SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 special issueRefletindo sobre a nova e velha famíliaFamily arrangements for children in a low-income group author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.8 no.esp Maringá  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000300002 

ARTIGOS

 

Casamento e família no século XXI: possibilidade de holding?1

 

Marriage and family in the 21thcentury: possibility of holding?

 

 

Isabel Cristina GomesI; Maria Lucia de Souza Campos PaivaII

IProfessora Doutora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP)
IIMestranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do IPUSP.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esse artigo tem como objetivo entender as relações no interior da família e a instituição casamento na perspectiva da mudança de século. Enfocaremos a percepção das transformações que foram ocorrendo na sociedade pós-moderna, tanto de caráter econômico quanto social e psicológico, buscando no referencial winnicottiano subsídios teóricos para o aprofundamento de reflexões acerca desse tema. Abordaremos o papel do terapeuta dentro desse contexto e demonstraremos que o casamento, tanto quanto a terapia, pode ter um potencial terapêutico, desde que esteja ligado a uma noção de mutatividade e flexibilidade para o novo e diferente, constituindo-se em espaço de desenvolvimento interpessoal e de criatividade.

Palavras-chave: casamento, holding , desenvolvimento interpessoal.


ABSTRACT

This article aimed to understand the relationships inside the families and marriage as an institution in the perspective of the turning of the century. We intended to focus the perceptions of transformations that has occurred in the post-modern society in economic, social and psychological terms, searching in the Winnicott’s reference theoretical subsidies to better reflect on this subject. We approach the role of therapists in the context and show that marriage as well as therapy, might have a therapeutic potential if it is connected to a notion of mutation, flexibility for the new and different, space of interpersonal development and creativity.

Key words: marriage, holding, interpersonal development.


 

 

O casamento não precisa ser o lugar onde eu possa ser inteiramente eu mesmo, mas pode ser o lugar onde eu descubro algumas das possibilidades de eu me tornar eu mesmo. (Colman, 1994) (tradução das autoras).

Esse artigo tem como objetivo entender as relações no interior da família e a instituição casamento frente à perspectiva da mudança de século, que envolve a percepção das transformações ocorrentes na sociedade pós-moderna, sejam elas de caráter econômico, social ou psicológico. Vamos buscar, principalmente no referencial Winnicottiano, subsídios teóricos para aprofundarmos nossas reflexões acerca do tema.

Ao longo da obra de Winnicott percebemos a importância que ele dedica à família, colocando-a como o centro formador da sociedade e da cultura, bem como do desenvolvimento individual, e mais especificamente, do conceito de maturidade emocional como sinônimo de saúde mental. O autor chega a ser bastante enfático quando literalmente afirma que" (...) não seria possível ao indivíduo atingir a maturidade emocional fora do contexto famíliar(...)" (Winnicott, 1997, p. 129).

Um conceito central na teoria winnicottiana é o de holding ou cuidado materno. Nele o autor enfatiza a importância da mãe (e da família) como modelos de transição para a entrada do indivíduo num círculo social imediato e ir caminhando para círculos cada vez mais amplos, como a política, a religião e a própria sociedade.

Em "Preocupação Materna Primária" , Winnicott (1956/2000) define um estado muito especial da mãe devotada perante as necessidades do bebê, e estabelece as bases de um ambiente externo suficientemente acolhedor para o mesmo se desenvolver. Em contrapartida, a falha da mãe em adaptar-se a essa fase primitiva da criança leva à aniquilação do eu do bebê. Num trabalho posterior, Winnicott (1969/1994) reforça a importância do meio ambiente para o bebê, de dependência quase absoluta.

Holding ou sustentação passa a ser uma ampliação da idéia da mãe suficientemente boa ou do cuidado materno básico, associado também ao ambiente acolhedor que o analista deve criar, principalmente no atendimento aos pacientes em estado regressivo ou psicóticos (Winnicott, 1991, 1994).

A proposta deste artigo é refletir, juntamente com outros autores simpatizantes da abordagem winnicottiana, sobre a possibilidade de o casamento hoje ser um espaço de holding.

Segundo esse autor, o casamento é sempre visto dentro do contexto familiar, onde a necessidade primordial do casal se centraria em "ter filhos" , desconsiderando de certa forma as questões da própria conjugalidade. "Os casais sem filhos tentam de todos os modos constituir uma família" (...) "Os pais precisam das crianças para desenvolver seu relacionamento" (...) (Winnicott, 1997, p.64)

Dentro dessa ótica, o casamento passa a ser um espaço para o desenvolvimento das potencialidades dos filhos. Mas, e quanto ao casal?

Winnicott (1997), nesse mesmo texto, aprofunda a idéia de que o casamento e a família (é interessante salientar que os dois termos são sempre mencionados por ele de forma conjunta) podem se constituir ou não num espaço de maturidade parental. A noção de continuidade no desenvolvimento do ser adulto está presente no seu pensamento, e então o casamento e a família podem ser um espaço de contínuo crescimento para todos os envolvidos. Quando isso não ocorre, o casamento fica sujeito a distúrbios que podem gerar a desintegração da família, e novamente Winnicott expressa sua preocupação maior com os prejuízos que essa situação acarretará para a criança. Ainda segundo ele, um dos sinais da maturidade parental se expressaria na capacidade de sacrifício e luta dos pais pela manutenção do casamento.

Os pais tem maturidade suficiente para serem capazes de se sacrificar, como seus pais antes deles, em favor do estabelecimento e da manutenção da unidade familiar, de modo que as crianças não apenas nasçam no seio de uma família, mas também nesse meio possam crescer e adolescer e, por fim, em relação à família, possam conquistar uma vida autônoma, vindo talvez a constituir outro núcleo do mesmo gênero. Mas isso nem sempre é possível (...) (Winnicott, 1997, p. 66)

Acompanhando esse olhar de Winnicott sobre o tema, poderíamos comentar que essa noção de maturidade estaria associada até certo ponto a uma posição de manutenção e preservação da instituição casamento, a uma noção de um todo integrado (pais e filhos), onde se perdem os mecanismos individuais. Aqui gostaríamos de enfatizar a questão do papel do homem e da mulher para além de ser pai e mãe, e também associado a uma determinada realidade sociocultural, que talvez não se encaixe na sociedade pós-moderna.

Essa realidade pós-moderna investe-se de um mundo altamente tecnológico e globalizado, onde as diferenças culturais diminuíram grandemente, pelo poder das várias formas de comunicação, e onde o homem vive cada vez mais alienado ou distanciado do seu mundo interno, da introspeção, daquilo que demanda tempo para elaborar. Vivemos numa sociedade onde tudo se processa num ritmo rápido e alucinante, com ênfase no visual e sonoro, e onde o hábitat silencioso é um fato do passado. A cultura do descartável, impulsionada pela máxima do consumismo, passa a ser um modelo que também influenciará os relacionamentos.

De acordo com Hirchzon e Copit (1997), referindo-se à utopia humana de " Amar e Trabalhar" , criada por Freud para abarcar o século passado, hoje assistimos ao que restou dela:

(...) liberou-se o amar , em sua versão sexual, até a procura do êxtase pela droga e, o trabalho avançou até o limite da máxima produtividade e eficiência prometidas pela robótica; porém nunca estivemos tão longe do conjuntivo e contido naquela célebre enunciação (...) (p. 99)

Dentro desse contexto do pós-moderno, observamos o aumento gradativo das doenças psicossomáticas, da medicação excessiva, da busca rápida pelo alívio do sofrimento psíquico com a multiplicação da literatura de auto-ajuda, do empobrecimento econômico das famílias - principalmente nos países de Terceiro Mundo, do qual fazemos parte -, da vida caótica nas grandes cidades (poluição, inundações, péssimas condições de moradia, proliferação de doenças infecciosas, trânsito, corrupção.... Enfim, vários são os fatores que ao longo do tempo foram contribuindo para uma profunda quebra de valores e de referenciais, deixando o homem muito desamparado. Como dimensionaríamos as funções da família dentro desse quadro de novo século?

Ao longo da história, a família ocupou diferentes funções na sociedade. Desde os primórdios, tendo como função básica a manutenção da riqueza e da propriedade, passando pela interferência dos dogmas religiosos, como a indissolubilidade do casamento, no cristianismo, até a inclusão da perspectiva amorosa com a escolha dos parceiros, a família vem sendo um refúgio para um mundo sem coração nas sociedades capitalistas, de acordo com Lasch (1991) .

Os movimentos sociais da década de 60, como o feminismo, a liberação do divórcio, o surgimento da AIDS, também contribuíram substancialmente para importantes mudanças nas estruturas familiares. Gomes (1998, 2000), em seu trabalho de análise da dinâmica do casal ante o surgimento de sintomas nos filhos, aponta as dificuldades no estabelecimento dos papéis do homem e da mulher nos casamentos atuais. O homem se torna frágil perante uma sociedade competitiva e estressante, na qual vai se lhe tornando cada vez mais difícil desempenhar o papel de provedor da família, e não somente pela disputa da mulher no espaço externo ao lar. A mulher entra em sérios conflitos na escolha entre maternidade e/ou ascensão profissional, o que permite, hoje, o estabelecimento de casamentos sem filhos, por opção pessoal, contrariando um pouco o exposto acima do pensamento winnicottiano.

Para o entendimento dessa realidade pós-moderna, temos que criar uma "desconstrução" do conceito de casamento atrelado à constituição de uma família, já que o desenvolvimento da ciência permite a possibilidade da concepção " in vitro" , o que gera novos padrões de estrutura familiar. As famílias vão se constituindo de uma forma mais ampla, incluindo os novos parceiros (marido da mãe/ esposa do pai) e os filhos e irmãos agregados. O pai perde substancialmente a tradicional figura e função, já que um grande número de famílias é constituído apenas pela figura materna.

Retomando algo do exposto acima, uma das características deste novo século baseia-se na noção de rapidez e mudança tecnológica aplicada ao universo dos relacionamentos afetivos.

Calligaris (2001) discute bem essa questão, num artigo de jornal de grande circulação sobre a intercessão dessa paixão pelo novo, que tem como conseqüência o surgimento da cultura do descartável, e o casamento.

Há poucos traços tão relevantes na subjetividade moderna quanto a paixão pela mudança e, por conseqüência, a ojeriza da mesmice. O gosto pela novidade é crucial em nossas vidas. E isso funciona como incentivo essencial para o sistema de produção e consumo no qual vivemos (...) O cônjuge torna-se a encarnação dos motivos pelos quais desistimos do novo e da aventura. Ele é o responsável pelo nosso tédio, culpado de toda estagnação (...) O casal torna-se descartável como a esferográfica e o isqueiro. Não funciona mais? Jogue fora (...) (p. E11).

Como então poderíamos situar o casamento nesse paradigma da pós-modernidade?

Inicialmente ele deverá ter uma dimensão distanciada do modelo institucional do passado, ou seja, casamento hoje deve estar ligado a uma noção de mutatividade, transformação, flexibilidade em relação ao novo e diferente, constituindo um espaço de desenvolvimento interpessoal e criatividade.

A visão de casamento na atualidade encerra uma percepção paradoxal, ou seja, as pesquisas em todo o mundo mostram que os indivíduos continuam se casando, a despeito das separações, e recasando... Calligaris (2001) afirma que na última década os casamentos prevaleceram. Entretanto, ainda segundo ele, a chave da felicidade estaria no esforço dos parceiros em conviver com a mesmice de todos os dias, levada a sério e isso (novamente o paradoxo!) " nos reservaria uma novidade a cada esquina" (...) (p.E11).O autor termina sua exposição com um ponto de vista bastante esperançoso a respeito da vivência cotidiana no casamento:

Se os esforços para manter ou reinventar o casamento nos parecessem tão emocionantes quanto a procura e o risco da novidade, o casamento encontraria um fôlego extraordinário, pois conciliaria a paixão pelo novo com a nostalgia de um porto seguro (...) Para muitos, mesmo após décadas de convivência, o cônjuge e a própria relação seguem sendo continentes inexplorados (...) (p.E11).

Essa visão de Calligaris relativa à reinvenção do casamento a cada dia gera um contraponto à visão winnicottiana do casamento vinculado à manutenção da família; contudo, em ambos a maturidade no casal parece ser a condição essencial para que este possa promover desenvolvimento e crescimento para todos os envolvidos.

Outro aspecto a ser salientado diz respeito ao casamento poder ser um espaço de desenvolvimento das individualidades, retomando a citação inicial de Colman (1994). Esse autor, tendo como base os referenciais de Winnicott e Bion, entre outros, desenvolve a idéia de no casamento poder existir um processo de individuação entre os parceiros. Ele parte da noção de que o self não pode se desenvolver no isolamento e de que o eu é definido pela sua diferenciação com o tu, de modo que o tu dá a base para a identidade do indivíduo, desde que se possam diferenciar dois processos importantes presentes nas relações conjugais: a intimidade e a fusão.

No estabelecimento da intimidade de um casal, Colman (1994) propõe a existência de um "casamento interno" , definido como uma capacidade interna de permitir que os opostos possam conviver dentro do self. A intimidade seria a nossa capacidade de compartilhar o nosso mais profundo ser com o outro, resguardando o lugar do diferente em cada um, pois, para muitos casais, intimidade supõe os parceiros sentirem a mesma coisa. O casamento real, de acordo com o autor, tanto deve promover como requerer essa capacidade interna, e as dificuldades maritais poderão ser vistas como uma luta interna para existir esse "casamento interno" .

Na clínica contemporânea, seja ela individual ou dedicada ao atendimento de casais, observamos que muitas das queixas apresentadas pelos indivíduos estão associadas a problemas de relacionamento, envolvendo os filhos, a discrepância existente entre a idealização e a realidade da vida a dois, os tipos de escolhas amorosas, as separações e divórcios. Todas essas situações têm um denominador comum, que é a impossibilidade de perceber o outro como ele é, como alguém diferente, de maneira que se gere um relacionamento livre de tantas projeções e fantasias, promovendo uma vivência de respeito à coexistência dessas subjetividades.

Para tal tipo de relacionamento, observamos que as pessoas, hoje em dia, apresentam enorme pobreza de recursos internos. Os casamentos carecem de um espaço de individualidade e crescimento mútuo, aproximando-se mais de ligações misturadas e fusionais (inclusive envolvendo os filhos), o que demonstra o grau de imaturidade inerente ao mundo pós-moderno.

Em face desse cenário devastador, quando se pensa na plenitude da vivência humana e na necessidade do homem de se relacionar, quando a realidade externa é cada vez mais exigente e impiedosa, talvez uma alternativa para a melhoria dos sofrimentos psíquicos fosse que o casamento e a família pudessem promover um espaço de " holding" para o indivíduo se retroalimentar e conseguir encarar os desafios de cada novo dia.

Colman (1994) mostra que para o bom funcionamento de um casamento é preciso haver uma contenção análoga àquela que a mãe provê para o seu bebê; além disso deve existir a confiança em que o conflito que surja não irá destruir a relação e que exista um continente para as questões do casal. A ausência desse continente seria semelhante a não ter com quem brigar ou brigar e não ter resposta.

Ainda segundo o autor citado acima, o homem precisa de uma oposição para concretizar sua experiência e é necessária a presença de um outro diferente para que as questões do casal não se fundam numa massa disforme.

Cleavely (1994), confirmando o ponto de vista de Colman (1994), coloca que o conflito em um casal é algo saudável, mas seu potencial para o crescimento depende da capacidade deste casal de regular os conflitos relativos a seus mundos internos, o individual e o compartilhado; e que a tensão que nasce do conflito proporciona igual oportunidade para potenciais criativos e destrutivos.

Os casos descritos a seguir, ilustrarão o que foi discutido até aqui.

 

CASO 1

Patrícia procurou atendimento psicoterápico para sua filha de 13 anos. Disse que a menina apresentava muitos medos, quando tinha por volta de 6 anos de idade. Na época fez ludoterapia; entretanto, não foi possível concluir o processo terapêutico, por questões financeiras. Passados os anos, Patrícia achava que a filha estava pior, pois tinha medo de viver e de morrer. Ao relatar o problema da filha, contou que tinha um filho 3 anos mais novo que ela. Esse filho também estava sendo encaminhado para ludoterapia pela fonoaudióloga. Segundo esta profissional, ele estava apresentando uma fala infantilizada para sua faixa etária, o que justificaria tal encaminhamento.

Devido às queixas que apresentava, foram propostos à mãe alguns atendimentos familiares, para que os sintomas das crianças pudessem ser entendidos a partir de outro prisma e para que se pudesse conhecer esse casal e a relação que estabelecia com os filhos e entre si.

Nas duas primeiras sessões com a família, o pai ficou praticamente o tempo todo calado, como se estivesse ali apenas como um acompanhante. Quando lhe foi solicitado que contasse um pouco de sua vida, Carlos disse não ter muito a falar e que estava desempregado havia já alguns anos. Tinha tido uma pequena firma, que falira, e, segundo ele, não tinha sorte para fazer sociedades: fora enganado pelo sócio.

A colocação do pai levou a terapeuta a se questionar a respeito da parceria que ele tinha formado ao se casar com Patrícia: se teria dado ou não frutos, se seria mais uma parceria falida na vida dele. Carlos estava trabalhando como professor de informática e contou que dependia das escolas para dar cursos. Mostrou quanto ficava dependente e à mercê das escolas para poder trabalhar. Dizia nunca saber se iria ou não ter serviço na próxima semana.

Além da apatia que demonstrava frente ao próprio trabalho, havia toda uma indiferença em relação à vida, revelando quanto estava deprimido. Quando foi solicitado a pensar sobre os sintomas da filha, disse que não sabia o que pensar. A filha, por sua vez, questionando a colocação do pai, disse que ele não a ensinava a fazer as coisas, a sair de casa, estudar, etc. Carlos respondeu: " Eu não sei para mim, como eu vou te ensinar!" .

A depressão do pai parecia ser um estorvo para a vida de sua filha e de sua família de um modo geral. Patrícia, diante da apatia do marido, mostrou-se paralisada. Começou a mexer-se na cadeira e contou que nos últimos anos vinha tendo muitas dores nas juntas e tomando muitos remédios. Os sintomas das crianças haviam levado a mãe a buscar ajuda; entretanto, demonstravam estarem elas vivendo uma situação que dizia respeito ao casal. Assim sendo, foi solicitado que o casal viesse para terapia, a priori por um tempo, para que as questões conjugais pudessem ser trabalhadas.

Nas primeiras sessões com o casal um silêncio enorme " preenchia" a sala. O pai dizia não ter o que falar. Não via problemas entre eles, nem sabia no que deveria pensar. Algumas vezes, parecia começar a dormir. Excluía-se da conversa, deixando que as mulheres ali presentes conversassem. Patrícia conseguia ainda falar um pouco mais. Entretanto, muitas vezes sentia que não poderia falar realmente o que pensava. Via o marido naquela situação, sem trabalho, tendo que sustentar praticamente sozinha a casa.

Quando foi mencionado, durante a sessão, que Carlos mais parecia um espectador, alguém assistindo a um filme em que duas mulheres conversavam, ele disse que era assim mesmo que se sentia, mas não só ali, em sua vida também. Muitas vezes assistia às coisas que aconteciam dentro da sua casa como se acontecessem fora, como se tudo fosse uma grande tela de cinema. Parecia que os dois tinham ficado anos olhando para as crianças e não tinham desenvolvido um olhar para eles. O casal parecia sem horizontes, sem chance em relação à vida. Havia sempre no ar uma situação emergente, principalmente em relação à parte financeira, que os impedia de se desenvolver.

À medida que essas coisas puderam ser mencionadas, Patrícia começou a dizer que teria algo a expor, aparentemente um segredo, porém não conseguiria fazê-lo. Várias sessões se seguiram em cima desse suposto segredo e da possibilidade da terapia de ajudá-los. Aos poucos, esse segredo foi sendo desvendado, e nada mais era que a fragilidade existente entre os dois. Havia todo um sentimento em relação ao que estava sendo vivido pelo casal que não podia ser revelado, nomeado, nem mesmo pensado. Tudo levava a pensar que aquela parceria também havia falido.

À medida que a falta de intimidade entre o casal pôde ser falada e contida dentro do processo terapêutico, a mãe foi revelando quanto ela ficava ligada nas questões da filha e quanto ficava assustada com o desabrochar de sua sexualidade. Patrícia identificava seus aspectos infantis na filha e passava a cuidar da menina como de si própria, esquecendo o marido e as questões do casal. Devido à impossibilidade de viver e pensar sobre os conflitos, o casal vinha mantendo uma vida indiferente para as próprias questões. O conflito passou a não encontrar dentro desse casamento um ambiente para que pudesse emergir e levar os cônjuges ao crescimento. A apatia de um contaminava o outro, deixando-os completamente paralisados frente à vida. Na relação transferencial, mostravam-se também paralisados ante as próprias necessidades, negando-as muitas vezes. Esperavam, dentro dessa paralisia, que a terapeuta lhes trouxesse a vida.

Diante da falta de riqueza emocional, Patrícia e Carlos ficavam imóveis, não conseguindo crescer e se desenvolver. O segredo que tem sido desvendado a cada sessão é a impossibilidade de eles se apossarem do próprio casamento, delegando aos outros, inclusive à terapeuta, a sua sorte, e assumindo o lugar de impossibilitados e incapazes. O casamento é sentido como um cristal frágil, que não pode conter a tensão dos conflitos. O casal sente-se ameaçado pela possibilidade de que essa tensão leve à ruptura desse relacionamento tão frágil. Criam, como mecanismo de defesa, a falta de intimidade e de aproximação entre eles, tornando-se espectadores da própria vida.

A análise desse caso evidencia, inicialmente, a questão da demanda por atendimento deslocada para os filhos. Este é o caminho utilizado por muitos casais para entrar em contato com os conflitos conjugais, ou, demonstram a forte defesa para se afastar desse universo.

O casal parece preso a um modelo tradicional de casamento, com os papéis sociais de homem provedor e mulher submissa. À medida que o esposo perde sua condição de provedor da família e esse lugar é ocupado pela esposa, ocorre uma expressão de tensão e conflito conjugal, que, pela fragilidade dessa relação, não pode ser vivenciado, gerando o adoecer de toda a família.

A proposta terapêutica feita ao casal veio no sentido de se criar um espaço suficientemente acolhedor ou de "holding" , para que eles pudessem externalizar seus conflitos, com o segredo (da mulher) vindo à tona, e partilhar a experiência de dividir suas próprias individualidades e construir outro modelo de conjugalidade, mais flexível e condizente com as próprias condições econômicas que a sociedade atual vem impondo às famílias.

Ao longo da evolução do processo terapêutico, teve-se como principal conquista a eliminação dos sintomas nos filhos e o direcionamento do casal para a própria relação entre os cônjuges. Essa etapa foi a mais longa e difícil, tanto para o casal quanto para a terapeuta. O casal ainda necessita do espaço de continência da terapia para se conhecer intra e intersubjetivamente, sem ainda ter construído um "casamento interno" , nos moldes propostos por Colman (1994).

 

CASO 2

Márcia e Flávio vieram em busca de ajuda para o filho dela, Marcos, de 11 anos, que na época se encontrava muito agressivo, tanto em casa quanto na escola. Após as primeiras entrevistas, já foi possível observar que o tipo de dinâmica familiar também contribuía para o comportamento sintomático do menino. Este era o segundo casamento de ambos, sendo que os dois filhos de Márcia (o paciente e seu irmão caçula, de 9 anos) não conviviam com o pai. Flávio tinha 3 filhos da primeira união, os quais moravam com a mãe e viam o pai quando este ia visitá-los na casa da ex-mulher (esta não permitia que as crianças fossem à casa do pai). Embora Flávio assumisse o papel de provedor dos filhos de Márcia, a grande queixa era que Marcos não aceitava as ordens dadas pelo padrasto e era extremamente agressivo com ele e com a mãe. Márcia, por sua vez, ficava muito nervosa e dividida com a situação: ora dava razão ao filho, ora ao marido. Entretanto, enfatizava que Flávio era muito "grosso" e bravo no relacionamento com o enteado.

Após algumas sessões de atendimento com o casal, nas quais o assunto girava em torno dos problemas que esse filho dela causava na família (principalmente no relacionamento conjugal) e na escola, o casal pôde começar a criar um espaço para tocar em questões sérias e conflitantes que envolviam principalmente a vida a dois. Márcia sentia-se muito insegura com o fato de o marido estar sempre na casa da ex-mulher e não conseguia entender a necessidade dele de estar perto dos próprios filhos. Flávio ficava muito irritado com a passividade da esposa frente às atitudes desafiadoras de Marcos e inconformado com o fato de não ser respeitado pelo menino, em relação ao qual tinha obrigações como se fora pai.

Transcorridos 3 meses do processo terapêutico, Flávio consegue levar seus filhos para passarem um final de semana com a "nova família" e tem um projeto de ficarem um mês de férias na praia todos juntos, com o consentimento da esposa e da ex-mulher. Essa mudança só foi possível porque na terapia se criou um espaço para o entendimento e desenvolvimento das necessidades individuais. Aos poucos Márcia pôde entender o sentimento de culpa do marido (por estar longe dos filhos), que ele não era propositadamente "grosso" com o enteado (era simplesmente o jeito dele de se relacionar com as crianças, incluindo seus filhos), e teve um olhar de reconhecimento relativo às suas próprias atitudes e sentimentos.

Somente a partir desse espaço de aceitação e compartilhamento das diferenças de cada um, construído na terapia, foi possível obter mudanças na dinâmica familiar, no sentido de promover para todos um ambiente mais estável e acolhedor.

Esse caso traz à tona algo que também pode ser considerado novo, apesar de bastante freqüente na atualidade: as novas constituições familiares, advindas do surgimento do divórcio e quão despreparados estão para o desempenho de seus papéis os vários elementos dessa nova família O padrasto assume o lugar de pai na nova família, mas abdica da função paterna na família anterior. O enteado às vezes age e se sente como filho, numa revivescência edípica com o novo casamento da mãe. A esposa, que também é mãe, nega a existência de uma estrutura familiar passada e se ilude com a fantasia de que "somos uma única família" .

Aqui a terapia também foi um ambiente protegido, onde o casal teve que ir desconstruindo os modelos tradicionais de se relacionar em família, criando um modo novo de convivência, ampliando o espaço doméstico para incluir os filhos do marido e promovendo o respeito à individualidade de cada um, com flexibilidade e criatividade perante o novo.

Winniccot, embora não tenha escrito sobre essas novas constelações familiares, deixa clara a importância tanto da figura materna quanto da paterna, para o desenvolvimento do indivíduo.

No caso relatado acima, o processo terapêutico teve relevância fundamental, pois pôde promover a retomada do papel do pai (padrasto) tanto com os filhos naturais como com os enteados, gerando a possibilidade de um ambiente familiar mais saudável.

 

CONCLUSÃO

Pode-se afirmar que o casamento, na pós-modernidade, deve ser visto como um veículo para o desenvolvimento individual, desde que haja, por parte do homem e da mulher, uma "desfantasmatização" das relações objetais oriundas da infância, uma abertura para encarar o novo contido na rotina do dia-a-dia, crescimento tendente à maturidade e criação de um "espaço potencial" entre os cônjuges, onde as potências de cada um possam ser exercitadas, experimentadas e integradas na vida a dois.

Muitas vezes em nossa prática clínica limitamo-nos a cuidar de um casamento de tipo defensivo; entretanto, é essencial que se possa conhecer o que é um casamento em desenvolvimento, para que se possa ajudar os casais que anseiam conquistá-lo. Para Colman (1994), o papel do terapeuta seria o de conter as angústias enquanto um continente que as decodifica e ajuda a modificá-las. E que, tanto o casamento interno quanto a terapia poderiam ter um potencial terapêutico, já que, para o indivíduo e para o casal, é necessário haver uma estrutura estável e flexível, capaz tanto de responder à mudança como de iniciá-la.

 

REFERÊNCIAS

Calligaris, C. (2001, 7 de junho). A paixão pelo novo e o casamento. Folha de S. Paulo, São Paulo, Ilustrada, p.E 8-11.        [ Links ]

Relationships: interaction, defences, and transformation. Em S. Ruszczynski, Psychotherapy with couples: theory and practice at the Tavistock Institute of Marital Studies (2ª ed.) (pp.55-69), London, Karnac Books.         [ Links ]

Colman,W.(1994).The Individual and the couple. Em S. Ruszczynski, Psychotherapy with couples: theory and practice at the Tavistock Institute of Marital Studies (2ª ed.) (pp. 126- 141), London, Karnac Books.         [ Links ]

Gomes, I. C.(1998). O sintoma da criança e a dinâmica do casal. São Paulo: Escuta.        [ Links ]

Gomes, I. C. (2000). O trabalho, as diferenças de gênero e a dinâmica familiar. Mudanças: Psicoterapia e Estudos Psicossociais. 8 (13), p. 151-164.         [ Links ]

Hirchzon, C. & Copit, M.(1997). Transicionalidade: a psicanálise no final do século XX. Em J. Outeiral, e S. Abadi. Donald Winnicott na América Latina, (pp. 99-107) Rio de Janeiro: Revinter.        [ Links ]

Lasch, C.(1991). Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada? Rio de Janeiro: Paz e Terra.        [ Links ]

Winnicott, D.(2000). A preocupação materna primária. Em D. W. Winnicott, Da Pediatria à psicanálise (D. Bogomoletz, Trad.) (pp. 399-405). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1956).        [ Links ]

Winnicott, D.(1997). A Família e o desenvolvimento individual.(2ª ed.) (Cipolla M. B., Trad.)São Paulo: Martins Fontes.        [ Links ]

Winnicott, D. (1994). A experiência mãe-bebê de mutualidade. Em D. W. Winnicott, Explorações psicanalíticas (J. Abreu, Trad.) (pp.195-202). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1969).        [ Links ]

Winnicott, D. (1991). Holding e Interpretação. (1ª ed.) (Barros S. M. T.M. de, Trad.) São Paulo: Martins Fontes.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Rua Antonio Borba 169, apto. 42, CEP 05451-070, São Paulo - SP.
E-mail: isagomes@nw.com.br

Recebido em 21/11/2002
Revisado em 13/04/2003
Aceito em 30/06/2003

 

 

1 Esse trabalho foi apresentado no Encontro intitulado "A Psicanálise no Século XXI: Um momento de reflexão", promovido pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, em abril de 2002, em São Paulo.