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Revista Brasileira de Educação Especial

versão impressa ISSN 1413-6538

Rev. bras. educ. espec. vol.19 no.3 Marília jul./set. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-65382013000300005 

RELATO DE PESQUISA

 

Manifestações e prevalência de bullyng entre alunos com altas habilidades/superdotação1

 

Bullying manifestations and prevalence among gifted students

 

 

Marcília de Morais DalostoI; Eunice Maria Lima Soriano de AlencarII

IDoutoranda em Educação pela Universidade Católica de Brasília, Secretaria de Estado de Educação do Governo do Distrito Federal, Brasília/DF. marciliamd@bol.com.br
IIPh.D em Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, DF. eunices.alencar@gmail.com

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivo investigar o envolvimento de alunos com altas habilidades/superdotação com a prática de bullying, tendo como base os papéis assumidos por eles na condição de vítima, agressor e/ou testemunha. Participaram da pesquisa 118 alunos oriundos de escolas públicas (107) e escolas particulares (11) que frequentavam um programa para estudantes com altas habilidades/superdotação, oferecido pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário sobre bullying. Os resultados indicaram que os alunos com altas habilidades/superdotação vivenciaram, nas escolas onde cursavam o ensino regular, situações de bullying, nas suas diferentes formas de manifestação, tendo sido constatado o envolvimento desses alunos com bullying tanto na condição de vítimas como de agressores e testemunhas. Dentre os comportamentos mais citados pelos participantes, na condição de vítima, encontram-se os de "zoar"/humilhar, fofocar/fazer intrigas, atirar objetivos e excluir das brincadeiras. Na condição de agressor, excluir das brincadeiras, apelidar, atirar objetos, "zoar"/humilhar e desprezar foram os mais apontados. A maioria desses comportamentos se manifestava de forma velada, o que dificulta a identificação dessas ações, exigindo um olhar mais atento do adulto. Espera-se que o presente estudo contribua para a compreensão mais ampla do fenômeno do bullying entre os superdotados, bem como possa servir de inspiração e orientação para que sejam adotadas medidas para o enfrentamento dessa realidade, tão danosa aos alunos envolvidos.

Palavras-chave: Educação Especial. Bullying. Altas Habilidades/Superdotação. Escola.


ABSTRACT

The objective of this study was to investigate gifted students' involvement with the practice of bullying, based on the roles they may take on as victim, aggressor, and/or witness. Participants included 118 students (107 from public schools and 11 from private schools) who attended a program for gifted students offered by the State Department of Education of the Federal District, Brazil. The data were collected through a questionnaire on bullying. The results indicated that gifted students experienced, in the regular schools where they were enrolled, episodes of bullying in its different forms of manifestation. Among the bullying behaviors most cited by the participants as victims were "messing with" or humiliating the victim, gossip, creating intrigue, throwing objects and excluding the victim from playing. Name calling, excluding the colleague from playing, throwing objects, "messing with" or humiliating the colleague and disdain were the most frequent bullying acts pointed out in the condition of aggressor. The majority of the bullying behaviors were manifested in a disguised way, making it difficult to identify these acts, thus requiring a closer look by the adult. This study should contribute to a broader understanding of the phenomenon of bullying among the gifted, besides providing inspiration and guidance for adopting measures to confront this situation that is so damaging to the students involved.

Keywords: Special Education. Bullying. Giftedness. School.


 

 

1 INTRODUÇÃO

A violência é um fenômeno social complexo que está em todo lugar, mas que assume contornos peculiares no ambiente escolar. Os episódios de violência escolar podem ser classificados, segundo Abramovay, Cunha e Calaf (2009), como violência dura, microviolência ou incivilidades e violência simbólica. As violências duras referem-se aos atos que podem ser enquadrados como crimes ou contravenções penais, ou seja, estão previstos nos códigos penais (lesão corporal, ameaças, roubo, furto, tráfico de drogas etc.). As microviolências ou incivilidades, por sua vez, dizem respeito a atos que não contradizem nem a lei, nem os regimentos dos estabelecimentos, mas violam as regras da boa convivência (desordens, grosserias). A violência simbólica faz referência a uma forma de dominação que se apóia em mecanismos simbólicos de poder que estruturam as sociedades e fazem com que as pessoas vítimas da violência não necessariamente a percebam como violência.

O bullying é um tipo de violência que tem crescido no ambiente escolar. Essa prática acontece muitas vezes de forma velada e se manifesta por meio de "brincadeiras". O fenômeno tem atingido muitos alunos, trazendo consequências muitas vezes dramáticas para as suas vidas. Essa violência pode ocorrer em qualquer escola, independente das condições sociais e econômicas de seus alunos.

O termo bullying é derivado do verbo inglês bully que significa intimidar. Mesmo sem tradução literal para o português, essa palavra tem se tornado bastante conhecida no Brasil. É usada para designar formas de comportamentos agressivos - intencionais e repetidos - que ocorrem sem motivação evidente, praticadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando sofrimento e angústia nas vítimas, sendo que essa prática normalmente ocorre dentro de uma relação desigual de poder ou força (FANTE, 2005).

O bullying pode ocorrer direta ou indiretamente (LOPES NETO, 2005). O bullying direto é utilizado quando os agressores atacam as vítimas por meio de apelidos, ameaças, agressões físicas, ofensas verbais, roubos ou expressões e gestos que geram mal estar nas vítimas. O indireto compreende atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação aos desejos, ocorrendo esse tipo de bullying quando as vítimas estão ausentes.

Dentre os principais comportamentos de maus-tratos ou de intimidação, pelos quais a prática de bullying se manifesta, Silva (2010) os classifica em físico e material; psicológico e moral, sexual, verbal e virtual.

De acordo com a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), no Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, as crianças e os adolescentes que se relacionam com o bullying são identificados segundo o envolvimento e os papéis que assumem nessa prática. Desse modo, podem-se adotar os seguintes termos: 1) AUTOR - para o que pratica o bullying; 2) VÍTIMA - alvo de bullying; 3) ALVO/AUTOR - vítima e agressor; e 4) TESTEMUNHA de bullying. Essa Associação realizou pesquisa envolvendo 5.875 estudantes de 5ª a 8ª série, de 11 escolas localizadas no município do Rio de Janeiro com o objetivo de investigar atos de bullying e sistematizar estratégias de intervenção capazes de prevenir a sua ocorrência. A pesquisa revelou que 40,5% dos alunos entrevistados admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de bullying no ano em que os dados foram coletados. Foram identificados como alvos 16% dos alunos, 10% como alvos/autores e 12% como autores do bullying (ABRAPIA 2003). Também em pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com alunos do 9º ano de 6.780 instituições de ensino, foi constatado que 30,8% da amostra afirmaram ter sofrido bullying nos 30 dias anteriores à pesquisa. Como referências mais recentes vale mencionar, entre outros, os estudos desenvolvidos por Francisco e Libório (2009) e Bandeira e Hutz (2012). Os primeiros constataram, em uma amostra de 283 alunos de 5ª e 8ª série, que 23% apontaram ter sofrido ameaças. Identificaram também diferenças nas formas de violência mais frequentes entre os alunos de 5ª série, os quais apontaram, em maior frequência, ameaças físicas, ao passo que os de 8ª série sinalizaram insultos e provocações. Por outro lado, Bandeira e Hutz (2012), em estudo com 465 alunos de 9 a 18 anos, observaram um número muito elevado de alunos envolvidos em bullying (67,5% no papel de vítima e 54,7% no papel de agressor) e ainda diferenças entre os sexos nos diferentes papéis de bullying. Constataram que os alunos do sexo feminino se identificaram mais como vítimas e testemunhas, e os do sexo masculino mais como agressores e vítimas/agressores.

Os alunos-alvos do bullying são usualmente escolhidos pelas suas diferenças individuais (LOPES NETO, 2005). Ou seja, algumas características físicas, comportamentais ou emocionais podem torná-los mais vulneráveis às ações dos autores e dificultar a sua aceitação pelo grupo. Em complemento, Fante (2005, p. 64) salienta que "as crianças portadoras de deficiência física e de necessidades educacionais especiais correm maiores riscos de se tornarem vítimas de bullying, riscos estes duas a três vezes maiores do que as crianças consideradas normais".

O indivíduo com altas habilidades/superdotação é definido, segundo a Resolução nº 4 do Conselho Nacional de Educação e da Câmara de Educação Básica do Ministério da Educação (art. 4º, inciso III), como "aquele que apresenta um potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas, ou seja: habilidades na área intelectual, de liderança, psicomotora, nas artes e na criatividade" (BRASIL, 2009, p. 1). Embora os superdotados não constituam um grupo homogêneo, várias são as características mais frequentemente observadas entre eles. Algumas das características apontadas pela literatura são: habilidades superiores de pensamento (como análise, síntese e avaliação); maior fluência e flexibilidade de ideias; preferência por ideias complexas; maior habilidade em perceber princípios não diretamente observados; maior habilidade em produzir respostas incomuns e originais; capacidade maior para se concentrar intencionalmente por longos períodos de tempo em tarefas de seu interesse; além de perfeccionismo; consciência aguçada de si mesmo, levando o superdotado a se perceber como diferente; inconformismo; sensibilidade e intensidade emocionais; paralelamente a um descompasso entre o desenvolvimento intelectual, social e emocional (ALENCAR, 2007, 2008; ALENCAR; FLEITH, 2001; FREEMAN; GUENTHER, 2000; OUROFINO; GUIMARÃES, 2007; SABATELLA, 2005).

Nota-se que, segundo Peterson (2009) e Smith et al. (2012), não é raro o aluno superdotado apresentar habilidades intelectuais mais avançadas paralelamente a habilidades sociais não tão desenvolvidas. Em função dessas diferenças, são mais vulneráveis ao isolamento e ao bullying do que os demais alunos. Peterson e Ray (2006) consideram ainda que características usualmente mais observadas em crianças e jovens superdotados, como perfeccionismo e maior sensibilidade e intensidade emocionais, podem resultar em "respostas hipersensíveis ao bullying" (p. 149). Em complemento, Chagas (2008, p. 45) aponta alguns aspectos do ajustamento emocional de indivíduos talentosos, a saber: "depressão, ideação suicida, baixa autoestima e dificuldade nas relações, especialmente relacionadas a jovens com habilidades extremas que podem ser vinculadas aos efeitos do bullying". É notório que Peterson e Rey (2006), ao investigar a ocorrência de bullying em uma amostra de 432 alunos da 8ºsérie, participantes de programas para superdotados em escolas norte-americanas, encontraram um elevado percentual de estudantes (67,0%) que informaram ter sido alvo de bullying em algum momento de sua vida acadêmica entre a pré-escola e a 8ª série.

Desse modo, o aluno com altas habilidades/superdotação apresenta características intelectuais, socioemocionais e comportamentais diferenciadas dos demais indivíduos, fato esse que contribuiu para a sua eleição como foco dessa pesquisa. Ademais, uma revisão de literatura sobre o tema sinaliza um número muito limitado de pesquisas especificamente sobre bullying entre alunos superdotados (PETERSON; RAY, 2006; SMITH et al., 2012).

Considerando a relevância do tema e a carência de estudos empíricos no Brasil a respeito de bullying com amostras de superdotados, desenvolveu-se o presente estudo. Este teve como objetivo investigar o envolvimento de alunos com altas habilidades/superdotação com esta prática nas escolas onde cursavam o ensino regular. Objetivou-se analisar os possíveis papéis assumidos por eles na condição de vítima, agressor e/ou testemunha.

 

2 MÉTODO

2.1 PARTICIPANTES

2.1.1 AS ESCOLAS

A pesquisa foi desenvolvida em seis escolas públicas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Essas escolas oferecem atendimento especializado aos superdotados, por meio do Programa de Atendimento Educacional Especializado a Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação da SEE/DF. Em cada uma delas, há uma sala, denominada "Sala de Recursos", a qual se caracteriza por um ambiente pedagógico adequadamente equipado, dispondo de recursos materiais para o atendimento educacional especializado aos alunos com altas habilidades/superdotação.

2.1.2 OS ALUNOS

Utilizou-se uma amostra de conveniência constituída por 118 alunos com Altas Habilidades/Superdotação, sendo 74 (62,7%) do gênero masculino e 44 (37,3%) do gênero feminino. A idade dos respondentes variou entre 10 e 20 anos, (M = 13,29 anos). 107 alunos (90,7%) cursavam o ensino regular em escolas públicas e 11 (9,3%) em escolas particulares, localizadas em várias regiões do Distrito Federal e do Entorno. Dos participantes, 88 (74,6%) cursavam o Ensino Fundamental e 27 (22,9%) o Ensino Médio, com predominância de alunos do 5º ao 8º ano. Todos os participantes da pesquisa tinham conhecimento das razões do seu encaminhamento para participar das atividades desenvolvidas nas Salas de Recursos.

2.2 O PROGRAMA DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO A ESTUDANTES COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO DA SEE/DF

O Programa de Atendimento Educacional Especializado a Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação da SEE/DF é desenvolvido por meio de atividades distintas relacionadas às áreas artística e/ou acadêmica. Ele foi criado em 1976 com o objetivo de oferecer atendimento especializado aos alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal identificados como superdotado. A partir de agosto de 2000, o programa passou a receber também alunos da rede particular de ensino. As atividades ocorrem em um ou dois encontros semanais no turno contrário ao do estudo regular ao longo de cada semestre. O programa oferecido tem como objetivo "subsidiar de forma teórico-prática o atendimento educacional especializado das necessidades educacionais especiais de aprendizagem do aluno superdotado/talentoso, oferecendo-lhe condições favoráveis ao seu pleno desenvolvimento (DISTRITO FEDERAL, 2006, p. 11).

A participação do superdotado nesse programa se dá em duas fases distintas: observação e atendimento propriamente dito. Na fase de observação, o aluno desenvolve atividades sugeridas, a partir da aplicação de inventários de interesses e de estilos de aprendizagem, nas quais são avaliadas a qualidade e a motivação na realização de projetos de pesquisa ou produções, bem como a capacidade intelectual e a criatividade desses alunos (OUROFINO; GUIMARÃES, 2007). Essas avaliações acontecem em um período de até quatro meses. No final desse período, caso o aluno apresente comportamentos de superdotação (ou seja, habilidade superior em alguma área, envolvimento com a tarefa e criatividade) em relação a uma área particular ou tópico de estudo, ele poderá, por algum tempo, desenvolver esse interesse ou tópico com maior profundidade na sala de recursos, sob a supervisão de um professor. Esse atendimento é oferecido ao aluno até que seu projeto seja concluído. Após essa fase, o aluno pode continuar no atendimento, dependendo basicamente de duas condições: 1) continuar demonstrando alto nível de envolvimento e criatividade para prosseguir no desenvolvimento de pesquisas mais avançadas na área de interesse; 2) avaliação da equipe diagnóstica e dos professores envolvidos, que devem apontar continuidade dos ganhos para o aluno na sua permanência na sala de recursos (VIRGOLIM, 2007).

São utilizados no processo de indicação do aluno para o programa os seguintes documentos: 1) Ficha de indicação do aluno, preenchida por um professor. Esta ficha foi elaborada com base na Escala Revisada para Avaliação das Características Comportamentais de Alunos com Habilidades Superiores (RENZULLI et al., 2000); 2) produção do aluno com indicadores relevantes de sua(s) área(s) de interesse; 3) registro de desempenho acadêmico, por meio de boletim atualizado, cópia do histórico escolar, relatório pedagógico ou similar; e 4) laudo psicológico (se houver) (MAIA-PINTO, 2012).

2.3 INSTRUMENTO

A pesquisa em foco teve uma abordagem predominantemente quantitativa e utilizou como instrumento para a coleta de dados um questionário. Este é composto por 40 questões, distribuídas em seis partes. Para o presente estudo utilizou-se apenas as respostas dos participantes a 27 questões referentes ao envolvimento do aluno com a prática de bullying nas condições de vítima, agressor, e/ou testemunha, considerando-se as ocorrências nos últimos 30 dias anteriores ao preenchimento do questionário.

2.4 PROCEDIMENTOS

Antes do início da coleta dos dados, foram obtidas as autorizações das Diretorias Regionais de Ensino da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, para realização da pesquisa nas escolas selecionadas, bem como as autorizações dos pais ou responsáveis de todos os participantes. Três pais não permitiram a participação de seus filhos. Dois alunos, mesmo autorizados pela famíla, não quiseram participar da pesquisa.

O questionário foi aplicado pela primeira autora nas Salas de Recursos, onde os alunos com altas habilidades recebiam atendimento. A aplicação do instrumento da pesquisa foi na maioria das vezes coletiva, no entanto, em alguns poucos casos ocorreu de forma individual. Os participantes foram esclarecidos a respeito do significado do termo bullying. Foram também informados a respeito do sigilo e confidencialidade dos dados.

Cabe ressaltar que o projeto de pesquisa, protocolo 022, recebeu a devida aprovação do Comitê de Ética da Universidade Católica de Brasília, em sua 104ª reunião realizada no dia 21 de março de 2011.

Para a análise dos dados quantitativos coletados, foi utilizado o software estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Sciences). Foram calculadas a frequência e a porcentagem das respostas apresentadas a cada uma das opções previstas nas perguntas do questionário.

 

3 RESULTADOS

Preliminarmente, cabe ressaltar que, em geral, a prática de bullying nas escolas pode se manifestar por meio de diferentes comportamentos agressivos, incluindo maus-tratos e intimidações. O presente estudo seguiu a classificação adotada por Silva (2010):

  • Físico e Material: bater, chutar, espancar, empurrar, ferir, beliscar roubar, furtar ou destruir os pertences da vítima e atirar objetos contra pessoa.
  • Psicológico e Moral: irritar, humilhar e ridicularizar, excluir, isolar, ignorar, desprezar ou fazer pouco caso, discriminar, aterrorizar e ameaçar, chatear e intimidar, tiranizar, dominar, perseguir, difamar, passar bilhete e desenhos entre os colegas de caráter ofensivo, fazer intrigas, fofocas ou mexericos.
  • Sexual: abusar, violentar, assediar, insinuar.
  • Verbal: insultar, ofender, xingar, fazer gozações, colocar apelidos pejorativos, fazer piadas ofensivas e "zoar".
  • Virtual: caluniar e ofender utilizando aparelhos e equipamentos de comunicação (celular e internet), também conhecido como ciberbullying (p. 23-24).

Na presente pesquisa, foram abordadas manifestações física e material, psicológica e moral, verbal e virtual de bullying. Essas foram analisadas de acordo com o envolvimento que o aluno com altas habilidades/superdotação revelou ter com cada uma delas, na condição de vítima, agressor e/ou testemunha.

A frequência com que esses atos acontecem é também importante para a caracterização do fenômeno. Assim, ao avaliarem as distintas expressões de bullying, os participantes o fizeram assinalando a sua constância: todos os dias, muitas vezes, poucas vezes ou nenhuma vez.

3.1 O ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO COMO VÍTIMA

No que diz respeito às manifestações físicas e materiais de bullying, 59 (50,0%) participantes informaram ter sido atingidos por objetos propositadamente atirados contra eles. Esse comportamento ocorreu poucas vezes, segundo 48 (40,7%) dos participantes e muitas vezes para 11 (9,3%) deles. Sinalizaram ter tido objetos pessoais estragados por colegas, 27 alunos (22,9%), dos quais 23 (19,5%) apontaram que esse comportamento ocorreu poucas vezes e quatro (3,4%) muitas vezes. E ainda, 27 (22,9%) assinalaram ter sido agredidos com socos, pontapés e empurrões, nos 30 dias anteriores à aplicação do questionário, sendo que 23 (19,5%) participantes indicaram que esse comportamento ocorreu poucas vezes e quatro (3,4%) muitas vezes. Além disso, dois (1,7%) alunos relataram que poucas vezes tiveram de entregar dinheiro/lanche aos agressores (ver Tabela 1) Quanto às manifestações psicológicas e morais de bullying, 64 (54,3%) participantes assinalaram ter sido alvo de intrigas ou fofocas feitas pelos colegas. A ocorrência nesse caso foi de 52 (44,1%) para poucas vezes e 12 (10,2%) para muitas vezes, ao passo que 59 (50%) afirmaram ter sido excluídos de brincadeiras pelos colegas. Cinquenta (42,4%) participantes indicaram que esse comportamento ocorreu poucas vezes, enquanto que nove (7,6) muitas vezes. Trinta e um (26,5%) respondentes afirmaram ter sido ignorados ou desprezados por outros alunos, sendo que 22 (18,6%) indicaram que esse tipo de manifestação ocorreu poucas vezes e nove (7,6%) muitas vezes. Além disso, 14 (12%) respondentes informaram ter sido ameaçados por outros alunos da escola. Dentre estes, sinalizaram que tal comportamento ocorreu poucas vezes e um como muitas vezes (ver Tabela 1).

Os dados coletados também revelaram que 65 (55,1%) respondentes indicaram ter sido vítimas de agressões verbais do tipo "zoar", cujo sentido é humilhar com palavras, sendo que 57 (48,3%) indicaram que esse comportamento ocorreu poucas vezes e oito (6,8%) muitas vezes. Cinquenta e três (44,9%) alunos assinalaram ter recebido apelidos pejorativos que os desagradaram. E 48 (40,7%) respondentes apontaram ter sido insultados ou ofendidos verbalmente por agressores, dos quais 42 (35,6%) indicaram a opção poucas vezes e seis (5,1%) muitas vezes (ver Tabela 1).

Cabe destacar que uma análise dos apelidos enumerados pelos superdotados indica que os mesmos se referem preconceituosamente a aspectos físicos e intelectuais desses alunos, embora alguns deles se refiram também à raça, sexualidade, status socioeconômico e outras características que as vítimas apresentam em relação aos demais alunos.

A incidência de bullying virtual, na forma de ofensas ou ameaças pela Internet, apresentou-se com baixa frequência, uma vez que apenas quatro participantes apontaram ter sido vítimas desta modalidade de bullying poucas vezes.

O questionário inclui também uma questão que indaga se ocorreria outro tipo de agressão ou perseguição na escola e, ainda, se eventualmente o aluno teria sido vítima de tal agressão. Treze (11,0%) participantes responderam afirmativamente. Seguem exemplos de respostas obtidas: ficar sem olhar, indiferença, críticas, cutucões e pegar no peito.

3.2 O ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO COMO AGRESSOR

Uma análise das respostas acerca das distintas manifestações físicas e materiais de bullying praticado pelos participantes nos últimos 30 dias anteriores à coleta de dados, indicou que a prática mais apontada foi a ação de atirar objetos em colegas (n=25; 21,2%), sendo que 21 (17,8%) respondentes afirmaram que esse comportamento ocorreu poucas vezes, dois (1,7%) muitas vezes e dois (1,7%) todos os dias. Por outro lado, as agressões físicas, tais como dar socos, pontapés e empurrões, foram citadas por 13 (11,0%) alunos. Dentre essas, apenas um sinalizou que tal tipo de agressão ocorreu com alta frequência (muitas vezes). Já as ações do tipo estragar objetos pessoais foram apontadas por cinco alunos (4,2%), que assinalaram poucas vezes. A prática de exigir a entrega de dinheiro/lanche não foi indicada por qualquer participante (ver Tabela 2).

Quanto às manifestações psicológicas e morais de bullying tendo o superdotado como agressor, observou-se que 40 (33,9%) participantes assinalaram a prática de excluir outros alunos de brincadeiras na escola. A ocorrência desse comportamento foi indicada por 37 (31,4%) dos respondentes como poucas vezes e três (2,5%) como muitas vezes, ao passo que o comportamento de desprezar o colega foi indicado por 23 (19,4%), sendo que 21 (17,8%) apontaram poucas vezes, um (0,8%) muitas vezes e um (0,8%) todos os dias. As práticas de fazer ameaças e a de fazer intrigas, fofocas ou mexericos foram mencionadas cada um delas por sete (5,9%) alunos.

Em relação às agressões verbais, 38 (32,1%) alunos relataram a prática de colocar apelidos pejorativos em outros alunos, sendo que 34 (28,8%) o fizeram poucas vezes, três (2,5%) muitas vezes e um (0,8%) todos os dias. As agressões verbais do tipo "zoar", com o sentido de humilhar com palavras, foram indicadas por 24 (20,5%) participantes, sendo que 21 (17,8%) assinalaram poucas vezes, dois (1,7%) muitas vezes e um (0,8%) todos os dias, tendo ainda 12 (10,1%) apontado ter insultado ou ofendido verbalmente outros alunos (ver Tabela 2).

A incidência de bullying virtual, na forma de ofensas ou ameaças pela Internet, apresentou-se com baixa frequência, uma vez que apenas três (2,5%) superdotados afirmaram ter praticado, poucas vezes, esse tipo de violência (ver Tabela 2).

Outros tipos de agressões praticadas foram citados por sete (5,9%) estudantes, tais como: colocar a lixeira na cabeça do colega, correr atrás do colega e dar tapas.

3.3 O ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO COMO TESTEMUNHA

Os resultados revelaram que 65 (50,8%) alunos superdotados foram testemunhas da prática de bullying, em suas diferentes formas de manifestação nas escolas do ensino regular. Os mesmos afirmaram já ter presenciado atos de intimidação, agressão, exclusão e/ou assédio contra outros colegas da sua escola.

 

4 DISCUSSÃO

As práticas da violência nas escolas, segundo Camacho (2001, p.137), "não acontecem de uma forma só, mas apresentam faces, tempos e particularidades sutis, tudo dependendo do cenário onde se apresentam". A presente pesquisa identificou que um elevado percentual de alunos com altas habilidades/superdotação vivenciaram, nas escolas onde frequentavam o ensino regular, situações de violência relacionadas a bullying, nas suas diferentes formas de manifestação. Mais da metade dos participantes do estudo relataram, por exemplo, terem sido vítimas de manifestações de bullying tanto da modalidade física e material quanto da psicológica e moral, além da modalidade verbal. Estes dados se aproximam dos encontrados por Peterson e Ray (2006), em estudo realizado nos Estados Unidos com uma amostra de superdotados. Porém, deve-se ressaltar que, enquanto a amostra da pesquisa de nossa autoria foi instruída a apontar as ocorrências nos 30 dias anteriores ao preenchimento do questionário, os participantes do estudo conduzido por Peterson e Ray foram solicitados a informar se tinham sido vítimas de bullying em algum momento nos últimos nove anos de escola (jardim da infância à 8ª série). Os dados da presente estudo diferem de outros obtidos em pesquisa realizada pela ABRAPIA (LOPES, 2005), que identificou um total de 16,9% de vítimas e por Francisco e Libório (2009), que identificaram terem 13,9% dos participantes se encaixado no perfil de vítimas. Estudos realizados no exterior apontam uma estimativa de casos de vitimização séria de 5% em contraste com 15% a 20% de casos mais leves de vitimização em alunos de escolas regulares (HOUBRE; TARQUINIO; LANFRANCHI, 2010). Ressalta-se, entretanto, que comparações entre estudos devem ser feitas com cuidado, tendo em vista as diferenças entre questionários nas questões incluídas, alternativas de respostas (algumas instrumentos não incluem alternativas relativas à frequência das manifestações de bullying, como "poucas vezes", "muitas vezes" e "todos os dias") e período de tempo a ser considerado pelo respondente (por exemplo, "no último mês", "nos últimos três meses" e "no ano anterior"). Nota-se que não foram encontradas, na revisão de literatura realizada, estudos comparativos de manifestações de bullying entre alunos com altas habilidades/superdotação e demais alunos.

O estudo identificou ainda que, no tocante às diferentes formas de manifestação de bullying, a verbal e a psicológica/moral apresentaram maior incidência, seguida pela manifestação físico/material. Tais achados são parcialmente similares aos encontrados em estudo realizado por Bandeira e Hutz (2012), no qual manifestações por meio de insulto e deboche tiveram alta ocorrência. No que diz respeito à manifestação de bullying por meio de agressões verbais, cabe destacar o relato de comportamentos dos agressores do tipo "zoar" ou humilhar as vítimas, colocando apelidos ou fazendo gozações. A "zoação", no dizer dos alunos, é um comportamento muito comum entre os adolescentes e tem a ver com "brincadeiras" que, na maioria das vezes, têm o intuito de achincalhar, menosprezar e humilhar o outro. Mais da metade dos participantes da pesquisa (54,3%) respondeu ter sido vítimas desse tipo de agressão, percentagem esta mais expressiva do que a encontrada em outras pesquisas brasileiras. Estudo realizado por Silva (2006), por exemplo, aponta que 29,22% dos alunos pesquisados foram alvos dessa prática. Por sua vez, Fante (2005), apurou que 41% dos alunos relataram ter sido alvo de gozações, denominação usada pela autora para esse comportamento.

Na presente pesquisa, quase metade dos participantes (44,9%) indicou ainda ter recebido apelidos considerados pejorativos ou humilhantes e que os desagradaram, uma vez que tais apelidos tinham o sentido de desqualificar, fragilizar ou intimidar a pessoa-alvo. Uma análise dos apelidos enumerados pelos superdotados revela que se referem preconceituosamente a aspectos físicos e intelectuais desses alunos, embora alguns deles se refiram também à raça, sexualidade, status socioeconômico e a outras características que as vítimas apresentam em relação aos demais alunos. Entre os apelidos que faziam menção direta à superdotação, destacam-se nerd e cabeção. Evidência de bullying por meio de apelidos também foi objeto de relato em outros estudos realizados no Brasil, como o realizado por Fante (2005), no interior paulista, em 2001, no qual 54% dos alunos pesquisados indicaram ter sido vítimas dessa prática. Pesquisa da ABRAPIA (2003) detectou 54,2% e Silva (2006), em pesquisa na rede pública do município do São Leopoldo/RS, registrou 78,84% de alunos nessa condição.

Na condição de vítima, os resultados do estudo não evidenciaram que o desenvolvimento intelectual superior seja o único motivador para a eleição desses alunos como alvo do bullying. O que torna os superdotados vulneráveis a essa prática é o fato desses alunos serem distintos de seus pares. Independentemente de quais sejam estas diferenças. A dificuldade em se conviver com as diferenças e o preconceito são os fundamentos para essa prática.

Observou-se que o número de alunos que se declararam vítimas foi maior do que aqueles que se identificaram como agressores.Tal resultado é similar ao encontrado por Peterson e Ray (2006) em pesquisa realizada nos Estados Unidos com uma amostra de superdotados. Tal discrepância pode ser decorrente do receio de alguns praticantes de bullying de serem descobertos e eventualmente terem que responder pelos atos praticados. Outra possível explicação seria a maior sensibilidade do superdotado a questões relativas à justiça (Gross, 2002). Desta forma, em maior frequência esses alunos considerariam atos de bullying como algo que não deveria ocorrer. Entretanto, a incidência dessa prática, na condição de agressor, foi expressiva entre os participantes do estudo. Este é mais um indicador de ser o bullying um problema muito sério, que necessita ser minimizado no ambiente escolar por meio de estratégias diversas.

Em geral, as situações mais graves de bullying começam com provocações e xingamentos. Por vezes, essas agressões são gratuitas e aparentemente inocentes e costumam ser rotineiras entre os alunos que, na maioria das vezes, não as identificam como danosas aos relacionamentos, muito menos como geradoras de situações de violência. O índice de comportamento de insultar/ofender, indicado por 40,7% dos participantes, na condição de vítima, se assemelha ao encontrado em pesquisa realizada por Fante (2005), a qual observou 40% de frequência deste comportamento e por Silva (2006), que constatou 48,87%.

Dados da pesquisa revelam ainda que, dentre as manifestações psicológica/moral do bullying, os comportamentos mais indicados pelos participantes, na condição de vítima, foram ações dos agressores visando provocar intrigas, fofocar, difamar e excluir as vítimas das brincadeiras. Essas ações, na maioria das vezes, são veladas e só são percebidas pelas vítimas, pois os agressores agridem sem deixar vestígios. Dada a sua natureza, esses comportamentos demandam maior atenção para serem identificados e tratados. Os percentuais aqui obtidos se diferenciam dos encontrados pela Plan Brasil (2010), que registrou 4,7 % das indicações para o comportamento de "dizer coisas maldosas sobre mim ou sobre minha família" e 1,9% para o ato de "não permitir fazer parte do grupo de colegas". As difamações também foram citadas por 11,8% e o ato de excluir os colegas das brincadeiras por 2,5% dos participantes em pesquisa realizada pela ABRAPIA (LOPES NETO; SAAVEDRA, 2003).

Já na condição de agressor, o comportamento de excluir a vítima das brincadeiras foi o mais indicado pelos participantes, seguido pelo ato de desprezar o colega. Segundo Teixeira (2011), essas condutas são mais comuns entre os alunos do gênero feminino. O estudo indicou ainda que um pequeno número de superdotados relatou ter sofrido ameaças por outros alunos da escola. Esse ato visa à intimidação da vítima e pode ocorrer por palavras, por escrito ou gestualmente, e se estabelece por meio de promessas explícitas de atentado contra integridade física ou moral da pessoa. As ameaças podem ou não se concretizar em atos agressivos, no entanto, geram sentimentos de insegurança e essa insegurança pode desencadear uma série de sintomas físicos e emocionais nas vítimas.

No que diz respeito à manifestação físico/material de bullying, o comportamento de atirar objetos contra outrem foi o mais citado pelos participantes, tanto na condição de vítima quanto na condição de agressor. Agressões físicas, tais como socos, pontapés e empurrões, foram indicadas por um quinto dos participantes do estudo. Em pesquisa realizada por Fante (2005), também tais comportamentos foram identificados em 14,0% dos alunos pesquisados. Esses comportamentos, segundo Teixeira (2011), são mais comuns entre os alunos do gênero masculino.

A manifestação virtual de bullying, caracterizada por ofensas ou ameaças pela internet ou celular, foi apontada no estudo por uma parcela muito reduzida dos alunos superdotados. Desse modo, observou-se que não se configuram como uma possibilidade entre os participantes no grupo pesquisado. A dificuldade de acesso à internet, por parte de grande parte da amostra pesquisada, possivelmente é a causa do baixo índice averiguado. A grande maioria dos alunos estudava em escolas públicas e residia em regiões administrativas, cuja renda per capita é mais baixa do que a do Plano Piloto de Brasília. Em estudo realizado pela Plan Brasil (2010), a incidência de maus tratos pela internet foi de 17%.

Os resultados revelaram que metade dos alunos com altas habilidades/superdotação também testemunhou situações de bullying em suas escolas, nas diferentes formas de manifestação dessa violência apontadas pelos alunos, tais como atos de intimidação, agressão, exclusão e/ou assédio contra outros colegas. Esse dado se assemelha aos levantado pela pesquisa da ABRAPIA, na qual 57,5% dos participantes revelaram ter sido testemunhas de agressões entre alunos (LOPES NETO; SAAVEDRA, 2003). Estudo realizado por Freire, Veiga Simão e Ferreira (2006) indicou 68,6%. É importante lembrar que a literatura sobre características socioemocionais do superdotado chama a atenção para a maior sensibilidade e intensidade emocionais desses indivíduos (NEIHART et al., PETERSON, 2006). Por esta razão, é possível que sejam mais afetados emocionalmente quando vítimas ou testemunhas de bullying do que os demais alunos. Entretanto, este é um tópico ainda a ser pesquisado.

 

5 CONCLUSÕES

Os resultados desta pesquisa evidenciaram que os alunos com altas habilidades/superdotação presenciaram, foram vítimas e, com menor frequência, também praticaram o bullying nas escolas onde cursavam o ensino regular. Alto percentual dos participantes afirmou que essa prática é recorrente em suas escolas. Elevados percentuais dos alunos estiveram envolvidos com o bullying na condição de vítima e de testemunha. Os resultados obtidos no estudo estão em consonância com outros realizados no Brasil e em outros países com amostras de crianças e adolescentes não identificados como superdotados. Este é um problema de ocorrência frequente no contexto escolar

Diante dos altos índices de manifestações do bullying observados nas escolas onde os alunos superdotados estudavam e dos prejuízos dessa prática, a sociedade, os pais e os educadores são convocados a refletir sobre esses fatos e adotar estratégias que coíbam as situações existentes e previnam futuros casos. É necessário estabelecer programas contínuos de prevenção com o objetivo de reduzir a sua ocorrência de forma eficaz. Ademais, conforme salientam Francisco e Libório (2010, p. 206), "as estratégias de intervenção ou prevenção deverão levar em conta o tipo de bullying que se pretenda prevenir ou erradicar". Também fundamental é que os educadores, ao elaborarem o projeto político pedagógico da escola, dediquem mais espaço para o desenvolvimento de atividades de cultura, esporte, lazer, formação para a cidadania e outras ações educativas complementares. Por conseguinte, na medida em que forem ampliados os espaços para convivência rica em vínculos, a agressividade pode vir a ser sublimada pelos alunos e, assim, minimizados os casos de violência escolar envolvendo a prática de bullying.

Nesse sentido, é necessário propiciar aos alunos um ambiente escolar favorável, onde os valores humanos possam ser cultivados e ligações afetivas e vínculos de pertencimento estabelecidos. Tudo isso pode ser proporcionado por meio de um clima de sala de aula de respeito e consideração, atividades lúdicas específicas e abordagem de temas transversais nas diferentes disciplinas. Um ambiente fraterno contribui para a promoção de relações interpessoais positivas entre os alunos. O desenvolvimento de autoimagem positiva nos alunos também pode contribuir para que as vítimas da prática de bullying se sintam mais fortalecidas e desenvolvam a capacidade de autodefesa. Isto é especialmente necessário uma vez que pesquisas têm indicado que os estudantes vítimas de bullying tendem a apresentar autoconceito negativo (HOUBRE; TARQUINIO; LANFRANCHI, 2010).

Ademais, considerando áreas de vulnerabilidade psicológica que têm sido apontadas entre superdotados, como excesso de autocrítica e sensibilidade exacerbada, atos de bullying poderão afetá-los de forma mais intensa, gerando com maior frequência sentimentos de depressão e reações de ansiedade. Várias modalidades promissoras de intervenção voltadas para questões sociais e emocionais de estudantes superdotados são descritas na literatura (COLANGELO, 2003; CROSS, 2011; NEIHART, 2002; REIS; MOON, 2002). Elas visam ajudar o aluno a lidar com fatores de risco e fortalecer fatores de proteção, sendo de grande valia para um trabalho junto a estudantes com altas habilidades/superdotação vítimas de bullying.

Nesse contexto, espera-se que o presente estudo contribua para a compreensão mais ampla do fenômeno bullying entre os superdotados, bem como possa servir de inspiração e de orientação para que sejam adotadas medidas para o enfrentamento dessa realidade, tão danosa aos alunos envolvidos, independentemente de terem sido identificados como superdotados ou não.

 

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Recebido em: 25/10/2012
Reformulado em: 13/05/2013
Aprovado em: 24/05/2013

 

 

1 Este trabalho é derivado da Dissertação de Mestrado defendida pela primeira autora, sob a orientação da segunda, no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Católica de Brasília.

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