva; c) Disponibilidade social e cooperação. Foram calculadas as medianas dos resultados significativos (p < 0,05) dos instrumentos nas comparações dos Grupos não clínico e clínico. As entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente e, em seguida, submetidas à análise de de conteúdo (Bardin, 1977). A partir disso, foram calculadas as freqüências das habilidades sociais e dos problemas de comportamento, bem como das mediadas dos escores (teste U de Mann-Whitney), contudo, na apresentação deste trabalho, serão descritos apenas os valores de p.

Os resultados das habilidades sociais e dos problemas de comportamento que apresentaram diferenças estatisticamente significativas (p <0,05, teste U de Mann-Whitney) na comparação entre os Grupos não clínico e clínico foram agrupados e apresentados em tabelas com as freqüências: a) das situações em que as crianças apresentam os comportamentos; b) dos comportamentos das mães; c) dos comportamentos das crianças. Posteriormente, foram calculadas as medianas das situações e dos comportamentos das mães e das crianças que apresentaram freqüência de ocorrência > 10. Esses dados são apresentados na seção dos resultados nas Tabelas A1 e 1, as quais contêm os escores totais das freqüências e as comparações das medianas (Teste do Qui-quadrado) para os Grupos não clínico e clínico.

Os comportamentos das mães e os comportamentos das crianças foram categorizados a partir da análise de conteúdo das respostas das mães às entrevistas e foram criados dois sistemas de classificação, um para os comportamentos das mães, e outro, para os comportamentos das crianças. Os comportamentos maternos contingentes aos dos filhos foram classificados em quatro categorias: a) Habilidades Sociais Educativas Parentais (HSE-P, Bolsoni-Silva et al., 2009 - HSE-P Comunicação: iniciar e manter conversação, fazer perguntas e ouvir atentamente a perguntas feitas pelos filhos; HSE-P Expressão de sentimentos e enfrentamento: expressar sentimentos positivos, negativos, opiniões e brincar com o filho; HSE-P Estabelecer limites: identificar as razões pelas quais se estabelece limite, identificar comportamentos que consideram apropriados aos filhos, identificar comportamentos de que não consideram apropriados aos filhos, cumprir promessas, conversar com cônjuge para estabelecer concordância nas práticas educativas, identificar os próprios "erros" e identificar ocasiões e comportamentos que justificam o estabelecimento de limites); b) Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas (exemplos: quando os pais agridem os filhos de forma verbal e/ou fisicamente e fazem ameaças); c) Práticas Educativas Não-habilidosas Passivas (exemplos: quando os pais deixam os filhos fazerem birras, saem de perto e ficam quietos); d) Outras Práticas Educativas (exemplos: quando os pais dizem não aos filhos, sem oferecer explicações). Essas categorias foram elaboradas pelas pesquisadoras a partir da literatura nacional (Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva et al., 2009; Del Prette & Del Prette, 2001; Gomide, 2003;) e internacional (Hoffman, 1994) sobre práticas educativas parentais, estilos parentais e habilidades sociais educativas dos pais. Os comportamentos das crianças foram classificados em três categorias previamente elaboradas por Del Prette e Del Prette (2005) e adaptadas para a presente pesquisa, a saber: a) Comportamentos Habilidosos (exemplos: quando a criança ouve as explicações dos pais e obedecem); b) Comportamentos Não-Habilidosos Passivos (exemplos: quando as crianças choram, ficam quietas e emburradas); c) Comportamentos Não-Habilidosos Ativos (exemplos: quando as crianças agridem os pais de forma verbal e/ou fisicamente). Para categorizar os comportamentos das mães e das crianças foi calculado um índice de concordância em 30% das entrevistas por dois codificadores que tiveram treinamento e que desconheciam o grupo a qual a mãe pertencia. Quando era atingido um índice de concordância de 85%, as demais entrevistas tinham as respostas das mães categorizadas independentemente pelos codificadores. As porcentagens de acordos encontradas foram 88,1% nos comportamentos maternos e 86,9% nos comportamentos das crianças1.

A partir do que foi exposto, são apresentados, primeiramente, a análise estatística dos valores obtidos pelos testes utilizados. Em seguida, a avaliação, realizada pelas mães, sobre as habilidades sociais dos filhos. E na seqüência, os indicativos de problemas de comportamento avaliados também pelas mães.

Habilidades sociais e problemas de comportamento externalizantes: avaliações das mães

Para as habilidades sociais, os resultados das análises estatísticas (Teste U de Mann-Whitney) indicaram que os Grupos não clínico e clínico diferiram-se estatisticamente (p < 0,05) nos seguintes itens da categoria Expressão de sentimentos e enfrentamento, sendo o Grupo não clínico mais habilidoso no caso de: expressar frustração e desagrado (p=0,000); expressar desejos e preferências (p=0,001); expressar carinhos (p=0,037); expressar direitos e necessidades (p=0,021); fazer críticas (p=0,001); manifestar bom humor (p=0,001). Com relação à categoria Interação social positiva, os Grupos não clínico e clínico diferiram-se significativamente nos seguintes itens que compõem essa categoria, sendo que o Grupo não clínico mais habilidoso no caso de: a) comunicar-se com as pessoas de forma positiva (p=0,004); b) interagir de forma não-verbal (p=0,014); c) brincar com colegas e amigos (p=0,019). Por sua vez, os itens da categoria Expressão de sentimentos e enfrentamento que não apresentam diferenças estatísticas significativas foram: a) expressar as próprias opiniões; b) negociar com outras pessoas quando seu ponto de vista é diferente; c) não ser facilmente intimidado por crianças agressivas. Já em relação à categoria Interação social positiva, os Grupos não apresentaram diferenças estatísticas nos seguintes itens: a) fazer amizades; b) ter relações positivas com irmãos; c) ter relações positivas com um ou mais colegas, demonstrando capacidade para preocupar-se com eles. Por fim, todos os itens da categoria Disponibilidade social e cooperação não apresentam diferenças estatísticas, quais sejam: a) fazer pedidos; b) procurar ajudar; c) procurar atenção; d) fazer perguntas; e) cumprimentar as pessoas; f) fazer elogios; g) ter iniciativas. De forma geral, as crianças do Grupo não clínico apresentaram mais habilidades sociais que as crianças do Grupo clínico, segundo as percepções das mães.

Com relação aos problemas de comportamento, as análises estatísticas indicaram que os Grupos apresentaram diferenças estatísticas (Teste U de Mann-Whitney) em todos os itens da ECI-A correspondentes aos Problemas de comportamento externalizantes, a saber: a) ficar mal humorado e nervoso (p=0,001); b) "matar" aula (p=0,038); c) costumar roubar ou pegar coisas dos outros às escondidas (p=0,018); d) ser muito agitado (p=0,000); e) ficar impaciente/irrequieto (p=0,001); f) destruir as próprias coisas ou as dos outros (p=0,000); g) brigar com outras crianças (p=0,000); h) ficar irritado (p=0,000); i) desobedecer (p=0,000); j) não conseguir permanecer numa atividade qualquer (p=0,031); l) falar mentiras (p=0,000); m) maltratar outras crianças (p=0,015); n) falar palavrões (p=0,009). Para todos esses itens, o Grupo clínico apresentou os problemas de comportamento com mais freqüência que o Grupo não clínico.

Habilidades sociais: situações e comportamentos relatados pelas mães

No final deste artigo são apresentados, nos apêndices (Tabela A1), os resultados das entrevistas referente às habilidades sociais que apresentaram diferenças estatísticas significativas (p<0,05) na comparação entre os Grupos não clínico e clínico. A Tabela A1 contém os escores totais das freqüências e as comparações das medianas (Teste Qui-quadrado) das situações e dos comportamentos mais freqüentes (freqüência de ocorrência > 10). Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa de uma universidade pública do estado de São Paulo.

Como pode ser visto na Tabela A1, o relato das mães apontam que as crianças de ambos os Grupos apresentaram as habilidades sociais em situações diversas e em algumas situações que envolviam expressão de sentimentos e enfretamento (expressavam desejos e preferências durante a escolha de brincadeiras, compra, troca de vestimentas e brinquedos) e negociação (por exemplo, faziam críticas ao verem algo que consideravam inadequado e não gostavam). As análises estatísticas indicaram que as crianças do Grupo não clínico apresentaram as habilidades sociais fazer crítica, comunicar-se com as pessoas, brincar com colegas quando viam algo que consideravam inadequado, não gostavam, em diversos lugares, quando encontravam pessoas conhecidas, na casa de parentes e amigos, com mais freqüência, com diferença estatística, que as crianças do Grupo clínico. As mães de ambos os Grupos relataram, na maioria das vezes, apresentarem diante das habilidades sociais dos filhos, Habilidades Sociais Educativas Parentais Expressão de sentimentos e enfrentamento e Comunicação. Contudo, conforme as análises estatísticas apresentadas na Tabela A1, as mães do Grupo não clínico apresentaram com mais freqüência, com diferença estatística, que as mães do Grupo clínico, Habilidades Sociais Educativas Parentais quando os filhos expressavam desejos e preferências, carinhos, comunicavam-se com as pessoas de forma positiva, brincavam com colegas e amigos e interagiam de forma não verbal. Por fim, segundo os relatos das mães de ambos os Grupos, diante dos comportamentos maternos, as crianças apresentavam Comportamentos Habilidosos. Por sua vez, as análises da Tabela A1 revelaram que as crianças do Grupo não clínico apresentavam os comportamentos socialmente habilidosos, com mais freqüência, com diferença estatística, que as crianças do Grupo clínico, no caso de expressar frustração e desagrado, desejos e preferências, carinhos, direitos e necessidades, fazer críticas, manifestar bom humor, comunicar-se com as pessoas, brincar com colegas e amigos e interagir de forma não verbal.

Problemas de comportamento externalizantes: situações e comportamentos relatados pelas mães

A seguir são apresentados na Tabela 1 os resultados condizentes às entrevistas (E-CIP-PC) para os indicativos de problemas de comportamento da categoria Problemas de comportamento externalizantes que apresentaram diferenças estatísticas significativas (p< 0,05) na comparação entre os Grupos não clínico e clínico. Na Tabela 1 são apresentados os escores totais das freqüências e as comparações das medianas (Teste Qui-quadrado) das situações e dos comportamentos mais freqüentes (freqüência de ocorrência > 10).

A Tabela 1 sinaliza que as crianças de ambos os Grupos (não clínico e clínico) apresentavam, segundo os relatos das mães, os problemas de comportamento externalizantes, principalmente em situações em que eram contrariadas (tais como quando ficavam mal humoradas e nervosas e brigavam). As análises estatísticas indicaram que as crianças do Grupo clínico apresentaram com mais freqüência, com diferença estatística, os problemas de comportamento nessas situações, quando comparadas com as crianças do Grupo não clínico, portanto, quando ficavam mal humoradas e nervosas, agitadas, impacientes, irrequietas, brigavam, ficavam irritadas e falavam mentiras. Segundo a Tabela 1, as mães do Grupo clínico relataram apresentar com mais freqüência, com diferença estatística, que as mães do Grupo não clínico, Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas quando os filhos ficavam agitados, destruíam objetos, brigavam, ficavam irritados e desobedeciam. Contudo, as mães do Grupo não clínico também relataram que apresentam Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas, ainda que com menos freqüência que as mães do Grupo clínico, quando os filhos ficavam mal humorados e nervosos, agitados, irritados e desobedeciam.

 

Discussão

Os resultados indicaram que, segundo os relatos das mães, as crianças do Grupo não clínico apresentam com mais freqüência as habilidades sociais investigadas, quando comparadas com as crianças do Grupo clínico. Esses achados estão de acordo com outros estudos (McClelland et al., 2000; Molina & Del Prette, 2006; Patterson et al., 2002/1992) que indicam que crianças com indicativos de problemas de comportamento apresentam, dentre outras dificuldades, déficits em habilidades sociais. O Grupo clínico composto em sua maioria por meninos e o Grupo não clínico formado em sua maioria por meninas, diferenciaram-se também quanto aos problemas de comportamento externalizantes avaliados. As crianças do Grupo clínico apresentaram com mais freqüência que as crianças do Grupo não clínico, problemas de comportamento externalizantes (por exemplo, ficar irrequieto, brigar e desobedecer), segundo os relatos das mães. Resultados semelhantes são encontrados em muitas outras pesquisas (Bongers et al., 2004; Campbell, 1995; Kaiser & Hester, 1997; Patterson et al., 2002/1992) que indicam que os problemas de comportamento externalizantes são mais relatados no repertório infantil, principalmente em idade pré-escolar (Campbell, 1995), do que os internalizantes e que meninos os apresentam com maior freqüência que as meninas (Bongers et al., 2004; Kaiser & Hester, 1997).

Os dados das entrevistas demonstraram que, segundo os relatos das mães de ambos os Grupos, as crianças apresentavam as habilidades sociais em diversas situações e em algumas situações que envolviam a expressão de sentimentos e enfrentamento (quando expressavam desejos e preferências na escolha de brincadeiras, compra, troca de vestimentas e brinquedos) e de negociação (por exemplo, quando faziam críticas ao verem algo que consideravam inadequado e não gostavam). Silva (2000) ao comparar características de relacionamento entre pais-filhos com e sem problemas de comportamento encontrou resultados semelhantes para as situações em que as crianças apresentavam as habilidades sociais, tais como escolha de roupas e comidas. Quanto às situações em que os filhos apresentavam os problemas de comportamento externalizantes, é possível observar algumas tendências, isto é, as crianças de ambos os Grupos, principalmente as com indicativos de problemas de comportamento, por exemplo, ficavam mal humoradas e nervosas, brigavam, ficavam irritadas e falavam mentiras quando eram contrariadas. Semelhantemente, Alvarenga e Piccinini (2001), Parreira e Marturano (1998) e Silva (2000) encontraram que as principais situações para a apresentação dos problemas de comportamento eram quando as crianças eram frustradas, contrariadas, brigavam, ficavam irritadas e desobedeciam. Os resultados também sugerem que as crianças, mesmo as socialmente habilidosas (Grupo não clínico), apresentavam algumas dificuldades interpessoais diante de certas demandas do ambiente, sinalizando a importância da escola e da família monitorarem e darem suporte nesses momentos, fornecendo modelos e modelando novos comportamentos habilidosos.

Os resultados sinalizaram a importância de se avaliar as situações em que são apresentadas as habilidades sociais e os problemas de comportamento, pois apesar de os Grupos diferenciarem-se quanto à apresentação ou não de indicativos de problemas de comportamento, as situações relatadas pelas mães de ambos os Grupos foram, de forma geral, bastante semelhante, o que evidencia que tais circunstâncias sejam freqüentes nas interações entre pais-filhos em idade pré-escolar. Conforme afirma Matos (1983), a investigação das situações, juntamente com as conseqüências, permite a realização de uma análise mais proximal, isto é, possibilita descrever com mais minúcia as contingências que mantêm os comportamentos problema e as habilidades sociais, contribuindo, então, com a elaboração de hipóteses para análises funcionais comportamentais descritivas (Sturmey, 1996). Além do mais, tais situações podem servir para delineamentos de pesquisas que utilizam observações estruturadas, seja para identificar semelhanças e diferenças entre Grupos não clínico e clínico, bem como podem ser usadas para alertar os pais e professores em contexto de intervenção.

Ao comparar os relatos das mães dos Grupos não clínico e clínico quanto aos comportamentos maternos frente às habilidades sociais dos filhos, nota-se que as mães das crianças sem problemas de comportamento relataram apresentar com mais freqüência, Habilidades Sociais Educativas Parentais de expressão de sentimentos e enfrentamento e Comunicação; por outro lado, seus filhos apresentaram Comportamentos Habilidosos, em comparação com as mães e com as crianças do Grupo clínico. Vários estudos (Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva, 2003; Ferreira & Marturano, 2002; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000) também demonstraram que pais de crianças sem indicativos de problemas de comportamento apresentavam mais Habilidades Sociais Educativas Parentais que pais de crianças com indicativos de problemas de comportamento. Esses, por sua vez, apresentavam mais práticas educativas tidas como negativas.

Vale destacar que as mães do Grupo clínico relataram também apresentar, ainda que com menos freqüência que as mães do Grupo não clínico, Habilidades Sociais Educativas Parentais e os filhos, da mesma maneira, segundo as falas das mães, reagiam de forma socialmente habilidosa, o que corrobora com os resultados de outras pesquisas (Bolsoni-Silva, 2003; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000). Portanto, parece pertinente avaliar todo o repertório comportamental das crianças e dos pais (Goldiamond, 2002/1974), uma vez que é possível verificar a existência de reservas comportamentais (Kanfer & Saslow, 1976) em pais e em crianças com indicativos de problemas de comportamento, as quais podem ser utilizadas em programas de intervenção.

Este estudo corroborou os resultados obtidos em outras pesquisas (Alvarenga & Piccinini, 2001; Bolsoni-Silva, 2003; Ferreira & Marturano, 2002; Parreira & Marturano, 1998; Silva, 2000) que evidenciam que pais de crianças com problemas de comportamento utilizam com mais freqüência Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas (tais como agredir de forma verbal ou fisicamente e fazer ameaças) frente aos comportamentos problema dos filhos, contribuindo, por sua vez, com o surgimento e com a manutenção dos mesmos (Patterson et al., 2002/1992).

Entretanto, ainda que as mães do Grupo não clínico tenham indicado menos problemas de comportamento nos filhos em comparação com as mães do Grupo clínico, quando os filhos ficavam mal humorados e nervosos, agitados, irritados e desobedeciam, elas também relataram apresentar Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas. Bolsoni-Silva (2003) e Silva (2000) também encontraram que as mães de crianças com e sem problemas de comportamento tinham dificuldades em estabelecer limites, uma vez que utilizavam Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas diante dos problemas de comportamento dos filhos, o que novamente justifica trabalhos de natureza preventiva, de forma a orientar os pais para evitar problemas de comportamento futuros.

A partir da descrição das situações em que os filhos apresentavam as habilidades sociais e os problemas de comportamento, bem como dos comportamentos das mães e dos filhos, foi possível obter medidas mais proximais do ambiente e, então, inferir sobre algumas classes de respostas e sobre algumas hipóteses para análises funcionais comportamentais descritivas (Sturmey, 1996) acerca das contingências que envolvem as HSE-P, as habilidades sociais e os problemas de comportamento dos filhos, o que é apresentado a seguir.

As análises das entrevistas sugerem que as HSE-P Expressão de sentimentos e enfrentamento e Comunicação das mães do Grupo não clínico parecem ter a função de controlar os comportamentos dos filhos, obter afeto e atenção dos mesmos; essas HSE-P sugerem reforçar positivamente as habilidades sociais dos filhos. O comportamento dos filhos, na mesma direção, também parece reforçar positivamente essas habilidades parentais, já que foram, na maioria das vezes, socialmente habilidosas. Essas hipóteses podem explicar, ao menos em parte, a alta freqüência das habilidades sociais infantis e das HSE-P das crianças e das mães do Grupo não clínico em relação ao Grupo clínico. Parece, pois, que as mães do Grupo não clínico estabeleciam, com bastante freqüência, momentos de interação positiva com os filhos onde, então, havia a possibilidade dos filhos apresentarem as habilidades sociais e as mães consequenciarem positivamente as mesmas.

Verificou-se, através dos relatos das mães, que, na maioria das vezes, as crianças do Grupo clínico apresentavam os problemas de comportamento em situações em que eram contrariadas, possivelmente para contracontrolar os comportamentos das mães, obter afeto e atenção. Nesses momentos, as mães relataram apresentar, na maior parte das vezes, Práticas Educativas Não-Habilidosas Ativas. As mães do Grupo clínico ofereciam, então, modelos agressivos, não ensinavam aos filhos outras formas socialmente mais habilidosas de se comportarem e, conseqüentemente, dificultavam a aprendizagem das habilidades sociais, além de contribuírem para a alta freqüência dos problemas de comportamento dos filhos. Desta maneira, diferentemente do Grupo não clínico, as mães das crianças com indicativos de problemas de comportamento parecem proporcionar poucos momentos de interação positiva com os filhos, o que dificulta o reforçamento positivo, pelas mães, das habilidades sociais dos filhos, os quais possivelmente apresentavam os problemas de comportamento como forma de ter atenção e afeto das mães. Assim sendo, parece que o diferencial entre os Grupos (não clínico e clínico) refere-se aos momentos de interação positiva e à freqüência com que as práticas negativas são utilizadas pelas mães para estabelecer limites, o que concorda com estudos prévios (Bolsoni-Silva, 2003; Silva, 2000). Portanto, as habilidades sociais infantis e as HSE-P poderiam ser o foco de intervenções com grupos de pais e de crianças, de modo a serem ampliados no repertório comportamental desses, substituindo funcionalmente os problemas de comportamento e as práticas educativas negativas.

 

 

Considerações Finais

O presente estudo teve limitações, dentre as quais podemos destacar que as hipóteses para as análises funcionais comportamentais descritivas (Sturmey, 1996) foram obtidas através dos relatos das mães sobre os seus comportamentos e sobre os comportamentos dos seus filhos. Estudos indicam que mães e pais podem apresentar diferenças quantos às suas práticas e estilos parentais (Costa, Teixeira, & Gomes, 2000; Pacheco et al., 2008; Silva, 2000; Tudge et al., 2000). Deste modo, seria importante que estudos futuros coletassem dados tanto com as mães, quanto com os pais, e realizassem observação natural ou experimental dos comportamentos investigados na pesquisa para que possam ser formuladas explicações mais conclusivas.

Entretanto, cabe ressaltar que as pesquisas sobre práticas educativas parentais, descritas no presente estudo, valeram-se de dados obtidos através de entrevistas, o que demonstra que essa forma de obtenção de dados tem sido amplamente utilizada no contexto nacional. Além disso, há autores da Análise do Comportamento (tais como Goldiamond, 2002/1974, Kanfer & Saslow, 1976 e Sturmey, 1996) que utilizam entrevistas, o que respalda o uso desse tipo instrumento. Apesar das limitações, a pesquisa procurou avançar nos aspectos metodológicos de outros estudos (tais como Alvarenga & Piccinini, 2001, Parreira & Marturano, 1998 e Silva, 2000), pois avaliou todos os contextos das habilidades sociais e dos problemas de comportamento, relacionando com as HSE-P. Foi também dado destaque não apenas aos problemas de comportamento das crianças com indicativos clínicos, mas também foi analisado o seu repertório comportamental socialmente habilidoso.

 

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Notas

1. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, com protocolo nº 1175/46/01/06.

 

 

Recebido em 24.abr.08
Revisado em 15.mar.10
Aceito em 19.mar.10

 

 

Vanessa Barbosa Romera Leme, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Universidade Estadual Paulista-Bauru, é doutoranda em Ciências (área Psicologia) na pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - FFCLRP-USP. Endereço para correspondência: Rua Péricles Vieira da Mota, 1005, apto. 202, Santa Mônica. CEP: 38408-220 - Uberlândia - MG. Tel: (34) 3215-8440. E-mail: vanessaromera@gmail.com
Alessandra Turini Bolsoni-Silva, pós-doutora pela Faculdade de Medicina pela Universidade de São Paulo-Ribeirão Preto, e doutora em Ciências (área Psicologia) pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - FFCLRP-USP, é professora Assistente Doutor da Universidade Estadual Paulista-Bauru. E-mail: bolsoni@fc.unesp.br

 

 


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