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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.5 no.2 Maringá  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722000000200010 

COMUNICAÇÃO

 

A ideologia liberal nas matrizes da Psicologia1

 

The liberal ideology in the matrices of the Psychology

 

 

Orivaldo Ferreira de Sales Filho

Acadêmico do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, participante do Projeto Estudos da História da Psicologia e do Projeto Fênix

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho tem por objetivo despertar reflexões críticas sobre as ideologias que embasam os princípios teóricos e práticos da Psicologia, princípios que aqui são chamados de matrizes da Psicologia. A partir dessas reflexões, identificamos como a Psicologia tradicional está legitimando as práticas sociais e propomos um rompimento com essas ideologias

Palavras-chave: ideologia, liberalismo, Psicologia.


ABSTRACT

The main goal of this text is to awaken critical reflections about the ideologies which serve as bases to theoretical and practical Psychology primordial principles. From these reflections we can identify how the traditional Psychology is legitimating the social relationship and we suggest a breaking up of these ideologies.

Key words: ideology, liberalism, Psychology.


 

 

Se analisarmos a Psicologia com mais profundidade, será possível identificar as ideologias que embasam tanto as matrizes românticas e pós-românticas quanto as cientificistas. Nas duas primeiras, "(...) essas ideologias legitimam o retraimento do sujeito sobre si mesmo (...)" (Figueiredo, 1991, p.38); na ultima, a Psicologia deve ser útil aos esquemas de controle social. Isso significa que, através da Psicologia aplicada na maioria das clinicas tradicionais, estamos ajudando a sustentar a ordem vigente em nossa sociedade.

A partir dessas ideologias, o indivíduo é visto ora como um ser totalmente livre e dono de si, ora como o único responsável pelo seu sucesso, independentemente do contexto social em que está inserido. Dessa forma, " se não é rico e não consegue o que quer, a culpa é dele mesmo, pois não se esforçou para conseguir". Portanto, aderir a esses conceitos de Psicologia significa reafirmar aquela velha mentira do liberalismo, a de que todos são livres e com iguais oportunidades de sucesso, pois "basta querer".

Figueiredo(ibid) chega a afirmar que as ideologias que sustentam as matrizes românticas e pós-românticas são consideradas pararreligiosas e "(...) no altar desta nova religião está colocado o "indivíduo", a "liberdade" e outras imagens do gênero (...)" (p.38). Portanto, os princípios pregados nessa nova "religião" se transformam em dogmas a serem seguidos sem serem questionados.

Essas práticas tornam-se ainda mais alienadas quando as matrizes cientificistas querem mostrar que a Psicologia pode ser útil à ideologia vigente em nossa sociedade. De acordo com Figueiredo (idem) "(...) um dos focos mais antigos e constantes da pesquisa psicológica tem sido a elaboração de técnicas (...)" (p.31), essas, por serem consideradas científicas, justificam o sistema opressor da atualidade.

O mesmo ocorre quando as matrizes românticas e pós-românticas pregam que a própria escravidão é uma opção do sujeito. Portanto, "se tudo depende de mim, eu não preciso mais me preocupar com o outro e com a mudança social", e isso também significa legitimar que a sociedade precisa continuar como está

Essa mesma visão de Psicologia e de Homem é questionada por Ana Bock em seu artigo "Quem é o Homem na Psicologia?" quando afirma que "(...) a ênfase no indivíduo nos leva a perda total de condições de nos compreendermos." (Bock, 1997, p.07).

Portanto, identificar as ideologias presentes nessas matrizes é pressuposto fundamental para enxergarmos além das aparências. No mais, para compreendermos que, muitas vezes, estar aplicando técnicas "fechado em um consultório" não resolverá o problema de nosso paciente, e isso ocorre devido ao problema não estar apenas nele, mas, também, no contexto social em que está inserido. Assim, é preciso "derrubar" as paredes do "consultório do isolamento e do egoísmo", propondo, assim, uma Psicologia comprometida com a transformação social e humana.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Figueiredo, L. C. M. (1994). Matrizes do Pensamento Psicológico. Petrópolis - Rio de Janeiro: Vozes.         [ Links ]

Bock, A. M. B. (1997). Quem é o Homem na Psicologia? Interfaces, 1(1), 7-9.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Av.: Mário Clapier Urbinatti, Nº 460
Zona 7, Jardim Universitário
CEP.: 87020-260
Maringá - Paraná
Telefone: (44)9102-5539
E-mail: orivaldo@universitário.mailbr.com.br

 

 

1 Comunicação apresentada na Semana de Filosofia da Universidade Estadual de Maringá em Novembro de 2000. Este trabalho faz parte do projeto de ensino "Estudos da História da Psicologia" coordenado pela Profª. Ms. Lenita Gama Canbaúva.