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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.9 no.2 Maringá May/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722004000200001 

EDITORIAL

 

Árvore de Cracóvia1 ou editoração científica

 

 

Maria Lúcia Boarini

 

 

Em Paris, pelos meados do século XVIII, período que antecedeu à Revolução Francesa, as notícias, as informações, as idéias enfim, só podiam ser editadas e impressas após passar por uma muralha de duzentos censores. Vencido este feito heróico, o editor “liberado” deveria submeter-se aos inspetores de livros, divisão policial responsável pela implementação e controle das decisões dos censores. O editor que transgredisse esta determinação pagaria tal ousadia com a própria vida e por esta razão seria conduzido ao cadafalso (Darnton, 1989, p. 187).

Não obstante, as possibilidades do ser humano não se deprimem nem se esgotam por conta da vontade dos governantes de plantão. Assim, nesse período, para saber o que de fato acontecia na sociedade e sobretudo nos bastidores do reino, as pessoas se reuniam - dentre outros lugares públicos - à sombra da alta e frondosa Árvore de Cracóvia. Esta árvore, localizada no centro de Paris, nos jardins do Palais Royal, abrigava sob sua copa  os “’nouvellistes de bouche’ ou transmissores orais de notícias, que espalhavam informações boca-a-boca sobre os acontecimentos mais recentes” (Darnton, 2000).

Assim, sem qualquer trabalho de editoração e, além disso, sem que nenhum  editor fosse levado à forca, este sistema de circulação de notícias muito contribuiu para a derrubada do Antigo Regime e a realização da histórica Revolução Francesa.

Em nossos dias e em nosso país, felizmente, nenhum editor, ainda que seja declaradamente opositor às idéias vigentes, é levado à morte, qualquer que seja seu veículo de comunicação. Sublinhe-se que este é um princípio incontestável  em um regime democrático.

Por outro lado, se atualmente nenhum editor corre o risco de vida ao tornar públicas  idéias suas  ou de outros autores, a forma como a comunidade científica, na área da Psicologia, vem percebendo o trabalho, propriamente dito, de editoração dos periódicos científicos parece se aproximar dos idos tempos da Árvore de Cracóvia, salvo erro de generalização. Senão vejamos. Não é novidade alguma a exigência, por parte das agências de fomento à pesquisa, de tornar pública a produção do saber de caráter científico. E isto se fará através da divulgação desse conhecimento em eventos e periódicos reconhecidos pela comunidade cientifica. A nosso juízo, esta exigência, preservada dos exageros, é necessária e legítima. Sem entrar no mérito do debate, entendemos que esta divulgação do saber tem um caráter de ordem ética, dentre outros, se considerarmos que, além do fato de que a ciência é uma produção coletiva, grande parte destes estudos foi financiada pelo erário público, portanto, nada mais razoável que submetê-lo à crítica externa.

Mas dirá o leitor, intrigado: o que tudo isto tem a ver com a Árvore de Cracóvia? Esclarecemos em seguida. Ao encaminhar os resultados de seus estudos a um periódico científico, o autor não deve estar esperando que este seja afixado em uma árvore e lá aguarde o público interessado. Os tempos são outros. Em nossos dias, nossas árvores, quando as deixamos viver, não têm mais a função de abrigar as idéias. Estas (as idéias) têm um longo  caminho a percorrer, o qual, simplificando, diremos que tem como ponto de partida um ritual burocrático (catalogação, carta acusando recebimento etc.) para alcançar a roda-viva de um processo de avaliação pelos pares ou consultores ad hoc. Estes, via de regra, são profissionais especialistas na temática do texto sob avaliação, que, silenciosa e sigilosamente, contribuem para a qualificação de uma publicação científica. É necessário observar que nessa fase o trabalho de editoração científica ramifica-se, multiplica-se, aumentando, desta forma, o número dos encaminhamentos necessários e seu raio de ação. Avaliado o trabalho e emitido o parecer pelos consultores ad hoc, esse parecer é encaminhado ao autor, que deve reavaliar seu texto, reformulá-lo e retorná-lo ao editor, se for o caso. A aceitação do texto, que representa um outro penoso exercício de análise e decisão por parte do editor,  desencadeia uma outra fase, igualmente importante, isto é, parte-se para a revisão de texto, diagramação, impressão, formatação para a divulgação eletrônica, se for o caso, e, tal como numa roda-viva, todo este procedimento repete-se a cada texto recebido, e daí por diante. Alguns textos não atingem o final do processo, mas o cuidado e a responsabilidade do editor e sua equipe nem porisso são menores, ou menor é o trabalho.  Há que se levar em conta, também, que todo este processo ocorre sob a implacável tirania dos prazos a serem cumpridos. E neste ritmo, todo este rol de encaminhamentos deve estar sob os cuidados de uma figura denominada nos meios editoriais de Editor2 que, no campo da Ciência, tem sido representada por um docente. Ora, este processo não é nada simples. Qualquer que seja o adjetivo utilizado, não dá conta de traduzir o estafante trabalho e a responsabilidade de um editor científico, sobretudo quando não conta com o apoio logístico por parte da instituição onde esse periódico é editado. Isto sem contar que, ao assumir tal tarefa, tal docente, ele próprio, pode ficar prejudicado como produtor de conhecimento.

Enfim, se, a título de exposição, recorremos a esta caricatura do trabalho e da responsabilidade de um editor científico, tivemos como objetivo pontuar que, excluindo-se a função de divulgação das idéias, este trabalho não tem nenhuma semelhança com o que se passava à sombra da velha e histórica Árvore de Cracóvia. Estamos tentando com esta metáfora chamar a atenção para o trabalho de editoração de um periódico (e aqui se incluem não apenas o editor e sua equipe, mas também a figura do consultor ad hoc, outra figura esquecida), tema que não tem comparecido às discussões sobre políticas de publicação cientifica na área da Psicologia.  A continuar assim, provavelmente continuaremos encontrando dificuldades para a produção e manutenção de periódicos que atendam às exigências e necessário rigor de uma publicação desta natureza. Como corolário, pode intensificar-se o congestionamento do fluxo submissão-publicação e a produção de um editor permanentemente “à beira de um ataque de nervos”.

Com estas preocupações encerramos este editorial, convidando a todos para a leitura dos importantes estudos publicados neste número da Psicologia em Estudo, os quais certamente enriquecem o nosso acervo do saber.

 

REFÊRENCIAS

Darnton, R. (1989). Boemia literária e revolução: o submundo das letras no antigo regime. São Paulo: Companhia das Letras.

Darnton, R. (2000, julho, 30). Rede de Intrigas.  Folha de S.Paulo. Caderno MAIS!

Yamamoto, O. H. (2002) As responsabilidades do editor de um periódico científico. Estudos de Psicologia, Natal,  7 (2).

 

 

1 A árvore provavelmente ganhou seu nome devido às discussões acaloradas que tiveram lugar a sua volta durante a guerra da sucessão polonesa (1733-1735), embora o nome também sugerisse a propagação de boatos ("craquer", relatar histórias de veracidade dúbia) (Darnton, 2000).
2 Uma reflexão mais detalhada sobre a responsabilidade do editor cientifico, o leitor pode encontrar em Yamamoto (2002).