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Brazilian Journal of Physical Therapy

versão impressa ISSN 1413-3555versão On-line ISSN 1809-9246

Rev. bras. fisioter. v.10 n.1 São Carlos  2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-35552006000100010 

ARTIGOS CIENTÍFICOS

 

Efeito da rotação do quadril na síndrome da dor femoropatelar

 

Effect of hip rotation on patellofemoral pain syndrome

 

 

Gramani-Say KI; Pulzatto FI; Santos GMI; Vassimon-Barroso VI; Siriani de Oliveira AII; Bevilaqua-Grossi DII; Monteiro-Pedro VI

ILaboratório de Avaliação e Intervenção em Ortopedia e Traumatologia, Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos,SP
IIDepartamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP

Correspondência para

 

 


RESUMO

Objetivo: A proposta desse trabalho foi investigar o efeito da rotação do quadril na atividade elétrica dos músculos Vasto Medial Oblíquo (VMO), Vasto Lateral Oblíquo (VLO) e Vasto Lateral Longo (VLL) no agachamento a 45º de flexão do joelho associado à posição neutra, rotação lateral a 45º e rotação medial a 15 e 30º de quadril.
Materiais e Método:
Foram avaliadas 27 mulheres, sendo 15 mulheres normais do grupo Controle (21,1±2,1 anos) e 12 portadoras de Síndrome da Dor Femoropatelar (SDFP) (21,0±2,3 anos). A atividade elétrica do músculo quadríceps foi captada por eletrodos ativos diferenciais simples de superfície, eletromiógrafo de 8 canais e programa Aqdados 7.2.6. Os dados foram normalizados pela porcentagem da média do agachamento a 75º com o quadril em posição neutra RMS (µV). A análise estatística utilizada foi a ANOVA two way com medidas repetidas e Turkey post hoc (p<0,05).
Resultados:
Os resultados evidenciaram interação entre grupos e músculos (p=0,00), independente da posição do quadril (p=0,39) e não houve interação entre grupos e posições do quadril (p=0,96). Os músculos VMO e VLL do grupo SDFP apresentaram atividade elétrica significativamente maior que o VMO (p=0,00) e VLL (p=0,04) do grupo controle. Por outro lado, a atividade elétrica do músculo VLO não apresentou diferença significativa entre os grupos (p=0,99).
Conclusão:
Os resultados dessa pesquisa, nas condições experimentais utilizadas, sugerem que a rotação do quadril não influenciou a atividade elétrica das porções do quadríceps nos dois grupos no agachamento a 45º de flexão do joelho.

Palavras-chave: joelho, músculo quadríceps, síndrome da dor femoropatelar, eletromiografia, dor anterior no joelho.


ABSTRACT

Objective: The purpose of this study was to evaluate the effect of hip rotation on the electrical activity of the Vastus Medialis Obliquus (VMO), Vastus Lateralis Obliquus (VLO) and Vastus Lateralis Longus (VLL) muscles when squatting with 45º knee flexion, in association with the neutral position, 45º lateral rotation and 15 and 30º medial hip rotation.
Method:
27 women were evaluated: 15 healthy women as a control group (21.1 ± 2.1 years) and 12 subjects with patellofemoral pain syndrome (PFPS) (21.0 ± 2.3 years). The electrical activity of the quadriceps muscle was detected using simple active differential surface electrodes, an eight-channel electromyography system and the Aqdados 7.2.6 software. The data were normalized by the mean squatting percentage at 75º with the hip in the neutral position RMS (µV). Two-way ANOVA with repeated measurements followed by the Tukey post hoc test (p<0.05) was used for statistical analysis.
Results:
The results revealed interaction between groups and muscles (p=0.00), independent of hip position (p=0.39), and there was no interaction between groups and hip positions (p=0.96). The VMO and VLL muscles of the PFPS group showed significantly greater electrical activity than did VMO (p=0.00) and VLL (p=0.04) muscles from the control group. On the other hand, the electrical activity of the VLO muscle did not present any significant difference between the groups (p=0.99).
Conclusion:
Under the experimental conditions utilized, the results suggested that hip rotation did not alter the electrical activity of the quadriceps portions in either group when squatting with 45º knee flexion.

Key words: knee, quadriceps muscle, patellofemoral pain syndrome, electromyography, anterior knee pain.


 

 

INTRODUÇÃO

A Síndrome da Dor Femoropatelar (SDFP) é definida como uma dor anterior ou retropatelar na ausência de outra patologia do joelho1, de etiologia multifatorial, sendo o mau-alinhamento patelar a hipótese mais freqüentemente aceita como o precursor primário de patologia da articulação Femoropatelar (FP)2. Considera-se atualmente, o mau-alinhamento do Membro Inferior, o desequilíbrio da musculatura extensora3,a insuficiência do VMO4, a fraqueza dos músculos do quadril5, a atividade excessiva, a diferença entre o início da contração muscular (onset) entre VMO e VL1 e a incongruência entre a patela e o sulco troclear femoral6 como fatores contribuintes para a origem da dor anterior no joelho.

Apesar da alta incidência, a etiologia da SDFP permanece indefinida, assim como o seu tratamento conservador3. Muitos autores têm sugerido os exercícios em Cadeia Cinética Fechada (CCF), como o agachamento e o "leg-press", por considerarem que esses exercícios reduzem a força de reação e o stress Femoropatelar7. Além disso, os exercícios realizados com o ângulo de 45º são muito utilizados na prática clínica e a sua utilização é defendida em exercícios de CCF por ser considerada uma amplitude de movimento segura para a articulação femoropatelar e por ser o ângulo de maior congruência entre a patela e o sulco troclear7,8,9.

O tratamento conservador fisioterápico da SDFP tem como objetivo promover por meio de exercícios o equilíbrio entre as porções do músculo quadríceps8,10,11, especialmente os estabilizadores patelares mediais (Vasto Medial Oblíquo (VMO) e laterais (Vasto Lateral Oblíquo (VLO) e Vasto Lateral Longo (VLL)12,13. Dessa forma, vários autores recomendam posicionamentos diferentes do membro inferior com o intuito de melhorar a atividade muscular do VMO durante os exercícios em Cadeia Cinética Aberta (CCA)10,14 e CCF no leg-press3,15 e nos exercícios de agachamento16,17. No entanto, não há um consenso sobre a eficácia dessas posições para o portador de SDFP18,19 e o saudável3,20.

O efeito da rotação do quadril na ativação do quadríceps ainda permanece controverso, uma vez que McConnel11 sugeriu o exercício de agachamento com rotação lateral de quadril (posição de plié) para o fortalecimento do VMO em indivíduos com dor por acreditar que essa posição facilitaria a ativação dessa porção muscular. Da mesma forma, Wheathley e Jahnke21 e Doucette e Goble22 afirmaram que ocorre uma ativação preferencial do Vasto Medial devido a um "stress" em valgo com a rotação lateral do quadril durante a extensão do joelho. No entanto, Lam e Ng19 relataram que a rotação medial do quadril favorece a ativação do VMO durante o agachamento em indivíduos com SDFP.

Os trabalhos que investigaram o efeito da rotação do quadril com o agachamento na ativação das porções do quadríceps, avaliaram o VMO e VLL em indivíduos com SDFP18,19 e em apenas um estudo foi verificada a atividade do VLO no agachamento no grupo SDFP assintomático23. Além disso, nenhum trabalho foi encontrado analisando o efeito da rotação do quadril nas três porções do quadríceps durante o agachamento, em indivíduos com SDFP sintomáticos e realizaram a comparação com um grupo controle.

Diante do exposto, a proposta desse trabalho foi investigar a atividade elétrica dos músculos VMO, VLL e VLO durante o exercício de agachamento isométrico "wall slide" a 45º de flexão do joelho associado à posição neutra e a rotação de quadril, a 15º e 30º em medial e a 45º em lateral, em indivíduos saudáveis e portadores de SDFP.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Sujeitos

Foram avaliadas 15 voluntárias saudáveis (21,1 ± 2,1 anos; 54.4 ± 8,6 Kg; 1,63 ± 0,06 m) e 12 portadoras de Síndrome da Dor Femoropatelar (SDFP) sintomáticas (21,0 ± 2,3 anos; 58,8 ± 6,5 Kg; 1,64 ± 0,06 m), do sexo feminino, sedentárias ou que não praticassem nenhuma atividade esportiva regularmente (mais de 2 vezes por semana). As voluntárias estudadas foram apenas do sexo feminino considerando as grandes diferenças biomecânicas entre os sexos e a maior incidência da disfunção nesse sexo6.

As voluntárias foram selecionadas por meio de uma avaliação física seguindo a ficha de Avaliação do Laboratório de Avaliação e Intervenção em Ortopedia e Traumatologia (LAIOT) e de acordo com os critérios de inclusão e exclusão do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para participação na pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

Para a inclusão no grupo de SDFP, a voluntária tinha que apresentar dor na articulação FP no último mês24 e dor, em pelo menos 3 das seguintes atividades funcionais questionadas: agachar por tempo prolongado, subir ou descer escadas, ajoelhar, correr, permanecer muito tempo sentado, na contração isométrica do músculo quadríceps e durante a prática de esporte1,25, além de apresentar dor de intensidade pelo menos 2,0cm na Escala Visual Analógica (EVA) na articulação FP na última semana24. Além disso, as voluntárias tinham que apresentar dor, registrada na EVA após a simulação de atividades como agachar a 90º e descer um degrau de 25 cm de altura por 30 segundos1,25 e apresentar pelo menos 3 dos sinais clínicos: Teste da Compressão da articulação FP; Crepitação patelar; ângulo Q superior a 16º; Pronação subtalar excessiva; Patela alta; Retração do trato iliotibial; Sensibilidade à palpação das facetas patelares; Torção tibial externa; Mau-alinhamento patelar - Patela medializada ou lateralizada; Presença de hipo ou hipermobilidade patelar e Sinal da Baioneta15,23.

As voluntárias do grupo controle não apresentavam qualquer história de doença, lesão, trauma, cirurgia ou fratura de Membro Inferior, história de dor na articulação do joelho e presença de dor na articulação FP no último mês24, e poderiam apresentar dor, em apenas duas das atividades funcionais questionadas1,25. Além disso, a voluntária saudável deveria assinalar dor 0 na EVA na última semana24 e não apresentar dor na simulação das atividades funcionais (agachar e descer um degrau de 25cm)1,25 e na palpação das facetas patelares.

Foram excluídos desse trabalho, tanto do grupo com SDFP como do controle, os indivíduos que apresentassem fratura prévia de ossos longos do Membro Inferior, cirurgia prévia no joelho, quadril ou tornozelo, subluxação patelar traumática aguda, derrame articular, lesões envolvendo as articulações de quadril ou tornozelo e dor na coluna lombar, uso de medicação e/ou fisioterapia prévia ao estudo18, além de sintomas por overuse (tendinites, bursite, ruptura articular ou tendínea) nos membros inferiores ou história de inflamação intermitente ou persistente na articulação do joelho durante 2 anos anteriores26, presença de outras lesões na articulação do joelho - meniscais, ligamentares ou capsulares e presença de doenças neurológicas18.

Instrumentação

Foi utilizado um Eletromiógrafo de 8 canais/ 12 bits de resolução (Emg System do Brasil Ltda), interfaciado com um microcomputador Pentium II e um programa para análise digital dos sinais, AqDados 7.2.6. Os sinais EMG foram coletados de forma sincrônica numa freqüência de amostragem de 2000 Hz, com filtro passa alta de 20 Hz e passa baixa de 500Hz, com ganho de 50 vezes no eletromiógrafo e um Índice de Rejeição por Modulação Comum (IRMC) maior que 100 dB.

Foram utilizados os eletrodos ativos diferenciais simples de superfície (EMG System do Brasil Ltda.) compostos por duas barras paralelas de Ag-AgCl, retangulares, cada uma com um 1 cm de comprimento, 1 mm de largura e distância de 1 cm entre si, envolvidas em uma cápsula de poliuretano contendo um microcircuito elétrico, que permitia que o sinal de EMG fosse pré-amplificado com ganho de 20 vezes para captação da atividade elétrica dos músculos. O eletrodo de referência tinha forma oval de 4,5 cm de comprimento e 3,0 cm de largura sendo utilizado para eliminar interferências externas27. Os sinais foram quantificados em RMS (Root Mean Square) e expressos em microvolts (µV).

A amplitude de flexão do joelho foi mensurada por meio de um eletrogoniômetro constituído de duas barras de madeira, cabos flexíveis de 2 metros de comprimento, fios blindados 30 AWG, com abertura de 0 a 225 graus, saída analógica de 0 a 5 V, registro do sinal na unidade real de medida (em graus) e configurável em um dos canais do módulo condicionador.

O agachamento foi realizado sobre um dispositivo plano de madeira, denominado plataforma de agachamento, de 70 cm de largura por 50 cm de profundidade. A plataforma possuía dois aparatos para os pés reguláveis para o posicionamento adequado dos pés e quadril.

Procedimentos

Antes de iniciar a avaliação eletromiográfica, cada voluntária foi orientada e familiarizada com os procedimentos do estudo e foram instruídas a realizarem, previamente a avaliação de EMG, alongamento de 1 minuto para os músculos: quadríceps femoral, isquiotibiais e tríceps sural, com supervisão da fisioterapeuta.

A seqüência dos exercícios foi aleatória, por sorteio, definindo a ordem do posicionamento do membro inferior16. Durante todo o experimento a temperatura ambiente da sala foi mantida em cerca de 23º C.

A pele da voluntária foi devidamente preparada no local da fixação dos eletrodos, sendo realizada a tricotomia, abrasão e limpeza com álcool 70%, a fim de diminuir a sua impedância. Em seguida, foi traçada uma linha que unia a espinha ilíaca anterosuperior ao centro da patela, para referência das medidas dos ângulos de inclinação das porções musculares13, sendo os eletrodos fixados paralelamente ao alinhamento das fibras e os sítios de detecção perpendiculares a estas27.

O eletrodo de captação do sinal eletromiográfico do músculo VMO foi fixado a 4 cm da borda súpero-medial da patela28, com um ângulo de 50-55º de inclinação29, para o músculo VLL, o eletrodo foi fixado a 15 cm da borda súpero-lateral da patela e com 13º de inclinação, no VLO foi fixado no ventre do músculo, entre o epicôndilo lateral e a junção miotendinosa, com inclinação de aproximadamente 50,4º 13 e o eletrodo de referência foi fixado próximo à região maleolar homolateral do membro inferior avaliado17.

A voluntária era posicionada na plataforma de agachamento para realização do exercício de "wall slide", com a região lombar apoiada numa bola suíça encostada na parede e os membros inferiores semiflexionados e afastados da parede. Foi também orientado a manter a cabeça ereta, cruzar os braços sobre o peito em direção ao ombro contra-lateral, mantendo assim um leve contato entre a bola suíça e as costas durante o agachamento. Essa postura tinha como objetivo permitir o máximo de descarga do peso corporal nos membros inferiores bilateralmente8.

A distância entre os pés foi igual à distância dos ombros do indivíduo, da borda lateral do acrômio direito até a borda lateral do acrômio esquerdo16, mensurada, por meio de fita métrica.

A voluntária flexionou lentamente o joelho até o ângulo avaliado, após o comando verbal: "Atenção! Prepare! Agache! Pare! Mantenha, Mantenha, Mantenha! Relaxe!". Ao atingir o ângulo de flexão, a voluntária já com o pé posicionado no aparato, não realizou resistência para a rotação. A voluntária foi orientada a evitar realizar um valgo de joelhos durante a execução do exercício, principalmente durante a posição do membro inferior em rotação medial.

As medidas de rotação do quadril, posição neutra, 15º e 30º de rotação medial e 45º de rotação lateral, foram realizadas antes do início do exercício para avaliação eletromiográfica, sendo demarcadas por meio de fita adesiva na plataforma.

As voluntárias eram orientadas a manter a contração por 6 segundos em todos os exercícios. Cada exercício foi repetido 3 vezes, com intervalo de 1 minuto e de 2 minutos entre as modalidades de agachamento8,18.

Normalização

Para a normalização dos dados foram realizados dois procedimentos, o primeiro foi por meio da contração isométrica voluntária máxima (CIVM) de extensão do joelho à 90º de flexão de joelho e quadril em CCA, numa mesa flexo-extensora com o indivíduo devidamente estabilizado23. O segundo procedimento foi o exercício de agachamento a 75º com o quadril na posição neutra. Os dados foram normalizados por esses dois procedimentos e foi verificado que o agachamento a 75º apresentou o menor coeficiente de variação, o que indicou a maneira mais apropriada para normalizar os dados desse estudo. Além disso, Cowan et al.1 relataram que a CIVM em CCA não é a melhor forma para normalizar os dados eletromiográficos em indivíduos que apresentam dor, como nesse estudo, já que estes sujeitos não conseguem manter a contração isométrica máxima.

A média dos valores de RMS (µV) obtida dos sinais eletromiográficos nos 3 exercícios de agachamento com associação da posição neutra e rotações medial e lateral do quadril foi dividida pelo valor da RMS da média do agachamento a 75º de flexão do joelho e rotação neutra do quadril multiplicada por 10028.

Análise Estatísticas

O método estatístico empregado foi à análise de variância (ANOVA two way) com medidas repetidas considerando os fatores: grupo, posições do quadril. No caso de diferença estatística foi realizado o teste de Tukey post hoc, considerando p<0.05.

 

RESULTADOS

Os resultados evidenciaram diferença entre os músculos (p=0,00), interação entre grupos e músculos (p=0,001) independente da posição de quadril adotada. Não foi encontrada interação entre grupos e posições do quadril (p=0,96) e não houve diferença significativa entre as posições do quadril (p=0,39).

O músculo VMO do grupo SDFP apresentou atividade elétrica significativamente maior que o músculo VMO do grupo controle (p=0,000). Da mesma forma, o músculo VLL dos indivíduos com SDFP apresentou atividade elétrica significativamente maior que o músculo VLL do grupo controle (p=0,04). Por outro lado, não houve diferença significativa entre a atividade elétrica do músculo VLO entre os dois grupos (p=0,99), independente da posição do quadril (Tabela 1).

 

 

DISCUSSÃO

Neste trabalho,o exercício em CCF de agachamento foi escolhido por ser um movimento funcional presente nas atividades da vida diária, também muito utilizado nos programas de reabilitação por proporcionar maior estabilidade por meio da co-contração do músculo quadríceps e isquiotibiais, e propriocepção articular. Além disso, a descarga de peso facilita a ação do VMO nos exercícios em CCF comparando com exercícios em CCA30.

O presente estudo indicou que a rotação do quadril não influenciou a atividade elétrica do quadríceps e não favoreceu a ativação seletiva do músculo VMO, nos dois grupos, apesar da origem dessa porção nos adutores, mais especificamente nos músculos Adutor Magno e Adutor Longo, que embora não motores primários, também são rotadores mediais do quadril e poderiam fornecer uma maior estabilização com a rotação de quadril para a contração do músculo VMO. Considerando essa mesma relação anatômica, vários autores8,23,28 verificaram que exercícios associados com adução do quadril favoreciam a atividade elétrica do VMO.

Estes resultados não concordam com os de Lam e Ng19 que verificaram a influência da posição do quadril na atividade elétrica dos músculos VMO e VL no agachamento a 40º de flexão do joelho associado à rotação medial do quadril a 30º em indivíduos com SDFP. É importante ressaltar que os autores também analisaram o agachamento a 40º de flexão do joelho associado a rotação lateral do quadril a 45º e não encontraram diferença para a atividade elétrica das porções do quadríceps nos portadores de SDFP, assim como o presente estudo. A diferença nos resultados pode estar relacionada com o nível de dor dos indivíduos com SDFP, que no estudo de Lam e Ng19 foi estipulada em pelo menos 5cm na EVA, enquanto no presente estudo foi considerado pelo menos 2cm, sugerindo que indivíduos com uma intensidade maior de dor seriam influenciados pelo posicionamento do quadril. Além disso, Lam e Ng19 não avaliaram um grupo controle.

A rotação medial do quadril não influenciou a atividade elétrica das porções do quadríceps em indivíduos com SDFP, nas duas angulações estudadas, ou seja, mesmo com a característica dos indivíduos com SDFP apresentarem um valgo do joelho em atividades de descarga de peso31, devido a falta de controle da adução e rotação interna do quadril, essa característica não foi capaz de alterar a atividade elétrica durante o agachamento no grupo SDFP. Apesar de Lam e Ng19 defenderem o agachamento com rotação medial do quadril a 30º em portadores da SDFP, acreditamos que esse ângulo de rotação promove o posicionamento em valgo do joelho, aumentando o ângulo Q dinâmico e a tendência a força lateral na patela31. Analisamos um ângulo de rotação medial menor que 30º, ou seja, de 15º, para verificarmos se também encontraríamos uma maior atividade elétrica do VMO para o grupo SDFP; entretanto, em nenhuma das angulações de rotação medial encontramos alteração da atividade do quadríceps, nos dois grupos.

Os diferentes posicionamentos do membro inferior, tanto da tíbia quanto dos pés, visando o tratamento da SDFP já foram estudados, entretanto, Ninos et al.16 não encontraram diferença significativa na atividade muscular do VMO e VL, em indivíduos normais, nos exercícios isotônicos de agachamento com a rotação dos pés. Da mesma forma, Serrão et al.3 não evidenciaram influência da posição da tíbia (rotação medial, lateral e neutra) na atividade elétrica do VMO durante o exercício de extensão do joelho a 90º no "leg-press" em indivíduos normais. No entanto, a alteração da posição da tíbia influenciou a atividade elétrica do VLL que foi maior na rotação medial em relação à posição neutra.

Os resultados mostram que o simples posicionamento em rotação do quadril não foi suficiente para influenciar a atividade do quadríceps sendo necessário verificar se a rotação resistida do quadril associada ao agachamento poderia alterar a atividade desses músculos. Apesar das diferenças metodológicas, Andrade et al.15 encontraram uma atividade elétrica maior do VMO em relação ao VLO tanto no grupo com SDFP como no Controle no exercício isométrico no "leg-press" a 90º de flexão do joelho e rotação isométrica lateral da tíbia, indicando essa rotação de Membro Inferior para o tratamento da SDFP.

No exercício de agachamento, o grupo SDFP apresentou atividade elétrica significativamente maior para os músculos VMO e VLL quando comparado com o grupo Controle, independente da posição do quadril. Entretanto, Coqueiro23 ao realizar o exercício de agachamento isolado e o agachamento associado à adução isométrica de quadril, ambos a 45º de flexão do joelho, não encontraram diferença significativa entre o grupo SDFP e Controle para a atividade elétrica dos músculos VMO, VLO e VLL, o que mais uma vez sugere a importância da intensidade da dor visto que os indivíduos avaliados por Coqueiro23 eram assintomáticos.

Além disso, a maior atividade elétrica do músculo VMO e VLL do grupo SDFP em relação ao grupo Controle sugere que a causa da SDFP pode não estar relacionada à diminuição da atividade entre os componentes laterais e mediais do quadríceps, sendo necessário investigar outros possíveis parâmetros envolvidos com a dor na articulação femoropatelar como o início da ativação ("onset") entre as porções do quadríceps e a cinemática patelar por meio dos ângulos anatômicos (congruência, "tilt" patelar, sulco patelar e sulco troclear) da articulação femoropatelar. Laprade et al.18 sugeriram que uma atividade elétrica menor do grupo SDFP pode ocorrer secundariamente ao aparecimento da SDFP não sendo a função muscular o único fator etiológico da SDFP ao não encontrarem diferença na relação VMO: VL entre o grupo Controle e SDFP em exercícios de extensão do joelho associados à rotação medial dos pés e adução do quadril.

 

CONCLUSÃO

Nas condições experimentais utilizadas, nossos dados indicam que a rotação do quadril não influencia a atividade elétrica do VMO, VLO e VLL, no ângulo de 45º de agachamento. Os músculos VMO e VLL do grupo SDFP apresentaram atividade elétrica significativamente maior do que VMO e VLL do grupo Controle. Dessa forma, o exercício de agachamento à 45º poderia ser indicado numa fase mais tardia da reabilitação de indivíduos com SDFP, uma vez que há um maior equilíbrio entre os estabilizadores da patela.

Agradecimentos: ao CNPq pelo apoio financeiroProjeto Integrado de Pesquisa n.º 524190/96-8 e a CAPES/MEC pela bolsa concedida durante todo o período de realização desse trabalho. Ao Prof. Dr. Jorge Oishi pelo auxílio e orientação na análise estatística desse trabalho.

 

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Correpondência para:
Karina Gramani Say
Rua São José 409, Centro
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e-mail: kagramanis@yahoo.com.br

Recebido: 31/01/2005 — Aceito: 13/10/2005

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