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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.7 no.2 Maringá Jul./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722002000200004 

ARTIGOS

 

O internato escolar como instituição total: violência e subjetividade

 

Boarding school as a total institution: violence and subjectivity

 

 

Sílvio José Benelli

Universidade Estadual de São Paulo, Campus de Assis, Aluno do Programa de Pós-Graduação em Psicologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Neste artigo, apresentamos um caso da literatura relativo ao internato escolar por meio do qual exemplificamos e discutimos alguns aspectos da violência e subjetividade na instituição total. Utilizamos as análises de Goffman sobre as instituições totais e algumas hipóteses psicanalíticas a respeito da agressividade para a leitura de “O Jovem Törless”, de Robert Musil. Instituições totais parecem ultrapassadas, mas elas persistem na atualidade: FEBENS, asilos, orfanatos, conventos, prisões, quartéis, manicômios, seminários para formação de padres, etc. Nossa pesquisa visa ao desvelamento do modo de funcionamento dessas instituições e a explicitação de seus efeitos na produção da subjetividade daqueles que delas participam. Concluímos que no paralelo que podemos estabelecer entre os fins educativos do internato escolar e os objetivos terapêutico-correcionais do hospital psiquiátrico e da prisão, existe mais do que uma simples analogia.

Palavras-chave: instituições totais, subjetividade, internato escolar.


ABSTRACT

In this article we will present a literature case related to boarding school through which we exemplify and discuss some aspects of violence and subjectivity in the total institution. We make use of Goffman’s analyses about the total institution and some psychoanalytic hypotheses on the aggressiveness concerning the reading of “The Young Törless”, by Robert Musil. The total institutions seem to be old-fashioned but continue to exist: minors discipline institutes, almshouses, orphanages, convents, prisons, army headquarters, mentally disturbed institutions, catholic seminaries, etc. Our research aims to unveil the way those institutions function and explain their effects on the subjectivity production of those who took part on it. We concluded that there are more than one simple analogy in the parallel we can establish between  the educational goals of the boarding school and the corrective-therapeutic objectives of the psychiatric hospital and prison as well.

Key words: total institutions, subjectivity, boarding school.


 

 

A condição de alguém que vive como internado numa instituição deve ser considerada de modo relevante em si mesma. Sua vida real, atitudes, idéias, sentimentos e conduta devem ser estudados nesse contexto institucional. Acreditamos que o período de internação em um ambiente especial constitui uma parte significativa do período vital total do indivíduo. Esse lapso de tempo no qual o indivíduo vive como internado pode deixar marcas profundas na sua subjetividade e se configura enquanto um tema de estudo apropriado em si mesmo. A condição de internado, seja num hospital geral, num hospital psiquiátrico, numa prisão, num colégio interno, num convento ou num seminário, nos parece relevante em si mesma como um assunto que merece ser estudado e compreendido.

Dentre as práticas sociais de modelagem da subjetividade, a internação em instituições totais tem sido historicamente uma estratégia extremamente freqüente. Estas instituições foram e continuam sendo utilizadas como agências produtoras de subjetividade, modelando-a de acordo com o contexto institucional ao promover relações peculiares entre dirigentes e internados no conjunto das práticas institucionais.

Neste artigo, temos como objeto de estudo uma instituição total, que Goffman, (1987) define como sendo um local que concentra moradia, lazer, e a realização de algum tipo de atividade formativa, educativa, correcional ou terapêutica, onde um grupo relativamente numeroso de internados estão submetidos a uma pequena equipe dirigente que gerencia a vida institucional.  

Relações sociais autoritárias e mesmo violentas podem ser promotoras de um caldo de cultura instável, conflitivo e explosivo. A vida no contexto institucional de uma instituição total (Goffman, 1987) tende a se caracterizar por um alto grau de agressividade e inclusive, de violência. Uma equipe dirigente arrogante e autoritária pode criar uma vida marcada por uma violência surda e cotidiana, tornando-se incapaz de explicar, controlar ou perceber sua própria implicação na produção de semelhante estado de coisas.

Entendemos a violência como um evento representado por ações realizadas por indivíduos, grupos, classes ou nações que ocasionam danos físicos ou morais a si próprios ou a outros. Agressividade pode ser entendida como “tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasísticos que visam prejudicar o outro, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo, etc.” (Laplanche, 1996). Qualquer modalidade de ação, motora ou simbólica, positiva ou negativa, pode funcionar como agressão. A psicanálise atribuiu uma importância crescente à agressividade, mostrando-a em operação desde cedo no desenvolvimento do sujeito, indicando sua ligação complexa com a sexualidade.

Vamos apresentar um exemplo desse fenômeno onde agressividade, violência, sexualidade e sadismo se mesclam de modo complexo em uma instituição total (Goffman, 1987). Robert Musil (1880-1942), publicou em 1906 “O Jovem Törless”, baseado em suas experiências escolares. Trata-se de um romance ambientado numa sociedade extremamente autoritária, que narra o desenvolvimento de um adolescente no contexto institucional de um internato escolar, cujos conflitos são urdidos no seio de complexas relações institucionais. Nossa hipótese é que os alunos reproduzem entre si as mesmas relações de dominação e modelagem às quais estão submetidos pela equipe dirigente. Se se tornam opressores, é porque são também oprimidos, reproduzindo as relações sociais de dominação e submissão. Mas não podemos negar a percepção de que os atores principais da estória em questão possuem, cada um, modos diversos e específicos de lidar com a lei.

A perspectiva de Goffman (1987) quanto ao modo de funcionamento dos internados nos auxiliará na compreensão dos acontecimentos narrados. Também nos utilizaremos de algumas hipóteses psicanalíticas para entender a dinâmica dos atores institucionais no romance em questão.

De acordo com Goffman (1987), os internados criam ajustamentos secundários, práticas que não desafiam diretamente a equipe dirigente, mas lhes permitem obter satisfações proibidas ou conseguir, por meios proibidos, as satisfações permitidas. Os internados “conhecem as manhas” para usufruir uma certa autonomia pessoal, reagindo às pressões ostensivas da equipe dirigente. Poderíamos dizer que os internados inventam as “manhas” e criam também uma gíria institucional própria para se comunicarem em segredo. Criam também controles sociais informais utilizando a cooptação ou a coerção pela força e violência para evitar que delatores os entreguem à equipe dirigente.

Através do processo de confraternização, o grupo dos internados se une, desenvolve apoio mútuo e uma cumplicidade como resistência a um sistema que os forçou à intimidade numa única comunidade igualitária de destino. A gozação coletiva expressa o repúdio geral e vingança contra a autoridade sentida como inimiga.

A solidariedade produz uma infinidade de grupos primários no estabelecimento: panelinhas, facções, ligações sexuais mais ou menos estáveis, a formação de pares, através dos quais dois internados passam a ser reconhecidos como “amigos” ou “casal” pelos demais companheiros. Nos casos em que não se pode confiar nos companheiros, que representariam uma ameaça potencial permanente, o internado experimentaria anomia e solidão, apesar de conviver num grande grupo (Goffman, 1987).

 

VIOLÊNCIA E SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA: OBSERVAÇÕES PSICANALÍTICAS

A psicanálise vem discutindo de longa data a questão da agressividade. Podemos falar sobre algumas tendências que tentam explicar esse fenômeno. Uma delas tem sua origem em Freud (1930) e Melanie Klein (Petot, 1991), afirmando que existe uma agressividade inata no homem, semelhante em estatuto à sexualidade, a qual busca se manifestar e se satisfazer na forma de destrutividade e autodestrutividade. Através de uma série de processos psíquicos, essa violência é canalizada, controlada ou posta a serviço de alguma coisa útil. Outras duas tendências levam mais em conta o fator social. Psicanalistas ingleses como Winnicott e outros argumentam que a violência é uma reação à frustração. A violência é uma explosão diante da frustração, de querer algo que não é possível ou não pode ser alcançado. Além disso, de acordo com Lacan (1997), a agressividade e a violência estão relacionadas com a ruptura da imagem narcísica que o indivíduo tem de si mesmo. Quando acontece alguma coisa interna ou externa que ataca a imagem do sujeito, a agressividade surge como uma reação natural, numa tentativa de reconstruir esta auto-imagem.

Podemos afirmar que a agressividade não canalizada para fins socialmente úteis converte-se em violência. Do ponto de vista da agressividade inata, é impossível reduzir a agressividade a zero, seria contrário à natureza humana. A questão é a do manejo dessa violência. Unindo esta perspectiva com as outras, tudo depende fundamentalmente da sociedade, através de todo o seu sistema de ideais e possibilidades oferecidos aos seus membros. Cabe à organização social encontrar formas de canalizar esta violência inata de maneira que ela se torne relativamente inofensiva, sendo utilizada de modo sublimado na própria edificação dessa sociedade.

Existe um limiar de suportabilidade de frustração acima do qual qualquer avanço torna-se impossível, a organização psíquica do indivíduo começa a se esfacelar, ele já não vê perspectivas, a sociedade aponta caminhos que são inviáveis para ele, que recebe constantemente mensagens do meio social de que é um desqualificado. Necessidades básicas de segurança e bem-estar são negadas constantemente e isso evidentemente aumenta a capacidade e a disposição do indivíduo para atacar com violência o primeiro que passar. Por que respeitar as regras e leis de uma sociedade que não retribui ao indivíduo que abriu mão da violência contra o semelhante num pacto social? Ele abre mão da violência, sublima suas pulsões agressivas e destrutivas e não recebe em troca os benefícios prometidos, permanecendo numa posição de exclusão, sem acesso ao usufruto dos bens sociais.

Do ponto de vista de Lacan, também podemos observar fenômenos de violência individual ou coletiva que visam manifestamente restaurar a imagem que cada membro de um grupo tem, com relação a outros indivíduos ou grupos. Quando determinado grupo acusa outro de inferior, o que ele pretende é garantir que ele mesmo não é inferior. Essa dimensão psíquica da agressividade e da violência parece inevitável e compete à sociedade se organizar de maneira a diminuir os riscos que ela traz.

Mas essa tarefa de gerenciamento social ou coletivo da agressividade é um trabalho paradoxal, numa sociedade que está incorporada no Capitalismo Mundial Integrado. O próprio mercado parece funcionar vorazmente, com uma agressividade que se expressa num confronto sem mediação. Uma formação social não consegue canalizar a agressividade quando ela própria é promotora dessa situação e exacerba a frustração até um grau intolerável para seus membros. Ela própria pode inviabilizar ou frustrar o esforço de se pertencer civilizadamente ao seu conjunto. O ser humano é capaz de tolerar grandes doses de sofrimento, mas em nome de alguma coisa, com a esperança que sua dor não será em vão e que as coisas vão mudar para melhor, com uma promessa de que isso em algum momento vai cessar. Mas não apenas a sociedade capitalista não respeita essa promessa, que é feita quando alguém nasce no seu seio, como ela está deixando de ser formulada.

Não é espantoso então que as pessoas comecem a fazer justiça com as próprias mãos. Isso pode ser realizado através do mecanismo de projeção, que consiste em encarnar num outro indivíduo ou grupo tudo aquilo que se considera ruim ou um mal que não se pode tolerar nem suportar. O objeto torna-se insuportável e pode ser maltratado e até destruído porque ele está recoberto pela própria imagem do mal, que foi depositada nele pelo outro. O alvo da projeção do mal torna-se também odioso porque ele aparece como um transgressor, capaz de experimentar a realização dos desejos mais secretos e caros dos seus inimigos, mas que lhes são interditados. A destruição do inimigo intolerável assim produzido realiza-se em meio a uma fúria coletiva que tem fortes efeitos catárticos: não sou como esse, sou melhor do que ele, sobre o qual tenho direito de vida e morte. Ora, na base desses fenômenos estão presentes fatores psicossociais.

A partir das análises das formas do Sintoma Social Dominante, a violência pode ser considerada como variante de um tipo de relação com a lei, uma modalidade de subjetividade  específica. Uma forma de ação, de reação, uma estratégia de sobrevivência em ambientes hostis. Provavelmente, ambientes de reclusão tendem a promover a emergência de possibilidades subjetivas que de outro modo raramente se manifestariam.

 

A CARREIRA MORAL DO JOVEM TÖRLESS NO INTERNATO ESCOLAR: VIOLÊNCIA E SEXUALIDADE

Goffman (1987) utiliza o termo “carreira moral” em um sentido amplo, com a finalidade de indicar qualquer trajetória percorrida por uma pessoa ao longo de sua vida, permitindo ainda uma perspectiva tanto dos aspectos mais íntimos e pessoais quanto da posição oficial, jurídica e pública do indivíduo, dentro de um complexo institucional. A “carreira moral” indica o processo da vida toda do indivíduo, tanto em direção ao sucesso quanto ao fracasso, dentro da instituição. Esse processo tem momentos típicos, tais como início da vida institucional, crises, evoluções, desenvolvimentos de adaptação, de rebeldia, de submissão, de ruptura, etc.

É no contexto institucional do internato escolar que Törless tem como amigos a Reiting e a Beineberg, dois rapazes bastante singulares. Reiting

guardava diários secretos, repletos de audaciosos planos para o futuro, e anotações minuciosas sobre o motivo, a origem, a encenação e o transcurso das incontáveis intrigas que provocava entre os colegas. Pois nada divertia mais a Reiting do que atiçar pessoas umas contra as outras, alimentando-se dos agrados e das adulações forçados que extraía delas, por trás dos quais sentia a resistência do ódio de suas vítimas. – Isso me serve de exercício – dizia como única desculpa, com um sorriso amável. Também como exercício lutava boxe quase diariamente em algum lugar afastado, contra uma parede, uma árvore ou uma mesa, para fortalecer os braços e dar resistência às mãos, fazendo com que criassem calos (Musil, 1986, p. 51-52).  

Reiting sabia impor-se, era um tirano e mostrava-se impiedoso com quem lhe resistisse. Seus amigos variavam a cada dia, embora a maioria se achasse sempre do seu lado. Nisso era talentoso. Sua amizade com Beineberg era mais uma aliança oportuna:

Há um ou dois anos realizara uma grande campanha contra Beineberg, concluindo com a derrota deste. Beineberg ficara bastante isolado, ainda que não perdesse seu sangue-frio, espírito crítico e capacidade de instigar antipatias entre os outros. Faltava-lhe contudo, a amabilidade e o talento necessários à conquista das pessoas. Sua indiferença, suas maneiras de filósofo cheio de unção provocavam desconfiança na maioria das pessoas. Presumiam que no fundo de sua personalidade havia algo exagerado e desagradável. Mesmo assim, causara grandes problemas a Reiting, e a vitória deste fora quase casual. Desde então, mantinham-se unidos por interesses comuns (Musil, 1986, p. 53).

Törless estava inserido neste universo de estudantes e constatava diariamente o que significava desempenhar o papel principal num Estado, pois numa instituição assim cada sala de aula pode perfeitamente ser considerada um pequeno Estado em si. Goffman (1987) afirma que  estabelecimentos totais funcionam mais ou menos como um Estado e sua equipe dirigente tem que enfrentar problemas de um modo parecido aos que têm os governantes de estado. Törless, sendo mais jovem que seus dois colegas ditadores, mantinha com eles uma relação de discípulo, ajudante e protegido, embora gostassem de ouvir sua opinião. Törless era inteligente

e ninguém era tão hábil quanto ele em prever as diferentes possibilidades de comportamento de uma pessoa em determinadas condições. Só quando se tratava de tomar uma decisão, de assumir os riscos de uma escolha entre várias opções psicológicas e agir, ele falhava, perdia o interesse e a energia. Seu papel como uma espécie de chefe de estado-maior secreto, porém, o divertia. Tanto mais por ser quase a única coisa a trazer alguma vida ao seu profundo tédio (Musil, 1986, p. 53-54).

Reiting descobriu que Basini, outro estudante, roubara dinheiro de Beineberg para saldar dívidas que contraíra com outros colegas. Basini vivia endividado, emprestando de uns para pagar a outros, sua mãe era viúva e não dispunha de muito dinheiro. Reiting havia emprestado a Basini e cobrou o que este lhe devia. Como o outro lhe pediu um prazo, Reiting passou a investigar a vida de Basini e descobriu suas dívidas permanentes. Reiting exigiu então que Basini lhe trouxesse o dinheiro ou teria que obedecer cegamente a seu credor.  Basini ficou encabulado e prometeu trazer o dinheiro no dia seguinte. Mas conseguiu apenas uma parte do dinheiro. Reitng blefou com Basini, dizendo ter descoberto que ele havia roubado dinheiro dos colegas e ameaçou-o com uma denúncia que podia causar sua expulsão do colégio.

A situação era de guerra psicológica, pois Reiting não tinha certeza de que Basini roubara mesmo Beineberg, mas o pressionou com sutileza, com um sorriso zombeteiro nos lábios, até conseguir arrancar uma confissão do colega. Basini disse que pegara o dinheiro apenas como empréstimo oculto e que pretendia devolvê-lo o quanto antes; pediu que Reiting não dissesse que ele roubara e  se apresentou formalmente como seu escravo.

Reiting se reuniu com Törless e Beineberg no seu refúgio secreto no sótão do colégio (ajustamento secundário), para deliberar sobre o futuro de Basini. O trio não chegou a um acordo: Törless afirmava que Basini era um ladrão e que devia ser castigado, denunciado, afastado do internato; Reiting não concordava, dizendo que

Basini está em nossas mãos, podemos fazer com ele o que bem entendermos. E caso ele se rebele, podemos lhe mostrar quem é o senhor aqui. A baixeza dele nos diverte (Musil, 1986, p. 63).

Beineberg mostrou-se indiferente e deixou a decisão com os outros dois.

Aceitaram, portanto, uma sugestão de Reiting. Decidiram manter Basini sob vigilância, de certa forma sob tutela, oferecendo-lhe uma oportunidade de trabalhar para sair daquela situação. Dali por diante, seus gastos e ganhos seriam severamente conferidos, e suas relações como os outros alunos dependeriam da permissão dos três (Musil, 1986, p. 64).

Essa experiência deixou Törless perplexo diante dos dois colegas, “teve medo deles – mas como tememos um gigante que sabemos cego e tolo...”(Musil, 1986, p. 65).

No dia seguinte, Basini foi colocado sob tutela. Não sem alguma solenidade. Aproveitaram uma hora da manhã durante a qual escaparam aos exercícios ao ar livre num extenso gramado do parque. Reiting fez uma espécie de longo discurso. Advertiu Basini de que ele estragara sua existência, de que na verdade deveria ser denunciado; ele devia unicamente a uma graça especial o fato de que por enquanto o livrassem da vergonha de uma expulsão. Depois puseram-no a par das condições especiais. Reiting assumiu a vigilância dos ganhos de Basini. Este empalideceu e não disse uma palavra e pelo seu rosto não se conseguia ver o que se passava em sua alma. Törless julgara a cena alternadamente de muito mau gosto e muito importante. Beineberg prestara mais atenção em Reiting do que em Basini (Musil, 1986, p. 65-66).

Basini é descrito como um adolescente belo, ingênuo, vaidoso e inconseqüente, não conseguia resistir a nada que desejasse e sempre era surpreendido pelas coisas que fazia.

Beineberg continuou observando Reiting e descobriu que este estava traindo a ele e a Törless. No esconderijo do sótão, Beineberg comenta com Törless que desde o começo Reiting havia defendido Basini de modo intenso. Alguém baixo como Basini deveria ser expulso imediatamente. Foi de propósito que Beineberg não concordou com a posição inflexível de Törless, pois queria descobrir o que mais estava em jogo. Ele lembrou Törless de um caso de envolvimento sexual entre os rapazes que culminou na expulsão de vários deles. Havia naquela turma um rapazinho muito belo pelo qual todos se apaixonavam. Reinting estava fazendo a mesma coisa com Basini. Beineberg os seguiu e descobriu o que faziam.

Beineberg possui uma teoria sobre a superioridade de uns seres sobre os outros: alguns nasceram, de acordo com uma ordem universal para uma vida singular, resistente, e outros nasceram apenas por acidente, por acaso, à margem e sem qualquer importância.

Num ser humano, ela coloca essa dureza na personalidade, na consciência, na responsabilidade que ele sente por ser parte da alma universal. Se uma pessoa perde essa noção, perde-se a si mesma. E quando um ser humano perdeu a si mesmo, renunciou a si, perdeu também aquela coisa especial, singular, para a qual a Natureza o criou como ser humano. E em nenhum outro caso como este poderíamos estar tão seguros de que estamos lidando com algo inútil, com uma forma vazia, algo há muito abandonado pela alma universal (Musil, 1986, p. 74).

Reiting está nas mãos de Beineberg, que de posse deste segredo do seu rival, pode prejudicá-lo, pode ameaçá-lo com a expulsão do internato, acenando com a possibilidade de uma denúncia. Törless fica assustado diante da frieza malévola do companheiro e sente-se igualmente ameaçado por Beineberg, como se o destino de Reiting fosse também o seu. Beineberg decide não fazer nada contra Reiting, já que ele agora não representa mais perigo. Mas decide não denunciar Basini, quer castigá-lo pessoalmente por causa de sua arrogância. Quer aprender com a experiência de torturar Basini.

Não precisa ficar assustado – diz Beineberg a Törless – não é tão ruim assim... não se deve ter consideração alguma com Basini... A decisão de torturá-lo depende unicamente de nossa necessidade de agir de um ou de outro modo...Reiting também não vai largar o caso, porque para ele trata-se igualmente de algo de valor especial ter uma pessoa nas mãos e poder se exercitar, usá-la como ferramenta. Ele deseja dominar e faria com você exatamente como faz com Basini, se por acaso topasse com você... Eu, em contrapartida, tenho, como você, a sensação de que, afinal, Basini também é apenas um ser humano. Também sinto que alguma coisa em mim sofreria com a crueldade que eu praticasse contra ele. Mas é exatamente isso que importa! Realmente um sacrifício! Como vê, também estou preso a dois fios. Um deles, obscuro, me leva à omissão piedosa, que se contrapõe às minhas mais claras convicções. O outro atravessa diretamente a minha alma, chegando ao mais profundo entendimento interior e me liga ao Cosmos (Musil, 1986, p. 78-79).

De acordo com sua teoria sobre a natural diferença entre os seres humanos relevantes e os insignificantes na ordem universal das coisas, ele decide superar o impulso de deixar Basini livre, como se isso fosse um preconceito de origem externa e inferior do qual deve se libertar.

Exatamente porque me custa torturar Basini – quero dizer, degradá-lo, rejeitá-lo –, exatamente por isso é bom. Pois exige sacrifício. Surtirá efeito purificador. Devo isso a mim mesmo; e preciso aprender com Basini, diariamente, que ser apenas humano nada significa, é mera aparência, uma macaquice... (Musil, 1986, p. 80).

Törless fica confuso e excitado com as idéias do perigoso amigo que Beineberg se revela. Os dias prosseguem relativamente normais e Törless anda às voltas com emoções e vivências adolescentes, indefiníveis em suas reflexões solitárias.

Os três rapazes se reúnem no sótão e Basini é humilhado verbalmente por Beineberg. Basini esperava ser defendido por Reiting, mas este esbofeteou-o e juntamente com Beineberg, despiu-o e deram-lhe uma surra. Törless não fez nada, paralisado, em transe diante do espetáculo, observando suas próprias emoções diante do evento. Foi tomado por uma poderosa excitação sexual. Terminada a sessão de espancamento, Reiting mandou Basini se sentar numa das traves de madeira do telhado e começou a falar:

Decerto você já estava achando que tinha se safado muito bem, não? Decerto pensou que eu ajudaria você? Bem, se foi assim, enganou-se. O que eu fiz com você foi apenas para ver até onde ia sua baixeza. Basini esboçou um gesto de protesto. Reiting ameaçou saltar outra vez sobre ele. Então disse: ‘Mas pelo amor de Deus, suplico a vocês, não tive outra saída!’ Reiting gritou para que ele calasse a boca. ‘Estamos fartos de suas desculpas. Sabemos muito bem quem você é, e vamos agir conforme...’

Depois de um breve silêncio, Törless disse baixinho: ‘Diga: eu sou um ladrão.’ Basini arregalou os olhos assustados. Beineberg deu uma risada de aprovação. Depois de resistir um pouco, Basini, sob ameaças, o disse. Beineber e Reiting disseram a Törless, rindo divertidos: ‘Você teve uma boa idéia, filhote.’ – e para Basini: ‘E agora você dirá imediatamente: eu sou um animal, um animal que rouba, sou um animal, um ladrão, o porco de vocês!’ E Bassini disse tudo, sem se interromper, os olhos cerrados (Musil, 1986, p. 97-98).

A intensidade da sexualidade adolescente vai inundando Törless e aos poucos ele vai tomando consciência da forte atração que sente por Basini.

Sempre que essa sensação imprecisa o dominava, sua atenção perdia aquele atributo pacato com que se acompanha o desenrolar de uma experiência científica. Parecia que de Basini emanava um fluído físico, uma excitação, como quando se dorme ao lado de uma mulher de quem se pode, a qualquer momento, tirar o cobertor. Era como um arrepio no cérebro, nascido da consciência de que basta estender a mão: a mesma coisa que muitas vezes leva jovens casais a excessos sensuais muito além das exigências de seus corpos (Musil, 1986, p. 127).

Por ocasião de um feriado, o internato ficou quase vazio e Törless permaneceu ali. Basini também. O desejo de abordar Basini torturou Törless um dia inteiro. À noite, Törless foi até a cama de Basini e acordou-o. Basini o acompanhou até o esconderijo, onde ficou nu diante dele.

Törless recuou um passo involuntariamente. A súbita visão do corpo nu, branco como a neve, atrás do qual o vermelho das paredes parecia sangue, deixava-o ofuscado e perplexo. Basini tinha um belo corpo – quase nenhum traço de virilidade, de uma magreza casta e esguia, como a de uma donzela. Törless sentia essa nudez incendiar seus nervos como alvas labaredas ardentes. Não conseguia evitar o poder de tamanha beleza... Ali, porém, a arte chegava pelos caminhos do sexo. Secreta e súbita. Um sopro cálido e perturbador se desprendia daquela pele nua, aliciante, macia e plena de sensualidade. Vibrava nela também algo solene, quase sagrado (Musil, 1986, p. 134).

Törless reage ao desejo que o atravessa, como se despertasse de um delírio. Exige que Basini se vista e o interroga, descobrindo então que Beineberg e Reiting surravam e abusavam sexualmente de Basini. Törless tenta fazer Basini perceber que não é obrigado a se submeter aos outros dois, que abusam dele. Basini acredita que não tem outra saída e se submete a tudo porque prometeram que logo vão perdoá-lo e tudo será esquecido, ele quer apenas voltar a ser um rapaz decente novamente. Törless descobre que Reiting e Beineberg poderiam agir com ele como faziam com Basini, criando uma intriga contra ele.

Havia algum perigo... escondido em algum lugar... espreitando Törless... cada passo seu podia cair numa armadilha, cada noite podia ser a última antes da batalha. Essa idéia causava uma insegurança insuportável” (Musil, 1986, p. 136).

Basini não era capaz de perceber a própria implicação na produção da situação na qual estava envolvido e Törless mergulha em seus próprios pensamentos.

De volta ao dormitório, Törless adormece e Basini vem até sua cama. Törless resiste um pouco, indeciso e imerso em dúvidas, mas sucumbe ao desejo e à sedução do outro.

Então Törless desistiu de procurar palavras. A sensualidade que se esgueirara para dentro dele paulatinamente nos momentos de desespero despertara agora com toda a intensidade. Deitava-se ao lado dele, nu, cobrindo-lhe a cabeça com um manto negro e macio. Sussurrava em seu ouvido suaves palavras de resignação e com seus dedos cálidos afastava todas as perguntas e deveres, como se fossem vãos. Sussurrava: na solidão tudo é permitido. Só no momento em que estava sendo arrastado, despertou por um segundo e agarrou-se desesperado à idéia: Isso não sou eu! Não sou eu! Amanhã, só amanhã, serei eu novamente! Amanhã... (Musil, 1986, p. 147).

Esse foi o estopim para a temporada apaixonada que se seguiu: Törless e Basini passaram a encontrar-se às escondidas com freqüência, entregando-se ao desejo que os consumia. Reiting e Beineberg mantinham-se distantes de Basini e Törless os vigiava, sem ter paz, consumido pelo ciúmes.

Beineberg mostrava-se sombrio e fechado; quando falava, eram alusões misteriosas a alguma coisa iminente. Reiting aparentemente voltara seu interesse para outras coisas; com a habilidade costumeira, tramava a rede de alguma intriga, tentando conquistar alguns através de pequenos agrados e assustando outros ao descobrir seus segredos através de alguma artimanha (Musil, 1986, p. 148).

O amor adolescente de Törless por Basini era algo confuso, um misto de desejo e repulsa por consentir em desejos percebidos como degradantes.

No começo fora apenas a nudez do esbelto corpo de adolescente que o ofuscara. A impressão foi a mesma que teria se visse as belas formas de uma jovem, ainda livres de qualquer aspecto sexual. Um assombro. Um impacto. E a pureza que involuntariamente emanava daquela sensação era o que usava a máscara do afeto – essa sensação maravilhosa, inédita, inquieta, na sua relação com Basini. Todo o resto pouco tinha a ver com ele. O resto do desejo já existira antes, ... era a sensualidade secreta, desorientada, não dirigida para ninguém em especial, a melancólica sensualidade de um adolescente que amadurece, parecendo a terra úmida, negra e fértil da primavera, e as escuras águas subterrâneas que precisam apenas de uma ocasião eventual para romper as comportas... (Musil, 1986, p. 149).

A experiência de Törless com Basini foi a ocasião para que naqueles esconderijos solitários e secretos se reunissem todos os desejos ocultos, sufocantes e rebentassem, derramando-se sobre o amante como impulsos obscuros. Mas uma luta interior permanente entre o desejo e a repulsa não permitia a Törless ter sossego. Vivia medroso, sobressaltado, em pânico de que descobrissem sua paixão, com grande desgaste em meio ao vendaval de emoções angustiantes e solitárias.

Essa sexualidade adolescente fervilhante e patente que se concretiza em casos e paixões arrebatadoras entre indivíduos do mesmo sexo encontra nas peculiares condições de vida do internado sua causa.

Com forças jovens e impetuosas retidas por trás de muros cinzentos, a fantasia multiplicava imagens sensuais que punham muitos dos rapazes fora de si. Certo grau de devassidão passava até por ser uma qualidade viril e ousada; era como se conquistassem os prazeres proibidos (Musil, 1986, p. 155).

Reiting e Beineberg, irritados porque Basini já não lhes obedecia como antes, nem parecia sofrer com a obediência, decidiram acabar com ele de uma vez. Reiting pensava em degradá-lo de modo insuportável e talvez entregá-lo a sua classe.

Seria o mais sensato. Se cada um contribuir com um pouco, poderemos fazê-lo em pedacinho. Aliás, gosto desses movimentos de massa. Ninguém faz nada de especial, e ainda assim as ondas se erguem cada vez mais alto, até se abaterem sobre as cabeças de todos. Vocês vão ver, ninguém se moverá e ainda assim haverá uma tempestade gigantesca. Para mim será uma diversão extraordinária promover uma coisa dessas (Musil, 1986, p.157).

Mas antes do golpe de misericórdia, ainda queriam se aproveitar mais um pouco de Basini, usando ameaças e surras. Törless sofre com a possibilidade de que Reiting e Beineberg descobrissem seu envolvimento com Basini e o tratassem do mesmo modo que a este. Deixou que tudo acontecesse como os outros dois queriam. Seus sentimentos por Basini já tinham se esfriado completamente e a situação o livrava de oscilar entre o desejo e a vergonha, pois não conseguia se livrar por si mesmo. Além disso, temia que as humilhações preparadas para Basini também o atingissem.

Reiting e Beineberg levaram Basini para o sótão mais uma vez, onde o humilharam e espancaram na presença de Törless, que assistiu a tudo calado. Törless não se envolveu e deixou que os outros dois fizessem com Basini o que quisessem. Eles continuaram abusando e espancando o rapaz.

Algum tempo depois, Basini procurou por Törless, pedindo-lhe ajuda, implorando porque já não suportava mais os tormentos aos quais era submetido. Törless tentou se esquivar, dizendo que a culpa era de Basini, por estar nesta situação. Eles marcaram um encontro no sótão à noite. Lá, Törless repetiu para Basini que não ia ajudá-lo. Reiting os surpreendeu escondidos ali e exigiu satisfações. Törless disse que Basini o chamara ali para pedir proteção, mas ele havia recusado e não queria mais saber daquela estória. Reiting e Törless discutiram, trocaram insultos e romperam relações. Törless entendeu que agora um perigo real o ameaçava pelas costas.

Dias depois, Reiting e Beineberg, irritados com os insultos, abordaram Törless e exigiram que ele fosse assistir a um último castigo de Basini no esconderijo, antes de entregá-lo para a turma da classe. Diante da recusa de Törless, passaram a ameaçá-lo:

Meu caro Törless, se você se voltar contra nós e não aparecer lá vamos fazer com você o mesmo que com Basini. Sabe muito bem em que situação Reiting encontrou você lá em cima junto dele. Isso basta. O fato de termos feito mais ou menos a mesma coisa com Basini não lhe servirá de nada. Vamos usar tudo contra você, que nesses assuntos é bobo e inseguro demais para nos vencer. Portanto, se não mudar de idéia em tempo, vamos acusar você de cumplicidade com Basini diante de todos os colegas da classe (Musil, 1986, p. 175).

À noite, não acompanhou os três, quando deixaram o dormitório coletivo, ficou ali em sua cama, martirizado por fantasias terríveis, desejando ardentemente livrar-se daquela confusão. Quando regressaram e adormeceram, Törless rabiscou um bilhete para Basini e colocou-o na mão do rapaz:

Amanhã você será denunciado aos colegas e vão acontecer coisas terríveis com você. A única saída é entregar-se ao diretor. De qualquer modo ele ficará sabendo; só que antes disso dariam uma surra tremenda em você. Atribua toda a culpa a R. e a B. e me deixe fora disso. Está vendo que desejo salvar você (Musil, 1986, p. 177-178).

No dia seguinte,

Törless viu Beineberg e Reiting irem de um colega a outro; ao redor deles formavam-se grupos, que sussurravam agitados... o nervosismo crescera... talvez tivessem acrescentado mentiras... primeiro sorriam, depois alguns ficavam sérios, lançando olhares indignados para Basini. Por fim a sala de aula ficou pesada de um silêncio sombrio, ardente, prenhe de impulsos sinistros. Por acaso tiveram a tarde livre. Todos se reuniram no fundo da sala, junto dos armários, e chamaram Basini (Musil, 1986, p. 179).

Fecharam as portas, colocaram vigias, ordenaram que Basini se despisse, causando grande prazer à turma. Enquanto Reiting lia em voz alta cartas da mãe de Basini, risadas obscenas e piadas indecentes emergiam do grupo.

De repente, alguém empurrou Basini. Outro sobre o qual ele caiu, empurrou-o de volta, em parte com raiva em parte de brincadeira. Um terceiro o passou adiante. E de repente, nu, a boca escancarada de pavor, Basini voou como um bola pela sala em meio às gargalhadas e aos apertos de todos – de um lado a outro – seu corpo abriu-se em feridas nas quinas dos bancos, e ele caiu de joelhos, esfolando-os até sangrar; por fim, ensangüentado, empoeirado, os olhos esgazeados como os de um animal, caiu de vez no chão, enquanto se fazia um súbito silêncio e todos se aproximaram para vê-lo ali estendido (Musil, 1986, p.179).

Decidiram na noite seguinte, amarrar Basini em uma cama e açoitá-lo ali, mas de manhã cedo, o diretor entrou na sala de aula, acompanhado pelo regente da classe e de dois professores. Basini foi retirado da sala e isolado dos demais. O diretor pronunciou um sermão irado sobre as crueldades cometidas e ordenou uma severa investigação. Basini havia se entregado pessoalmente, sem incriminar Törless.

Ninguém suspeitava de Törless, nem Beineberg e Reiting pensavam na possibilidade de que ele fosse o delator. Estabeleceu-se um pequeno processo inquisitorial e todos os alunos foram chamados individualmente para um interrogatório. Sentindo-se incapaz de enfrentar o inquérito, Törless fugiu do internato. A polícia saiu à procura do rapaz, enquanto a investigação se processava. Reiting e Beineberg jogaram toda a culpa em Basini, afirmando que tudo o que fizeram foi com o intuito de regenerá-lo, mas ele não se corrigiu. Toda a classe jurou que maltratara Basini, provocada pelo deboche com que ele respondia à bondade dos colegas. Tratava-se de uma comédia bem armada. Basini manteve-se calado, devido a novas ameaças de Beineberg e Reiting.

Törless foi encontrado e trazido de volta. Sua fuga era um enigma no caso Basini. Os colegas o prepararam e ele foi enfrentar o interrogatório da comissão de professores, na residência do diretor. Um dos professores redigia a ata do processo. Törless enrolou-se confusamente nas suas explicações, sem esclarecer nada. Diante do impasse, resolveram despedir Törless, que nesse ínterim já havia solicitado a seus pais sua saída do internato. Basini foi expulso e a vida escolar retomou seu curso normalmente. Do internato, Törless levou o aprendizado das inesperadas potencialidades do polimorfo desejo que atravessa o ser humano.

Quando a equipe dirigente foi informada dos acontecimentos envolvendo Basini, vemos a instituição lançar mão das técnicas disciplinares baseadas no exame, conforme Foucault (1999a). As autoridades instalam um processo inquisitorial para apurar os acontecimentos e interrogar os alunos. Podemos perceber aí como o sistema escolar está atrelado a um micropoder judiciário, tal como afirma Foucault (1999b). Notamos  que há todo um jogo de forças, uma luta, um estado de guerra no próprio grupo dos internados: impossível não notar a agressividade e sexualidade que ali fervilham, na surdina. Os “problemas de governante” enfrentados pela equipe dirigente revelam que ela sofre influências e tem que administrar as ações e reações geradas pelo grupo dos internados.

 

PARALELOS ENTRE O INTERNATO ESCOLAR E OUTRAS INSTITUIÇÕES TOTAIS

O colégio interno tem muitos aspectos em comum com as instituições totais, hospital psiquiátrico, prisão, convento, seminário, etc. Ali também encontramos a divisão entre uma equipe de profissionais constituída por professores e administradores que procuram promover várias formas de mudanças psicológicas no grupo dos membros residentes (os estudantes internados) por cujo bem-estar geral são responsáveis em grande medida.

No paralelo que podemos estabelecer entre os fins educativos do internato escolar e os objetivos terapêutico-correcionais do hospital psiquiátrico e da prisão, existe mais do que uma simples analogia. As três organizações procuram, de modos que variam tanto entre si quanto dentro de cada uma, promover o desenvolvimento pessoal e os conhecimentos sobre o caráter, o conceito sobre si mesmo, a competência e os recursos psicossociais que significarão uma diferença na vida dos membros residentes depois da sua graduação. A função de custódia corresponde em graus semelhantes. Como membro da comunidade escolar, o estudante depende em grande medida do que o colégio lhe proporcione quanto ao seu bem-estar, alojamento, recreação, saúde, etc. Ele também está bastante sujeito ao sistema de autoridade e controle institucional (normas sobre a admissão, expulsão, regulamentos, aproveitamento acadêmico e comunitário e condições de graduação). As funções de reclusão podem ser menos proeminentes, pois ninguém se torna aluno em regime de internato por mandato judicial. Mesmo assim, alguns alunos podem sentir o colégio como um ambiente carcerário e restritivo, ao qual foram entregues por seus pais. As concepções do estudante que vive num internato escolar de Hesse (1970, 1980), Rego (1979); Trevisan (1985), Lautréamont (1986), Musil (1986) e Pompéia (1997) têm muito em comum com a apresentada sobre o paciente como internado.

Há uma série de questões que são comuns ao internado no colégio e no hospital psiquiátrico. Ambos constroem sistemas de princípios racionais ideológicos que definem o bom internado e o bom estabelecimento. Avaliam a instituição em termos ideológicos e quanto ao significado emocional pessoal que tem para eles. Devem decidir o que ocorre em suas pessoas, um com relação ao processo formativo (conhecimentos, capacidade de ocupação, características de sua personalidade) que lhe é oferecido e o outro, quanto aos seus problemas psiquiátricos; entre o que são agora e o que querem chegar a ser. Assim como as dificuldades e os sentimentos do paciente o motivam para o trabalho terapêutico, o estudante é estimulado pela sensação de ignorância e imaturidade a participar do processo educativo. O conhecimento das próprias limitações e o desejo de mudanças interiores servem de estímulo para esforços educativos e terapêuticos na medida em que são acompanhados pela percepção do próprio valor pessoal e de um ambiente que valorize e  possibilite esse esforço.

O caminho da reabilitação psiquiátrica também tem sua analogia no estudante internado. Ele também enfrenta um vasto conjunto de exigências e oportunidades dentro e fora do colégio. Não pode satisfazer todas nem usar todos os recursos disponíveis. É preciso fazer uma certa seleção e o conceito do que é importante para o estudante pode não ser o mesmo do corpo docente ou da administração.

A vida pessoal do estudante dentro do estabelecimento, tanto no dormitório quanto e em outras partes, tem um grande significado para seu desenvolvimento, além de sua importância para atingir os fins educativos mais concretos. Isso é semelhante ao que se passa entre os membros internados numa instituição psiquiátrica. O estudante responde muito à cultura geral de seus pares e às alianças e rupturas transitórias que se produzem dentro do corpo estudantil, com os professores e com a administração. A relação entre os estudantes, ainda que menos ameaçadora do que a que existe entre pacientes, costuma ter aspectos problemáticos que causam ansiedade. O estudante pode se sentir menos ameaçado pelos problemas mentais de seus colegas (mas isso também pode acontecer), mas ainda tem motivos para se preocupar com eles. Surgem questões relativas ao desempenho acadêmico, rivalidades, inveja, temores, medo do fracasso, disputas, competição por reconhecimento, etc.

Diferentemente do paciente internado, um estudante de colégio interno sente orgulho por pertencer a um colégio, como resultado de esforços anteriores e como meio de obter conquistas vitais. O estudante não perde totalmente seus direitos civis de cidadão e a duração de sua permanência geralmente está fixada de modo claramente delimitada.

A participação na vida colegial do internado pode ser não apenas uma oportunidade, mas também motivada pela pressão dos pais, professores, pares e outros. Os aspectos coercitivos da vida no internato escolar, ainda que menos explícitos e brutais do que os do hospital psiquiátrico, também podem ser mais massificantes e difíceis de se enfrentar. Existem as possibilidades vergonhosas do fracasso acadêmico,  da incapacidade intelectual, de mudar muito ou pouco antes da formatura.

Podemos dizer que o processo educativo deve promover uma liberação sublimada dos impulsos, uma iluminação da consciência e uma maior diferenciação e integração da personalidade do indivíduo. Para alcançar esses objetivos, as instituições educativas devem proporcionar as condições psicossociais sob as quais os estudantes possam tratar essas questões de modo positivo e construtivo. Um conceito adequado para pensarmos o estudante é considerá-lo como um ser em transição, como uma pessoa em processo de desenvolvimento.

 

CONCLUSÃO

No internato escolar descrito por Musil (1986), encontramos uma sociedade em miniatura. Os fenômenos sociais, em estado nascente, mais ou menos desenvolvidos, podem ali ser apreciados: a circulação da informação, o exercício da autoridade e seus efeitos disciplinares, as pressões, os mecanismos adaptativos dos indivíduos, a tensão entre interesse geral e satisfação de necessidades individuais; o conflito entre as necessidades do estabelecimento e a preservação dos particularismos individuais e da espontaneidade criadora, as normas, os códigos, as crenças, a linguagem comum, a hesitação entre a tolerância e o ostracismo em relação aos desviantes (sobretudo sexuais) e às “panelinhas” que enfraquecem a unidade coletiva, o antagonismo das personalidades dominantes, geralmente reforçados pelos grupos correspondentes, as relações de forças oscilando nos eixos maioria-minoria-unanimidade, os bodes expiatórios, os suspeitos, os heróis, os braços-fortes, os subalternos, os delatores, perseguidos e algozes. Nesse microcosmo experimental, poderíamos estudar “in vitro” vários problemas de filosofia política, sociologia dos grupos, história e psicologia social.

Do ponto de vista psicológico, a comunidade do internato escolar pode ser estudada como um laboratório para outras experimentações: além da perspectiva institucional, dos objetivos confessos, das tarefas cumpridas em comum, podemos ver como o grupo, no contexto institucional, se configura no encontro de pessoas, de sujeitos, como um local de confronto e de laços afetivos. As oposições e as a afinidades de caráter florescem na comunidade. Os desejos individuais, sempre presentes na surdina, esperam passivamente ou reclamam com violência sua realização: apelo à ajuda, proteção, vontade de poder, exibicionismo, ataque que denigre, curiosidade, rivalidade, admiração, idolatria. O narcisismo de cada um nela experimenta doces vitórias e também feridas amargas: os outros são reduzidos a objetos do meu desejo ou os narcisismos alheios me infligem feridas sem querer (e às vezes, propositalmente), apenas por sua própria existência.

 

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Endereço para correspondência
Av. Tarumã, 577 — Centro
Tarumã, SP — CEP 19820-000
E-mail: sjbewelli@yahoo.com.br

Recebido em 19/07/2002
Revisado em 29/07/2002
Aceito em 30/10/2002

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