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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372
On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.9 no.1 Maringá Jan./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722004000100011 

ARTIGOS

 

A psicologia clínica: técnica e téchne

 

Clinical psychology: technique and techne

 

 

Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Presidente do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro. Professora aposentada PUC/RJ. Doutora em Psicologia pela UFRJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A técnica tal como foi abarcada na modernidade tecnológica será descrita e comparada com a téchne no sentido originário, que remonta à antiguidade grega. Para tanto, o pensamento de Heidegger vai ser tomado para nortear e fundamentar as reflexões acerca da técnica e da téchne e assim permitir pensar a clínica psicológica como uma técnica no sentido moderno e como téchne, no sentido originário.

Palavras-chave: técnica, téchne, psicologia clínica.


ABSTRACT

In the present work, technique, as it has been embraced in modern technology, is described and compared to its original Greek meaning, the techne. For such, Heidegger’s thoughts were used to guide and serve as a starting point for the considerations made about technique and “techne”. A clinical psychology parallel was established.

Key words: technique, téchne, clinical psychology.


 

 

INTRODUÇÃO

A psicologia clínica pode se dar em diferentes modalidades, tendo como fundamento postulados teóricos vários. Muitas críticas são dirigidas a esta prática, referindo-se ao paralelismo entre a teoria psicológica que fundamenta uma prática e a prática propriamente dita. Outras teorias escapam a tal crítica, mantendo plena correspondência com a prática e, para tanto, consideram o homem como substância passível de manipulação e aplicam a este homem os princípios da física da natureza. Tem-se, ainda, uma tentativa de buscar os fundamentos da prática clínica na filosofia, e assim não recair no paralelismo nem na objetivação do homem. Este modo de exercer a prática clínica acaba por ser severamente criticado, uma vez que não corresponde às exigências de uma ciência dedutiva ou indutiva.

Percebe-se, então, a dispersão que se dá quando se tenta fundamentar a psicologia e suas práticas. A psicoterapia consiste em um modo de atuação na psicologia que traz à baila muitas discussões e questionamentos acerca da eficácia e eficiência desta prática. Exigem-se resultados que possam ser objetivamente verificados. Há um grande esforço por parte dos estudiosos da psicologia para responder a todas as críticas que lhes são dirigidas. Na maioria das vezes, tenta-se adequá-la aos princípios da física da natureza e sua prática acaba por consistir numa coleção de técnicas modificadoras do comportamento ou de estratégias que permitam a tomada de consciência, na qual melhores resultados são atingidos quanto mais o homem souber de si mesmo.

Como então exercer a clínica psicoterápica quando não se compartilha da idéia de que o homem possa ser entendido como qualquer outro elemento da natureza e, portanto, não passível de manipulação nem de ser alcançado por uma representação? Acredita-se que, ao contrário, tais modos de conhecê-lo obscurecem aquilo que ele mesmo dá a conhecer?

Para poder pensar a psicologia clínica como uma prática pautada no desvelamento, seja a partir de uma representação acerca do psiquismo humano seja considerando o desvelamento a partir das próprias coisas, faz-se imprescindível um breve esclarecimento acerca da terminologia utilizada por Heidegger e, então, fazer um contraponto com alguns princípios da ciência.

Na tentativa de viabilizar uma prática clínica pautada na filosofia da existência,  prescindindo, assim, da fundamentação científica, pretende-se aqui buscar, nas reflexões de Heidegger sobre a técnica, fundamentos para pensar a psicoterapia como técnica no sentido moderno, em que o desvelamento acontece a partir da representação e como téchne em que o desvelamento se dá a partir das próprias coisas.

Heidegger (1958) propõe-se a questionar a técnica e assim pensar em sua essência para que se possa estabelecer uma relação livre com a técnica. Apenas relacionando-se desta forma com a essência da técnica pode-se experimentá-la, e assim não se manter na aceitação incondicional, nem na oposição ou rejeição nem na alienação frente à técnica moderna.

A fim de se pensar sobre a essência da técnica, faz-se pertinente trazer as reflexões de Heidegger (1959) acerca das duas modalidades do pensamento humano: calculante e meditante. Alerta para o perigo a que a humanidade se expõe, quando se volta totalmente para o pensamento que calcula e esquece-se do pensamento que medita.

Esse filósofo refere-se ao abandono do pensamento meditante, característico da modernidade, como falta de pensamento. Diz que no pensamento calculante o homem acredita na razão como perfeição, considerando-se sagaz e proficiente, e ainda que, através de seus cálculos, pode prever e controlar tudo a sua volta. Quando esta forma de pensar predomina, dão-se as objeções com relação ao meditar, que passa a ser considerado como superficial e, portanto, não dá conta da realidade, eque, além disso, não tem nenhuma utilidade de caráter prático. Acredita o homem da ciência que, por se tratar de uma meditação, este modo de pensar faz-se pequeno frente ao pensamento que calcula.

Heidegger, não obstante, descreve o pensamento meditante como algo que se dá mediante um grande esforço, requer sempre horas a fio e engajamento às questões em que se pensa. Exige também que, ao pensar desta forma, o homem se debruce sobre aquilo que lhe é mais próximo e, como tal, passível de esquecimento. Neste modo de pensar, faz-se necessário que o homem não se fixe em apenas um  aspecto das coisas, que não se aprisione a uma representação ou tão-somente a um ponto de vista. Meditar implica em parar diante das coisas e refletir sobre elas, principalmente quando, num primeiro momento, até parecerem ser inconciliáveis.

A fim de poder estabelecer uma relação livre com a técnica, Heidegger sai em busca de sua essência, para tanto vai às origens, medita. Começa o filósofo a pensar a partir dos gregos, que usavam a mesma palavra téchne ao se referir à manufatura e à arte e denominavam tanto o artesão como o artista de techinite. (Heidegger, 1977 )

A discussão de Heidegger sobre a técnica parte do princípio que tanto a técnica no sentido moderno quanto a téchne no sentido da tradição apontam para dois modos de desvelamento e que ambas constituem-se como saber e fazer, mesmo porque qualquer saber que desvele sentido já se constitui em uma dimensão pragmática. E toda e qualquer prática pressupõe uma compreensão prévia, mesmo que ainda não tematizada.

A diferença radical entre a técnica moderna e a téchne no sentido da tradição consiste no modo de desvelamento que cada uma delas proporciona. Na primeira, o desvelar acontece em um desafio à natureza, a realidade torna-se subsistência e o comportamento diante da natureza é a provocação. Na segunda, o comportamento frente à natureza é um deixar-acontecer, sem desafiar e aceitando os limites do acontecer.

Em uma perspectiva metafísica, faz-se necessário definir e enquadrar a técnica como um meio para atingir um fim, e assim considerá-la como algo definitivo, fechado e sob o domínio do homem. Trata-se de uma concepção instrumental e antropológica da técnica. No mundo tal como projetado pela tecnologia científica pode ocorrer um enclausuramento da visão do cientista. Na relação substitutiva que estabelece com o mundo, ele, cientista, acaba por esquecer-se da essência das coisas e, priorizando o pensamento calculante, não deixa margem a outras possibilidades de compreensão.

A causalidade, que pressupõe a busca de fins através de meios alcançados pela instrumentabilidade, em uma interpretação mais originária seria ocasionamento, que consiste em algo que permite que outra coisa aconteça. Para Heidegger (1958), é no ocasionar que reside a essência da causalidade moderna.

Nos quatro modos de ocasionar - formal, material, final e eficiente - oculta-se o “deixar vir à presença”, fundamento de todo produzir (poiesis), tanto referindo-se às coisas da natureza (physis) como às que vêm à presença pelo fazer do homem. A essência da técnica reside no desvelar, onde se fundamenta todo produzir. É na poiesis como modo de manifestação do que se oculta que se dá o desvelamento, alétheia, comumente traduzida como verdade, que na modernidade fala da correspondência entre o real e o representado.  O desvelar da técnica moderna se dá como um desafio à natureza, de modo que seus recursos possam ser explorados e armazenados. Ao modo da téchne, o desvelar se dá no sentido de "levar à frente" (Heidegger, 1958).

Cabe aqui a seguinte questão: a psicologia clínica poderia ser pensada como técnica e como téchne?  A resposta implica em uma breve revisão das diferentes modalidades da clínica psicológica, para assim poder compreender esta prática enquanto um modo de desvelamento de sentido da existência humana nas diferentes teorias e práticas em psicoterapia.

Arrisca-se a afirmar que o psicólogo que acredita nas potencialidades humanas atuará com a técnica capaz de promover mudanças eficazes naquele que parece caminhar na contramão das demandas da modernidade. Tem-se aí a psicoterapia como técnica capaz de promover mudanças, através do fazer psicoterapêutico, na direção previamente determinada, segundo a representação da essência humana postulada pela teoria. Esta teoria pressupõe manejos, que, uma vez efetuados, geram resultados. O real do existir humano é desafiado e constitui-se num recurso a ser explorado, comumente denominado potencial humano, mantendo a ilusão de subsistência, de se alcançar um estado psicológico que garanta a estabilidade .

O psicoterapeuta que vê o homem como abertura, portanto em devir, não se deixando apreender por nenhum sistema e teoria, vai atuar pela téchne, deixando que o homem transpareça a si mesmo ao seu modo e a partir de si mesmo. Assim, o psicólogo não mantém nenhum referencial de verdade nem indica o melhor caminho para tal homem: é este que, no seu desvelar, vai “deixando-se vir à presença”, reconhecendo-se em sua vulnerabilidade.

 

AS REFLEXÕES DE HEIDEGGER: TÉCNICA E TÉCHNE

Heidegger (1958) propõe-se a questionar a técnica tal como é entendida na atualidade. Diz ser necessário que se medite sobre este tema, para que possamos estabelecer uma relação livre com a técnica moderna. Lembra que se relacionar com a técnica não é o mesmo que estar em relação com a essência da técnica. Relacionar-se livremente consiste em poder buscar o sentido mais próprio, tal como entendido pela tradição.

Heidegger (1958) conclui que tanto a técnica como a téchne referem-se à produção do homem . A produção como resultado de uma atividade operatória que se dá de modo tecnológico e maquinário é característica da modernidade. A técnica é regida pelo princípio da causalidade, em que os instrumentos técnicos constituem-se em um meio para atingir um fim.

O homem, através de instrumentos técnicos, produz em série artefatos desafiadores da natureza, tendo como fim a exploração dos recursos naturais. Técnica refere-se, nestes termos, à utilidade prática para fins de acúmulo, consumo, comutação. A produção resultante deste processo circular, para manter a circularidade, passa para a categoria do descartável. Uma vez que ocorra o descarte dos produtos, retorna-se ao processo inicial, ou seja, a produtividade, acumulação e, novamente, descarte. A técnica compreendida deste modo se caracteriza pelo fazer humano com vista à produção, ao acúmulo e ao desperdício; fazer que tem como objetivo dominar e transformar a natureza e extrair dela todos os recursos de que o homem necessita para a produção tecnológica e para a sua subsistência.

Segundo Heidegger (1958), a produção pode também ser abarcada de outro modo, qual seja, téchne. Tomar a técnica como téchne implica em retornar ao sentido que os gregos da antiguidade atribuíam a esta modalidade de produção, que é “levar à frente”.

O desvelar ao modo da téchne consiste em  poder ver algo que ainda não está presente, permitindo que o “ainda não” possa transparecer ao seu modo, tornar visível algo que se mostra de modo invisível.  Téchne, no seu sentido original, refere-se ao conhecimento que se dá pela compreensão, a conhecer no ato de produzir. É o conhecer como modo de reconhecimento e de saber. É fundamento do conhecer na antecipação, para tornar manifesto o que se apresenta por si mesmo. Consiste, portanto, num modo de aparição da verdade (aletheia). Esse modo de desvelamento ocorre um “deixar vir à presença”, no sentido de um “levar à frente”, sem desafiar, sem visar à  subsistência, pois reconhece os limites e os paradoxos da própria existência .

Pode-se, então, tomar a técnica nestes dois sentidos do desvelamento: como desafio e como “levar à frente”. Para melhor explicitar, vale exemplificar a relação que o homem pode estabelecer com um rio cujas águas seguem tranqüilamente seu rumo. O homem pode contemplá-lo, pode navegá-lo, pode transformá-lo em um modo de produção de energia. No primeiro caso, o homem não intervém na natureza, se deixa levar por algo que o transporta sem deslocamento: contempla. No segundo caso, o homem deixa que a natureza do rio se dê ao seu modo e ao modo do rio, e então através do seu artefato se deixa levar, mas não interfere, não desafia. No último exemplo, este homem desafia, manipula e transmuta a natureza de modo que esta possa se tornar um recurso energético a ser explorado como fundo de reserva, para fins de subsistência.

Heidegger (1958) acredita que, apontar para as aproximações e para as diferenças entre técnica e téchne, não é suficiente para alcançar a essência da técnica e, assim, estabelecer uma relação livre com a técnica moderna. A essência da técnica moderna se anuncia naquilo que Heidegger denomina gestell.

Gestell, essência da técnica e herança do homem, não é algo do qual este possa prescindir, pois, como em todo o modo de desvelamento, aí também reside o seu destino. Gestell, traduzido como armação, consiste no modo pelo qual a realidade se desvela como subsistência. Aquilo que subsiste fala do desabrigar do real que garanta a permanência. Refere-se à natureza, considerada como fundo de reserva, portanto algo a ser explorado e armazenado. A realidade desvelada pelo pôr que desafia, passa a ser dominada e não mais surpreenderá o homem, pois assim abarcada, tudo será colocado em segurança e em uma direção previamente determinada. É na armação que reside o maior perigo, já que o destino impera neste modo de desvelamento do real. O perigo está na perda da liberdade frente aos dispositivos técnicos, criação do próprio homem, cuja essência pode se sobrepor à essência do homem, e deste modo, tornar esse homem escravo de sua própria criatura.( Heidegger,1958)

Alertar para o perigo que ameaça a essência do homem consiste em questionar a técnica, pois é neste desvelar que se encontra aquilo que salva. No enviar do destino da armação cresce aquilo que salva: o desvelar da verdade, ao que Heidegger denominou Ereignis, referindo-se à experiência do ser enquanto “acontecimento”. Diz respeito, ainda, ao homem no lugar da escuta e da correspondência ao ser mais próprio. Homem e ser reciprocamente apropriados: acontecimento – apropriação, na dinâmica da realização do real. Esse desvelar da verdade, permite ao homem contemplar a mais elevada dignidade de seu ser e, assim, restabelecer-se, recuperar o sentido das coisas, enfim, salvar-se, na medida que se reconhece em situação paradoxal do próprio existir. Para refletir e interrogar sobre a técnica e alcançar em sua essência aquilo que salva, faz-se necessário reconhecer os limites, não como enquadramento, mas como limite que dá forma, que torna possível  a existência se apresentar na sua realidade.

 

DO EGO COGITO AO DASEIN

A ciência moderna constrói-se pautada no método de Descartes e nos parâmetros de objetividade, determinismos, certezas, verdades inquestionáveis e universais, previsibilidade, superação, iluminismo progressivo, fundamento-razão. Nesta perspectiva cria-se a idéia de um eu interiorizado, que se constitui como sujeito.

É Descartes, realista, que lança os fundamentos da ciência como corpo de verdades teóricas, universais e necessárias, de certezas definitivas, que não admitem erro, correção ou refutação. Descartes, idealista, pressupõe que o avançar da ciência proporcionaria ao homem “Livrar-nos de uma infinitude de moléstias, quer do espírito, quer do corpo, e talvez mesmo do enfraquecimento da velhice, se tivéssemos bastante conhecimentos de suas causas e de todos os remédios que a natureza nos dotou.” (1637 / 1978, p.64). Tudo isto a partir desse sujeito soberano.

Fogel (1996), refere-se ao cogito ergo sum, como constituindo a noção de sujeito que fundamenta toda a técnica moderna - o eu em cuja origem está a superação de todos os limites (hybris) e que em última análise “é a essência e fundamento da técnica moderna.” (p.55). Aí está inserida a rebeldia do sujeito, tomado como senhor de tudo o que há na natureza, frente a toda a situação paradoxal da existência. Acredita na resolução dos paradoxos, pois, através de um método certo e seguro, provaria que a situação circular transformar-se-ia em reta, pela ação da lógica da razão humana. Está certo de que transporia todo e qualquer limite, pois para o sujeito soberano a ausência de limites se daria consoante a sua vontade. Fogel (1996) denomina este voluntarismo do homem moderno de vontade rebelada. É nestes termos que o cogito cartesiano vai fundar a tecnologia. Tem-se aí o sujeito absoluto, poderoso e  construtor de todas as coisas consoante a sua vontade.

Ainda sobre a constituição do sujeito em Descartes, afirma Boss (1971/1988):

Descartes chamou essa substância de res-cogitans – espírito humano, chegando à categoria de sub-jectum, que significa fundamento de todo o restante, a partir do qual tudo ao seu redor é objeto. (p.52).

Heidegger (1927/1989, p. 29) parte da seguinte reflexão: “A impossibilidade de definir o ser não dispensa a questão do seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige”.Com isto, passa a discutir a questão do ser através do seu sentido. Para tanto, enfatiza a ambigüidade ser e ente e acredita que é esta duplicidade que deve ser pensada. Inicia por retirar o caráter universal do ser e, partindo para o concreto, propôe-se a iniciar seu estudo pelo ente em sua realidade determinada e concreta. Afirma (Heidegger,1927/1989, p.28): “Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende no ente”.

Acreditava o filósofo que somente pelo exame reflexivo do existente chegaria à noção do sentido do ser. Sua reflexão tem início com a análise do Dasein (sein = presença , da = aí), também denominado de pre-sença. Com esta designação, pretende substituir a palavra sujeito, que implica um conceito tendente ao fechamento, por um termo que caracteriza o ser em relação, portanto, abertura. Ser-aí significa o ser lançado num mundo, cuja mera presença implica na possibilidade completa e total da existência. Existir, enquanto dasein ou pre-sença, implica em não ser passível de objetivação. Insistir em falar do sujeito ou de um “eu” fechado para determinar o homem faz com que se perca a compreensão de sua essência fundamental, pois a presença constitui-se como algo que se sustenta no âmbito da abertura do mundo. Ao se tentar aprisioná-la, tal essência permanecerá oculta.

Ao se referir à relação do homem com o mundo, Heidegger (1927/1989) vai proceder à análise das estruturas do ser-aí, Dasein. Deste modo, rompe com a concepção dualista do homem que conhece a verdade na posição de soberano. Considera o homem numa definição de relação que sempre já é a co-pertinência homem-mundo.

Fogel (1996) esclarece o que Heidegger pretende com a análise do Dasein:

Este modo de ser ímpar deste ente é denominado Dasein – Ser-aí, Presença, em sendo sempre já ser-no-mundo, já está sempre disposta ou aberta, dele haurindo toda possível referência, denomina-se existência. (p.47 ).

 

A PSICOLOGIA: DO SUJEITO AO DASEIN

A psicologia, ao constituir-se como ciência que se insere na modernidade,  mantém a idéia de um eu interiorizado, que se constitui como sujeito. O sujeito será a substância a ser estudada pela ciência psicológica, e,  como tal, se constitui com propriedades e extensão passíveis de mensuração.

A psicologia científica, tentando conciliar-se com o parâmetro de objetividade, busca a sua substância, seu res cogitans, que se constitui como aparelho psíquico, sujeito, personalidade, pessoa. Pressupõe um interior do homem denominado emoções, instintos, processo libidinoso.

O método experimental vai ganhar força com Skinner e seus experimentos em laboratório com a famosa caixa de Skinner, e os experimentos realizados em animais, uma vez que seu objeto de estudo era o comportamento animal e humano. O movimento behavorista em psicologia, a partir dos pressupostos da ciência e com base nos alicerces do positivismo, estruturou-se como uma psicologia científica. Partiu da constituição do comportamento como substância, podendo então mostrar seu objeto de estudo na forma exigida pela ciência.

Rogers mantém a idéia de um eu interiorizado, em sua psicologia centrada na pessoa. A este eu denomina pessoa. Com o propósito de diferenciar a pessoalidade da impessoalidade, refere-se ao “tornar-se-pessoa” como um sair da impessoalidade, passar do afastamento de si mesmo e da sua experiência para o reconhecimento do seu ponto de referência interior; por fim, tornar-se capaz de viver livremente e de se aceitar, num processo fluido de experiências, utilizando-as com segurança como a principal referência para o seu comportamento

A substância eleita pela psicologia para constituir-se como seu objeto de estudo foi, em algumas de suas denominações: o comportamento, o eu, o self ,o ego, o consciente e o inconsciente. O sujeito da psicologia científica consiste num objeto simplesmente presente em um espaço determinado. Trata-se de um objeto encerrado em si mesmo, não apreensível pela visão ou pelo tato. Trata-se de uma substância sutil. A constituição fundamental do sujeito consiste numa representação encapsulada de uma psique, um sujeito, uma pessoa, uma consciência. O ego, o self se configuram na psicologia como reposta à exigência do modelo científico da presença de uma substância extensa, passível de mensuração, controle e determinação.

Para Boss (1971/1988), o entendimento de psique dos gregos foi substituído pelo de sujeito ou pessoa. A este modo de referir-se ao eu Boss denomina de conceitos antropológicos modernos. Diz ainda que desta forma falta o esclarecimento da natureza fundamental da psique. Afirma, ainda, que as ciências psi partem de um axioma básico, que é a existência de uma psique junto com um corpo. Denomina esta tendência em psicologia de abstrata, por diferentes motivos: a crença do eu como substância, o extremo subjetivismo, o ideal de domínio do sujeito sobre todas as coisas, inclusive dos outros sujeitos. Na tentativa de pensar a sua psicologia em outra perspectiva, busca em Heidegger seus fundamentos. Boss, no prefácio dos Seminários de Zollinkon, refere-se ao pensamento de Heidegger da seguinte forma:

É preciso considerar, que também a reflexão fundamental de Martin Heidegger impõe ao homem mais um desmoronamento que muitos se recusam obstinadamente a enxergar. Sigmund Freud já chamou a sua descoberta de uma segunda revolução copérnica. Não só Copérnio tinha desalojado a nossa terra do centro do universo, ainda por cima Freud conseguiu mostrar que a autocrática consciência humana era impulsionada, em diferentes direções, por forças ‘id’como ele chamava, e cuja origem e essência  eram desconhecidas. Martin Heidegger reconheceu além disso, que o sujeito humano como medida e ponto de partida para todas as coisas não tem toda essa importância. Na verdade ele também é ‘só’algo que é, um ente entre milhares de outros entes e como tal, depende e, e em seu ser-sendo mantido incessantemente pelo acontecimento do ser, o desabrigamento. Em compensação, ele, o ser-pessoa, merece a alta dignidade e distinção de poder existir como aquele aberto e clareado que, como tal, tem de servir a tudo o que tem de ser como seu local de aparecimento e desdobramento inalienável (1987/2001, p.15).

A este respeito afirma Fogel (1996, p.53):

Porque o homem antes de ser um ‘eu’, uma consciência ou um algo qualquer em-si e  subsistente, é a possibilidade de estar no sentido (logos) que é um tal poder-ser de uma força ( possibilidade) (...).

Pensar a psicologia a partir do Dasein implica em não mais aceitar o eu como algo fechado e determinado por propriedades.Consiste em atuar considerando o aberto, o indefinido e o imprevisível do existir do existente.

 

A PSICOLOGIA CLÍNICA: TÉCNICA E TÉCHNE

E quanto à clinica psicológica? Constitui-se este modo de produção como técnica ou téchne? Faz-se necessário pensar no modo de desvelamento do sentido de existência que as diferentes psicoterapias desde sempre se propuseram.

Vale também refletir sobre o modo de pensar do clínico.Quando predomina o pensamento que calcula, tem-se uma equação matemática, que é capaz de, através do determinismo implícito na psique humana, dirigir o comportamento no sentido do mais adequado. Já a prática clínica como pensamento meditante aponta para libertar o homem para si mesmo, sem direções nem certezas.

Faz-se importante considerar a perspectiva de uma teoria psicoterápica acerca do homem. Este, quando tomado como um eu encapsulado, vai sofrer intervenções que visam modificá-lo, para que seus “defeitos” sejam superados; para que seu eu possa superar os limites e erros e preencher suas carências. No homem tomado como abertura no mundo, a psicoterapia vai se dar no reconhecimento dos limites que a própria existência impõe ao homem, que, suportando o presente sem fugir para o futuro nem para o passado, pode reconhecer-se em sua finitude, temporalidade e imperfeição.

A psicoterapia constitui-se em uma técnica moderna, em que o desvelamento se dá ao modo do desafio. Então, o eu do homem também é tomado como um recurso a ser explorado, no sentido de tornar-se produtivo, bem-sucedido, feliz para sempre. Neste aspecto, a psicoterapia pauta-se numa perspectiva positivista, romântica, subjetivista, que consiste na organização de técnicas e estratégias cujos resultados visam à produtividade, à adequação com a exigência da publicidade, do impessoal, ao desenvolvimento no sentido do socialmente aprovável. A psicoterapia, deste modo, pauta-se na extração dos recursos de que o homem dispõe para atingir o sucesso socialmente determinado como tal, e é estruturada como utilidade prática.

Predomina na prática psicoterapêutica moderna um desafiar que requer a subsistência. Assim o eu é apreendido como fundo de reserva – potencialidades – que, devidamente explorado, pode se tornar “alguém” que produz – produção como força de trabalho. Quem sabe, então, ter seu retrato exposto com a designação “operário-padrão”. Dizem os laudos psicológicos, ao descreverem, por exemplo, uma criança cujos pais procuraram um psicólogo para tratar seu filho, pois a criança apresenta, segundo a escola, “problemas de aprendizagem”: “Pr. apresenta recursos intelectuais indevidamente explorados (...)” E na indicação do tratamento mais adequado para este problema, diz o laudo: “Tais potencialidades poderão emergir desde que a criança possa ser devidamente trabalhada”. E, assim, a criança poderá ganhar o perfil do aluno sem problemas de aprendizagem.

A clínica psicológica pode ser tomada como téchne quando se dá numa perspectiva de apreensão daquilo que se produz a si mesmo, deixando que o ser venha à presença tal como se constitui no seu modo de ser. Trata-se aqui da psicoterapia como um meio de tornar manifesto o que é presente no modo de “ir à frente”. Não importa, nesta perspectiva, o resultado. O psicoterapeuta vai atuar como um facilitador, cuja produção vai consistir em deixar aparecer por si mesmo o que se oculta.

A psicologia clínica pode-se dar como um pensamento meditante, abrindo a possibilidade daquele que, em angústia, perdido no impessoal e tomando-se como impróprio, clama pelo mais próprio, reconhecendo-se como finito e temporal. Poderá ele, assim, descobrir-se em sua liberdade, tanto no que se refere à utilização das coisas como no seu próprio fazer-se no mundo. Poderá, ainda, descobrir sua serenidade no “inútil” e não se angustiar, para se tornar um objeto de utilidade, a fim de adequar-se às exigências do mundo dos homens, tal como o operário-padrão ou o aluno-referência.

Nesta perspectiva, a psicoterapia, como pensamento meditante e não calculante, consistiria numa meditação. O psicoterapeuta, no lugar do techinites, atuaria como tal na criação de um discurso meditante, no qual residiria sua criação poética, permitindo que aquele que deseje reencontrar-se se dê a conhecer.

O psicoterapeuta, através de suas palavras, muitas vezes também poéticas, possibilita a fluidez, o movimento, e que o cliente, não se encerrando em si mesmo, possa dar-se conta de suas possibilidades.

Pode-se questionar se uma proposta como esta não recairia numa técnica interventiva ou manipuladora, tanto no que se refere à transmissão didática quanto à psicoterapia. A tal questão responde-se com uma negativa. Trata-se aqui de uma téchne no sentido originário, como desvelamento de um meio de deixar aparecer aquilo que tinha possibilidades de ser. O psicoterapeuta pode produzir ao modo da téchne, permitindo que a sua téchne– escuta e fala num processo de produção mútua, facilite que ao outro se manifestem as suas possibilidades.

O psicoterapeuta, na sua produção, numa relação libertadora em que a escuta e a fala se pronunciam como hermenêutica do sentido ao modo do diálogo, pelo seu “poder-ver” traz à transparência aquilo que se mostrava e ao mesmo tempo se escondia, porém acima de tudo aprisionava aquele que clamava por sua verdade. Para tanto, utiliza-se de sua téchne e faz aparecer aquilo que tinha possibilidades para ser. Seu “poder-ver” provoca perplexidade naquele que transparece a si mesmo ao seu modo.

A psicologia clínica ao modo da téchne aproxima-se da arte como desvelamento e se afasta da técnica como instrumental com vista ao desenvolvimento. O psicoterapeuta assume seu trabalho como um techinites à medida que guia a ação pela compreensão, deixando emergir o modo de acontecer daquele que busca a si mesmo.

 

REFERÊNCIAS

Boss, M. (1988). Angústia, culpa e libertação. ( B. Spanoudis, Trad.) . São Paulo: Livraria Duas Cidades. (Trabalho original publicado em1971).        [ Links ]

Descartes, R. (1978). Discurso sobre o método. (J. Guinsburg & B.P. Junior. Trad.). São Paulo: Hemus. (Trabalho original publicado em 1637).        [ Links ]

Fogel, G. (1996). Martin Heidegger, et coetera e a questão de técnica. Cadernos do Departamento de Filosofia PUC – Rio, 10 (2), 11- 67.         [ Links ]

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Heidegger, M. (1977). A origem da obra de arte.(A. Morão, Trad.). Lisboa: Edições 70.        [ Links ]

Heidegger, M. (1959) Serénité. Em M. Heidegger .Questions III et IV. (pp.131-149) Paris: Gallimard.         [ Links ]

Heidegger, M. (1958). La question de la technique. Em M. Heidegger. Essais et conférences. (pp. 09-49) Paris: Gallimard.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo, Rua Barão de Pirassinunga, 62, Tijuca, CEP: 20521-170, Rio de Janeiro-RJ.
E-mail: feijoo@ifen.com.br

Recebido em 12/08/2003
Aceito em 25/02/2004

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