SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 issue2Oral Health Education Targeting People With Visual ImpairmentsAssessment of the Effects of Intervention Programs of Physical Activity in Individuals with Autism Spectrum Disorder author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Educação Especial

Print version ISSN 1413-6538On-line version ISSN 1980-5470

Rev. bras. educ. espec. vol.21 no.2 Marília Apr./June 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-65382115000200010 

Revisão de Literatura

Análise das Dissertações e Teses do PPGEES/UFSCar na Interface Educação Física e Educação Especial1

Analysis of the Theses and Dissertations from PPGEES/UFSCar Regarding the Interface Between Physical Education and Special Education

Eliane Mahl 2  

Mey de Abreu van Munster 3  

2Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. São Carlos, SP, Brasil. do_mahl@hotmail.com

3Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da UFSCar e do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana da UFSCar. São Carlos, SP, Brasil. mey@ufscar.br


RESUMO

A interface entre as áreas de Educação Física e de Educação Especial permite multiplicar as possibilidades de intervenção e investigação relacionadas às condições de acesso a cultura corporal, a inclusão social e escolar de pessoas com necessidades educacionais especiais. A intersecção da produção do conhecimento entre Educação Física e Educação Especial tem sido evidenciada, sobretudo, nas pesquisas realizadas nos Programas de Pós-Graduação. Buscando mapear o que tem sido produzido nas respectivas áreas, este estudo teve por objetivo analisar a produção discente (dissertações e teses) do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) na interface Educação Física e Educação Especial. O método de investigação pautou-se em pesquisa bibliográfica, sendo que os dados foram tratados por meio de análise de conteúdo. Os resultados encontrados apontaram que o PPGEEs/UFSCar tem contribuído significativamente na busca de novos saberes relacionados à interface entre Educação Física e Educação Especial, sobretudo quanto a conceitos, procedimentos, estratégias, adaptações e novas reflexões sobre teorias e práticas relacionadas à cultura corporal, inclusão social e escolar de crianças, jovens, adultos e idosos com necessidades educacionais especiais.

Palavras-Chave: Educação Especial; Educação Física; Produção de Conhecimento

ABSTRACT

The overlap between the fields of Physical Education and Special Education allows multiplying possibilities of intervention and investigation related to body culture, social inclusion and inclusive education of people with special needs. The intersection of production of knowledge between Physical Education and Special Education has been demonstrated, especially in research conducted in Graduate Programs. In order to map academic production involving these two areas, this study aimed to examine student production (theses and dissertations) of the Graduate Program in Special Education (PPGEEs) at the Federal University of São Carlos (UFSCar), considering the interface between Physical Education and Special Education. The method was a literature review, and the treatment of the data was based on content analysis. The results indicated that the PPGEEs/UFSCar has contributed significantly in the pursuit of new knowledge regarding the interface between Physical Education and Special Education, mainly related to concepts, procedures, strategies, adaptations and new reflections on theory and practice related to body culture, social inclusion and education of children, youth, adults and seniors with special needs.

Key words: Physical Education; Special Education; Knowledge Production

1 INTRODUÇÃO

Em função do aumento de Programas de Pós-Graduação stricto sensu implantados a partir do final década de 1970, a área de conhecimento intitulada Educação Física apresenta uma tendência de crescimento na produção de dissertações e teses, o que, consequentemente, induz à necessidade de refletir sobre a evolução da produção científica e a contribuição desta para seu fortalecimento epistemológico (NASCIMENTO, 2010). Além disso, a análise das contribuições dos Programas de Pós-Graduação, por meio de dissertações e teses, possibilita ainda apontar lacunas e indicar novos caminhos na busca de conhecimentos relevantes às áreas pesquisadas (GONÇALVES; BENEDETTI; MAZO, 2007).

Determinadas pesquisas buscam estudar a própria ciência, por acreditarem que esta necessita constantemente ser analisada no que se refere à qualidade e efetividade do conhecimento produzido. Neste sentido, estudos como os de Silva (1990, 1997), Kroeff (2000), Resende e Votre (2003), Martins e Silva (2006) e Nascimento (2010)analisaram a produção científica (dissertações e teses) no âmbito dos Programas de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) no Brasil, voltados especificamente à área da Educação Física. Tais estudos permitiram mapear o desenvolvimento da área, analisando sua configuração, abordagens metodológicas, implicações epistemológicas e temáticas mais abordadas, contribuindo assim para o melhor entendimento das linhas de pesquisa dos Programas de Pós-Graduação em Educação Física.

Comparando os resultados do mais recente estudo de Nascimento (2010) com as investigações de Silva (1990, 1997), Kroeff (2000), Resende e Votre (2003), Martins e Silva (2006), observou-se que não houve modificações significativas quanto ao perfil metodológico e epistemológico da produção científica (dissertações e teses) na área de Educação Física. E, no que diz respeito às temáticas abordadas, ainda prevalece o predomínio de temáticas relacionadas ao Treinamento Físico/Esportivo, Biomecânica, Cinesiologia, Cinemática, Atividade Física e Desporto. Diante de tais apontamentos, faz-se necessário refletir sobre um diagnóstico atual da área, seus reflexos, perspectivas e tendências.

Para isto, Duarte (2009, p.339) considera que:

[...] a Educação Física no Brasil, como área de conhecimento, vem passando por uma reestruturação conceitual e de campo de atuação nos últimos 20 anos. A área está se adequando às novas demandas e exigências sociais, no que diz respeito às atividades físicas relacionadas à Educação, Desporto, Lazer, Qualidade de vida e Saúde.

Pedrinelli e Verenguer (2008) argumentam ainda que, embora a Educação Física esteja em meio a uma reestruturação metodológica e epistemológica, esse processo vem sinalizando para o entendimento da Educação Física como uma área de conhecimento relativa à cultura corporal4, que sistematiza e critica os conhecimentos científicos, além de receber e enviar demandas à prática e à ciência. Tal concepção assume que a Educação Física é uma área academicamente fundamentada, porém seus profissionais acabam buscando em outros Programas de Pós-Graduação referenciais teóricos e metodológicos para suas pesquisas, visto que nos estudos de Nascimento (2010)foram identificadas pesquisas com temáticas relacionadas à Filosofia, Aprendizagem Motora, Sociologia, Educação, História, Psicologia, Educação Especial, Desenvolvimento Motor, dentre outros, confirmando que a Educação Física apresenta-se como área epistemologicamente colonizada e que faz a interface com outras áreas do conhecimento.

Dentre as temáticas mencionadas por Nascimento (2010) e abordadas nas dissertações e teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação Física no Brasil, a que desperta a atenção está relacionada à interface entre Educação Física e Educação Especial. Acredita-se que esta interface permita multiplicar as possibilidades que ambas as áreas oferecem quando se trata da produção de conhecimento destinado às pessoas com necessidades educacionais especiais5 em relação às condições de acesso à cultura corporal, a inclusão social e escolar.

Deste modo, acredita-se que:

[...] investigar a produção do conhecimento no âmbito dos mestrados e doutorados e nos periódicos da área, tanto da Educação Física como da Educação Especial, evidencia a preocupação de alguns autores com os rumos e tendências que este conhecimento vem tomando e com a própria qualidade dessa produção (SACARDO, 2006, p.22).

Assim, buscou-se primeiramente informações no endereço eletrônico da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior (CAPES)6 sobre o número de Programas de Pós-Graduação voltados, especificamente, à área da Educação Especial no Brasil e, constatou-se que o único Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs)7, tanto em nível de Mestrado quanto de Doutorado, é ofertado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Silva (2004, p.70)ressalta que uma das principais características do PPGEEs/UFSCar "[...] é a interdisciplinaridade que se torna visível pela fundamental presença de pesquisadores e docentes de outras áreas do conhecimento", ou seja, o PPGEEs/UFSCar, apesar de sua especificidade, pode ser considerado um Programa de Pós-Graduação multidisciplinar por possuir interfaces com muitas áreas do conhecimento, dentre estas a Educação Física.

Em decorrência deste panorama, surgem as questões que nortearam este estudo: quais temáticas têm sido desenvolvidas/abordadas mediante a interface Educação Física (EF) e Educação Especial (EE) no PPGEEs/UFSCar? Quais temáticas estão sendo abordadas nas dissertações e teses do PPGEEs/UFSCar relacionadas especificamente à Educação Física Adaptada (EFA)? Quais abordagens metodológicas têm sido empregadas nas produções científico-acadêmicas na interface Educação Física e Educação Especial no PPGEEs/UFSCar? Qual tem sido a contribuição do PPGEEs/UFSCar para produção científico-acadêmica na área da EFA?

Segundo Pedrinelli e Verenguer (2008), a EFA é uma ramificação ou uma subárea da Educação Física que tem por finalidade o estudo e a intervenção profissional no universo das pessoas que apresentam diferentes e peculiares condições para a prática de atividades físicas. Silva, Seabra Júnior e Araújo (2008)afirmam, ainda, que a denominação EFA é mais empregada quando se aborda o tema Educação Física para pessoas com deficiências sensoriais, físicas e intelectuais.

Destarte, é de grande importância conhecer o que está sendo produzido na área da EFA dentro do principal Programa de Pós-Graduação em Educação Especial brasileiro, por entender que estas produções constituem importante aporte como produto de ciência e evidenciam teorias, práticas, aplicações e delineamentos de pesquisa voltados às pessoas com necessidades educacionais especiais.

Além disto, devido ao fato da maioria das dissertações e teses estar disponível em rede, acredita-se que estas produções são de fácil acesso aos acadêmicos da área de Educação Física que se interessam pela EFA e que, inclusive, pretendem ingressar em programas de Pós-Graduação. Portanto, torna-se necessário compreender o que tem sido produzido no âmbito do PPGEEs/UFSCar, a fim de analisar como as áreas da Educação Física e da EFA têm sido abordadas nas dissertações e teses produzidas no referido programa.

Pelos motivos expostos, tem-se como objetivo deste estudo: analisar a produção discente (dissertações e teses) do PPGEEs/UFSCar na interface Educação Física e Educação Especial. Para isto, apresenta-se, a seguir, a descrição do método empregado.

2 MÉTODO

Este estudo baseia-se em pesquisa bibliográfica, por abranger a literatura já tornada pública em relação à produção discente (dissertações e teses) do PPGEEs/UFSCar.

Segundo Marconi e Lakatos (2008, p.56) a finalidade da pesquisa bibliográfica "é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que já foi estudado, dito ou filmado sobre determinado assunto", oferecendo meios para definir e resolver não somente problemas já conhecidos, como também explorar novas áreas onde os problemas não se cristalizaram suficientemente. Os resultados deste tipo de pesquisa podem ainda proporcionar suportes simultâneos a pesquisas diversas; servir como guias para a renovação de estudos científicos e práticas profissionais; e/ou, para o surgimento de novas perspectivas de análise em relação a um determinado fenômeno (DEMO, 2003).

O presente estudo compreendeu quatro fases distintas para o processo de coleta e análise dos dados, conforme sugerem Marconi e Lakatos (2008):

a) Identificação e localização: fase de reconhecimento e levantamento bibliográfico do assunto pertinente ao tema estudado. Neste caso, buscou-se no Banco de dados da Biblioteca Comunitária da UFSCar8 todas as produções discentes (dissertações e teses) defendidas no PPGEEs/UFSCar desde 1981 até dezembro de 2012. Encontram-se disponíveis em rede as produções discentes defendidas a partir de fevereiro de 2004, porém existe um acervo contendo cópias impressas de todas estas produções desde 19819 (ano de defesa da primeira dissertação) na Biblioteca Comunitária da UFSCar.

Para ter acesso à versão impressa das dissertações ou teses que se encontravam na Biblioteca Comunitária da UFSCar e com o intuito de tornar exequível este estudo, solicitou-se junto à secretaria do PPGEEs/UFSCar uma listagem de todas as produções discentes defendidas neste programa, acompanhado do nome do pós-graduando, orientador (a) da pesquisa, data de defesa e, de posse destas informações, seguiu-se para a segunda fase do estudo: a compilação.

b) Compilação: refere-se à reunião sistematizada do material pesquisado, subdivididas em conjunto de dissertações e teses defendidas no PPGEEs/UFSCar na área da Educação Física. Para isto, primeiramente, foi realizada a leitura de todos os resumos das dissertações e teses defendidas no Programa mencionado, selecionando aqueles que envolviam temáticas e conteúdos concernentes à área da Educação Física e populações com necessidades educacionais especiais.

Nascimento (2010)desenvolveu um estudo sobre o mapeamento temático das teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação Física no Brasil, no período de 1994 a 2008 e, constatou inconsistências terminológicas empregadas para abarcar as tendências e perspectivas temáticas das pesquisas desenvolvidas na área da Educação Física, o que levou a autora a construir um quadro temático referencial que contemplasse temas que envolvessem todo o amplo universo da Educação Física.

Com base no quadro referencial temático da Educação Física alvitrado por Nascimento (2010), foi elaborado um quadro onde foram relacionadas algumas das categorias apresentadas inicialmente pela autora, excluindo-se as consideradas insuficientes ou inadequadas ao propósito do presente estudo, e acrescentando outras apropriadas à interface Educação Física e Educação Especial.

Assim, foi empregado o quadro temático 1:

É necessário ressaltar que, durante a leitura dos resumos das dissertações e teses defendidas no PPGEEs/UFSCar, a seleção daquelas pertinentes ao objetivo deste estudo foi balizada nas categorias apresentadas no Quadro 1. Após levantamento destas dissertações e teses foi realizada a leitura na íntegra deste material, procedendo à terceira etapa do estudo: o fichamento.

Quadro 1 Quadro referencial temático acerca da interface Educação Física e Educação Especial Fonte: elaboração própria, com base em Nascimento (2010)

c) Fichamento: diz respeito à transcrição dos dados relevantes para o estudo. Para isto, utilizou-se de um banco de dados no Programa Microsoft Office Excel, o qual serviu para ordenar o material selecionado com as seguintes informações: título do trabalho, nome do autor, orientador (a), nível (Mestrado ou Doutorado), linha de pesquisa, ano de defesa, objetivos da pesquisa, caracterização metodológica da pesquisa (tipo/técnica de pesquisa), participantes, local de desenvolvimento da pesquisa, temáticas abordadas e concepções de deficiência e/ou diferença.

d) Análise dos dados: nesta etapa optou-se por utilizar o emprego de análise de conteúdo, sendo esta compreendida como um conjunto de técnicas de análise das comunicações marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a todo o vasto campo das comunicações (BARDIN, 2008).

Dentre as técnicas de análise de conteúdo propostas por Bardin (2008)preferiu-se a técnica de análise categorial, a qual permite reunir um grupo de elementos sob um título genérico, agrupando-os ou desmembrando-os no texto em razão das características comuns entres estes elementos.

3 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

Depois de realizado o levantamento junto à secretaria do PPGEEs/UFSCar de quantas e quais produções discentes foram defendidas no respectivo programa, no período de 1981 a dezembro de 2012, identificou-se 483 dissertações e 104 teses, totalizando 587 produções discentes. Dentre essas, encontram-se pesquisas realizadas em várias áreas de conhecimento na interface com a Educação Especial, tais como: como Psicologia, Pedagogia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Física, Química, Matemática, Letras, Engenharias, Ciências Computacionais, Odontologia, Enfermagem, Medicina, Educação Física, entre outras, sendo esta última o foco deste estudo.

Este fato ocorre devido à interdisciplinaridade característica do programa, articulação entre pesquisa básica e aplicada, além da pluralidade de enfoques evidenciada nas cinco linhas de pesquisa do PPGEEs/UFSCar: Linha 1- Aprendizagem e cognição de indivíduos com necessidades especiais de ensino; Linha 2 - Currículo funcional: implementação e avaliação de programas alternativos de ensino especial; Linha 3- Práticas educativas: processos e problemas; Linha 4 - Atenção primária e secundária em Educação Especial: prevenção de deficiências e Linha 5 - Produção científica e formação de recursos humanos em Educação Especial (PPGEES, 2013).

Após leitura de todos os resumos das dissertações e teses do PPGEEs/UFSCar, pautando-se no quadro referencial temático acerca da interface Educação Física e Educação Especial (Quadro 1), foram selecionadas 34 dissertações e sete teses. Todavia, durante leitura desse material, na íntegra, foram excluídas 20 dissertações e três teses por não abarcarem temáticas na interface pretendida, mas sim a interface da Educação Especial com outras áreas do conhecimento, que utilizaram conteúdos como jogos, danças, brincadeiras e atividades psicomotoras com finalidades específicas da sua área e não propriamente relacionadas ao campo da Educação Física.

Destarte, foram analisadas 14 dissertações e quatro teses do PPGEEs/UFSCar na interface Educação Física e Educação Especial no período de 1981 a 2012. Após a análise desse material, foi possível subdividi-lo em cinco categorias de análise, sendo elas: 1) ano de defesa das pesquisas; 2) objetivos e temáticas das pesquisas; 3) participantes e local de desenvolvimento das pesquisas; 4) concepções de deficiência e/ou diferença; 5) caracterização metodológica das pesquisas. A discussão correspondente a cada uma destas categorias será apresentada a seguir.

3.1 ANO DE DEFESA DAS DISSERTAÇÕES E TESES NA INTERFACE EF E EE DO PPGEES/UFSCAR

No que se refere ao ano de defesa das 14 dissertações e quatro teses selecionadas, foi possível verificar que a primeira dissertação referente à interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar foi defendida em 1995, e a primeira tese em 2007. Como de 1995 a 2012 transcorreram-se 17 anos, optou-se por organizar os dados referentes ao ano de defesa dessas pesquisas em três quadriênios e um triênio, possibilitando assim uma visão temporal das pesquisas, conforme pode ser visualizado na Figura 1.

Figura 1 Ano de defesa das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria 

Convém ressaltar o fato de que o PPGEEs/UFSCar em nível de Mestrado existe desde 1978 e em nível de Doutorado desde 1999, tendo sua primeira dissertação defendida no ano de 1981 e sua primeira tese no ano 2000. Diante disso, percebe-se que houve um período inicial de 14 anos sem defesas de dissertações na interface Educação Física e Educação Especial e sete anos sem defesas de teses neste mesmo escopo.

Devido à característica interdisciplinar do PPGEEs, as primeiras produções envolvendo a temática Educação Física e Educação Especial estiveram presentes desde 1995, quando foi defendida a primeira dissertação. Todavia, observa-se um discreto aumento no número de dissertações defendidas no triênio 2010 e 2012, o qual provavelmente está associado ao ingresso, em 2009, de uma docente da área de Educação Física Adaptada no corpo docente do PPGEEs. O referido credenciamento, em nível de Mestrado, possivelmente foi um dos fatores que elevou o número de defesas e, consequentemente, de produções relacionadas, sobretudo à linha de pesquisa número dois, intitulada "Currículo funcional: implementação e avaliação de programas alternativos de ensino especial".

Além disso, a busca por conhecimentos destinados as pessoas com necessidades educacionais especiais, especificamente com deficiência, em nível de Mestrado e Doutorado na interface Educação Física e Educação Especial, pode ter sido influenciada pela criação da Sociedade Brasileira de Atividade Motora Adaptada (SOBAMA) em 1994, a qual surgiu com o intuito de auxiliar os profissionais da Educação Física que atuam diretamente com crianças, jovens, adultos e idosos com necessidades educacionais especiais na área da EFA (PEDRINELLI; VERENGUER, 2008).

Mesmo considerando pequeno o número de 14 dissertações e quatro teses na interface Educação Física e Educação Especial no PPGEEs/UFSCar no período de 17 anos, acredita-se que estas produções discentes têm contribuído significativamente na busca de saberes, procedimentos, estratégias, adaptações e novas reflexões sobre a cultura corporal, inclusão social e escolar no que compete à área da Educação Física para pessoas com necessidades educacionais especiais, haja vista o aumento de defesas no último triênio 2010-2012.

Diante disso, tem-se a necessidade de verificar quais foram os objetivos e as temáticas abordadas nas dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar.

3.2 OBJETIVOS E TEMÁTICAS DAS DISSERTAÇÕES E TESES NA INTERFACE EF E EE DO PPGEES/UFSCAR

Das dissertações e teses analisadas na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, conforme apresentado na Figura 2, os objetivos destas pesquisas foram relacionados em cinco grandes grupos: a) sistematização, aplicação e avaliação de programas de intervenção; b) estratégias de tutoria; c) análise de produções científicas; d) análise das matrizes curriculares dos cursos de Educação Física; e) investigação das concepções e ações dos professores de Educação Física frente o processo de inclusão.

Figura 2 Objetivos das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria 

Nota-se que existe a prevalência de dissertações (11) e teses (duas) com objetivos relacionados à sistematização, aplicação e avaliação de programas de intervenção. Acredita-se que, este fato ocorra, pois, das 14 dissertações e quatro teses defendidas na interface Educação Física e Educação Especial no PPGEEs/UFSCar, 12 dissertações e três teses foram pertinentes à linha de pesquisa dois, denominada Currículo funcional: implementação e avaliação de programas alternativos de ensino especial, a qual tem a finalidade de propor, desenvolver, implementar, descrever e avaliar cientificamente programas educacionais sistêmicos, (considerando o ensino de habilidades específicas, a estruturação de rotinas pedagógicas, a proposição de parâmetros curriculares ou mesmo a análise de programas e serviços de ensino especial).

O denominador comum dos projetos nesta linha de pesquisa é a ênfase no ensino de habilidades funcionais, ou no desenvolvimento de competências para a população com necessidades educacionais especiais, influenciando na independência, inserção social e educacional destes, privilegiando o ensino em situações mais próximas possíveis das condições naturais em que se encontram10.

Foram ainda encontradas uma dissertação e uma tese com objetivos relacionados a estratégias de tutoria para inclusão de alunos com deficiência nas aulas de Educação Física; uma dissertação que analisou as publicações científicas derivadas de dissertações e teses em Educação Física e Educação Especial que geraram artigos, livros e capítulos de livros com temáticas voltadas para as pessoas com necessidades educacionais especiais; uma dissertação que investigou as concepções e ações que norteavam as práticas pedagógicas dos professores de Educação Física frente à inclusão de alunos com deficiência, cotejando estas práticas com seu discurso; e uma tese que identificou e analisou as características das disciplinas voltadas as pessoas com necessidades educacionais especiais contidas nas matrizes curriculares dos cursos de Educação Física no Brasil.

No que tange as temáticas abordadas nestas dissertações e teses, segundo o quadro referencial temático acerca da interface Educação Física Educação Especial, pode-se evidenciar na Figura 3 a prevalência de temáticas relacionadas à Categoria Temática 4, denominada "Conteúdos da Educação Física adaptados às pessoas com necessidades educacionais especiais: esportes, dança, lutas, ginástica e jogos", com ênfase no conteúdo esporte.

Figura 3 Gráfico correspondente às temáticas das dissertações e teses referentes à interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria. 

Ressalta-se que a seleção dos conteúdos da Educação Física aqui empregada, está fundamentada na proposta encontrada na obra Metodologia do Ensino da Educação Física 11, idealizada por um coletivo de autores que, baseados nos pressupostos da Pedagogia histórico-crítica, afirmam que o objeto da Educação Física seria a cultura corporal, composta pelos conteúdos: esportes, ginásticas, jogos, lutas e danças, os quais continuam a fundamentar as práticas pedagógicas atuais (COLETIVO DE AUTORES, 1992).

Diante desse entendimento, a Figura 3apresenta as temáticas das pesquisas na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar.

Das quatro dissertações e uma tese que abordam o conteúdo esporte, três dissertações e a tese têm por objetivo a sistematização, aplicação e avaliação de programas de ensino de modalidades esportivas coletivas adaptadas (voleibol, basquetebol e handebol) enquanto uma dissertação envolve o conteúdo esportivo individual natação, especificamente o ensino do nado estilo crawl a pessoas com necessidades educacionais especiais. As quatro dissertações e uma tese restantes, as quais também correspondem à Categoria Temática 4, apresentam por objetivo a sistematização, aplicação e avaliação de programas, porém voltados aos demais conteúdos da Educação Física, tais como ginástica, dança e atividades recreativas às pessoas com necessidades educacionais especiais.

A prevalência de conteúdos relacionados ao esporte adaptado às pessoas com necessidades educacionais especiais, no caso das pesquisas na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, pode ser considerado um fator positivo, pois conforme apontam Gorgatti e Gorgatti (2008) o esporte adaptado possibilita que estas pessoas tenham acesso à prática esportiva e usufruam de seus benefícios. Entre as contribuições do esporte adaptado podem ser destacadas: melhora na aptidão física, aumento na independência e na autoconfiança para a realização das atividades diárias, bem como incremento do autoconceito e da autoestima.

Foi constatado que as pesquisas envolvendo temáticas relacionadas aos conteúdos da Educação Física adaptados às pessoas com necessidades educacionais especiais, tinham por objetivos a aquisição de habilidades específicas de determinados conteúdos (esporte, ginástica, dança), porém priorizavam a aquisição ou ampliação da independência, autoconceito, autoestima, autoconfiança e inclusão social e educacional.

Voltando às demais temáticas abordadas no PPGEEs/UFSCar, apresenta-se em evidência, também, a Categoria Temática 6, denominada "Psicomotricidade, Aprendizagem Motora e Desenvolvimento Motor para as pessoas com necessidades educacionais especiais na Educação Física", com três dissertações abordando a elaboração ou adaptação, sistematização, aplicação e avaliação de programas relacionados a Psicomotricidade para as pessoas nestas condições. Nesta categoria, até o momento, não foi identificada nenhuma tese.

As categorias temáticas com menor número de incidência foram a 1, 3 e 5. Na Categoria Temática 1, "Educação Física e práticas inclusivas no ambiente educacional", encontrou-se uma dissertação e uma tese que abordam questões relacionadas a estratégia de tutoria e a função do colega tutor de alunos com necessidades educacionais especiais no ambiente escolar e, uma dissertação que trata das concepções e ações que norteiam as práticas pedagógicas dos professores de Educação Física frente o processo de inclusão.

Já na Categoria Temática 3, "Formação e atuação do professor de Educação Física no âmbito da Educação Especial", tem-se uma tese e nenhuma dissertação. Essa tese discute questões relacionadas às matrizes curriculares dos cursos de Educação Física no Brasil, especificamente às disciplinas voltadas às pessoas com necessidades educacionais especiais e suas influências na formação dos profissionais da Educação Física.

Na Categoria Temática 5, "Produção do conhecimento em Educação Física e/ou áreas afins", encontrou-se uma dissertação e nenhuma tese. A dissertação em questão tem como foco de pesquisa a análise das publicações científicas derivadas de dissertações e teses em Educação Física e Educação Especial que geraram artigos, livros e capítulos de livros com temática voltada às pessoas com necessidades educacionais especiais.

Não foram encontradas dissertações e teses na Categoria Temática 2, "Educação Física Adaptada, Atividade Física Adaptada e Atividade Motora Adaptada", tampouco na Categoria Temática 7, "Políticas e Políticas públicas em Educação Física Adaptada". Assuntos relacionados à EFA e políticas voltadas, especificamente, a área da Educação Física, foram registradas na maioria das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, porém não como temas centrais.

Para que a EFA possa se fortalecer como área de conhecimento e de intervenção profissional, é necessário um maior número de pesquisas aplicadas, explicando o cotidiano e as práticas dos profissionais e das pessoas com necessidades educacionais especiais. Segundo Pedrinelli e Verenguer (2008) é necessário desenvolver um corpo de conhecimentos teóricos e práticos que respondam ao saber produzido, adquirido, experimentado, problematizado e refletido sob a ótica acadêmica.

3.3 PARTICIPANTES E LOCAIS DE DESENVOLVIMENTO DAS DISSERTAÇÕES E TESES NA INTERFACE EF E EE DO PPGEES/UFSCAR

Em se tratando dos participantes das pesquisas do PPGEEs/UFSCar, na interface Educação Física e Educação Especial, observa-se na Figura 4 que 12 dissertações e três teses têm como participantes pessoas com deficiência, distribuídas da seguinte forma: deficiência intelectual (DI)12: seis dissertações e duas teses, sendo que em uma dessas teses o participante apresentava deficiência intelectual associada ao autismo; deficiência auditiva/surdez (DA): três dissertações e nenhuma tese; deficiência visual/cegueira (DV): duas dissertações e nenhuma tese; deficiência física (DF): uma dissertação e uma tese.

Figura 4 Participantes das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. *Na categoria (DI) foram incluídas pesquisas que envolvem participantes com Síndrome de Down. Fonte: elaboração própria. 

Ainda consta uma dissertação que teve como participantes os professores de Educação Física que atuavam com alunos com as mais variadas deficiências no ambiente escolar. Ressalta-se que, uma dissertação e uma tese não constam na Figura 4 por tratar-se de pesquisa básica, não havendo envolvimento direto de participantes.

Os participantes com deficiência intelectual representam a população mais estudada tanto nas dissertações quanto nas teses envolvendo a interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, confirmando a tendência inicial deste Programa de Pós-Graduação, direcionada a esse público. Segundo Bueno (2009), Ferreira, Nunes e Mendes (2009) o destaque de participantes com deficiência intelectual justifica-se, em parte, pela própria história do Programa, pois constituía o principal foco dos estudos desenvolvidos no PPGEEs/UFSCar, em uma área de concentração relacionada à temática.

Nunes et al. (1999), Bueno (2009), Silva (2004), Ferreira, Nunes e Mendes (2009), PPGEEs (2013), referem que a proposta de criação do PPGEEs/UFSCar surgiu a partir da experiência do Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar, em oferecer um curso de especialização, no ano de 1977, para professores de alunos com deficiência mental13 no município de São Carlos e região.

A partir da oferta do referido curso, houve um aumento considerável da demanda, tanto no sentido de ampliar as oportunidades para outros professores, quanto para prosseguir e aprofundar a formação daqueles que haviam concluído a especialização. Assim, em 1978 foi implantado o Programa de Mestrado em Educação Especial, com área de concentração em deficiência mental, visando desenvolver competências nas atividades de pesquisa, prestação de serviço e docência em Educação Especial. Ao longo de sua história, para atender aos objetivos da formação de professores e profissionais da área da Educação Especial, a estrutura curricular inicial do PPGEEs/UFSCar sofreu grandes reformulações, ocorreu alteração na denominação de Programa de Mestrado em Educação Especial para Programa de Pós-Graduação em Educação Especial e a área de concentração da deficiência mental passou para Ensino do Indivíduo Especial, ampliando o espectro das necessidades especiais abarcadas. Diante da mudança na estrutura curricular, em 1999, foi implementado o Doutorado.

Acredita-se que essas mudanças contribuíram significativamente para a ampliação e diversificação do público alvo das pesquisas desenvolvidas mais recentemente no PPGEEs/UFSCar, sobretudo a partir da década de 1990 e, mais especificamente, nos trabalhos defendidos a partir de 1995, ano que coincide com a defesa da primeira dissertação na interface Educação Física e Educação Especial.

Ao abordar questões relacionadas aos participantes das pesquisas na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, faz-se necessário, também, discorrer sobre o lócus de desenvolvimento destas pesquisas. Assim, observa-se na Figura 5, que as dissertações foram realizadas predominantemente em instituições de atendimento especializado de caráter filantrópico, enquanto as teses, defendidas mais recentemente, foram desenvolvidas em escolas públicas.

Figura 5 Local das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria. 

Ressalta-se que, o número total de dissertações, é significativamente maior que o número de teses. Deste modo, têm-se nove dissertações e uma tese com pesquisas desenvolvidas em instituições especializadas e, quatro dissertações e duas teses realizadas em escolas públicas. Destaca-se que, uma dissertação e uma tese não constam na Figura 5 por tratarem de pesquisas que tinham por objetivos a análise de produções científicas e matrizes curriculares dos cursos de Educação Física, não envolvendo diretamente o estudo das populações específicas.

Ferreira, Nunes e Mendes (2009) afirmam que o PPGEEs/UFSCar apresenta a prevalência de pesquisas em instituições especializadas de caráter filantrópico devido a ênfase nos estudos com pessoas com características mais evidentes de limitação intelectual, principalmente pessoas com Síndrome de Down, fato este evidenciado nas pesquisas analisadas neste estudo.

Convém destacar que, ao correlacionar o ano de defesa das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, constata-se que a partir do quadriênio 2005-2009 surgiram as primeiras produções discentes que tinham objetivos e temáticas relacionadas à inclusão escolar de alunos com deficiência e, consequentemente, suas pesquisas passaram a ser realizadas em escolas públicas. A priori, acredita-se que, este fato deveu-se às mudanças legislativas e pedagógicas, presentes nas políticas nacionais e internacionais, mais recentemente orientadas pelo princípio da diversidade e inclusão, de que todos, sem exceções, têm igualdade de direito ao acesso, permanência e equiparação de oportunidades nas escolas públicas.

Todavia, apesar dos principais documentos norteadores das políticas nacionais e internacionais que abordam a inclusão datarem da década de 199014, observou-se nas dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, que as questões relacionadas ao processo inclusão escolar carecem de um número mais significativo de produções discentes, visando, assim, maiores discussões e reflexões sobre as teorias e práticas que envolvem as pessoas com necessidades educacionais especiais no ambiente escolar, especificamente na disciplina de Educação Física, componente curricular obrigatório da Educação Básica.

Aproveitando o ensejo da inclusão escolar de pessoas com necessidades educacionais especiais, buscar-se-á discutir, quais as concepções de deficiência e/ou diferença presentes nas dissertações e teses relativas à interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, já que a maioria dos participantes dessas pesquisas eram crianças, jovens e adultos com deficiência.

3.4 CONCEPÇÕES DE DEFICIÊNCIA E/OU DIFERENÇA DAS DISSERTAÇÕES E TESES NA INTERFACE EF E EE DO PPGEES/UFSCAR

As concepções de deficiência e/ou diferença aqui utilizadas tem conjectura nos estudos de Enumo (1985). De acordo com Enumo (1985) existem três tipos de conceber/entender/pensar/perceber a deficiência e/ou diferença e, são apresentadas por meio de três concepções. São elas: 1) concepção médico/clínica: concepção organicista da deficiência, enfatizando aspectos etiológicos, classificatórios e tipológicos, inclusive de base psicopatológica; 2) concepção psicoeducacional: visão a partir de diferentes teorias psicopatológicas de aprendizagem e desenvolvimento humano em sua relação com o processo educacional, incluindo a avaliação e outros aspectos didáticos e pedagógicos do ensino especial propriamente dito; 3) concepção social: concepção que incorpora as abordagens sociológicas e antropológicas da explicação do desvio e da divergência. Entende a deficiência como um fenômeno de ordem social e enfatiza as circunstâncias sociais em que alguém é identificado e tratado como uma pessoa que apresenta essa condição.

Diante de tais entendimentos sobre as concepções de deficiência e/ou diferença, pode-se observar, na Figura 6, que 10 dissertações e três teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar pautam suas pesquisas na concepção psicoeducacional e, quatro dissertações e uma tese na concepção médico/clínica da deficiência e/diferença. A concepção social de deficiência e/ou diferença não foi identificada nas dissertações e teses que fizeram parte deste estudo.

Figura 6 Concepção de deficiência das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria. 

As mudanças de concepção sobre deficiência variam conforme os diferentes momentos históricos e influências político-pedagógicas. Estes fatores interferem também na construção do conhecimento, determinando novas tendências e abordagens metodológicas voltadas ao desenvolvimento de pesquisas envolvendo a interface Educação Física e Educação Especial, conforme explicitado, a seguir, na caracterização metodológica das dissertações e teses do PPGEEs/UFSCar.

3.5 CARACTERIZAÇÃO METODOLÓGICA DAS PESQUISAS NA INTERFACE EF E EE DO PPGEES/UFSCAR

No que diz respeito à caracterização metodológica das pesquisas na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, foram encontradas nove dissertações e uma tese caracterizadas por seus autores, como pesquisas experimentais, e cinco dissertações e três teses como pesquisas descritivas.

Figura 7 Caracterização metodológica das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar. Fonte: elaboração própria. 

Assim, pode-se afirmar que, nas pesquisas que fazem a interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar, observa-se a prevalência de estudos experimentais (com utilização de grupo experimental e controle, e/ ou realização de pré-testes e pós-teste) nas dissertações, e preponderância de estudos descritivos (levantamento de opiniões, características de grupos e descrições de situações observadas) nas teses.

Acredita-se que a predominância de estudos experimentais possa ter íntima relação com a prevalência de pesquisas voltadas à sistematização, aplicação e avaliação de programas de intervenção, devido à influência dos estudos precursores no campo da Educação Especial serem oriundos da área anteriormente conhecida como "Psicologia do Excepcional".

Todavia, a visão interdisciplinar de pedagogos, psicólogos, médicos, dentre outros profissionais, suscitou a alteração deste modo de pensar e atuar. Pardo (2009) indica que as iniciativas desse grupo de estudiosos demonstraram que as pessoas com necessidades educacionais especiais eram capazes de aprender, conforme os processos utilizados no processo de ensino e aprendizagem. Mas, para que o conhecimento adquirido sobre tais processos ganhasse credibilidade, seria preciso demonstrar ainda que os procedimentos eram responsáveis pela aprendizagem desenvolvida, ou seja, seria necessário desenvolver pesquisas experimentais que levantassem fatores presentes nas situações de ensino e aprendizagem propostas às pessoas com necessidades educacionais especiais e, como os mesmos interferiam no processo de aprender destes.

Destarte, pontua-se que a predominância das dissertações baseadas em estudos experimentais vem acompanhando a necessidade de pesquisas aplicadas às pessoas com necessidades educacionais especiais. Ressalta-se que, das cinco dissertações e três teses que optaram por caracterizar seus estudos como descritivos, apenas uma dissertação e uma tese não se enquadravam como pesquisa aplicada, ou seja, não tinham o propósito de gerar conhecimentos para aplicação prática dirigida à solução das limitações enfrentadas pelas pessoas com necessidades educacionais especiais nos mais variados contextos sociais, tratando-se, deste modo, de pesquisas básicas que visavam gerar conhecimentos úteis para o avanço da ciência, mas sem aplicação prática prevista.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considera-se que a análise das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar permitiu verificar que:

  • a) A defesa de 14 dissertações e quatro teses, no período de 17 anos contribuiu significativamente na busca de novos saberes e novas reflexões sobre teorias e práticas relacionadas a atividades físicas, inclusão social e escolar de crianças, jovens, adultos e idosos com necessidades educacionais especiais, principalmente relativas às populações envolvendo deficiências sensoriais, físicas e intelectuais, haja vista o aumento considerável de defesas no último triênio de 2010-2012;

  • b) A predominância de pesquisas experimentais com objetivos e temáticas relacionadas à sistematização, aplicação e avaliação de programas com conteúdos pautados no esporte adaptado às pessoas com necessidades educacionais especiais pode ser considerado um fator positivo, pois tem possibilitado que estas pessoas tenham acesso à prática esportiva e usufruam de seus benefícios;

  • c) A prevalência de concepções da deficiência pautadas no modelo psicoeducacional, em detrimento da necessidade de enfatizar discussões e estudos no âmbito da inclusão. Percebe-se que, ainda, o processo de inclusão escolar de pessoas com necessidades educacionais especiais no campo da Educação Física carece de maiores discussões e reflexões sobre suas políticas, teorias e práticas nas dissertações e teses no PPGEEs/UFSCar, haja vista que tanto a área de conhecimento da Educação Física quanto da Educação Especial tratam de assuntos pertinentes ao acesso, permanência e equiparação de oportunidades à educação de crianças, jovens e adultos com necessidades educacionais especiais;

  • d) Questões relacionadas especificamente ao escopo da EFA não foram abordadas nas dissertações e teses do PPGEEs/UFSCar como temas predominantes, porém assuntos pertinentes a esta área do conhecimento foram registradas na maioria das dissertações e teses na interface Educação Física e Educação Especial do PPGEEs/UFSCar.

Diante de tais considerações, espera-se que o presente estudo possa instigar, auxiliar e nortear futuras investigações na interface Educação Física e Educação Especial, tanto no PPGEEs/UFSCar quanto em outros Programas de Pós-Graduação relacionadas a estas duas áreas do conhecimento, visando atender as especificidades das crianças, jovens, adultos e idosos com necessidades educacionais especiais.

REFERÊNCIAS

BARDIN, L. Análise de conteúdo. 5.ed. Lisboa: Edições 70, 2008. [ Links ]

BUENO, J. G. S. As dissertações sobre escola: balanço tendencial da população do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da UFSCar - 1981/2001. In: MENDES, E. G.; ALMEIDA, M. A.; WILLIANS, L. C A. (Org.). Temas em educação especial avanços recentes. São Carlos: EDUFSCar, 2009. [ Links ]

BRASIL. Estatuto da criança e adolescente. Ministério da Saúde. 3. ed. Brasília, DF: Editora do Ministério da Saúde, 1990. [ Links ]

BRASIL. Ministério da educação e cultura. Lei de diretrizes e bases da educação nacional nº 9.394. 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: MEC, 1996. [ Links ]

BRASIL. Decreto n° 3.298 que regulamenta a Lei nº 7.853/89. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: MEC, 1999. [ Links ]

COLETIVO DE, AUTORES. Metodologia do ensino da educação física. São Paulo: Cortez, 1992. [ Links ]

DEMO, P. Pesquisa: princípio científico e educativo. 10.ed. São Paulo: Cortez, 2003. [ Links ]

DUARTE, E. A formação do profissional em atividade motora adaptada. In: MENDES, E. G.; ALMEIDA, M. A.; WILLIANS, L. C A. (Org.). Temas em educação especial avanços recentes. São Carlos: EDUFSCar, 2009. [ Links ]

ENUMO, S. A. A formação universitária em educação especial - deficiência mental - no estado de São Paulo: suas características administrativas, curriculares e teóricas. 1985. 90f. Dissertação (Mestrado em Educação Especial), Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 1985. [ Links ]

FERREIRA, J. R.; NUNES, L. R. O. P.; MENDES, E. G. Os 25 anos do PPGEEs na educação especial brasileira: análise das dissertações relacionadas à área da deficiência mental. In: MENDES, E. G.; ALMEIDA, M. A.; WILLIANS, L. C A. (Org.). Temas em educação especial avanços recentes. São Carlos: EDUFSCar, 2009. [ Links ]

GONÇALVES, L. H. T; BENEDETTI, T. R. B.; MAZO, G. Z Pesquisas e avanços científicos na área de atividade física e envelhecimento. Revista Movimento, Florianópolis, v.9, n.1, p.57-61, 2007. [ Links ]

GORGATTI, M. G.; GORGATTI, T. O esporte para pessoas com deficiência. In: GORGATTI, M. G; COSTA, R. F (Org.). Atividade física adaptada qualidade de vida para pessoas com necessidades especiais. Barueri: Manole, 2008. [ Links ]

KROEFF, M. S. Pós-Graduação em educação física no Brasil: estudo das características e tendências da produção científica dos professores doutores. 2000. 274f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) - Departamento de Ciências da Comunicação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000. [ Links ]

MARCONI, M. A..; LAKATOS, E. M.. Técnicas de pesquisa: planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. 7ed. São Paulo: Atlas, 2008. [ Links ]

MARTINS, N. R.; SILVA, R. V. S. Pesquisas brasileiras em educação física e esportes: tendências das teses e dissertações. 2006. Disponível em: <http://www.nuteses.ufu.br/trabalho_2.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2012. [ Links ]

NASCIMENTO, A. C. S. Mapeamento das teses defendidas nos programas de pós-graduação em educação física no Brasil (1994-2008). 2010. 279f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. [ Links ]

NUNES, L. R. O. P. et al. A pós-graduação em educação especial no Brasil: análise crítica da produção discente. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v.5, n.5, p.113-126, 1999. [ Links ]

PARDO, M. B. L. Pesquisa com intervenção: sua contribuição para a educação especial. In: MENDES, E. G.; ALMEIDA, M. A.; WILLIANS, L. C A. (Org.). Temas em Educação Especial avanços recentes. São Carlos: EDUFSCar, 2009. [ Links ]

PEDRINELLI, V. J; VERENGUER, R. C. Educação física adaptada: introdução ao universo das possibilidades. In: GORGATTI, M. G; COSTA, R. F (Org.). Atividade física adaptada qualidade de vida para pessoas com necessidades especiais. Barueri: Manole, 2008. [ Links ]

PPGEES. Programa de pós-graduação em educação especial da Universidade Federal de São Carlos. Disponível em: <http://www.ppgees.ufscar.br>. Acesso em: 04 abr. 2013. [ Links ]

RESENDE, H. G.; VOTRE, S. J O programa de pós-graduação stricto sensu em educação física da Universidade Gama Filho: características realizações e desafios. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Porto Alegre, v.24, n.2, p.49-73, 2003. [ Links ]

SACARDO, M. S. Publicação científica derivadas das dissertações e teses na interface entre educação física e educação especial. 2006. 136f. Dissertação (Mestrado em Educação Especial), Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2006. [ Links ]

SILVA, R. V. S. E. Mestrados em educação física no Brasil: pesquisando suas pesquisas. 1990. 252f. Dissertação (Mestrado em Ciência do Desenvolvimento Humano) - Departamento de Educação Física, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1990. [ Links ]

SILVA, R. V. S. E. Pesquisa em educação física: determinações históricas e implicações epistemológicas. 1997. 270f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1997. [ Links ]

SILVA, M. R. Análise bibliométrica da produção científica docente do programa de pós-graduação em educação especial/UFSCar: 1998-2003. 2004. 177f. Dissertação (Mestrado em Educação Especial), Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2004. [ Links ]

SILVA, R. F.; SEABRA JÚNIOR, L.; ARAÚJO, P. F Educação física adaptada no Brasil da história à inclusão educacional. São Paulo: Phorte, 2008. [ Links ]

UNESCO, Ministério da Educação de Jomtien. Declaração mundial sobre educação para todos: satisfação das necessidades básicas de aprendizagem. Jomtien: UNESCO, 1990. [ Links ]

UNESCO , Ministério da Educação e Ciência da Espanha. Declaração de salamanca e enquadramento da acção na área da necessidade educativas especiais. Conferência mundial sobre as necessidades educativas especiais: acesso e qualidade. Espanha: UNESCO, 1994. [ Links ]

1 10.1590/S1413-65382115000200010

4 O termo Cultura Corporal foi proposta por Eleonor Kunz, Valter Bracht, Lino Castellani Filho, Carmem Lúcia Soares, entre outros, na obra de autoria do Coletivo de autores (1992). A Cultura corporal ultrapassa a concepção de movimento humano reduzida a um fenômeno meramente físico, tido estritamente como um deslocamento do corpo no espaço. Ao considerar o ser humano que realiza o movimento, essa proposta passa a reconhecer as significações culturais e a intencionalidade do movimento humano. Para tanto, os autores problematizam a concepção mecanicista de corpo e de movimento, na qual o corpo está separado do mundo, buscam fundamentos na concepção fenomenológica de corpo e de movimento, ou seja, na ideia de que o ser humano é inseparável do mundo em que vive (COLETIVO DE AUTORES, 1992).

5 A expressão necessidades educacionais especiais pode ser utilizada ao se referir a crianças, jovens e adultos cujas necessidades decorrem de sua elevada capacidade ou de suas dificuldades para aprender em função de uma limitação física, sensorial, intelectual ou pelo prejuízo na qualidade de suas interações sociais. Está associada, portanto, a facilidade ou dificuldade de aprendizagem, não necessariamente vinculada somente à deficiência, mas também aos transtornos globais do desenvolvimento e as altas habilidades/superdotação (BRASIL, 1996, 2008).

6 O acesso a CAPES pode ser feito pelo endereço eletrônico http://www.capes.gov.br.

7 O Programa de Pós-Graduação em Educação Especial em nível de Mestrado da UFSCar existe desde 1978 e em nível de Doutorado desde 1999, tendo sua primeira dissertação defendida no ano de 1981 e sua primeira tese no ano 2000. O PPGEEs foi o primeiro Programa de Pós-Graduação em Educação Especial implantado no Brasil, e desde então se constitui como o único programa específico na área. Ressalta-se que, na atualidade existem vários outros Programas de Pós-Graduação, particularmente na área de Educação, que constituíram eixos temáticos, núcleos ou linhas de pesquisas dedicadas à Educação Especial (PPGEES, 2013).

8 O acesso ao Banco de dados da Biblioteca Comunitária da UFSCar pode ser feito pelo endereço eletrônico <http://www.bco.ufscar.br>.

9 A primeira dissertação do PPGEEs/UFSCar foi defendida no ano de 1981 e a primeira tese no ano 2000.

10 Informações sobre o histórico, organização curricular, disciplinas oferecidas, linhas de pesquisas e seus respectivos objetivos, corpo docente e demais informações referentes ao PPGEEs/UFSCar encontram-se disponíveis no endereço eletrônico <http://www.ppgees.ufscar.br>.

11 Referência completa da obra: COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

12 Atualmente, ao invés do termo "deficiência mental", emprega-se a nomenclatura "deficiência intelectual". Esta terminologia foi oficialmente utilizada em 1995, quando a Organização das Nações Unidas, juntamente com The National Institute of Child Health and Human Development, The Joseph P. Kennedy, Jr. Foundation, e The 1995 Special Olympics World Games, realizaram em Nova York o Simpósio chamado Intelectual Disability: Programs, Policies, and Planning For The Future (Deficiência Intelectual: Programas, Políticas e Planejamento para o Futuro); desde então a terminologia deficiência mental vem sendo substituída por deficiência intelectual na maioria dos documentos pertinentes a área da Educação Especial. Observa-se que, a terminologia deficiência intelectual começou a ser utilizada nas dissertações e teses do PPGEEs/UFSCar a partir de 2010.

13 Para abordar as questões históricas relacionadas ao PPGEES/UFSCar utilizar-se-á a terminologia deficiência mental, devido a esta ser a nomenclatura empregada na época da implementação do referido Programa de Pós-Graduação.

14 Os principais documentos norteadores das políticas nacionais e internacionais, da década de 1990, que tratam da inclusão são: Declaração Mundial sobre Educação Para Todos (UNESCO, 1990), Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), LDBEN 9.394/96 (BRASIL, 1996), Decreto nº 3.298 que regulamenta a Lei nº 7.853/89 (BRASIL, 1999).

Received: May 28, 2013; Revised: February 10, 2014; Accepted: March 17, 2014

Creative Commons License Todo o conteúdo do artigo, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons.