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Ciência e Agrotecnologia

Print version ISSN 1413-7054

Ciênc. agrotec. vol.27 no.2 Lavras Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-70542003000200001 

AGRONOMIA

 

Avaliação da atividade fungitóxica de óleos essenciais de folhas de Eucalyptus sobre Fusarium oxysporum, Botrytis cinerea e Bipolaris sorokiniana 1

 

Fungitoxic activity evaluation of essential leaf oils of Eucalyptus on Fusarium oxysporum, Botrytis cinerea and Bipolaris sorokiniana

 

 

Ana Paula Soares P. SalgadoI; Maria das Graças CardosoII; Paulo Estevão de SouzaIV; Josefina Aparecida de SouzaIII; Celeste Maria P. AbreuII; José Eduardo B. P. PintoIV

IEngenheiro Agrônomo - Departamento de Química da UFLA
IIProfessoras do Departamento de Química da UFLA. Bolsista do CNPq
IIIPesquisadora do Departamento de Química da UFLA
IVProfessores dos Departamentos de Fitopatologia e Agricultura da UFLA

 

 


RESUMO

A maioria das plantas são resistentes aos diferentes patógenos, e essa resistência pode estar relacionada à existência de compostos fungistáticos naturalmente produzidos. Com o presente trabalho, avaliou-se a atividade fungitóxica de óleos essenciais de eucaliptos. Os óleos foram obtidos de folhas dos eucaliptos mediante arraste a vapor de água, utilizando o aparelho de Clevenger modificado. Nos ensaios biológicos, foram empregados os fitopatógenos Fusarium oxysporum, Botrytis cinerea e Bipolaris sorokiniana. O crescimento dos microorganismos na presença de diferentes concentrações de óleo (5, 50 e 500 mg/Kg), usando os meios de cultura BDA (Batata-Dextrose-Ágar) e PCA (Batata-Cenoura-Ágar), foi avaliado. Nas concentrações de 500 mg/Kg dos óleos, foram observadas inibições significativas no crescimento micelial das espécies fúngicas, após período de 7 dias. No entanto, o óleo essencial de Eucalyptus urophylla foi o que apresentou maior ação fungitóxica, que foi atribuída à presença do composto denominado globulol, ausente no E.camaldulensis e no E. citriodora.

Termos para indexação: Eucalyptus, óleo essencial, atividade fungitóxica.


ABSTRACT

Most plants are resistant to different pathogens and this resistance may be related to the existence of naturally produced fungistatic components. The present work evaluated the fungitoxic activity of essential oils from three eucalyptus species. The essential oils were obtained from eucalyptus leaves by steam distillation using a modified Clevenger apparatus. The phytopatogens Fusarium oxysporum, Botrytis cinerea and Bipolaris sorokiniana were employed in the biological tests. The growth of fungi in the presence of different concentrations of oil (5, 50, and 500 mg/kg), using BDA (Potato-Dextrose-agar) and PCA (Potato-Carrot-agar) culture media were evaluated. Significant inhibition of the micelial growth of the fungal species was observed at the concentration of 500 mg/kg of oil after a period of seven days. The essential oil of Eucalyptus urophylla showed the greatest fungitoxic activity. This fact was attributed to the presence of the compound globulol, which was absent in the oils obtained from E. camaldulensis and E. citriodora.

Index terms: Eucalyptus, essential oil, fungitoxic activity.


 

 

INTRODUÇÃO

Os óleos essenciais de eucalipto são compostos formados por uma complexa mistura de componentes orgânicos voláteis, freqüentemente envolvendo de 50 a 100 ou até mais componentes isolados, e apresentando grupos químicos como: hidrocarbonetos, alcoóis, aldeídos, cetonas, ácidos e ésteres. Em geral, os óleos essenciais são constituídos de terpenos mais complexos, como o citronelal e o cineol; outros constituintes da essência incluídos na porcentagem de 20 a 30 % são: α - pineno, piperitona, felandreno, butiraldeído, hexanal (Charles & Simon, 1990).

Nos eucaliptos, os óleos etéreos encontram-se basicamente em suas folhas. São produzidos e armazenados por glândulas e estão distribuídos de forma abundante no parênquima da folha da maioria das espécies de eucaliptos. Existem diversas teorias sobre a função dos óleos essenciais dos eucaliptos, mas poucos fatos caracterizam seu papel ecológico e fisiológico. Eles já foram considerados como repelentes de insetos que se alimentam de suas folhas, inibidores da germinação e de crescimento de outras plantas, controladores da atividade microbiológica de alguns fungos e bactérias, entre outros (Boland et al., 1991; Oyedeji et al., 1999; Chaibi et al., 1997).

A investigação dos óleos essenciais levou ao descobrimento de hidrocarbonetos isoméricos denominados terpenos, porém, os óleos essenciais são misturas muito complexas e muito variáveis em seus constituintes, sendo encontrados somente os terpenos mais voláteis, dentre os quais destacam-se aqueles de baixo peso molecular, como os monoterpenos com 10 carbonos e sesquiterpenos com 15 carbonos (Simões et al., 1999; Doran & Brophy, 1990).

A partir da última década, a conscientização química sobre o uso indiscriminado e incorreto de defensivos agrícolas no ambiente rural e urbano, causando prejuízos aos ecossistemas e ao homem, tem motivado o desenvolvimento de métodos e produtos alternativos no controle de doenças de plantas (Fernandes, 2000). Assim sendo, é de fundamental importância a pesquisa constante e a procura de novos grupos químicos com efeitos fungicidas. Na natureza, a maioria das plantas são resistentes aos diferentes patógenos, e essa resistência pode estar relacionada à existência de fungicidas naturalmente produzidos.(Lemos et al., 1990). Portanto, espera-se que a descoberta de substâncias naturais com efeito fungitóxico possa contribuir no controle das doenças das plantas. Dentro desse contexto, objetivou-se com o presente trabalho avaliar a atividade fungitoxica dos óleos essenciais de três diferentes espécies de Eucalyptus: E. camaldulensis Dehnh., E. citriodora Hook. e E. urophylla Blake., extraídos de suas folhas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Seleção das plantas e extração de óleos essenciais

As folhas adultas da planta foram coletadas em março de 2000, no período da manhã, em um minihorto florestal de eucalipto da Universidade Federal de Lavras–UFLA, Lavras-MG.

As folhas foram picadas, separadas em pacotes de 100 g, e guardadas em sacos plásticos sob refrigeração (4° C), para posterior extrações dos óleos essenciais. A extração foi realizada pela técnica de arraste de vapor de água num recipiente com ebulidor (gerador de vapor) ligado a um regulador de tensão. O fluxo de vapor produzido passou pelo material vegetal, dentro de um balão com capacidade para 500 mL, sendo, em seguida, condensado e recolhido em balão de 250 mL mantido em banho com água e gelo (FIG.1). O volume ótimo de líquido condensado (emulsão de água/óleo – hidrolato) necessário, para extrair todo o óleo essencial, foi de aproximadamente 1L, com fluxo de vapor ajustado para produzir tal volume em 4 horas. As frações orgânicas obtidas pela extração com diclorometano (3 extrações utilizando 80 mL do solvente) foram evaporadas em rotavapor, obtendo-se o óleo puro. (Mancini, 1984; Mwangi et al., 1981).

Análise da atividade biológica

As culturas utilizadas para os bioensaios foram obtidas na micoteca do Departamento de Fitopatologia da UFLA.

Os óleos essenciais foram adicionados em meio de cultura previamente preparados [BDA, para Fusarium oxysporum Schlecht. e Bipolaris sorokiniana Shoemaker. e PCA, para Botrytis cinerea Pers. ] (Koller & Scheeinplug, 1987), obtendo-se as concentrações de 5, 50 e 500 mg Kg-1.. Em seguida, os fungos foram inoculados (disco micelial de 0,5 cm de diâmetro) e incubados durante 7 dias à temperatura de 20 a 22ºC, sob fotoperíodo de 12 horas luz e 12 horas escuro (Vitti, 1999; Lassak, 1988).

Iniciaram-se as avaliações do experimento após 48 horas da inoculação, por meio de medições diárias do crescimento micelial, e cada medição correspondeu à média de duas medidas diametralmente opostas da colônia fúngica, mediante o uso de uma régua graduada.

Os experimentos foram analisados estatísticamente por regressão, empregando o programa SANEST (Sistema de Análises Estatística).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos estão nas figuras 2, 3 e 4. A espécie B. cinerea (Figura 2) não apresentou diferença significativa no crescimento micelial para concentrações de 5 e 50 mg/Kg dos óleos das espécies de eucaliptos; entretanto, a 500 mg/Kg, o óleo essencial que apresentou maior atividade fungitóxica foi o da espécie E. urophylla.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os ensaios que empregaram F. oxysporum (Figura 3) não apresentaram diferenças entre a testemunha e as concentrações de 5 e 50 mg/Kg, utilizando o óleo das três espécies de eucaliptos; no entanto, observou-se uma pequena diferença para 500 mg/Kg com as espécies E. camaldulensis e E. citriodora , e uma acentuada diferença para a espécie E. urophylla. Observou-se ainda uma mudança de coloração a 500 mg/Kg, tornando-se o micélio rosa mais escuro. Como as substâncias encontradas nos óleos apresentam grupo alcoólico, carbonilas e duplas ligações, (Salgado et al., 2001) pressupõem-se que houve uma oxidação, ou os compostos foram metabolizados em outras substâncias, provocando a inibição do crescimento e alteração de cor dos micélios fúngicos.

Para o fungo B. sorokiniana (Figura 4), nenhuma diferença entre a testemunha e a concentração de 5 mg/Kg dos 3 óleos essenciais foi observada, permanecendo praticamente igual. Porém, uma diferença pequena apresentou-se a 50 mg/Kg e uma acentuada diferença, a 500 mg/Kg, na qual não houve crescimento significativo.

A acentuada ação fungitóxica do óleo essencial do E. urophylla, observada sobre os fungos testados, foi atribuída à presença do globulol, composto majoritário desse óleo, que não foi detectado nos óleos do E. citriodora e do E. camaldulensis (Salgado et al., 2001). A ação fungitoxica do globulol sobre o fungo B. cinerea também foi constada por Aleu et al. (2001), no qual, para uma concentração de 100 e 200 mg/Kg do composto, foi observada inibição total do crescimento do fungo para 2 e 3 dias, respectivamente.

 

CONCLUSÕES

Os óleos essenciais de E. urophylla, E. citriodora e E. camaldulensis apresentaram diferentes potenciais fungitóxicos sobre os fungos F. oxysporum, B. cinerea e B. sorokiniana. Foram observadas variadas inibições nos crescimentos miceliais em todas as espécies para as diferentes concentrações dos óleos. No entanto, o óleo com maior ação fungitóxica foi de E. urophylla, sendo essa atribuída à presença do composto globulol, não detectado nos demais óleos.

 

AGRADECIMENTOS

À CAPES e ao CNPq, pelos auxílios e bolsas de pós-graduação concedidas. A Dra. Maria das Graças Cardoso agradece ao CNPq pela bolsa de produtividade recebida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Parte da Dissertação de Mestrado em Agronomia – Agroquímica/Agrobioquímica, apresentada pelo primeiro autor ao Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras/UFLA – Caixa Postal 37 – 37200-000 – Lavras, MG.

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