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Revista Brasileira de Educação Especial

Print version ISSN 1413-6538

Rev. bras. educ. espec. vol.17 no.spe1 Marília May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-65382011000400003 

Valores influenciando a visão do ser humano e pesquisa em educação especial: uma reflexão

 

Values influencing the perception of the human being and research in special education: a reflection

 

 

Maria Cecília de Freitas Cardoso-buckley

Psicopedagoga, Doutora em Educação Especial. Especialista em Educação Especial e Inclusão. Stanley British Primary School, Estados Unidos da América - mariacecilia@stanleybps.org

 

 


RESUMO

Os valores pessoais e coletivos que influenciam nossa visão do ser humano podem apresentar consequencias para a pesquisa em educação. Atualmente desenvolvem-se tecnologias e preconiza-se a inclusão de todos, que trazem valores intrínsecos proclamados ou não. Ao mesmo tempo coexiste na sociedade atual a rejeição de diferenças e da valorização do ser humano com deficiências. Isto faz necessária uma reflexão sobre as implicações que as atuais e divergentes visões do ser humano acarretam para a pesquisa em Educação Especial.

Palavras-chave: Educação Especial. Inclusão. Pesquisa da Educação. Pessoa. Valores. ANPEd.


ABSTRACT

Personal and collective values that influence our perception of the human being may have consequences for research in education. Technologies are currently being developed and full inclusion is put into practice, which carry intrinsic values, proclaimed or not. At the same time, the rejection of differences and the praise for the human being coexist with disabilities in today's society. This paper presents a comprehensive reflection upon the implications that the current and differing perceptions of the human being bring to research in special education.

Keywords: Special Education. Inclusion. Educational Research. Person. Values. National Association of Post-Graduation and Research.


 

 

1 INTRODUÇÃO

Ocupados que somos em nossa prática educacional, onde sempre pululam assuntos a serem estudados, sem que terminem nossa sede de saber nem nossa vontade de produzir conhecimentos, pode facilmente acontecer que deixemos de refletir sobre nossa visão de mundo e de pessoa humana.

A pesquisa em educação procura conhecer a realidade e o fazer, explorando as diferentes possibilidades de atuar na educação, avaliando, sugerindo novas formas de ação. Entretanto, é fora de dúvida de que a prática da pesquisa em Educação Especial depende do que se entende ou do que se adota por fins e objetivos da educação e, isso também, depende de uma filosofia de vida sobre o educando, o educador e a comunidade a que pertencem. Convém, portanto, periodicamente, parar para refletir sobre a visão que temos sobre a pessoa humana e a comunidade humana e sobre como esta visão, direta ou indiretamente, guia nossa pesquisa.

Usamos todas as técnicas e estratégias possíveis para cuidadosamente sermos ao máximo objetivos e isentos de preconceitos, ideias preconcebidas e tendências. Em um trabalho científico, busca-se ao máximo a objetividade nas investigações. Entretanto, qualquer pesquisa corresponde a uma opção e a um critério.  No trabalho humano, é impossível estar totalmente isentos de ideias e valores pessoais e coletivos, e, por mais que quiséssemos, não conseguiríamos nos desvincular de nossos valores, que sempre nos acompanham. Até a escolha do objetivo da pesquisa depende de valores dos pesquisadores e do grupo a que pertencem; até mesmo porque não temos meios financeiros e tempo para que se investigue tudo o que gostaríamos de conhecer. Surgirá, então, grandes questões: a partir de como se vê o sujeito e as intrincadas questões que hoje se apresentam, o que pesquisar em Educação Especial, e como nossa prática de pesquisa está influenciada pelos valores que temos, individualmente e coletivamente?

 

2 DESENVOLVIMENTO

Numa visão do ser humano que tenha lugar para o princípio de inclusão, hoje internacionalmente aceito como desejável, busca-se uma revolução não somente na Educação Especial, mas em toda a prática educativa; pois, inclusão exige que todos recebam o apoio que é necessário para participação na comunidade a que pertencem. Muitos são os valores implícitos no princípio de inclusão, alguns largamente reconhecidos, outros poucas vezes mencionados. Alguns destes valores não são respeitados por muitos que tem uma ideia preestabelecida de "normalidade", que busca incentivar a todos que tenham comportamentos e valores iguais, segundo a norma estatística, e pelas fortes tendências para rejeição na sociedade atual.

A pesquisa em Educação Especial volta-se para os mais variados assuntos direta ou indiretamente relacionados à educação de pessoas com específicos tipos de deficiências (sensoriais, físicas, intelectuais), diferenças relacionadas ao desenvolvimento e ao comportamento; e a pessoas com superdotação. Atualmente, o mundo reconhece que não faz sentido que alguns andem para a frente, deixando outros de lado, ou para trás. Acordos são assinados. Belas declarações são feitas. Políticas são traçadas. Planos educacionais são elaborados. É preciso incluir a todos. É preciso que todos participem. É preciso que todos - sem exceção - estejam realmente "em casa" em sua comunidade. Valoriza-se a cooperação entre todos, a solidariedade.

Temos visto, nos últimos anos, grandes saltos no desenvolvimento de tecnologias especificamente desenhadas para aumentar a comunicação, locomoção, participação - a qualidade de vida - de pessoas com as mais variadas características e deficiências. Talentos antes desconhecidos são descobertos e desenvolvidos. O surgimento de novas normas arquitetônicas, de novas metodologias e estratégias de ensino, de sofisticadas aparelhagens eletrônicas, de materiais adaptativos, são alguns exemplos de como a historia da humanidade mudou no que se pode oferecer não somente a pessoa com deficiências, mas a toda a população que pode beneficiar-se da presença e da participação de todos. Jamais se teve oportunidades como temos hoje; do ponto de vista tecnológico, vivemos num tempo propício para a inclusão.

Com uma abordagem inclusiva, abre-se o diálogo para o reconhecimento das diferenças de todos e passa a ser aceitável o que anteriormente era tabu - todos os educandos (portanto todas as pessoas...) têm diferenças, talentos particulares e necessidades específicas que devem ser considerados e atendidos. Se levarmos esta afirmação às suas últimas consequências - e os mais ousados o afirmamos - chega-se a uma visão da pessoa humana onde, com suas diferenças, todos, sem exceção, são únicos, insubstituíveis, trazendo suas deficiências e seus dons que apontam necessidades que, embora sejam variadas em tipo, número e grau, requerem reconhecimento e algum tipo de ação por parte da comunidade.

Este reconhecimento traz inúmeras consequências, nem sempre fáceis de defrontarmos. A deficiência não é mais uma característica somente das pessoas tradicionalmente diagnosticadas como tal, assim como ter dons não é um atributo das pessoas tradicionalmente consideradas "típicas". Ter deficiências e ter dons são predicados inerentes ao ser humano - qualquer ser humano. Todos, então, precisam de todos. Ninguém se basta. Somos todos interdependentes na comunidade humana. A aceitação da diferença de necessidades implica em aceitar que é justo e desejável que a cada um seja oferecido o que precisa para atender a suas necessidades - não importando o tipo ou custo dos recursos que se façam necessários. Pertencemos todos a uma mesma comunidade humana, que é mais completa com a presença e a participação livre e responsável de cada um.

E numa comunidade onde todos se respeitam e dão vez a todos, a existência de amizade entre pessoas com aparentemente as mais diferentes características não é somente possível, mas se apresenta como um valor a ser desejado. Será uma consequência natural e um sinal da existência de inclusão, pois o desenvolvimento de amizade requer frequente interação de um com o outro, valorização e respeito à unicidade, personalização nos relacionamentos, mutualidade nas interações, e interdependência voluntária entre pessoas.

Valorizar a inclusão de todos faz sentido quando percebemos cada pessoa humana como tendo algo a contribuir, tendo um dom essencial a ser partilhado na comunidade. A essência do "ser" como pessoa no meio da comunidade tem valor por si própria. A pessoa tem direito a estar presente, participar, colaborar, trazendo algo de único e indispensável para a comunidade - assim como ela é. Tem direito a ter suas necessidades específicas atendidas, a ter oportunidades para desenvolver seus dons específicos e crescer em todos os sentidos, a ter melhor qualidade de vida, a melhor participar e colaborar, com direito também a ser plenamente ela mesma - quem ela é - sem precisar "ser como os demais".

No entanto, há divergências no que significa "incluir" e "participar", ou no que seria uma participação aceitável, pois não está claro quem a determina, enquanto existe o que chamaria de uma "inclusão seletiva" - que serviria para algumas pessoas, mas não todas. Percebo também, muitas vezes, um esforço por uma certa busca de padronização de comportamentos, que em nome de "inclusão", o educando é levado a seguir o que é considerado padrão de comportamento, mesmo que isto venha contra os valores do indivíduo e de sua família, com o risco de aniquilar-se a unicidade do indivíduo com o seu direito à liberdade e à escolha, e de se comprometer o papel da família na educação.

Paralelamente ao advento da inclusão educativa, encontramo-nos hoje numa sociedade mundial altamente permeada com uma visão do ser humano voltada para a valorização da independência e do individualismo, bem como do "perfeito", "rápido", "eficiente", "capaz". Ser "deficiente" (ou "não-eficiente", no que quer que seja) é frequentemente desprezível, negado, escondido ou ignorado, e, consequentemente, há pessoas com dificuldade em admitir que possuam deficiências. Pessoas são julgadas pelo que possuem ou produzem. O mundo em que vivemos não quer ter lugar para quem "tem necessidades", porque isto requer uma comunidade que ofereça oportunidade para pertença e que responda às necessidades que se apresentam.

Assim, buscam-se soluções instantâneas e, muitas vezes, não se quer dar espaço para quem um outro - ou o grupo social - deve empregar tempo, recursos ou dinheiro. Frequentemente vemos exemplos nos jornais e noticiários sobre avanços científicos que podem colaborar para o bem de todos, lado a lado, a notícias sobre cortes de verbas que antes atendiam a necessidades específicas de tantos. Sentimos na pele a pressão por ter mais, fazer mais, produzir mais rapidamente. "Inclusão" corre o risco de vir a ser uma bandeira de vanguarda que dê margem a aceitar que se adote a colocação de alunos com deficiências em situações de aprendizagem nas quais os serviços específicos de que necessita lhe são negados ou são inexistentes, tornando-se um "serviço barato" com uma roupagem bonita.

Nota-se, também, especialmente nos países ditos desenvolvidos, o crescente medo em gastar preciosos recursos financeiros com a saúde, apoio, educação e oportunidades para pessoas com deficiências (ou consideradas "imperfeitas"). Uma forte tendência para a eugenia ressurge aos poucos, às vezes quase imperceptivelmente, outras vezes praticamente às claras. Questiona-se, em muitos lugares, o valor da vida de alguém com deficiências, e aumenta o incentivo ou pressão para suprimi-las.

 

3 CONCLUSÃO

É preciso estar ciente dos diferentes valores que favorecem a inclusão, e das forças contrárias à valorização de cada pessoa, prerrequisito para uma verdadeira inclusão. A rejeição continua ocorrendo concomitantemente com a promoção de práticas inclusivas na sociedade.

É nesta comunidade humana, perplexa e cheia de dicotomias e incoerências, com diferentes tipos de visão da pessoa humana, que buscamos a inclusão. São os membros desta comunidade que chamamos a abraçar o princípio de acolher as diferenças - reconhecendo e respeitando cada pessoa como ela é, com seu valor intrínseco, com todos os seus dons e suas deficiências - e todas as consequências advindas deste reconhecimento e respeito. É preciso refletir sobre as implicações que as atuais e divergentes visões da pessoa humana trazem para a educação e sobre suas influências em nossa própria visão do ser humano, para que possamos estar sempre alertas a como nossos valores pessoais e coletivos trazem consequências para a pesquisa em Educação Especial.

 

 

Recebido em: 13/07/2011
Aceito em: 30/08/2011