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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.6 no.2 Maringá July/Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722001000200002 

ARTIGOS

 

Notas sobre o tratamento das pessoas atingidas pela violência institucionalizada

 

Notes on the treatment of persons affected by institutionalised violence

 

 

Cristina Rauter

Professora doutora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense; membro do Projeto Clínico Grupal Tortura Nunca Mais, Rio de Janeiro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A violência institucionalizada teve como grande laboratório o fenômeno histórico do nazismo, que não deve ser visto como retorno à barbárie, mas como portador de mecanismos e práticas em ação na sociedade em que vivemos hoje. O tratamento dos atingidos pela violência do Estado é analisado a partir de uma reflexão sobre o nazismo, sobre os usos da memória e sobre a capacidade de reconstrução de territórios existenciais, levando a uma reflexão sobre a subjetividade contemporânea.

Palavras-chave: violência institucionalizada, nazismo, subjetividade contemporânea.


ABSTRACT

Institutionalised violence had Nazism as its great laboratory. Nazism should not be regarded as a return to barbarism, for some of its practices and mechanisms are still in use in today’s society. The analysis of the treatment of those affected by state violence starts with a reflection on Nazism, the uses of memory and the capacity of rebuilding existential territories. These reflections eventually lead to considerations about modern subjectivity.

Key words: institutionalized violence, nazism, contemporary subjectivity.


 

 

Por violência institucionalizada entendemos a violência do Estado em sua forma mais concreta - a violência da polícia e dos diversos sistemas de encarceramento e tutela de que se tornam alvo alguns segmentos da população. É a violência exercida sobre o corpo e portanto sobre a mente, que é também corpo. Com Espinosa, não pensamos a partir de uma separação entre o corpo e a alma, a mente, a psique. Pensamos que tudo aquilo que afeta o corpo, afeta a mente, e vice-versa.

Algumas vezes esta violência é exercida ao lado de outros objetivos que se consideram principais. Os discursos oficiais mais recentes preconizam que se poderia e deveria prescindir dela, que ela não é intencional - é fruto de um excesso, de um erro, de imperícia, de ignorância. Outras vezes, em determinados momentos históricos, o Estado assume mais claramente sua intenção de exterminar parcelas da população - por exemplo, no nazismo ou nas ditaduras latino-americanas. Os judeus, os degenerados, os subversivos devem ser erradicados em nome de um objetivo - a segurança nacional, a limpeza étnica, o combate ao tráfico de drogas, o combate ao crime, etc. Mas parece haver sempre, mesmo neste último caso, nos discursos oficiais, um certo ocultamento, um certo cinismo, a encobrir as ações violentas do Estado, as quais, no entanto, estão presente sempre, e não apenas nas circunstâncias extremas, como é o caso do nazismo ou das ditaduras militares.

O nazismo pode ser pensado como um grande laboratório das estratégias repressivas que os Estados modernos vieram a incorporar a partir de seu advento. É um fenômeno de crueldade, de violência, mas é também a colocação em ação de uma tecnologia: novos métodos de matar muitos indivíduos de forma rápida e eficiente. Muito embora métodos de ocultamento da realidade tenham sido largamente utilizados na propaganda nazista, o nazismo é um caso específico de terrorismo de Estado onde o extermínio é uma tarefa oficial. Além disso, o nazismo inaugura métodos de gestão de grandes massas humanas concentradas num espaço de reclusão e de neutralização eficiente de alianças e oposições. É assim, um fenômeno eminentemente político.

Foucault já apontara que o capitalismo se torna hegemônico graças à sua capacidade de desenvolver tecnologias para gerir grandes massas humanas, tornando-as úteis e dóceis (Foucault, 1975/1977). Não é apenas a acumulação de capital que faz com que o capitalismo sobreviva e se expanda, chegando à inacreditável hegemonia de que desfruta na passagem do milênio. É no campo da produção de subjetividade que o capitalismo joga sua cartada fundamental, desenvolvendo novos métodos de controle sutil sobre corações e mentes. No entanto, há muitas diferenças entre o poder disciplinar descrito por Foucault (1977) e o nazismo. O nazismo caracteriza-se principalmente por ser uma tecnologia da morte em larga escala, uma tecnologia de extermínio. A utilidade de um prisioneiro ia até o limite de um corpo depauperado pela fome e maus-tratos, aterrorizado pela proximidade constante com a morte. As disciplinas possuem uma dimensão produtiva que está ausente no nazismo e que o capitalismo irá desenvolver cada vez mais, por um largo período, no pós-guerra – a produção de consumidores e de cidadãos ordeiros e adaptados. Entretanto, sempre houve nas democracias capitalistas um cinismo, um pano de fundo de morte e violência que são como que sua outra face velada. Uma característica específica do nazismo, como fenômeno do capitalismo, é a de que as técnicas de extermínio deixam o fundo e ocupam a cena oficial.

Não obstante, o nazismo era também um sistema de promoção de um certo tipo de sociedade e de raça: a ariana. Era justamente para preservar uma raça e uma sociedade ideal que se justificava o extermínio e exclusão dos "outros": loucos, retardados mentais, doentes e judeus. O controle social contemporâneo, de forma semelhante àquele posto em ação no nazismo, se associa a técnicas de promoção e preservação de um tipo de sociedade e de um modo de subjetivação. E é a preservação deste tipo de sociedade e deste modo de subjetivação que autoriza a promoção de tecnologias de extermínio dirigidas aos "outros". Nunca se alardeou tanto a promoção da vida e ao mesmo tempo se matou tanto. É o paradoxo a que se refere Foucault (1981) ao tratar do que chamou de "biopoder".

Um dos aspectos da contemporaneidade é a hipervalorização da saúde. Divulgam-se constantemente as conquistas da medicina na erradicação e cura de doenças que até pouco atrás eram mortais. As populações vivem mais, os progressos recentes da genética possibilitam a detecção de anomalias antes mesmo do nascimento, realizando muitos dos sonhos dos antigos eugenistas. O cuidado com o corpo atinge paroxismos letais, em que não se medem sacrifícios para corresponder a modelos de beleza e forma física. É claro que há também aspectos construtivos nestes progressos do campo da genética e da medicina, porém estamos neste momento tomando apenas aqueles que podem se conectar com estratégias de controle social.

As sociedades são cada vez mais pensadas como locais tecnologicamente programados. Um dos aspectos destas tecnologias de promoção da vida é o de implicar sempre numa outra face, que é a erradicação justificada de tudo aquilo que venha a comprometer este ideal. É em defesa da vida que a sociedade se volta contra seus detratores, numa metáfora sempre repetida da sociedade como um organismo que se defende de bactérias e vírus1.

É em relação a este aspecto, o da construção de uma formidável tecnologia de eliminação daqueles que não se ajustam a modelos socialmente construídos, que o nazismo revela algo sobre a contemporaneidade. Ao invés de ser obra de um louco, ou mesmo de um povo inteiro acometido de um desvario - idéia que se repete à exaustão na mídia ao se difundir uma imagem caricata de Hitler ou dos SS como um grupo de doentes - "é uma obra lúcida, onde se combinam engenho tecnológico, fanatismo e crueldade". (Levi,1990, p.7) Nos incontáveis filmes sobre o tema produzidos desde o pós-guerra, poucos ressaltaram essa lucidez e engenhosidade. Um exemplo nesta direção é o documentário Arquitetura de Destruição2. Na abertura do filme, vemos do alto, como que sobrevoando, uma paisagem campestre alemã: casinhas harmoniosamente distribuídas sobre um impecável campo verde. Beleza se confunde com limpeza e organização. Lentamente, vai se construindo uma espécie de corolário desta concepção de beleza: a necessidade de banir, exterminar, tudo que contribua para manchá-la. Assim, num único movimento, se constituem de um lado uma estética da harmonia, da limpeza e da organização, e de outro, práticas de exclusão que garantem este mundo acético. Por certo não se trata de negar que exista beleza naquelas impecáveis cidadezinhas campestres! O essencial é compreender que uma certa concepção estética, uma certa concepção social, uma atitude modernizante, tecnologicamente orientada, esteve associada aos crimes nazistas, que não são apenas fruto do desvario e do retorno à barbárie. Como assinala Bauman (1998), não foi a civilização contemporânea que degenerou para dar lugar aos crimes nazistas, mas alguns procedimentos típicos desta civilização é que foram fundamentais para a expansão e utilização em larga escala de uma tecnologia da morte. Entre estes procedimentos típicos está o modo como o nazismo pôde fortalecer e multiplicar a obediência à autoridade e a burocratização de procedimentos capazes de separar um ato de suas consequências, aos olhos de quem o pratica. O estudo desta separação, entre o ato de um burocrata e suas consequências humanas, pode desvendar um dos aspectos mais típicos das tecnologias repressivas de nossa contemporaneidade.

Levi (1990) assinala que o povo alemão não era particularmente mau. Os carrascos tinham também humanidade - e para exemplificar, narra o impressionante episódio em que uma menina de dezesseis anos é encontrada milagrosamente viva entre a multidão de mortos na câmara de gás, na ante-sala do crematório. Seus verdugos demonstram compaixão, dão-lhe de comer, hesitam em matá-la, aqueles homens tão acostumados a matar aos milhares. Descreve também uma insólita partida de futebol, jogada entre membros do "sonderkommando" e nazistas, na ante-sala do crematório. Aqueles prisioneiros especiais, manchados pela tarefa quotidiana de que eram incumbidos - a de levar cadáveres de outros prisioneiros aos fornos - tornam-se momentaneamente mais próximos de seus captores. Todos torcem, gritam, brincam como se estivessem num campo de futebol de vizinhança. Ao contrário do que gostaríamos de pensar para que pudéssemos manter intactas nossas idéias sobre o progresso da civilização cristão-ocidental, os carrascos eram homens medianos e não espécimes à parte desta civilização. Assim, não se pode partir de uma desumanidade fora do comum para compreendermos este complexo fenômeno. Fora dos campos muitos desses homens eram apenas cidadãos medianos.

O nazismo é pioneiro no uso político da propaganda. É um exemplo de sucesso de uma formidável campanha publicitária. Neste sentido, caracteriza-se por um processo de falsificação e negação da realidade, "até o ponto de fuga definitiva da realidade mesma"(Levi, 1990, p.14), que fez com que muitos alemães ignorassem até o fim que a guerra estava perdida. Assim, pode ser considerado um laboratório, para os tempos atuais, da expansão de tecnologias de negação ou de duplicação da realidade, fazendo todo um povo crer em sua própria superioridade ao ponto de justificar o extermínio em massa dos inferiores, ou de acreditar na possibilidade de um “Reich” milenar, que na prática não chegou a durar 15 anos.

Este processo, não é ele próprio uma característica de nosso mundo ou da subjetividade contemporânea? A expansão posterior da televisão nos transformou a todos em espectadores da história, na medida em que estamos assistindo ao que ocorre em todo o mundo - na Guerra do Golfo estávamos lá ao mesmo tempo em que o bombardeio se iniciava, podíamos assistir a ele comodamente de nossas poltronas. Participamos dos eventos históricos de uma forma muito precisa: nós assistimos a eles, mas não podemos interferir neles. Esta posição de espectadores faz com que os fatos históricos estejam sempre acontecendo noutro lugar, ao alcance dos nossos olhos, mas fora do alcance de nossa ação.

O nazismo foi também uma guerra contra a memória, uma falsificação da memória, o que pode ser exemplificado pelo fato de que o motivo para muitas mortes nos campos de concentração, quando a guerra já estava perdida para os alemães, era a necessidade de encobrir tudo o que se passara, para que ninguém acreditasse. Muitos sustentam, mesmo hoje, que não houve extermínio de judeus, que este ocorreu em escala muito menor, etc.

O nazismo é também uma metodologia de gestão institucional caracterizada pelo extremo centralismo, onde a influência de baixo para cima é nula, enquanto a de cima para baixo é total. Como se construiu esta formidável engrenagem? Levi (1997) mostra como falar alemão se constituía numa peça de sobrevivência indispensável - aquela multidão de povos de diversas etnias e línguas era reduzida a um monte de ignorantes por não falar alemão. Mas isto era vivido na carne: significava não entender informações preciosas que facilitariam a sobrevivência - o alemão era a língua oficial do campo, quem não o falava estava reduzido a uma condição humana menor - mais sujeita a golpes e pancadas e à morte.

Um fato notável é narrado por muitos sobreviventes: o de que o primeiro golpe freqüentemente vinha de um outro prisioneiro, um "igual", um aliado potencial. Este é um capítulo difícil de ser abordado pelos sobreviventes, freqüentemente silenciado nos relatos. Para Levi (1997), os melhores morreram... Sobreviveram aqueles que de algum modo puderam se adaptar. E se adaptar era freqüentemente poder transitar na zona cinzenta da colaboração. A disponibilidade em colaborar com o poder central era premiada nos campos com melhores condições de vida: melhor comida, melhor dormida, o que não era pouco, pois o quotidiano do prisioneiro estava preenchido pela ameaça constante da morte por exaustão e fome. E quanto aos que colaboravam, tinham como prêmio uma comida melhor, que poderia garantir sua sobrevivência; mas por outro lado eram manchados de vergonha ao terem que desempenhar tarefas especiais, as mais sórdidas, (como queimar cadáveres no crematório). Tendo desempenhado essas tarefas, eles não podiam mais voltar atrás. Por outro lado, qualquer oposição era exemplarmente punida - como se sabe, a fuga levava à morte os amigos, os companheiros mais próximos daquele que fugia.

Foucault (1977)  também já se referira a este mecanismo do poder disciplinar, no qual os possíveis aliados se tornam competidores, quando analisou a prisão e o hospital psiquiátrico. Também nestas instituições, o semelhante é potencialmente um algoz - todos podem ocupar a torre central do "panopticon"3. Podemos ver a colaboração das vítimas com os opressores nos campos de concentração como um caso particular de estratégias de produção de subjetividade que o capitalismo pôs em marcha, as quais permitiram neutralizar o potencial político das grandes massas humanas concentradas nos grandes centros urbanos. Mas temos que reconhecer no nazismo algumas especificidades que o tornam um acontecimento singular: no campo de concentração, rapidamente se instaurava uma situação de humilhação, de fraqueza física pela fome . O transporte nos vagões de carga, por exemplo, obrigava os prisioneiros a se comportarem como animais pela ausência de banheiros. Todos estes procedimentos humilhantes se instauravam desde os primeiros momentos em que alguém era feito prisioneiro. Havia um excesso inexplicável de violência, que levava a que se transportassem mesmo os doentes e velhos, que poderiam morrer onde estavam, e acabavam morrendo durante a viagem. Este "excesso" pode ser compreendido no interior de estratégias de assujeitamento pela humilhação e destituição, que visavam a tornar impossível a resistência.

Levi (1997) narra o episódio em que um alemão limpa as mãos sujas em sua roupa. Era necessário que o prisioneiro se sentisse como um verme indefeso - sem condições de ser asseado mas cobrado e culpabilizado por sua sujeira, acovardado por ser incapaz de defender seus filhos e os idosos de sua família. Já o ritual de arrumação diária das camas, que deveriam estar asseadas e esticadas, serve a um propósito claramente disciplinar. O campo é mortífero e violento, mas organizado e metódico. Neles a morte é metódica, quotidiana e banal - não há tempo para o pranto ou para cerimoniais.

Phillipe Ariès, em sua História da Morte no Ocidente, descreve estes novos modos de morrer que caracterizam a sociedade contemporânea: a morte que ocorre em meio a um vazio de sentido, a morte banalizada do ponto de vista existencial, cercada apenas da tecnologia médica, que faz do moribundo uma pobre coisa, espetada por tubos (Ariès, 1977). A morte nos campos de concentração intensifica procedimentos de banalização da morte que se disseminarão pelo campo social. É sabido que os nazistas utilizaram-se das cinzas de corpos cremados em aterros e outras finalidades, inaugurando uma insensibilização tecnocrática diante da morte que a partir daí só fará crescer, despinda de qualquer caráter sagrado ou misterioso.

Não estamos afirmando que as tecnologias disciplinares explicam o nazismo, mas estamos apenas apontando semelhanças em alguns mecanismos de sujeição e docilização presentes no nazismo e nas disciplinas. Nas discussões sobre este período da história, alguns autores se inclinam por não ver no nazismo muito do que possa diferenciá-lo de outros tantos períodos em que o extermínio de massa ocorreu. Minha posição, apoiada em Levi (1997) e Bauman (1998), é a de considerar que há no nazismo continuidades e semelhanças com outros métodos de extermínio, ao mesmo tempo que há neste fenômeno uma singularidade que o diferencia dos demais, configurando este seu caráter de laboratório de estratégias repressivas da modernidade. Esta singularidade diz respeito ao nazismo como fenômeno tecnológico. Neste ponto, nossa análise estabelece conexões com o que foi descrito por Foucault (1977)  como poder disciplinar, mas permanece dando ao nazismo, no contexto das tecnologias disciplinares, um lugar diferenciado. Nosso mundo pôde elaborar outras estratégias que já não exibem de forma tão manifesta este “quantum” de violência sem máscara, tão característico do fenômeno do nazismo. O que Foucault (1977) descreveu como poder disciplinar inclui tecnologias mais sutis de sujeição, embora todas elas tenham como ponto de apoio o corpo, assim como o nazismo.

A vergonha e a culpa estão entre os principais meios de se obter sujeição e docilidade, além do medo. O medo, no campo de concentração, estava obviamente disseminado, e o está também em nosso mundo, mesmo sem os métodos nazistas, tão diretos. Porém uma violência sem máscara nos aterroriza também em nosso mundo atual. Alguns assistem a ela na TV, sem experimentá-la, enquanto outros a experimentam diretamente, nas periferias das grandes cidades, nas favelas, nas prisões. Esta violência, experimentada ou não, é multiplicada pela mídia (Sodré, 1996), de modo a que todo o campo social seja atingido pelos seus efeitos.

Para a maior parte da população urbana pobre do Brasil, o Estado, através de sua polícia, é exterminador. Suas vítimas são culpabilizadas : "estava envolvido com o tráfico de drogas". Isto é suficiente para explicar as chacinas, os tiroteios e invasões policiais em bairros populares. A violência oficial, exercida pela polícia, é multiplicada através da televisão - o medo e a impotência são multiplicados, muitas vezes não pela possibilidade real de experimentá-la, mas pela forma como somos testemunhas oculares dos fatos acontecidos, assaltando-nos como um filme de terror a que assistimos antes de dormir, no refúgio de nossos lares. A vergonha é também multiplicada quotidianamente, numa sociedade em que um certo padrão de consumo se manifesta nos modos de vestir, de falar, nos equipamentos eletrônicos que se devem ter, nos automóveis, no inglês que se deve compreender obrigatoriamente. Todos sabem qual é o padrão - mas poucos podem atingi-lo. Estão permanentemente em falta, são culpados da própria ignorância, pobreza, sujeira. Assim, consideramos que a multiplicação da vergonha, da culpa e do medo nos campos de concentração ou fora deles, está indissociavelmente ligada à produção de subjetividade no capitalismo. No capitalismo globalizado de hoje, é eloqüente a multiplicação destes fenômenos, embora se queira exibir uma outra face, associada à globalização: a da democracia, a da promoção dos direitos humanos.

Embora estivessem presentes no nazismo mecanismos de ocultamento da violência do Estado, esta não é uma característica deste fenômeno, que passa para a historia como exemplo de violência oficial sem máscara. Noutras sociedades, os Estados se apresentam com uma máscara de promoção da vida, que querem ocultar - sem consegui-lo - sua face exterminadora, o que é mais evidente no Terceiro Mundo. Os países do Primeiro Mundo não costumam exibir tão cruamente esta face em relação à população de seu próprio país, mas o fazem em relação a países alheios, como é o caso do Iraque, a respeito do qual a mídia não pára de justificar os bombardeios e o bloqueio comercial, que condenam à fome e ao atraso uma população inteira em função do mau comportamento de Saddam Hussein.

O psicanalista Bruno Bettelheim (1989), ele próprio ex-prisioneiro de um campo de concentração nazista, nos traz importantes considerações sobre as possibilidades de sobrevivência, em sentido amplo, existencial, daqueles que foram um dia submetidos a estas terríveis circunstâncias. Bettelheim acha que aqueles que são capazes de preservar a saúde mental depois de eventos traumáticos, como os que ocorreram durante a guerra, são os que foram capazes de preservar a crença em algum tipo de sentido de vida. Esta parece ser a primeira condição para preservar a saúde psíquica. Associada a esta crença está a capacidade de responder ou reagir à realidade. Quando se fala em reagir, imaginamos logo que se trata de algo espetacular - empunhar armas, destruir o inimigo, vencê-lo numa revolução, etc. Enquanto isto não ocorrer, resta apenas a possibilidade de se fechar, ruminar um ódio impotente, relembrar o ocorrido produzindo apenas mais ressentimento. No entanto, reagir pode ser apenas manter-se capaz de entender o que esta acontecendo. Esta foi a saída pessoal de Bettelheim, que utilizou suas vivências de prisioneiro como material para mais tarde dedicar-se ao tratamento da psicose. Falamos aqui de reações mínimas, pois do ponto de vista psicológico, elas parecem valer tanto quanto as reações espetaculares e bem sucedidas, que não estamos descartando. Preservar a capacidade de entendimento da realidade é pré-condição para reagir, mesmo de uma forma mínima. A perda deste entendimento e conseqüentemente, da capacidade de reagir construtivamente é talvez um dos sinais mais importantes de doença mental. Graças aos múltiplos mecanismos de falsificação e ocultamento presentes na sociedade contemporânea, compreender e poder agir de acordo com esta compreensão não são tarefas pequenas demais, mas revestem-se de um importante significado político. Para compreender é necessário empreender ações complexas e organizadas de modo a ultrapassar a mesmice, a pseudoneutralidade, por exemplo, das agências de notícia, encontrando outros modos para saber o que se passa; a ultrapassar a mesmice de modos de vida que hoje incluem apenas o trabalho estafante, a busca desesperada do dinheiro, e excluem ou dificultam o contato social, afetivo, o prazer, a criação.

Na perspectiva de Primo Levi (1990), a luta quotidiana pela vida é o que permite continuar a viver num lugar onde a morte é uma possibilidade palpavelmente presente. A negação da morte, nos lager4 ou na vida em geral, é o que permite seguir vivendo. Ter vivido a situação de prisioneiro não garante uma boa observação do fenômeno dos lager, porque, segundo Levi (1990), o prisioneiro está ocupado por tarefas práticas, mínimas de sobrevivência. Falta-lhe uma visão de conjunto, falta-lhe tempo e disposição para pensar. Para Levi (1990), não são idéias que garantem a sobrevivência, mas uma disposição de luta de ser vivo, visceral, que se manifesta nas pequenas coisas: a luta pelo pedaço de pão, por sapatos, por um pedaço de pano. Desde o primeiro tapa na cara, porém, a confiança na humanidade está abalada. Após a saída do campo, já fora da situação de opressão que mobiliza forças viscerais de sobrevivência, coloca-se o problema da memória. As memórias sobre fatos acontecidos são extremamente mutantes, fugazes. Levi narra seu esforço inútil para dizer à família de um amigo, quando de seu retorno a casa após a guerra, que este havia morrido à saída do campo. A família havia elaborado uma outra versão "dos fatos" e se aferrado a ela (a de que ele estava vivo na Rússia, desmemoriado, recusando a real. Julgados em Nuremberg, muitos nazistas também reelaboraram os fatos, de modo a se dizerem obrigados a fazer o que fizeram, enganados pela propaganda, etc., chegando mesmo a acreditar em suas elaborações, que visavam, é claro, a preservar a própria pele. Era visível para todos os que acompanharam o julgamento que tal reelaboração ocultava a adesão ao nazismo, voluntária e muitas vezes entusiasta, ou mesmo apenas oportunista.

Graças à memória utilitária, um dos tipos de memória descrito por Bergson (1939/1990), nos lembramos daquilo que nos convém no presente, e esquecemos os fatos mais desagradáveis. É saudável que assim seja. A narrativa de muitos sobreviventes de campos de concentração não foge a esta regra. A preservação e a recuperação de uma memória factual, para Levi, é uma questão de justiça, uma questão política, não deve ser deixada ao sabor das recordações individuais. A pesquisa minuciosa destes fatos, através de indícios e documentos, desempenha um importante papel político. Ao contrário de muitos pontos de vista aparentemente cultos, modernos, os algozes e as vitimas não se confundem, embora ambos possam ter sofrido e até mesmo, ambos mereçam ser compreendidos. Seus destinos devem ser diferentes:

Não queremos confusões, freudismos vulgares, morbosidade, indulgência. O opressor continua como tal, tanto quanto a vítima. Não são intercambiáveis. O primeiro deve ser punido e execrado, mas se possível, compreendido, a segunda deve ser lamentada e ajudada, mas ambos, em face da indecência do fato que foi irrevogavelmente cometido, têm necessidade de refúgio e defesa, indo instintivamente em busca disso. (Levi, 1990, p.12)

No tratamento dos atingidos pela violência do Estado, a questão da recordação, dos efeitos duradouros do trauma sobre a subjetividade é central. Aqui seguiremos uma perspectiva clínica transdisciplinar que resulta de uma “bricolagem”de saberes que entram em ressonância, permanecendo propositadamente num campo de dispersão. Não se quer constituir uma unidade apoiada em modelos clássicos de conhecimento, mas justamente extrair os benefícios práticos desta dispersão para a construção de ferramentas clínicas. Na clínica transdisciplinar, as análises políticas, históricas,filosóficas ou literárias são pertinentes, e não estão excluídas de seu campo, como já o foram em perspectivas que se restringiam ao intrapsíquico5. Numa perspectiva semelhante, Sironi (1999) aponta que o tratamento de torturados demanda uma redefinição da clínica tradicional, excessivamente apoiada no infantil e no familiar, bem como na introspecção.

Levi (1990)  considera que uma grande dose de esquecimento é o que possibilita a atenção à vida: na rotina extrema dos campos de concentração não havia lugar para recordações - os que viviam a lamentar a morte de parentes, o conforto perdido, em geral não sobreviviam. A sobrevivência impunha coisas mais importantes para pensar: conseguir um sapato para o inverno, um pedaço de pano para remendar a roupa, uma ração extra de pão.

Fora das condições extremas efetivamente vividas pelos atingidos pela violência do Estado, na vida após os acontecimentos traumáticos, as recordações vêm, mesmo que se deseje expulsá-las da consciência. A questão pode ser colocada em termos das possibilidades de se fazer um bom ou um mau uso destas recordações, tal como Nietzsche (1873/1983) descreveu os modos de fazer história em "Da Utilidade e Inconvenientes da História para a Vida". Existem vários tipos de recordação: uma recordação que reativa constantemente a ferida, alimenta-a, impedindo-a de secar e cicatrizar. Recordação a serviço do ressentimento e não da ação. Re-sentir, sentir de novo, de novo e de novo, a mesma coisa. Este mecanismo, que podemos, a partir de Nietzsche, chamar de "doença do ressentimento", nos impede de viver o momento presente. Mas existem recordações que podem estar a serviço da vida, estando ligadas à construção de novos modos de existir, a novas lutas, nas quais os fatos do passado ganham uma conexão com o atual. A memória e o esclarecimento dos fatos ocorridos podem permitir a construção de novos territórios existenciais.

Estaria eu aqui elaborando um manual de auto-ajuda para os traumatizados pela Estado? Seríamos sem dúvida mais felizes se se tratasse apenas de seguir instruções de um manual, de mudar reações pessoais, íntimas, individuais para a recuperação destas pessoas. Uma vida, como disse Deleuze (1977), não é uma questão pessoal, individual. Neste sentido, o raio de ação da psicoterapia é bastante limitado. Mais importante é compreender que, quando falamos de recuperar, encontrar ou manter um sentido para a vida, isto não pode ser encarado como um problema individual. Isto se refere à capacidade de construir um mundo para viver. Isto por certo pressupõe a dimensão do coletivo. E neste sentido, pressupõe também o esclarecimento destes fatos, a punição dos culpados, vencer o silenciamento e o cinismo. Não estamos, porém, opondo um plano individual e um plano coletivo, mas trabalhando justamente a partir de um plano de imanência que gera ambos os planos. Não há separação entre individual e coletivo, mas constante imbricação, de tal modo que uma ação num dos planos sempre reverbera ou ressoa no outro, no sentido de uma subjetividade pensada como dobra de um fora6.

Quando falamos em encontrar sentidos de vida, na construção de mundos, isto se refere a acionar o plano do coletivo, que está diretamente ligado à ação política. O capitalismo jogou sempre uma grande cartada justamente na restrição e cooptação da ação política, anulando as possibilidades de oposição e resistência a este sistema social e político. O capitalismo e seus modos de produção de subjetividade se voltaram para o plano do coletivo, serializando-o, assegurando-se de que este volte suas forças para objetivos de consumo, produzindo sempre fluxos “desterritorilizados”, o que quer dizer: fluxos desligados da produção de sentidos coletivos. Assim, não é pelo fato de estarmos em companhia de muita gente que o plano do coletivo estará sendo acionado. Os meios de comunicação têm como alvo "muita gente", as pesquisas eleitorais são estratégias contemporâneas que dizem respeito a "muita gente", mas seu efeito é impossibilitar justamente o que chamamos de dimensão do coletivo, como plano de imanência da vida.

Dissemos que o exercício da violência pelo Estado costuma ser escamoteado pelo discurso oficial em seu cinismo essencial. Transformado em erro, excesso, desvio, exceção, o ato violento ,cujas marcas se fazem sentir por muito tempo ou mesmo por toda a vida, tem seu sentido escondido e isto freqüentemente atinge aquele que foi seu alvo também desta forma. Para reconstruir sentidos de vida, universos existenciais, é necessário muitas vezes vencer este muro de silêncio. É necessário que terapeuta e cliente possam responder a perguntas fundamentais: que luta estava sendo travada, na qual nosso paciente foi atingido? É preciso inserir este acontecimento "inexplicável" no interior de uma luta cujo sentido político quase sempre é escamoteado. É necessário assinalar que este vazio de sentido é uma questão que afeta de um modo geral à subjetividade contemporânea. Nossa capacidade de construir um mundo em que possamos viver, com crenças, ideais a atingir, rotinas a cumprir em prol de algum objetivo, parece estar comprometida. Os pseudo-objetivos e ideais esvaziados do capitalismo de nossos dias se expandiram em larga escala, produzindo um deserto subjetivo em escala planetária. Se o comunismo fracassou, este fracasso se deu em grande parte porque determinadas lutas foram perdidas justamente neste campo da produção de subjetividade. Neste contexto se insere a problemática trazida por Bettelheim em relação aos sobreviventes dos campos nazistas: sobreviver num mundo desterritorializado - uma tarefa não só para as vítimas diretas da violência institucionalizada, mas para todos nós. Talvez hoje não tenhamos condições para apontar para um mundo espetacular, para uma revolução espetacular. Talvez possamos falar principalmente de pequenos mundos, mundos mínimos emergentes, pequenos mundos delicados, mas de grande intensidade.

Quando a vida continua após eventos traumáticos como a tortura, a prisão, ferimentos a balas disparadas pela polícia, novos modos de vida emergem, já que vida é sempre produção do novo e de mudança. A concepção mais corrente do trauma costuma associá-lo a eventos ocorridos na infância, especialmente de natureza sexual, que se repetem por toda a vida, sempre retornando à recordação. Queremos apontar aqui para uma outra concepção de trauma associada à noção de acontecimento desenvolvida por Deleuze a partir da filosofia estóica (Deleuze, 1969/1975). Não que neguemos a importância dos anos infantis na produção da subjetividade, mas o que queremos sublinhar é a não-existência de uma forma prévia, de uma definição prévia quanto ao que terá eficácia traumática. Quando um acontecimento se efetua, podemos falar de dois modos de efetuação. Num deles, ele se insere numa sucessão temporal, numa história, num eu, num estado de coisas; noutro modo de efetuação, ele rompe com todos estes elementos - ele reduz o presente a um mínimo instante, já presente e passado. Neste modo de efetuação - a contra-efetuação - está o elemento de ruptura com o passado psicológico, com a história, está o intempestivo, ou o acontecimento propriamente dito.

Este elemento de ruptura com o passado psicológico, justamente o aspecto de exterioridade, de real, que o traumático traz, é que pode ser produtor do novo. É claro que o trauma, por ter também um modo de efetuação que se insere numa história e que produz marcas, traz consigo um caráter de irreversibilidade e de repetição. Mas por seu caráter desestabilizador, interventor, agindo sobre uma organização subjetiva mais ou menos estável, ele traz sempre linhas de produção de novos modos de organização subjetiva.

O tratamento das pessoas atingidas pela violência do Estado é justamente buscar, pinçar, pescar estas linhas e fortalecê-las, por trás, ao lado, entr, as marcas irreversíveis que lá estão, em meio a estas linhas. Apagar o passado é impossível, o importante é fazer dele um outro uso, captar o que este passado pode ainda produzir de novo e de singular.

 

Referências Bibliográficas

Ariès, P. (1977) História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves.        [ Links ]

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Endereço para correspondência
R. Araribóia 15 frente, Sao Francisco, Niterói, RJ, CEP 24360 340.
E-mail: c.rauter@terra.com.br

Recebido em 22/06/2001
Revisado em 04/10/2001
Aceito em 12/10/2001

 

 

1 A criminologia não cessa, desde o seu surgimento, de se referir à sociedade como um corpo que reage ao crime naturalmente, como anticorpos reagem a bactérias. A repressão à criminalidade é justificada como tarefa técnica, o direito de punir afasta-se assim de questões de legitimidade, de regras propriamente jurídicas, para tornar-se uma reação eficaz e justificada tecnicamente. Ver a esse respeito Rauter (1982).
2 Documentário de Davi Cohen realizado em 1993.
3 Tipo de edificação proposta para prisões pelo arquiteto Bentham em 1840, onde de uma torre central um observador pode obter visibilidade total dos prisioneiros. Foucault tomou este modelo para analisar as prisões, hospitais psiquiátricos e outras instituições disciplinares. Ver a esse respeito Foucault (1977, p. 177).
4 Campo de concentração
5 Ver esse respeito Rauter (1998, p. 6).
6 Aqui nos referimos à noção de dobra, tal como aparece em Deleuze (1986), para quem, não havendo distinção de gênero entre o plano individual e o plano do coletivo, o plano individual aparece como uma espécie de invaginação do plano coletivo. Da mesma forma, o plano coletivo pode ser visto como uma exteriorização do plano individual, ambos os planos sendo expressão de uma só substância, ou plano de imanência da vida.

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