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Brazilian Journal of Physical Therapy

versão impressa ISSN 1413-3555

Rev. bras. fisioter. vol.14 no.5 São Carlos set./out. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-35552010000500007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeito do exercício físico na percepção de satisfação de vida e função imunológica em pacientes infectados pelo HIV: Ensaio clínico não randomizado

 

 

Rodrigo D. GomesI; Juliana P. BorgesI; Dirce B. LimaII; Paulo T. V. FarinattiI,III

IInstituto de Educação Física e Desportos, Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIDepartamento de Medicina Interna, UERJ
IIIPrograma de Pós Graduação em Ciências da Atividade Física, Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Correspondência para

 

 


RESUMO

CONTEXTUALIZAÇÃO: Os estudos sobre a relação entre prática de exercícios e bem-estar psicológico de pacientes com vírus da imunodeficiência humana (HIV) são raros.
OBJETIVO: Investigar a influência de programa de condicionamento físico sobre a satisfação com a própria vida e sobre a função imunológica.
MÉTODOS: Para tal análise, 29 pacientes soropositivos (idade: 45±2 anos; índice de massa corporal (IMC): 22,8±1,0 kg/m2; TCD4: 20,5±2,0%), foram divididos em grupo controle (GC, n=10) e grupo experimental (GE, n=19). O GE participou durante 12 semanas de programa de exercícios que combinavam exercícios aeróbios, força e flexibilidade (três vezes/semana; aeróbio-30min: carga em watts equivalente a 150bpm-PWC150; força-50min: três séries de 12 repetições em cinco exercícios a 60-80% 12 RM; flexibilidade-10min: duas séries de 30s na máxima amplitude em oito exercícios). A função imunológica foi avaliada por contagem absoluta e relativa das células TCD4 (citometria de fluxo),e a satisfação de vida, por meio do Índice de Satisfação de Vida (ISV).
RESULTADOS: A análise de variância (ANOVA) não identificou alteração significativa para os linfócitos TCD4 em ambos os grupos, apesar da tendência à elevação no GE (16%, p=0,19). Houve melhora significativa no ISV (
15%, P<0,05) para o GE, mas não para o GC.
CONCLUSÃO: Um programa de condicionamento físico de intensidade moderada melhorou a percepção de satisfação de vida dos pacientes com HIV observados, sem acarretar prejuízos imunológicos.

Palavras-chave: atividade física; AIDS; aptidão física; saúde; HIV.


 

 

Introdução

O advento da terapia antirretroviral de alta atividade (HAART) proporcionou o aumento da expectativa de vida dos pacientes1,2 , de forma que hoje a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) tem um novo prognóstico. De certa forma, a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) assumiu o perfil de doença crônica, abrindo espaço para intervenções não medicamentosas, dentre elas, o exercício físico3,4, para manutenção da funcionalidade e qualidade de vida por muitos anos. Com isso, a manutenção da aptidão física e funcional tornou-se um dos objetivos prioritários do tratamento de pacientes com HIV/AIDS, notadamente quando há diagnóstico de síndrome de 'Wasting', com perda pronunciada da massa muscular5.

Por outro lado, indivíduos infectados pelo HIV são confrontados com múltiplos estressores psicossociais que, em último caso, podem acelerar a progressão da doença. Essas condições podem estar relacionadas ao diagnóstico da infecção ou à natureza incontrolável de eventos associados à doença6, mas também à diminuição da funcionalidade associada a prejuízos na capacidade física de forma geral7. Desse modo, ainda que a expectativa de vida tenha aumentado, os problemas psicológicos parecem continuar a afetar indivíduos soropositivos, com prejuízos à sua qualidade de vida8.

Nesse contexto, há evidências de que a saúde mental também pode ser favorecida pela realização regular de atividades físicas. Assim, a prática regular de exercícios pode ser uma estratégia interessante de combate a problemas psicológicos associados à infecção pelo HIV. Alguns estudos vêm demonstrando que indivíduos engajados em um programa de treinamento de força ou aeróbio podem apresentar melhora do bem-estar9, além de diminuição dos sintomas de depressão10. Apesar disso, percebe-se que o aspecto psicológico vem sendo negligenciado pelas investigações sobre as relações entre a prática de atividades físicas e a infecção pelo HIV.

De fato, há poucos estudos sobre o tema, principalmente após o advento da terapia antirretroviral de alta atividade. Estudos nesse sentido seriam relevantes, uma vez que os efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais também podem resultar em distúrbios psicológicos. Logo, é importante conhecer mais sobre o impacto de programas regulares de exercícios físicos sobre a condição geral do paciente portador do HIV. Idealmente, a prática de atividades físicas deveria induzir adaptações favoráveis no plano da funcionalidade e da percepção de bem-estar sem, contudo, acarretar impacto negativo sobre a sua condição clínica, especialmente a função imunológica.

Assim, o presente estudo verificou a influência de um programa de condicionamento físico sobre o bem-estar psicológico de indivíduos soropositivos. Testou-se a hipótese de que portadores do HIV engajados em programa supervisionado de exercícios tenderiam a exibir modificações mais favoráveis na percepção de sua qualidade de vida em comparação com sujeitos sedentários, ainda que sob tratamento com HAART. Adicionalmente, comparou-se a função imunológica de ambos os grupos por meio da contagem de células TCD4 em sujeitos ativos e sedentários.

 

Materiais e métodos

Amostragem

A amostra foi composta por 29 pacientes portadores de HIV, com idade média de 45±2 anos (índice de massa corporal (IMC): 22,8±1,0 kg/m2; TCD4: 20,5±2,0%), todos acompanhados por médicos assistentes. Os sujeitos foram divididos em dois grupos: experimental (GE, n=19; 12 homens e 7 mulheres), que participou do programa de exercícios, e controle (GC, n=10; 5 homens e 5 mulheres), que manteve suas atividades habituais. Todos os participantes do estudo assinaram termo de consentimento livre e esclarecido e o protocolo experimental foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro (RJ), Brasil (Processo nº 1942-CEP).

Por razões éticas, a divisão dos grupos não foi aleatória: o GE foi composto pelos indivíduos que apresentavam disponibilidade para participar das sessões de treinamento. Já o GC contou com sujeitos que se evadiram do programa, selecionados entre aqueles que estiveram presentes em menos de 25% do total de sessões, e de pessoas que aguardavam em fila de espera para participarem das atividades. Para serem incluídos no estudo, os sujeitos não poderiam ter apresentado quadro de doenças oportunistas até, pelo menos, três meses antes do início do treinamento e deveriam fazer uso de medicamentos antirretrovirais. Além disso, não deveriam ter praticado exercícios físicos com regularidade até, pelo menos, seis meses antes do início do treinamento. Não houve desistências em ambos os grupos ao longo da aplicação do protocolo experimental.

Protocolo de treinamento

O programa de exercícios incluiu atividades aeróbias, de força e flexibilidade, com frequência de três vezes por semana (em dias alternados), durante 12 semanas. As sessões de treinamento consistiam em 30 min de exercício aeróbio (esteira ou bicicleta), com intensidade que não poderia ultrapassar a frequência cardíaca de 150 bpm (physical work capacity-PWC 150), a fim de evitar possível imunodepressão induzida por intensidade elevada11,12 . A seguir, realizava-se uma sequência de exercícios de força: leg press, levantamento supino horizontal, extensão de joelhos na cadeira extensora, remada baixa (pegada supinada) e flexão abdominal parcial. Foram executadas, em todos os exercícios, três séries de 12 repetições com carga de 60% a 80% daquela associada a 12 repetições máximas (RM). As cargas de trabalho utilizadas foram estipuladas com base em testes de 12RM realizados a cada duas semanas, de forma que a carga evoluísse progressivamente. Nesses testes, os voluntários executavam 12 repetições do exercício com a maior carga possível selecionada até que não fosse mais viável a realização do movimento sem ajuda externa. Ao final de cada sessão, eram realizados oito exercícios visando ao aumento da flexibilidade de grandes articulações (tronco, quadril, joelho, ombro e cotovelo), com manutenção da máxima amplitude de movimentos em três séries de 30s para cada posição.

Contagem das células TCD4

Para verificar possível comprometimento imunológico em função do exercício, foi feita a quantificação dos linfócitos TCD4, principal marcador de progressão da doença. Para a determinação da contagem absoluta e relativa das células TCD4, uma pequena amostra de sangue (450µL) foi retirada de uma veia periférica do braço (EDTA vacutainer tubes, Becton-DickinsonTM, San Jose, CA, USA) de preferência e imediatamente analisada por citometria de fluxo (BD FACSArrayTM, Franklin Lakes, NJ, USA), aplicada por ser considerada padrão-ouro para contagem de células TCD413.

A contagem foi feita com anticorpos monoclonais específicos (T CD3+CD4+), isotiocianato de fluoresceína (FITC) e anticorpos monoclonais conjugados à fluoresceína (PE) (Becton DickinsonTM Immunocytometry Systems, San Jose, CA, USA). Os anticorpos eram fixados, e as estruturas específicas da superfície das células TCD4 identificadas por meio de detecção baseada em fluorescência. Todas as medidas foram feitas em ambiente hospitalar, no mesmo horário do dia. A fim de evitar efeitos agudos do exercício sobre os resultados, as amostras de sangue eram coletadas após, pelo menos, 48 horas decorrentes da última sessão de exercícios. Os pacientes eram instruídos a não ingerir álcool e cafeína nas 24 horas precedentes. Os exames foram realizados de acordo com o sistema duplo-cego, em que os técnicos responsáveis não sabiam quais indivíduos faziam parte do GE ou GC.

Índice de satisfação de vida

O nível de satisfação de vida foi apreciado com auxílio de instrumento previamente validado para avaliação do nível de satisfação de vida, o Índice de Satisfação de Vida (ISV) (Life Satisfaction Index)14,15. Trata-se de um formulário preenchido pelo próprio avaliado para a mensuração do seu bem-estar psicológico. De acordo com o preenchimento, é atribuída uma pontuação que pode variar de 0 a 40 – quão maior a pontuação, melhor a percepção de satisfação com a própria realidade. A validade e a fidedignidade do ISV do tipo A (Life Satisfaction Index A – LSI-A) foram ratificadas em diversas situações e populações16-18. O formulário pretende identificar cinco componentes (disposição, resolução, relação entre objetivos almejados e alcançados, auto-conceito positivo e estado de espírito) do que se entende como fatores que contribuem para o sujeito sentir-se satisfeito com sua existência presente. Da mesma forma que a citometria de fluxo, a aferição do ISV também foi feita em protocolo duplo-cego, por avaliadores com experiência na aplicação do questionário.

Análise estatística

Após verificação dos pressupostos de normalidade e homocedasticidade, a análise de variância (ANOVA) de duas entradas foi usada para testar diferenças significativas entre os grupos para as células TCD4, seguida de verificação post-hoc de Fisher, quando necessário. Diferenças para o ISV obtidas por questionário foram verificadas por meio do teste de Friedman, com posterior aplicação do teste de Wilcoxon a título de verificação post-hoc. Em todas as situações, o nível de significância foi fixado em p<0,05. O software STATISTICA 6.0 foi utilizado para todas as análises (StatsoftTM, OK, USA).

 

Resultados

Os effect-sizes associados à variação entre as medidas pré e pós-treinamento, considerando as amostras respectivas para GC e GE, flutuaram entre 2,13 e 2,94 (IC95% 1,32-3,25). Uma verificação post-hoc da adequação do tamanho amostral para as comparações intra e intergrupos com medidas repetidas (GPower 3.0.10, Kiel, Alemanha), considerando P<0,05 e a faixa de effect-sizes calculada, revelaram que a potência estatística (1-beta) variou entre 0,80 e 0,85, o que foi considerado satisfatório.

A Tabela 1 apresenta a estatística descritiva e os resultados da ANOVA para as células TCD4 e para o ISV. Não houve alterações significativas para os níveis dos linfócitos TCD4 em ambos os grupos, apesar da nítida tendência de aumento de contagem de células no GE, cuja variação percentual positiva para a contagem absoluta ultrapassou os 12% (P=0,39), enquanto no GC diminuiu aproximadamente 14% (P=0,49). Na contagem relativa, o GE teve incremento de 16% (P=0,19), enquanto, no GC, a variação foi de apenas 2% (P=0,67). Por outro lado, observaram-se melhoras estatisticamente significativas para o GE no tocante ao ISV (15%; P=0,002), mas não para o GC (P=0,39). De fato, a percepção de satisfação de vida no GE, inicialmente inferior àquela do GC (P=0,03), evoluiu positivamente ao ponto de, no final do experimento, ambos os grupos exibiram escores similares (P=0,56).

 

 

Discussão

O presente estudo propôs-se a investigar o efeito de um programa de condicionamento físico na função imunológica e no bem-estar psicológico de indivíduos soropositivos. Os resultados indicaram que, no mínimo, o programa de exercícios não acarretou prejuízo na função imunológica, promovendo, de outra parte, melhora significativa na percepção da satisfação de vida nos indivíduos que participaram das atividades físicas.

Duas limitações dos métodos aplicados devem ser apontadas. Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que a amostragem não foi randomizada, tampouco a alocação de pacientes no GC. Desse modo, não foi possível parear os grupos na linha de base em relação às variáveis observadas, notadamente o resultado para o questionário do ISV. No entanto, não havia como justificar, no plano ético, excluir do programa de exercícios pacientes que tinham interesse e condições de realizá-lo, portanto beneficiando-se de seus efeitos.

Não houve cálculo amostral prévio em função das características do paciente portador do HIV. Sabe-se que é difícil formar grandes grupos com esse tipo de paciente, pois a chance de evasão por problemas clínicos é importante. Além disso, trata-se de pacientes que nem sempre querem ter divulgada a sua condição. Por essa razão, a maior parte dos estudos disponíveis sobre as relações entre AIDS e exercício trabalhou com amostras pequenas, como é o caso de Souza et al.5 (14 experimentais, sem GC), Dolan et al.19 (40 experimentais em programa domiciliar, sem GC), Driscoll et al.20 (11 experimentais e 14 controles), Roubenoff e Wilson21 (6 experimentais e 19 controles), MacArthur, Levine e Birk22 (3 experimentais e 3 controles), Rigsby et al.23 (19 experimentais, sem GC) ou Spence et al.24 (24 experimentais e 12 controles). Este estudo, portanto, tem amostra compatível com aquelas de outros estudos experimentais similares, em que o GC tem um menor número de participantes que o GE, e muitos não apresentam GC. Por outro lado, essa diferença não chegou a comprometer os pressupostos de homocedasticidade e esfericidade necessários para a aplicação da ANOVA. Nota-se que, mesmo com essa limitação, o cálculo amostral confirmatório indicou uma potência estatística satisfatória (>0,80) nos cálculos efetuados.

A segunda limitação diz respeito ao estabelecimento da intensidade de trabalho aeróbio com base na carga absoluta correspondente à frequência cardíaca de 150 bpm (PWC150) em vez de se utilizar como referência valores percentuais da frequência cardíaca máxima. Por outro lado, deve-se notar que o programa de treinamento almejava que a atividade fosse feita de maneira que não se ultrapassassem limites de intensidade que pudessem comprometer agudamente a função imunológica. O estabelecimento de cargas com base na fórmula de Karvonen nessa população seria problemático em virtude do grau de sarcopenia e predisposição à fadiga periférica de alguns pacientes. Na impossibilidade de se realizarem testes máximos de exercício para obtenção da frequência máxima real ou máximo consumo de oxigênio (por razões operacionais e pelo desejo de evitar exercícios dessa intensidade), optou-se pela consagrada e antiga abordagem do PWC. Classicamente há duas opções, o PWC150 e o PWC170. Na faixa etária dos pacientes, muito provavelmente o PWC150 os colocaria em uma faixa de intensidade abaixo do ponto de compensação respiratória, compatível com os objetivos do programa. Além disso, facilitou-se sobremaneira o controle da intensidade durante as sessões com ajuda dos próprios pacientes, que apenas mantinham em mente que não poderiam ultrapassar o limite de 150 bpm25. Essa abordagem foi utilizada na mesma perspectiva por estudos prévios, com diferentes populações sedentárias, como crianças obesas, grávidas ou idosos26-28.

A depressão e a ansiedade parecem ser os principais sintomas psicológicos avaliados em indivíduos soropositivos submetidos a um programa de exercícios físicos. Não foi possível localizar estudos que tivessem apreciado a condição psicológica por um prisma mais positivo, qual seja a percepção do bem-estar em vez de traços psicológicos negativos. Determinar o nível de qualidade de vida individual é algo complexo e sempre subjetivo, uma vez que se trata de uma noção que remete a um sem número de construtos, como bem-estar psicológico, ajustamento social, realização pessoal, independência física ou suporte social. No entanto, a satisfação com a própria vida parece ter relação evidente com o bem-estar geral, portanto com a qualidade de vida dos pacientes, seja qual for o construto adotado.

Alguns estudos já foram conduzidos procurando verificar o efeito de exercícios físicos sobre parâmetros psicológicos em diversas populações especiais, demonstrando resultados positivos como melhora nos níveis de depressão e ansiedade. Singh et al.16 demonstraram que o treinamento de força com alta intensidade, realizado durante oito semanas com frequência de três vezes semanais, seria um modo de tratamento seguro, exequível e efetivo para idosos depressivos. Brochu et al.29 estudaram idosas com doença coronariana, verificando que aquelas engajadas em treinamento de força durante seis meses exibiam menor nível de depressão comparadas às do grupo de inativas. De forma geral, aceita-se que a preservação da aptidão físico-funcional contribui para uma melhor percepção da qualidade de vida30.

A melhora na percepção de satisfação de vida de indivíduos soropositivos, presentemente constatada, vai ao encontro de pesquisas anteriores, ratificando seus resultados. O trabalho de LaPerriere et al.31 talvez tenha sido o primeiro a analisar tal relação. Entretanto, a proposta desse grupo foi diferente, uma vez que os indivíduos participantes da amostra ainda não tinham conhecimento de sua soropositividade. Aqueles que realizaram atividade aeróbia e tiveram resultado positivo para o HIV tiveram níveis de depressão atenuados, quando comparados com indivíduos que tiveram o mesmo resultado, mas que não realizaram nenhum tipo de exercício.

Outros estudos apresentaram resultados similares com indivíduos já cientes do diagnóstico de soropositividade. MacArthur, Levine e Birk22 aplicaram a pacientes infectados pelo HIV o Questionário de Saúde Geral (cuja pontuação em 28 itens correlaciona-se com sintomas de ansiedade e depressão de forma geral), antes e após 12 semanas de treinamento físico de caráter geral. Os pacientes que participaram de mais de 80% das sessões de treinamento exibiram uma tendência não significativa para a melhora em sua pontuação, enquanto o grupo que teve participação inferior teve piora significativa. Neidig, Smith e Brashers10 também demonstraram que indivíduos soropositivos participantes de 12 semanas de treinamento aeróbio (60-80% do VO2max) exibiam significativamente menos sintomas de depressão que os sujeitos alocados no GC.

Percebe-se que a maioria dos trabalhos que avaliaram a influência do treinamento no aspecto psicológico focalizaram exclusivamente o exercício aeróbio. Isso difere de nosso protocolo de treinamento, que aplicou conjuntamente exercícios aeróbios, de força e flexibilidade. Lox, McAuley e Tucker9 também se valeram dos exercícios resistidos como forma de treinamento, mas formaram grupos diferentes (força, grupo aeróbio e controle). Assim como no presente estudo, obtiveram-se resultados positivos, com ambos os grupos que treinaram melhorando a sensação de bem-estar subjetivo. Enfim, Roubenoff e Wilson21 relataram que indivíduos soropositivos se beneficiaram com o treinamento de força, demonstrando melhora na função física autorrelatada, o que não deixa de ter uma relação com a função psicológica.

Alguns fatores poderiam ser citados como responsáveis pela melhora observada no GE. LaPerriere et al.6 propuseram um modelo teórico para descrever as relações entre o exercício e os aspectos psicológico, endócrino e imunológico. De acordo com esse modelo, o treinamento físico talvez contribuísse para a melhora do estado emocional, aumentasse a liberação de opioides endógenos e reduzisse a atividade dos sistemas adrenocortical, pituitário e hipotalâmico (ACPH); ou seja, acreditando-se nesse modelo, a atividade física teria potencial para moderar as sequelas psicológicas e fisiológicas de doenças crônicas, incluindo a infecção pelo HIV. Deve-se mencionar ainda que, além de os efeitos positivos do próprio exercício poderem estar relacionados com essa melhora, o fato de as aulas terem sido realizadas em grupo, reunindo pessoas que partilhavam do mesmo problema e ansiedades, pode ter sido um fator que também contribuiu para os resultados obtidos. Estudos adicionais precisariam ser desenvolvidos para a ratificação dessa hipótese.

A função imunológica é uma preocupação central dos programas de exercícios para pacientes com HIV. Nesse sentido, a contagem das células TCD4 é frequentemente utilizada como marcador19,32 . A contagem absoluta mede o número de células em cada mm3 de sangue. A contagem normal em sujeitos não infectados pelo HIV varia entre 500 e 1500 células/mm1. A contagem relativa (%) remete à proporção das células TCD4 em comparação com todos os linfócitos, situando-se normalmente em torno dos 40% e podendo ficar abaixo de 20% em pacientes com HIV, refletindo alto risco de infecções oportunistas33.

Apesar de uma provável relação da prática de exercícios com uma melhora clínica geral34, as pesquisas disponíveis não permitem afirmar com certeza que haja um impacto significativo direto sobre indicadores da função imunológica (p.ex., células TCD4 ou carga viral). Revisão sistemática, incluindo dez estudos randomizados com treinamento aeróbio feito três vezes por semana durante, pelo menos, quatro semanas35, revelou pequenas melhoras, mas não significativas, na contagem das células TCD4 diferença média ponderada: 14 células·mm-3, 95% CI: -26 a 54 e carga viral (diferença ponderada média: 0,40 log10 cópias, 95% CI: -0,28 a 1,07). Mais recentemente, meta-análise do mesmo grupo36 avaliou o impacto de exercícios resistidos (isolados ou combinados com exercícios aeróbios) em pacientes com HIV ou AIDS. Demonstrou-se um aumento não-significativo da contagem das células TCD4 [95% CI: -6.60 a 103.23, n=68] em comparação com GCs que não se exercitaram. Os intervalos de confiança relatados sugerem, contudo, uma possível tendência à elevação da contagem de células nos GEs, o que pode ser clinicamente relevante.

No presente estudo, não houve diferenças significativas entre GE e GC tanto para a contagem absoluta quanto para a relativa em resposta ao programa de treinamento. No entanto, os valores absolutos no GE aumentaram 62 células/mm³ [~12%], tendo declinado 55 células/mm³ no CG [~14%]. A contagem relativa era criticamente baixa em ambos os grupos na linha de base (aproximadamente 20%), indicando risco para infecções oportunistas. Depois da intervenção, observou-se um aumento de quase 16% no GE e de apenas 2% no CG. Assim, embora as diferenças não tenham tido significância estatística, essas alterações representam um desfecho clinicamente importante, apoiando a ideia de que a prática de exercícios físicos pode afetar positivamente a contagem de células TCD4. Esforço investigativo adicional deve ser feito para um melhor entendimento da relação entre o exercício físico e as células TCD4, além de outros marcadores imunológicos.

Em conclusão, um programa de condicionamento físico de intensidade moderada, combinando exercícios aeróbios, de força e flexibilidade foi capaz de melhorar significativamente a percepção de satisfação de vida dos indivíduos soropositivos sem acarretar prejuízos imunológicos, ao menos nos limites das características daqueles observados no presente estudo. Portanto, programas supervisionados de atividades físicas podem ser ferramentas efetivas para melhorar o bem-estar psicológico de pacientes infectados pelo HIV, além de potencialmente poderem exercer influência positiva sobre as células TCD4. Essa informação é relevante no contexto de intervenções conduzidas por profissionais de saúde, como é o caso de fisioterapeutas e educadores físicos.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

 

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Correspondência para:
Paulo de Tarso Veras Farinatti
Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Instituto de Educação Física e Desportos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Rua São Francisco Xavier, 524, sala 8133, Bloco F, Maracanã
CEP 20550-013, Rio de Janeiro (RJ), Brasil
e-mail: farinatt@uerj.br ou pfarinatti@gmail.com

Recebido: 20/05/2009 – Revisado: 17/11/2009 – Aceito: 23/02/2010

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