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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.8 no.esp Maringá  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000300005 

ARTIGOS

 

A mulher como a principal provedora do sustento econômico familiar1

 

The woman as the principal responsible for the economic home support

 

 

Ana Cláudia FleckI; Adriana WagnerII

IDocente da ESPM de Porto Alegre, Mestre em Psicologia Clínica - PUCRS
IIDocente da Faculdade de Psicologia e do Programa de Pós Graduação da PUCRS, Doutora em Psicologia.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo objetivou conhecer a estrutura de famílias em que quando a mulher é a principal responsável pela manutenção econômica do lar. Realizou-se o estudo de caso (Stake, 2000) com três famílias configuradas pelo casal e, no mínimo, um filho. Foram utilizados o FAST (Family System Test) e o Desenho da Família para coletar os dados. Os resultados demonstraram que as mulheres representam a família a partir de um modelo clássico, enquanto os homens representam-se de uma forma idealizada na família. A garantia de subsistência se mostrou mais importante para o ajustamento familiar do que o fato da mulher ser o membro da família que garante tal sustento.

Palavras-chave: estrutura familiar, gênero, trabalho feminino.


ABSTRACT

This study aims at understanding at how the family represents its structure when woman is the principal responsible for the economic home support. A Case Study (Stake, 2000) with three families was performed with families consisting of a couple with a minimum of one child. As for data collection, the FAST (Family System Test) and Family Design was applied. The results showed that women represent their families following a classical model, while men carry their figure in an idealized form. Family economic condition is essential for the well-being. The maintenance of subsistence seems to be more important in these cases than the determination of who provides the support.

Key words: family structure, gender, woman work force.


 

 

INTRODUÇÃO

O modelo da família tradicional de classe média brasileira, que consagrava uma divisão clara de papéis, em que geralmente o homem se envolvia com o trabalho remunerado, enquanto a mulher dedicava-se aos afazeres da vida familiar, incluindo a administração da casa e os cuidados com os filhos, passa a não ser mais tão comum em nossa realidade como no século XIX e início do século XX.

Todas as transformações na economia mundial resultaram, nos últimos anos, na redução dos empregos e no aumento da concorrência no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, houve a necessidade de se criarem novos empreendimentos no âmbito profissional e a mulher pôde, também, lançar mão de sua criatividade e aventurar-se nessa área (Prehn, 1999).

Atualmente, um número cada vez mais expressivo de mulheres trabalha fora de casa e contribui com a renda da família. Além da maternidade, muitas mulheres preocupam-se com sua realização acadêmica e valorizam a construção de uma carreira profissional, vislumbrando nessa atividade uma condição necessária ao sucesso da sua vida. Além disso, o trabalho feminino passa a garantir, inúmeras vezes, a subsistência das famílias (Lipovetsky, 2000; Papalia & Olds, 2000; Rocha-Coutinho, 2000; Andrade, Postma e Abraham, 1999).

Percebemos a relevância desse tema na realidade brasileira, mais especificamente, devido ao crescimento, nos últimos anos, do número de lares brasileiros em que o trabalho feminino passa a representar a principal fonte de sustento econômico da família. Pesquisas regionais apontam, conforme investigação realizada pelo IBGE (2001), que em Porto Alegre 25% das famílias de classe média caracterizavam essa realidade em 2000, e que esse percentual cresceu para 33% em 2001. No Brasil, 27,5% dos lares têm na mulher a maior referência familiar, em termos de suporte financeiro.

Vale ressaltar que esse fenômeno é bastante amplo e atinge, basicamente, as camadas menos favorecidas em nosso país, ainda conforme dados do IBGE. Todavia, ressaltamos que nosso foco de estudo não envolveu as mulheres chefes de família, mas sim, mulheres que são as principais colaboradoras para a renda familiar. Em nossos casos, elas contribuíam com cerca de 70% da renda, a partir de suas atividades profissionais.

Esses dados alertam, conseqüentemente, para a importância de considerarmos como as transformações sociais contemporâneas e os novos arranjos familiares atingem a estrutura e os padrões de funcionamento familiar, a partir da inserção da mulher no âmbito profissional.

Pesquisas têm revelado como este papel assumido pela mulher tem repercutido na dinâmica familiar, nas questões conjugais, bem como na educação dos filhos (Bertolini, 2001; Garcia, 2001; Preston, Rose, Norcliffe e Holmes, 2000; Arrighi & Maume, 2000). Nesse sentido, talvez um dos aspectos mais desafiantes a ser mencionado envolva a necessidade de essas mulheres conciliarem as funções familiares com as acadêmicas e profissionais. Estes estudos apontam as transformações nos papéis e funções delegados para homens e para mulheres que possuem uma carreira, dedicam-se a uma profissão e precisam seguir criando e educando os filhos (Souza, 2001; Andrade, Postma e Abraham, 1999; Preston, Rose, Norcliffe e Holmes, 2000). No entanto, pouco tem sido relatado a respeito das peculiaridades estruturais das famílias em que a mulher representa a principal fonte de renda. Assim, parece ser esse um tema relevante a ser investigado, já que os novos papéis desempenhados pela mulher na família têm resultado em mudanças na estrutura familiar.

Em face destas demandas, esse trabalho objetivou conhecer como se estrutura a família composta pelo casal, e no mínimo um filho(a), em que ambos os cônjuges possuem uma atividade profissional, sendo a mulher a principal responsável pela renda e pelo sustento do lar; através de sua atividade profissional.

 

MÉTODO

Utilizamos a metodologia qualitativa, devido a seu caráter exploratório, que nos favoreceu compreender o fenômeno na sua complexidade e suas peculiaridades. Dessa forma, utilizamos o estudo de caso coletivo, descrito por Stake (2000).

Participantes da pesquisa

Selecionamos três famílias, de forma intencional, considerando o critério de superioridade da renda feminina em relação à masculina no sustento do lar, caracterizada há no mínimo seis meses, em famílias de nível socioeconômico e cultural médio2.

Instrumentos

Utilizamos dois instrumentos para a coleta das informações. O primeiro foi o Desenho da Família, que analisamos conforme os critérios de Wagner e Bandeira (1996) e Wagner e Féres Carneiro (1998), a partir da representação da configuração familiar acerca da proximidade, afastamento, compartimentalização, valorização e desvalorização de algum membro em relação a outro ou aos outros. O segundo foi o FAST - FAMILY SYSTEM TEST - de Gehring (1993). Esse teste baseia-se em um quadro-tabuleiro monocromático, dividido em 81 quadrados. Possui figuras esquemáticas, masculinas e femininas, nas quais o rosto é marcado pelos olhos e pela boca e o gênero é identificado pelo vestuário das figuras. Possui blocos cilíndricos em três diferentes alturas, os quais servem para elucidar os dados referentes à hierarquia entre os membros da família.

Além dos instrumentos, o casal preencheu, individualmente, uma ficha de dados biodemográficos, com seus dados a respeito da escolaridade, tempo de emprego e salário.

As famílias consentiram em sua participação na pesquisa através de um termo de consentimento informado para utilização dos dados, antes de iniciarmos a aplicação dos instrumentos.

Procedimentos

A aplicação dos instrumentos foi iniciada pelo Desenho da Família, quando solicitamos a  cada um dos integrantes que representasse, individualmente, a sua família em uma folha de ofício branca. Posteriormente, aplicamos o FAST, em dois momentos.

Primeiro, solicitamos a cada uma das famílias que dispusesse, em interação, as figuras representantes dos membros no tabuleiro, demonstrando o vínculo entre eles e a influência de cada um na estrutura familiar, em três situações distintas - situação típica, ideal e de conflito -, através da proximidade e/ou afastamento entre as figuras e pela utilização dos blocos cilíndricos de diferentes alturas para elevar ou não as figuras.

Em seguida, realizamos as entrevistas de seguimento, posteriormente a cada uma das representações (típica, ideal e de conflito), que elucidaram aspectos da configuração realizada pela família em cada uma das três etapas. Essas entrevistas pressupõem um roteiro preestabelecido e se constituem de cinco a sete questões fechadas, propostas por Gehring (1993).

Para análise do FAST, realizamos inicialmente uma análise quantitativa a respeito dos cálculos dos níveis de coesão, hierarquia e estrutura de relação familiar para, em seguida, efetuar uma análise qualitativa, através da observação cautelosa do comportamento, verbalização e atitudes dos membros durante a execução da atividade, associadas aos relatos das Entrevistas de Seguimento.

 

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Analisamos primeiramente cada um dos casos (análise vertical), a partir dos níveis de coesão, hierarquia/poder, relacionamento conjugal e parental, flexibilidade e estrutura de relação, para posteriormente realizarmos uma integração destes (análise horizontal), a partir das semelhanças e particularidades acerca do fenômeno estudado.

Para preservar o anonimato das famílias, alteramos os dados biodemográficos dos participantes, sem que houvesse prejuízo à compreensão dos casos.

Estudo de caso I - análise da família Castro

Esta família é composta por três pessoas: João, Joana e Joca. Joana realizou curso superior e trabalhava, havia quatro anos, em uma empresa de seguros da cidade, onde,  assumira, dois anos atrás, um cargo de liderança no setor financeiro. No período da coleta dos dados, trabalhava cerca de 40 horas semanais nessa empresa, sendo responsável por cerca de 70% da renda familiar, percebendo R$ 2000,00 mensais. João concluíra o ensino médio e trabalhava, havia seis meses, como vigilante de uma sede recreativa bancária. Joca, o filho do casal, tinha dez anos e freqüentava a quarta série do ensino fundamental.

Em termos de coesão familiar, que se refere ao vínculo e ligação afetiva entre os membros da família,  essa família se mostra bastante unida, a partir da análise do FAST; porém a análise nos revelou um baixo nível de coesão entre os membros do casal e, por outro lado, um incremento no vínculo dos pais com o filho. O casal se mantém mais coeso pelas funções parentais do que pela conjugalidade, sendo a vinculação maior no subsistema parental do que entre os cônjuges.

Quanto às relações hierárquicas, percebemos que a figura do filho detém grande influência nessa estrutura. Os cálculos dos FAST apontaram esse aspecto, porquanto o filho é representado como a figura mais alta no tabuleiro.

Os pais se mostraram extremamente vinculados ao menino; contudo, a relação entre pai e filho parece alicerçada em disputa e competição pelo poder. Em vários momentos, João demonstrou competir com seu filho pela atenção de sua mulher e pelo espaço na sua família, ao perceber a influência do menino.

Os dados do Desenho da Família de cada um dos integrantes indicaram que João se desenhou em primeiro lugar, provavelmente, como uma tentativa de manter a posição hierárquica que reflete o seu desejo, enquanto figura de autoridade. Joca, confirmando a sua posição na hierarquia familiar, também se representou em primeiro lugar, denotando a percepção de ser "central" na sua família e talvez indicando um enfrentamento à autoridade paterna. Joana parece seguir uma ordem mais tradicional de representação da família patriarcal, desenhando em primeiro lugar seu marido, em segundo lugar a si mesma e, por último, o filho.

Os dados anteriormente analisados indicam  existir uma intensa vinculação entre os pais e o filho, ao mesmo tempo que há um baixo nível de coesão entre o casal nessa estrutura familiar. O fato denota dificuldade no exercício da autoridade parental,  impossibilitando uma distribuição clara de papéis, regras e fronteiras. As fronteiras parecem difusas (Carter & McGoldrick, 1998, González, 1994), dificultando a posição entre os indivíduos e a conseqüente atribuição de papéis. Mesmo antes do nascimento de Joca o casal não conseguia delimitar as fronteiras familiares, sendo ambos muito permeáveis à influência das irmãs de Joana, por exemplo, que residiram uma época com o casal.

As representações do casal no FAST nos indicaram uma estrutura de relação de equilíbrio lábil (Gehring, 1993), caracterizada por uma intensa vinculação afetiva e baixa hierarquia entre os membros - no caso, do casal em relação ao filho.

Esse caso sugere que as posições e os papéis estabelecidos na família, na forma como se manifestaram, garantiam a estabilidade na estrutura familiar, sendo a provável forma encontrada pelos membros para se adaptar às exigências do meio e para enfrentar, principalmente, a posição de destaque exercida pela mulher, enquanto garantia de sustento e também de sucesso em sua trajetória profissional. 

Estudo de caso II - análise da família Medeiros

Essa família é composta por Carlos, Elza e Vanessa. Elza e Carlos estavam casados havia 16 anos e possuíam uma filha, Vanessa, com seis anos de idade na época da coleta dos dados. Elza cursou o ensino médio e posteriormente especializou-se como técnica em química. Trabalhava havia mais de dez anos na mesma empresa e sua carga horária representava 40 horas semanais. Ela era responsável por cerca de 70% da renda da família, recebendo em torno de R$ 1.000,00 mensais. Carlos, por sua vez, concluíra o ensino médio e dedicava-se às artes, atuando como artista plástico desde então. Seu horário de trabalho era mais flexível do que o da esposa, por ser autônomo. Costumava dedicar-se às suas tarefas profissionais durante as tardes e aos finais de semana. Vanessa, na época, freqüentava uma pré-escola, entre as dez horas da manhã e as sete horas da noite.

A análise dessa família nos indica que, normalmente, há um nível de coesão médio entre os seus membros, que se mostraram vinculados afetivamente em função da filha. O nível de coesão entre o casal mostrou-se bastante baixo, já que as figuras representantes dos cônjuges não foram colocadas lado a lado, havendo um quadro vazio entre elas, no tabuleiro do FAST, onde foi colocada a figura da filha. A relação de Carlos e Elza com Vanessa é mais intensa do que a relação do casal entre si.

Os vínculos se manifestaram em função, principalmente, do tempo que cada um dos pais dispunha para a menina. Elza manifestou desejo de permanecer mais próxima da filha no dia-a-dia, enfatizando sua vontade de acompanhar mais sua educação e o seu crescimento, enquanto Carlos expressou sobrecarga nas atividades diárias em relação aos cuidados com a menina, almejando obter mais espaço na relação com a filha.

Outro aspecto que reforçou o baixo nível de coesão em relação aos cônjuges nos foi revelado pelo conflito de cunho sexual mencionado diversas vezes pelo casal. Ambos elucidaram essa dificuldade, referindo que esse aspecto restringe o vínculo afetivo marital. Além disso, a dificuldade financeira enfrentada por essa família ao longo de sua história aparece como um motivo que afastou o casal, pois salientaram que as dificuldades econômicas causaram estresse e conflito conjugal.

Analisando as representações do FAST, percebemos a intensa influência da filha nas relações que se estabelecem na família, pois a menina utilizou o bloco de tamanho mais alto para elevar sua própria figura no tabuleiro. Normalmente, houve uma busca pelo poder por parte dela, que se apresentou como o centro das atenções familiares, conseguindo unir os pais em torno de si. Os cálculos dos níveis de hierarquia indicaram, portanto, uma inversão hierárquica.

Por outro lado, na técnica do Desenho da Família, todos desenharam Carlos em primeiro lugar e Elza em segundo, enquanto a filha foi a última a ser desenhada por todos os membros. Esta representação expressa a idéia de manutenção da hierarquia tradicional, comum na nossa cultura, onde a figura masculina é geralmente representada, nomeada e referida em primeiro lugar, o que indicaria a sua posição de autoridade e influência na família.

Esse casal demonstrou maior aproximação ao dedicar-se às funções parentais, desempenhando primordialmente os papéis de mãe e de pai e deixando de lado, muitas vezes, as questões de caráter conjugal.

A divisão das funções parentais na família Medeiros estava demarcada, basicamente, pelo fato de um dos cônjuges trabalhar fora de casa e garantir o sustento, enquanto o outro possuía uma carga horária de trabalho mais flexível. Embora Elza tivesse um papel fundamental na garantia da subsistência da família, o pouco tempo que tinha para ficar com a filha gerou sentimentos de culpa, ao passo que Carlos se sentia sobrecarregado com os cuidados com a menina.

Percebemos que a rigidez das fronteiras entre os subsistemas e o meio externo dificultava a negociação de regras nessa família. Os papéis encontravam-se previamente delimitados, sem possibilitar muito questionamento dentro do subsistema conjugal. Havia dificuldade de flexibilização e rigidez na acomodação dos papéis entre os membros da família. Por outro lado, eram difusas as fronteiras no subsistema parental, dificultando a manutenção de uma hierarquia, fundamental entre as figuras de autoridade paterna e materna e sua filha, e essa indefinição possibilitava que a filha ultrapassasse, freqüentemente, as fronteiras do subsistema conjugal, por não haver uma delimitação nítida entre os subsistemas.

Averiguamos que, de forma geral, a estrutura de relação que caracterizava os integrantes, neste caso, indicava uma estrutura de relação de equilíbrio lábil (Gehring, 1993), já que o vínculo entre os membros apontava um nível de coesão médio e um grau de hierarquia baixo.

Nesse caso, percebemos que, embora as posições assumidas por cada um dos integrantes desta estrutura e suas atribuições tenham buscado garantir certa estabilidade à estrutura familiar, o papel de provedora da mulher não garantia a estabilidade desejada. Ao contrário, o papel assumido por Joana parecia incrementar as dificuldades já constituídas durante a história do casal e da família.

Estudo de caso III- análise da família Silveira

Essa família é composta por quatro pessoas: Roberto, Silvana, Marcelo e Laura. Silvana e Roberto estavam casados havia 25 anos e tinham dois filhos, Marcelo, com 24 anos, e Laura, com 22 anos de idade, no período da entrevista.

Silvana concluíra o ensino médio e logo iniciara a faculdade, graduando-se na área de biomédicas. Trabalhava havia cerca de 25 anos nessa área  e fazia três anos que ocupava cargo de gerência. Sua carga horária representava 40 horas semanais. Dispunha de um salário de R$ 4.500,00 fazia três anos, desde sua promoção ao cargo de gerência, sendo responsável, na época, por cerca de 70% da renda da família.

Roberto atuava na área de contabilidade havia 28 anos, quando foi contatada a família. Assim como a esposa, trabalhava em torno de 40 horas semanais; entretanto, como sua atividade era autônoma, seu horário era mais flexível e sua renda, variável.

Marcelo estava concluindo o curso de Engenharia, enquanto Laura já havia concluído a graduação na mesma área de sua mãe e estava realizando uma pós-graduação.

Através da representação no tabuleiro, observamos que a família Silveira detinha um alto nível de coesão entre seus membros, o que se demonstra pelo fato de se encontrarem próximos uns dos outros nas diversas situações que foram solicitados a representar, tanto no FAST como no Desenho da Família. Porém esta intensa ligação parecia não prejudicar a autonomia entre os familiares.

O nível de coesão no subsistema conjugal nos indicou ligação entre o casal, mas não impedimento da autonomia e da individualidade entre os cônjuges, que podiam respeitar as diferenças de personalidade de cada um, mantendo o exercício das funções parentais, delimitando as regras e garantindo a estabilidade nas relações.

As relações de poder nos Silveira mostravam-se compartilhadas pelos membros do casal entre si e em relação aos filhos. As figuras de autoridade paterna e materna possuíam, visivelmente, maior influência a partir da representação do FAST, à medida que foram colocadas em blocos de altura superior em relação às figuras dos filhos no tabuleiro.

A posição de Silvana, enquanto a principal mantenedora do lar, foi uma questão abordada de forma clara entre os membros da família. Os filhos revelaram conhecimento sobre a realidade familiar e entendiam que a dependência econômica interferia nas relações hierárquicas.

Analisando os Desenhos da Família dos Silveira, observamos a manutenção de uma representação clássica na ordem de desenhar os integrantes da família. Embora Silvana fosse responsável pela maior parte da renda, detendo grande influência e poder decisório em relação aos filhos, ela se representou, em seu desenho, em segundo lugar, depois do marido.

Neste caso, o fato de a mulher ganhar mais do que o homem não apareceu como um motivo de estresse, competição ou ameaça para o casal. Ao contrário, no momento em que Silvana passou a contribuir substancialmente com a renda, suprindo o papel de provedora, uma nova estabilidade se instalou através da segurança econômica adquirida.

Além disso, outro aspecto que parece ter facilitado a aceitação, por parte de Roberto, da flexibilização dos papéis entre provedor financeiro masculino ou feminino na família, referiu-se ao fato de que, desde sua união no casamento, essa troca nos papéis fazia parte da rotina do casal. Conseqüentemente, essa realidade pode ter sido mais bem aceita pela figura masculina nesse caso.

As fronteiras entre os subsistemas conjugal e parental apresentaram-se nítidas, possibilitando a atribuição dos papéis de cada membro da família. Os papéis desempenhados por cada um dos integrantes nessa estrutura familiar indicaram capacidade de flexibilização por parte dos seus membros, conforme as situações e etapas que enfrentavam.

A representação dos membros dessa família nas atividades e sua forma de interação indicaram a existência de uma "estrutura de relação equilibrada" (Gehring, 1993). Neste tipo de estrutura, costuma-se observar um alto nível de coesão, somado a uma hierarquia em nível mediano, conforme os parâmetros do FAST.

A partir da análise desse caso, pensamos que as idiossincrasias na vivência dos Silveiras favoreceram a adaptação às exigências evolutivas da família, sendo mais bem compartilhadas as mudanças na função de provedor entre a figura masculina e feminina ao longo da história do casal; porém a estabilidade financeira, que garante a satisfação das necessidades básicas, seja garantida pelo homem seja pela mulher, favoreceu o incremento nas relações e promoveu maiores níveis de adaptação, ajustamento e saúde familiar nessa estrutura.

Análise horizontal e integradora dos casos

Dando continuidade à discussão dos resultados, desenvolvemos uma análise horizontal da estrutura e do funcionamento das três famílias estudadas, evidenciando as semelhanças e particularidades que abarcaram o fenômeno que nos propusemos a investigar.

Os dados obtidos a partir da análise dos Desenhos da Família demonstram a manutenção de uma representação clássica e idealizada por parte das figuras masculinas nos três casos. Além de se desenharem em primeiro lugar, os homens representaram em seus desenhos como gostariam de estar na família, o que nos faz pensar na legalidade e na manutenção dos padrões que envolvem a representação da estrutura familiar clássica e que esses padrões se encontram muito presentes nestas famílias.

Nos desenhos das mulheres, a pessoa representada por elas em primeiro lugar foi o marido, tendo sido  sua figura representada em segundo lugar, o que evidencia, também, a representação clássica da família, em que o homem é representado, nomeado e referido em primeiro lugar, assim como ocorreu nos desenhos dos filhos.

Nas famílias estudadas, as mulheres, mesmo estando por igual ou maior tempo que seus maridos fora do âmbito do lar, eram responsáveis pela maioria das atividades domésticas e pelo cuidado em relação aos filhos. Nas três famílias, elas buscavam assumir as funções maternas quando estavam presentes no lar com seus filhos. Abdicavam, por vezes, de seu lazer ou do vínculo conjugal para estarem mais tempo com eles. Nesse sentido, observamos o sentimento de culpa pelo pouco tempo de que julgavam dispor para a educação dos filhos e o convívio familiar, o que apareceu, mais enfaticamente, nos discursos de Elza e Joana, que possuíam filhos pequenos.

Por outro lado, percebemos também o desejo masculino de estar mais tempo em família, pois nos Castro e nos Silveira os homens evidenciaram, na representação do FAST, necessidade de estar mais próximos de seus filhos.

Nas famílias Castro e Medeiros, os filhos únicos apareceram como figuras centrais na relação familiar, havendo, inclusive, níveis altos de coesão entre o subsistema parental e baixo nível de coesão entre o casal.

É interessante observarmos ainda que as duas famílias com menor renda (Medeiros e Castro) justificaram o pouco tempo que passam juntos pela dificuldade financeira, supondo que a situação econômica mais favorável lhes possibilitaria  mais momentos de união e integração familiar.

Quanto às relações de poder e níveis de hierarquia, embora as mulheres, nestes casos, tivessem poder decisório, participassem ativamente das questões dentro e fora do lar, administrassem as finanças ao lado do marido e dispusessem de destaque em suas carreiras, elas não se representaram na estrutura familiar como detentoras de maior poder. Entretanto, podemos inferir, a partir da análise dos casos estudados, que existe uma associação entre poder e dinheiro, o que ainda aparece de forma camuflada.

Além disso, nas duas famílias em que existe um filho(a) único(a) ocorreu, ainda, a inversão hierárquica, que apareceu como uma conseqüência da dificuldade de relacionamento entre o casal, por não conseguir estabelecer fronteiras nítidas entre os subsistemas. Ambos foram excessivamente flexíveis com os filhos únicos, apresentando dificuldade no exercício das funções de autoridade.

Quanto à análise dos relacionamentos conjugais e parentais, destacamos que na família que possuía fronteiras nítidas entre os subsistemas, possibilitando a diferenciação entre o que se refere à esfera conjugal e o pertinente à esfera parental, os papéis e regras de cada membro e em relação ao meio externo estavam bem delimitados, existindo uma maior possibilidade de ajustamento e adaptação familiar. Os níveis intermediários, em termos de coesão e hierarquia, mostraram-se presentes também nos dados da estrutura da família Silveira, ou seja, naquela em que havia melhor condição financeira dentre as famílias analisadas.

Por outro lado, nas famílias Castro e Medeiros, onde as fronteiras se apresentaram difusas e não há clara delimitação entre os subsistemas, observamos maior dificuldade de ajustamento às situações inerentes ao ciclo vital familiar, além de serem as famílias onde foram evidenciadas maiores dificuldades em termos econômicos. Nesse sentido, percebemos uma relação entre níveis de saúde e ajustamento familiar dessas famílias e suas condições financeiras.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise dos casos no estudo deste fenômeno nos permitiu inferir que a manutenção de muitos papéis, funções e atitudes, para cada um dos gêneros, nos indica que a estrutura familiar, neste nível socioeconômico-cultural, ainda está calcada em um modelo tradicional de conceber e representar suas relações. Esses aspectos podem apontar que, apesar de já se perceberem algumas transformações nos padrões e no funcionamento da família, muitos outros seguem a repetir-se, principalmente pela manutenção de papéis apreendidos e esperados socialmente que delegam funções específicas aos homens e às mulheres.

Talvez essas constatações tenham sido responsáveis pela dificuldade de acesso a famílias que correspondessem aos critérios por nós selecionados nesta pesquisa. Dentre as famílias contatadas, a metade não se mostrou interessada em participar deste estudo. Neste sentido, confirmamos a premissa que esse tema, apesar de bastante atual, é ainda pouco abordado em algumas famílias.

Não visualizamos uma mudança significativa na forma como essas famílias representam a sua estrutura. Apesar de as mulheres saírem do âmbito do lar para trabalhar, mesmo antes do casamento, dedicando-se a sua carreira e contribuindo com a maior parte da renda, os homens não assumiam a responsabilidade pela esfera doméstica da mesma forma que as mulheres passaram a assumir a condição de principal provedora do sustento. Os esposos, nesses casos, auxiliavam nas tarefas relacionadas ao lar, mas não com a mesma responsabilidade feminina. A mulher ainda se sentia responsável por esses cuidados, necessitando conciliar, constantemente, as demandas das esferas pública e privada. Ao passo que o homem permitia-se buscar um espaço individual, não abdicando de seus momentos de lazer, a mulher sentia culpa e não se permitia abandonar, mesmo que temporariamente, seu papel predominantemente materno.

A relação entre poder e sustento do lar não ficou totalmente explícita a partir dos casos analisados. Esse fato nos sugere que talvez ainda haja um mascaramento nessas relações, o que confirmaria quanto o legado biológico, cultural e social permeia as relações familiares. A partir dessa premissa, supomos que, talvez, se este estudo tivesse sido realizado individualmente com as mulheres, e não com toda a família, alguns aspectos sobre relações de poder e níveis de hierarquia, que podem ter sido camuflados, pudessem ter sido evidenciados de outra forma nas representações das relações familiares.

Observamos, por outro lado, nessas famílias, uma necessidade de acomodação dos papéis a partir da demanda da atualidade. Tanto homens como mulheres, pais e filhos, estão aprendendo a conciliar seu tempo e as funções que lhes são delegadas tanto dentro como fora do lar.

Além disso, não pretendemos deixar de lado a dimensão individual dos integrantes de cada uma das famílias. Provavelmente a história familiar, os aspectos da personalidade, além dos legados, mitos e crenças familiares tenham interferido nas relações e na forma como os integrantes dessas famílias lidam com as demandas da contemporaneidade e, inclusive, com a posição da mulher enquanto principal provedora da subsistência do lar.

Não obstante, a relação da família com o dinheiro, independentemente de quem seja a pessoa responsável por garanti-lo, é um fator que pode interferir, mais ou menos intensamente, nas relações e na dinâmica familiar. Nas famílias estudadas, observamos a existência de uma relação entre ajustamento familiar e condição econômica. A análise dos casos destaca a relevância de avaliarmos o contexto econômico no qual a família está inserida para compreendermos as idiossincrasias que caracterizam a dinâmica e o funcionamento familiar. As famílias estudadas mostraram-se mais preocupadas com a subsistência e satisfação de suas necessidades básicas, com a garantia da renda fixa ao final do mês, do que com a determinação de quem fosse responsável pelo sustento, se a mulher ou se o homem.

Consideramos importante destacar ainda que a faixa salarial das três famílias pode não ter sido significativa para proporcionar uma mudança na estrutura. Supomos que a diferença de renda entre marido e esposa não tenha proporcionado grande variação na representação da estrutura das famílias estudadas. Entretanto, podemos pensar que um aumento na diferença salarial poderia ser um aspecto responsável por outras modificações na estrutura familiar, influenciando o funcionamento e as relações familiares.

Enfim, o fenômeno estudado exige maior atenção e investigação, ao passo que a relação com o dinheiro é um fator que influencia a dinâmica familiar. Apesar de nosso objetivo não envolver generalizações,  tampouco comparações com a população em geral, observamos que a estabilidade econômica aparece, nesses casos, como um fator preponderante para a estabilidade conjugal e familiar, pela forma como essas famílias representaram a sua estrutura e funcionamento. Evidenciamos que os novos arranjos familiares exigem um espaço para a renegociação de papéis e a divisão de tarefas, bem como para a organização das finanças; e a convivência familiar, então, é o espaço que existe para a família rever os seus padrões e estabelecer novos, se necessário. Assim, parece fundamental reavaliar constantemente os conceitos, administrar o tempo e o vínculo e possibilitar a ampliação dos canais de comunicação nas famílias e nos casamentos de forma geral, mas, principalmente, quando há mudanças nas atribuições esperadas e delegadas socialmente para homens e mulheres.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Programa de Pós-Graduação em Psicologia - Faculdade de Psicologia, Av. Ipiranga, 6681 - Caixa Postal 1429, CEP 90619-900 - Porto Alegre/RS.
E-mail:anacfleck@yahoo.com.br ou wagner@pucrs.br

Recebido em 18/02/2003
Revisado em 30/06/2003
Aceito em 31/07/2003

 

 

1 Apoio Capes
2 Utilizamos como critério para definir nível socioeconômico e cultural médio o grau de escolaridade entre Ensino Médio e Curso Superior completo, bem como uma renda feminina entre quatro e quinze salários mínimos.