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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.8 no.esp Maringá  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000300009 

ARTIGOS

 

Representações de maternidade de mães jovens e suas mães

 

Representations of motherhood of young mothers and their mothers

 

 

Ana Cristina Garcia DiasI; Rita de Cássia Sobreira LopesII

IDoutora em Psicologia (Universidade de São Paulo) e docente dos cursos de Psicologia da Universidade Regional Integrada - URI, campus Erechim e do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, Santa Maria
IIDoutora em Psicologia (Universidade de Londres) Professora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo buscou investigar a representação da maternidade de 10 mães jovens e de suas mães. Através de uma entrevista, elas foram solicitadas a descrever a si próprias como mães, as suas mães (ou filhas) como mães e como uma boa mãe deveria ser. Não foram observadas grandes discrepâncias entre as descrições de mães e filhas. Houve uma valorização de características ligadas ao afeto. Não foi observado, por parte das filhas, um desejo consciente de ser diferente de suas mães. Algumas características mais enfatizadas pelas filhas do que pelas mães parecem indicar a emergência de novos valores relacionados à maternidade.

Palavras-chave: representação, maternidade, pesquisa intergeracional.


ABSTRACT

This study had the purpose to investigate the representation of maternity from 10 young mothers and their mothers. Through an interview, they were requested to describe themselves as mothers, their mothers (or daughters) as mothers and describe how a good mother should be. No significant discrepancies were observed among the mothers and daughters descriptions. There was an appreciation of characteristics linked to the affection. It was not observed, from the daughters part, a conscious desire to be different from their mothers. The characteristics more emphasized by the daughters than by the mothers seem to indicate the emergency of new values related to the maternity.

Key words: Representation, maternity, intergenerational researches.


 

 

A maternidade pode representar um momento de redefinição de papéis para a mulher, a qual, além de exercer o papel de filha, passa a exercer o de mãe, bem como de redefinição da relação com a sua própria mãe (Bassof, 1991). Além disso, "(...) quando as filhas se tornam mães as suas próprias mães são validadas; as filhas são como elas, semelhança tão temida desde a adolescência" (Arcana, 1984, p. 186). No entanto, muitas mulheres tentam não seguir o modelo de suas mães, e a própria cultura ou momento histórico podem estimular modelos contraditórios com o modelo materno. Mas até que ponto os valores maternos são abandonados?

Os processos intergeracionais são centrais nas teorias de desenvolvimento e de mudanças na sociedade, sendo que sobressaem duas questões centrais nos estudos sobre gerações (Troll & Bengston, 1979): 1) a socialização, ou seja, a transmissão de características através das gerações; e 2) as relações interpessoais entre membros da família de diferentes gerações. Observa-se, por um lado, a preocupação dos pais em transmitir suas práticas e valores, como uma forma de obter sentido para a própria vida; por outro, os filhos querem estabelecer seus próprios valores, condizentes com as novas vivências decorrentes de transformações tecnológicas e sociais. A percepção da distância dos valores tende a ser diferenciada conforme a geração que tomamos por referência. Bengston e Kuypers (1971) sugerem que os pais tendem a perceber como sendo pequenas as diferenças entre os valores, enquanto os filhos buscariam enfatizá-las.

Acredita-se que o estudo da maternidade pode ser enriquecido a partir da investigação das representações sociais que duas gerações (mãe e filha) possuem acerca do fenômeno. Neste estudo buscou-se investigar as convergências e divergências de mães e filhas acerca do que é ser mãe. Denominamos este fenômeno de concordância intergeracional, o qual vem sendo investigado também em outros contextos como, por exemplo, em estudos de apego mãe-criança (ver Main, Kaplan & Cassidy, 1985; Ricks, 1985).

 

MATERNIDADE: UM BREVE HISTÓRICO

De uma maneira geral, tende-se a pensar no amor materno como algo instintivo, como uma tendência inata das mulheres. Contudo, as atitudes maternas, bem como o papel de mãe, têm se modificado com o decorrer de nossa história, o que pode nos levar a pensar a maternidade como um comportamento social, que se ajusta a um determinado contexto sócio-histórico (Badinter, 1985).

De fato, a maternidade pode ser concebida como uma construção sócio-histórica que transcende a pura questão biológica, e como tal pode ser pensada a partir do referencial de estudo da representação social. Moscovici (1978) observa que as representações sociais são uma modalidade específica de conhecimento que tem por função a elaboração e comunicação entre os indivíduos, nas quais o desconhecido torna-se familiar e o imperceptível perceptível. Elas se formam a partir das interações do indivíduo com a sociedade, promovendo transformações recíprocas. Essa forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, oferece possibilidades de construção de uma realidade comum a um conjunto de pessoas. Não há uma divisão entre elementos individuais e coletivos de uma representação, uma vez que toda representação tem sua origem na interação social dos indivíduos com a sociedade. Na verdade, o processo de gênese as representações tem lugar nas mesmas circunstâncias, e ao mesmo tempo, em que se manifestam (Sá, 1998). Elas são construídas tanto a partir de teorias do senso-comum decorrentes das práticas cotidianas, como a partir do conhecimento produzido na academia que se incorpora ao cotidiano dos indivíduos. Nesse sentido, buscaremos resgatar alguns concepções sócio-históricas relacionadas a imagem materna para melhor compreendermos esse fenômeno.

O conceito de maternidade perpassa a questão da imagem da criança ao longo dos séculos. Foi na França do século XVIII que começaram as transformações na imagem da maternidade. Nesse período, as mulheres iniciaram um movimento de mudança que as levou a buscar novos espaços e ambicionar novos horizontes. Assim, os filhos poderiam representar uma ameaça à sua liberdade. É também nesse período que a criança passou a ter um lugar mais privilegiado na família (Áries, 1981). A família distanciou-se da sociedade e confinou-se, cada vez mais, em uma vida particular.

O século XVIII, mais precisamente em seu último terço, foi marcado por uma revolução de mentalidades e por uma reformulação da imagem de mãe, de seu papel e de sua importância (Badinter, 1985). A mãe passou a ocupar um outro lugar na família, relativizando o poder paterno, até então exclusivo. Como reação a essas novas idéias, surgiram diversas publicações que recomendavam às mães que cuidassem pessoalmente de seus filhos e que fossem mães antes de tudo, surgindo daí o mito do instinto materno ou do amor espontâneo de toda mãe por seu filho, que é bastante contestado por Badinter (1985). Na verdade, três discursos foram necessários para que as mulheres "voltassem a conhecer a doçura do amor materno e para que seus filhos tivessem maior probabilidade de sobrevivência: um alarmante discurso econômico dirigido aos homens esclarecidos, um discurso filosófico comum aos dois sexos e um discurso exclusivo às mulheres" (Badinter, 1985, p.149).

Surgiu, então, a idéia do amor-amizade como base das relações entre os casais; a mulher "transformou-se" numa pessoa doce e sensata, de quem se esperava comedimento e indulgência. A nova mãe amamentava seu filho por seu próprio prazer, tendo como recompensa uma infinita ternura. A mãe passou a ter, então, cada vez mais responsabilidade pela felicidade e infelicidade dos filhos. Nessa concepção de maternidade, o amor de mãe estaria na origem da criação do ninho afetivo (Badinter, 1985).

O bebê e a criança passaram a ser objetos privilegiados da atenção materna, e a mulher passou a sacrificar-se para que seu filho vivesse junto dela. A partir do século XIX, então, surgiram testemunhos de progresso no aleitamento materno e de uma maior dedicação e atenção da mãe para com o filho, sendo que aquela passou a aceitar, cada vez mais, restringir a própria liberdade em favor da liberdade do filho. Os carinhos maternos, a liberdade do corpo e as roupas adequadas e bem-feitas são as provas de um novo amor pelo bebê. A nova mãe passou a ter mais tempo para o filho e, segundo Badinter, é o fator "tempo" que melhor marca a distância entre a geração dessas mulheres e a de suas mães.

Como vimos, a maternidade adquiriu um outro significado. A mãe passou não só a ter o papel de zelar pela saúde física de seu filho, mas também a ser responsável pela educação dos filhos. Badinter (1985) também aponta que uma nova responsabilidade de mãe surgiu no século XX: o inconsciente e os desejos do filho. Com base nos preceitos da psicanálise, a mãe foi promovida à "grande responsável" pela felicidade de seu rebento. A mulher "enclausurada em seu papel de mãe, não mais poderá evitá-lo sob pena de condenação moral" (Badinter, 1985, p. 238). Em virtude de tanta responsabilidade, surgiu a culpa como forma de condenação às mulheres que não sabiam ou não podiam realizar o papel de mãe com perfeição. As mulheres que se distanciassem do modelo "ideal" de mãe poderiam ser acusadas de egoísmo, maldade e até de desequilíbrio.

 

TRANSFORMAÇÕES NA FAMÍLIA BRASILEIRA

A família é uma instituição social que se modifica de acordo com as transformações sociais mais amplas. Diversos estudos indicam que estão ocorrendo mudanças na estrutura familiar brasileira (Almeida, 1987; Benincá & Gomes, 1998, Figueira, 1991; Nicolaci-da-Costa, 1988). Essas transformações decorrem especialmente da participação da mulher no mercado de trabalho, devido às exigências econômicas atuais e à veiculação de uma nova imagem de mulher nos meios de comunicação de massa.

Em especial, os valores, as relações e as práticas sociais envolvendo a família passaram por substanciais mudanças nas últimas décadas (Figueira, 1991). Nos anos 50, o modelo de família predominante era hierárquico, ou seja, a identidade dos membros era definida a partir da posição que ocupavam em relação ao poder patriarcal dominante. Nesse modelo, homem e mulher, pais e filhos são diferenciados a partir de normas e regras que sancionam o certo e o errado, o normal e o desviante. Essa estrutura foi gradativamente se modificando, embora não tenha desaparecido completamente. Em meados dos anos 80, um novo ideal de família começou a se delinear. É uma família mais igualitária, que demarca idiossincrasias. Não existe, como no modelo anterior, uma figura de poder que determina posições no sistema. Os membros da família são percebidos como iguais, com direitos similares, embora as diferenças sexuais e etárias se encontrem presentes. Instaura-se um ideal de liberdade e respeito à individualidade de cada um. Esvanecem as fronteiras de certo e errado, normal e desviante. Ambos os modelos coexistem em nossa sociedade, ainda que de maneira conflitante. O indivíduo convive tanto com valores "arcaicos" (predominantes em famílias hierárquicas) como "modernos" (associados a famílias igualitárias, marcadas pela ideologia do individualismo). Esses dois referenciais encontram-se presentes na legitimação e/ou transformação das práticas sociais (Figueira, 1991).

Figueira (1991) observa a "coexistência de mapas, ideais, identidades e normas diferentes e contraditórias inscritos em níveis diferentes e relativamente dissociados dentro do sujeito" (p. 22). Nicolaci-da-Costa (1988) cita que os mapas internalizados durante o processo de socialização primária e rejeitados pelo sujeito quando este adquire mapas mais recentes através da socialização secundária não são erradicados ou integrados a estes mapas, mas sim deslocados para um nível mais inconsciente. Essa não-erradicação se dá porque os primeiros mapas foram internalizados através da identificação com os agentes socializadores primários. Contudo, os mapas recentes predominam devido a sua proximidade com o cotidiano, uma vez que estão mais presentes na sociedade.

 

PROCESSOS INTERGERACIONAIS NA REPRESENTAÇÃO DA MATERNIDADE

Dentre os estudos brasileiros que enfocaram o fenômeno da concordância intergeracional na maternidade, especificamente, destaca-se o de Almeida (1987), que realizou um estudo comparativo de universos simbólicos entre as mães dos anos 50 e mães dos anos 80. O estudo baseou-se em entrevistas com dez mães que experienciavam a primeira gravidez, com idades entre 25 e 30 anos, e suas respectivas mães.

Foi observado que na década de 80 eram realizadas práticas "alternativas" de preparação e de acompanhamento da maternidade, na tentativa de um projeto de uma nova maternidade, buscando negar ou diferenciar-se dos esquemas de referência intimamente ligados à transmissão de experiências já vividas e provados por mulheres da família. Houve uma forte predisposição no grupo de mães dos anos 80 a se distanciarem da ameaça de reprodução do modelo de maternidade de suas mães (Almeida, 1987).

Esta mesma autora cita que a mãe dos anos 50 (ao se tornar avó) tendia a exercer um poder autoritário sobre a filha, na tentativa de impor seus padrões de referência básicos relativos à maternidade. Entretanto, ao ver-se impossibilitada de fazê-lo, porque a filha a confrontava e evitava, a mãe se transformava por reação e se identificava com a causa da filha. A autora observou, inclusive, uma desvalorização da experiência e uma avaliação negativa dos seus modelos de maternidade, quando comparados com as representações destas mesmas experiências vividas pela filha. Nas palavras de Almeida (1987), "o processo de identificação da mãe dos anos 50 com a filha, na década de 80, transcorre mantendo-se a hierarquia e autoridade legítimas como procedimentos lógicos, mas invertendo-se as posições dos agentes em jogo" (p.113). Os resultados deste estudo indicam que a nova maternidade não se desvincula da antiga; o que ocorre é uma substituição das autoridades tradicionais (família) por "novas autoridades" (médicos e psicólogos, por exemplo), que propiciam a experiência de "escolha e opção pessoal" perante uma imensa rede de mecanismos e estratégias disciplinares.

Benincá e Gomes (1998), em uma investigação sobre as mudanças ocorridas na estrutura familiar, identificaram três importantes modificações: as transformações nas regras de coesão e socialização familiar, a ampliação do espaço da mulher na vida familiar e profissional, com a redefinição da função paterna, e as alterações nos valores educacionais. Os autores observaram que na segunda geração de mães por eles estudada, havia delimitação de espaços e identidades dentro do grupo familiar. Com o reconhecimento das diferenças individuais, iniciou-se um questionamento e experimentação em relação à educação dos filhos. A obediência incondicional transformou-se em certa reciprocidade e respeito às necessidades individuais e grupais. A terceira geração, iniciada na década de 60, apresentou o diálogo e o aumento da proximidade afetiva como grandes inovações.

Outros dois estudos (Trindade, 1993; Trindade, Andrade & Souza, 1997) buscaram discutir as representações de maternidade e paternidade na família brasileira. Ambos os estudos indicam que predominam nessas representações os aspectos relacionados aos modelos tradicionais de maternidade e paternidade. Trindade (1993) observa que as mulheres são defensoras do modelo de maternidade inventado pelos homens, no qual são tanto opressoras quanto oprimidas. Contudo, não podem ser vistas como meras receptoras da ideologia do instinto materno e do sacrifício. Elas buscam preservar seus espaços e exercer seus direitos como indivíduos.

O presente estudo buscou investigar as representações de maternidade de jovens mães e das mães destas, focalizando três dimensões: a representação de si mesma como mãe, a representação de sua própria mãe (ou filha) como mãe e a representação de como uma boa mãe deveria ser. Foi também objetivo deste estudo identificar possíveis concordâncias e discrepâncias entre essas imagens internalizadas das jovens mães e suas mães no que se refere às suas percepções sobre as três dimensões estudadas.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram deste estudo 10 jovens mães (com idade entre 18 e 25 anos) e suas respectivas mães (com idade entre 46 e 52 anos), provindas dos estratos socioeconômicos médios da população. As mães jovens tinham um único filho, que, na maioria dos casos, encontrava-se no primeiro ano de vida. Não moravam com seus pais, sendo nove delas casadas. A maioria destas jovens mães estudavam, e trabalhavam durante o período em que foram realizadas as entrevistas. Suas mães eram casadas e tiveram entre 2 e 5 filhos. Algumas dessas mães trabalhavam fora, outras eram apenas donas-de-casa1. A amostra foi contatada segundo a indicação de pessoas conhecidas.

Instrumento e procedimentos

O instrumento utilizado foi uma entrevista semi-estruturada. A entrevista buscou obter alguns dados pessoais e avaliar a representação da maternidade das jovens mães e suas mães. Para a avaliação da representação da maternidade foram enfocadas três dimensões: 1) você como mãe; 2) a sua mãe como mãe (ou sua filha como mãe); e 3) como uma boa mãe deveria ser. Foi solicitado às participantes que descrevessem as características principais de cada uma das três dimensões. Para cada característica citada pedia-se à entrevistada que indicasse também qual o seu oposto. O oposto foi solicitado com o objetivo de explicitar ao máximo as características citadas. As entrevistas foram realizadas individualmente nas casas das participantes, sendo gravadas em audioteipe e transcritas para análise.

 

RESULTADOS

Foi realizada uma análise de conteúdo das características citadas pelos dois grupos (mães e mães jovens), conforme proposta de Bardin (1994). Foram identificadas três categorias principais: "Investimento afetivo", "Características de personalidade" e "Regulação e controle do comportamento do filho". A categorização foi feita conjuntamente com três outros codificadores, por consenso.

A categoria "Investimento afetivo" congregou todas as características citadas que faziam referência a sentimentos e afetos. Já "Características de personalidade" agrupou as citações das participantes que indicavam características pessoais vinculadas à representação da maternidade. "Regulação e controle do comportamento do filho" reuniu todas as citações que indicavam práticas maternas disciplinares e educativas.

Na Tabela 1 são apresentadas as principais características citadas pelas jovens mães e suas mães para as três dimensões. Tanto as jovens mães como suas mães utilizaram predominantemente a categoria "Investimento afetivo" para a descrição das três dimensões: "Você como mãe", "Sua filha/mãe como mãe" e "Boa mãe". "Características de personalidade" foi a categoria menos citada em ambos os grupos.

 

 

As jovens mães utilizaram preferencialmente a característica "Dedicação" na categoria "Investimento afetivo", e "Paciência/calma" em "Características de personalidade", para a descrição de si mesmas como mães, de suas mães como mães e de como uma boa mãe deveria ser. Já na categoria "Regulação e controle do comportamento do filho" aparece a maior diferença entre a representação de si como mãe e a representação de sua mãe como mãe. As jovens mães valorizaram o "Incentivo à autonomia" tanto para autodescrição como da "Boa mãe", enquanto percebem suas mães como cobrantes e exigentes. Suas mães valorizaram a característica "Disciplina/educação" para a descrição das três dimensões, sendo que se percebem como incentivadoras da autonomia da filha, algo não reconhecido através da descrição das jovens mães.

Abaixo encontramos uma descrição qualitativa das características acima mencionadas, bem como os seus opostos que, em alguns casos, oferecem um melhor esclarecimento do modo como as mães e jovens mães compreendiam cada uma das características. Como serão extraídos trechos das entrevistas, as descrições podem, em alguns momentos, trazer a sobreposição de mais de uma categoria.

Dedicação

A característica dedicação congrega a dedicação, os cuidados físicos e emocionais que uma mãe deve dispensar ao seu filho. Em alguns momentos esta dedicação é supervalorizada, de maneira que se torna difícil para as próprias mães cumprirem suas expectativas.

"Ela é uma mãe que zela muito pelo cuidado da filha em tudo, em todos os pontos. Acho que ela zela, zela pela alimentação da menina, pela roupinha da menina. Olha se a menina está bem. Ela é bem preocupada em relação à filhinha. Não consegue dormir enquanto a filha não vem da creche ou está sempre de orelha em pé. Ela está preocupada com o futuro, de estar bem também financeiramente para poder dar um conforto bom para filha". "Eu diria que o oposto de uma mãe preocupada, que zela muito seria aquela que deixa tudo correr. Tipo oba-oba. Vai passando e ela vai levando e não se preocupa com coisa nenhuma. Deixa tudo correr à solta, não tem visão assim das coisas". ( Sua filha como mãe - Mãe: Carla)

"Ela está conseguindo conciliar todo o trabalho de uma casa e a criação desse filho sem a ajuda de ninguém. É uma mãe que mantém a criança sempre limpa, sempre cheirosa, sempre bem-alimentada. Ela cuida do filho". O oposto seria uma mãe relapsa, seria uma mãe que estivesse sempre se lastimando, sempre lamentando, se desgraçando. Uma pessoa que estivesse sempre se lamentando pelo fato de ter que se dedicar para a casa e para o filho." (Sua filha como mãe - Mãe: Isabel)

"Eu acho que eu procuro ser o máximo de dedicada possível, embora seja um pouco impossível aquela dedicação total que eu gostaria de dar, porque eu tenho que trabalhar e estudar." O oposto seria: "Uma mãe não dedicada, que não procura proporcionar o máximo para o seu filho." (Você como mãe - Jovem mãe: Ariane)

"Eu acho que a minha mãe ... o maior defeito dela como mãe é uma supermãe, que eu acho que é uma qualidade também, mas é que às vezes pode prejudicar também. Então eu acho que ela nasceu para criar os filhos, para ser boa mãe. Eu acho que é uma qualidade e um defeito ao mesmo tempo, porque ela até tem um pouco pode ter errado, pode ter dado demais... é isso. Que às vezes já certos problemas de relacionamento meu com ela. Às vezes eu não aceito a superproteção dela, que ela quer que eu seja assim, e no fundo eu acabo send,o porque eu fui criada assim. Então eu conservo muita coisa, só que às vezes a gente entra em atrito, porque às vezes ela quer exigir mais do que eu posso". O oposto seria: "Eu acho que seria uma mãe que só se preocupa consigo e não tá nem aí para os filhos ou só pensa em si ... Eu acho que tem que haver um meio-termo, nem uma coisa nem outra. Eu acho que tu deves ter uma preocupação contigo e com o filho junto. Porque se tu não estiver bem, tu vai acabar não transmitindo boas coisas. O filho vai sentir que a mãe não tá bem como mãe. Porque mais tarde vai cobrar que não fez as coisas por causa do filho." (Sua mãe como mãe- Jovem mãe: Ariane)

Carinho

A característica Carinho refere-se mais ao suporte físico e emocional que a mãe oferece ao filho para este se sentir amado e valorizado.

"Por este lado dela ser carinhosa com a gente, amiga, sempre entendendo". O oposto seria: "uma mãe que deixa o filho inseguro, na hora que tu precisas cai fora, não tem uma palavra amiga para dizer." (Sua mãe como mãe - Jovem mãe: Tais)

"Uma mãe que pega os filhos nos braços, acaricia". O oposto seria "uma mãe que não pega, não aperta, não acaricia". (Boa mãe - Jovem mãe: Taiane)

"Ela é uma mãe carinhosa, que dá presentes". O oposto seria: "Uma mãe que não compartilha com esta parte infantil de ganhar presentes, que não agrada o filho, que não atende o filho. Não faz um agrado, um carinho, um elogio. Não incentiva a criança a ter vaidade". (Sua Filha como mãe- Mãe: Alice)

Voltada para si/Voltada para o filho

Essa categoria explicita o dilema que as mães têm entre o ideal de dedicação única e exclusiva para o filho e as próprias necessidades pessoais. Essa característica, apesar de ter sido utilizada pelos dois grupos de mães, apresenta certa diferença valorativa entre os grupos. As jovens mães, mais que suas mães, expressam a necessidade de uma preservação do espaço pessoal diferenciado do papel de mãe, como exemplificam as referências feitas em relação aos estudos e trabalhos fora de casa.

"Uma mãe que renuncia às coisas da vida para assumir os filhos. Bloqueia as coisas da vida dela em virtude dos filhos". O oposto seria: "Uma mãe que quando surge a oportunidade dela ser feliz, ou mesmo no caso de separação, quando surge uma outra pessoa, ela aceita esta pessoa, embora esteja contrariando os filhos. Os filhos estão revoltados por causa daquilo e ela continua fazendo. Só pensa nela e não nos filhos" (Boa mãe - Mãe: Alice)

"Eu sou uma mãe que se doou para os filhos, eu os coloquei em primeiro lugar em tudo". O oposto seria: "Uma mãe que se coloca sempre em primeiro lugar. É egoísta." (Você como mãe - Mãe: Elsa)

"Ela é uma mãe que procura fazer o melhor para a família." O oposto seria: "Uma mãe que procura fazer o melhor para si". (Sua mãe como mãe - Jovem mãe: Taiane)

"Uma mãe que reparte o seu espaço com a criança. Sabe conviver com a criança" O oposto seria: "Preenche a vida só com o estudo. Faz o possível para não estar com o filho."(Boa mãe - Jovem mãe: Silvia)

"É difícil me descrever, eu acabo não conseguindo me colocar muito na situação de mãe. Eu vivo uma vida tão agitada em função da profissão e do estudo. (...) A Isa é uma companheira, vamos dizer é uma pessoa que faz parte da minha vida, que convive comigo que reparte meus momentos. (...) Eu me preocupo muito com a Carol. (...) Eu acho que eu sou egoísta, eu não gosto de ver ela brincando com outras pessoas. Se ela tá brincando ela não está precisando de mim. (...) [Pesq: Tu achas que tu és egoísta porque tu te sentes rejeitada?] Eu acho que sim. Deixa eu ver, eu acho assim, eu não abro mão do tipo de roupa, de coisas que eu poderia comprar para mim em função dela. Eu quero que ela esteja bem-vestida, até parece que eu estou repetindo a mesma situação da minha mãe. Mas então eu não abro mão nesse sentido nem do serviço, nem do estudo, de estar comprando coisas pra mim e pra ela. (...) Eu gosto de fazer, de procurar levar ela em todos os lugares. (...) Eu reparto os momentos que eu tenho ao lado dela." (Você como mãe - Jovem mãe: Ivana)

Paciência

Essa característica refere-se à paciência, tanto emocional quanto física, que as mães devem possuir para educar seus filhos.

"Eu sou calma. Conforme as coisas vão acontecendo, você vai resolvendo. (...) Uma mãe tranqüila, que passa tranqüilidade para o filho". O oposto seria: "Uma mãe que antecipa as coisas antes delas acontecerem. É insegura, instável". (Você como mãe - Mãe: Julia:)

 "Eu sou paciente. (...) Uma mãe paciente, não bate nos filhos." O oposto seria: "Uma mãe que espanca, não consegue medir as reações dela". (Você como mãe - Jovem mãe: Taiane)

"Calma." O oposto seria: "qualquer coisinha dá uns tabefes, não entende". (Você como mãe - Jovem mãe: Elke)

"Uma mãe pacata" O oposto seria: "uma mãe explosiva". (Boa mãe - Jovem mãe: Elke)

"Uma mãe que sabe relacionar as coisas: serviço da casa e a atenção que a criança precisa." O oposto seria: "uma mãe que não tem ‘saco’". (Você como mãe - Jovem mãe: Silvia)

Maturidade

Essa característica foi utilizada apenas pelo grupo das mães para descreverem suas filhas, talvez devido à idade das jovens mães. Parece que para estas mães, "Ser mãe" implica em responsabilidades, que deve-se estar preparada para assumir.

"Ela é uma mãe madura". O oposto seria "A imaturidade. Uma mãe que não assume o filho, que não está preparada psicologicamente para assumir o filho. Não está apta para cuidar, dar amor e afeto." (Sua filha como mãe - Mãe: Julia)

"Ela é amadurecida". O oposto seria: "Um mãe imatura". (Sua filha como mãe - Mãe: Elsa)

Auto-estima

A auto-estima refere-se à autovalorização pessoal que a mãe deve possuir. É interessante observarmos que ela é apenas utilizada pelo grupo de mães para a descrição da "Boa mãe". Isso pode indicar que essas mães, de certa forma, concordam com suas filhas em que é necessária a valorização de um espaço pessoal próprio diferente da maternidade.

"Uma mãe que se ama e ama os filhos". O oposto seria : "Quando ela se detesta, a ela mesmo e aí ela deixa influenciar, se pode perceber até na conduta dela com os filhos. Eu acho que ela deixa transparecer que não se ama e não ama os filhos". (Boa mãe - Mãe: Carla)

"Pra ser boa filha, boa amiga, boa mãe, ela tem que ter uma criação amorosa. Ela tem que ser produto do amor. Eu acho que ela se amando, ela vai amar. A mãe tem que encarar a vida assim como uma coisa linda a ser vivida, nunca uma questão a ser resolvida." O oposto seria: "Uma mãe, uma menina que não teve isso, é difícil ela saber dar". (Boa mãe - Mãe: Isabel)

Disciplina/Educação

Essa característica refere-se tanto à necessidade de disciplina quanto às práticas educativas que a mãe deve possuir em seu repertório de comportamentos.

"Ela é uma mãe que quer educar o filho para que todos lhe admirem a criança. Ela quer que os outros olhem o seu filho com bons olhos, com uma boa impressão". O oposto seria: "Uma mãe desligada que deixa o filho fazer o que quer, que não dá a mínima. Não corrige a criança no que ela está fazendo de errado. Se a criança suja algo ela vai e limpa, acha normal e não mostra que está errado, não se importa em educar a filha". (Sua filha como mãe - Mãe: Alice)

"Ela é uma mãe que procura puxar bastante por minha filha. Ensinar as coisas para ela. Dar uma didática". O oposto seria uma mãe que: "Não toma conhecimento do filho, não procura a ensinar a falar, caminhar. Deixa a filha crescer como uma plantinha, que só precisa de sol. A filha parece brotar ao seu lado". (Sua filha como mãe - Mãe: Sandra)

"Uma boa mãe deve tentar fazer com que a criança tenha bons amigos, bons relacionamentos, fornece meios para a criança se desenvolver". O oposto seria: "Não sei,o acho que no meio que tu colocas o teu filho assim, oh, seria o oposto, solta na rua, ficar na rua até tarde brincando. Dar uma liberdade para criança não é legal, a criança deve ter seu horário, horário de janta, hora de dormir, essa proteção. Tu tem que ensinar essas coisas". (Boa mãe - Jovem mãe: Taiane)

Incentivo à autonomia

Essa característica refere-se tanto ao incentivo que as mães dão a seus filhos para realizarem escolhas como à autonomia que elas permitem que os filhos possuam em seu comportamento. Refere-se da mesma forma a uma capacidade pessoal que as mães devem possuir, de aceitar e incentivar o crescimento dos filhos.

"Eu procuro deixar meus filhos escolherem o caminho. Não bloqueio o filho." O oposto seria: "É uma mãe que quase obriga o filho a seguir aquilo que ela quer. Tenta escolher a profissão, o namorado da filha. Não deixa a filha escolher o seu caminho". (Você como mãe - Mãe: Alice)

"Eu deixo ele experimentar, eu deixo ele fazer as coisas, mas cuido, né. Eu quero que ele aprenda a fazer as coisas por ele. Mas só deixo ele fazer até onde ele pode, tem um limite, né". O oposto seria: "Uma mãe que deixa o filho preso num chiqueiro ou que deixa ele experimentar tudo, não dá limites". (Você como mãe - Jovem mãe: Silaine)

"Ela compreende os filhos, aceita os filhos como eles são. Estimula os filhos para a vida. Estimula suas iniciativas profissionais, de estudo. Ela cria os filhos para a vida, sabe que eles vão crescer". O oposto seria: "O contrário seria uma mãe que queria coisas para si e não viveu, ela quer que os filhos façam. Ela não aceita, não entende as idéias dos filhos que não se adaptam a esse modelo. Traça um caminho para o filho independente da vontade dele. É uma mãe que não solta, não deixa o filho seguir em frente. Acha que o filho é um eterno neném". (Boa mãe - Mãe: Julieta)

Cumprir obrigações

Essa característica refere-se às responsabilidades e obrigações associadas à maternidade e, de uma maneira geral, ao papel da mulher dona-de-casa. É interessante observar que ela é somente citada pelo grupo de mães, o que sugere que elas ainda se encontram mais vinculadas a esse papel que suas filhas.

"Eu acho que mãe deve ser mãe. Tu tens que fazer uma opção pela família, deve colocar os filhos em primeiro lugar. Tem que ser consciente que no momento que tu tens um filho, tu vai ter responsabilidades". O oposto seria: "Uma mãe que quer ter os filhos e depois não quer assumi-los, esquecem que têm obrigações a cumprir com esse filho. Não tomam nem conhecimento". (Você como mãe - Mãe: Sandra)

"Eu sei dos meus deveres da casa. Fazer comida, lavar roupa, cuidar dos filhos" O oposto seria: "Uma mãe descuidada, despreocupada, que não tá nem aí. Não cumpre suas obrigações". ( Você como mãe - Mãe: Carla)

Cobrança/ Exigências

Aqui encontramos a descrição, feita pelas jovens mães, de suas mães. Essas jovens consideram que as mães podem realizar tanto cobranças excessivas (ver o depoimento de Ariane na característica dedicação) quanto às cobranças necessárias ao bom desenvolvimento dos filhos.

"Ela exige aquilo que os filhos têm condições de dar. Ela cobrava determinadas tarefas em casa e na escola" O oposto seria: "Uma mãe que é pouco exigente em relação às obrigações do filho."(Sua mãe como mãe - Jovem mãe: Caroline)

"Eu acho que uma das qualidades também é que minha mãe nunca foi uma pessoa assim de fazer cobranças, acho que isso é uma qualidade nas pessoas. [Pesq: Como assim, não fazer cobranças?] Cobranças em vários sentidos (...) porque tu não fez isso ou porque tu deixou de fazer aquilo". O oposto seria: "Uma mãe muito exigente". (Sua mãe como mãe - Jovem mãe: Taiane)

 

DISCUSSÃO

Foi observada nas entrevistas uma dificuldade das jovens mães em descreverem a si mesmas como mães. Muitas delas espontaneamente falaram de tal dificuldade, sendo que algumas enfatizaram o pouco tempo de maternidade como responsável por isto, enquanto outras associaram-na ao fato de ser mais difícil falar de si mesmas do que dos outros. As mães também sentiram dificuldade de descrever suas filhas como mães, devido ao pouco tempo de maternidade das filhas. Além disso, constatou-se certa impaciência e ansiedade de algumas participantes quando lhes era pedido que descrevessem o oposto das características citadas.

Nos dois grupos, a freqüência de características citadas para descrever a boa mãe foi menor do que a freqüência de características utilizadas para as outras dimensões, o que pode ter uma explicação com base na metodologia aplicada, na qual tais características eram perguntadas por último e as pessoas já haviam descrito a si mesmas como mães e suas mães/filhas como mães. Dessa forma, ou repetiam características já citadas, ou simplesmente citavam poucas características. Algumas mães, ao falarem da boa mãe, disseram que esta deveria ter as mesmas características que elas próprias, acrescentando ou suprimindo uma ou outra característica.

As categorias "Investimento afetivo", "Características de personalidade" e "Regulação e controle do comportamento do filho" são em parte similares à classificação de Trindade, Andrade e Souza (1997). Neste estudo foram encontradas as categorias Afeto, Relacionamento positivo, Atributos pessoais, Orientadora e provedora, Boa esposa e Boa dona-de-casa como vinculadas à representação da maternidade. Na pesquisa de Trindade, Andrade e Souza (1997) a representação foi avaliada a partir dos depoimentos de 80 pais, divididos em 4 grupos, conforme a escolaridade e o momento histórico em que se tornaram pais, o que pode explicar a emergência de outras duas funções femininas relacionadas à maternidade (esposa e dona-de-casa). Os achados desses dois estudos parecem apontar para a maternidade como estando relacionada a três aspectos principais: afetividade, educação dos filhos e características pessoais.

Foram constatados alguns padrões de semelhança entre as características utilizadas pelas filhas e mães para descreverem-se a si próprias como mães, as suas mães/filhas e a boa mãe. Em contraste com as pesquisas de Almeida (1987), não encontramos em nossa amostra uma desvalorização das experiências das mães em relação a elas mesmas ou das filhas em relação às suas mães. Além disso, observamos em nossa amostra que as mães ainda exerciam atividades similares às das filhas em relação à maternidade, uma vez que auxiliavam no cuidado dos netos, estabelecendo-se uma relação de cooperação entre ambas.

Os dois grupos estudados vivenciaram sua maternidade em momentos históricos diferentes. As entrevistadas do grupo de mães foram adolescentes nas décadas de sessenta e setenta, um período histórico bastante particular, no qual realmente era importante romper com valores estabelecidos e construir novos valores. No entanto, o conflito esperado em relação à maternidade não ocorreu. Esperávamos, ao contrastar os dois grupos, que se observassem diferenças em relação à busca de autonomia e distanciamento de sua mãe. Não se evidenciou nenhum tipo de contestação de modelos de maternidade no grupo de mães jovens. Nenhuma delas manifestou desejo consciente de ser diferente de suas mães.

No tocante às relações mãe-filha, é interessante observar que praticamente não apareceram características com conotação negativa nas descrições de "Sua mãe/filha como mãe". Ao descreverem esta categoria, tanto as mães como as jovens mães procuraram ressaltar o lado bom de sua relação, não se referindo a problemas ou discordâncias entre elas. Tal fato pode estar ligado a certa idealização da relação mãe-filha, considerando-se a extensa descrição de conflitos entre mães e filhas encontrada na literatura, conflitos estes que não se evidenciaram no discurso das participantes deste estudo. Por outro lado, alguns autores (Arcana, 1984) questionam a noção de que a relação mãe-filha é necessariamente ruim e conflituosa. Arcana (1984) acredita que essa imagem de relação conflitante é socialmente construída, sendo parte de uma desvalorização social sistemática das mulheres, não deixando que mães e filhas se relacionem umas com as outras com amor e apoio mútuos.

Dedicação e carinho permaneceram como esquemas referenciais básicos da maternidade em ambas as gerações. A maternidade, tal como representada por esta amostra de mães, apoiou-se na visão clássica da mãe ligada ao afeto. Hoje em dia, a nossa cultura define a mãe como alguém que gera uma criança do seu próprio corpo e/ou cria filhos, com a função de nutrir, proteger, ensinar e servir, numa concepção mais individualizada de maternidade, enquanto em sociedades mais antigas observava-se uma função mais socializada do sexo feminino; as mulheres eram as "mães" da comunidade (Reed, 1975, citado por Arcana, 1984). Isso também nos faz pensar até que ponto o contexto histórico atual ainda privilegia um ideal de mãe dedicada, preocupada e cuidadosa que, de acordo com Badinter (1985), teria surgido no final do século XVIII e início do século XIX.

Fatores relacionados às características particulares da amostra deste estudo devem ser levados em consideração na discussão dos resultados do presente estudo. Um deles seria o fato de que todas estas jovens mães têm filhos pequenos, o que por si só já exige uma presença maior da mãe na relação com o filho, uma vez que as necessidades das crianças estão mais a cargo da mãe. Isto pode explicar o fato de as jovens mães valorizarem a "Dedicação" para a descrição das três dimensões. Outro dado importante é que a maioria das mães trabalhavam ou estudavam, passando grande parte do seu tempo longe dos filhos, o que provavelmente determina uma maior preocupação em se dedicar aos filhos nos momentos em que estão juntos.

Por outro lado, os resultados apontam para a emergência de novos valores relacionados à maternidade. Por exemplo, na regulação do comportamento do filho, a disciplina não foi valorizada pelo grupo de jovens mães como o foi pelas suas mães. As filhas ressaltaram a importância do incentivo à autonomia do filho, além de demonstrar preocupação em dedicar um espaço para si próprias e para o filho. Algumas jovens utilizaram-se desse contraste para descreverem as suas mães e a si próprias como mães. Enquanto percebiam suas mães como mais voltadas para os filhos, as jovens mães procuravam conciliar esses dois pólos. Ao desejo de dedicar-se aos filhos contrapunha-se o desejo de ter um espaço para si próprias. Uma das mães, por exemplo, mostrou valorizar seu espaço próprio: "Não abro mão nesse sentido nem do serviço, nem do estudo". Porém, fez questão de ressaltar a existência de um espaço para a filha: "reparto os momentos que eu tenho ao lado dela (filha)". Langer (1976) enfatizou que no final do século passado e início deste século praticamente toda a fantasia das meninas se concentrava na futura vida matrimonial e na educação de seus filhos. É a partir da Primeira Guerra Mundial, quando muitas mulheres foram impelidas a sair de casa para trabalhar, que começa a emergir nas mulheres o desejo de buscar um espaço para si. Por volta de 1950, já existiam muitos caminhos abertos para as mulheres, mas estas ficavam indecisas entre viver a vida de "antigamente" e seguir uma carreira. Atualmente, um número maior de mulheres procura dividir-se entre as opções de ter filhos/família e trabalhar. Nesse sentido, os resultados de nosso estudo estão de acordo com as idéias de Lessa (1996), para quem a identidade feminina não está mais circunscrita à maternidade. O desempenho de atividades profissionais, embora experenciado em meio de conflito, é hoje parte importante do projeto de vida feminino.

Apesar de pouco freqüente, a categoria "Características de personalidade" é interessante, na medida que sugere que, além das características inerentes ao papel de mãe, algumas características pessoais são importantes na representação da maternidade. Em contrapartida, a pouca referência a esta categoria pode sugerir que a maternidade é definida na relação com o filho, não sendo uma característica individual do sujeito.

Não foi surpreendente que a representação das mães desta amostra estivesse associada a valores de dedicação e orientação dos filhos, concepções e papéis tradicionalmente associados à figura maternidade em nossa cultura. A maternidade ainda é vista como um fator fundamental e constituinte da identidade feminina, mesmo quando a mulher possui atividades profissionais ou mesmo não pode ter filhos (ver estudos de Lessa, 1996; Szapiro & Féres-Carneiro, 2002; Trindade,1993). No entanto, tomando por base as concepção de representação social, vemos que as mulheres deste estudo não são receptoras passivas de um modelo de maternidade já dado - como o modelo apontado por Badinter (1985), no qual a maternidade estava exclusivamente relacionada ao instinto e sacrifício. As jovens mães desse estudo fizeram questão de enfatizar a importância de realizações de suas atividades profissionais como uma parte significativa de seus projetos de vida, mesmo que essas atividades pudessem dificultar o exercício da maternidade. Essa idéia, de certa forma, foi referendada por suas mães que muitas vezes se ocupavam da criança auxiliando as jovens na implementação de seus projetos de vida (conclusão de uma formação universitária ou desempenho de atividades profissionais fora de casa). Vemos, assim, que a representação social da maternidade não é um processo estanque, mas sim complexo e dinâmico que encontra em transformação.

Por fim, os resultados apontam para uma representação social da maternidade, em ambas gerações, apoiada em uma concepção mais individualizada da maternidade, na qual se privilegia o afeto e o cuidado do filho. As jovens mães indicaram a necessidade de incentivar a autonomia dos filhos, enquanto suas mães valorizaram mais a disciplina/educação dos mesmos. Seria interessante a realização de novos estudos enfocando como a ideologia individualista atual (ver Dumont, 1993) pode estar influenciando as representações contemporâneas de maternidade. De fato, Szapiro e Féres-Carneiro (2002) indicam que a representação da maternidade como parte de um projeto e não como um destino pode estar contribuindo para uma penetração de valores individualistas no interior da família. Para as autoras, a existência de um projeto profissional feminino faz com que a maternidade se torne uma decisão racionalizada e planejada de acordo com as circunstâncias de vida da mulher. Sem dúvida, esta nova racionalidade que parece estar envolvida na representação da maternidade é um tópico que merece novas pesquisas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Rua Professora Luizinha Borges Forte, 110, CEP 91530 610, Porto Alegre- RS.
E-mail: cristcris@hotmail.com

Recebido em 25/07/2002
Revisado em 11/05/2003
Aceito em 30/06/2003

 

 

Os autores agradecem a colaboração de Carolina L. Schulte, Claúdia M. T. Goulart e Renata G. Prosdocimi na fase de coleta e análise dos dados deste trabalho e à Capes o apoio financeiro à pesquisa.

1 Os nomes citados são fictícios.