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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.8 no.1 Maringá Jan./June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000100005 

ARTIGOS

 

Psicologia como disciplina científica e discurso sobre a alma: problemas epistemológicos e ideológicos

 

Psychology as scientific discipline and discourse of the soul: epistemological and ideological questions

 

 

Carlos Augusto SerbenaI; Rafael RaffaelliII

IDoutorando no DICH, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Docente da Universidade Tuiuti do Paraná
IIDoutor em Psicologia Clínica, Docente do DICH da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Professor Titular do Departamento de Psicologia da UFSC

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A Psicologia é definida habitualmente como ciência do comportamento, mas necessita uma revisão de seus pressupostos. Há dificuldades na própria definição de comportamento e ela representa o predomínio das correntes neopositivistas e materialistas. Isto levou as disciplinas ou escolas psicológicas que tratavam a questão dentro do âmbito de uma psicologia introspectiva e subjetiva ou da alma a se afastarem, gerando vazios e contradições, presentes no campo teórico, profissional, acadêmico e de formação. Ao ignorar o enfoque da subjetividade, considerando a ciência positiva como a verdade da psique, ela tornou-se prisioneira do mito ou ideologia do cientificismo. Deve-se então recuperar o sentido da psicologia como estudo da alma ou da subjetividade, havendo necessidade de um discurso simbólico e subjetivo complementando o racional e objetivo. O termo ‘alma’ pode ser visto como uma metáfora da psique e os diversos discursos ou disciplinas psicológicas seriam explorações desta metáfora permitindo ampliar sua expressão e compreensão.

Palavras-chave: alma, epistemologia-psicologia, ideologia.


ABSTRACT

Psychology is usually defined as a science of the behavior, but it needs a revision of its foundations. There are difficulties in its own definition of behavior and it represents the prevalence of the neopositivist and materialist approaches. This led the disciplines or psychological schools that treated the subject to the extent of an introspective and subjective psychology (or the soul) to deviate, generating contradictions and emptiness that are present in the theoretical, professional, academic, scientific and formation fields. When ignoring the focus of the subjectivity and considering only the positive science as the psyche truth, psychology became prisoner of the myth or ideology of scientificism. It is necessary to recover the sense of psychology as a study of the soul or of the subjectivity, which needs a symbolic and subjective discourse complementing the objective and scientific discourse. The term ‘soul’ can be seen as a metaphor for the psyche and the several discourses or psychological disciplines would be explorations of this metaphor allowing to amplify its expression and comprehension.

Key words: soul, epistemology-psychology, ideology.


 

 

A Psicologia, cuja definição habitual é a de “ciência do comportamento”, necessita uma revisão de seus pressupostos básicos. O cunho comportamentalista dessa definição é evidente e representa o predomínio histórico das correntes neopositivistas e materialistas no campo psicológico, contrapondo-se à própria etimologia da palavra Psicologia, que significa estudo da alma. Esse é, talvez, um dos poucos casos em que uma ciência não é definida de acordo com a sua etimologia, afinal a Biologia estuda a vida, a Geologia a Terra, e assim por diante.

Esse predomínio torna-se claro desde a afirmação da psicologia científica enquanto um ramo da biologia e da fisiologia, apoiada nas perspectivas epistemológicas derivadas da física clássica, aceitando-se implicitamente o primado da matéria sobre o espírito.

Isto fica patente quando se faz um breve retrospecto da constituição da psicologia como ciência remontando às suas origens na filosofia. A Psicologia, que pode ser dita como a segunda ciência a despontar no seio da Filosofia, pois se o primeiro conceito a ser analisado foi o de physis (natureza) com os pré-socráticos ou physikoi - dando origem à Física - o segundo conceito a se evidenciar no panorama da filosofia grega foi o de psyche com Platão1. Para Aristóteles, psyche ou alma é a forma de um corpo natural tendo a vida em potência; a alma é a realidade do corpo vivo. Com isso, afirma a alma como a enteléquia (plenitude) do corpo. O ser é o quid (essência) de cada coisa existente, que torna essa coisa individual, pois o ser se diz em vários sentidos. Assim, o comportamento seria a expressão do movimento anímico, isto é, da alma em ato.

No início do século XX, Maher define o objeto da Psicologia como a alma ou a mente: "the subject-matter of our science is (...) the soul or mind" (Maher,1900, p.15). A Psicologia é vista como um ramo da Filosofia que estuda especificamente a alma. Ela é definida como um "princípio de pensamento" e como animação do corpo. Ressalte-se que na filosofia moderna a alma também é entendida como sujeito: "the word mind designates the animating priciple as the subject of consciousness, while soul refers to it as the root of all forms of vital activity." (Maher, 1900, p.1-2). Titchener, por sua vez, considera que o objeto da Psicologia é a experiência humana: "the subject-matter of psychology is human experience considered as dependent upon the individual." (Titchener,1924, p.28). Já W. James privilegia a consciência: "es la Psicología, empleando la inmejorable definición de Ladd, 'la descripción y explicación de los estados de conciencia como tales" (James, 1916, p.1), considerando-a dentro do campo de uma ciência natural.

Após a Primeira Guerra Mundial, na busca de uma Psicologia científica e de técnicas eficazes e instrumentais2, as noções metafísicas como de alma são abandonadas, devido a sua falta de precisão e de objetividade. Elas são substituídas progressivamente pela de comportamento, como a única que faria referência a um domínio exclusivo da ciência psicológica (McDougall, 1941). McDougall coloca que não é possível definir a Psicologia como ciência da alma, pois "a noção de alma é uma hipótese especulativa, demasiadamente vaga e incerta para se tornar uma noção essencial na definição dum campo vasto das ciências naturais" (McDougall, p. 13). Daí resulta que ela seja definida como a "ciência positiva do comportamento dos seres vivos" (McDougall, p. 15). Contrário também à noção de espírito, ele afirma que "ninguém pode apontar para um espírito e dizer: é isto que quero indicar com a palavra espírito" (McDougall, p. 25). Deste modo, a visão de Psicologia como ciência natural, procurando um objeto apenas observável, sensível e com referência empírica, leva ao reducionismo e à noção de que algum dia a "Psicologia será absorvida pela Fisiologia, e a Fisiologia pela Física” (McDougall, p. 29). Neste modelo explicitado claramente pelo empirismo lógico, todas as ciências, incluindo a Física, devem ser referenciadas a um objeto sensível, caso contrário estariam realizando metafísica e não ciência. Será que, conforme o raciocínio de McDougall - poderíamos apontar e dizer: isto é um comportamento?

Contudo, se levarmos em conta a opinião insuspeita dos behavioristas radicais, também a noção de comportamento não seria assim tão evidente, Segundo Keller e Schoenfeld, a Psicologia pode ser definida como a "(...) ciência do comportamento dos organismos. Entretanto, esta definição simples é ao mesmo tempo incompleta e equívoca (...)[pois](...) comportamento e meio são termos desajeitados, amplos demais no seu significado para que possam ser úteis" (Keller & Schoenfeld, 1968, p. 46). Dessa forma, é necessário buscar novas "unidades" que substituam os pouco precisos termos “comportamento” e “meio”, pelos conceitos de “estímulo” e “resposta”,. deste modo, segundo Keller e cols., considerados como as unidades básicas de descrição objetiva e as bases para uma ciência do comportamento. É também o que pensa Skinner ao afirmar que:

o comportamento é uma matéria difícil, não porque seja inacessível, mas porque é extremamente complexo. Desde que é um processo, e não uma coisa, não pode ser facilmente imobilizada para observação. É mutável, fluido e evanescente, e, por esta razão, faz grandes exigências técnicas de engenhosidade e energia do cientista(Skinner, 1981, p. 27).

Assim, na visão dos comportamentalistas radicais, os conceitos de meio e comportamento são obscuros e devem ser substituídos pelos correspondentes conceitos de estímulo e resposta. Para esses teóricos, com o avanço científico, a Psicologia deveria ser englobada pela Fisiologia, a qual, a seu tempo, seria também reduzida à Física

Tentando evitar estes problemas, Katz define a Psicologia "como la parte de la Antropología que se ocupa da conduta humana", referindo-se, é bom notar, à Antropologia Filosófica (Katz, 1954, p. 19); e a American Psychological Association (APA), talvez a mais influente associação científica e profissional do campo psicológico, define a Psicologia considerando três aspectos distintos: como disciplina acadêmica, como ciência e como profissão. Como ciência "it is a focus of research through which investigators collect, quantify, analyze, and interpret data describing animal and human behavior, thus shedding light on the causes and dynamics of behavior patterns." (Schlesinger & Groves, 1976, p. 4). Isto mostra o predomínio da visão comportamental e objetiva, com referência ao comportamento e ao observável. .

O fato de a Psicologia atualmente ser considerada uma ciência comportamental e objetiva levou as disciplinas ou escolas psicológicas que tratavam a questão dentro do âmbito de uma psicologia introspectiva e subjetiva ou da alma a se afastarem da Psicologia, gerando vazios e contradições, presentes nos campos teórico, profissional, acadêmico e de formação3.

No plano epistemológico ou teórico, esta clivagem aparece também na própria constituição da psicologia enquanto um campo próprio do saber humanista ou da ciência. Existe um projeto contraditório para a psicologia (Ganguilhem, 1958/1999), entre uma ciência natural segundo os moldes tradicionais e um saber sobre a subjetividade mais afim com a filosofia, sendo desta forma radicalmente diferentes. Entretanto, esta contradição está presente no próprio projeto de constituição da Psicologia como ciência separada da filosofia e de outras ciências, como a sociologia e a medicina (Figueiredo, 1991). Disto surge a questão: “De onde vem esta necessidade da psicologia tornar-se científica, se ela sempre oscilou entre estes dois campos? (Japiassu, 1982, p. 141)

Esta contradição entre a necessidade de uma epistemologia positiva que dissolve o sujeito na universalidade e na impessoalidade e um estudo da subjetividade que remete ao único e ao particular pode ser refletida ainda na seguinte ambigüidade: “ao pretender tornar-se ciência, ela praticamente deixa de ser uma disciplina humana, e ao fazer-se humana, ela deixa de ser científica”. (Japiassu, 1982, p. 141). Em suma, ela tende a responder a exigências da sociedade em geral e da ciência positivista que são externas a seu próprio campo e não oriundas do mesmo. Esta contradição aparece de forma clara nos problemas do ensino da prática clínica e na dificuldade de uma definição abrangente, que contemple os muitos aspectos - acadêmicos, profissionais e científicos - da Psicologia, demonstrada pela tripartição da definição de Psicologia pela APA. O lado “político” como técnica de engenharia social termina por se destacar, pois a Psicologia acaba por receber

seu estatuto, seus objetivos, sua razão de ser, não mais dos interesses internos ao domínio psicológico, mas das necessidades que tem a sociedade de fazer apelo aos métodos e técnicas psicológicas para resolver, pelo menos em parte, alguns de seus conflitos e contradições(Japiassu, 1982, 156).

Isto também repercute no processo de formação acadêmica ou profissional do psicólogo, onde se percebe um vácuo e um descompasso entre o ensino universitário e a prática clínica, pois se considera que quase toda a verdadeira formação é realizada fora do âmbito acadêmico. Esta confusão no campo psicológico chegou a tal ponto que a abordagem introspectiva mais presente, a Psicanálise em algumas de suas vertentes, advoga um estatuto de ciência separada e diferente da Psicologia. Ela considera que seu objeto de estudo seria o inconsciente e, como tal, não objetivo e não observável diretamente; enquanto a Psicologia abarcaria o ego, o eu e suas formações imaginárias, visando a sua adaptação e adequação à realidade e à vida social. (Pacheco Filho, 1997). De acordo com o nosso entendimento, isto dificilmente é sustentável, e em ambas as hipóteses ficamos sem saber o que é a Psicanálise e a que faz referência. A asserção de que o seu objeto de estudo é o inconsciente, para justificar a sua independência em relação à Psicologia, não é suficiente para fundamentar tal posição. Ela ignora a heterogeneidade da Psicologia e da Psicanálise e que o próprio Freud coloca sua teoria dentro de um projeto da constituição de uma Psicologia verdadeiramente científica.

O próprio ensino da Psicanálise é dito freqüentemente como inviável no ambiente acadêmico. Considera-se que o saber psicanalítico é adquirido na prática, como um conhecimento extrateórico. Isto pode ser verdadeiro num sentido existencial, mas é um evidente contra-senso na perspectiva teórica. Seria como se afirmar que uma teoria não pode ser estudada enquanto teoria, que ela é algo mais que ela mesma. Ora, toda filosofia e toda psicologia partem de uma intuição fundamental que pode ser transformada em conhecimento discursivo, sendo filtrado pelo discurso, pela lógica, e submetido ao confronto intersubjetivo entre os pares. Nesse processo, o fundamento intuitivo pode mesmo se modificar ou se perder; mas existe uma grande distância entre isso e a afirmação de que a teoria psicanalítica seja algo que só se aprende no consultório. Na verdade, tais asserções são muito ao gosto daqueles que, pretendendo ser donos de parcelas do conhecimento psicoterapêutico, o retêm ou ainda exercem através dele um certo domínio, visando tirar algum proveito disto.

Algo similar a esta divisão da Psicologia acontece dentro do próprio âmbito da Psicanálise, onde, devido a desacordos diversos, as contribuições autônomas que fugiam à ortodoxia sempre foram encaradas como dissensões e não como contribuições. Todos os teóricos originais e minimamente independentes - que conviveram com Freud ou se filiaram ao movimento psicanalítico - acabaram por se dissociar dessa terminologia, criando as suas próprias. Foi o que aconteceu com Adler, Reich, Jung, Rank, Perls, Lacan e outros tantos. Expurgados do movimento psicanalítico, fundaram suas próprias escolas, cada uma com sua denominação singular, mas todas elas são psicologias referenciadas à subjetividade e à alma, sendo apoiadas na introspecção e na prática clínica.

A origem desse estado de dissociação do campo e de incapacidade de diálogo entre as correntes pode até ser rastreado até às atitudes propriamente “narcisistas” do fundador da Psicanálise, que supunha reter o essencial do conhecimento psicanalítico e não admitia modificações ou alternativas ao seu modo de pensar, criando assim um pensamento condenado à fossilização e sem perspectiva de desenvolvimento. Entretanto, isto envolve mais que uma característica de personalidade do teórico, implicando questões epistemológicas de definição de objeto, de conhecimento e critérios de verdade.

Neste sentido, qualquer discurso teórico que se pretenda científico deve, no mínimo, possuir coerência lógica interna, possibilitar uma certa compreensão da realidade e avanço nesta compreensão. Para isto ele deve submeter-se uma determinada apreciação crítica por seus pares e a um determinado teste de realidade. Sem estas condições, esta teoria torna-se a própria verdade. Ela não é mais um discurso científico, mas um discurso fundador e organizador de uma realidade (o campo específico em questão?). Isto que foi colocado para a Psicanálise é, em certo sentido, muito comum em muitas outras abordagens clínicas dentro da Psicologia. A teoria torna-se um discurso fechado em si mesmo, sem possibilidade de apreciação crítica, totalizante e não passível de confrontação com a realidade, isto é, com características discursivas de um mito - salientando-se que o mito é uma narrativa que confere um sentido e organiza uma realidade anteriormente caótica.

Cabe então indagar: qual seria este “domínio psicológico”? Qual seria a seu modo mais adequado de abordagem e de descrição? Qual a relação entre comportamento e alma?

Pode-se colocar, de forma simplista e esquemática, mas reveladora, que originalmente a psicologia se debateu basicamente entre os modos de prática científica ou acadêmica e a clínica. Estas dão origem a duas descrições conflitantes, que podem ser referenciadas ao behaviorismo e á psicanálise, cujas características fundamentais são a objetividade da experiência controlada e a subjetividade da experiência clínica. Isto origina duas linguagens, dois modos de descrição, representados principalmente pelo behaviorismo e pela psicanálise. Estes se localizam nos extremos e refletem algumas das próprias contradições da existência humana, tais como a tensão entre a universalidade e a individualidade, entre o espírito e a matéria, entre a liberdade e o determinismo, além de outras.

Saliente-se que desde o Iluminismo há o domínio da razão e da técnica, estabelecido através da ciência e sua linguagem e da objetividade, considerando-se o discurso científico como o único discurso verdadeiro. Neste sentido toda fala da psique que procure ser científica e objetiva tende a esquecer, ignorar ou desprezar a existência do outro pólo, isto é, da fala da subjetividade, da “alma” e do mundo mítico ou simbólico. Entretanto, ao se negar um espaço para a subjetividade, esta não é eliminada, apenas suprimida do discurso científico. Deste modo ela termina por atravessar o discurso, contaminando-o e interferindo em sua própria racionalidade, pois a razão objetiva e universal é exercida por uma subjetividade particular e sujeita a múltiplas interferências do mundo externo e de si própria. Isto é bem demonstrado pela Psicanálise e suas derivações através do recalque. Deste modo há necessidade de, no mínimo, um duplo discurso racional e simbólico sobre a psique, já observado em Platão e Freud.

Quando Platão tentou abarcar a alma (psyche), recorreu tanto ao mito como ao pensamento racional meticuloso. Precisou de dois caminhos. Plotino recorre (Enneads, IV.3.14) ao mito quando discute a alma. Freud também utilizou dois caminhos. Sua linguagem racional é intercalada de imagens míticas: Édipo e Narciso, horda primitiva e cena primária, o censor, a criança polimorfa perversa e aquela grandiosa visão de Tanatos, digna dos pré-socráticos. A linguagem de Freud se inspira nos discursos míticos; seria errado considerar seus mitos como descobertas empíricas demonstráveis por meio de estudos de caso. São visões, como as de Platão; a única coisa que falta é Diotima”(Hillman,1994, p. 143).

O mito aqui é considerado como uma estrutura fundamental da consciência humana e não no sentido comum, no qual é visto como alegoria, utopia, fantasia, distorção da realidade e mentira. Ele é anterior a qualquer outra forma de conhecimento, pois “o mito está ligado ao primeiro conhecimento que o homem adquire de si mesmo e de seu ambiente; mais ainda, ele é a estrutura mesma deste conhecimento” (Gusdorf citado por Crippa, 1975, p. 47). O mito não se estuda, se vive. Daí a grande dificuldade de reconhecê-lo. Tal como no dito oriental, “o último a saber da água é o peixe”, o sujeito do conhecimento está imerso no mito e não consegue se distanciar ou separar-se dele para ter a necessária objetividade para estudá-lo. A abordagem teórica pressupõe um distanciamento que o mito não permite. Neste sentido, estudam-se os mitos que os “outros” vivem, mas não o mito no qual estamos imersos. O mito é vivencial e subjetivo no processo de apreensão. Suas referências encontram-se no campo afetivo e da vivência do sujeito - é um conhecimento colado à existência e ao significado que o sujeito confere a sua existência. O conhecimento científico já pressupõe um sentido ao mundo, sendo um acesso a esse mundo mediado pela razão e pela experiência compartilhada através de regras ou de um método que gera a objetividade. O mito está ligado ao imaginário e ás fantasias; estrutura a consciência no mundo e apresenta-se através de metáforas e símbolos.

Entre o mito e a ciência parece haver uma oposição radical. O espírito humano se desenvolveu graças a uma libertação do sonho dogmático do mito. Reduziu-o a um canto e afirmou uma nova autoridade que “fundamenta-se na universalidade abstrata do formulário matemático e da experimentação objetiva” (Gusdorf, 1980, p. 274). Desta mesma maneira, a psicologia refez este caminho separando-se da religião e da filosofia e constituindo-se em um campo de saber autônomo.

Ao se negar o mito, entretanto, rejeita-se ou ignora-se uma estrutura fundamental do existir no mundo e o fato de o homem ser simbólico e produtor de mitos. Ao não ser ele reconhecido, mostra-se a dominância na consciência de um mito, que tende a se posicionar como verdade absoluta e única. Este mito contamina a racionalidade, transformando ou criando mitos que não são reconhecidos como tais em suas limitações e seu alcance. Quando se está no mito, não se reconhece o mito. Ao negar o mito e considerá-lo como fábula, mentira ou algo ultrapassado, o pensamento moderno é que adquire características do pensamento mítico, sendo capturado por ele e tornando-se-lhe semelhante.

Desta maneira, o processo de desenvolvimento da razão, da técnica e da ciência com suas conquistas práticas e explicações lógicas levou a colocar nelas uma profissão de fé, de modo que a ciência ou o conhecimento científico adquiriu as características do mito.

A Ciência transformou-se assim em um verdadeiro tipo, numa verdade modelo, - sobretudo para aqueles que não conhecem nada sobre as modalidades difíceis do pensamento científico. Desta forma, constitui-se um mito do determinismo universal e da inteligibilidade universal a afirmação da validade do determinismo para todos os domínios da realidade repousa sobre um ato de fé puro e simples.
Da mesma maneira, podem ser analisadas certas afirmações essenciais da Ciência e mostrar que todas as concepções de conjunto fundadas sobre bases pretensamente científicas, designam na realidade, idéias pré concebidas. Opõe dogmatismo a dogmatismo, e combatem mitos com outros mitos. Todos estes mitos confluem, de resto, num mito mais geral, que é o próprio mito da ciência, o cientificismo(Gusdorf, 1980, p. 276).

Neste sentido, a Psicologia, considerando como válido apenas o saber construído dentro do modelo da ciência positiva, objetiva e empírica e ignorando a subjetividade, torna-se também ela própria prisioneira do mito do cientificismo e da ideologia cientificista. Ela sujeita-se a uma função ideológica, apesar de supor estar libertando-se do domínio do mito e da ideologia e aproximando-se da verdade. Isto pode ser observado claramente quando a complexidade do comportamento humano é negligenciada ao ser ele considerado apenas através de um modelo teórico linear e simples, oriundo de uma visão mecanicista da realidade, quando a própria Física, com a teoria dos sistemas complexos, considera que a linearidade é um caso específico da complexidade (Serbena, 2000).

Conseqüentemente, existe a necessidade de abordar os mitos e sua produção dentro do próprio campo do saber psicológico. Uma maneira de fazê-lo é considerá-los como metáforas do contato e do relacionamento do homem consigo mesmo, com seus semelhantes e com o mundo ao seu redor. Ao se considerar apenas a psicologia científica e positivista como a totalidade do psiquismo, que revela a única verdade sobre ele, sucumbe-se ao mito do cientificismo, apenas substituindo os mitos antigos por um novo mito com características ideológicas. Assim, a psicologia não fala mais como uma metáfora, tal qual o mito, mas como um discurso verdadeiro sob o respaldo do discurso científico.

Por isto, considera-se que em psicologia e outras ciências humanas, coletar dados objetivamente, segundo os padrões positivos, tomando-os como verdadeiros em si mesmos, demonstra mais a “fantasia dos dados objetivos” do que a realidade humana em si (Hillman, 1997), isto é, mostra a fantasia de um realismo ingênuo, de uma realidade simplificada e independente do sujeito. Demonstra uma contradição entre a realidade e o pensamento, indicando a presença de elementos de fantasia que direcionam, possibilitam e influenciam o pensamento. Estas fantasias podem estar organizadas em um sistema que dá significado ao mundo percebido e á própria realidade. Tornam-se uma tentativa de acessar o real em si mesmo e um elemento fundante desta mesma realidade.

Conseqüentemente, é fundamental repensar o objeto da psicologia e sua linguagem, considerando a sua origem como uma ciência também da alma. Neste sentido as diversas abordagens teóricas são diferentes discursos sobre a alma. O termo “alma” pode ser considerado como uma metáfora da psique, pois os diversos discursos psicológicos seriam explorações desta metáfora, permitindo ampliar sua expressão e compreensão. A necessidade da verdade modifica-se para a necessidade de compreensão da experiência humana; continuam a conviver as diferentes linguagens da psique, pois a alma (ou psique) se manifesta de diversas maneiras. Os critérios de validade do conhecimento se modificam, permitindo-se a construção de campos de sentido ou compreensão do sujeito (Reys, 1997) e possibilitando-se o discurso de diversas qualidades da experiência humana. Este modelo aproxima-se de um novo paradigma científico que emerge em certas reflexões contemporâneas (Souza Santos, 1997).

O paradigma emergente apresenta uma série de características oriundas do desenvolvimento tecnológico e da reflexão proveniente das Ciências Humanas. Ele considera que todo conhecimento científico-natural é necessariamente científico-social, que pode se organizarao redor de temas, avançando à medida que o objeto se amplia e se diferencia e criando contatos com outros saberes. Deve possuir tolerância discursiva e pluralidade metodológica, com sua universalidade emergindo através da tradução ou migração dos conceitos desenvolvidos neste campo do saber ou objeto para outras abordagens teóricas e outros temas (Souza Santos, 1997)

Assim, todo conhecimento implica em autoconhecimento, pois a produção do conhecimento não prescinde do sujeito empírico, de sua articulação com a realidade e da metáfora utilizada para representá-la. Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças e os juízos de valor são parte integrante da explicação científica da sociedade e da natureza. Ao se conhecerem estas explicações científicas, toma-se conhecimento da metafísica, dos mitos e dos valores daquele que produziu o conhecimento.

Enfocando-se as diversas abordagens psicológicas como diferentes metáforas do encontro do homem com sua subjetividade ou das diferentes maneiras de a alma se manifestar, por conseqüência deve-se considerar que existem várias formas válidas de conhecimento, que a racionalidade e o alcance do conhecimento são ampliados no diálogo com outras formas de saber. Desta maneira, a nova ciência se afirma como um ato criativo que envolve o cientista. A transformação do real e a sua manipulação estão subordinadas à contemplação do resultado e sua compreensão. Isto aproxima a obra científica da obra de arte, permitindo falar de uma dimensão “estética” da ciência.

As próprias necessidades humanas em relação ao conhecimento modificaram-se, principalmente devido às grandes crises sociais, ambientais e tecnológicas na contemporaneidade, pois “não se trata tanto de sobreviver como de saber viver” (Souza Santos, 1997, p. 53).

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
R. Sete de Abril, 434, Alto da XV
CEP 80050-220, Curitiba PR
Email: caserbena@yahoo.com

Recebido em 21/10/2002
Revisado em 11/03/2003
Aceito em 30/05/2003

 

 

1 Aristóteles é habitualmente considerado quem iniciou a reflexão psicológica, por ter escrito o primeiro tratado sobre o tema, o Sobre a Alma. Mas apesar disso, foi o próprio Aristóteles que retomou o conceito de physis em detrimento do de psyche como o ponto central de sua filosofia. Assim, no nosso entender, Platão deve ser legitimamente tomado como o criador da indagação psicológica e Aristóteles o seu primeiro sistematizador.
2 Com a industrialização, notadamente com as teorias de administração (fordismo) e das grandes fábricas, surge a necessidade de controlar, regular e prever o comportamento humano com o objetivo de maximizar o rendimento do trabalhador, fazendo-se uso ou desenvolvendo-se técnicas derivadas do conhecimento psicológico (Japiassu, 1982). Isto fica claro na história da mensuração da inteligência, que teve grande desenvolvimento na Primeira Guerra Mundial, sendo o teste de QI utilizado em larga escala nos recrutas americanos para decidir qual a área de atuação no exército onde suas capacidades seriam mais bem aproveitadas.
3 Nestas contradições e vazios proliferam também as chamadas “práticas alternativas”, muitas vezes referenciadas ao saber psicológico e com grande apelo aos profissionais do meio. Elas “dizem respeito às relações dos homens uns com os outros, com todos elementos e forças da natureza e consigo mesmo (...) Parece sempre haver, de forma manifesta ou latente, um projeto de restauração de uma certa harmonia. (Figueiredo 1996, p. 66). De certa forma, também fazem referência ao domínio psicológico, à subjetividade ou a alma, mas segundo um discurso que pode servir a diversos interesses.

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