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Brazilian Journal of Physical Therapy

versão impressa ISSN 1413-3555

Rev. bras. fisioter. v.12 n.2 São Carlos mar./abr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-35552008000200009 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Efeito de um programa de condicionamento físico aeróbio nos aspectos psicossociais, na qualidade de vida, nos sintomas e no óxido nítrico exalado de portadores de asma persistente moderada ou grave

 

 

Gonçalves RCI; Nunes MPTII; Cukier AIII; Stelmach RIII; Martins MAII; Carvalho CRFI

IDepartamento de Fisioterapia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP) – São Paulo (SP), Brasil
IIDepartamento de Clínica Médica, USP
IIIDepartamento de Pneumologia, USP

Correspondência para

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o papel de um programa de condicionamento físico aeróbio nos aspectos psicossociais, qualidade de vida, sintomas e óxido nítrico exalado (NOe) de adultos com asma persistente moderada ou grave.
MATERIAIS E MÉTODOS: Vinte pacientes foram divididos aleatoriamente em Grupo Controle (GC, n= 10; programa de educação e exercícios respiratórios) e Grupo Treinado (GT, n= 10; programa de educação e exercícios respiratórios mais condicionamento aeróbio, 70% potência máxima obtida). A intervenção aconteceu duas vezes por semana durante três meses. Antes e após, foram avaliados a capacidade aeróbia máxima, a função pulmonar, a dispnéia ao esforço, os níveis de ansiedade e depressão e a qualidade de vida. Mensalmente, eram avaliados o NOe em repouso e o número de dias livres de sintomas.
RESULTADOS: Apenas o GT apresentou redução dos sintomas (GT 24,8 [IC95%= 23-27] versus GC 15,7 [IC95%= 9-21] dias livres de sintomas, p< 0,05), dos níveis de NOe (GT 25,8 [IC95%= 15,3-44] versus GC 44,3 [IC95%= 24-60] ppb, p< 0,05), da ansiedade (GT 39,3 [IC95%= 37-50] versus GC 40,9 [IC95%= 37-50] escore, p< 0,001) e da depressão (GT 6,6 [IC95%= 1-21] versus GC 9 [IC95%= 1-20] escore, p< 0,001), melhora da qualidade de vida (GT 42,8 [IC95%= 34,3-71,7] versus GC 69,7 [IC95%= 45,1-87,9] %, p< 0,001), e incremento da aptidão aeróbia (GT 25,7 [IC95%= 16,2-31,3] versus GC 20,5 [IC95%= 17,3-24,1] mL/kg/min, p< 0,001).
CONCLUSÕES: Os resultados sugerem que o treinamento físico reduz o NOe, os sintomas e melhora a qualidade de vida e os aspectos psicossociais de adultos com asma persistente moderada ou grave.

Palavras-chave: asma; aspectos psicossociais; óxido nítrico exalado; qualidade de vida; sintomas de asma; treinamento físico.


 

 

Introdução

Apesar de diversos estímulos causarem o ataque agudo da asma, o exercício físico é um dos fatores precipitantes mais comuns1. A dispnéia vivenciada pelo paciente asmático durante o exercício ou o receio em vivenciá-la é responsável por afastá-lo da prática de esportes e das atividades físicas em grupo2. Por essa razão, os portadores de asma tendem a ser menos ativos e mais descondicionados que seus pares saudáveis3,4 permanecendo fisicamente inativos5,6. As restrições físicas, emocionais e sociais impostas pela asma são capazes de modificar profundamente a vida dos pacientes gerando estados de depressão, isolamento social, baixa auto-estima e falta de motivação7.

O condicionamento físico tem sido relatado como parte importante do programa de reabilitação de pacientes portadores de asma8; porém, uma revisão sistemática recente da literatura mostrou que os únicos efeitos reconhecidamente comprovados são a melhora da aptidão cardiovascular e da resistência ao esforço, além da redução da dispnéia ao exercício9, da incidência de broncoespasmo induzido pelo exercício e do uso de corticóides10. Por outro lado, os efeitos do condicionamento físico nos fatores relacionados à qualidade de vida, sintomas e morbidade psicossocial de pacientes asmáticos permanecem pouco compreendidos.

O fato de o treinamento físico reduzir a necessidade de corticóides e a sintomatologia da asma sugere um papel modulador na inflamação pulmonar. Entretanto, o papel do treinamento físico no manejo clínico e na inflamação pulmonar de asmáticos nunca foi avaliado. A redução dos dias livres de sintomas, dos níveis de óxido nítrico exalado (NOe) e do número de eosinófilos no escarro induzido tem sido o alvo principal de monitoramento da inflamação em asmáticos11,12.

Os ataques agudos e inesperados de falta de ar causam uma constante ameaça para os pacientes asmáticos e estão associados a uma sensação de ansiedade13. Os benefícios do condicionamento físico na redução dos níveis de ansiedade e depressão em adultos e idosos saudáveis são amplamente reconhecidos14; assim, é possível que a prática regular de exercícios físicos também possa auxiliar pacientes asmáticos15. Contudo, existem três estudos avaliando o efeito do condicionamento físico na qualidade de vida de portadores de asma, sendo um em adultos, esse avaliando em conjunto com pacientes asmáticos portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)16, e os outros em crianças10,17.

O objetivo do presente estudo foi avaliar a efetividade de um programa de condicionamento aeróbio nos aspectos psicossociais, na qualidade de vida e nos sintomas de pacientes adultos portadores de asma persistente moderada ou grave.

 

Materiais e métodos

Sujeitos

Foram estudados 20 adultos (14F), de ambos os sexos, portadores de asma persistente moderada ou grave, com idades entre 20 e 50 anos e índice de massa corpórea (IMC) de 20 a 30 kg/m2, com pontuação igual ou inferior a 50% no domínio de limitação física do questionário de qualidade de vida, elaborado pela Escola Paulista de Medicina (EPM)18. Os pacientes deveriam estar em tratamento médico-ambulatorial há pelo menos seis meses e apresentarem-se clinicamente estáveis (sem hospitalização ou procura a pronto-socorro há, pelo menos, 30 dias). O diagnóstico e o tratamento dos pacientes foram realizados como o preconizado pelo Global Initiative for Asthma (GINA)19 .Os critérios de exclusão incluíram presença de outra doença pulmonar associada, diagnóstico clínico de cardiopatia e/ou hipertensão pulmonar, doença osteomuscular que tenha interferido na realização das avaliações ou dos exercícios, ou a dificuldade de compreensão de qualquer dos questionários utilizados. Os pacientes foram selecionados após uma consulta médica e não houve modificação da medicação durante todo o programa. Os critérios de exclusão incluíram presença de outra doença pulmonar associada, diagnóstico clínico de cardiopatia e/ou hipertensão pulmonar, doença osteomuscular que tenha interferido na realização das avaliações ou dos exercícios, ou a dificuldade de compreensão de qualquer dos questionários utilizados. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) com parecer número 0297/07 e os pacientes deram seu consentimento por escrito. Os custos com transporte e medicação foram pagos pelos pesquisadores.

Delineamento experimental

Os sujeitos foram aleatoriamente divididos em dois grupos: Controle (GC) e Treinado (GT). Os pacientes do GC foram submetidos a um programa educacional e a um programa de exercícios respiratórios. Os pacientes do GT foram submetidos a todos os procedimentos do GC e a um programa de condicionamento físico aeróbio com intensidade de 70% da potência máxima obtida no teste cardiopulmonar de esforço realizado antes do início do treinamento. No início e no fim do período de tratamento, todos os pacientes realizaram prova de função pulmonar, teste cardiopulmonar de esforço e responderam a questionários para avaliar fatores relacionados à qualidade de vida e os níveis de ansiedade e depressão. Mensalmente, eram avaliados o NOe e contabilizados os dias livres de sintomas, avaliados por um diário de sintomas.

  • Programa educacional: teve duração de quatro horas e foi composto de duas aulas interativas para explicar a fisiopatologia da doença, o uso correto da medicação e um plano de ação, no caso de piora dos sintomas19.
  • Programa de exercícios respiratórios: iniciado na semana seguinte ao programa educacional. Os pacientes dos dois grupos foram submetidos ao programa de exercícios respiratórios, que foi realizado por 30 minutos, duas vezes por semana, durante três meses. O programa de exercícios respiratórios foi realizado como previamente descrito20.
  • Programa de condicionamento aeróbio: iniciado na semana seguinte ao programa educacional, cada sessão teve a duração de 30 minutos e foi realizada após os exercícios respiratórios no GT. Os pacientes foram submetidos ao treino aeróbio em esteira ergométrica (Imbramed Export Plus, Rio Grande do Sul, Brasil). A freqüência cardíaca (FC) e o nível de desconforto respiratório dos sujeitos foram monitorados. A intensidade do treinamento foi de 70% da potência máxima obtida no teste cardiopulmonar de esforço realizado antes do início do treinamento e monitorizado pela FC do paciente. Nas duas primeiras semanas, os pacientes foram adaptados à intensidade do programa com intensidade de 60% da potência máxima obtida10. Não houve modificação na intensidade de treinamento ao longo das 12 semanas de tratamento.

Variáveis analisadas

  • Função pulmonar: a avaliação espirométrica foi realizada antes e após a administração de 200ug de salbutamol inalado (Kokko spirometer, Pulmonary Data System, EUA). Os procedimentos técnicos e os critérios de aceitabilidade e reprodutibilidade realizados foram os recomendados pela ATS21. As curvas de normalidade previstas foram as propostas por Knudson22. Um aumento de 12% ou 200mL no volume expiratório forçado (VEF1) foram definidos como uma resposta positiva ao broncodilatador21.
  • Teste cardiopulmonar: realizado em esteira ergométrica acoplada a um computador digital contendo sistema de avaliação de exercício (Sensormedics, Vmax-229, CA, EUA) responsável por realizar, respiração por respiração, a análise de parâmetros metabólicos, ventilatórios e cardiovasculares. Foi utilizado o protocolo de Balke-Ware modificado23, no qual o sujeito caminha na velocidade de 1,5km/hora em esteira ergométrica sem inclinação durante período de aquecimento e, após três minutos, ocorre aumento de 2,5 graus a cada dois minutos. O valor do VO2pico foi determinado de acordo com Cooper et al.24 e a falta de condicionamento físico aeróbio foi classificada em leve (> 70% previsto), moderada (70-50% prev) ou grave (abaixo de 50% prev)24. O valor de VO2 no limiar anaeróbio (VO2AT) foi estabelecido pelo método de troca gasosa por meio da visualização do ponto de inflexão de VCO2 versus VO2 (V slope modificado)25. O valor de VO2 no ponto de compensação respiratória (VO2PCR) foi detectado pelo aumento exponencial de CO2.
  • Qualidade de vida: foi avaliada pelo questionário de qualidade de vida para asmáticos (EPM), traduzido e validado para a língua portuguesa, composto por quatro domínios18: i) limitação física do paciente devido aos sintomas da asma; (ii) freqüência de sintomas; iii) limitações socioeconômicas; e iv) limitações psicossociais. Os valores do questionário são expressos em porcentagem (maior valor 100%) e escores baixos indicam melhor qualidade de vida, enquanto escores altos indicam pior qualidade de vida.
  • Avaliação dos níveis de ansiedade e depressão: foram utilizados o questionário de depressão26 e o inventário de ansiedade traço-estado (IDATE)27 validados28,29. O IDATE é um questionário que avalia os níveis de sintomas de ansiedade-estado e ansiedade-traço.
  • Sintomas de asma: foram analisados por um diário previamente descrito30. Os diários foram preenchidos todos os dias pelos pacientes e incluíam perguntas acerca do surgimento de crises e sintomas (tosse, chiado, "falta de ar", "acordar a noite", uso de "bombinha"). Os dias livres de qualquer um dos sintomas foram somados e considerados mensalmente. Os 20 dias anteriores ao início do tratamento de ambos os grupos foram considerados para a primeira avaliação.
  • Avaliação dos níveis de NOe: a fração de NOe foi mensurada em quatro ocasiões: antes do tratamento e após 30, 60 e 90 dias (fim do tratamento). Os pacientes foram orientados a soprar em um saco de Mylar, mantendo pressão expiratória de 10cmH2O, para evitar a contaminação de ar da cavidade nasal. Todas as amostras colhidas foram analisadas até 24 horas após a coleta e analisadas por quimioluminescência (Sievers 280)31,32.

Análise estatística

O número total da amostra foi calculado tendo como pressuposto a análise de variância com quatro grupos (controle e treinado antes e após o treinamento), melhora de 40% para os domínios dos fatores relacionados à qualidade de vida (variável principal), um desvio-padrão esperado intragrupo de 30% e um poder de confiabilidade de 80%. A normalidade dos testes foi avaliada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. As variáveis obtidas antes do treinamento foram comparadas utilizando o teste t de Student. A comparação dos dados iniciais e finais da qualidade de vida, ansiedade, depressão e capacidade aeróbia foram avaliadas utilizando-se a análise de variância (ANOVA). A comparação dos dados de NOe e sintomas obtidos foram comparados utilizando-se ANOVA para medidas repetidas. O nível de significância foi ajustado para 5% (p< 0,05).

 

Resultados

Três pacientes (2GC/1GT) desistiram do estudo durante o primeiro mês de treinamento (dois em virtude de mudanças no horário de trabalho e um por mudança de residência para outra cidade). Vinte pacientes completaram o estudo, dez do GC (6F) e dez no GT (7F). Antes do estudo, os pacientes do GC e GT apresentavam-se similares em relação ao gênero, idade, IMC, função pulmonar e dose de medicação de corticosteróide (Tabela 1). Também não foram observadas diferenças com relação à capacidade aeróbia, aos fatores relacionados à qualidade de vida e aos níveis de ansiedade e depressão, ao número de dias livres de sintomas e aos níveis de NOe entre os indivíduos dos GC e GT antes do treinamento.

 

 

Após os três meses de tratamento, os indivíduos do GT apresentaram aumento nos parâmetros fisiológicos de esforço quando comparado ao GC (Tabela 2). Os adultos treinados mostraram um aumento do VO2pico, do VO2 previsto e do pulso de oxigênio no pico do exercício (p> 0,05). Os pacientes do GT também apresentaram um aumento do VO2pico nos parâmetros submáximos como o limiar anaeróbio e no ponto de compensação respiratório (p> 0,05). Os indivíduos treinados (GT) apresentaram redução na percepção de esforço no pico do exercício quando comparado com os valores obtidos antes do período de treinamento físico (p< 0,05), porém, a percepção ao esforço entre o GT e do GC ao final do tratamento foram similares (p> 0,05). Nenhum dos dois programas de treinamento resultou em melhora da função pulmonar (dados não apresentados).

 

 

O programa de condicionamento físico melhorou os domínios limitação física, freqüência de sintomas, limitação psicossocial e o escore total do questionário de qualidade de vida (p< 0,001) e não houve alteração no domínio socioeconômico (Tabela 3). Os indivíduos que não treinaram apresentaram iguais valores ou piora (valores aumentados) nos domínios do questionário de qualidade de vida relatada.

 

 

No início do estudo, os pacientes de ambos os grupos (10/10; 100%) apresentavam escores moderados de ansiedade-traço (Tabela 3). O condicionamento físico reduziu os níveis de ansiedade-traço do GT se comparado aos níveis iniciais (p< 0,05), embora não tenha sido observada diferença quando comparado com o GC. Por outro lado, não houve diferença entre os níveis iniciais e finais de ansiedade-estado nos GC e GT.

Observamos que 50% dos pacientes do GC (5/10; 50%) e do GT (5/10; 50%) apresentavam escores leves de depressão antes do início do estudo (Tabela 3). Ao término do estudo, os indivíduos treinados apresentaram redução dos níveis de depressão quando comparado com os indivíduos não treinados (p< 0,05). Houve uma redução significativa do número de indivíduos com níveis leves de depressão somente no GT (1/10; 10%).

A freqüência de sintomas dos pacientes foi avaliada por meio de registro em diário e reportada pela somatória mensal dos dias livres de sintomas. Os indivíduos dos GT e GC apresentavam, em média, 12,9 dias livres de sintomas ao mês antes do treinamento (respectivamente 12,10 [IC95%= 8,0-18,0] e 13,7 [IC95%= 10,0-18,0] dias livres de sintomas), conforme Figura 1. Houve aumento do número de dias livres de sintomas no GT 30 dias após o início do treinamento físico (22,8 [IC95%= 20,0-25,0]) que permaneceu após 60 (24,0 [IC95%=22,0-26,0]) e 90 dias do treinamento (24,8 [IC95%= 23,0-27,0]) (p< 0,05), de acordo com a Figura 2. Por outro lado, não houve alteração dos números de dias livres de sintomas no GC após 30, 60 e 90 dias de treinamento (respectivamente 14,6 [IC95%= 10-18], 14,7 [IC95%= 10-18] e 15,7 [IC95%= 9-21]) (p< 0,05).

 

 

 

 

A mensuração do NOe foi realizada antes do início do tratamento e repetida a cada 30 dias. Não foi observada diferença nos níveis de NOe antes do início do tratamento entre o GT e o GC (respectivamente, 35,03 [IC95%= 22,4-59,2] versus 44,62 [IC95%= 24,0-67,1] ppb). Por outro lado, foi observado que os níveis de NOe nos pacientes do GT foram inferiores aqueles observados no GC na avaliação realizada após 30 dias de início do treinamento (respectivamente 31,5 [IC95%= 14,0-62,0] versus 47,3 [IC95%= 29,0-75,2] ppb) (p< 0,05), 60 dias (respectivamente 28,7 [IC95%= 18,0-50,0] versus 42,8 [IC95%= 22,5-57,7] ppb) (p< 0,05) e 90 dias (respectivamente 25,6 [IC95%= 15,3-44,0] versus 44,35 [IC95%= 24,0-60,0] ppb) (p< 0,05), como demonstrado na Figura 2.

 

Discussão

Os resultados do presente estudo mostram que pacientes portadores de asma persistente moderada ou grave apresentam melhora da capacidade aeróbica e da qualidade de vida, além de redução no aparecimento de sintomas, ansiedade e depressão e nos níveis de NOe após 12 semanas de condicionamento físico moderado. Conseqüentemente, os nossos dados sugerem que um programa de condicionamento físico pode ter um papel importante como adjunto no tratamento de pacientes asmáticos clinicamente estáveis e sob terapêutica medicamentosa adequada.

A prescrição de exercícios físicos para asmáticos tem demonstrado provocar um aumento na capacidade aeróbia de asmáticos, promovendo, nestes pacientes, níveis de atividade física dentro da faixa de normalidade8. De maneira geral, a maioria dos pacientes (15/20, 75%) do presente estudo apresentou capacidade aeróbia máxima (VO2pico) <70% do previsto apresentando, portanto, uma limitação física moderada24. Esta perda do condicionamento físico estava relacionada a uma melhora nos parâmetros do condicionamento cardiovascular máximos e submáximos (Tabela 2). Os asmáticos treinados mostraram melhora do VO2pico, no limiar anaeróbio e no ponto de compensação respiratório. De fato, com exceção de um, todos os pacientes do GT apresentaram ganho maior que 10% da capacidade aeróbia após o treinamento; por outro lado, todos os pacientes do GC tiveram um VO2pico inalterado ou reduzido na segunda avaliação. Existem somente cinco estudos realizados de maneira controlada e aleatória avaliando o efeito do treinamento físico na melhora do VO2max em asmáticos – e esta melhora é de 5,5mLO2/kg/min (de 3,9 a 7,1mLO2/kg/min)9. Os resultados obtidos no presente estudo estão em concordância com aqueles previamente descritos visto que os nossos pacientes apresentaram um aumento médio do VO2pico de 5,1mLO2/kg/min (de 0,1 a 10,7mLO2/kg/min), conforme a Tabela 2.

A qualidade de vida é uma percepção individual inserida no contexto da cultura e de sistemas de valores com os quais os indivíduos vivem em relação dos seus objetivos, expectativas, critérios e interesses33. A asma exerce um efeito negativo sobre a qualidade de vida na medida em que provoca ansiedade na expectativa de vivenciar crises, prejudica o sono e impossibilita a participação em atividades em grupo e de vida diária34-36. A redução nos níveis de atividade física realizada pelos asmáticos também contribui para o aumento da obesidade e o aparecimento de baixa auto-estima37. Estudos avaliando o papel do condicionamento físico na qualidade de vida de adultos asmáticos são escassos. Cambach16 mostrou que o exercício físico praticado de maneira regular é responsável por melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças respiratórias, incluindo asmáticos e portadores de DPOC. Os resultados do presente estudo mostraram que o condicionamento físico ocasiona melhora na qualidade de vida de asmáticos, na medida em que os sujeitos treinados apresentaram redução do escore limitação física, freqüência dos sintomas e limitação psicossocial, enquanto nenhuma destas alterações foi observada no grupo não treinado.

A asma é capaz de causar decréscimo na qualidade de vida e está conseqüentemente associada a complicações psicossociais (níveis elevados de depressão e ansiedade)38. Nos pacientes asmáticos, a morbidade psicossocial está associada à baixa aderência ao tratamento medicamentoso e à piora do quadro clínico da doença39. Programas de condicionamento físico melhoram o estado de humor e reduzem os níveis de ansiedade e depressão em adultos e idosos saudáveis11. Porém, são desconhecidos os efeitos da prática de atividade física regular nos aspectos psicossocias de pacientes asmáticos. Nossos resultados mostram que 50% dos indivíduos estudados (10/20) apresentavam níveis leves de depressão antes do início do tratamento quando comparados com os dados brasileiros para uma população saudável utilizando o inventário de Beck26. Interessante notar que, após o período de condicionamento físico, os pacientes do GT mostraram melhora dos níveis de depressão, sugerindo que programas de treinamento aeróbio podem reduzir a depressão de portadores de asma.

Os níveis de ansiedade foram avaliados utilizando o inventário de Spielberger, que divide e classifica a ansiedade em -traço e -estado27. A ansiedade-estado se refere ao medo do indivíduo frente a uma situação ou estímulo específico, tal como a crise aguda da asma, enquanto a ansiedade-traço diz respeito à percepção do indivíduo em relação a uma situação na sua totalidade, ou seja, a asma como uma doença crônica. Antes do início do estudo, os nossos pacientes apresentavam níveis de ansiedade maiores que aqueles descritos na população brasileira saudável38. A redução da ansiedade-traço sem modificação da ansiedade-estado, verificada nos indivíduos treinados, sugere que a melhora do condicionamento físico melhorou a percepção da asma como doença crônica, mas não modificou o receio do paciente frente ao ataque agudo de asma (broncoconstrição).

O papel do treinamento físico na redução dos sintomas da asma é controverso9. Estudos não controlados e não aleatórios sugerem redução no número de hospitalizações e na procura de serviços de emergência médica após o paciente ser submetido a um programa de treinamento físico aeróbio2,8. Adicionalmente, permanecem controversos os efeitos da prática de exercícios físicos no broncoespasmo induzido pelo exercício, na necessidade de medicação de controle e na sintomatologia dos pacientes asmáticos9. O presente estudo mostrou que os indivíduos submetidos a um programa de condicionamento físico apresentaram redução dos sintomas de asma (tosse, chiado, dispnéia, despertar noturno e necessidade de medicação de alívio).

A mensuração dos níveis de NOe é uma forma simples e não invasiva de avaliar a inflamação pulmonar, sendo esta medida utilizada para avaliar a melhora do paciente em resposta ao tratamento com corticóides inalatórios40. Os resultados apresentados nesse estudo sugerem que o treinamento físico aeróbio moderado em pacientes asmáticos leva a redução dos valores de NOe, bem como na presença de sintomas da doença, sugerindo um papel adjuvante do exercício na diminuição da inflamação pulmonar alérgica crônica (Figura 2). Cabe ressaltar que a queda dos níveis de NOe não pode ser atribuída à mudança da medicação, visto que o estudo foi realizado entre duas consultas médicas, que os grupos (Controle e Treinado) receberam a mesma terapêutica medicamentosa com corticosteróide inalatório e que as doses da medicação permaneceram inalterados durante o estudo.

Resultados de pesquisas envolvendo asmáticos e treinamento físico relacionam o aumento da aptidão cardiovascular, melhora da qualidade de vida e redução dos sintomas da doença nesses pacientes, e sugerem que esses resultados sejam devidos a redução da inflamação pulmonar5. Estudos recentes mostram que camundongos sensibilizados à ovalbumina (modelo experimental de inflamação pulmonar alérgica crônica) e submetidos a um condicionamento físico apresentaram redução na produção de muco e na inflamação pulmonar41 sugerindo que o treinamento aeróbio possa ocasionar diminuição da inflamação pulmonar.

O óxido nítrico tem sido sugerido como um marcador da inflamação pulmonar na asma em resposta ao tratamento com corticóide40, porém, isto ainda parece ser controverso42. No presente estudo, a quantificação dos níveis de NOe teve o objetivo de verificar se haveria alguma variação neste parâmetro ao longo do treinamento físico. Porém, o fato dos níveis de NOe estarem reduzidos conjuntamente com os sintomas relatados pelos pacientes do GT nos leva a sugerir que ele possa ser um marcador da melhora clínica dos pacientes decorrentes do treinamento físico. Estes dados são ainda mais relevantes quando se verifica que não houve alteração no NOe do GC e que ambos os grupos mantiveram as doses de medicação corticóide ao longo do estudo.

Limitações do estudo

Uma possível crítica ao nosso estudo é a avaliação da inflamação pulmonar utilizando os níveis de NOe. Apesar de estas técnicas serem amplamente utilizadas na prática clínica para monitorar a inflamação pulmonar, alguns autores sugerem que elas apresentam limitações que não expressam adequadamente o processo inflamatório dos pulmões42. Entretanto, os níveis de NOe e os sintomas de asma são utilizados para avaliar a efetividade do tratamento com corticóides em pacientes com asma persistente moderada43. Possíveis interferências na avaliação do comportamento dos valores de NOe dos sujeitos incluídos nesse estudo seriam modificações realizadas pelo médico responsável nas doses de corticóides administradas a esses pacientes. Essa limitação, no entanto, foi contornada por meio da realização do período de tratamento entre duas consultas médicas, o que impossibilitou a alteração nas doses de medicação.

O número reduzido de pacientes avaliados é uma limitação relevante em nosso estudo. Conhecedores da importância do assunto em questão e da necessidade de aumentar o tamanho da amostra estudada, nova pesquisa, nos mesmos moldes metodológicos e com um número maior de sujeitos, está sendo conduzida pelos autores.

 

Conclusões

Os resultados do presente estudo sugerem que o treinamento físico reduz os valores de NOe, o número de dias com sintomas e a morbidade psicossocial em pacientes com asma persistente moderada ou grave. Estes resultados reforçam a importância da melhora do condicionamento físico no manejo clínico de pacientes asmáticos.

 

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Correspondência para:
Raquel Calvo Gonçalves
Rua Vigário João Alvares, 157, apto. 44
CEP 01551-040, São Paulo(SP), Brasil
e-mail: calvgonc@uol.com.br

Recebido: 12/07/2007
Revisado: 15/10/2007
Aceito: 28/11/2007
Apoio financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq)