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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.5 no.2 Maringá  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722000000200001 

EDITORIAL

 

Maria Lucia Boarini

 

 

Ao entregar ao público este número de Psicologia em Estudo, ousando invocar o lirismo, diremos que uma satisfação especial nos invade a alma. E a justificativa para este júbilo tem um motivo claro: na avaliação da Comissão da CAPES/ANPEPP para o período de 07/2000 a 07/2002, recebemos a classificação A-Nacional. Obviamente, tendo como interlocutor a comunidade acadêmica,  é desnecessário dissertar sobre o significado desta classificação. Mas, em nosso entender, é necessário não perder de vista que esta posição traz implícita a grande responsabilidade de manter e aprimorar os quesitos que nos levaram até este lugar.

E neste ponto algumas considerações são oportunas. Primeiro, solitariamente não se leva a cabo esta caminhada. Trata-se de um trabalho coletivo, em que, de maneira similar a uma orquestra, todos os seus integrantes têm que dar o seu tom, para que, afinados, no conjunto se materialize a melodia. Assim, compartilhamos este A-Nacional com os autores que a nós confiaram suas reflexões (publicadas ou não); com o nosso Conselho Científico ad hoc e o Conselho Editorial, de expressão nacional, o que garantiu a qualidade dos textos; com os nossos revisores de textos (português e inglês), atentos à observância do legado deixado pelos velhos mestres Camões e Shakespeare; com o nosso diagramador, vigilante das normas editoriais; e com a equipe de organização e apoio, que, atendendo dos pequenos aos grandes detalhes, vai abrindo os caminhos que nos levam a estes resultados. Em suma, esta avaliação é de Todos Nós.

Assim, na sintonia da avaliação e no apagar das luzes do século XX temos, por um lado, a sensação do "dever cumprido",  ao criar um espaço qualificado para o debate, sob a lente da Psicologia e de áreas afins, das questões do Homem deste século. E por outro lado, numa dimensão coletiva,  temos uma sensação de angústia, provocada por uma série de crises já anunciadas pela ciência. E aqui estamos nos referindo ao esgotamento da água potável1; à emissão de gases na atmosfera, o que certamente tem estimulado doenças emergentes; ao consumo indiscriminado de antibióticos, o que tende a gerar super bactérias; à má distribuição de alimentos2, o que todo o otimismo da engenharia genética não é capaz de resolver, visto ser um problema de ordem econômica e política; ao aquecimento do globo terrestre e a tantas outras questões, que mais cedo ou mais tarde a todos atingirão, independentemente de classe social. Todavia, são questões que, previstas, podem ter outro encaminhamento, certamente não por obra do acaso, mas da vigilância permanente e da determinação de todos enquanto sociedade constituída. E aqui, parafraseando o brilhante escritor Gabriel Garcia Márquez3,  diremos que o homem não deixa de lutar porque envelhece, mas envelhece porque deixa de lutar.

Neste sentido, e sem se deixar "envelhecer", os autores que aqui publicam seus trabalhos  desvelam e analisam alguns dos diferentes aspectos da existência humana, neste  final de século.  Cecília Maria Bouças Coimbra preparou o artigo intitulado Doutrinas de segurança nacional: banalizando a violência, que aponta a permanência, ainda,  dos  "anos de chumbo" para um segmento da população brasileira; no caso, os excluídos sociais. Sob outro ângulo, e circunscritos ao ambiente hospitalar,  temos o artigo intitulado Intervenção psicológica em cirurgia, de autoria de Agustina Sirgo, Carmem Amorim Gaudêncio, Francisco José Perales-Soler e Susana Amodeo-Escribano, que apresentam técnicas adaptadas ao ambiente hospitalar favorecedoras da redução da ansiedade pré-operátoria, e o artigo intitulado Representações da prematuridade por mulheres usuárias do serviço público de saúde, de autoria de Magda Dimenstein, que mostra a possibilidade de o psicólogo atuar enquanto  mediador e potencializador de relações mais humanizadas no ambiente hospitalar. Shirley Martins de Macêdo, através do seu artigo Psicologia clínica e aprendizagem significativa: relatando uma pesquisa fenomenológica colaborativa, traz o resultado do seu estudo, desenvolvido ao longo de um ano, acerca da fenomenologia e a sua influência no saber e na pesquisa em Psicologia. Colocando em debate a dimensão epistemológica da Psicologia, Lenita Cambaúva preparou o artigo Fundamentos da Psicologia: reflexões. Marineide de Oliveira Gomes, através do seu artigo Jogo, educação e cultura: senões e questões, propõe o resgate dos jogos tradicionais na educação infantil como forma de construção e/ou reconstrução de identidades individuais e coletivas, necessárias à formação de cidadãos criativos e críticos. Na área da Educação Especial, Celma Regina Borghi Rodriguero, em seu artigo O desenvolvimento da linguagem e a educação do surdo, alerta para os possíveis equívocos quando se subestima a capacidade cognitiva do indivíduo surdo, ao não se levar em consideração suas diferenças culturais e lingüísticas.  Temos também o artigo do autor André Chevance intitulado Inconsciente e os interditos alimentares – o desejo e o prazer ainda têm um lugar na vida do idoso? que trata dos tabus alimentares e da repressão do desejo do idoso.

Assim, cada qual com a sua especialidade, estes autores escrevem a História da Psicologia. E Psicologia em Estudo, no limite de suas possibilidades, ocupa o seu lugar no acervo bibliográfico  da  história da sociedade deste final de milênio.

 

 

1 Temos apenas "0,007% de água doce encontrada em rios, lagos e na atmosfera, de fácil acesso para o consumo humano".  Folha de S.Paulo, Caderno Especial, 2/07/1999, p.5.
2 Estudos da FAO (Food and Agriculture Organization) indicam que "800 milhões de pessoas (13% da população mundial) são consideradas subnutridas". Folha de S.Paulo, Caderno Especial, 2/07/1999, p.7.
3 Gabriel Garcia Márquez, vítima de um câncer linfático, afirma: "Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar".