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Ciência e Agrotecnologia

Print version ISSN 1413-7054On-line version ISSN 1981-1829

Ciênc. agrotec. vol.32 no.3 Lavras May/June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-70542008000300030 

CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS

 

Hemaglutinina de folhas de mandioca (Manihot esculenta Crantz): purificação parcial e toxicidade1

 

Hemaglutinin of cassava leaves (Manihot esculenta Crantz): partial purification and toxicity

 

 

Chrystian Araujo PereiraI; Angelita Duarte CorrêaII; Custódio Donizete dos SantosII; Celeste Maria Patto de AbreuII; Raimundo Vicente de SousaIII; Marcelo Murad MagalhãesIV

IDoutorando – Departamento de Química/DQI – Universidade Federal de Lavras/UFLA – Cx. P. 3037 – 37200-000 – Lavras, MG – capfarma@yahoo.com.br
IIDoutores, Professores – Departamento de Química/DQI – Universidade Federal de Lavras/UFLA – Cx. P. 3037 – 37200-000 – Lavras, MG – angelita@ufla.br; santoscd@ufla.br; celeste@ufla.br
IIIDoutor, Professor – Departamento de Medicina Veterinária/DMV – Universidade Federal de Lavras/UFLA – Cx. P. 3037 – 37200-000 – Lavras, MG – rvsousa@ufla.br
IVDoutor – Departamento de Biologia/DBI – Universidade Federal de Lavras/UFLA – Cx. P. 3037 – 37200-000 – Lavras, MG – mmurad@ufla.br

 

 


RESUMO

Um dos componentes da multimistura para suplementação alimentar de populações carentes é a farinha de folhas de mandioca (FFM) que possui elevado conteúdo em proteínas, vitaminas e minerais. Todavia, as folhas de mandioca também apresentam substâncias antinutritivas e/ou tóxicas, como cianeto, polifenóis, nitrato, ácido oxálico, hemaglutinina, saponinas e inibidores de tripsina. Objetivou-se neste trabalho extrair as proteínas da FFM, purificando-as em coluna cromatográfica e determinar sua atividade hemaglutinante e toxicidade. Foram testadas várias estratégias de extração e precipitação das proteínas, sendo que o maior teor protéico e atividade hemaglutinante foi obtido na extração com água destilada na proporção 1:20 (p/v) seguida da precipitação com sulfato de amônio a 80% de saturação. As proteínas precipitadas foram purificadas em coluna Q-Sepharose. Das quatro frações obtidas na purificação (I, II, III e IV), a I e a II apresentaram maiores atividades hemaglutinantes. As mesmas frações foram injetadas via intraperitoneal em camundongos com doses de 2mg (fração I), 3mg (fração II), 54mg (fração III) e 52mg (fração IV) para cada animal com 20g de peso médio, não sendo observadas mortes ou quaisquer efeitos adversos após 120h.

Termos para indexação: Folha de mandioca, lectina, purificação, toxidez.


ABSTRACT

One of the components of the multimixture to the feed supplementation of low-income populations is cassava leaf flour (FFM), with high content of proteins, vitamins and minerals. However, cassava leaves also present substance regarded as antinutritive and/or toxic, such as cyanide, polyphenols, nitrate, oxalic acid, hemagglutinin, saponins and trypsin inhibitors. The aim of this work was to extract proteins from FFM, purifying them in chromatographic column and determine their hemagglutinating activity and toxicity. A number of strategies of extraction and precipitation of proteins were tested; the highest protein content and hemagglutinating activity were obtained in the extraction with distilled water at the 1:20 ratio (p/v) followed by the precipitation with ammonium sulfate at 80% of saturation. The precipitated proteins were purified in Q-Sepharose Fast Flow column. Out of the four purification fractions (I, II, III e IV), the I and II activities presented higher specific activity. The same fractions were injected intraperitoneal via in mice of 20g weight with doses of 2mg (fraction I), 3mg (fraction II), 54mg (fraction III) and 52mg (fraction IV). No deaths or any adverse effects was observed after 120h.

Index terms: Cassava leaf, lectin, purification, toxicity.


 

 

INTRODUÇÃO

No intuito de reduzir os níveis de desnutrição no país, diversos setores da sociedade, como a Pastoral da Criança, vêm buscando alternativas para a suplementação alimentar de populações carentes como, por exemplo, o uso de uma multimistura que é constituída principalmente de alimentos não-convencionais e/ou subprodutos agro-industriais ricos em diferentes nutrientes. Um dos componentes dessa multimistura é a farinha de folhas de mandioca (FFM) que possui elevado conteúdo em proteínas (CORRÊA et al., 2004; ORTEGA-FLOREA et al., 2003; WOBETO et al., 2006), vitaminas (CORRÊA et al., 2004; WOBETO et al., 2006), e minerais (WOBETO et al., 2006) quando comparados a hortaliças folhosas convencionais. Todavia, elas também apresentam algumas substâncias consideradas antinutritivas e/ou tóxicas, como cianeto, polifenóis, nitrato, ácido oxálico, saponinas, hemaglutinina e inibidores de tripsina (CORRÊA, 2000; MELO et al., 2007; WOBETO et al., 2007). Entre as substâncias presentes nas folhas de mandioca, destaca-se a hemaglutinina, cujos estudos disponíveis até a presente data, referem-se apenas à sua atividade hemaglutinante (MELO et al., 2007; WOBETO et al., 2007).

As hemaglutininas, também denominadas lectinas, são glicoproteínas que têm a propriedade específica de se ligar a certos carboidratos. São conhecidas por sua habilidade em aglutinar células, especialmente células vermelhas sangüíneas chamadas de eritrócitos, provocando o fenômeno da hemaglutinação (REYNOSO-CAMACHO et al., 2003). São proteínas com, no mínimo, um domínio não catalítico que ligam reversivelmente a mono ou oligossacarídeos específicos (PEUMANS & VAN DAMME, 1998). Além da especificidade do sítio de ligação, a maioria das lectinas de legumes apresenta como propriedade físico-química geral a necessidade de um íon metálico como Ca+2 e Mn+2 (ou outro metal de transição) para sua ligação (LIENER, 1980; VAN DAMME et al., 1998).

De modo geral, as lectinas acarretam efeitos degenerativos nas membranas celulares, podem inibir a ação de enzimas digestivas (VASCONCELOS & OLIVEIRA, 2004), interferindo na absorção dos nutrientes (SGARBIERI, 1987), causando hiperplasia de intestino delgado (PUSZTAI et al., 1998), depressão do crescimento, redução do peso corporal, diminuição de musculatura esquelética, aumento do catabolismo de lípides, além de redução significativa dos níveis de insulina sangüínea e pancreática (BARDOCZ et al., 1996), alterações no intestino delgado, baço e timo (REYNOSO-CAMACHO et al., 2003) e até mesmo serem letais (ANTUNES et al., 1995; SANTORO et al., 1997). Por outro lado, os potenciais de aplicações farmacológicas dessas proteínas têm estimulado a contínua investigação, isolamento e caracterização de novas lectinas (RAMOS et al., 1998). Portanto, objetivou-se neste trabalho extrair, purificar e avaliar a toxicidade da hemaglutinina da folha de mandioca.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Colheita, secagem das folhas de mandioca e preparo da farinha de folhas de mandioca

Folhas maduras de mandioca (Manihot esculenta Crantz) cultivar Cacao originárias da Fazenda Rio Grande, município de Lavras, MG, foram colhidas aos 12 meses de idade da planta e transportadas para o Laboratório de Bioquímica do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras. As folhas foram lavadas em água corrente e destilada, colocadas em bancada para escorrer e, em seguida, secas em estufa ventilada à temperatura de 30ºC a 35ºC. Com 24h de secagem, os pecíolos foram retirados e as folhas permaneceram na estufa por mais 24h. Em seguida, foram moídas e a farinha armazenada, em geladeira, em frasco hermeticamente fechado.

Umidade e proteína

A umidade foi determinada, em triplicatas, nas folhas frescas e na farinha de folhas de mandioca (FFM), segundo a metodologia da AOAC (2000). As proteínas foram dosadas segundo o método de Bradford (1976), usando a albumina sérica bovina como padrão.

Atividade hemaglutinante

A atividade hemaglutinante foi determinada segundo Calderón de la Barca et al. (1985). Os resultados foram expressos em número de unidades hemaglutinantes (UH) que é calculado a partir do inverso do título da maior diluição, na base 2 que ainda apresentou aglutinação visível e, em atividade específica obtida pelo cálculo de UH/mg de proteína (KILPATRICK & YEOMAN, 1978). Por exemplo: considerando uma diluição 24, o seu título igual a 1/16, e o volume de amostra utilizado no ensaio de 100mL, define-se que a atividade hemaglutinante é de 16 UH/100 mL

Extração e precipitação das proteínas

As proteínas da FFM foram extraídas com água destilada na proporção 1:20 (p/v), sob agitação mecânica por 3h à temperatura ambiente. Após, a suspensão foi filtrada em tecido de organza e centrifugada a 15.000 x g, por 15 minutos a 5ºC. O precipitado foi descartado e o sobrenadante (extrato bruto) foi utilizado para determinação de proteínas e medida da atividade hemaglutinante.

Ao extrato bruto adicionou-se sulfato de amônio sólido, para precipitar as proteínas, em pequenas quantidades até atingir percentuais de saturação de 25%, 50%, 80% e 90%, subseqüentes (MOREIRA & PERRONE, 1977). Durante a adição do sulfato de amônio o extrato bruto foi mantido em recipiente com gelo, sob agitação magnética (COOPER, 1942). Em seguida, a mistura foi colocada em repouso em geladeira, durante 24h. Após esse período, a mistura foi centrifugada a 1.800 x g por 20 minutos em temperatura ambiente. O sobrenadante foi usado para a próxima saturação e o precipitado obtido de cada saturação foi dissolvido em 2mL de solução salina tamponada (NaCl 0,15mol/L pH 7,4 tampão fosfato) e dialisado extensivamente contra água. Os dialisados foram então liofilizados e submetidos à dosagem de proteínas e ao ensaio de atividade hemaglutinante.

pH na precipitação das proteínas com sulfato de amônio

Extratos brutos após a adição de sulfato de amônio a 80% de saturação, sob agitação magnética tiveram seus pH ajustados para 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10, com soluções de HCl e NaOH e uso de um peagâmetro, seguindo os mesmos passos descritos anteriormente para a precipitação das proteínas.

Purificação parcial das proteínas

A purificação das proteínas liofilizadas foi realizada em coluna cromatográfica de troca aniônica Q-Sepharose Fast Flow (26mm/100mm), utilizando um gradiente de NaCl 0,2mol/L a 1,0mol/L para eluição das proteínas ligadas à matriz.

A coluna foi previamente equilibrada com a solução salina tamponada (NaCl 0,15mol/L pH 7,4 tampão fosfato) antes da aplicação da amostra, até que a leitura em 280 nm permanecesse constante com valores abaixo de 0,02. A seguir, 40mg de liofilizado dissolvidos em 30mL da mesma solução salina tamponada foram aplicados à coluna sob um fluxo constante de 4mL/min com auxílio de uma bomba peristáltica. Após, foram aplicados ininterruptamente, 100mL de água destilada para remoção do material não ligado à coluna e, logo em seguida, soluções de 100mL de NaCl de concentrações crescentes, variando de 0,2mol/L até 1,0mol/L, para estabelecer o gradiente de eluição das proteínas ligadas à matriz. O eluato foi continuamente recolhido em frações de 8mL com o auxílio de coletor de frações e monitorado por espectrofotômetro em 280 nm. As frações correspondentes à faixa dos picos foram dialisadas e liofilizadas para posteriores dosagens de proteínas e ensaios de atividade hemaglutinante.

Avaliação da toxicidade

Uma avaliação preliminar da toxicidade aguda das lectinas foi determinada pela injeção intraperitoneal em camundongos Balb-C machos, de todas as frações protéicas obtidas durante o procedimento de purificação. Foram utilizados para cada fração grupos de 10 camundongos com peso médio de 20g, perfazendo um total de 40 animais. As doses, em mg/animal, das frações I, II, III e IV foram de 2, 3, 54 e 52, respectivamente.

O parâmetro avaliado foi o número de mortes após os períodos de 24h e 48h. Após esse período, os animais foram observados por mais 72h, a fim de detectar eventuais efeitos adversos da administração das frações.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os teores de umidade em triplicatas, das folhas frescas e da farinha de folhas de mandioca (FFM) foram em g/100g de 67,93 ± 0,06 e 8,31 ± 0,04, respectivamente.

Extração e precipitação das proteínas

O extrato protéico bruto obtido da FFM foi submetido às precipitações sucessivas com valores de saturação crescentes, a fim de determinar em qual fração precipitada estaria concentrada a maior atividade hemaglutinante. Os resultados são apresentados na Tabela 1.

 

 

Observa-se que a fração 50% de saturação apresentou as maiores concentrações de proteína e atividade hemaglutinante. No entanto, as frações 25% e 80% também apresentaram concentrações de proteínas e atividade hemaglutinante significativos, ao passo que na fração 90% a concentração protéica foi muito baixa e a atividade hemaglutinante não foi detectada. Já que as proteínas precipitadas com sulfato de amônio a 25%, 50% e 80% de saturação apresentaram atividade hemaglutinante, escolheu-se a precipitação a 80% por incluir todas as proteínas com atividade hemaglutinante.

O rendimento da precipitação de proteínas a 80% de saturação com sulfato de amônio foi de apenas 17,37% (Tabela 1). Com a finalidade de aumentar esse rendimento, foram também realizadas precipitações das proteínas extraídas da FFM com sulfato de amônio a 80% de saturação, com períodos de repouso de 48h e 72h em geladeira e constatou-se que não houve aumento significativo na precipitação dessas proteínas.

Influência do pH durante a precipitação das proteínas com sulfato de amônio

Os valores de pH do extrato bruto da FFM antes e após a adição do sulfato de amônio foram iguais a 5,9 e 6,1, respectivamente.

Na Figura 1 estão apresentadas a concentração de proteínas e a atividade hemaglutinante dos extratos brutos precipitados com sulfato de amônio a 80% de saturação, em pH variando de 2 a 10. Observa-se que a maior concentração de proteína foi obtida no pH 8, ao passo que a maior atividade hemaglutinante ocorreu no pH 6. Silva et al. (2001) sugerem que se deve escolher o pH em que for detectada a maior atividade hemaglutinante. Optou-se então, por trabalhar em pH 6, priorizando a maior atividade hemaglutinante. Além disso, o pH 6,0 é praticamente igual ao do extrato bruto, não havendo necessidade de ajuste.

 

 

Purificação parcial das proteínas

Na Figura 2 é mostrado o perfil de eluição das proteínas liofilizadas em coluna Q-Sepharose, sendo recolhido um total de 100 frações. Observa-se quatro picos A, B, C, D, com absorbâncias máximas em 280nm iguais a 0,267, 0,156, 0,186 e 0,167, respectivamente. O pico A corresponde às frações de 7 a 11, o B de 23 a 27, o C de 37 a 41 e o D de 51 a 55. Verifica-se que todas as quatro frações protéicas foram retiradas da coluna antes que a concentração do gradiente atingisse o valor de 0,7mol/L de NaCl. A partir desse ponto até o fim do gradiente em 1,0mol/L de NaCl, não foi demonstrada a presença de qualquer outro pico.

 

 

O pico A correspondente à proteína não ligada à matriz e que foi eluída com água destilada foi denominado fração I. Os picos B, C e D cujas proteínas foram retidas na coluna, e eluídas após aplicação do gradiente de NaCl, foram denominados de frações II, III e IV respectivamente. O perfil de eluição se repetiu a cada corrida cromatográfica realizada.

Atividade hemaglutinante e dosagem de proteínas das frações purificadas

Os teores de proteínas e atividade hemaglutinante das frações são apresentados na Tabela 2. Verifica-se que as frações purificadas não apresentaram atividade hemaglutinante detectável. Este resultado poderia ter sido em conseqüência da falta de algum fator perdido durante a purificação por não se ligar à coluna. Assim, testou-se a atividade hemaglutinante em um extrato bruto fervido (ebulição por 20 minutos) e em um extrato bruto não fervido, e a atividade foi detectada apenas no extrato bruto não fervido. A fervura, portanto, acarretou desnaturação das proteínas e, como conseqüência, perda da atividade hemaglutinante. Então, misturou-se o extrato bruto fervido às frações e a atividade hemaglutinante foi detectada, sendo mais elevada nas frações III e IV.

 

 

Esses resultados indicam que algum fator necessário à atividade hemaglutinante das frações purificadas foi perdido durante a etapa de purificação. Vários autores relatam que cátions metálicos como Ca+2 e Mn+2 são fatores necessários para a atividade hemaglutinante da maioria das lectinas vegetais (LIENER, 1980). Desta forma, os resultados sugerem que os fatores perdidos na purificação podem ser cátions e que as frações purificadas necessitam desses cátions para apresentar sua atividade hemaglutinante. Ensaios de atividade com adição de Ca+2 e Mn+2 às frações purificadas devem ser realizados para avaliar essa hipótese.

Recuperação de proteínas e atividade hemaglutinante em vários estágios de purificação.

Na Tabela 3 estão apresentados a atividade específica e teores de proteínas durante os estágios de purificação do extrato aquoso da FFM.

 

 

A atividade específica aumentou com a purificação, tendo a fração I (não retida na coluna) a maior atividade (13.334 UH/mg proteína) e, portanto, maior poder hemaglutinante. Entre as frações retidas na coluna (II, III e IV) a II se destacou com uma atividade específica de 8.696 UH/mg proteína.

Wong & Ng (2006) trabalhando com banana Musa basjoo, Cavada et al. (1998) com sementes de Vatairea macrocarpa, e Zenteno et al. (1988) com cactus Machaerocereus eruca, obtiveram frações purificadas com atividade específica em UH/mg de proteína de 5.324, 7.880 e 9.326, respectivamente. Comparando-se com os resultados deste trabalho, verifica-se que a fração II apresenta atividade específica (8.696 UH/mg proteína) intermediária e a fração I, atividade específica (13.334 UH/mg proteína) superior. Como a fração I representa as proteínas não retidas na coluna de troca aniônica, provavelmente, mais uma etapa de purificação usando cromatografia de afinidade poderia complementar os resultados encontrados.

Avaliação da toxicidade

A injeção intraperitoneal das frações I, II, III e IV nas doses de 2, 3, 54 e 52mg/20g de peso do animal, respectivamente, não acarretaram nenhuma morte após 24h, 48h e 120h. Também não foi observada qualquer reação adversa ou alteração no comportamento dos animais. Essas doses foram escolhidas em função da quantidade de proteína obtida.

A dose letal (DL50) de lectinas vegetais varia bastante. Lectinas isoladas de soja Glycine max (VASCONCELOS et al., 1994), de Abrus pulchellus (RAMOS et al., 1998) e de feijão Phaseolus acutifolius (REYNOSO-CAMACHO et al., 2003) apresentaram DL50 iguais a 140, 31 e 22.000 mg/20g de peso do animal, respectivamente.

Não existem informações na literatura sobre a necessidade de metais como Ca+2 e Mn+2 para a ocorrência da toxicidade de lectinas, a exemplo do que ocorre com a atividade hemaglutinante. Por isto, novos ensaios com animais, na presença e ausência desses cátions e com doses mais elevadas das frações purificadas, bem como estudos de toxicidade crônica e semi-crônica devem ser realizados, a fim de dar segurança ao uso da FFM como suplemento alimentar.

 

CONCLUSÕES

A saturação com sulfato de amônio escolhida para precipitar as proteínas extraídas das FFM é a de 80%, pH 6,0, na qual a atividade hemaglutinante é maior.

Na purificação das proteínas em coluna Q-Sepharose obtêm-se quatro picos A, B, C e D. Todas as proteínas apresentam atividade hemaglutinante, todavia as dos picos A e B, denominadas frações I (não retida na coluna) e II (retida na coluna) se destacam.

As doses de 2, 3, 54 e 52mg/20g de peso do animal das frações I, II, III e IV, respectivamente, empregadas nos testes de toxicidade, não são letais aos camundongos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(Recebido em 14 de abril de 2007 e aprovado em 1 de novembro de 2007)

 

 

1 Parte da dissertação do primeiro autor.

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