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Brazilian Journal of Physical Therapy

Print version ISSN 1413-3555On-line version ISSN 1809-9246

Rev. bras. fisioter. vol.13 no.5 São Carlos Sept./Oct. 2009  Epub Nov 13, 2009

https://doi.org/10.1590/S1413-35552009005000061 

REVISÃO SISTEMÁTICA

 

Atuação da fisioterapia na síndrome de fragilidade: revisão sistemática

 

 

Paula M. M. ArantesI; Mariana A. AlencarI; Rosângela C. DiasII; João Marcos D. DiasII; Leani S. M. PereiraII

IPrograma de Pós-graduação em Ciências da Reabilitação, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte (MG), Brasil
IIDepartamento de Fisioterapia, UFMG, Belo Horizonte (MG), Brasil

Correspondência para

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Revisar sistematicamente a literatura sobre intervenções fisioterapêuticas e seus efeitos em idosos frágeis da comunidade.
MÉTODOS: Revisão sistemática de estudos publicados até junho de 2008 nas bases de dados Medline, Embase, PEDro, SciELO, LILACS e Biblioteca Cochrane. Foram excluídos os artigos cuja amostra era constituída de idosos não frágeis, institucionalizados e hospitalizados; aqueles cujas intervenções propostas não foram a fragilidade e não eram específicos de fisioterapia.
RESULTADOS: De acordo com os critérios de exclusão, dos 152 artigos encontrados no Medline, apenas 15 foram incluídos para análise; dos 71 artigos encontrados na base de dados PEDro, apenas um, uma vez que os outros 10 artigos encontrados já haviam sido selecionados pelo MEDLINE, e dos 461 artigos encontrados na base de dados Embase, apenas dois que não haviam sido selecionados nas outras bases de dados foram incluídos neste estudo. Foi verificado um total de sete diferentes tipos de intervenções: 1) fortalecimento muscular; 2) exercícios de fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação, flexibilidade, tempo de reação e treinamento aeróbico; 3) treino funcional; 4) fisioterapia; 5) fisioterapia realizada no domicílio; 6) adaptação ambiental e prescrição de dispositivo e 7) exercício na água. Os resultados de alguns estudos foram contraditórios mesmo com intervenções semelhantes. Os estudos analisados utilizaram formas distintas para definir fragilidade, o que dificultou as comparações dos resultados.
CONCLUSÃO: Existem poucas evidências dos efeitos da intervenção fisioterapêutica em idosos frágeis comunitários, dificultando estabelecer consenso ou conclusões sobre a eficácia das propostas terapêuticas nessa complexa síndrome.

Palavras-chave: idoso; fragilidade; fisioterapia; reabilitação.


 

 

Introdução

Estudos com a população considerada frágil ainda são escassos no mundo e no Brasil. Entretanto, o aumento de idosos considerados frágeis, associado ao impacto social e econômico gerado por essa população, fez com que crescesse o interesse pelo tema e a necessidade de se estudar melhor essa população1.

Uma das principais dificuldades ao estudar essa população está relacionada à definição de fragilidade. Apesar de ainda não haver um consenso sobre a definição de fragilidade, tem sido amplamente aceito que ela é uma síndrome clínica, de natureza multifatorial, caracterizada por um estado de vulnerabilidade fisiológica resultante da diminuição das reservas de energia e da habilidade de manter ou recuperar a homeostase após um evento desestabilizante2,3. A síndrome de fragilidade é complexa e envolve declínios em múltiplos domínios fisiológicos, incluindo força e massa muscular, flexibilidade, equilíbrio, coordenação e função cardiovascular4,5, que geram risco elevado para quedas, declínio funcional, hospitalização e morte6. A fragilidade leva à deterioração da qualidade de vida, aumento da sobrecarga dos cuidadores e altos custos com cuidados à saúde7. Assim, intervenções não farmacológicas que possam prevenir, retardar ou impedir a progressão da fragilidade são necessárias3,8,9.

Dentre essas, programas de exercícios são apontados como o tipo de intervenção com maior potencial para melhora da função física3. Entretanto, apesar de haver evidências comprovando os efeitos benéficos dos exercícios em idosos, estudos que avaliam os efeitos de programas de exercícios na fragilidade ainda são limitados. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sistematizada da literatura sobre os efeitos de intervenções fisioterapêuticas em idosos frágeis da comunidade.

 

Materiais e métodos

Utilizando-se os descritores frail ou frailty, older adults ou elderly e rehabilitation ou intervention ou physical therapy ou exercise therapy e seus equivalentes em português e espanhol, foram rastreados artigos que tivessem as palavras-chave pesquisadas no título ou resumo publicados até junho de 2008 nas bases de dados eletrônicas MEDLINE, Embase, PEDro, ScieLo, LILACS e Biblioteca Cochrane, nos idiomas inglês, português e espanhol. Também foi realizada uma busca manual de estudos nos bancos de dissertações e teses da Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Campinas e Universidade Federal de São Carlos que são os principais centros que pesquisam nesta área e permitem essa busca. Adicionalmente, foi realizada uma consulta aos especialistas na área para averiguar a possibilidade de haver outras referências que não faziam parte das bases de dados consultadas.

Adotou-se, como critério de inclusão, o tipo de estudo ser ensaio clínico, ensaio clínico controlado ou aleatorizado. Os critérios para exclusão dos artigos foram: a amostra não ser exclusivamente de idosos frágeis; o objetivo da intervenção não ser a fragilidade; a intervenção não ser específica de fisioterapia; haver múltiplas intervenções; apresentar apenas dados preliminares e o estudo ser conduzido com idosos institucionalizados ou hospitalizados.

A escolha dos artigos foi realizada por dois revisores independentes, obedecendo aos critérios de inclusão, pelo título e resumo dos artigos. Caso tivessem alguma discordância, os revisores liam o artigo na íntegra, discutiam e, ainda, passavam para um terceiro revisor.

A metodologia dos estudos selecionados foi avaliada pela escala PEDro10,11, que é muito utilizada na área de reabilitação. A escala tem uma pontuação total de 10 pontos10,11 que avaliam a qualidade metodológica de estudos experimentais, sendo que escores >5 são considerados de alta qualidade12.

Os estudos foram qualificados por dois revisores de forma independente. O Índice de Kappa foi utilizado para avaliar o nível de concordância entre os revisores em relação à pontuação dos artigos pela escala PEDro. Para a classificação final da qualidade dos artigos, os itens discrepantes foram revistos e discutidos até a obtenção de consenso sobre a pontuação11.

 

Resultados

Na busca realizada em junho de 2008, foram encontrados 152 estudos na base de dados MEDLINE, desses, apenas 15 alcançaram todos os critérios de inclusão e exclusão; na base de dados PEDro, foram encontrados um total de 71 artigos, sendo que apenas 11 foram selecionados. Desses 11 artigos selecionados, 10 já haviam sido selecionados pela MEDLINE. Na base de dados Embase, foram encontrados 461 artigos. Em relação a esses, apenas dois artigos dos que não haviam sido selecionados nas buscas realizadas nas outras bases de dados atendiam aos critérios de inclusão e exclusão e, assim, foram incluídos neste estudo. Não foi encontrado nenhum artigo nas demais bases de dados pesquisadas. As características dos artigos selecionados quanto à intervenção e aos desfechos e resultados são apresentados na Tabela 1. Houve uma grande variabilidade em relação ao tipo de intervenção utilizada e aos desfechos analisados, sendo verificado um total de sete diferentes tipos de intervenções. Além disso, os critérios utilizados para definir idoso frágil variaram muito entre os estudos (Tabela 2).

A maioria dos artigos, 56%, apresentaram os escores >5 na escala PEDro (EP), sendo considerados, portanto, de alta qualidade12 (Tabela 2). Em relação a essa classificação, os avaliadores apresentaram boa concordância (Kappa=0,829, p<0,001).

Exercícios de fortalecimento muscular

Cinco estudos avaliaram os efeitos dos exercícios resistidos nos idosos frágeis1,5,13-15. Dois não encontraram diferenças significativas, tanto para a força do músculo quadríceps5 quanto para a dos músculos dos membros inferiores e superiores1. Os outros três estudos demonstraram um aumento significativo na força muscular. No estudo conduzido por Sullivan et al.13, exercícios isotônicos de baixa e alta resistência promoveram aumento da força muscular nos músculos dos braços e pernas de idosos frágeis, significativamente maior no grupo que recebeu treinamento de alta resistência em comparação com os benefícios dos exercícios de baixa resistência. Chandler et al.14 encontraram um ganho de força de 10 a 16% após um programa de exercícios de intensidade de baixa a moderada. LaStayo et al.15 encontraram aumento na área de secção transversa e na força após treinamento de fortalecimento excêntrico em um ciclo ergômetro de membros inferiores.

Todos os artigos também avaliaram o efeito do treino de força sobre a mobilidade funcional, entretanto apenas dois estudos1,15 encontraram melhora significativa no tempo gasto para realizar os testes Timed Up and Go (TUG) e marcha em 10 metros1 e habilidade de descida de escada15. Os demais estudos5,13 não encontraram uma diferença significativa para as medidas de capacidade funcional.

O equilíbrio foi um desfecho avaliado por três estudos1,5,15, com resultados contraditórios. Ota et al.1 encontraram uma melhora no teste de Alcance Funcional após um programa de fortalecimento da musculatura dos membros inferiores e superiores. LaStayo et al.15 encontraram melhora no escore da Escala de Berg no grupo que fazia o fortalecimento no ciclo ergômetro. Já Latham et al.5 não encontraram benefícios de fortalecimento do quadríceps no escore da Escala de Berg.

Exercícios de fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação, flexibilidade, tempo de reação e treinamento aeróbico

Três estudos avaliaram o impacto de um programa de múltiplas intervenções, incluindo fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação, flexibilidade, tempo de reação e treinamento aeróbico sobre diferentes desfechos, ao se tratar um idoso frágil4,16,17.

A velocidade do oxigênio (VO2) de pico foi um desfecho comum aos artigos de Ehsani et al.16 e de Binder et al.4, no qual ambos encontraram um aumento significativo de 14%.

O estudo de Ehsani et al.16 avaliou também o impacto desse protocolo no débito cardíaco e força de ejeção do ventrículo esquerdo e demonstrou aumentos significativos deles no grupo experimental.

Em relação aos outros desfechos avaliados no estudo de Binder et al.4, o programa de intervenção promoveu melhora significativa na força muscular, equilíbrio, autopercepção de saúde e função (autorrelatada e medida de desempenho).

Já o estudo de Worm et al.17 encontrou melhora significativa no desempenho e autorrelato da função física na marcha (velocidade e número de passos) e força muscular, entretanto não realizou a análise estatística para a variável VO2 máximo.

Treino funcional

Cinco estudos avaliaram os efeitos de um programa de exercícios focando o treinamento de habilidades funcionais (alcance, levantar da cadeira, arremessar, dentre outros) necessárias para a realização de atividades diárias em idosos frágeis vivendo na comunidade18-22. Quatro desses estudos utilizaram o mesmo protocolo de intervenção, mas avaliaram diferentes desfechos.

Chin et al.18 avaliaram o efeito da intervenção sobre o bem-estar subjetivo, autopercepção de saúde e contato social e não encontraram modificações significativas. Contudo, Helbostad, Sletvold e Moe-Nilssen22 encontraram melhora significativamente maior que no grupo controle no índice de saúde mental e aspectos emocionais da qualidade de vida. Os resultados desse mesmo estudo, entretanto, não apontaram efeitos significativos do treino funcional na velocidade da marcha22. Em outro estudo, uma melhora significativa foi encontrada na capacidade funcional dos idosos do grupo intervenção19. As atividades que apresentaram mudança significativa foram levantar da cadeira, alcançar os dedos e velocidade da marcha. Em relação à capacidade funcional autorrelatada, não houve mudança significativa.

Em relação à composição corporal, foi encontrado um aumento da massa magra nos idosos que realizaram o treino funcional20,21. Não houve alteração significativa da massa corporal, circunferência da cintura e do quadril.

Fisioterapia (exercícios de equilíbrio, coordenação, flexibilidade, fortalecimento e tempo de reação)

Foi encontrado apenas um estudo que avaliou os efeitos desse tipo de intervenção em idosos frágeis vivendo na comunidade23. Ele demonstrou melhora significativa na força muscular, flexibilidade, equilíbrio, coordenação, cadência e função no grupo que recebeu a intervenção. Não foram encontradas diferenças significativas para as variáveis tempo de reação, sensibilidade e variáveis da marcha. O grupo controle, que realizou os exercícios para ganho de amplitude de movimento em casa, apresentou melhora significativa apenas para a flexibilidade.

Fisioterapia realizada em domicílio (adaptação ambiental + prescrição de dispositivo de auxílio + exercícios)

Dois estudos avaliaram o impacto de um programa de fisioterapia individualizado e elaborado a partir da avaliação do idoso e do ambiente de sua casa, realizado no domicílio do idoso e supervisionado por um fisioterapeuta7,24. Os desfechos variam entre os dois estudos.

Em um dos estudos24, observou-se que a maioria dos idosos não avançou além do nível inicial de resistência nos exercícios de fortalecimento. Não foi realizada análise estatística dos dados, o que compromete a generalização dos dados. Os autores também relataram que o programa foi seguro, pois os eventos adversos não foram mais comuns no grupo experimental.

No outro estudo7, foi demonstrado que o grupo que recebeu intervenção apresentou redução significativa na incapacidade comparado ao grupo que recebeu palestras educacionais. Os benefícios foram maiores no grupo de fragilidade moderada que no grupo grave.

Adaptação ambiental + prescrição de dispositivo de auxílio

Um estudo avaliou se intervenção ambiental associada à prescrição de dispositivo de auxílio, quando necessário, era eficaz na função, dor e custo do cuidado à saúde de idosos frágeis25. Após um período de 18 meses de intervenção, ambos os grupos apresentaram declínio da função avaliada pelo questionário Medida de Independência Funcional (MIF), entretanto esse declínio foi maior no grupo controle. Assim, a intervenção não foi capaz de impedir o declínio funcional, mas sim desacelerá-lo. Apenas o grupo controle apresentou aumento na dor. Na comparação dos custos de cuidado à saúde, não foi encontrada diferença no gasto total, entretanto o grupo controle apresentou maior gasto com institucionalização.

Exercícios na água

Apenas um estudo avaliou o efeito do exercício realizado na água em idosos frágeis26. O estudo investigou o efeito da intervenção uma vez por semana e duas vezes por semana em um período de seis meses. No desfecho qualidade de vida, verificou-se aumento significativo para os componentes físico e mental do questionário SF-36 em três e seis meses de exercício, comparando com a avaliação pré-intervenção. Não foram verificadas diferenças no grupo controle. Também foi constatada diferença significativa no escore do questionário MIF entre a avaliação pré e seis meses para os dois grupos de intervenção e pré e três meses apenas para o grupo de duas vezes por semana e, mais uma vez, não encontraram diferenças no grupo controle26.

 

Discussão

Esta revisão sistemática mostra uma escassez de estudos de intervenção em idosos considerados frágeis vivendo na comunidade, apesar da grande importância do tema. Essa escassez pode estar relacionada aos grandes desafios de se trabalhar com essa população, como ausência de critérios padronizados para definição de fragilidade, questões éticas e altas frequências de mortalidade e desistência, dificultando a realização desses estudos8.

Um problema que dificulta a avaliação das intervenções sobre o idoso frágil é o fato de os estudos analisados utilizarem conceitos distintos para definir idoso frágil. As definições estavam relacionadas desde as alterações funcionais, necessidade de auxílio de terceiros até a associação de múltiplas características (Tabela 2). Essas limitações impossibilitaram a generalização dos resultados e a comparação desses estudos com outros.

Ferrucci et al.8, na tentativa de solucionar esse problema, propõem a utilização de um consenso para o estudo de intervenções em fragilidade. Esses autores recomendam que, para a sua operacionalização, os domínios de mobilidade, nutrição e composição corporal devem ser avaliados. Essa recomendação é fundamentada no fato de que a síndrome de fragilidade é de caráter multissistêmico e multifatorial3,6. Apesar de serem considerados sinônimos por muitos autores e profissionais da saúde, incapacidade e fragilidade são entidades distintas e podem ocorrer isoladamente em idosos. Essa distinção está bem demonstrada no estudo de Fried et al.2, no qual 72,8% dos idosos frágeis não apresentavam incapacidade e 72% dos idosos com incapacidade não eram frágeis.

Esse caráter multissistêmico da fragilidade e as suas diferentes definições também podem ter influenciado o fato de ter sido encontrada grande variedade de desfechos nos estudos. Tal heterogeneidade de desfechos dificulta ainda mais a verificação de evidências na reabilitação de idosos frágeis. Entretanto, alguns estudos compartilham desfechos semelhantes. Dentre esses, o desfecho mais frequentemente encontrado nos estudos foi capacidade funcional, seja avaliada por autorrelato seja por medidas de desempenho físico1,4,5,7,13-15,17-20,22-26. Provavelmente, esse fato está relacionado ao maior risco de declínio funcional apresentado por essa população e às graves repercussões promovidas pela incapacidade6,8,9.

As formas de intervenção diferiram muito entre os estudos, mesmo quando o desfecho era igual. Alguns estudos tentaram dar um enfoque terapêutico mais pragmático, com protocolos variando de acordo com a avaliação individual de cada idoso24; outros, com exercícios que poderiam ser realizados no domicílio5,14; outros, com exercícios específicos a serem realizados em ambientes clínicos1,13 e outro, com a associação da prática no domicílio e no ambiente clínico17.

Em relação aos programas de fortalecimento muscular, os resultados dos estudos foram contraditórios nos vários desfechos avaliados. Diferenças em relação aos parâmetros de tratamento adotados parecem não justificar as diferenças significativas encontradas, uma vez que a maioria dos parâmetros adotados foram distintos entre estudos que verificaram um mesmo resultado e tinham semelhanças com estudos que tinham resultados diferentes. Nos estudos de fortalecimento, o tempo de intervenção variou de 105,14 a 12 semanas1,13, sendo realizado de duas1 a três vezes por semana5,13-15 e com o número de repetições de três séries de oito5,13 ou dez1 ou duas séries de dez14. Todos adotaram um ajuste sistemático das cargas e diferiram quanto aos recursos utilizados para o treino de força muscular, com exceção de um estudo que não descreveu como eram realizados os ajustes das cargas e nem o número de séries17.

É necessário cautela na interpretação dos efeitos do fortalecimento em idosos considerados frágeis, uma vez que os estudos apresentam problemas de qualidade1,15 e estruturação metodológica5,13 e de definição da fragilidade1,5,13-15,17.

Como descrito anteriormente, dois estudos avaliaram impacto de um programa de três fases incluindo fisioterapia, fortalecimento muscular e treinamento aeróbico4,16 ao tratar um idoso octogenário frágil. Os dois estudos foram desenvolvidos em um mesmo centro de estudos e com os mesmos pesquisadores. A amostra do estudo de Ehsani et al.16 era composta por idosos que participaram do estudo de Binder et al.4, e o protocolo era o mesmo. Entretanto, o estudo de Ehsani et al.16 focou os aspectos relacionados à função cardiorrespiratória, enquanto Binder et al.4 também avaliaram a capacidade aeróbica e outros aspectos relacionados à capacidade funcional, função muscular, equilíbrio e percepção de saúde. Os dois estudos encontraram efeitos positivos desse protocolo sobre as variáveis avaliadas, mostrando que mesmo um idoso frágil octogenário é capaz de realizar adaptações biológicas benéficas.

No estudo de Worm et al.17, que também utilizou múltiplas intervenções, também se verificaram benefícios dessa intervenção em idosos frágeis, porém não se descreveu claramente quem era o idoso considerado frágil.

As evidências dos benefícios de um treino funcional em idosos frágeis são poucas. Apesar de terem sido encontrados cinco artigos que avaliaram os efeitos do treino funcional, quatro deles faziam parte do mesmo estudo, só que consideraram desfechos diferentes18-21,. Na verdade, apenas dividiram-se os artigos de acordo com os desfechos. Assim, apesar de ter sido apontado benefício do programa na capacidade funcional, aumento na massa magra e qualidade de vida, os resultados ainda são escassos em relação a esse tipo de intervenção.

Estudos a respeito da eficácia de intervenções fisioterápicas e adaptação ambiental mais prescrição de dispositivo de auxílio foram encontrados na literatura7,23-25. Uma vantagem dessas intervenções é que elas se aproximam da abordagem realizada pelo fisioterapeuta na prática clínica, com implementação de um programa multifatorial.

No estudo conduzido por Brown et al.23, avaliou-se o efeito de um programa de fisioterapia de baixa intensidade que possui exercícios de equilíbrio, coordenação, flexibilidade, fortalecimento e tempo de reação no tratamento de idosos frágeis. Os autores verificaram uma melhora significativa na força muscular, flexibilidade, equilíbrio, coordenação, cadência e função após seis meses de intervenção com a realização dos exercícios três vezes por semana. Eles concluíram que essa pode ser uma alternativa eficaz para idosos que não conseguem acompanhar programas mais vigorosos, mas que, apesar da melhora na função física, não se conseguiu eliminar a fragilidade, ressaltando a importância da prevenção.

Uma importante conclusão dos autores que avaliaram a eficácia das abordagens adaptação ambiental e prescrição de dispositivo de auxílio e também dessas abordagens associadas à realização de exercícios foi que essas intervenções foram capazes de reduzir o declínio funcional, mas não evitá-lo7,25. Ambos os estudos acompanharam os idosos por longo período, 12 e 18 meses, sendo que um deles demonstrou que os benefícios só apareceram após seis meses de intervenção. Assim, o período de duração de intervenções em idosos frágeis visando melhora da função deve ser escolhido com cautela. Além disso, o nível de fragilidade deve ser levado em consideração, uma vez que, ao estratificar os idosos em moderados e graves, aqueles com nível de fragilidade grave não se beneficiaram da intervenção. Entretanto, deve-se ter cautela ao interpretar esses dados devido à dificuldade de categorização de nível de fragilidade e ao pequeno número de estudos avaliando essa questão.

O único estudo encontrado que avaliou os benefícios de exercícios na água foi o estudo de Sato et al.26. Eles verificaram melhora na qualidade de vida e funcionalidade nos idosos que consideraram como frágeis. E ainda verificaram que a frequência da prática também influencia a velocidade de melhora. Os pesquisadores consideraram frágeis os idosos que apresentavam até cinco limitações funcionais e adotaram critérios de seleção mais rigorosos; portanto, dependendo da definição de fragilidade utilizada por um profissional, o exercício aquático pode se tornar uma prática de risco de intercorrência para o idoso.

Um problema importante verificado nesta revisão foi relacionado à qualidade dos estudos disponíveis na literatura. Algumas limitações metodológicas importantes foram encontradas, e alguns estudos apresentam baixa qualidade metodológica na avaliação pela escala PEDro1,4,15,20,23,24, o que dificulta a interpretação dos resultados. Em dois estudos, os idosos não foram alocados aleatoriamente nos grupos5,15. Em vários, os examinadores não eram cegados1,4,7,15-21,23-25, não foi realizada análise de intenção de tratar1,4,7,14,16-21,23-25, e apenas um22 citou que foi realizado o cálculo de tamanho amostral. Essa questão se torna de extrema relevância em estudos com altas frequências de desistências e óbitos, como é o caso dos estudos analisados. É preconizado que perdas na amostra sejam mantidas até 20%, computadas no cálculo amostral, e que seja realizada análise de intenção de tratar8. Os estudos não seguiram tais recomendações. Em relação ao poder estatístico, somente um artigo5 realizou esse cálculo, não sendo possível afirmar se a ausência de melhora significativa devido às intervenções em alguns estudos ocorreu por falta de eficácia da técnica ou por tamanho insuficiente de amostra.

Outra dificuldade encontrada neste estudo foi o grande número de intervenções encontradas na literatura, com pequeno número de publicações para cada tipo de intervenção. Isso certamente restringe as conclusões. Futuros estudos devem avaliar especificamente cada tipo de intervenção, uma vez que está clara a necessidade de estudos de intervenção sobre o tema. Além disso, é importante que os próximos estudos utilizem critérios adequados para a definição de fragilidade e os deixem claros no texto.

 

Conclusão

Existem poucas evidências sobre os efeitos de intervenções ou prevenção em idosos frágeis vivendo na comunidade. A diversidade dos critérios usados para caracterizar o que é um idoso frágil dificulta a realização e a comparação entre os estudos. Devido ao pequeno número de estudos encontrado, não foi possível estabelecer consenso a respeito da eficácia das intervenções. Parece haver concordância entre alguns autores de que, apesar de terem sido encontrados ganhos significativos em relação à força, equilíbrio e capacidade funcional, não foi possível, com as intervenções utilizadas, reverter ou impedir a progressão da fragilidade.

 

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Correspondência para:
Paula Maria Machado Arantes
Rua Muzambinho, 159 - apto 401, Anchieta
CEP 30310-280, Belo Horizonte (MG), Brasil
e-mail: paulamma@gmail.com

Recebido: 17/11/2008
Revisado: 30/04/2009
Aceito: 06/08/2009

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