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Brazilian Journal of Physical Therapy

Print version ISSN 1413-3555

Rev. bras. fisioter. vol.16 no.5 São Carlos Sept./Oct. 2012 Epub Sep 13, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-35552012005000044 

Associação entre sarcopenia, obesidade sarcopênica e força muscular com variáveis relacionadas de qualidade de vida em idosas

 

 

Luiz S. Silva NetoI; Margô G. O. KarnikowiskiII; Adriano B. TavaresIII; Ricardo M. LimaIV

IProjeto Universidade da Maturidade, Universidade Federal do Tocantins (UFT), Palmas, TO, Brasil
IIPrograma de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia em Saúde, Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil
IIIMestrado em Gerontologia, Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasília, DF, Brasil
IVFaculdade de Educação Física, UnB, Brasília, DF, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a associação entre sarcopenia, obesidade sarcopênica e força muscular com variáveis relacionadas à qualidade de vida em idosas.
MÉTODO: A amostra foi composta por 56 voluntárias do sexo feminino que se submeteram à análise de composição corporal (IMC e absortometria de raios-x de dupla energia DXA). A força de preensão palmar (FPP) foi mensurada pelo dinamômetro Jamar. Para análise de qualidade de vida, usou-se o questionário SF-36; para análise estatística, os dados foram apresentados por meio da estatística descritiva e Coeficiente de Correlação de Pearson. O software SPSS, versão 15,0, foi utilizado para realização de todas as análises.
RESULTADOS: As idosas apresentaram média de idade de 64,92±5,74 anos. Das 56 voluntárias avaliadas, 19,64% (n=11) foram classificadas com obesidade sarcopênica. Treze voluntárias (23,21%) foram classificadas como sarcopênicas. Os principais achados do presente estudo demonstraram que, embora não fosse encontrada significância estatística entre os parâmetros estudados em idosas classificadas com sarcopenia e obesidade sarcopênica e as dimensões de qualidade de vida, os valores médios foram inferiores nas acometidas. De forma interessante, a variável FPP correlacionou-se positiva e significativamente com todos os domínios do SF-36, com exceção de VIT (p=0,08) e SM (p=0,25).
CONCLUSÕES: A FPP é um fator determinante nos aspectos relacionados à qualidade de vida na população estudada. O rastreamento e a identificação de pequenas alterações funcionais por meio de medidas clínicas simples, como a FPP, podem favorecer a intervenção precoce e prevenir incapacidades. Em contraste, sarcopenia e obesidade sarcopênica não foram associadas à qualidade de vida.

Palavras-chave: sarcopenia; obesidade sarcopênica; força muscular; envelhecimento; reabilitação; qualidade de vida.


 

 

Introdução

O envelhecimento é caracterizado por um processo contínuo durante o qual ocorrem modificações dos diversos sistemas fisiológicos, redução da capacidade funcional e consequente repercussão na qualidade de vida dos idosos1,2. Um dos sistemas orgânicos afetados pelo avançar da idade é o musculoesquelético, o qual é envolvido em importantes funções corporais, como capacidade de realizar movimentos, contração muscular e locomoção. Uma relevante alteração reconhecida entre os idosos é a perda de massa magra, particularmente massa muscular, e uma concomitante redução de força2,3. Esse fenômeno tem sido denominado de sarcopenia em estudo pioneiro realizado por Rosenberg4, sendo a etimologia da palavra derivada do grego: sarc significando carne, e o sufixo penia, deficiência, pobreza. Outra reconhecida alteração da composição corporal associada ao envelhecimento é o aumento da massa gorda, aumentando o risco para o desenvolvimento da obesidade. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS)5, obesidade é o excesso de tecido adiposo no organismo, considerada uma doença crônica e inter-relacionada direta ou indiretamente com algumas outras situações patológicas contribuintes da morbimortalidade, como as doenças cardiovasculares, osteomusculares e neoplásicas6.

Atualmente, o termo sarcopenia não é restritamente utilizado para se referir à redução de massa livre de gordura (MLG), mas também à concomitante perda de força e função muscular. Observa-se esse fenômeno tanto em homens como em mulheres7, associado à perda de autonomia8, risco aumentado de quedas9, redução da densidade mineral óssea10 e declínio da capacidade funcional11,12. Ademais, é relevante mencionar que um estudo recente observou que reduzida MLG apendicular (MLGA) foi significante preditor de mortalidade em idosos13. Relatos fornecem evidências de que a sarcopenia apresenta implicação nos custos assistenciais em saúde14, portanto é importante essa informação no sentido de melhor entender esse fenômeno, em particular, no que se refere à qualidade de vida dessa população.

A dificuldade para classificação de indivíduos como portadores da sarcopenia constitui um empecilho na prática clínica e condução de pesquisas científicas. Um estudo pioneiro nessa temática8 propôs um ponto de corte correspondente a uma MLG inferior a dois desvios-padrão da média de um grupo referencial de jovens com idade compreendida entre 18 e 40 anos, análogo à classificação de osteoporose. Os valores de corte apresentados pelos autores foram de uma MLGA (i.e., membros superiores mais membros inferiores) dividida pela estatura ao quadrado menor que 7,26 kg/m² e 5,45 kg/m² para homens e mulheres, respectivamente. Entretanto, essa abordagem foi pouco estudada em idosos brasileiros. Lima et al.10 observaram uma associação com força muscular e densidade mineral óssea, enquanto Oliveira et al.11 demonstraram que idosos classificados como sarcopênicos apresentaram capacidade funcional significativamente inferior. É importante, porém, a investigação dessa abordagem em relação à qualidade de vida dessa população.

Mais recentemente, Newman et al.15 destacaram a importância de se considerar a massa gorda (MG) ao examinar a sarcopenia. Esses autores demonstraram que, sem contemplar a MG, indivíduos com peso corporal elevado não são classificados como sarcopênicos, embora sua MLG seja insuficiente em relação ao tamanho corporal total. Essa condição de baixa MLG e alta MG tem sido denominada de obesidade sarcopênica. Um estudo prévio relatou que a obesidade sarcopênica foi associada a piores funções físicas do que em situações somente de obesidade e somente sarcopenia16, e assim tem sido examinada recentemente como uma importante causa de fragilidade entre idosos17-19. Dessa forma, a influência do acometimento sobre a qualidade de vida é possível, entretanto a carência de estudos exige que a temática seja mais bem elucidada.

Newman et al.15 propuseram uma abordagem para determinar baixa MLG ajustada para estatura e MG, a qual foi relacionada a limitações funcionais e a marcadores inflamatórios20 em idosos. No entanto, esses autores levantaram a importância de determinar tal associação com outras variáveis relacionadas à saúde, tais como força, função muscular e índices de qualidade de vida. Além disso, eles não estabeleceram um valor de corte abaixo do qual indivíduos sejam classificados como portadores da obesidade sarcopênica. Nessa direção, Oliveira et al.21 investigaram a aplicação da abordagem proposta por Newman et al.15 em idosas brasileiras, e os resultados apontaram para uma associação com força muscular e índices da aptidão cardiorrespiratória, entretanto esses dados iniciais requerem aprofundamento em futuros estudos, especialmente no que concerne aos efeitos sobre a qualidade de vida relacionada à saúde dessa população. Embora qualidade de vida seja um constructo amplo e subjetivo, a qualidade de vida relacionada à saúde é focada nos aspectos funcionais e no processo de saúde-doença, bem como nos efeitos de tratamentos diversos22.

Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi examinar a associação entre sarcopenia, obesidade sarcopênica e força muscular e as variáveis relacionadas à qualidade de vida em idosas.

 

Método

Amostra

A amostra do estudo, que teve um delineamento transversal, foi composta por 56 voluntárias do sexo feminino, com idade média de 64,92±5,74 (variando entre 60 e 79 anos), que foram recrutadas entre as participantes do Programa de Extensão Universidade da Maturidade da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Palmas, To, Brasil. Todas as participantes responderam a um questionário para obtenção de informações referentes a histórico médico, tratamento de reposição hormonal, cidade de nascimento e comorbidades. Adicionalmente, o nível de atividade física das participantes foi mensurado por meio do IPAQ-versão curta, do inglês Internacional Physical Activity Questionaire, validado e adaptado para realidade brasileira. O questionário foi administrado em entrevistas de forma individual, conforme recomendação de uso em países em desenvolvimento, o que permite a classificação de indivíduos, de acordo com a pontuação, em muito ativos, ativos, insuficientemente ativos e sedentários23.

Excluíram-se do estudo idosas com incapacidade de locomoção sem assistência, existência de prótese metálica, desordem metabólica ou endócrina que sabidamente afeta o sistema muscular, anormalidade de condução cardíaca que contraindicasse a realização das avaliações propostas no estudo. Todas as voluntárias assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, contendo informações sobre os procedimentos, bem como riscos e benefícios associados à pesquisa. Antes de iniciar a coleta de dados, o projeto foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFT sob o protocolo de número 076/2010.

Avaliação da composição corporal

A massa corporal de todas as voluntárias foi mensurada com resolução de 0,1 kg utilizando-se uma balança digital (marca Filizolla), após remoção dos sapatos e com as voluntárias vestidas com roupas leves. A estatura foi mensurada com resolução de 0.1 cm utilizando-se um estadiômetro (CARDIOMED, Brasil) fixado na parede. O índice de massa corporal (IMC) foi calculado dividindo-se a massa corporal pela estatura ao quadrado (kg/m2).

Para mensurar a composição corporal, usou-se a absortometria de raios-x de dupla energia (DXA), tipo Lunar DPX, com software Encore 2005. Para o procedimento, as voluntárias se posicionaram em decúbito dorsal sobre a mesa do equipamento, sendo, em seguida, cuidadosamente posicionadas de forma que ficassem totalmente centralizadas em relação às laterais da mesa. Todas as avaliações foram realizadas pelo mesmo técnico. Após análise de toda a área corporal, o DXA possibilita a determinação da densidade mineral óssea e dos tecidos. Os tecidos são ainda fracionados em MG e MLG. Os apêndices (membros superiores e inferiores) foram isolados do tronco e da cabeça por meio de linhas geradas pelo programa, as quais, em seguida, eram manualmente ajustadas com precisão. Dessa forma, além de o equipamento fornecer valores de MLG do corpo inteiro, é possível também identificar valores de MLG para as seguintes regiões corporais: membros superiores, membros inferiores e tronco.

Identificação de obesidade sarcopênica e sarcopenia

Com os valores de composição corporal obtidos pelo DXA, foi possível identificar o ponto de corte para obesidade sarcopênica de acordo com a abordagem previamente proposta21. Brevemente, o ponto de corte foi definido com base na medida proposta por Newman et al.15, sendo assim, Oliveira et al.21 propuseram um ponto de corte correspondente a valores residuais menores ou iguais a dois desvios-padrão da média de um grupo de referência composto por mulheres jovens (idades entre 18 e 40 anos), em que também foram avaliados idosos de ambos os sexos. A equação de predição da MLGA gerada no estudo supracitado foi: MLGA = -14,529 + (17,989 x estatura em metros) + 0,1307 x MG total kg. O ponto de corte correspondeu a um valor residual, ou seja, a MLGA medida menos a MLGA predita pela equação menor ou igual a -3,4. Dessa forma, as voluntárias que apresentaram valor residual menor ou igual a -3,4 foram classificadas como portadoras de MLG inadequada para a superfície corporal, condição denominada obesidade sarcopênica. Para sarcopenia, adotou-se o ponto de corte proposto por Baumgartner et al.8, os quais definem como sarcopênicos indivíduos do sexo feminino com a MLGA dividida pela estatura ao quadrado inferior a 5,45 kg/m2.

Avaliação de força de preensão palmar

A FPP foi mensurada pelo dinamômetro modelo JAMAR. Para a avaliação, as voluntárias foram posicionadas na posição sentada padronizada pela SATM (Sociedade Americana de Terapeuta de Mãos), na qual os quadris e os joelhos se encontram fletidos a 90º, ombro aduzido em posição neutra, cotovelo fletido a 90º e antebraço em semipronação sem que haja desvio radial ou ulnar. A pegada no dinamômetro foi ajustada individualmente de acordo com o tamanho das mãos, de forma que a haste mais próxima do corpo do dinamômetro estivesse posicionada sobre as segundas falanges dos dedos indicador, médio e anular24. Os testes foram realizados três vezes, de maneira alternada, começando pela mão dominante e, em seguida, pela mão não dominante, com intervalo de 1 minuto entre cada tentativa a fim de evitar fadiga durante o teste. A força foi aplicada durante 5 segundos para cada tentativa, sendo considerada a medida de maior valor25. Os resultados foram registrados em kg/f.

Avaliação da qualidade de vida

Os níveis de qualidade de vida foram mensurados pela Medical Outcomes Survey Short-form General Health Survey (SF-36), traduzido e validado para a realidade brasileira por Ciconelli et al.26. A escala consiste em 36 itens que abordam limitações na vida diária em razão de problemas de saúde, proporcionando uma estimativa subjetiva do estado funcional do indivíduo. O SF-36 resulta em uma classificação de oito domínios: capacidade funcional, aspecto físico, dor, vitalidade, aspecto social, aspecto emocional, saúde mental e estado geral de saúde, avaliados mediante a transformação das respostas em escores de 0 a 100, em que zero corresponde a "pior" e cem a "melhor" estado de saúde.

Análise dos dados

Para verificar a normalidade da distribuição dos dados, utilizou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov. Os dados foram apresentados por meio da estatística descritiva, utilizando-se os procedimentos de média e desvio-padrão. Para comparar as variáveis dependentes (qualidade de vida e FPP) entre as voluntárias que apresentavam obesidade sarcopênica e as que não apresentavam, conduziu-se um teste t para amostras independentes. O mesmo procedimento foi feito para comparação entre as que apresentavam sarcopenia e as que não apresentavam. O teste do qui-quadrado foi utilizado para verificar se havia diferença entre os grupos para reposição hormonal. O Coeficiente de Correlação de Pearson foi adotado para verificar o relacionamento entre variáveis da MLGA e as variáveis dependentes. O nível de significância adotado no presente estudo foi um valor de p menor ou igual a 0,05. O software SPSS, versão 15,0, foi usado para realização de todas as análises.

 

Resultados

Os resultados da caracterização da amostra são apresentados de forma descritiva, considerando-se médias e desvios-padrão de todas as variáveis. A Tabela 1 apresenta as características das voluntárias participantes do presente estudo, especificamente, idade, FPP e composição corporal avaliada pelo DXA. Um total de 56 mulheres idosas (média de idade 64,92±5,74) participou do estudo, realizando-se em todas as medidas da massa corporal total e estatura, bem como mensurações para avaliação da composição corporal e FPP. A Tabela 2 apresenta as características das variáveis relacionadas a domínios de qualidade de vida avaliados por meio do questionário SF-36.

 

 

 

 

Na Tabela 3, apresentam-se as variáveis de qualidade de vida e força muscular de acordo com a classificação de obesidade sarcopênica proposta21. Assim, cabe reforçar que o autor citado propôs um ponto de corte baseado no estudo de Newman et al.15, fundamentado nos resíduos de uma regressão que prediz a MLGA a partir da MG e estatura. Das 56 voluntárias avaliadas, 19,64% (n=11) foram classificadas com obesidade sarcopênica, e 80,36% (n=45) foram classificadas como não obesas sarcopênicas. Ao se compararem as com obesidade sarcopênica com as com não obesidade sarcopênica, observou-se diferença significativa nas variáveis MLGA e percentual de gordura. O teste do qui-quadrado revelou que o número de participantes que realizavam reposição hormonal não diferiu significativamente entre os grupos. Adicionalmente, é interessante notar que a variável FPP e aquelas relacionadas à qualidade de vida apresentaram, em geral, valores médios inferiores nas voluntárias classificadas como portadoras de obesidade sarcopênica, entretanto, sem significância estatística.

 

 

Na Tabela 4, apresentam-se as variáveis de qualidade de vida e força de acordo com a abordagem de sarcopenia proposta por Baumgartner et al.8. Das 56 participantes deste estudo, 13 (23,21%) foram classificadas como sarcopênicas, enquanto, 43 (76,78%) foram classificadas como não sarcopênicas. Diferenças significativas foram encontradas para as variáveis peso corporal, IMC, MLGA, percentual de gordura e FPP. De forma similar ao que se observou para obesidade sarcopênica, as variáveis de qualidade de vida avaliadas por meio do questionário SF-36, em geral, apresentaram valores médios inferiores nas idosas classificadas como sarcopênicas. Adicionalmente, o teste do qui-quadrado revelou que o número de participantes que realizavam reposição hormonal não diferiu significativamente entre os grupos.

 

 

A Tabela 5 apresenta as correlações de valores residuais, MLGA e FPP com os domínios de qualidade de vida propostos no SF-36. Encontraram-se correlações positivas e significativas entre valores residuais (Newman et al.15) e a MLGA, bem como entre a MLGA e a FPP. Adicionalmente, tanto a MLGA como os valores residuais apresentaram uma tendência à correlação significativa com o domínio dor do SF-36 (p=0,06 e 0,08), respectivamente. De forma interessante, a variável FPP correlacionou-se positiva e significativamente com todos os domínios do SF-36, com exceção de VIT (p=0,08) e SM (p=0,25). Finalmente, observou-se que a idade das voluntárias correlacionou-se negativa e significativamente com a FPP (r=-0,30; p=0,02).

 

Discussão

Os principais achados do presente estudo demonstraram que, embora não fosse encontrada significância estatística entre os parâmetros estudados em idosas com sarcopenia e com obesidade sarcopênica com as dimensões de qualidade de vida, os valores médios foram inferiores nas acometidas. Tais resultados merecem atenção, visto que sarcopenia e obesidade sarcopênica têm sido apontadas como um aspecto negativo da saúde do idoso27, com risco aumentado de doenças e mortalidade13, diminuindo sua capacidade funcional e qualidade de vida28-33. Adicionalmente, os valores reduzidos de MLGA observados tanto na sarcopenia como na obesidade sarcopênica foram associados aos valores reduzidos de FPP. De forma importante, essa variável foi positiva e significativamente correlacionada com as dimensões de qualidade de vida, sugerindo, portanto, ser um fenótipo de relevância para a população estudada. Em conjunto, os resultados observados sugerem que a FPP, uma mensuração de relativo baixo custo e fácil implementação, é uma preditora de qualidade de vida em idosas. De fato, a importância da FPP para indivíduos com idade avançada é consistente com a literatura34-38.

A obesidade sarcopênica, reduzida MLG e aumentado percentual de gordura19, embora seja uma condição que apenas recentemente vem sendo estudada, tem sido referida como importante causa de fragilidade entre idosos19,28,39. Dessa forma, o melhor conhecimento acerca da obesidade sarcopênica

torna-se ainda mais relevante, uma vez que o do número de idosos no mundo encontra-se em crescente aumento16. No presente estudo, utilizando a classificação proposta por Oliveira et al.21, ao comparar os valores médios de qualidade de vida entre obesas sarcopênicas e não sarcopências, observou-se que eles apresentaram-se inferiores sem, no entanto, atingir significância estatística. Tais achados podem estar relacionados com a natureza subjetiva do questionário40. Nesse sentido, é importante mencionar que um recente estudo21 demonstrou que a obesidade sarcopênica está relacionada à reduzida força muscular e capacidade funcional em idosas. Ademais, Bouchard e Janssen41, num estudo transversal envolvendo 2.039 homens e mulheres com idade acima de 55 anos, observaram que a obesidade sarcopênica foi associada a piores funções quando comparada à obesidade ou à sarcopenia isoladamente.

Utilizando a abordagem para classificação de sarcopenia proposta por Baumgartner et al.8, ou seja, uma MLGA dividida pela estatura ao quadrado menor do que 5,45 kg/m2, observou-se uma prevalência de 23,21%, achados que são similares a outros estudos envolvendo idosas brasileiras8,9. De forma semelhante ao que se encontrou para obesidade sarcopênica, as dimensões de qualidade de vida avaliadas pelo SF-36 não deferiram significativamente ainda que os valores médios fossem inferiores nas acometidas. Entretanto, observou-se que a FPP apresentou-se significativamente inferior nas idosas sarcopênicas, variável que, por sua vez, foi significativamente associada à qualidade de vida42,43. Nesse sentido, vale salientar que o conceito de qualidade de vida é amplo e subjetivo, envolvendo a percepção do indivíduo sobre sua vida, suas expectativas e preocupações44. Não obstante, na década de 90, surgiu o termo qualidade de vida relacionada à saúde, o qual é focado no processo saúde-doença, nos aspectos funcionais e seu impacto na rotina diária dos indivíduos. Portanto, é o desfecho que especificamente constitui o objeto do presente artigo, embora o termo qualidade de vida seja empregado de forma genérica.

Consistente com achados prévios38,42,43,45,46, os resultados observados realçam a importância preditora da FPP em idosos, uma variável de ampla aplicabilidade, baixo custo, rápida implementação e característica não invasiva. Em particular, as observações do presente estudo sugerem uma associação entre a FPP e qualidade de vida relacionada à saúde na população estudada, uma vez que apresentou correlação com grande parte das dimensões, especificamente capacidade funcional, aspectos físicos, emocionais e sociais, bem como a referência à dor e ao estado geral de saúde. Dixon et al.47, em um estudo envolvendo homens e mulheres com idade acima de 50 anos, demonstrou que, nas mulheres, a FPP foi associada a baixa densidade mineral óssea da coluna e do quadril, bem como risco aumentado para fraturas, independente do estilo de vida ou diferenças no tamanho corporal. De forma importante, a FPP tem até mesmo sido associada à mortalidade em indivíduos com idade avançada. Em um estudo longitudinal de 25 anos de Metter et al.48, a FPP apresentou um impacto na mortalidade por todas as causas e demonstrou que, embora a baixa massa magra seja importante, não explicou totalmente os efeitos da força. Nessa mesma direção, Gale et al.49, em um estudo longitudinal de 24 anos, observou que a FPP é um preditor de longo prazo para mortalidade por todas as causas, por doenças cardiovasculares e por câncer em homens. Finalmente, a correlação negativa observada entre a idade e a FPP no presente estudo indica que, mesmo após os 60 anos, essa variável declina com o avançar da idade.

Com isso, depreendem-se relevantes implicações clínicas deste estudo. No âmbito da avaliação funcional de idosos, os achados ressaltam a importância de se contemplar a força muscular, em particular, a FPP, que constitui uma mensuração não invasiva, de baixo custo e fácil implementação. Adicionalmente, no que se refere à adoção de medidas preventivas ou terapêuticas para esse grupo etário, os resultados destacam a importância de intervenções que minimizem os fenótipos relacionados à sarcopenia, sobretudo a força muscular. Nesse sentido, a adoção de um estilo de vida fisicamente ativo tem sido consistentemente associado à preservação de massa e força muscular. Em particular, o treinamento resistido bem como uma nutrição adequada apresentam grande potencial para modificação dessa realidade2,50.

O presente estudo apresenta algumas limitações. Todas as voluntárias são da nacionalidade brasileira, portanto os resultados não podem ser extrapolados para outras populações nem para idosos do sexo masculino. Ademais, a natureza transversal da investigação não permite estabelecer relação de causa e efeito, entretanto fornece evidência de que as variáveis dependentes estão associadas à FPP. Finalmente, pontos de corte para classificação de sarcopenia e obesidade sarcopênica precisam ser mais bem estabelecidos na literatura. Não obstante, os pontos de corte adotados foram previamente estudados em idosas brasileiras e significativamente associados à força muscular, densidade mineral óssea e capacidade funcional10,11,21.

 

Conclusões

Com base nos resultados observados, embora não se tenha notado a associação significativa da sarcopenia e da obesidade sarcopênica com os domínios de qualidade de vida, elas foram associadas a reduzidos valores de FPP. Por sua vez, a FPP foi positiva e significativamente correlacionada com variadas dimensões do SF-36, sugerindo ser um importante preditor da qualidade de vida em idosas. Consistente com achados prévios, os dados apresentados no presente estudo demonstram que a FPP constitui uma mensuração de baixo custo e fácil implementação a ser incorporada nas avaliações de rotina clínica dos profissionais de saúde, auxiliando os procedimentos de prevenção e intervenção.

 

Agradecimentos

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasília, DF, Brasil, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasília, DF, Brasil, à Universidade da Maturidade da UFT, à Universidade Católica de Brasília e ao Laboratório Arai Kaminish & Costa.

 

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Endereço para correspondência
Luiz Sinésio Silva Neto
Universidade Federal do Tocantins
Coordenação Geral da UMA, Av. NS 15, ALCNO 14, 109 Norte
CEP 77.001-090, Palmas, TO, Brasil
e-mail: luizneto@mail.uft.edu.br

Recebido: 20/09/2011
Revisado: 08/02/2012
Aceito: 24/04/2012