SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.9 issue2Students knowledge regarding psychological assessment conceptsThe role of verbal-context clues in the word-recognition process author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.9 no.2 Maringá May/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722004000200013 

ARTIGOS

 

Interesses profissionais de um grupo de estudantes de psicologia e suas relações com inteligência e personalidade

 

Professional interests of a psychology undergraduate students and its relation with intelligence and personality

 

 

José Maurício Haas BuenoI; Caioá Geraiges de LemosII; Fátima Aparecida M. F. ToméIII

IDocente do Curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Universidade São Francisco
IIDocente do Curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie
IIIDocente do Curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Neste estudo, realizou-se a investigação do perfil de interesses profissionais de alunos ingressantes de um curso de psicologia  e as relações desses interesses com inteligência e personalidade. Participaram da coleta de dados 120 sujeitos, com idades entre 17 e 38 anos (Média=20,1), aos quais foram aplicados três instrumentos: LIP, 16PF e o Raven - Escala Geral. Uma análise de aglomerados (cluster analysis) indicou a existência de três grupos e a análise de variância mostrou que estes diferem em termos de interesses, traços de personalidade e níveis de inteligência. A interpretação do perfil de cada subgrupo permitiu formular a hipótese de que há relação entre essas características e as diferentes possibilidades de atuação do psicólogo.

Palavras-chave: Orientação vocacional, interesses profissionais, avaliação psicológica.


ABSTRACT

This study investigated the professional interest profile of a group of freshmen in Psychology. Three instruments (LIP, 16PF and Raven – Standard Progressive Matrix) were applied in 120 subjects, aged from 17 to 38 (mean=20.1). Cluster analysis indicated the existence of three subgroups. Analysis of variance showed different profiles of interest, personality traits and intelligence. The interpretation of each subgroup profile showed some relations of the psychological characteristics of each subgroup and the common fields of work within Psychology.

Key words: vocational guidance, professional interests, psychological assessment.


 

 

O mundo do trabalho que se apresenta ao jovem em fase de escolha da profissão, cada vez mais complexo, vem exigindo um investimento cada vez mais elevado em relação ao tempo de preparo para o ingresso na atividade profissional. Quanto maior a responsabilidade da profissão escolhida, mais longo e conflituoso tende a ser o período de preparação. A escolha por uma carreira universitária insere-se neste contexto, exigindo preparação adequada tanto para a opção por um curso quanto para o planejamento de carreira do futuro profissional.

Neste contexto, vale salientar o amadurecimento da identidade profissional, que ocorre durante toda a vida, mas tem o seu ponto mais intenso no período correspondente à passagem da adolescência para a vida adulta. Carvalho (1995) complementa descrevendo que a aquisição da identidade profissional se constitui num processo de socialização, num desenvolver-se para assumir papéis ocupacionais adultos, decorrentes de inúmeras participações grupais, informações, assimilações de conceitos e valores, enfim, da vinculação com referenciais externos que venham a ser assimilados pelo indivíduo.

A opção por um curso universitário (quando possível), ainda que ocorra de forma adequada, não representa o fim dos conflitos relacionados à identidade profissional. Outras escolhas ainda terão de ser realizadas. Colaborando com esta idéia, Uvaldo (1995) diz que o jovem universitário experimenta conflitos diferentes no início, na metade e no final de seu curso. O início caracteriza-se por uma fase de adaptação dos alunos ao curso e à vida universitária. Não é uma fase fácil, considerando-se que de 30% a 40% das desistências ocorrem nesse período (Soares-Lucchiari, 1993). O aluno em meio de curso começa a sentir a responsabilidade social do papel profissional que terá que desempenhar, sem que se sinta preparado para assumi-lo a essa altura; além disso, inicia-se uma fase em que deve fazer opções dentro de uma mesma profissão (no caso da Psicologia, área a ser seguida, linha teórica, etc.). O terceiro momento crítico ocorre com os alunos em final de curso, quando seus questionamentos refletem o grande medo de sair da universidade. Como a identidade profissional está calcada no fato de serem estudantes, sentem-se assustados em relação à mudança e às (im)possibilidades de inserção no mercado de trabalho.

Por tudo o que foi dito até aqui, nos parece interessante o oferecimento de um serviço de apoio ao aluno, para elaboração dos conflitos profissionais que surgem nesta etapa da vida, o qual poderia contribuir para a satisfação e permanência do aluno na instituição, assim como, indiretamente, atrair novos alunos no futuro.  Considerando-se que também é papel da universidade participar do planejamento de carreira de seus alunos e que o curso de Psicologia oferece grandes possibilidades para a realização deste tipo de trabalho, propôs-se a realização deste estudo, cujo foco principal são os interesse profissionais dos alunos do curso de Psicologia. Campos, Filho, Campos e Rocha (1996) e Baptista, Yoshimoto, Monello, Baptista e Berti (1998) ressaltam a importância de estudos sobre as características de estudantes universitários como forma de subsidiar tomadas de decisão e planejamentos pedagógicos mais adequados, além de permitir o oferecimento de serviços psicológicos relacionados à demanda.

Muitas pesquisas já foram realizadas para a investigação de diferentes aspectos dos estudantes de Psicologia. Alguns pesquisadores trouxeram contribuições relacionadas ao funcionamento cognitivo dessa população. Por exemplo, Tapia (1985) traça um esboço de formas de cognição que caracterizam a gênese do conhecimento em Psicologia; numa investigação sobre o conceito de criatividade e sua importância na formação e no exercício profissional do Psicólogo, Campos e Largura (2000) encontraram que o conceito de criatividade está ligado à busca de novas soluções, a inovações e a ser original; Bariani e Santos (2000) e Pitta, Santos, Escher e Bariani (2000) encontraram diferenças nos estilos cognitivos utilizados por estudantes de Psicologia com e sem experiência em iniciação científica, concluindo que os estilos cognitivos são passíveis de modificação ao longo dos anos do curso de Psicologia; nessa mesma linha, os resultados de um trabalho sobre hábitos de estudo (Watanabe, Cassetari, Santos, Lomabard-Platet & Didomenico, 2001) mostraram um grupo de estudantes de Psicologia que apresenta insuficiência quanto ao método utilizado e à realização de apontamentos, sugerindo uma série de ações preventivas como forma de evitar o problema.

O estresse em alunos de Psicologia foi o motivo de pesquisa de Baptista e cols., (1998), que estudaram características socioeconômicas e o estresse, encontrando que o maior agente estressor foi o grande número de exigências e dificuldades com alguma matéria específica. Baptista e Campos (2000) relatam que 46,06% da amostra estudada se encontravam nas fases de resistência e exaustão do estresse. Resultados parecidos foram alcançados por Catão, Oliveira, Bueno e Oliveira (2001), que compararam estudantes de 3 diferentes cursos e encontraram que a grande maioria (69,1%) encontrava-se na fase de resistência, e os estudantes de enfermagem e psicologia apresentaram níveis de estresse mais elevados que os estudantes de medicina. Nesta mesma linha, Spitzcovsky (2003) estudou a influência da situação das avaliações no desencadeamento do estresse e encontrou que as avaliações não desencadeiam o estresse, mas alerta que as situações de avaliação podem não estar sendo adequadas, porque os alunos já se encontram estressados (em fase de resistência) desde o início do semestre letivo, e assim permanecem também durante o período de avaliação.

Alguns pesquisadores se preocuparam com a verificação de características de personalidade e/ou quadros psicopatológicos. Esses estudos relatam baixa ocorrência de sintomatologia depressiva (Baptista & Campos, 2000). Comparações com estudantes de outros cursos mostraram que os alunos de Psicologia são mais ativos, entusiásticos e empreendedores que os de geografia (Castilho, 1986), e mais inibidos e reprimidos sexualmente que os alunos do curso de Educação Física (Boccalandro, 2000).

Vários estudos mostram que a formação em Psicologia ou é tendenciosa ou não consegue modificar a tendência dos alunos a optarem pela área clínica e, freqüentemente, psicanalítica (Campos, Souza, Catão & Campos, 1996; Campos, Largura & Jankovic, 1999). Em um estudo parecido, Santos (1989) encontrou que as informações sobre as áreas de atuação em Psicologia apresentadas por alunos ingressantes são precárias e desorganizadas, resumindo-se à atuação na área clínica, com a imagem de um profissional dotado de conhecimento eclético e “profundo” acerca do ser humano, que o habilitaria a orientar, aconselhar e ajudar o outro. Silva e Botomé (1996), investigando a percepção dos alunos de Psicologia quanto às situações e locais de atuação do psicólogo clínico, encontraram diferenças significativas entre a percepção de iniciantes e a de formandos quanto ao número de situações citadas e utilização de termos técnicos. Os locais de atuação mais citados pelos sujeitos foram àqueles em que tem sido mais freqüente a presença do psicólogo clínico.

A caracterização dos alunos recém-ingressos em dois novos cursos de Psicologia foi a principal meta de Silva e Campos (1992), e seus resultados indicam diferenças significativas entre os grupos, em termos do nível socioeconômico e da conceituação  desses alunos sobre a Psicologia e seu campo de atuação. Comparações entre estudantes do mesmo curso e universidade, mas de diferentes campi, resultaram em diferenças significativas, tanto no que se refere ao perfil de cada grupo como em relação ao currículo que cada um possui (Campos, Silva Filho, Campos & Rocha, 1997), mostrando que se deve ter cuidado com generalizações.

Os motivos que levam os estudantes a optar pelo curso parecem estar relacionados à busca de uma melhor condição ou de um novo caminho na vida (muitas vezes desencadeado pela utilização de serviços psicológicos), à busca de crescimento pessoal e/ou competência interpessoal, ao fascínio pelo conhecimento psicológico e ao desejo de compreender e ajudar o ser humano (Campos, & cols., 1996; Bosi & Elias, 2000; Magalhães, Straliotto, Keller & Gomes, 2001). No sistema hexagonal de interesses proposto por Holland (1997), as profissões de ajuda aparecem relacionadas ao tipo social, com exceção dos psicólogos experimentais, que se enquadram no tipo investigativo. Magalhães e cols., (2001) colocam que profissionais como os psicólogos, em virtude de relacionamentos afetivos com adultos com necessidades narcísicas, aprenderam a atentar mais para as necessidades do outro do que para as próprias necessidades, encontrando na realização do atendimento psicoterapêutico uma forma não só de dar continuidade ao desempenho deste papel, mas também de suprir a necessidade de ser admirados pelas qualidades de “sábio” e “salvador” que supostamente lhes são atribuídas por seus pacientes.

Para lidar com situações como as citadas e outras dificuldades de estudantes universitários, várias universidades oferecem serviços de orientação, muitas vezes com a participação e/ou coordenação  de psicólogos. Alguns desses serviços foram também objeto de pesquisa, como a criação do serviço de atendimento psicoterápico breve aos alunos do curso de Psicologia da UMESP (Yamamoto, 1997) e a experiência de Morato, Costabile, Eisenlohr, Simone, e Honora, (1993), preocupados com a pessoa do aluno e do professor no processo de formação do psicólogo. Serpa e Santos (2001) atentam para a possibilidade de atuação do psicólogo escolar em nível superior, e divulgam que 80% das universidades que pesquisaram oferecem algum tipo de serviço ao estudante universitário, mas que apenas em 75% das que oferecem o psicólogo está presente, sendo que a maioria das instituições entendeu como necessária a criação de uma estrutura de apoio ao estudante universitário.

Preocupados com as dificuldades vocacionais e profissionais que os estudantes de psicologia apresentam durante o curso, os autores deste trabalho se propuseram a investigar a influência dos interesses, especialmente os interesses secundários, nas opções pelas diversas áreas da psicologia. Este estudo teve como objetivo identificar interesses profissionais característicos de alunos ingressantes de um curso de psicologia de uma universidade particular paulistana e as relações de tais interesses com inteligência e traços de personalidade.

São levantadas as seguintes hipóteses:

· O interesse por atividades sociais que envolvem uma relação de ajuda será comum aos que escolhem a área de Psicologia.

· Interesses por outros tipos de atividade devem se associar ao principal (social), explicando as preferências por uma ou outra área de atuação do psicólogo.

· Cada perfil de interesses deve se apoiar em diferentes traços de personalidade e possivelmente em diferentes níveis de inteligência.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram da coleta de dados 120 sujeitos de ambos os sexos (88,3% do sexo feminino e 11,7% do sexo masculino), com idades entre 17 e 38 anos (Média=20,1; Desvio padrão=3,4), matriculados no 2º semestre do curso de Psicologia, dos períodos matutino (65,8%) e vespertino (34,2%), de uma instituição particular de ensino superior do curso Psicologia da cidade de São Paulo.

Instrumentos

Foram aplicados os seguintes instrumentos: Levantamento de Interesses Profissionais – LIP (Del Nero, 1984), que informa sobre interesses profissionais por diversas áreas; o Inventário dos 16 Fatores de Personalidade – 16PF (Cattell, Cattell & Cattell, 1999), que informa sobre 16 traços primários de personalidade e 5 fatores globais associados aos do modelo dos cinco grandes fatores; e Matrizes Progressivas de Raven (Raven, 1993), que informa sobre inteligência geral (g).

Procedimento

Os instrumentos foram aplicados por professores, durante as aulas práticas de uma disciplina do curso. Os escores, calculados conforme a recomendação constante nos respectivos manuais, foram digitados em planilha eletrônica para análise dos dados. Além das estatísticas descritivas, foram realizadas uma análise de aglomerados (cluster analysis) e análises de variância (ANOVA).

 

Resultados e discussão

Os resultados são apresentados em três blocos: em primeiro lugar são mostradas as estatísticas descritivas; em seguida, os grupos de estudantes com perfis de interesses semelhantes, obtidos através da análise de aglomerados (cluster analysis); por fim, as análises de variância (ANOVA), que apontam os traços de personalidade e de inteligência associados a cada perfil de interesses.

Estatísticas descritivas

A Tabela 1 apresenta as estatísticas descritivas em relação aos resultados obtidos no Levantamento de Interesses Profissionais (LIP).

 

 

A pontuação máxima possível em cada escala é de 32 pontos. Pontuações acima de 16 podem ser consideradas significativas neste tipo de teste, pois indicam que o sujeito escolheu aquela área mais da metade das vezes, quando comparada com as outras. Pode-se notar, neste caso, que os interesses mais significativos apontados pelo grupo foram, por ordem, pela área social, ciências biológicas e literatura. Estes dados são coerentes com os apresentados por Holland (1997), exceto pelo interesse por atividades literárias. Nota-se também a ocorrência de baixíssimos índices de interesse por atividades relacionadas às ciências físicas e ao cálculo. Esses dados também são coerentes com pesquisas anteriores, que mostram baixos interesses por atividades relacionadas ao cálculo apresentados pelo sexo feminino (Levenfus, 2002), caso da maior parte da amostra em consideração.

A Tabela 2 apresenta as estatísticas descritivas das pontuações das matrizes progressivas de Raven e dos traços de personalidade do 16PF.

 

 

A média dos sujeitos no teste das Matrizes Progressivas de Raven foi de 50,09. Esse valor, quando comparado ao dos sujeitos de nível superior completo e incompleto do grupo de padronização, constante no manual do instrumento, está sempre dentro da região de normalidade, independentemente de idade e gênero. Isto significa que o nível de inteligência dos sujeitos desta pesquisa corresponde ao esperado para sujeitos com nível educacional superior.

No 16PF, os resultados são apresentados em estenos, podendo variar de 1 a 10. Resultados de 1 a 3 são considerados baixos, resultados de 4 a 7 são considerados normais e resultados de 8 a 10 são considerados altos. Nota-se, portanto, que todos as escalas apresentam médias dentro da região de normalidade, com exceção de inteligência, que apresenta média acima da região de normalidade. A discrepância entre os resultados do Raven e do 16PF, no tocante à inteligência, podem ser explicadas por dois fatores: (a) o Raven mede raciocínio indutivo (inteligência fluída), enquanto que o 16PF apresenta itens relacionados tanto à inteligência fluída quanto à inteligência cristalizada (raciocínio verbal); e (b) no Raven, os sujeitos em questão estão sendo comparados com sujeito de nível superior (grupo de padronização do instrumento), e no 16PF a amostra de padronização corresponde à população em geral.

Análise de aglomerados (cluster analysis)

A análise de aglomerados (cluster analysis) revelou a possibilidade de agrupamentos em 5 níveis: no primeiro nível formaram-se 14 grupos; no segundo 7; no terceiro nível formaram-se 3 grupos, que se reagrupavam, num quarto nível, em apenas dois; finalmente, verificou-se o agrupamento de todos os integrantes em apenas um grupo. Como as diferenças entre os grupos do primeiro e segundo níveis não eram qualitativamente significativas, optou-se por trabalhar apenas com os dados referentes aos 3 grupos do terceiro nível, e a figura 1 mostra suas características.

 

 

Foram considerados interesses fortes aqueles que obtiveram médias superiores a 16, pois nestes casos foram escolhidos, em mais da metade das vezes, quando cruzados com interesses por outras áreas. As principais características encontradas foram: (a) os três grupos apresentaram alto interesse por atividades sociais; (b) os três grupos também apresentaram baixos interesses (média 7,0) por atividades relacionadas ao cálculo; (c) o grupo 1 apresentou média elevada de interesses por atividades sociais (27,7), ciências biológicas (19,7), persuasão (17,0) e literatura (17,0); (d) o grupo 2 apresentou média elevada de interesses por atividades sociais (26,2), artísticas (24,1) e literárias (21,9), ciências biológicas (19,7) e persuasão (18,5); finalmente, (e) o grupo 3 apresentou média elevada de interesses apenas por atividades sociais.

Nota-se que os grupos 1 e 2 apresentam interesses secundários mais diversificados, podendo-se considerar que o interesse secundário mais forte apresentado pelo grupo 1 foi por ciências biológicas, enquanto o grupo 2 apresentou interesse secundário mais elevado por atividades artísticas.

Análises de variância

Para verificar as diferenças significativas entre os grupos 1, 2 e 3 no tocante à inteligência e traços de personalidade, foram efetuadas análises de variância (ANOVA). Os resultados estatisticamente significativos (sig. < 0,05) são apresentados na Tabela 3.

 

 

Observa-se que o grupo 2 apresentou média mais elevada nas matrizes progressivas de Raven, seguido pelos grupos 1 e 3, respectivamente. O procedimento das comparações múltiplas de Tukey revelou que o grupo 3 se destaca com média de inteligência estatisticamente significativa e mais baixa que o grupo 2 (p=0,015), e marginalmente significativa e mais baixa que o grupo 1 (p=0,070). Em relação a expansividade, o grupo 1 se destaca com média mais elevada e significativamente maior que as médias dos grupos 2 e 3 (p=0,010 para ambos). O grupo 1, seguido pelos grupos 2 e 3, também obteve média mais elevada no que se refere ao traço de consciência, sendo que, neste caso, o procedimento de Tukey não evidenciou diferenças significativas entre os pares de grupos. No traço de branduraa média mais elevada foi a do grupo 2, seguida pelas médias dos grupos 1 e 3, respectivamente, todas apenas marginalmente significativas. O grupo 2 também apresentou média mais elevada no traço de imaginação, seguida pelas médias dos grupos 3 e 1, respectivamente. Neste caso, o procedimento de Tukey revelou haver diferença significativa apenas entre os grupos 1 e 2 (p=0,024). O procedimento de Tukey revelou, ainda, haver diferença estatisticamente significativa entre os grupos 1 e 2 no que se refere ao traço de autocontrole (p=0,029), que, apesar disso, não apresentou diferença significativa no conjunto dos dados.

 

DISCUSSÃO

A partir dos resultados encontrados foi possível localizar algumas características comuns aos estudantes de Psicologia e algumas características específicas de três subgrupos, que diferenciam e provavelmente interferem nas escolhas pelas diferentes áreas de atuação do psicólogo. Em comum, os grupos apresentaram alto interesse por atividades sociais e baixo interesse por atividades relacionadas ao cálculo, confirmando dados de pesquisas anteriores (Levenfus, 2002; Magalhães & cols., 2001; Holland, 1997). Além disso, as médias nas escalas do 16PF, embora não tenham saído da região de normalidade (entre 4 e 7), apresentaram tendências características da pouca idade dos participantes avaliados, tais com tendência à contestação das normas, sensibilidade e sentimentalismo, impulsividade, extroversão, abertura à experiência, e também tendência à baixa preocupação e tolerância à frustração, dificuldade em disciplinar-se e elevada apreensão, tensão e ansiedade.

O subgrupo 1 apresentou, mais destacadamente, interesse por ciências biológicas associado ao interesse por atividades sociais; além disso, caracterizou-se por ser mais expansivo, atencioso e participante (alta extroversão), mais consciencioso e preso aos valores culturais e convencionais (alta consciência), mais prático, cuidadoso, preciso e formal (baixa imaginação). Essas características parecem se referir aos psicólogos mais atentos às exigências da ciência tradicional, sendo possível hipotetizar (e levantar a necessidade de outras pesquisas que explorem o tema) que as pessoas do grupo 1 devem apresentar interesses por atividades relacionadas à psicologia experimental e comportamental, neuropsicológica, pesquisa em psicologia, psicofarmacologia, e assim por diante.

O subgrupo 2 apresentou caracteristicamente interesse por atividades artísticas associado ao interesse por atividades sociais; e também características de sensibilidade, harmonia e sentimentalismo (brandura alta), e ainda imaginação e regulação pelas solicitações interiores (imaginação alta). Essas características parecem se associar às pessoas com interesse por teorias psicodinâmicas e pela utilização de processos intuitivos como forma de compreender o outro. Tal como se interessa pela interpretação de uma obra de arte, também procura interpretar os significados da conduta humana, utilizando-se para tanto de material subjetivo. Se, por um lado, essas características podem ajudar o profissional a ir além do que é imediatamente óbvio, para tentar compreender as motivações que levam uma pessoa a apresentar determinados comportamentos (evidentes ou latentes), por outro lado, o tornam mais susceptível de  confundir e atribuir seus próprios sentimentos e solicitações interiores ao outro.

O subgrupo 3 apresentou interesse destacado apenas por atividades sociais, além de um menor índice de inteligência em relação aos outros dois grupos. Apesar de ser baixa em relação aos outros dois grupos, essa média ainda se encontra na região de normalidade, quando comparada com pessoas de nível superior. Além disso, este grupo apresentou índices mais baixos de consciência e brandura, caracterizando-se pela evasão, inconveniência e dissidência, mas também pela praticidade, objetividade e realismo. Essas características parecem estar associadas às pessoas que desejam ajudar o próximo de forma mais concreta, envolvendo-se social e/ou politicamente, atuando diretamente nos trabalhos em grupo nas suas mais diversas modalidades (institucionais, comunitários, ensino-aprendizagem, terapêuticos, etc). Tal questão precisa ser melhor investigada em estudos posteriores.

Conclui-se que há características distintas entre os estudantes de Psicologia, no que se refere aos processos intelectuais, interesses e traços de personalidade, e que essas características muito provavelmente interferem nas escolhas profissionais que esses alunos terão que realizar ao longo da carreira. Este estudo, além de contribuir para evidenciar parte dessas características, abre possibilidades para outros estudos e também para intervenções de apoio ao estudante universitário do curso de Psicologia.

 

REFERÊNCIAS

Baptista, M. N., Yoshimoto, L. W., Monello, M. R., Baptista, R. A. W. & Berti, A. A. (1998). Nível e fontes de estresse em alunos de psicologia. Psico-USF, 3(1), 61-76.        [ Links ]

Baptista, M. N & Campos, L. F. L. (2000). Avaliação longitudinal de sintomas de depressão e estresse em estudantes de psicologia. Boletim de Psicologia,50(113), 37-58.        [ Links ]

Bariani, I. C. D. & Santos, A. A. A. (2000). Estilos cognitivos de estudantes de psicologia: experiências em iniciação científica e séries freqüentadas. Revista Estudos de Psicologia,17(2), 52-61.        [ Links ]

Boccalandro, M. (2000). Características de personalidade dos estudantes de cursos de psicologia e de educação física. Psic – Revista da Vetor Editora, 2, 53-59.        [ Links ]

Bosi, M. L. M. & Elias, T. F. (2000). Um novo caminho: perfil e trajetórias de alunos de psicologia ingressos como portadores de diploma. Revista Estudos de Psicologia, 17(2), 31-40.        [ Links ]

Campos, L. F. L., Souza, K. C. C., Catão, E. C. & Campos, P. R. (1996). Fatores motivacionais na escolha de abordagens teóricas em psicologia clinica. Estudos de Psicologia, 1(13), 41-54.        [ Links ]

Campos, L. F. L., Filho, N. S., Campos, P. R. & Rocha, R.L. (1996). Caracterização dos alunos de Psicologia da USF/Itatiba: características, opiniões e expectativas. Psico USF,1(2), 57-82.        [ Links ]

Campos, L. F. L., Silva Filho, N., Campos, P. R. & Rocha, R. L. (1997). Caracterização dos alunos de psicologia da USF: estudo comparativo de opiniões e expectativas. PsicoUSF, 1(2), 65-80.        [ Links ]

Campos, L. F. L., Largura, W. A. N. & Jankovic, A. L. (1999). Efeito da graduação em psicologia nas escolhas profissionais de seus estudantes. Psico, 30(2), 29-44.        [ Links ]

Campos, K. C. L. & Largura, W. A. N. (2000). Criatividade na formação de psicólogos: percepção de alunos. Psicologia Escolar e Educacional, 4(2), 11-19.        [ Links ]

Carvalho, M. M. M. J. (1995). Orientação profissional em grupo. Campinas: Editorial Psy.        [ Links ]

Castilho, A. V. (1986). Uma investigação preliminar a respeito de características psicológicas e incidência de distúrbios psiquiátricos entre estudantes de psicologia. Boletim de Psicologia, 85(36), 40-46.        [ Links ]

Catão, E. C., Oliveira, J. C. S, Bueno, J. M. H. & Oliveira, S. M. S. S. (2001). Nível de stress em estudantes universitários dos cursos de enfermagem, medicina e psicologia. Trabalho apresentado no II Congresso Ibero-americano de Psicologia Clínica e da Saúde.        [ Links ]

Cattell, R. B., Cattell, A. K. S. & Cattell, H. E. P. (1999).  Questionário 16PF Quinta Edição. Rio de Janeiro: CEPA.        [ Links ]

Del Nero, C. D. (1984). (2ª ed.). LIP – Levantamento de interesses profissionais – manual. São Paulo: Vetor.        [ Links ]

Holland, J. L. (1997). Making vocational choices: a theory of vocational personalities and work environments. Odessa: PAR.        [ Links ]

Levenfus, R. S. (2002). Levantamento de interesses profissionais. Em R. S. Levenfus, & D. H. Soares. Orientação Vocacional Ocupacional (pp. 209-223). Porto Alegre: ArtMed.        [ Links ]

Soares-Lucchiari, D. H. P. (Org.). (1993). Pensando e vivendo a orientação profissional. São Paulo: Summus.        [ Links ]

Magalhães, M., Straliotto, M., Keller, M. & Gomes, W. B. (2001). Eu quero ajudar as pessoas: a escolha vocacional da psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 2, 10-27.        [ Links ]

Morato, H. T. P., Costabile, C., Eisenlohr, M. G., Simone, C. E. & Honora, K. (1993). Um serviço a serviço de alunos de psicologia: a história de um projeto. Boletim de Psicologia, 98-99(43), 95-110.        [ Links ]

Pitta, K. B., Santos, L. A. D., Escher, C. A. & Bariani, I. C. D. (2000). Estilos cognitivos de estudantes de psicologia: impacto da experiência em iniciação científica. Psicologia Escolar e Educacional, 4(2), 32-39.        [ Links ]

Raven, J. C. (1993). Teste das matrizes progressivas : escala geral. Rio de Janeiro: CEPA.        [ Links ]

Santos, M. A. (1989). O psicólogo: atuação profissional e função social segundo a percepção de estudantes de psicologia. Estudos de Psicologia, 1(6), 5-30.        [ Links ]

Serpa, M. N. F. & Santos, A. A. A. (2001). Atuação no ensino superior: um novo campo para o psicólogo escolar. Psicologia Escolar e Educacional, 5(1), 27-35.        [ Links ]

Silva, G. G. & Campos, L. F. L. (1992). Caracterização dos alunos ingressantes em dois cursos recém-abertos de psicologia: um estudo comparativo sobre suas características, opiniões e expectativas. Estudos de Psicologia, 2(9), 92-110.        [ Links ]

Silva, V. L. M. & Botome, S. P. (1996). Situações e locais de atuação do psicólogo clínico na percepção de estudantes de psicologia. Psicologia (Sociedade de Estudos Psicológicos), 3(12), 11-34.        [ Links ]

Spitzcovsky, S. R. (2003). Stress na universidade: é a avaliação uma situação desencadeadora? Dissertação de Mestrado, Não-Publicada, Programa de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo.        [ Links ]

Tapia, L. E. R. (1985). Esboço de um estudo das formas de cognição em psicologia: fundamentos para uma disciplina acadêmica em psicologia aplicada. Psicologia e Trânsito, 2(2), 29-32.          [ Links ]

Uvaldo, C. C. (1995). A relação homem-trabalho. Em A. M. Bock (Org.). A escolha profissional em questão (pp. 215-237). São Paulo: Casa do Psicólogo.        [ Links ]

Watanabe, O. M., Cassetari, L., Santos, M. L. M., Lombard-Plantet, V. L. V., Di Domenico, V. G. C. (2001). Um levantamento dos hábitos de estudo dos alunos do Curso de Psicologia do Centro Universitário FMU. Psikhe, 6 (2), 60-71.        [ Links ]

Yamamoto, K. (1997). Prevenção de distúrbios adaptativos em estudantes universitários. Mudanças: Psicoterapia e Estudos Psicossociais, 8(5), 267-273.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
José Maurício Haas Bueno. Núcleo de Psicologia, Rua Itambé, 45, prédio 16, Higienópolis, CEP 01239-902, São Paulo-SP.
E-mail: avalpsi@uol.com.br

Recebido em 18/12/2003
Aceito em 07/06/2004