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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.5 no.1 Maringá Mar. 2000

https://doi.org/10.1590/S1413-73722000000100009 

COMUNICAÇÃO

 

A importância da teoria sócio-interacionista na formação de professores do ensino médio

 

The importance of social-interacting theory to teacher formation in high school

 

 

Rosane Gumiero Dias da Silva

Professora assistente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá

 

 


RESUMO

Este trabalho foi apresentado na Semana da Educação, realizada em outubro de 1998, na cidade de Londrina-PR. Mostra questionamentos contidos na Dissertação de Mestrado: “A disciplina de Psicologia no Magistério: Contribuições para o Ensino”, de nossa autoria, e de relatórios da disciplina de Prática de Ensino de Psicologia. Estes questionamentos nos fazem pensar sobre a teoria sócio-interacionista na formação de professores do 2º grau.

Palavras-chave: Prática de Ensino, ensino médio, formação.


ABSTRACT

This study was presented in the Education week, taken place in October 1998, in Londrina-PR. It presents questions enclosed in the master's dissertation: "Psychology Subject The Training Teaching: Contributions to the Learning". Written by us and the reports the teacher training subjects the Psychology. Which make us think about the importance of the social-interacting theory to teachers formation in high shcool.

Key words: teacher training, high school, formation.


 

 

INTRODUÇÃO

Até meados de 80, os conteúdos programáticos ministrados na disciplina de Psicologia no 2º grau, no curso de Habilitação ao Magistério, eram, em sua maioria, fundamentados nos conhecimentos advindos do cotidiano. Estes conhecimentos eram utilizados como instrumentos de uso do professor em sala de aula na resolução de problemas, de ordem disciplinar ou pessoal.

Algumas produções científicas nos mostram a forma de pensar e agir do professor de 2º grau que ministrou aulas de Psicologia, tanto na década de 80 quanto no início da década de 90. Destacam-se, a respeito, alguns trabalhos, tais como: Branco (1988), Puttini (1988), Camargo (1993), e a proposta de reestruturação do curso de Magistério, na disciplina de Psicologia (1989-1992), da Secretaria de Educação, a qual demonstrou que a disciplina estava sendo ministrada de uma forma individualista e psicologizante. Estas questões foram estudadas, discutidas e analisadas na disciplina de Prática de Ensino de Psicologia, através de relatos e observações realizados pelos alunos estagiários em salas de aulas, cujos dados eram preocupantes quanto à forma de se apresentarem alguns conteúdos programáticos dessa disciplina. Muitas vezes estes tinham um enfoque terapêutico e até mesmo propunham receituários na resolução de algumas dificuldades. Em alguns momentos apresentavam-se desvinculados de todo o contexto social, político, cultural e econômico; baseavam-se no senso comum e eram destituídos, portanto, de uma base teórica que os sustentassem.

Gostaríamos de ratificar estas afirmações através de alguns exemplos retirados de relatórios (períodos 1988 a 1991) dos alunos do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá que fizeram observações na disciplina de Psicologia no curso de Magistério, via disciplina Prática de Ensino de Psicologia.

A inteligência desenvolve-se mais de acordo com o leite da mãe, se é forte ou não (Zanuto et alii, 1991, p.11).

Para saber se uma pessoa está sendo sincera, observe se ela olha ou não diretamente nos seus olhos enquanto fala, porque as pessoas que mentem não conseguem olhar nos olhos da outra (Souza et alii, 1990 p. 26).

A hereditariedade é por exemplo: se a mãe é desnutrida, o bebê será fraquinho (Garcia et alii, 1988, p. 17).

Cada um traz exemplo do seu dia a dia e a psicologia é nosso dia a dia (Garcia et alii, 1988, p. 15).

Na busca de uma reestruturação para o 2º grau, na década de 80, a SEED/DESG/SE/PR implantou uma proposta curricular para todas as disciplinas ministradas no 2º grau. No que se refere à disciplina de Psicologia foi priorizada, em suas bases teóricas, a proposta de se trabalhar a relação entre aprendizado e desenvolvimento, a construção da personalidade, a relação professor-aluno e a discussão sobre a conduta do professor, numa postura dialética.

Para tanto, a proposta curricular da disciplina de Psicologia priorizou os conceitos da teoria sócio- interacionista, cujo precursor é L.S. Vygotsky, o qual propõe que a unidade do conhecimento se encontra na relação entre o homem e meio, sujeito e objeto, num movimento dialético. Elucida também que Vygotsky tem como objetivo principal estudar como se constroem as funções psicológicas superiores que caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente humano (atenção voluntária, memória, abstração, capacidade de resolver problemas, etc.). Essas funções psicológicas superiores, além de serem produto da atividade cerebral, também constituem o resultado da própria história da sociedade humana e da cultura em que o indivíduo está inserido. Neste aspecto, o homem é um ser social e histórico, que produz sua ação para suprir necessidades criadas pelo meio em que vive e cria novas necessidades, que não são puramente biológicas.

O entendimento dos conteúdos, de forma dinâmica e social, buscando criar no professor formas de pensar a realidade social, continuam sendo preocupações encontradas na nova LDB, Lei nº 9.394/96, e nas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio, quando discutem a vinculação da educação escolar com o mundo do trabalho, a prática social, as relações sociais e seu preparo para o exercício da cidadania.

Todas essas mudanças, em nível estrutural, não serão válidas, a nosso ver, se o professor não mudar de atitude frente à abordagem do conteúdo e como trabalhá-lo, bem como frente ao questionamento da visão de mundo, em “inter-ações” a serem partilhadas com os alunos. A partir do momento em que o professor muda sua forma de pensar e agir, também transforma o conteúdo programático. Como exemplo, expusemos aqui, sucintamente, alguns excertos de entrevistas realizadas com professores que ministravam aulas no curso de Habilitação ao Magistério, contidos em nossa dissertação de Mestrado, intitulada: “A Disciplina de Psicologia no Magistério: Contribuições para o Ensino”.

Alguns questionamentos nos trazem formas diferentes de pensar a realidade e os ensinamentos de Psicologia entre os professores que utilizavam a proposta curricular e estudavam a teoria sócio-interacionista, e os que não a estudavam.

Os professores que se dedicavam ao estudo da teoria sócio-interacionista demonstraram preocupações quanto à formação do homem, vinculando-as às questões de ordem social, política e econômica, e à formação de um aluno crítico e conhecedor de seus direitos e deveres perante a sociedade, com a visível preocupação de que a disciplina de Psicologia trouxesse benefícios à educação.

Para tanto, alguns professores preparam-se, teoricamente, mediante bibliografias variadas, estudando os autores na própria fonte.

 

CONCLUSÃO

De fato, as preocupações em se trabalhar a disciplina de Psicologia sob o ponto de vista teórico (não dando suporte às explicações do senso comum ou à psicologia pessoal de cada professor) estão presentes entre os professores que advogam a validade dos conteúdos programáticos e a fundamentação teórica do sócio- interacionismo, principalmente de Vygotsky. Esses professores, mesmo que sutilmente, deixam de seguir uma psicologia individualista para entender as relações sociais. Neste sentido, não se estaria priorizando nem o lado individual nem o social, mas o seu conjunto, em benefício da educação.

O objetivo maior a ser alcançado ao longo do tempo é uma uniformidade quanto ao conceito de Psicologia e a compreensão desta como ciência e não como embasamento teórico de ordem pessoal: um passo do individual para o social e a importância de se compreender estes dois aspectos, num amplo conhecimento das questões humanas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Branco, L. M. C. (1998) Psicologia Para Quê? A Psicologia Ensinada e a Psicologia Aplicada (subsídios para a Compreensão do Papel do Professor), Tese de Doutorado, USP, SP.         [ Links ]

Brasil -Lei 9394/96, dezembro de 1996.         [ Links ]

Camargo, J.S. (1993). A Relação Estado-Educação e suas Implicações na Implantação de Currículos. Dissertação de Mestrado, PUC- SP.         [ Links ]

Garcia, A M. & Cota, C.G. & Zocca; E.M & Kassuya, I..M & Magnabosco, T.C. (1998). Relatório de Prática de Ensino de Psicologia I, Maringá-Pr, mímeo.         [ Links ]

Paraná – Secretaria de Estado da Educação, Departamento do Ensino do 2º Grau (1989). Proposta da Disciplina de Psicologia da Educação-Curitiba-PR.

Puttini, E.F. (1988). O Ensino da Psicologia Aplicada à Educação no Curso de Habilitação ao Magistério. Dissertação de Mestrado, PUC-SP.         [ Links ]

Silva, R.G.D. (1995). A Disciplina de Psicologia no Magistério: Contribuições para o Ensino. Dissertação de Mestrado, Unesp, Marília.         [ Links ]

Souza, T. A. & Bulla, T. C. (1990). Relatório de Prática de Ensino de Psicologia I, Maringá-Pr mimeo.         [ Links ]

Zanuto, D & Vidotti, M.M. (1991). Relatório de Prática de Ensino de Psicologia I. Maringá, mimeo.         [ Links ]

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