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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.8 no.esp Maringá  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000300008 

ARTIGOS

 

Os avós na perspectiva de jovens universitários

 

Grandparents: from a college students` perspective

 

 

Cristina Maria de Souza Brito DiasI; Márcia Andréa Souza e SilvaII

IProfessora Doutora do Departamento de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco
IIBolsista Pibic/Universidade Católica de Pernambuco - Unicap

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo verificar a percepção dos jovens adultos acerca dos seus avós. Dela participaram  100 universitários (50 de cada sexo), com média de idade de 21,63 anos, respondendo a um questionário com questões de múltipla escolha. Os principais resultados são: Os significados mais importantes representados pelos avós foram os de  "respeito" e "sabedoria e experiência de vida. O(a) avô(a) preferido pelos netos foi a "avó materna". O motivo da preferência foi a convivência maior. Quanto à contribuição dada pelos avós à família  destacaram-se "a educação dada aos pais" e  "ajudam na criação dos netos". A diferença entre os pais e os avós, na opinião dos jovens, foi  "a diferença de cultura, valores".  Em relação às características de um avô(avó) ideal, verificou-se que, para os universitários, eles devem ter "amor/carinho" e "abertura/diálogo/comunicação". Conclui-se que os avós se constituem como pessoas importantes na vida dos netos, embora já crescidos.

Palavras-chave: relacionamento intergeracional, avós e universitários, interação familiar.


ABSTRACT

This research aimed to verify the perception young college students have concerning their grandparents. Participated on the survey 100 college students (50 male and 50 female), 21,63 year-old average, answering a questionnaire with of multiple choice questions. The main results are: The most meaningful representation grandparents bring were the ones of "respect" and "wisdom and life experience". The favorite grandparent figure for them was the grandmother from the mother´s side. The reason for the preference was they see each other more often. Regarding the contribution given by the grandparents to the family prevailed "the education given to the parents" and "their help with grandchildren". The difference between the parents and the grandparents, according to the subjects, was a difference of culture and values. For the surveyed college students, the characteristics of an ideal grandparent was, they should have "love and care" and "be open to communication". It was conclude that grandparents are very important people in the grandchildren`s life, even after they are grown.

Key words: Intergenerational relationship, grandparents and college students, family interaction.


 

 

INTRODUÇÃO

É esperado que os avós sejam os principais agentes socializadores das crianças após os pais e, em geral, sua contribuição é grande no quotidiano das famílias. Apesar desta relevância, poucos estudos têm sido realizados sobre sua importância para os netos, especialmente quando estes já passaram das fases da infância e da adolescência, épocas em que o envolvimento avós-netos tende a ser mais intenso. Este envolvimento se explica pela novidade que o papel representa, pelos cuidados que as crianças e adolescentes exigem ou pela necessidade que os pais têm de recorrer aos seus próprios pais para cuidarem dos netos enquanto trabalham ou realizam outras atividades.

Na infância, o acesso aos avós é controlado pelos pais, principalmente para aqueles que não moram próximos. À medida que os netos crescem adquirem mais autonomia e responsabilidade, podendo decidir o tipo de relacionamento que desejam ter com os seus avós (Dias & Silva, 2001).

No exterior dispomos de várias pesquisas realizadas com estudantes universitários, enfocando diversas variáveis, no que se refere ao relacionamento destes com seus avós. Em geral, elas revelaram que as expectativas e as atitudes perante os avós, para a maioria dos participantes, foram bastante positivas, tendo sido enfatizado que o relacionamento com eles foi decisivo em suas vidas (Robertson, 1976; Harsthorne & Manaster, 1982; Kennedy, 1989, Matthews & Sprey, 1985; Hodgson, 1992). Na pesquisa de Sanders e Trygstad (1993), os universitários referiram-se aos avós como figuras importantes tanto no aspecto social (respeito, influência no próprio comportamento, participação nos acontecimentos da família), como no pessoal (fonte de aprendizagem, senso de perspectiva, ligação emocional). Noutra investigação, o significado que os jovens atribuíram aos avós foram os de historiador, confidente, pais substitutos e companheiros (Franks, Hughes, Phelps e Williams, 1993). A freqüência de contato com os avós também foi considerada boa, embora alguns tenham desejado que ela fosse maior (Kennedy, 1989, 1992 a). Acerca da mediação dos pais no estabelecimento do relacionamento avós-netos, a maioria dos sujeitos pesquisados concordou que os pais incentivavam este relacionamento (Robertson, 1976; Kennedy 1989, 1990, 1992a e 1992b). No que se refere à preferência por algum dos avós, constatou-se que a mesma recaiu sobre a avó materna, tendo-se citado como razão desta preferência o maior contato com a mesma. Os autores deram como uma das explicações para este resultado o fato de o relacionamento mãe-filha, em geral, ser mais estreito, o que facilita o envolvimento com os avós maternos (Hoffman, 1979/80; Franks e cols, 1993; Harsthorne & Manaster, 1982; Eisenberg, 1988; Kennedy, 1990). Ainda acerca da preferência, as avós apareceram como participantes mais freqüentes da vida dos netos, influenciando-os em vários aspectos como: no comportamento, na personalidade e na consciência psicossocial (Franks e cols, 1993; Roberto & Stroes, 1992). As netas foram mais propensas a manterem um relacionamento íntimo com as avós do que os netos (Eisenberg, 1988). Sobre a concepção dos avós ideais, os netos esperavam que os avós fossem amorosos, calorosos, amigos, disponíveis, comunicativos, engraçados, espertos e mansos (Robertson, 1976).

Em face desta breve revisão da literatura e tendo em vista: 1) que a maior expectativa de vida do ser humano tem lhe possibilitado vivenciar o papel de avô/avó, e até mesmo o de bisavô/bisavó; 2) que a freqüência e o prolongamento do contato entre duas ou mais gerações na família tendem a aumentar; 3) a importância que os avós têm para seus netos; e 4) que os estudos são poucos sobre o assunto, principalmente com universitários no Brasil, nos propusemos a realizar uma investigação com tais jovens.

O objetivo geral do presente estudo foi investigar como os avós são percebidos por jovens universitários, estabelecendo uma comparação entre os sexos. Especificamente, investigamos as seguintes variáveis: o significado dos avós, sua influência na vida dos netos, a mediação dos pais, as atividades realizadas, a preferência e os motivos desta por algum dos avós, a avaliação do relacionamento estabelecido com os avós, a contribuição que os avós dão à família, as diferenças percebidas entre os avós e os pais, as características dos avós ideais.

Esperamos com esta pesquisa trazer uma contribuição à literatura existente na área de família e aos profissionais que lidam com jovens, casais e famílias.

 

METODOLOGIA

Sujeitos

O estudo se desenvolveu em duas etapas: na primeira, foi realizada uma entrevista semidirigida, contendo perguntas relacionadas aos objetivos da pesquisa. Esta contou com a colaboração de 10 universitários (5 de cada sexo), com média de idade de 21,9 anos.

Na segunda etapa, foi montado um questionário, de múltipla escolha, com base nas categorias elencadas a partir das respostas à entrevista. Nesta, contou-se com a colaboração de 100 universitários (50 de cada sexo), com média de idade de 21,6 anos, os quais freqüentavam diferentes cursos.

Instrumentos

Na primeira fase da pesquisa, o instrumento constou de uma entrevista semidirigida, que foi categorizada por temas afins. Estes deram origem ao questionário que foi utilizado com a amostra final. O questionário ficou composto por 10 itens, com várias alternativas de resposta, além dos dados sociodemográficos. Os respondentes podiam assinalar quantas alternativas desejassem.

Procedimento

Os sujeitos foram contactados nos campus da Unicap e da UFPE e foram convidados a participar de uma entrevista que contemplava os objetivos propostos neste estudo. Eles foram entrevistados individualmente, após a apresentação da bolsista e do objetivo da pesquisa, sendo-lhes facultada a cooperação e garantido o sigilo quanto à sua identidade. O questionário foi aplicado individualmente e na hora em que os sujeitos eram abordados.

 

RESULTADOS

Os resultados serão apresentados em termos de freqüência e percentual e segundo o sexo dos sujeitos.

Apresentamos na tabela 1 os resultados do significado dos avós para os netos.

 

 

O que demonstram as respostas da tabela acima é que para 68% dos participantes do sexo feminino os avós significam pessoas a quem se deve respeito, enquanto para o sexo masculino isto apareceu com 56%. Por outro lado, 64% das moças responderam que eles significam doação de afeto/carinho, o que correspondeu a 44% dos rapazes. Para 62% das universitárias, o significado foi de sabedoria e experiência de vida, sendo que esta alternativa apareceu em primeiro lugar para os universitários, com 72%. A categoria raiz de tudo, origem da família, recebeu 48% da preferência do sexo feminino meninas e 40% do sexo masculino. Finalmente, para as meninas, com 44%, ficou o significado "segundos pais", em que para os meninos o percentual foi 42%.

Na tabela 2 constam os resultados acerca da influência dos avós na vida dos netos.

 

 

Em relação à influência dos avós na vida dos netos, foram obtidos os seguintes resultados: ambos os sexos, em primeiro lugar, disseram sofrer influência emocional por parte dos avós, sendo que isto ocorreu para 54% do sexo feminino e 56% do masculino. Além disso, 30% das moças e 18% dos rapazes disseram que possuem características dos seus avós. Também 30% delas e 36% deles responderam que os avós influenciaram na formação do seu caráter. Por outro lado, 26% das universitárias e 20% dos universitários disseram que os avós ajudaram em momentos difíceis. Ainda, 26% das moças e 18% dos rapazes acreditaram que os avós são um exemplo de fidelidade e amor no casamento. Empatados, com 14%, ambos os sexos responderam que os avós ajudam financeiramente. Finalmente, 10% das jovens e 18% dos jovens disseram que os avós não exercem influência em suas vidas.

Na tabela 3 constam os resultados acerca das atividades realizadas com os avós.

 

 

Na tabela acima, em relação às atividades realizadas com os avós, o resultado será descrito da seguinte forma: 74% das universitárias e 58% dos universitários disseram que conversam com seus avós; 70% do sexo feminino e 60% do masculino disseram que ouvem as histórias e experiências dos avós; 66% das universitárias e 64% dos universitários os visitam; empatados, com 60%, ambos os sexos responderam que almoçam com os avós; 40% das respondentes e 34% dos respondentes disseram que telefonam, enquanto que 34% das moças e 26% dos rapazes lhes dão presentes.

Na tabela a seguir encontram-se os resultados acerca da mediação dos pais no relacionamento estabelecido entre avós e netos.

 

 

Podemos constatar, em primeiro lugar, que ambos os sexos perceberam que os pais sempre facilitaram seu relacionamento com os avós, o que ocorreu para 78% do sexo feminino e 66% do masculino; 40% das moças e 38% dos rapazes acharam que os pais consideram os avós de modo semelhante; 16% das universitárias e 22% dos universitários responderam que os pais demonstravam preferência por algum dos avós; 10% delas e 22% deles assinalaram que os pais mantiveram-se neutros ou indiferentes quanto ao relacionamento dos jovens com seus avós.

Na tabela a seguir estão elencados os resultados acerca da preferência por algum dos avós.

 

 

Observamos que 48% das alunas e 44% dos alunos preferiram a avó materna; 22% dos respondentes femininos e 20% dos masculinos não demonstraram preferência por nenhum dos avós; 12% das moças e 18% dos rapazes disseram preferir a avó paterna; 10% delas e 14% deles preferiram o avô materno; 8% das universitárias e 2% dos universitários mostraram preferência pelo avô paterno.

Na tabela 6 estão dispostos os resultados acerca dos motivos da preferência.

 

 

Com relação aos motivos da preferência por algum dos avós, constatamos que: em primeiro lugar, ambos os sexos disseram ser porque a convivência era/é maior, sendo que isto ocorreu para 42% das meninas e 48% dos meninos; 32% das jovens e 18% dos jovens responderam que é porque ele(a) era/é mais carinhoso(a); 32% das universitárias e 20% dos universitários disseram que é devido ao fato do(a) avô(avó) ter cuidado deles; empatados, com 20%, ambos os sexos disseram que ele(a) era/é mais aberto(a); 16% das moças e 14% dos rapazes justificaram a preferência respondendo que é porque moravam perto dos avós; para 12% delas e 8% deles é porque moravam na mesma casa.

Na tabela a seguir constam os resultados acerca da avaliação feita do relacionamento com os avós.

 

 

Segundo a avaliação feita pelos jovens, os resultados revelam que: para ambos os sexos, o relacionamento sempre foi bom, sendo 76% para as netas e 68% para os netos; 46% delas e 42% deles perceberam a importância dos avós à medida que cresceram; 14% das meninas e 16% dos meninos disseram que na infância o relacionamento foi de brincadeira, hoje é mais de conversa e respeito; 12% delas e 6% deles disseram que o relacionamento não mudou em nada; empatados, com 10%, ambos os sexos responderam que na infância e atualmente é bom, mas na adolescência houve um certo afastamento; 10% das netas e 14% dos netos acreditam que atualmente o afastamento é maior.

Na tabela 8 estão dispostos os resultados acerca da Contribuição dada pelos avós à família.

 

 

De acordo com os dados obtidos acima, em relação à contribuição dada pelos avós à família dos universitários, verificamos que: ambos os sexos afirmaram como mais relevante que os avós contribuíram na educação aos seus pais que se refletiu neles, sendo assinalado por 68% das netas e 62% dos netos; 64% delas e 58% deles disseram que os avós deram ajuda emocional; 56% delas e 74% deles salientaram que os avós ajudam na criação dos netos; 26% das universitárias e 30% dos universitários acreditam que os avós contribuíram sendo o elo de ligação da família; 18% delas e 14% deles disseram que os avós ajudam a tomar difíceis decisões.

Na tabela 9 podemos verificar os resultados das diferenças percebidas entre os pais e os avós.

 

 

Constatamos que a diferença entre os pais e os avós, na opinião dos universitários, caracteriza-se por: 54% das jovens e 64% dos jovens afirmaram, como mais relevante, haver diferença de cultura, valores, modo de pensar entre eles; 42% delas e 44% deles disseram que os pais estão em primeiro lugar, embora os avós sejam importantes; empatados, com 40%, ambos disseram que os avós são mais calmos e experientes que os pais; 24% das netas e 14% dos netos responderam que para paparicar os avós são melhores; 18% delas e 20% deles acreditaram que os avós possuem menos responsabilidades que os pais; 10% das meninas e 18% dos meninos disseram que os pais são mais abertos que os avós; finalmente 10% delas assinalaram que o relacionamento com os avós é mais intenso, sendo esta categoria irrelevante para os netos, já que não a assinalaram.

Finalmente, na tabela 10 estão colocados os resultados acerca das características dos avós ideais.

 

 

A partir dos resultados acima, observamos que: 62% das moças e 46% dos rapazes acharam que um avô ideal deve ter amor/carinho; 56% delas e 60% deles salientaram que eles devem ter abertura/diálo-go/comunicação; 52% das universitárias e 42% dos universitários avaliaram que o relacionamento deve ser de companheirismo/participação; 50% delas e 36% deles acreditaram que um avô ideal deve dar amor sem exigência e sem imposição; ambos os sexos, com 48%, afirmaram que os avós devem ter afinidade/compreensão; 48% das netas e 42% dos netos disseram que um avô ideal deve se caracterizar por alegria/brincadeira/espírito jovem.

 

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Em relação ao significado que os avós têm para os universitários, constatamos que as categorias predominantes foram as de sabedoria e experiência de vida, respeito, afeto/carinho; raiz de tudo, origem da família e que eles são como os segundos pais (ver Tabela 1). Estes significados confirmam a literatura quando esta mostra que os netos perceberam seus avós como pessoas amáveis e que serviam de modelo para suas vidas (Kennedy, 1990), como também os que foram apontados nas pesquisas de Frank, Hughes, Phelps e Willians (1993) e Sanders e Trygstad (1993). Nestas, os avós foram vistos como segundos pais e como pessoas que exercem influência na vida dos netos, tanto no aspecto pessoal como no social.

Embora as diferenças entre os sexos não sejam estatisticamente significativas, vale salientar que, no caso do significado mais relevante, que foi o de sabedoria e experiência de vida, este foi dado pela maioria dos netos, enquanto para as netas o significado mais importante foi o de serem pessoas dignas de respeito. Isto nos leva a supor que o relacionamento avós-netos marcado pelo prazer e brincadeiras ocorra mais na infância, mas, à medida que os netos vão crescendo, outros significados vão adquirindo mais relevância.

Quanto à influência dos avós na vida dos netos, a que se destacou foi a do tipo emocional. Os netos também disseram que os avós influenciam na formação do seu caráter; que eles possuem características dos avós; que estes ajudam em momentos difíceis e são exemplos de fidelidade e amor no casamento (Tabela 2). Tais resultados corroboram o que outros autores relataram no sentido de que os avós podem ser os principais agentes socializadores das crianças, após os pais, e que eles são figuras importantes, especialmente em momentos de crises e estresses enfrentados pela família, conforme revisão da literatura realizada por Dias e Silva (1999). Segundo Roberto e Stroes (1992), as avós influenciam mais nos valores dos netos, idéias familiares, crenças religiosas e identidade pessoal, exceto nas crenças políticas e ética do trabalho, situações em que os avôs se destacam.

No que tange às atividades realizadas com os avós, as que predominaram foram: conversar, visitar, ouvir as histórias e experiências dos avós, almoçar, telefonar e dar presentes (Tabela 3). Isto, mais uma vez, confirma a literatura (Roberto & Stroes, 1992), a qual constatou que a atividade mais freqüente realizada com os avós é visitá-los para conversar e partilhar assuntos importantes. Para Kennedy (1992a), as atividades que se destacaram foram: compartilhar eventos e reuniões, comer ou passar a noite com os avós, assistir televisão, conversar, jogar e ir às compras com os avós para suprir suas necessidades, o que corrobora nossos achados. Constatamos, no presente estudo, uma tendência entre as netas ao preferirem conversar com os avós, enquanto os netos costumam almoçar com seus avós e ouvir suas histórias (Tabela 3).

Segundo os resultados referentes à mediação dos pais no relacionamento dos universitários com seus avós, destacou-se que os pais sempre facilitaram este relacionamento. Observamos que os pais consideravam os avós de modo semelhante, mas os respondentes também salientaram que os pais demonstravam preferência por algum dos avós, sendo isto mais observado pelos netos. Eles também disseram que os pais mantiveram-se neutros ou indiferentes quanto ao seu relacionamento com seus avós (Tabela 4). Na literatura, é apontada a influência que têm os próprios pais no estabelecimento do relacionamento dos netos com seus avós, uma vez que os pais apreciavam que os netos tenham relacionamentos próximos com os avós (Kennedy, 1990). Noutra pesquisa realizada por Kennedy (1992a), os netos descreveram seu relacionamento com seus avós como bastante íntimo, sendo de opinião que seus pais incentivavam este relacionamento. O mesmo autor, em uma outra pesquisa, Kennedy (1992b), chegou às seguintes conclusões: 1) que o relacionamento dos(as) netos(as) adultos com seus avós era independente do relacionamento com os pais; 2) que estes encorajam e apóiam a relação avós-netos; 3) uma relação dessas, para ser saudável, necessita também de uma boa relação dos pais com seus pais (avós).

Quanto ao(a) avô(avó) preferido(a) pelos universitários, destacou-se, com grande vantagem, a avó materna. Em menor escala apareceram as categorias: não tenho preferência, prefiro a avó paterna, prefiro o avô materno e prefiro o avô paterno (Tabela 5). Estes resultados confirmam a literatura, através dos trabalhos realizados por Matthews & Sprey (1985), Eisenberg (1988), Hoffman (1979/80), Harsthorne & Manaster (1982), os quais demonstraram que a avó materna sobressaiu na preferência dos(as) netos(as). Mas, o que estas pesquisas nos informam também é que, em geral, o avô materno vem em seguida na preferência dos(as) netos(as) e no presente estudo observamos que a avó paterna veio antes do avô materno, continuando com o avô paterno como o menos preferido. Para os citados autores, um dos motivos que propicia a preferência pela avó materna reside no maior envolvimento que caracteriza o relacionamento mãe-filha, facilitando, assim, o relacionamento dos netos com seus avós maternos.

Em relação aos motivos da preferência, destacou-se como mais importante a convivência ser ou ter sido maior. Em seguida, observamos que: o(a) avô(avó) cuidou do(a) neto(a); ele(a) era/é mais carinhoso(a); ele(a) era/é mais aberto(a); moram perto um do outro (Tabela 6). Sem dúvida a convivência facilita o relacionamento, tendo sido encontrado que a proximidade geográfica é um dos fatores de grande importância para o envolvimento entre os avós e seus netos (Dias & Silva, 1999).

A avaliação feita pelos universitários do relacionamento com seus avós no decorrer do tempo foi que o relacionamento sempre foi bom. Eles também disseram: que perceberam a importância dos avós à medida que cresceram; que na infância o relacionamento foi de brincadeira, hoje é mais de respeito; atualmente, o afastamento é maior; na infância e atualmente o relacionamento se caracterizou como bom, mas na adolescência houve um certo afastamento (Tabela 7). Dellman-Jenkins, Papalia & Lopez (1987) constataram que os jovens perceberam um afastamento no seu relacionamento com os avós na fase da adolescência. Para as autoras, isto ocorreu porque, nesta fase, o adolescente, na maioria das vezes, prefere estar em grupos com amigos a estar ou fazer algum programa com os avós. Contudo, o relacionamento tende a se estabilizar com o passar do tempo. Na presente pesquisa, podemos perceber que os jovens avaliaram o relacionamento como sendo mais de respeito, o que também observamos quando eles disseram que os avós significam respeito (Tabela 1). Matthews e Sprey (1985), em sua pesquisa, também salientaram que a maioria dos jovens não indicou mudanças no relacionamento com os avós, mantendo o estabelecido nas fases anteriores do seu desenvolvimento.

No que tange à contribuição dada pelos avós à família dos universitários, observamos duas categorias como mais importantes: o reflexo nos jovens da educação por eles dada aos pais daqueles e a ajuda dos avós na criação dos netos. Em seguida, tivemos: a ajuda emocional; os avós como elo de ligação da família e a ajuda financeira (Tabela 8). Os respondentes do sexo masculino destacaram como contribuição mais relevante a de que os avós ajudaram na criação dos netos, enquanto as netas acreditam que a contribuição mais importante referiu-se ao reflexo nelas da educação dada aos seus pais. Isto nos leva a supor que os estilos de criação entre pais e avós tendem a ser semelhantes, e que, em alguns momentos, os avós adotam o estilo denominado pais substitutos, o qual se caracteriza pelo fato de os avós tomarem conta dos netos, temporária ou definitivamente.

No que diz respeito às diferenças entre os pais e os avós, destacaram-se: que há diferença de cultura, valores, modo de pensar entre os pais e os avós; que os pais estão em primeiro lugar, embora os avós sejam importantes; que os avós são mais calmos e experientes que os pais; para paparicar, os avós são melhores; que os avós possuem menos responsabilidades que os pais; e, finalmente, que os pais são mais abertos que os avós. Apenas cinco universitárias responderam que o relacionamento com os avós é mais intenso que com os pais, o que não foi destacado por nenhum dos universitários (Tabela 9). Em relação a este último resultado, Denham e Smith (1989) constataram que, em geral: 1) os avós diminuem o impacto de problemas sociais; 2) os avós são companheiros dos netos; 3) eles são importantes na socialização dos netos, exercendo influência nas esferas emocional, atitudinal e cognitiva, podendo moderar a influência negativa dos pais sobre os filhos.

Finalmente, no que se refere às características de um avô ideal, os respondentes do sexo masculino assinalaram que eles devem ter abertura/diálogo/comunicação. Já as universitárias apontam como mais relevante os avós terem amor/carinho. Na seqüência de características mais escolhidas obtivemos: afinidade/compreensão; compa-nheirismo/participação; alegria/brincadeira/espírito brincalhão; um amor sem exigência e sem imposição (Tabela 10). A literatura nos mostra que a concepção dos jovens adultos sobre um(a) avô(avó) ideal compreendeu a de serem pessoas amorosas, disponíveis, amigas, comunicativas, ativas, engraçadas, espertas e mansas (Robertson, 1976), confirmando assim o que, segundo os universitários do nosso estudo, deveriam ser as características de um avô ideal.

 

CONCLUSÃO

Gostaríamos de concluir dizendo que esta foi uma pesquisa que visou ao mapeamento do tema, uma vez que não houve a oportunidade de aprofundar as questões. Apesar de não ter havido diferenças estatisticamente significativas entre as respostas assinaladas pelos dois sexos, há indicações de que eles percebem diferentemente os avós, e, provavelmente, isto pode ser atribuído às características de gênero.

Acerca do significado que os avós possuem para os netos predominou o de "respeito" para as moças e "sabedoria e experiência de vida" para os rapazes. A influência que os avós exercem na vida dos netos perpassa pelo "aspecto emocional", para ambos os sexos. A atividade que as netas mais realizam com os avós referiu-se a "conversar", enquanto os netos assinalaram "visitar." Quanto à mediação dos pais, os universitários, de ambos os sexos, perceberam seus pais "facilitando" o contato com os avós. Em relação à preferência por algum dos avós, esta recaiu sobre a "avó materna", e o motivo desta preferência residiu no fato de a "convivência ter sido ou ser maior". A avaliação feita acerca do relacionamento mantido pelos jovens com seus avós foi a de que ele sempre foi "bom". Em relação à contribuição dada pelos avós à família, as netas assinalaram que foi "a educação dada aos pais" que se refletiu nelas, enquanto os netos assinalaram que "os avós ajudaram na sua criação." Quanto às diferenças percebidas entre os pais e os avós, elas se devem, para ambos os sexos, às "diferenças de cultura, valores e modos de pensar". Finalmente, acerca das características dos avós ideais, para as moças predominou o "amor/carinho", enquanto os rapazes valorizaram a "abertura/ diálogo".

Vale ressaltar que estes resultados foram extraídos de uma amostra nordestina, que tem seus valores e cultura próprios, diferentes, portanto, dos de outras regiões do Brasil e, principalmente, dos Estados Unidos, que possuem mais bibliografia sobre o tema, sobre a qual nos baseamos.

Salientamos algumas limitações na nossa pesquisa que poderão ser sanadas em pesquisas posteriores: 1) não houve o controle do tipo de organização familiar dos respondentes (família intacta, separada ou recasada), o qual, provavelmente, acarretaria diferenças no relacionamento avós e netos; 2) também não se perguntou se o respondente é filho(a) único(a), o que implica, provavelmente, uma maior atenção por parte dos avós; 3) houve universitários que viveram ou vivem com seus avós, situações que favorecem um maior contato. Há que ressaltar também que o relacionamento estabelecido depende de outras variáveis (escolaridade, nível socioeconômico, situação empregatícia, saúde, institucionalização dos avós, entre outras), como também da personalidade de cada um dos envolvidos. Sugerimos a continuação de pesquisas que possam aprofundar estas e outras questões como forma de obtermos cada vez mais conhecimentos sobre o tema.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Rua: Conselheiro Portela, 130 A/apto 201, Espinheiro, CEP 52020-030, Recife-PE.
E-mail: cristinabrito@argentina.com

Recebido em 10/07/2002
Revisado em 11/03/2003
Aceito em 30/06/2003