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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.18 no.4 Natal Oct./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2013000400009 

Uso de automóveis e qualidade de vida urbana: desafios para a psicologia

 

 

Ingrid Luiza NetoI; Zuleide de Oliveira FeitosaII; Fabio Henrique Vieira de CristoIII; Clara Brasiliana CantalIV; Hartmut GüntherV

IUniversidade de Brasília
IISeminário Presbiteriano de Brasília -Mackenzie
IIICentro Universitário de Brasília e Instituto de Educação Superior de Brasília
IVUniversidade Victoria de Wellington, Nova Zelândia
VInstituto de Psicologia da Universidade de Brasília

 

 

Nesse artigo, apresentamos uma resenha do livro Threats from car traffic to the quality of urban life: Problems, causes, and solutions1 (Gärling & Steg, 2007), que se propõe a discutir as causas e os impactos decorrentes do uso do automóvel e indicar estratégias para minimizar os efeitos negativos desse comportamento. A obra enfatiza que o aumento do uso de veículos motorizados é um dos grandes responsáveis por problemas ambientais globais, impactando negativamente a qualidade de vida urbana e que, para minimizar esses impactos, faz-se necessário compreender os aspectos que contribuem para a manutenção desse comportamento. Desta forma, buscou aprofundar o conhecimento de como a psicologia tem atuado ou pode desenvolver práticas voltadas aos problemas da mobilidade, e como ela pode articular-se com outras áreas para subsidiar ou produzir intervenções interdisciplinares eficazes. A resenha aqui descrita contempla informações sobre como está organizada a obra e os temas discutidos nos 23 capítulos, além de uma análise crítica das características do livro. A obra, ainda não traduzida para a língua portuguesa, representa uma importante publicação na área de trânsito, transporte e qualidade de vida, por considerar aspectos psicológicos subjacentes ao uso do automóvel e indicar possibilidades de contribuição da psicologia para o desenvolvimento de estratégias de gerenciamento de demanda de tráfego2.

A primeira parte do livro destaca os impactos negativos do uso do automóvel, indicando os desafios para se melhorar a qualidade de vida das pessoas nos grandes centros urbanos. As consequências indicadas vão além dos acidentes de trânsito, que talvez sejam os aspectos mais pesquisados e divulgados pela mídia. Os seis capítulos inseridos nesta seção discutem que o uso excessivo do automóvel pode acarretar: (a) danos ambientais – poluição atmosférica, acidificação e degradação de edifícios históricos e monumentos; (b) danos à saúde – sedentarismo, alergias, irritações do sistema respiratório e, em alguns casos, morte por doenças cardíacas e pulmonares; (c) redução da qualidade de vida – perturbação da atenção, da comunicação interpessoal e do sono, e potencialização de respostas afetivas e emocionais das pessoas frente aos problemas do trânsito, em decorrência do barulho advindo do tráfego; (d) dificuldade para representar cognitivamente o espaço urbano – utilização restrita do espaço urbano, que pode prejudicar os processos de localização, espacialidade e compreensão da estrutura e da forma urbana; (e) redução da utilização de ambientes restauradores – diminuição do uso de espaços urbanos em que os indivíduos possam renovar suas capacidades psicológicas e fisiológicas desgastadas com as demandas cotidianas; e, finalmente, (f) aumento das externalidades – congestionamentos e elevados índices de acidentes.

Na segunda parte da obra, são apresentados alguns conceitos classicamente investigados pela psicologia social e ambiental (valores, crenças, atitudes, motivação e hábito), relacionando-os aos problemas do uso do automóvel. É a parte da obra que mais enfatiza a aplicação da psicologia na abordagem do trânsito e dos transportes, que são temas tradicionalmente estudados por outras áreas de investigação, especialmente a engenharia. É composta por sete capítulos que discutem fatores individuais e sociais que determinam e impactam o uso do automóvel, e que devem ser considerados ao se elaborar políticas de gerenciamento de demanda de tráfego: (a) padrão de atividades – ações cotidianas que as pessoas precisam realizar destinos para os quais precisam se deslocar, flexibilidade de tempo, dentre outros; (b) comportamento de viagem dos usuários – a maneira como as pessoas realizam suas atividades cotidianas, em termos de utilidade das atividades que demandam viagens, desempenho na realização da atividade e conteúdo social das viagens; (c) grau de dependência do automóvel – índice de utilização e intenção em reduzir o uso do automóvel; (d) motivação instrumental para o uso do automóvel – atribuição do uso do automóvel à necessidade de realização de atividades cotidianas; (e) outras motivações para o uso do automóvel – afetiva (vinculada à sensação de controle, liberdade e independência decorrentes do uso do automóvel) e simbólica (evidenciada pelo status atribuído ao uso do automóvel); (f) hábito de utilizar o automóvel – redução ou eliminação de qualquer deliberação sobre a escolha de modos alternativos de transporte, decorrentes da formação do hábito em usar o carro; e (g) crença em normas ecológicas – orientação pró ou anti-ambiental das pessoas.

Na terceira e última parte, nove capítulos apresentam estratégias para reduzir o uso do automóvel, em que o comportamento é considerado uma variável fundamental a ser considerada. As estratégias indicadas são: (a) desenho de formas urbanas sustentáveis – que viabilizem a redução do tempo para realizar os percursos e a disponibilização de modos de transporte mais sustentáveis que o automóvel; (b) implantação de medidas coercitivas – caracterizadas pela proibição do tráfego de automóveis em locais e horários específicos (por ex., restrição do acesso a estacionamentos e regiões centrais da cidade); (c) desenvolvimento de medidas de pricing – definição de tarifas para a utilização do automóvel conforme, por exemplo, a distância percorrida ou o horário em que é utilizado; (d) implantação de medidas não coercitivas – conscientização e aumento de informações transmitidas aos usuários por meio de estratégias de marketing individual e de campanhas educativas; (e) ações de marketing social – programas delineados para influenciar voluntariamente comportamentos específicos (por ex., uso da bicicleta e do transporte coletivo) ou uma audiência específica (por ex., funcionários de uma determinada empresa); (f) uso de sistemas inteligentes de transporte para motoristas, seja no interior do veículo (por ex., Global Position System – GPS) ou ao longo da via (por ex., painéis eletrônicos com informações sobre as condições de tráfego).

Considerando os conteúdos abordados em cada parte do livro, avalia-se que ele contempla vários problemas decorrentes do uso do automóvel, apresentando argumentos baseados em pesquisas empíricas e em relatos de intervenções governamentais. As diferentes perspectivas dos problemas, causas e soluções para o aumento da demanda pelo automóvel devem ser diagnosticadas para que sejam tomadas decisões acerca dos comportamentos a serem modificados e de quais medidas devem ser implantadas.

Além de proporcionar uma visão compreensiva dos problemas resultantes do uso do automóvel, bem como as causas desses problemas e as maneiras para administrá-los, também apresenta, ao final de cada capítulo, as limitações das pesquisas realizadas. Indica, também, teorias e métodos de investigação que abrangem a problemática da sustentabilidade nos transportes e o uso do automóvel; e aponta várias questões de pesquisa a serem exploradas, o que possibilita identificar os desafios e as limitações do que tem sido debatido no contexto internacional.

Algumas características desta obra, todavia, podem frustrar os leitores ou dificultar a sua leitura e compreensão, especialmente os menos acostumados a essas discussões, como o profissional iniciante na área. Como os textos refletem, em sua maioria, o contexto europeu e norte-americano, algumas especificidades desses países quanto ao tema discutido tornam a leitura, por vezes, complexa e de difícil compreensão, por não fazerem parte da realidade latino-americana.

A abordagem multidisciplinar, embora bastante necessária, também traz dificuldades aos leitores em determinados momentos, principalmente no que se refere ao uso de terminologias e metodologias muito específicas de cada área. Alguns conceitos e teorias apresentados não são explicados com clareza ou são difíceis de compreender de imediato, requerendo, em alguns casos, leituras complementares ao livro. Incluem-se, aqui, também alguns conceitos e teorias da psicologia que são aplicados aos problemas da mobilidade, não usados ainda, até onde sabemos, em pesquisas brasileiras, como a aceitabilidade e o hábito. A quantidade de informações dispostas em cada capítulo, embora seja uma característica positiva, traz certa sobrecarga ao leitor, uma vez que a leitura torna-se muito densa em determinados momentos. Parte dessas dificuldades está relacionada ao fato de o livro tentar oferecer um panorama geral da situação atual das pesquisas e intervenções a partir de capítulos curtos. Outra parte desses problemas pode ser atribuída, talvez, a uma suposição implícita por parte de alguns autores de que o leitor já conhece bem o assunto apresentado, o que faz com que certos aspectos não sejam detalhados.

De certa forma, tais dificuldades na leitura deste livro nos ajudaram a reconhecer que a psicologia tem muito a contribuir na resolução de problemas da área de mobilidade urbana, no sentido de intervir e trabalhar em conjunto com outras áreas, contribuindo para a produção de conhecimento técnico (teorias e métodos) e para a elaboração de políticas públicas. Igualmente, tais dificuldades reforçaram nosso entendimento da natureza interdisciplinar dos problemas da mobilidade, demonstrando como poderá ser, no futuro, o padrão do planejamento e das intervenções na área de trânsito e de transportes.

Por fim, o livro aqui apresentado e analisado pode servir como fonte de conhecimento e inspiração para o desenvolvimento de pesquisas, intervenções profissionais e políticas públicas, especialmente quando se vislumbra, a curto prazo, a ocorrência de grandes eventos que necessitam ser bem planejados e administrados do ponto de vista do transporte urbano, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, e, a médio prazo, a efetivação da recém-instituída Política Nacional de Mobilidade Urbana.

 

Referências

Gärling, T., & Steg, L. (Orgs.) (2007). Threats from car traffic to the quality of urban life: Problems, causes and solutions. Oxford: Elsevier.         [ Links ]

Victoria Transport Policy Institute (2011). Online TDM Encyclopedia. Recuperado de http://www.vtpi.org        [ Links ]

 

Notas

1. Tradução sugerida: Ameaças do tráfego de automóveis para a qualidade de vida urbana: Problemas, causas e soluções. Resenhas de cada capítulo do livro podem ser acessadas em www.portalpsitran.com.br.
2. Políticas de gerenciamento de demanda de tráfego buscam modificar o comportamento de viagem dos indivíduos, gerando eficiência nos deslocamentos e diminuição dos custos envolvidos (Victoria Transport Policy Institute, 2011).

 

 

Recebido em 04.Abr.13
Revisado em 25.Set.13
Aceito em 07.Out.13

 

 

Ingrid Luiza Neto, Mestre em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília – UnB, doutoranda em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília – UnB. Endereço para correspondência: SMPW quadra 28 conjunto 1 lote 7, Park Way. Brasília – DF, CEP: 71745-801. Email: ingridluizaneto@gmail.com
Zuleide Oliveira Feitosa, Mestre em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília – UnB, é professora no Seminário Presbiteriano de Brasília – Mackenzie. Email: zuleideoliveira@yahoo.com.br
Fabio de Cristo, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) e do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB). Email: fabiodecristo@gmail.com
Clara Cantal, Mestre em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, candidata ao título de doutorado em Psicologia pela Universidade Victoria de Wellington, Nova Zelandia. Email: claracantal@gmail.com
Hartmut Günther, Pós-Doutor pela City University of New York, Pós-Doutor pela Michigan State University, Doutor em Psicologia pela University of California at Davis, UCD, é professor titular no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília e coordenador do Laboratório de Psicologia Ambiental. Email: hartmut.gunther@me.com

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