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Estudos de Psicologia (Natal)

Print version ISSN 1413-294X

Estud. psicol. (Natal) vol.16 no.3 Natal Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2011000300008 

ARTIGOS

 

Estilo parental de origem e ansiedade em homens com histórico de agressão à parceira

 

Parental style in families of origin and anxiety among batterers

 

 

Ricardo da Costa PadovaniI; Lúcia Cavalcanti de Albuquerque WilliamsII

IUniversidade Federal de São Paulo
IIUniversidade Federal de São Carlos

 

 


RESUMO

O presente estudo investigou o estilo parental da família de origem do agressor conjugal e o nível de ansiedade de tal homem, comparando-os com dados de homens não agressores de idade, nível sócio-econômico, escolaridade e estado civil semelhantes. A amostra foi constituída por 20 agressores conjugais e 20 não agressores. Os instrumentos utilizados foram: Roteiro de Entrevista Individual Semi-Estruturada da Família de Origem do Agressor, Inventário de Estilos Parentais e o Inventário de Ansiedade Beck (BAI). Os grupos não se diferenciaram estatisticamente no que se refere à idade, escolaridade, renda e estado civil. Os grupos se diferiram estatisticamente nas duas variáveis analisadas: estilo parental de origem e ansiedade. Pode-se sugerir que a ansiedade, quando combinada com práticas parentais inapropriadas na família de origem, contribua para a agressão do parceiro íntimo. Futuros estudos com amostras maiores poderiam fortalecer tal relação.

Palavras-chave: violência contra a mulher; agressor conjugal; violência entre parceiros íntimos; estilo parental; ansiedade.


ABSTRACT

The present study was aimed at investigating male batterers' family of origin's parental style, and its relationship with anxiety symptoms in such men, by comparing these variables with men without a history of domestic violence with similar age, socio-economic status, education and marital status. A sample of 20 batterers and 20 men without a violence history was utilized. The instruments in Portuguese included: a Batterer's Family of Origin Semi-Structured Interview, The Parental Style Inventory, and the Beck Anxiety Inventory (BAI). Both groups did not differ statistically in regards to age, socio-economic status, education and marital status. However, the groups were statistically different in terms of the variables family of origin's parental style and anxiety. It is suggested that anxiety, combined with family of origin's inappropriate parenting, may contribute to intimate partner violence. Future studies could further investigate this possibility using larger samples.

Keywords: violence against women; batterer; intimate partner violence; parental style; anxiety.


 

 

A violência contra a mulher é um fenômeno complexo que desconhece fronteiras de classe social, cultura, nível de desenvolvimento econômico, e que pode ocorrer tanto no domínio íntimo do lar como no domínio público, sendo considerado um problema de Saúde Pública Mundial (Lamoglia & Minayo, 2009; Williams, Padovani, & Brino, 2009). A literatura sobre famílias com alta frequência de conflitos familiares assinala efeitos negativos de tais conflitos violentos para o desenvolvimento da criança (Guille, 2004; Holt, Buckley, & Whelan, 2008; Williams, Padovani, & Brino, 2009). Crianças que testemunham a violência conjugal tendem a experienciar problemas cognitivos, emocionais e comportamentais, comprometendo seu ajustamento psicossocial. Infelizmente, ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos e Canadá, nos quais se observam investimentos expressivos em programas voltados ao atendimento de vítimas e agressores conjugais (Chamberland, Fortin, Turgeon, & Laporte, 2007; Hamberger, 2008), no Brasil há poucos serviços públicos especializados no atendimento ao agressor conjugal.

A literatura psicológica sobre agressores conjugais revela tratar-se de um grupo heterogêneo, variando em diferentes dimensões e modalidades (Foran & O'Leary, 2008; Holtzworth-Munroe & Meehan, 2004; Padovani & Williams, 2009). No entanto, algumas características apresentam-se comuns entre agressores, a saber: crenças estereotipadas de papéis de gênero, negação e/ou minimização do ato de violência direcionada à parceira, externalização da culpa e baixa tolerância quanto a discussões de ordem íntima. Como fatores de risco, pode-se ressaltar o histórico de abuso em suas famílias de origem, problemas com abuso de substâncias, dependência emocional extrema da parceira e ciúme excessivo (Cortez, Padovani, & Williams, 2005; Foran & O'Leary, 2008; Holtzworth-Munroe & Meehan, 2004; Padovani & Williams, 2009).

Dentre os fatores de risco mencionados, o histórico de violência na família de origem dos agressores merece especial atenção. Ao realizarem um estudo documental (n = 351 registros), a partir das fichas de atendimento do setor de Psicologia na Delegacia de Defesa da Mulher na região metropolitana de Porto Alegre, relativas ao período de 2006 a 2008, Gadoni-Costa, Zucatti e Dell'Aglio (2011), constataram que 57% dos agressores e 47% das mulheres agredidas apresentaram histórico de violência na família de origem, bem como foi encontrada uma associação significativa entre ter família com histórico de violência e ter parceiro com histórico de violência (p < 0,001). Esses resultados corroboram achados consolidados na literatura (O'Leary, Slep, & O' Leary, 2007; Padovani & Williams, 2002, 2009; Sinclair, 1985). Paralelamente, Guille (2004) ressalta a importância de se considerar o perfil do homem que agride a parceira de ordem íntima enquanto pai, uma vez que as características de tal perfil podem afetar suas habilidades parentais. Na medida em que agressores aceitam a responsabilidade de seus atos de violência e demonstram empatia por sua parceira e pelos filhos ou negam o impacto da sua violência e evitam qualquer entendimento de seus efeitos, haverá consequências óbvias para a transmissão intergeracional da violência. 

Cabe destacar que o número de estudos que investigam as características do estilo parental – sejam atuais ou na família de origem - é reduzido. Foi realizada, no presente estudo, uma revisão da literatura da área em artigos indexados nas bases de dados Bireme, Scielo, PubMed, no período de 2006 a 2011, com os descritores parental style, man, violence, intimate partner violence, batterer, aggression, anxiety e seus equivalente em português, não sendo encontrados quaisquer artigos, tanto na literatura nacional quanto na internacional. Ampliando a busca para estilo parental e violência foram localizados 123 artigos, dos quais três (Bennetti, Pizetta, Schwartz, Hass, & Melo, 2010; Rodrigues, 2006, 2010) abordaram a temática do estilo parental e sua relação com maus tratos infantis, porém sem se reportarem ao estudo de agressores conjugais.

Cabe mencionar, entretanto, um estudo brasileiro não publicado (Lopez, 2006). Ao analisar as práticas educativas utilizadas e a qualidade de seu relacionamento com os filhos de oito agressores conjugais denunciados na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), com filhos de 5 a 18 anos de idade, Lopez (2006) observou a ocorrência de episódios de violência física na família de origem de três de oito participantes. Em relação às práticas parentais, o autor encontrou dois participantes com estilo parental "regular, acima da média", dois com estilo "regular, abaixo da média" e quatro com estilo parental de "risco". O estilo parental "regular" indica predominância de práticas parentais positivas, recomendando-se a orientação e treinamento a pais quando abaixo da média. O estilo parental de risco, por sua vez, é indicativo de práticas parentais negativas que sobrepõem e neutralizam as positivas, recomendando-se a inserção em programas de intervenção sistemáticos (Gomide, 2006). Há que se mencionar as limitações do estudo de Lopez (2006), tais como o número restrito de participantes e ausência de coleta de dados com outros informantes (mulheres e filhos).

Bandura (1973) foi pioneiro ao apresentar um modelo explicativo para a violência em sua teoria da aprendizagem social, mostrando que a aprendizagem por modelos pode atuar no processo de modelação do comportamento agressivo. As pessoas aprendem padrões de pensamentos e comportamentos segundo exemplos funcionais de outras pessoas com quem convivem. Portanto, tem sido observado que viver em um ambiente familiar marcado por agressões, constitui um fator de risco para a modelação de comportamentos agressivos de crianças e adolescentes que futuramente podem vir a agredir a parceira (Hamberger, 2008; Holtzworth-Munroe & Meehan, 2004; Padovani & Williams, 2002). Entretanto, quando não se observa um histórico de violência na família de origem, que outras variáveis familiares poderiam favorecer a emergência do comportamento agressivo do homem à parceira de ordem íntima?

Buscando responder tal questionamento, foi levantada no presente estudo a hipótese de que o estilo parental ansioso na família de origem é um possível caminho para o entendimento desse fenômeno. Supõe-se que na busca de "proteger" os filhos de todo o perigo e ameaça, pais ansiosos utilizam-se de práticas de cuidado e controle em excesso ou mesmo de modo inconsistente, impedindo que seus filhos desenvolvam atividades que os tornem independentes e autônomos. Assim sendo, favorecem um funcionamento emocional imaturo, tal como descrito por diversos autores que estudam a ansiedade, ainda que não sob o prisma da violência (Gallagher & Cartwright-Hatton, 2008; Marano, 2008; Wood, 2006; Wood, McLeod, Sigman, Hwang, & Chu, 2003).

Paralelamente, a literatura tem apontado como importante fator de risco associado à violência íntima do parceiro a presença de uma visão rígida e estereotipada de gênero e crença na inferioridade e submissão da mulher (Saffioti, 1987). Assim, questiona-se até que ponto um estilo parental ansioso, embora não violento, possa contribuir para o surgimento da violência íntima do parceiro em famílias que apresentem uma cultura patriarcal ou excessivamente "machista".

Tendo em vista as questões abertas sobre os determinantes do comportamento violento do agressor conjugal e a importância das práticas parentais, o presente estudo pretende investigar o estilo parental da família de origem do agressor conjugal e o nível de ansiedade de tal homem, comparando-os com dados de homens não agressores de idade, nível sócio-econômico, escolaridade e estado civil semelhantes.

 

Método

Participantes

Participaram do estudo 40 homens adultos, sendo 20 com histórico de agressão à parceira e 20 não agressores, com aproximadamente a mesma idade, renda, nível educacional e estado civil.

Triagem dos Participantes

Agressor (Grupo A).  Com a anuência do Juiz, o primeiro autor acompanhou sistematicamente as audiências no Fórum envolvendo casos de Lesão Corporal Dolosa (LCD) de mulheres para, ao final das mesmas, apresentar o projeto e propor a participação do parceiro. Paralelamente, procedimento semelhante foi desenvolvido na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), com a anuência da Delegada responsável. Adicionalmente, o pesquisador divulgou a pesquisa em uma clínica particular. Os interessados em participar da pesquisa agendavam horário para realização da entrevista. Em síntese, dos 20 participantes da amostra, 5 participantes foram contatados no Fórum, 5 na DDM e 10 em consultório particular. 

Não agressor (Grupo NA).  Para recrutar os participantes não agressores, o pesquisador solicitou que cada participante agressor indicasse um colega para participar da pesquisa, com semelhança de idade, escolaridade, nível sócio-econômico e estado civil, porém sem histórico de agressão física à parceira. Metade da amostra foi indicada por participantes agressores (Grupo A). Dois participantes indicados apresentavam histórico de violência psicológica e foram alocados no grupo de agressores.

Local da pesquisa

A coleta de dados, para os participantes agressores, foi realizada na Unidade Saúde Escola (Ambulatório de Saúde da Universidade), na Delegacia de Defesa da Mulher de uma cidade de porte médio do interior do Estado de São Paulo e em uma sala de clínica particular de Psicologia, localizada em uma cidade próxima com o mesmo porte da primeira. Com os participantes não agressores, a coleta foi realizada na referida clínica.

Instrumentos utilizados na coleta de dados: 

Roteiro de Entrevista Individual Semi-Estruturada da Família de Origem. Adaptado de Williams (2010). Tal roteiro coletou dados pessoais e informações sobre histórico de maus tratos infantis, histórico de violência contra a parceira, relacionamento com a mesma e relacionamento com os filhos.

Inventário de Estilos Parentais - IEP (Gomide, 2006).  O IEP contém 42 questões que correspondem a sete práticas educativas maternas e paternas, sendo duas práticas educativas positivas (monitoria positiva e comportamento moral) e cinco práticas educativas negativas (negligência, abuso físico e psicológico, disciplina relaxada, punição inconsciente e monitoria excessiva). O participante respondeu a uma escala referente ao estilo parental de sua genitora e outra escala referente ao seu genitor, de modo retrospectivo, ou seja, quais práticas parentais os genitores costumavam empregar na infância ou adolescência do participante. 

Inventário de Ansiedade Beck (BAI) (Cunha, 2001).  O inventário é constituído por 21 itens que investigam sintomas comuns de ansiedade, avaliados pelo participante com referência a si mesmo.

Procedimento

Os instrumentos foram aplicados individualmente na sequência apresentada anteriormente em uma única sessão, com duração média de 70 minutos, sendo o horário e o local agendado de acordo com a disponibilidade do participante. Finalizada a coleta de dados, foi realizada uma sessão para realizar a devolutiva com possíveis encaminhamentos. Após a fase de coleta de dados, foi disponibilizada aos participantes agressores, a possibilidade de iniciarem atendimento psicológico com membros da equipe do laboratório.

Considerações Éticas

O projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos de uma instituição de ensino público e recebeu parecer favorável (Parecer Nº. 465/2008). Os parâmetros éticos para investigações envolvendo seres humanos, especialmente a Resolução nº. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, foram rigorosamente respeitados.

Análise de dados

Foi realizada análise descritiva dos dados, composta por medidas-resumo em cada grupo quanto às variáveis estudadas. Para verificar a existência de diferença entre os grupos quanto à renda, à escolaridade, à idade, ao estilo parental de origem e à ansiedade, foi empregado o teste t de Student para amostras não relacionadas, após a verificação de normalidade (Teste de Shapiro-Wilk). Para verificar a existência de diferença entre os grupos quanto ao estado civil dos participantes foi utilizado o teste exato de Fisher (Zar, 1984). As informações decorrentes do Roteiro de Entrevista Individual Semi-Estruturada da Família de Origem foram utilizadas para caracterizar os participantes.

 

Resultados

Caracterização dos participantes

Ao comparar as médias das variáveis: idade, escolaridade e renda para amostras de agressores e não agressores, segundo a Tabela 1, verificou-se que os grupos não se diferiram (p = 0,414; p = 0,803 e p = 0,565, respectivamente). No que se refere ao estado civil dos participantes, os grupos (agressores e não agressores) também não se diferiram estatisticamente quando se agrupou o número de casados com viver em união estável (p = 0,124).

 

 

Dois participantes agressores declararam estar solteiros, seis separados, sete casados, enquanto cinco viviam em regime de união estável. Entre os participantes não agressores, quatro participantes declararam-se solteiros, um separado, onze casados e quatro vivendo em regime de união estável. Ao serem questionados sobre o uso de substâncias psicoativas ilícitas, 40% da amostra de agressores declararam uso (atual ou no passado); no grupo de não agressores não houve relato de uso de tais substâncias. Quanto à formalização da denúncia na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), metade da amostra do grupo de agressores relatou que a parceira formalizou a denúncia na DDM.

Histórico de maus-tratos infantis

Ao se investigar o histórico de maus tratos infantis com base nos dados fornecidos nas entrevistas, verificou-se a presença de tal variável em 90% entre agressores (A) e 45% entre não agressores (NA), sendo o pai o agressor mais frequente entre os agressores e a mãe entre os não agressores. Dentre as categorias de maus-tratos infantis relatadas pelos participantes agressores (A) destacam-se: uso de vara, puxão de orelha, uso de pedaço de pau como formas de violência física praticada pela mãe. Nas situações nas quais o pai se apresentou como autor, merece destaque, pela gravidade, o bater com relho trançado e depois jogar salmoura, o chute, o deixar ajoelhado no milho e agredir a criança com toalha molhada. Entre os não agressores, as agressões físicas mais graves foram cometidas pelo genitor, como por exemplo, o uso de cinta, corrente e pedaço de pau, chute, tapa no rosto, cinta e correia. Em contrapartida, as formas de violência física comumente empregada pelas mães para tal grupo foram o uso do chinelo e da cinta, sendo que apenas em uma ocasião para um participante registrou-se o uso de vara.

Quando questionados sobre agressões do pai à mãe, nove participantes do Grupo A destacaram que suas mães foram vítimas de agressão na relação conjugal, enquanto que no grupo de não agressores, três responderam afirmativamente. Dentre as modalidades de agressão do pai à mãe, os participantes agressores destacaram: xingamentos, empurrões, tapas, chineladas, socos, chutes, agressão com rodinho, correr atrás da parceira com facão e ameaça de morte. Os participantes não agressores, por sua vez, verbalizaram como modalidades de agressão à mãe: xingamento, tapa, soco, chute, puxão de cabelo, soco e agressão com pedaço de pau.

Apenas dois participantes entre os agressores relataram não ter histórico de violência (seja por vitimização por maus-tratos ou por testemunhar violência do pai contra a mãe), ao passo que no grupo B houve 11 participantes sem qualquer tipo de histórico de agressão. Os dois participantes do Grupo A que não apresentaram histórico de violência, como os demais do mesmo grupo, revelaram durante a entrevista crenças enraizadas sobre gênero e ansiedade elevada, sendo que os resultados do grupo quanto a essa última variável serão apresentados a seguir. Em síntese, no grupo de agressores, 18 relataram histórico de maus-tratos infantis e 9 mencionaram episódios de exposição à violência do pai contra a mãe, enquanto que no grupo de não agressores, 9 relataram histórico de maus tratos infantis, sendo que deste grupo, dois afirmaram que foram expostos à violência do pai contra a mãe e um exclusivamente a episódios de violência do pai à mãe.

Desempenho no inventário de estilo parental e inventário de ansiedade

Os dados da Tabela 2 mostram que, entre o grupo de agressores, os escores de ansiedade são mais elevados do que o grupo de não agressores. Adicionalmente, os escores dos estilos parentais de origem (materno e paterno) são negativos para o grupo de agressores e positivos para os não agressores. As variáveis ansiedade e estilo parental não apresentaram desvios da suposição de normalidade (p > 0,05, teste de Shapiro Wilk). Ao comparar agressores e não agressores quanto às variáveis ansiedade e estilo parental de origem, por meio do teste t- Student (após a constatação de normalidade) verificou-se: BAI, p = 0,001; IEP Materno, p = 0,002; IEP paterno, p = 0,001. Portanto, pode-se afirmar que os grupos diferiram quanto às variáveis analisadas (ansiedade e estilo parental).

 

 

Discussão

A análise dos dados mostrou que os grupos (A e NA) não se diferenciaram estatisticamente no que se refere à idade, escolaridade, renda e estado civil. A constatação de que o uso de substâncias psicoativas ilícitas apresentou-se como uma característica exclusiva dos participantes agressores (aproximadamente 40% da amostra) chama a atenção. O uso de tais substâncias, conforme dados da literatura, além de se apresentar como um fator de risco para emissão de comportamentos agressivos está associado ao aumento da severidade dos episódios de violência direcionada à parceira de ordem íntima (Foran & O'Leary, 2008; Gadoni-Costa, Zucatti, & Dell'Aglio, 2011; Vieira, Perdona, & Santos, 2011). Os dados permitem concluir que um processo de intervenção eficaz no manejo do comportamento violento deve envolver, nos casos em que os usuários indicarem uso abusivo ou dependente de substâncias psicoativas, uma intervenção paralela para o manejo do comportamento adicto. Cabe lembrar ainda que, o estudo desenvolvido por Eiden, Molnar, Colder, Edwards e Leonard (2009), entre outras conclusões, apontou o impacto do abuso de substâncias alcoólicas nos indíces de violência intrafamiliar, bem como na emergência de sintomas ansiosos e depressivos em filhos de agressores conjugais, reforçando a necessidade de intervenções específicas para o uso e abuso de substâncias entre esses agressores. Quanto à agressão contra a parceira, é interessante observar que apesar de todos os participantes relatarem comportamentos passíveis de terem sido denunciados por suas parceiras, apenas metade relatou que foram denunciados formalmente na Delegacia de Defesa da Mulher. Talvez com uma aplicação mais efetiva da Lei Maria da Penha (Dias, 2010), tal situação torne-se menos comum com o passar do tempo.

A diferença estatística entre escores de ansiedade e estilo parental de origem nos dois grupos analisados sugere que ambas variáveis se mostram relevantes na compreensão do fenômeno da violência praticada contra a parceira de ordem íntima. Deve-se registrar, ainda, que o instrumento empregado, no presente estudo, para mensurar ansiedade (BAI) avalia os sintomas experimentados durante a última semana, portanto, o estado atual. Feita a devida ressalva, o presente estudo pressupõe que altos índices de ansiedade dos pais de origem, combinados com práticas parentais inapropriadas, como por exemplo, a negligência, a punição inconsistente, cuidado e controle em excesso, podem prejudicar o desenvolvimento da autonomia e independência da criança e adolescente, favorecendo a emissão futura de comportamentos impulsivos e/ou agressivos diante de situações nas quais suas necessidades ou desejos não são satisfeitos.

O dobro de ocorrências de histórico de maus-tratos infantis entre os agressores, com predominância do estilo parental de risco, merece destaque. É constatação sólida na literatura nacional e estrangeira que viver em um ambiente no qual a criança constantemente observa o uso de modelos de violência, cria condições para a modelagem do referido comportamento via observação (Bandura, 1973; Sinclair, 1985; Stelko-Pereira & Williams, 2010).

Entretanto, a interpretação do resultado de que dois participantes agressores indicaram ausência de histórico de maus-tratos infantis por agressões paternas ou maternas ou exposição à violência conjugal na família de origem, ainda que seja um número comparativamente restrito de ocorrências, é mais difícil. Sobre isso, hipotetiza-se no presente estudo que diante da presença de padrões de interação caracterizados pela ansiedade excessiva do pai e/ou da mãe na respectiva família de origem, associada a uma prática cultural patriarcal que reafirma a crença no privilégio masculino e em papéis rígidos de gênero, criam-se condições favoráveis para o desenvolvimento de um estilo parental permissivo e inconsistente na relação com o filho do sexo masculino, superprotegendo-o e impedindo-o que entre em contato com as contingências reais do ambiente.

O não contato com as contingências pode favorecer o desenvolvimento do senso de baixa resistência à frustração, o que por sua vez aumentaria a possibilidade de emissão de comportamentos agressivos. Tendo em vista o impacto de tal dinâmica familiar no processo de desenvolvimento da criança e adolescente, esse indivíduo, que agora é homem, poderá vir a agredir sua parceira diante de uma situação em que ela o frustre, ameace deixá-lo ou pratique atos de independência. À medida que esse homem não tem suas necessidades atendidas, há um aumento da ansiedade e ele poderá fazer uso da violência como forma de impedir o contato com a frustração e coibir a ansiedade exacerbada. Tais hipóteses, ainda, têm caráter especulativo e deveriam ser testadas em pesquisas futuras, com amostras mais expressivas.

 

Considerações Finais

O presente estudo buscou responder a uma lacuna na literatura no que se refere ao estilo parental da família de origem do homem que agride sua parceira. Na busca de ampliar o entendimento do comportamento agressivo do homem contra a parceira de ordem íntima, o presente estudo pretendeu levantar a questão de que padrões de ansiedade dos genitores, combinados com práticas educativas parentais inapropriadas e crenças sobre o privilégio masculino podem contribuir para a emergência de comportamentos agressivos da parceria de ordem íntima no futuro.

O estudo, entretanto, apresenta algumas limitações que merecem ser elencadas: número reduzido da amostra de ambos os grupos, amostra composta por agressores denunciados e não denunciados, o que pode implicar em uma percepção diferenciada da agressão direcionada à parceira de ordem íntima, bem como influenciar diferencialmente o estado de ansiedade do participante. Adicionalmente, a ansiedade aqui investigada foi relativa ao estado (mensuração do nível atual) e não ao traço. Assim, a replicação do estudo com amostras maiores e a utilização de medidas de ansiedade enquanto estado e traço (como o Inventário de Ansiedade Traço-Estado de Spielberger, Gorsuch e Lushene, 2003), seriam pertinentes.

Apesar das limitações apontadas, deve-se ressaltar que a investigação de comportamentos violentos direcionados à parceira de ordem íntima é uma área ainda pouca explorada no Brasil. Adicionalmente, cabe enfatizar que acessar participantes com histórico de agressão à parceira de ordem íntima configura-se como um obstáculo adicional à realização do estudo, por tratar-se de um fenômeno na maioria das vezes velado, sendo sua revelação motivo de desconforto para o participante. Deve-se ressaltar que as parceiras estabelecidas com a Delegacia de Defesa da Mulher e com o Fórum Criminal foram de fundamental importância para o desenvolvimento do estudo. Apesar das limitações e dificuldades, o estudo foi capaz de discriminar populações de agressores e não agressores no que se refere ao estilo parental de origem e à ansiedade.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao CNPq pelo financiamento da pesquisa, aos participantes e a todos que, de forma direta ou indireta, contribuíram para que esta pesquisa se realizasse.

 

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Recebido em 22.abr.10
Revisado em 16.ago.11
Aceito em 20.dez.11

 

 

Ricardo da Costa Padovani, doutor em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos e pós-doutor CNPq pela Universidade Federal de São Carlos (Bolsa CNPq), é professor Adjunto do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo - Campus Baixada Santista. Endereço para correspondência: Departamento de Saúde, Educação e Sociedade. Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista. Avenida D. Ana Costa, 95, 1º. Andar, Vila Mathias, Santos-SP. CEP: 11060-001. Telefone: (13)3878-3700, E-mail: ricardopadovani@yahoo.com.br
Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams, doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Universidade de Toronto (Canadá), é professora Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, e Coordenadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (LAPREV) do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, E-mail: williams@ufscar.br