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Brazilian Journal of Physical Therapy

Print version ISSN 1413-3555

Rev. bras. fisioter. vol.16 no.5 São Carlos Sept./Oct. 2012 Epub Sep 13, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-35552012005000045 

Avaliação da frequência cardíaca à medida de pressão expiratória máxima estática e à manobra de Valsalva em jovens saudáveis*

 

 

Vinicius Minatel; Marlus Karsten; Laura M. T. Neves; Thomas Beltrame; Audrey Borghi-Silva; Aparecida M. Catai

Laboratório de Fisioterapia Cardiovascular, Núcleo de Pesquisa em Exercício Físico (NUPEF), Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

CONTEXTUALIZAÇÃO: A medida de pressão expiratória máxima (PEmáx) possui algumas contraindicações, pois acredita-se que as respostas obtidas nessa medida são similares às respostas encontradas na manobra de Valsalva (MV).
OBJETIVOS: O objetivo principal é avaliar a resposta da frequência cardíaca (FC) durante a medida da PEmáx e da MV em jovens saudáveis, em diferentes posturas, para identificar se e em qual condição a PEmáx reproduz as respostas obtidas na MV e, adicionalmente, estimar o trabalho realizado nas manobras.
MÉTODO: Doze jovens saudáveis foram avaliados, orientados e familiarizados com as manobras. A MV foi composta por um esforço expiratório (40 mmHg) durante 15 segundos contra um manômetro. A PEmáx foi executada segundo a American Thoracic Society. Ambas as medidas foram realizadas nas posturas supino e sentado. Para a análise da variação da frequência cardíaca (
FC), índice de Valsalva (IV), índice da PEmáx (IPEmáx) e o trabalho estimado das manobras (Wtotal, Wisotime, Wtotal/FCtotal e Wisotime/FCisotime ), utilizou-se ANOVA two-way com post-hoc de Holm-Sidak (p<0,05).
RESULTADOS: A
FC durante as manobras não foi influenciada pelas posturas; entretanto, durante a MV, a FC e os valores do IV foram maiores (supino: 47±9 bpm, 2,3±0,2; sentado: 41±10 bpm, 2,0±0,2, respectivamente) do que a FC e os valores de IPEmáx observados durante a PEmáx (supino: 23±8 bpm, 1,5±0,2; sentado 24±8 bpm, 1,6±0,3, respectivamente) (p<0,001). Os trabalhos estimados das manobras foram estatisticamente diferentes (p<0,001) entre elas, exceto para o Wtotal/FC.
CONCLUSÕES: Nas condições estudadas, a PEmáx não reproduz as respostas da FC observadas durante a MV em jovens saudáveis.

Palavras-chave: manobra de Valsalva; músculos respiratórios; frequência cardíaca; sistema nervoso autonômico; postura; fisioterapia.


 

 

Introdução

As medidas de pressão inspiratória máxima (PImáx) e pressão expiratória máxima (PEmáx) são extensivamente usadas na prática clínica fisioterápica como parâmetro de avaliação indireta da força dos músculos respiratórios em pacientes com doenças neuromusculares1, cardiopulmonares2,3 e/ou metabólicas4. Nessas situações, as medidas de PImáx e PEmáx também são utilizadas como parâmetro de prescrição para o treinamento de força e resistência muscular respiratória5-8. Além disso, essas medidas também são usadas como parâmetro preditivo de sucesso na descontinuação da ventilação mecânica8-10.

Apesar da importância clínica dessas medidas, existem diversas contraindicações absolutas e relativas ao seu emprego8,11. A justificativa para a contraindicação da medida PEmáx, que é uma manobra executada a partir de uma inspiração máxima (capacidade pulmonar total) seguida de um esforço expiratório contra a via aérea ocluída, está relacionada com a semelhança dessa medida com a manobra de Valsalva (MV)7,8,12. A realização do esforço expiratório durante a PEmáx por períodos de tempo maiores que 3 segundos pode levar a alterações cardiovasculares semelhantes às da MV, como: diminuição do débito cardíaco8, do retorno venoso, da circulação pulmonar e do fluxo coronariano13-15.

A MV é um teste utilizado para avaliar a função do sistema nervoso autonômico (SNA). O conjunto de respostas que ocorrem durante e após a sua execução já foram amplamente descritas na literatura14-16. As respostas cardiovasculares decorrentes da MV são mediadas pelo SNA e variam de acordo com a ativação e/ou inibição simpática e parassimpática. Esse padrão dinâmico da atividade autonômica é determinado por diferentes estímulos, como respiração, contração muscular, estimulação de barorreceptores arteriais17, modificações posturais18-20 e, clinicamente, pode ser mais facilmente investigado por meio da análise das respostas da frequência cardíaca (FC).

Embora haja semelhança entre a execução da PEmáx e da MV7,8,12, até o presente momento não são conhecidos estudos que tenham descrito o comportamento das respostas cardiovasculares observadas durante a execução da PEmáx em diferentes posturas. Assim, observa-se que a subutilização da PEmáx na prática clínica fisioterápica possa estar associada a possível similaridade entre o seu emprego e a MV7,8,12, sem que os reais efeitos da PEmáx sobre as respostas cardiovasculares sejam conhecidos. Dessa forma, a investigação da resposta da FC à PEmáx em jovens hígidos poderia contribuir primariamente para o conhecimento a respeito da segurança dessa técnica. Com isso, a avaliação dos músculos expiratórios poderá ser realizada com menor exposição dos sujeitos a riscos desnecessários.

Portanto, o objetivo principal do presente estudo foi avaliar a hipótese de que a execução da PEmáx em jovens saudáveis gera respostas da FC semelhantes às observadas durante a execução da MV, independente da postura adotada. Adicionalmente, visando caracterizar as manobras e fornecer subsídios para a interpretação dos seus resultados, foi estimado o trabalho realizado em cada manobra.

 

Método

Sujeitos

Participaram do estudo 12 voluntários saudáveis, do gênero masculino, na faixa etária de 20 a 29 anos e índice de massa corpórea (IMC) entre 18,5 e 29,9 kg/m2. Os voluntários foram informados e orientados a respeito dos procedimentos a que seriam submetidos e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil (parecer nº 435/2008).

Os critérios de inclusão empregados foram ausência de doenças diagnosticadas, uso de medicamentos, drogas ilícitas ou hábito tabágico. Além disso, não deveriam apresentar alterações eletrocardiográficas em repouso e durante o teste de exercício clínico. Seriam excluídos os sujeitos que apresentassem desconforto durante a execução das manobras. No entanto, nenhum sujeito apresentou qualquer sinal ou sintoma compatível com a necessidade de exclusão do estudo.

Procedimentos

A avaliação clínica, os testes e os procedimentos experimentais foram realizados no período vespertino, em dias alternados, com um intervalo de 24 horas, no Laboratório de Fisioterapia Cardiovascular - Núcleo de Pesquisa em Exercício Físico - do Departamento de Fisioterapia, da UFSCar (Figura 1). Durante os experimentos, a temperatura ambiente (entre 22ºC e 24ºC) e a umidade relativa do ar (entre 40 e 60%) foram observadas e controladas para que não interferissem nos resultados dos testes. Os voluntários foram orientados a não ingerir bebidas alcoólicas e/ou estimulantes por, pelo menos, 12 horas antes do teste, evitar fazer exercícios extenuantes e ter um período de sono regular e com boa qualidade na noite que antecedesse a coleta de dados.

Previamente à participação no estudo, os voluntários foram submetidos a anamnese, na qual foram coletadas informações sobre dados pessoais, patologias prévias, fatores de risco para doença cardiovascular, hábito tabágico, uso de medicamentos e nível de atividade física, exame físico para identificar distúrbios osteomioarticulares, eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações em repouso e teste de exercício físico (protocolo de Bruce). Além disso, foram realizados procedimentos de familiarização do voluntário com os equipamentos e protocolos, a fim de reduzir sua ansiedade e expectativa e promover o aprendizado da MV e da PEmáx. As manobras foram realizadas nas posturas supino, com o voluntário posicionado com os membros superiores e inferiores em extensão, e a cabeça fletida a 45º, e sentado, com o voluntário posicionado com o dorso apoiado no encosto da cadeira e os pés apoiados no chão, de modo que houvesse entre o tronco e as coxas um ângulo de aproximadamente 90º. Em ambas as posturas, os voluntários foram orientados a permanecer com suas peças de vestuário afrouxadas para que os movimentos respiratórios não fossem limitados.

Manômetros

Os manômetros empregados no presente estudo (analógico e digital) foram previamente testados com relação à medida dos valores de pressão. Não se observou diferença entres os valores de pressão gerados em estudo piloto com os pesquisadores, o que permitiu o seu emprego. Para a coleta dos valores de pressão durante as manobras e controle visual da curva de pressão vs tempo pelos avaliadores, empregou-se um manômetro digital (MVD300, Globalmed, Brasil) conectado a um microcomputador (software MVD300, Globalmed, Brasil).

Manobra de Valsalva

Para a execução da MV, utilizou-se um manômetro analógico (Dyasist, Brasil) conectado ao manômetro digital e à peça bucal por meio de um tubo semirrígido. Os voluntários deveriam permanecer com as narinas ocluídas por um clipe nasal e com a peça bucal firmemente acoplada à boca, a fim de impedir o escape de ar, manter respiração espontânea (~15 rpm), realizar inspiração profunda antes da manobra e executar o esforço expiratório voluntariamente após receberem um sinal sonoro. Durante a MV, deveriam manter o esforço expiratório equivalente a 40 mmHg por um período de 15 segundos15,21,22. Essa manobra foi repetida três vezes, com um intervalo mínimo de cinco minutos entre elas, para que os valores basais de FC e PA fossem retomados. Para que fosse garantida a abertura da glote durante a execução da manobra, utilizou-se peça bucal com orifício15. Para avaliar a correta execução da MV, foram observados16,23: a) manutenção da pressão no manômetro; b) rubor facial; c) estase jugular no pescoço; d) movimentos da caixa torácica e e) elevação rápida da FC seguida de bradicardia. Os voluntários realizaram as manobras nas posturas supino e sentado, de forma aleatória.

Pressão Expiratória Máxima (PEmáx)

As medidas de PEmáx foram realizadas com o emprego do manômetro digital e peça bucal com orifício de 2 mm7,8,24. Os voluntários foram instruídos a realizar inspiração profunda do volume residual à capacidade pulmonar total, manter as narinas ocluídas por um clipe nasal e a peça bucal firmemente acoplada à boca, a fim de impedir o escape de ar, manter respiração espontânea (~15 rpm) e executar o esforço expiratório voluntariamente após receberem um sinal sonoro. Foram realizadas cinco tentativas de esforço expiratório máximo, sendo que, pelo menos, três delas deveriam ser reprodutíveis, isto é, não poderiam diferir entre si mais do que 10%. O avaliado deveria sustentar o esforço expiratório por, pelo menos, dois segundos. Nesse período, o avaliador observava a curva gerada pelo esforço expiratório na tela do microcomputador (software MVD300, Globalmed, Brasil), a fim de identificar a formação de um platô. O valor de pressão expiratória observado no primeiro segundo do platô após o pico de pressão de cada manobra foi anotado e comparado com os valores preditos para a população brasileira25. Caso o maior valor fosse observado na última tentativa, uma nova medida seria realizada, a fim de se excluir o efeito do aprendizado7,8,24. Entre as medidas, havia um intervalo de cinco minutos, de modo a reproduzir o procedimento empregado na MV. Para as medidas de PEmáx, a ordem das posturas adotadas foi definida aleatoriamente.

Captação do iR-R

Para a captação dos intervalos entre duas ondas R (iR-R), utilizou-se um frequencímetro de pulso (S810i, Polar, Finlândia). Para garantir a qualidade do sinal, foram observados os sinais eletrocardiográficos captados por meio de um monitor cardíaco de um canal (TC-500, ECAFIX, São Paulo, SP, Brasil). Os eletrodos foram posicionados na derivação MC5, sendo que o polo negativo foi colocado no manúbrio esternal (M) e o polo positivo e o terra, na região do 5º espaço intercostal (C5), na linha axilar anterior esquerda e na direita, respectivamente. Previamente à execução dos protocolos experimentais, os indivíduos permaneciam em repouso durante 10 minutos para a estabilização dos sinais vitais (PA, FC e frequência respiratória) e, depois disso, eram iniciados os protocolos. A captação dos iR-R durante os procedimentos foi realizada da seguinte forma: 60 segundos em repouso; tempo de execução da manobra (15 segundos na MV e 5 segundos na PEmáx) e 300 segundos correspondentes ao período de recuperação, no qual os indivíduos deveriam retomar os valores basais de FC e PA.

Análise dos dados

Os dados analisados foram FCrepouso, média dos valores de FC nos 60 segundos anteriores à execução de cada manobra; FCpico, maior valor de FC obtido durante as manobras; FCnadir, menor valor obtido após a interrupção das manobras; FCrecuperação, média dos 180 segundos finais do período de recuperação de cada manobra26; variação da frequência cardíaca (ΔFC), calculado pela diferença entre a FCpico durante cada manobra e a FCrepouso16,27; ΔFCisotime, calculado pela diferença do valor de FC no terceiro segundo após a inspiração profunda e a FC média de repouso; os índices de Valsalva (IV)15,16,18,28,29 e de PEmáx (IPEmáx), obtidos pela razão entre o maior iR-R do período de recuperação da manobra e o menor iR-R durante o pico da manobra. O trabalho estimado (W) das manobras foi calculado por meio da multiplicação dos valores de pressão expiratória observados nas manobras pelo tempo total (Wtotal) ou por 3 segundos (Wisotime). Para a avaliação dos valores de trabalho realizado proporcionalmente à FC, foram calculadas as razões Wtotal/ΔFCtotal e Wisotime/ΔFCisotime.

Análise estatística

O cálculo amostral, baseado nos resultados da ΔFC (MV: 35,80 bpm; PEmáx: 23,73 bpm e desvio-padrão de 9,78 bpm) obtidos no estudo piloto (n=5), com β=0,8 e α=0,05, sugeriu n=12 em cada grupo (MV e PEmáx). Para a análise estatística, utilizou-se o software SigmaPlot 11.0 (Systat, USA, 2011), sendo empregado o teste de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade da distribuição dos dados e ANOVA two-way para medidas repetidas com post-hoc de Holm-Sidak para verificar o efeito das manobras e das posturas, sendo que o nível de significância adotado foi de 5%. Os dados estão apresentados como média e desvio-padrão.

 

Resultados

A Tabela 1 apresenta a idade, os dados antropométricos dos voluntários e os valores de PEmáx obtidos e a porcentagem em relação aos valores preditos por Neder et al.25. Em relação ao índice de massa corpórea (IMC), inicialmente os sujeitos foram subdivididos de acordo com seu nível de IMC em eutróficos e sobrepesos e testada a influência dessa variável sobre o comportamento das respostas da FC. No entanto, como não houve diferença entre os subgrupos, todas as análises estatísticas foram realizadas considerando um único grupo.

 

 

Os valores da FC durante a execução das manobras são mostrados na Tabela 2. A Figura 2 ilustra o comportamento da FC observado durante as manobras. Houve diferença significativa entre as manobras para os valores de FCpico e de FCnadir. Entre as posturas, houve diferença nos valores de FCrepouso, FCnadir e FCrecuperação. Porém, quando comparadas as posturas intramanobras, foram observadas diferenças para os valores de FCnadir e FCrecuperação na MV e de FCrepouso e FCrecuperação na PEmáx. Houve diferença significativa entre as manobras para os valores de ΔFC e ΔFCisotime. Os índices IV e IPEmáx foram significativamente diferentes entre as manobras, com interação entre a postura e manobra. Na MV, o IV apresentou maiores valores na postura supino. Os valores de Wtotal, Wisotime e a razão Wisotime/ΔFCisotime foram diferentes entre as manobras.

 

 

Discussão

Os principais achados deste estudo são: a execução da PEmáx não reproduz as respostas da FC (ΔFC e índices) observadas na MV. Os resultados referentes ao trabalho e suas razões mostram a influência do tempo de execução da manobra. Adicionalmente, as respostas da FC (ΔFC e índices), do trabalho e suas razões não foram influenciadas pelas posturas estudadas.

Frequência cardíaca

A resposta da FC pode ser influenciada por diversos fatores, como gênero, idade, características genéticas e antropométricas, alteração da postura corporal, nível de aptidão física etc16,17,19,20. No presente estudo, a mudança postural influenciou o comportamento da FCrepouso, FCnadir e FCrecuperação, possivelmente devido às alterações na modulação simpática e parassimpática¸ promovidas pela mudança postural17,20,21.

Entretanto, durante a execução da MV, a FC é influenciada principalmente pela modulação autonômica, sendo que ela é responsável tanto pela fase de incremento rápido (retirada vagal sobre o nó sino atrial) quanto pela diminuição dos seus valores após interrupção da manobra (retomada da modulação vagal no nó sino atrial)17,20,21. Esses ajustes, associados aos ajustes da pressão arterial e da resistência vascular periférica, ocorrem em resposta à ativação dos barorreceptores arteriais (carotídeos e aórticos) e dos receptores cardiopulmonares14,15,22,23. Além disso, outros estudos mostram que a interação entre o reflexo simpático dos barorreceptores arteriais e o reflexo vagal, provavelmente desencadeado pelos receptores de estiramento pulmonar, é a responsável pelas ações cardiovasculares durante a MV14,22.

No presente estudo, não se observou diferença nos valores dos índices (IV e IPEmáx) e ΔFC entre as posturas supino e sentado. Nossos dados concordam com os de outros estudos, nos quais a influência da postura sobre a MV foi pesquisada14,19. Esses autores identificaram que a postura não interfere na FC e que a resposta da FC à MV é um mecanismo compensatório que ocorre a fim de evitar a hipotensão decorrente da diminuição do retorno venoso.

A importância do retorno venoso sobre as respostas da FC pode ser observada durante a execução da MV na postura supino. Nessa situação, foram encontrados os maiores valores de FC durante a manobra (116±9 bpm) e os menores valores de FC após a manobra (52±4 bpm), o que resultou em maiores valores de IV (2,3±0,2). Esse comportamento provavelmente decorre dos ajustes cardiovasculares necessários para manter o débito cardíaco durante e após a interrupção da manobra. O aumento da FC durante a MV está acompanhado do aumento da resistência vascular periférica (RVP) em resposta à diminuição do retorno venoso e do enchimento do ventrículo esquerdo, devido ao aumento da pressão intratorácica. Com a interrupção da manobra, ocorre aumento do retorno venoso e da PA que, via barorreceptores, estimula a retomada vagal, levando à bradicardia acentuada14-16.

O IV é um parâmetro empregado na avaliação indireta da integridade do SNA, caracterizada por valores superiores a 1,428. Os valores de IV obtidos neste estudo (supino: 2,3±0,2; sentado: 2,0±0,2) estão de acordo com os valores encontrados em outros estudos16,27,28 e indicam que os indivíduos apresentam SNA íntegro. Embora não haja relato prévio na literatura sobre os valores de IPEmáx, nossos resultados (supino: 1,5±0,2; sentado: 1,6±0,3) mostraram valores menores em relação ao IV. Essa diferença (Tabela 2) provavelmente é decorrente da maior ativação simpática (aumento da FC e RVP) e parassimpática (retomada vagal) que ocorre em resposta às alterações hemodinâmicas provocadas pelo aumento da pressão intratorácica durante a MV14-16,22.

Outro resultado importante do presente estudo mostrou que a FC é maior durante a MV em relação à PEmáx, independente da postura empregada. A FC é influenciada pelos ajustes hemodinâmicos que ocorrem durante o esforço expiratório contra resistência, presentes nas manobras estudadas15,16,22. Durante a MV, esses ajustes parecem ocorrer em maior proporção do que nas medidas de PEmáx, provavelmente devido ao maior tempo de execução da manobra29. No presente estudo, o tempo de execução da MV (15 segundos) foi aproximadamente quatro vezes maior do que nas medidas de PEmáx (4 segundos). Além do tempo de duração da manobra29, são necessárias outras pré-condições para que a resposta da FC seja semelhante à encontrada na MV, tais como alto volume pulmonar durante a manobra, baixa pressão expiratória e reatividade cardiovascular normal23.

Nesse sentido, Elghozi et al.30 avaliaram as respostas cardiovasculares de tocadores de tuba que deveriam: a) tocar notas baixas, médias e altas por 15 segundos, e b) executar a MV nas pressões de 10, 40 e 60 mmHg pelo mesmo tempo. Durante a execução de notas altas, os tocadores de tuba apresentaram respostas similares às encontradas na MV (40 e 60 mmHg). Entretanto, quando tocavam notas baixas, as respostas cardiovasculares foram discretas, aproximando-se das respostas observadas na MV de 10 mmHg. A diferença existente entre a execução de notas altas e baixas é o padrão de fluxo expiratório adotado, sendo maior durante as notas baixas. O padrão de alto fluxo expiratório necessário para tocar as notas baixas é similar ao encontrado no esforço expiratório realizado durante as medidas de PEmáx.

Assim, embora os voluntários do presente estudo possuam reatividade cardiovascular normal (indicada pelos valores de IV)23 e, previamente às medidas de PEmáx, tenham gerado altos volumes pulmonares (CPT), durante a execução dessas medidas, foram gerados valores de pressão expiratória elevados em períodos de tempo muito curtos. Essa característica, associada ao padrão de esforço expiratório de alto fluxo, provavelmente, é responsável pelo menor estresse intratorácico e menor proporção dos ajustes cardiovasculares comparados aos que ocorrem durante a MV31.

Trabalho

Quanto aos valores estimados de trabalho realizado durante as manobras, observou-se diferença estatística significante entre as manobras para o Wtotal, mas não para a relação Wtotal/FCtotal , independente da postura adotada. Em relação ao Wtotal, observou-se que os maiores valores foram encontrados durante a MV, mostrando assim a influência do tempo de execução da manobra (15 segundos) no comportamento dessa variável.

Por outro lado, observou-se diferença estatística (p<0,001) entre os valores de Wisotime e Wisotime/FCisotime , independente da postura adotada. Nesse caso, quando analisamos o trabalho realizado em um mesmo período de tempo de manobra (3 segundos), os maiores valores de pressão expiratória gerados durante a PEmáx (supino: 117±24 cmH2O; sentado: 114±25 cmH2O) foram responsáveis pelos maiores valores de Wisotime e Wisotime/FCisotime. Assim, a forma de execução da manobra, caracterizada pelo maior tempo de execução e pela maior pressão expiratória gerada na MV e na PEmáx, respectivamente parecem ser determinantes da medida do trabalho.

No entanto, embora os maiores valores de Wisotime e Wisotime/FCisotime ocorram durante a PEmáx, é importante ressaltar que as maiores variações da FC acontecem durante a MV. Isso ocorre, provavelmente, porque a PEmáx é executada em curto período de tempo e com altas pressões expiratórias, que levam a um menor estresse intratorácico. Essas condições diferem das descritas por Looga23 (alto volume pulmonar durante a manobra, baixa pressão expiratória e reatividade cardiovascular normal), como sendo necessárias para que uma manobra expiratória reproduza as respostas cardiovasculares encontradas na MV.

Implicações clínicas e limitações

Embora se tenha utilizado um método simples para a avaliação das respostas da FC, ele permitiu formular inferências a respeito delas, bem como permitiu obter resultados importantes sobre o comportamento dessa variável durante a MV e a medida de PEmáx. Entretanto, o presente estudo foi limitado pela indisponibilidade de equipamentos para aferição contínua da PA e da pressão intratorácica. Essas medidas poderiam fornecer informações complementares sobre o comportamento cardiovascular durante a execução dessas manobras.

Os resultados deste estudo permitem inferir que a execução da PEmáx não reproduz a resposta da FC observada na MV. Assim, pode-se afirmar que, em relação ao estresse cardíaco, sua aplicação na prática clínica fisioterápica é segura quando realizada em condições semelhantes à do presente estudo (sujeitos e metodologia). Além disso, os resultados encontrados podem ser utilizados como referência para novos estudos sobre o comportamento da FC durante a MV e a medida de PEmáx realizados em outras faixas etárias e/ou condições clínicas.

 

Conclusão

Baseado nos dados referentes às respostas da FC (IV e ΔFC) e ao trabalho estimado durante as manobras pode-se inferir que a execução das medidas de PEmáx em homens jovens, aparentemente saudáveis, não reproduz as respostas observadas na execução da MV. Dessa forma, parece que a aplicação das medidas de PEmáx nessa população é um procedimento de avaliação seguro nas condições estudadas.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasília, DF, Brasil - Processo nº 480638/2009-8, e ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - UFSCar (PIBIC-CNPq/UFSCar) - Processo nº 10672/2008-0, pelo suporte financeiro.

 

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Endereço para correspondência:
Aparecida Maria Catai
Rodovia Washington Luís, Km 235, Monjolinho
CEP 13565-905, São Carlos, SP, Brasil
e-mail: mcatai@ufscar.br

Recebido: 21/12/2011
Revisado: 02/04/2012
Aceito: 23/04/2012

 

 

* Parte deste trabalho foi apresentado no 1st Joint Meeting of the International Society for Autonomic Neuroscience and the American Autonomic Society, Búzios, Rio de Janeiro, Brasil, 2011.