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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.9 no.3 Maringá Sept./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722004000300015 

ARTIGOS

 

Uso da maconha e suas representações sociais: estudo comparativo entre universitários1

 

The use of marijuana and its social representations: comparative study among university students

 

 

Maria da Penha de L. CoutinhoI; Ludgleydson Fernandes de AraújoII; Bernard GontièsIII

IDoutora Adjunto IV, Docente do Departamento de Psicologia, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UFPB; e do Núcleo de pesquisa: Aspectos Psicossociais da Prevenção e da Saúde Coletiva
IIMestrando em Psicologia Social/ Especialista em Gerontologia, Licenciado em Psicologia pela UFPB
IIIDoutor Adjunto IV, Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, Coordenador do Núcleo de Pesquisa Aspectos Psicossociais da Marginalização

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo comparar as representações sociais dos universitários concluintes de cursos das áreas tecnológica, da saúde e jurídica acerca do uso da maconha. Dela participaram 60 universitários, de ambos os sexos, com idade entre 22 e 30 anos. Foram utilizados como instrumento entrevistas semi-estruturadas e o material coletado categorizado através da análise de conteúdo temática de Bardin (1977). Os dados obtidos  entre os universitários possibilitaram representações consensuais e particularidades de acordo com os campos de atuação profissional. Os universitários de direito objetivaram suas representações com base nas questões legais e sociais; os de saúde, nas concepções médico-orgânica e psicossocial; e os de tecnologia fundamentaram suas representações em elementos psicossociais. Conclui-se  haver a necessidade da formulação/mudança de estratégias que sirvam de subsídios/dados à formação de profissionais, principalmente das áreas de saúde e jurídica, para serem aplicados nas suas práticas futuras de intervenção junto aos usuários de drogas e seus familiares, bem como na implementação de políticas públicas de educação e promoção da saúde.

Palavras-chave: maconha, universitários, representações sociais.


ABSTRACT

The purpose of this research was to compare the social representations of university students who are getting their degree in the technological, health and law areas, on the use of marijuana. Sixty (60) university students took part in this research, both sexes, aged from 22 to 30 years old. Semi-structured interviews were used and the collected material was categorized through the analysis of content by Bardin´s theme (1977). The collected data obtained among the university students made the consensual representations possible and particularity according to the  field of professional performance. The law students showed their representations based on legal and social questions; the health students on the organic-medical and psychosocial conception, and the technological ones their representations in psychosocial elements. It has been concluded that there is the necessity of formulating the strategies which give data (support/information) in the professional formation, mainly the health and law areas which will be applied in their future practices of intervention with drug users and their families, as well as the implementation of public policies of education and health promotion.

Key words: marijuana, university students, social representations.


 

 

O consumo de substâncias psicoativas é uma característica comum à maioria das civilizações. Entre estas substâncias a  maconha é a mais utilizada por todos os consumidores de drogas ilícitas na realidade brasileira. Esse psicotrópico tem a capacidade de produzir alterações no funcionamento do sistema nervoso central, podendo modificar o comportamento dos indivíduos que fazem  uso dele (SENAD, 2001).

O presente estudo abordará as representações sociais do uso da maconha elaboradas por universitários concluintes de três áreas do conhecimento (de saúde, jurídica e tecnológica). A  importância da investigação dessa temática é o aumento substancial do consumo da maconha nos diferentes níveis sociais.

A maconha é uma erva cujo nome científico é Cannabis sativa. Em latim Cannabis significa cânhamo, que denomina o gênero da família da planta, e sativa  diz respeito à cultura plantada ou semeada, e indica a espécie e a natureza do desenvolvimento da planta. É uma planta originária da Ásia Central, com extrema adaptabilidade no que se refere ao clima, altitude, solo, apesar de haver uma variação quanto à conservação das suas propriedades psicoativas, pois essa requer clima quente e seco e umidade adequada do solo (Nahas, 1986; Bergeret & Leblanc, 1991; Costa & Gontiès, 1997; MacRae & Simões, 2000; Gontiès & Araújo, 2003).

Três são as espécies de maconha. A mais comum, que é a Cannabissativa, assume diferentes formas e é cultivada em quase todo o mundo; a Cannabisíndica apresenta baixo teor de substância psicoativa (THC); e a Cannabis ruderalis, arbusto curto da Cannabis, não possui ingredientes psicoativos (Inaba & Cohen, 1991; Patrício,1997).

De modo geral, as substâncias psicoativas foram e ainda são consumidas em diversas épocas e culturas com finalidades terapêuticas, religiosas e lúdicas e ainda para obtenção do prazer. De certa maneira, a história da humanidade está atrelada ao hedonismo e à utilização de certas substâncias psicoativas pode facilitar o acesso ao prazer. Na Antigüidade a droga era incentivada por suas múltiplas funções: econômica, religiosa, social e medicinal, atendendo ao contexto cultural da época (Arnaud, 1996; Maciel, 1997).

No que tange aos efeitos prejudiciais da maconha em curto prazo, Noto e Formigoni (2002) salientam que eles não são bem evidentes, se comparados à cocaína; no entanto, são freqüentes os problemas de concentração e memória, dificultando a aprendizagem e a execução de tarefas de dirigir ou operar máquinas. O uso contínuo dessa substância pode causar tosse crônica, alteração da imunidade, redução dos níveis de testosterona e desenvolvimento de doenças mentais como a esquizofrenia, depressão e crises de pânico, redução do interesse e de motivação pela vida, com a observação da síndrome amotivacional.

Outras conseqüências relacionadas à  esfera psicológica, segundo Graeff (1989), são a hipersensibilidade a estímulos sensoriais e principalmente alterações da percepção temporal. Com doses mais elevadas surgem perturbações da memória, alterações do pensamento e sentimentos de estranheza. Somente em doses muito altas aparecem alucinações e despersonalização.

Zaluar (2002), por sua vez, argumenta que, embora haja alguns usuários múltiplos de maconha e cocaína, estruturam-se grupos antagônicos quanto à identidade e às imagens simbólicas associadas às drogas. No caso particular dos usuários da maconha, apresentariam  atos bucólicos, com referências ao dia, ao campo, à natureza, à comida, à saúde, ao ócio e à paz. Já a cocaína seria associada a um uso mais urbano e artificial, à saída noturna para boates, ao viver agitado, à degeneração do corpo e à guerra.

De acordo com pesquisa sobre o uso de drogas na realidade brasileira desenvolvida por Carlini, Galduróz e Noto (2001), através do Centro Brasileiro de Informações acerca de Drogas Psicotrópicas — CEBRID, em 107 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes, constatou-se que, das pessoas entrevistadas, 6,9% já tinham consumido maconha alguma vez na vida, e destes, 1% era dependente da droga.

A demanda pela utilização de substâncias psicoativas aumentou significativamente nas últimas décadas, constatação evidenciada pelos meios de comunicação de um modo geral e relatórios de instituições nacionais e internacionais. A oferta cresceu na mesma proporção, pois tais substâncias se têm mostrado um negócio rentável e de controle por parte de grupos (ONU, 2000). Não obstante, o consumo de drogas tem ligações nas diversas esferas da sociedade, sendo algo complexo, que envolve uma série de fatores políticos, econômicos, culturais e sociais, a serem considerados nas investigações científicas para seu melhor entendimento.

Urge assim a necessidade de pesquisas que contemplem as representações sociais de futuros profissionais quanto ao uso da maconha, enquanto conhecimento que poderá contribuir, nas suas práticas, no âmbito da  intervenção e promoção da saúde.

Diante dessas premissas, esta pesquisa objetiva comparar as representações sociais (RS) acerca do uso da maconha por parte de universitários das ciências da saúde, tecnológica e jurídica da UFPB que cursam o último semestre de seus respectivos cursos.

 

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E AS PRÁTICAS DO USO DA MACONHA

A história das representações sociais insere-se na inter-relação entre atores sociais, o fenômeno e o contexto que os rodeia. Elas são constituídas por processos sociocognitivos e têm implicações na vida cotidiana, influenciando a comunicação e os comportamentos. Desta forma a representação pode ser considerada como um sistema de interpretações da realidade, organizando as relações dos indivíduos com o mundo e orientando suas condutas e comportamentos no meio social.

Para compreender melhor o funcionamento do comportamento humano e o modo como os atores sociais se agrupam, devem-se considerar conjuntamente os afetos, as condutas, a organização, a sistematização de como eles compartilham crenças, atitudes, valores, perspectivas futuras e experiências sociais (Moscovici, 2003).

A representação social, diferentemente das representações coletivas, não é somente uma herança dos antepassados, transmitida de maneira determinista, estática e preestabelecida, mas um conhecimento construtivo, de caráter social, que se origina nas conversações interindividuais e intergrupais (Moscovici, 1984).

Deste modo todos os fenômenos que emergem do contexto social são investidos simbolicamente, ou seja, recebem nomes e significados que os avaliam, explicam e lhes dão sentido. Esses significados, à medida que circulam, transformam-se, de acordo com os modelos vigentes em uma determinada época e formação social.

Assim, a representação social do uso da maconha, que faz parte do cotidiano social, recebe significados em conformidade com os grupos de pertença e o contexto social no qual se encontram inseridos. Além disso, esses significados são resultantes da interação entre o senso comum e o conhecimento erudito, na qual existe uma relação de influência mútua e permanente entre estes dois universos, resultando numa diversidade de significados que circulam através dos meios de comunicação formais e informais, assimilados e reelaborados socialmente.

Para Doise (1990), a utilização da teoria das representações sociais é bastante útil, na medida em que se lida com um marco conceitual que envolve tanto o nível intrapessoal de análise como o interpessoal e o grupo. Desta forma, é possível partir das representações pessoais de objetos sociais para um exame das cognições no nível grupal, que permite ao pesquisador a apreensão dos aspectos compartilhados de uma representação.

Esta visão coletiva, em que a representação social é vista como um processo público de criação, elaboração, difusão e mudança do conhecimento compartilhado no discurso cotidiano dos grupos sociais (Doise, 1990, 1992; Jodelet, 2001; Moscovici, 1984, 1988 e 2003), é que foi utilizada no desenvolvimento deste estudo, em que a "representação social é compreendida como a elaboração de um objeto social pela comunidade com o propósito de conduzir-se e comunicar-se" (Moscovici, 1984, p.251).

Para Moscovici (1978), toda representação é construída na relação do sujeito com o objeto representado, não existindo representação sem objeto. Desse modo, uma RS não pode ser compreendida enquanto processo cognitivo individual, uma vez que é reproduzida no intercâmbio das relações e comunicações sociais. Esse autor ainda observa que o objeto - seja ele humano, social, material ou uma idéia - será apreendido através da comunicação. Os elementos da realidade, os conceitos, as teorias e as práticas são submetidos a uma reconstrução a partir das informações colhidas e da bagagem histórica (social e pessoal) do sujeito. Assim sendo, as representações sociais tomam o objeto insignificante e tratam de explicar as características do pensamento social, diferenciando-o do pensamento individual.

Na elaboração das RSs, faz-se necessária a contribuição de dois fatores, a objetivação e a ancoragem, as quais são responsáveis pela interpretação e atribuição de significados do objeto social, neste estudo o uso da maconha. Para Moscovici, esses fatores  são condições sine quibus non, pois ambos colaboram na maneira como o social transforma um conhecimento em representação e na maneira como esta transforma o social, indicando a interdependência entre a atividade psicológica e suas condições sociais.

A objetivação transforma uma abstração em algo concreto, é responsável pela transformação do que é estranho em familiar. É por meio desse processo que os elementos adquirem materialidade e se tornam expressões de uma realidade vista como natural. A ancoragem é o processo da inserção de um conhecimento  enquanto quadro de referência, a partir de experiências e esquemas de pensamento já estabelecidos sobre o objeto em estudo.

A inserção da maconha na vida cotidiana de diferentes segmentos sociais e as discussões que ela vem suscitando nas pautas de políticas públicas de saúde e científicas justificam-se pelas conseqüências nefastas que o uso desta substância vem acarretando à sociedade, por ocasionar um sofrimento que interfere significativamente na diminuição da qualidade de vida, rompendo fronteiras de idade, classe socioeconômica, cultura, raça e espaço geográfico (Bastos, 2003; Pereira, 2002).

Desta forma, as representações acerca das drogas por parte dos universitários são muito importantes, uma vez que elas serão determinantes de suas práticas, e, segundo Andrade (2003), são eles que vão coordenar e gerenciar num futuro próximo essa problemática que afeta tanto o indivíduo como sua família. Espera-se, portanto, que suas ações futuras sejam direcionadas a uma intervenção multidisciplinar, visando contribuir na promoção e prevenção da saúde.

 

MÉTODO

Campo de investigação

A presente pesquisa foi desenvolvida em três centros da Universidade Federal da Paraíba, quais sejam: Centro de Ciências da Saúde (CCS); Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) e Centro de Tecnologia (CT), todos localizados no Campus I, na cidade de João Pessoa-PB.

Participantes

Participaram da pesquisa 60 estudantes, concluintes dos cursos das áreas de ciências tecnológicas (20), jurídicas (20) e de saúde (20), escolhidos aleatoriamente, do tipo não-probabilístico e intencional, de ambos os sexos (45% masculino e 55% feminino), com média de idade de 25 anos. Tendo-se em vista a randomização da amostra, optou-se por não considerar as diferenças de gênero e idade na estruturação dos grupos. É válido mencionar que para participação na presente investigação fazia-se necessário estar no último período das respectivas áreas do conhecimento, pois, como aponta Lacerda (2001), é nesta fase que o universitário se encontra mais identificado com seu curso.

Instrumento

Na coleta de dados foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas, divididas em duas partes: a primeira constituída de itens referentes à identificação sociodemográfica dos participantes, definindo o seu perfil; e a segunda, composta de perguntas, que foram realizadas na ordem a seguir. Oque você acha do usuário de maconha?Quais as conseqüências na vida dos usuários de maconha? Quais as causas do uso da maconha? As Formas detratamento do usuário?. O roteiro de entrevista foi elaborado previamente, tendo como pressupostos os objetivos da pesquisa e o estado atual da arte. Realizou-se um estudo piloto com o intuito de verificar a boa adequação do instrumento, e verificou-se a validade semântica do instrumento; em seguida, efetuou-se o estudo definitivo.

Procedimentos

Inicialmente, foi mantido contato com as coordenações dos referidos cursos, com a finalidade de obter a listagem das turmas concluintes; posteriormente, verificou-se a disposição dos universitários a participar de forma voluntária desta pesquisa. Na oportunidade explicitavam-se os objetivos e a necessidade do uso do gravador; foram-lhes garantidos o anonimato e a confidencialidade das suas respostas, indicando-se-lhes que estas seriam analisadas no seu conjunto. As entrevistas foram realizadas de forma individual na própria Universidade, por um pesquisador previamente treinado e qualificado; o tempo de aplicação foi, em média, de 45 minutos para cada participante. Informa-se, ainda, que não houve recusa por parte de universitário algum.

Análise dos dados

No que se refere à análise dos dados desta pesquisa, utilizou-se a análise de conteúdo temática de Bardin (1977), cujo objetivo é compreender o sentido das comunicações e suas significações explícitas e/ou ocultas. Seu procedimento visa ainda obter a sistematização e descrição dos conteúdos das mensagens, os quais permitem a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) e são analisados quantitativamente por meio da análise das freqüências e percentuais. A análise das unidades temáticas por meio desta técnica pressupõe o desenvolvimento das seguintes etapas operacionais: constituição do corpus; leitura flutuante; composição das unidades de análise; codificação e recortes; categorização e descrição das categorias. Após a leitura flutuante do corpus e a emersão das categorias empíricas, foram estas codificadas e validadas internamente por dois pesquisadores-juízes que trabalham com esta técnica.

 

RESULTADOS

As representações sociais acerca do uso da maconha elaboradas pelos universitários de três áreas de conhecimento, com base no material coletado pelas entrevistas e ponderadas pela análise temática de conteúdo, resultaram em quatro categorias empíricas e catorze subcategorias.

A primeira categoria, que se refere ao posicionamento frente aos usuáriosde maconha (PFUM), subdividiu-se em três subcategorias: favoráveis, desfavoráveis e neutras, conforme tabela 01. Das representações dos universitários de tecnologia, 60% foram favoráveis e 40% desfavoráveis; dos da área de saúde, 44% tiveram um posicionamento favorável, 15% foram desfavoráveis e 41% neutros; e das representações dos universitários da área jurídica, 32% foram favoráveis e 68% desfavoráveis.

 

 

 

A segunda categoria diz respeito às conseqüências na vida dos usuários da maconha (CVUM), e foi subdividida em três subcategorias: conseqüências na vida familiar, profissional e social. Das representações apreendidas pelos universitários da área tecnológica, 31%  foram relativas à vida familiar, 32% ao campo profissional e  37% ao campo social. Quanto aos universitários da saúde, para  32% o uso da maconha compromete a vida familiar; para 39%, a vida profissional; e para 29%, compromete o aspecto  social. Já dos universitários da área jurídica, 33% apontaram que compromete a vida familiar, 33% a vida profissional e 34%,  o aspecto social.

No que se refere à terceira - categoria causas do uso da maconha (CUM) - houve a emersão de quatro subcategorias: fuga de problemas; prazer; curiosidade e influência de amigos. Os dados da tabela 3 revelam que, dos universitários da área tecnológica, 48% apontam como causa a fuga dos problemas, 22% o prazer, 16% a curiosidade e 14% a influência de amigos. Os estudantes de direito apontaram as seguintes causas do uso da maconha: 49% apontam fuga dos problemas, 14% o prazer, 16% curiosidade e 21% influência de amigos. Dos universitários da área de saúde,  61% apontam como causa a fuga dos problemas e 11% o prazer.

 

 

A última categoria apreendida, conforme tabela 4, refere-se às formas de tratamento dos usuários de maconha (FTUM), e foi subdividida em quatro subcategorias: tratamento médico; tratamento psicossocial; grupos de apoio e tratamento não-especificado. Os dados demonstram que, dos estudantes de tecnologia, 35% apontaram tratamento médico; 33% tratamento psicossocial e 16%, grupos de apoio. Já dos estudantes da área jurídica, 21% apontaram  tratamento médico; 30% tratamento psicossocial e 23% tratamento não-especificado. Observa-se entre os universitários de saúde destaque de 53% para tratamento não-especificado, 14% para tratamento médico e 24% para o tratamento psicossocial.

 

 

DISCUSSÕES

Apesar de a presente pesquisa ter sido constituída por número pequeno de universitários, espera-se que os resultados possam subsidiar aspectos relevantes para o entendimento das representações elaboradas pelos atores sociais acerca da prática do uso da maconha.

As representações de cada um dos três grupos serão discutidas a seguir, destacando-se os aspectos consensuais e aqueles que se diferenciaram em relação ao objeto pesquisado.

Posicionamento frente aos usuários de maconha

Nessa categoria investigaram-se as representações dos universitários das áreas tecnológica (UT), saúde (US) e jurídica (UJ) quanto aos usuários de maconha. Os universitários das duas primeiras áreas demonstraram posições favoráveis aos usuários da maconha, enquanto os estudantes da área de direito majoritariamente emitiram representações desfavoráveis.

Provavelmente, as atitudes favoráveis dos universitários das duas primeiras áreas devem-se ao fato de estes considerarem os usuários como vítimas do contexto social em que se encontram inseridos, o qual contribui para o envolvimento com as drogas. Já os universitários de direito, diferentemente dos de saúde e tecnologia, além de posicionaram-se de forma desfavorável,  apresentam a imagem dos usuários com conotação de cunho negativo, conforme pode ser observado nos recortes das falas a seguir:

(...) pessoa que usa esta droga pode viver de forma normal (...) não tenho nada contra (...) pode ter uma vida legal (...) (UT).

(...) tenho amigos que usa e vive normal (...) não tenho nada contra uso da maconha (...) acho normal (...) (US).

(...) a maconha é uma droga ilícita (...) o usuário é um infrator (...) um fora da lei (...) um maconheiro (...) que faz uso (...) para cometer crimes(...) (UD).

Essa representação do usuário de maconha como um ser marginal, criminoso e violento, de presença indesejável, está presente em determinadas culturas ocidentais, e provavelmente se relaciona à herança da lenda dos Assyssins, cujos membros assassinavam pessoas em troca de Cannabis (Nahas,1986).

Faz-se necessário enfatizar que esta representação coaduna-se com a prática jurídica, que tem como referência as leis que regem o uso de substâncias psicoativas, e está associada à identidade profissional destes universitários. De acordo com Bastos (2003), o consumo de drogas não consegue ser eficazmente combatido apenas pela criminalização. Segundo esse autor, a maneira de eliminar o tráfico de drogas é usar da inteligência, a informação, a luta contra a lavagem de dinheiro e a violência, monopolizada pelo Estado de maneira mais dura e mais forte contra os traficantes, devendo-se aplicar ações diferenciadas  em relação àqueles que são apenas usuários.

Conseqüências na vida dos usuários da maconha

Esta categoria apreendeu as representações sobre as conseqüências na vida dos usuários da maconha associadas à esfera familiar, profissional e social.

Nessa categoria observaram-se representações consensuais nos universitários das três áreas pesquisadas em relação às conseqüências na esfera familiar, objetivadas em elementos de cunho afetivo-emocional, que geram preocupação por parte das figuras parentais no que diz respeito à perspectiva futura. Na esfera social e profissional o usuário é representado pelos universitários das três áreas como um ser indesejável, devido às manifestações de comportamentos anti-sociais e delitivos, conforme se pode observar nas falas a seguir:

(...) pessoa agressiva (...) revoltada (...)que não pode conviver em sociedade(...) todo momento quer utilizar a droga (...) não consegue ter amigos (...) que não use maconha (...) (UT).

"(...)pessoa que usa maconha (...) não tem condições de ter profissão (...) (...) o usuário vai querer utilizar droga no trabalho (...) muito difícil a vida social de uma pessoa que usa maconha (...) compromete sua vida (US).

(...) uso de maconha pode trazer vários danos à família do usuário (...)  pode chegar até praticar atos de violência contra familiares (...) pode ficar agressivo (...) a família pode ter problemas (...) econômicos e afetivos (...) quando tem uma pessoa que usa droga em casa  (UD).

Estes resultados acerca das conseqüências na vida dos usuários de maconha corroboram  os estudos realizados por MacRae e Simões (2000) apontando Velho (1981/85). Mesmo tendo estes pesquisadores utilizado metodologias diferentes, seus resultados apontam que no contexto familiar há uma preocupação no que tange ao futuro dos filhos. Comumente o uso de drogas é associado a comportamentos contrários aos esperados tanto no trabalho quanto na família, podendo o "filho drogado" ser visto como um ser improdutivo e parasitário.

De forma consonante com as representações dos universitários acerca da vida profissional do usuário de maconha, no projeto de Prevenção ao Uso de Drogas no Trabalho e na Família, realizado pelo SESI-RS em parceria com o UNDCP — Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas (1999), pôde-se verificar que a utilização de substâncias psicoativas era o principal fator para falta ao trabalho, queda da produtividade, internações, acidentes de trabalho e problemas na família.

Causas do uso da maconha

Nesta categoria investigaram-se as causas do uso da maconha pelos universitários das áreas tecnológica, de saúde e jurídica. Os universitários das três áreas representaram de forma consensual as causas do uso da maconha, que se deve à fuga dos problemas, curiosidade e  busca de prazer.

De acordo com o Guia para a família da SENAD (2001), uma das causas para o uso de drogas é a obtenção de prazer, além de sentimentos de inadequação e baixa auto-estima. Arnaud (1996), por sua vez, argumenta que talvez os principais atrativos da maconha sejam a curiosidade, a coragem e o prazer. Esses resultados  corroboram os dados encontrados na presente pesquisa, a respeito das causas do uso da maconha, conforme exemplos  a seguir:

(...) sair das preocupações (...) sair do mundo real (...) não tá pensando nos seus problemas (...) é a vontade de sentir uma sensação diferente (...) sentir um prazer (...) um bem-estar (...)  (UT).

(...) procura fugir da realidade (...)  passando por alguma dificuldade (...)  para fugir disto (...) fuma mais por causa dos outros, dos amigos, para se enturmar (...)  (US).

(...) muita gente entra nessa por curiosidade (...), não tem nem noção do perigo que vem pela frente ( ) pelo prazer que proporciona (...) (UD).

Em consonância com os resultados entre os estudantes paraibanos, Pereira (2002) verificou junto aos universitários pernambucanos que as principais causas do uso da maconha pela primeira vez foram: curiosidade - com 80,20% dos casos,  esquecer problemas - com 0,9%, e influência de amigos, com 7,5%, dados semelhantes aos encontrados entre os estudantes da UFPB. No que tange à justificativa de utilizar esta droga na atualidade, a subcategoria mais realçada entre os estudantes pernambucanos foi obter prazer (78%).

Formas de tratamento dos usuários de maconha

No que se refere às formas de tratamento dos usuários de maconha, os universitários da tecnologia e direito apontaram o tratamento psicossocial, ao passo que os universitários de saúde representaram no tratamento não-especificado e médico-orgânico para os usuários de maconha, como se pode verificar nas falas dos universitários:

(...) vale a pena investir em um tratamento psicológico ( ) fazer um trabalho de retorno desta pessoa à sociedade (...) acompanhamento psicossocial para o usuário (...)  (UT).

(...) olha, eu penso que as pessoas que são viciadas poderiam ser submetidas a um tratamento médico (...) eu acho que deveria fazer um tratamento (...)  (US).

(...) usuário de maconha precisa de tratamento psicológico e social (...) acompanhamento de um profissional (...) tem que ser tratado (...) (UD).

Os futuros profissionais de saúde objetivaram sua representação social na visão médico-orgânica no tratamento do usuário de maconha. De forma dissonante dos universitários de saúde, Patrício (1997) observa que a abordagem do toxicodependente apenas pela vertente física, a abordagem apenas orgânica, é de fato um paliativo, e na maioria das vezes está condenada ao fracasso. Faz-se necessária uma visão holística do homem, como um ser biopsicossocial e cultural, com vistas a concretizar, de forma exitosa, o tratamento do toxicômano.

Vale salientar que entre os universitários de saúde o destaque para a subcategoria Tratamento não-especificado é preocupante, na medida em que estes futuros profissionais, que têm como meta principal, no exercício de sua profissão, a promoção e prevenção em saúde, ainda não dispõem de estratégias de tratamento para os usuários de maconha. Infere-se que esta representação esteja ancorada na ausência de disciplinas nas grades curriculares dos cursos de saúde pesquisados que possibilitem e oportunizem aos universitários contatos com a temática das drogas, bem como formas de intervenção e prevenção ao uso abusivo de substâncias psicoativas.

De forma a corroborar os dados desta pesquisa, a Secretária Nacional Antidrogas - SENAD (2001), ao reportar os tipos de tratamento, menciona: desintoxicação, terapia comportamental, reabilitação das conseqüências do uso, participação em grupos de apoio.

Assim sendo, o consumo de drogas, como envolve aspectos psicológicos, sanitários, educativos, políticos, culturais e sociais, exige uma integração de ações preventivas de controle e de tratamento, de forma a atuar no pólo da demanda com trabalho de prevenção sócio-educativa.

 

CONCLUSÕES

O presente trabalhou versou sobre as representações sociais do uso da maconha,  comparadas entre três áreas do conhecimento: da saúde, jurídica e tecnológica. Os dados apreendidos entre os universitários possibilitaram representações consensuais e particularidades de acordo com os campos de atuação profissional.

Percebe-se que a influência da identificação profissional é fonte propiciadora na construção de representações acerca do uso da maconha. Os resultados apontaram que os universitários de direito ancoraram suas representações nas concepções legal, moral e social, ao passo que as representações dos universitários de saúde ancoraram-se na concepção médico-orgânica e psicossocial e os de tecnologia, na concepção psicossocial.

A presente investigação trouxe algumas inquietações e reflexões no que se refere à formação acadêmico-profissional oferecida pelos cursos pesquisados, pois, apesar de a questão não ter sido objeto de investigação,  no decorrer da coleta dos dados foi identificado — sobretudo nas ciências da saúde e jurídicas - que esses cursos não dispõem de disciplinas curriculares que contemplem conteúdos programáticos acerca de  substâncias psicoativas.

As representações sociais, como uma modalidade de conhecimento prático, deixaram, entre outras contribuições, a preocupação quanto à prática desses futuros profissionais em instituições - como manicômios judiciários, centros de atenção psicossocial para usuários de álcool e outras drogas (CAPS-AD), hospitais psiquiátricos, e até mesmo hospitais gerais - que porventura recebam em seus quadros pessoas enfermas devido à utilização abusiva de psicotrópicos.

Neste sentido, espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para a formulação de estratégias que sirvam de embasamento à formação de profissionais das áreas de saúde e jurídica, com vista às suas futuras  intervenções junto aos usuários de drogas e seus familiares. Espera-se igualmente que concorram  para a implementação de políticas públicas de educação e promoção em saúde, de modo a minimizar o uso abusivo de substâncias psicoativas na realidade brasileira.

A presente pesquisa não esgota a possibilidade de futuros estudos com esta temática. No entanto, espera-se que ela possa contribuir na formulação de novos questionamentos acerca do uso da maconha na realidade brasileira, de forma a preencher algumas lacunas até agora existentes, possibilitando melhor compreensão deste fenômeno biopsicossocial.

Desta forma, sugerem-se  pesquisas com a finalidade de verificar as representações sociais do uso da maconha, tendo como participantes os próprios usuários e familiares, de modo a melhor se compreender o conhecimento elaborado por estes atores em seu contexto sociocultural.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Maria da Penha Lima Coutinho:
Universidade Federal da Paraíba - Centro de Ciências Humanas Letras e Artes.
Departamento de Psicologia, campus I.
Cidade Universitária, s/n
CEP. 58.059-900, João Pessoa-PB.
E-mail: penhalcoutinho@bol.com.br

Recebido em 12/02/2004
Aceito em 14/09/2004

 

 

1 Apoio PIBIC/CNPq/UFPB.