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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.10 no.1 Maringá Jan./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722005000100001 

EDITORIAL

 

"O QUE DORME SOBRE A TERRA"
Goethe

 

 

Maria Lucia Boarini

 

 

Neste ano de 2005, Psicologia em Estudo completa dez anos de existência, garantida por uma periodicidade rigorosamente pontual. Tínhamos preparado para a abertura deste primeiro número da década um festivo editorial, permeado de bandeirolas, velinhas e todos os demais símbolos que caracterizam uma grandiosa e merecida comemoração. Todavia, uma terrível surpresa nos aguardava na  entrada de 2005, a qual nos demoveu da idéia de festividades, pelo menos por enquanto - surpresa que marcou tragicamente o início do século XXI. Estamos nos referindo ao maremoto que ocorreu nas profundezas do Oceano Indico no dia 26 de dezembro de 2004. Esta catástrofe natural, que atingiu 12 países da Ásia, dizimou, em segundos, aproximadamente (acredita-se que nunca se saiba exatamente o número total) 280 mil vidas humanas, deixando a humanidade estupefata. Como diria o velho mestre Luis de Camões (1524 ?-1580 ), "Cesse tudo o que a musa antiga canta. Que outro valor mais alto se alevanta" (Camões, 1984). Do alto do seu poder, indiferentes a classe social, a conta bancária, a etnia, a partidarismo político, a credo religioso, a padrões de beleza, a proximidade dos festejos de fim de ano e daí por diante, as águas oceânicas arrastaram consigo dezenas de milhares de planos, sonhos, inquietações, problemas, alegrias, sofrimentos etc., deixando para trás, talvez, a única certeza possível à humanidade: a fragilidade de nossas vidas e a precariedade do nosso conhecimento em relação ao silêncio e aos mistérios da "mãe" natureza.

É óbvio que esta constatação, além de nos estarrecer, deixa-nos inconformados e - mais que isso - desamparados. Talvez aí resida a razão do surgimento, no transcorrer dos séculos, das mais variadas explicações de diferentes matizes ideológicos e de controversas interpretações (teológicas, científicas, mitológicas etc.). Não obstante, temos que reconhecer que o muito já avançou em termos de conhecimento da dinâmica do Universo, em especial do Planeta Terra. Há, por exemplo, o sistema de alerta que "hoje, 20 minutos após a ocorrência de um terremoto, permite localizar sua origem. Em meia hora é possível determinar se ele vai gerar um tsunami (ondas gigantes)" (Ângelo, 2004, p. 10), como afirma o sismólogo Vasile Marza, do Laboratório de Sismologia da Universidade de Brasília. Não há dúvida de que a informação antecipada poderia ter poupado milhares de vidas humanas, e não é por acaso que este sistema só existe em países ricos (Japão, Estados Unidos). De qualquer forma, interpretar e acionar este sistema de alerta não é tarefa simples e fácil, como adverte o geólogo Steven Ward, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, nos Estados Unidos. De acordo com Ward, "é preciso analisar os sismogramas, realizar análises detalhadas dos parâmetros do terremoto, e então prever o tamanho das ondas com a ajuda de modelos em computador" (Nogueira & Leite, 2005, p. 4), o que deve ser realizado rapidamente, considerando-se que as ondas alcançam uma velocidade de 600 a 900 km/hora. E mais - continua Steven Ward - não é suficiente o aviso: é necessário que todas as pessoas estejam devidamente preparadas. Enfim, o que estes e outros importantes estudiosos desta área de conhecimento deixam claro é que, além das desigualdades político-sociais produzidas pelos homens sobre a face da Terra, muito longe ainda estamos de desvendar seus enigmas e ter algum controle sobre a fúria que brota do âmago do nosso planeta. Diante de tal catástrofe geológica, que coloca a humanidade a nu e nos limites estreitos das ciências humanas, só nos resta seguir na busca de compreensão do que se passa entre o céu e a terra, pelo menos. Neste número de Psicologia em Estudo segue parte de nossa contribuição neste sentido. Assim seguimos indagando sobre "o que dorme [sob] a Terra",  parafraseando Goethe.  Por ora, estamos adiando a comemoração do aniversário de Psicologia em Estudo.

 

REFERÊNCIAS

Camões, L. (1984, 9ª ed.). Camões: épico. Rio de Janeiro: Agir

Ângelo, C. (2004, dezembro, 28). Geologia agitada põe região em risco alto. Folha de S.Paulo. Caderno A. p .10.

Nogueira, S. & Leite, F. (2005, janeiro, 9). Prever um tsunami não é operação facil. Folha de S.Paulo. Caderno Especial. p. 4.