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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.10 no.1 Maringá Jan./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722005000100010 

ARTIGOS

 

Alimentação no ambiente de creche como contexto de interação nos primeiros dois anos de um bebê

 

Feeding time in the nursery school environment as an interactional context the first two years of a child

 

 

Karla da Costa SeabraI; Maria Lucia Seidl de MouraII

IDoutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e docente da Universidade Estácio de Sá
IIDoutora e Livre-docente do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho visa investigar o contexto de alimentação em díades adulto-bebê, a partir de uma abordagem sociocultural. Seu principal objetivo consistiu na comparação das atividades de um bebê e seu cuidador na creche nos primeiros dois anos de vida, durante a alimentação. Foram realizadas entrevistas com os cuidadores e registros em vídeo durante a alimentação do bebê. Os dados foram analisados em termos da percentagem de ocorrências das atividades e interações, e dos scripts. Os resultados indicaram que durante os momentos em que a criança é alimentada, trocas interativas ocorrem e são essenciais para seu desenvolvimento como membro da cultura da qual faz parte.

Palavras-chave: interação adulto-bebê, alimentação de bebês, creche.


ABSTRACT

The aim of this study was to investigate feeding in a dyad baby-adult from a sociocultural point of view. The main objective was to compare the activities of a baby and the caregiver in a nursery school, during feeding times. Interviews with the caregivers were carried out and some videotapes were recorded while the babies were fed. The data were analyzed in relation to the quantity of interaction and activities that were developed and also the scripts. The results showed that while children are fed interactions occur, and they are essential for the child development as a member of the culture of which he/she is part.

Key words: Baby-adult interaction, baby feeding, nursery school.


 

 

Este trabalho se insere em uma linha de pesquisa sobre o papel da interação social no desenvolvimento cognitivo, buscando compreender este desenvolvimento como um processo que ocorre no contexto social.

Em geral, na cultura ocidental, o ambiente doméstico é considerado o mais aceito para o desenvolvimento infantil, onde a criança é atendida pela mãe ou por algum familiar. No entanto, após o Capitalismo, houve uma necessidade de aumento da mão-de-obra no mercado de trabalho, levando a mulher a assumir atividades fora de casa, necessitando de ajuda nos cuidados e educação dos seus filhos. Na tentativa de atender a essa necessidade surge a instituição creche. A história da creche está diretamente relacionada às modificações do papel da mulher na sociedade, como será apresentado abaixo.

As primeiras creches no Brasil datam do século XIX, e foram criadas com a finalidade de amparar as classes populares e liberar dos cuidados com os filhos a mão-de-obra feminina. Abrigavam principalmente os filhos das empregadas domésticas e eram percebidas na sociedade como lugar de abandono. Ainda hoje, apesar das transformações, tanto nas concepções sobre a creche quanto nas práticas, mães contemporâneas sentem às vezes, ao deixar o filho na creche para continuar trabalhando, que o estão abandonando (Oliveira, 2002).

A partir da década de 1950, com o avanço da industrialização, houve um aumento do número de mulheres de classe média no mercado de trabalho. Paralelamente, com novas organizações no espaço geográfico urbano nas grandes cidades e, em conseqüência, a especulação imobiliária, houve a redução do espaço que as crianças tinham para brincar. Todos esses fatores, entre outros, contribuíram para o crescimento da demanda do atendimento em creche. Com a procura de classes sociais mais favorecidas por esse tipo de atendimento, houve uma preocupação maior com a  oportunidade de contato com outras crianças e o desenvolvimento infantil como um todo. A creche começa a ser pensada como um ambiente estimulador, que proporciona bem-estar e condições necessárias para o desenvolvimento infantil (Oliveira, 2002).

Com as transformações socioeconômicas e culturais observadas nas últimas décadas, principalmente com a presença crescente da mulher no mercado de trabalho, houve um crescimento gradual do atendimento coletivo a crianças pequenas. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, artigo 205, assegurou o atendimento às crianças de zero a seis anos como um direito da criança, um dever do Estado e uma opção da família.  

Atualmente, com esta perspectiva, o ambiente creche é concebido como um espaço de educação infantil, no qual se constitui o desenvolvimento da criança desde os primeiros meses de vida. Segundo a abordagem de Vygotsky (1896-1934), a cultura e o meio social são considerados essenciais para que o homem se transforme de ser biológico em histórico-social. O autor não pensa apenas no contexto imediato, ou no plano das interações sociais, mas esses são importantes para ele. Harkness e Super (1994, 1996) enfatizam a importância da forma como o ambiente é estruturado pelo adulto que cuida da criança e sua influência no desenvolvimento infantil. Com base na perspectiva de Vygotsky (1984) e na de autores contemporâneos como Harkness e Super (1994), não se pode deixar de pensar neste ambiente físico e social onde as crianças estão se constituindo como membros da cultura,  em que os parceiros de interação são fundamentais.

A noção de zona de desenvolvimento proximal (ZDP), proposta por Vygotsky é fundamental para essa análise. Para Vygotsky (1984), como é bastante conhecido, há um nível de desenvolvimento que é explicitado sem ajuda ou facilitação de parceiros mais experientes. Este é o nível que denomina de "desenvolvimento real". O nível de "desenvolvimento potencial" envolve capacidades e competências não exploradas, demonstradas ou realizadas. Entre os dois estaria o espaço do que se pode atualizar desse potencial pela troca com o mais experiente, uma região de sensibilidade à instrução, à transformação e criação de novas competências, a zona de desenvolvimento proximal (ZDP). É considerada tanto em termos da história individual do desenvolvimento de seus participantes como em termos da estrutura de suporte criada pelas outras pessoas e dos instrumentos culturais.

A noção de zonas de construção – ZC  (Newman, Griffin & Cole, 1989) retoma e amplia a de ZDP. Segundo os autores, as ZCs constituem espaços propiciadores de desenvolvimento, onde se trocam, compartilham e negociam significados. As formas de organização interpsicológicas se transformam gradualmente em processos intrapsicológicos. O que ocorre entre os indivíduos é elaborado e internalizado por cada um deles de uma forma particular, através de um processo de apropriação, discutido por Leont'ev (1981). É nas zonas de construção, segundo Newman, Griffin e Cole, que se dá a possibilidade de mudanças recíprocas nos diversos parceiros envolvidos nas trocas (plano intrapessoal), pela negociação e pela apropriação de modos diversos de significação.

Embora Vygotsky não considere apenas o papel de adultos nas ZDPs, esses têm um papel fundamental. Segundo Cole (1996), os adultos, de acordo com a cultura em que estão inseridos, recebem a criança com expectativas, concepções e práticas que vão organizar, colocar limites e/ou facilitar seu desenvolvimento. Não só os membros da família, mas também os profissionais da creche recebem as crianças que lhes são confiadas e organizam suas práticas de acordo com suas crenças, inclusive a concepção que possuem do desenvolvimento infantil, de seus papéis como educadores, e do próprio espaço da creche. Além disso, comportam-se como membros da cultura e de seu tempo. Nesse sentido, são parceiros das crianças em seu desenvolvimento. Interagindo com elas, medeiam seu reconhecimento e exploração do ambiente, e suas interações com coetâneos.

Tanto em casa como na creche, diversas situações do dia-a-dia do bebê são constitutivas do desenvolvimento, inclusive o momento de alimentação. Segundo Rossetti-Ferreira, Mello, Vitoria, Gosuen e Chaguri (1998), a comida vai adquirindo um significado social. Cada vez mais a criança sente vontade de tocar, sentir as formas, sabores e texturas, cheirar, olhar, ou seja, explorar o alimento. Gradativamente ela vai deixando a passividade no momento da alimentação e vai se tornando mais ativa neste processo. A alimentação faz parte do processo educativo tanto no ambiente casa como na creche, e, assim, uma parte importante do desenvolvimento infantil inicial.

Valsiner (1997) considera o momento da alimentação como o primeiro alvo para regulação cultural e de fundamental importância no processo de desenvolvimento infantil. Segundo esse autor, os adultos costumam limitar determinadas ações infantis no momento das refeições e promover outras de acordo com a concepção cultural que têm de crianças e do seu próprio papel como cuidador. Esse mesmo autor enfatiza a importância dos utensílios usados culturalmente para cozinhar e comer, relacionando a história cultural dos contextos alimentares com a história das invenções desses objetos. Esse contexto de alimentação e os utensílios nele usados criam um ambiente culturalmente estruturado, onde o uso de objetos culturais e os aspectos significativos desses objetos coexistem. Os utensílios usados para a alimentação infantil refletem as expectativas culturais para que a criança insira-se no grupo e adote suas práticas em relação à alimentação. São, desse modo, artefatos culturais, como também pensa Cole (1995).

Segundo Cole (1995, 1998), os artefatos são constituintes básicos da cultura  e recursos utilizados na construção da atividade conjunta e, ao mesmo tempo, coordenam as relações de quem os utiliza com o mundo e entre si. Os artefatos são ao mesmo tempo produtos das atividades conjuntas, como transformadores ou mediadores dessas atividades. Cole propõe três níveis de organização: artefatos primários (os objetos construídos culturalmente e apropriados pelos membros desta cultura), secundários (a representação dos objetos construídos pela cultura, os modos de utilização, como por exemplo as regras e normas) e terciários, de organização mais complexa, ou "mundos relativamente autônomos com suas regras, convenções e resultado" (Cole, 1998).

Cole (1996) inclui ainda em suas discussões os conceitos de scripts e contextos para caracterizar as interações adulto-bebê. Scripts são o conjunto de atividades que costumam ser repetidas em contextos específicos e que são criadas culturalmente. Através dos scripts os parceiros desempenham papéis sociais, utilizam objetos e podem de alguma forma "prever" as ações posteriores. Contexto seria o espaço onde as interações ocorreriam e a partir do qual podem ser mais bem-compreendidas. Pode-se pensar em contexto como um "palco" onde as atividades humanas e os scripts ocorrem.

Artefatos culturais são utilizados para limitar o que Valsiner (1997) denomina de zona de movimentação livre (ZFM)1 da criança. A ZFM é uma estrutura cognitiva socialmente construída na relação da criança com o ambiente, a qual organiza o acesso da criança a partes do ambiente e define que objetos estarão ao seu alcance e como ela deverá agir em relação a eles. A cadeira alta, utilizada para dar refeição aos bebês, é um bom exemplo de artefato cultural. Ela restringe os movimentos do bebê e possibilita aos pais controlarem quais objetos estarão ao alcance da criança e quando serão colocados ou retirados, limitando sua liberdade de ação. Algumas situações, como a alimentação ou a aplicação de medicamentos, levam os pais a limitar a ZFM para conseguir seus objetivos.

Valsiner (1997) define também a zona de promoção da ação (ZPA)2, que tem como função promover ou facilitar a execução de alguma ação que a criança já é capaz de realizar sozinha, mas em determinado momento decidiu não realizar. No caso da alimentação de uma criança que já é capaz de comer sozinha, mas em um determinado momento decidiu não fazê-lo, os pais poderiam colocar a colher e outros utensílios ao alcance da criança, como forma de estímulo, para que ela execute esta ação por sua própria decisão. A ZPA é a estrutura que canaliza a própria motivação da criança para a ação, enquanto a ZFM canaliza a ação sem enfatizar o desejo da criança.

É possível pensar que, de acordo com a concepção dos pais sobre o desenvolvimento infantil e sua ideologia em relação à independência da criança, eles facilitarão a existência de ZPA ou limitarão as ZFMs. Pode-se fazer também um paralelo dos conceitos de ZPA e ZFM com o conceito de zona de desenvolvimento proximal anteriormente mencionado,  do qual essas noções são um desdobramento. Em ambas é necessária a presença de um parceiro que facilite o desenvolvimento da ação. A ZFM ajuda na organização de uma nova ação, a estruturação de uma nova ação é estabelecida por ela, coordenada pela ZDP e estimulada pela ZPA para que a ação seja selecionada em determinado contexto.

Partindo-se dessas idéias e reflexões sobre o desenvolvimento que ocorre inserido em um contexto sociocultural, serão discutidas a seguir as mudanças ocorridas na alimentação de crianças pequenas ao longo dos últimos anos e as possíveis contribuições que este contexto oferece ao desenvolvimento da criança no contexto cultural do qual faz parte.

 

ALIMENTAÇÃO: PRÁTICAS SOCIAIS E DESENVOLVIMENTO

A amamentação ao seio vem sendo praticada há duzentos milhões de anos, e alguns historiadores (Opitz, 1991; Hufton, 1991) têm relatado como esta prática se modificou nos últimos séculos. Durante algumas décadas do século XX houve uma forte tendência de substituir a prática da amamentação ao seio pelo aleitamento artificial com mamadeira. A utilização mais generalizada de mamadeiras teve sua origem nos EUA, nisto seguidos por diversos outros países. Esta mudança está intimamente relacionada com a cultura industrial vivida neste século (Clark & Colette, 1984).

O declínio da amamentação natural começou nas classes sociais mais favorecidas dos países desenvolvidos, chegando gradualmente às camadas mais pobres. Posteriormente, este modelo foi adotado pelos países em desenvolvimento, começando pelas camadas mais altas e atingindo as classes menos favorecidas. As conseqüências deste fenômeno foram drásticas, principalmente nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. A taxa de mortalidade infantil aumentou ainda mais, com a incidência de doenças como a diarréia e a desnutrição infantil. Contudo, no auge do abandono do aleitamento materno nos países em desenvolvimento, as classes mais ricas dos países desenvolvidos esboçavam um retorno à amamentação (Clark & Colette, 1984).

Há cerca de duas décadas esta situação está novamente se invertendo. No Brasil, em 1981, este movimento foi consolidado pela criação do "Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno", conduzido pelo Ministério da Saúde e diversas instituições governamentais e não-governamentais. Outra forma de incentivo foi a concessão de licença-maternidade ou férias durante o período da amamentação, criada por diversos países. (Clark & Colette, 1984).

No Brasil, ao final da década de 1980 e início da década de 1990, 97% das crianças mamavam no peito logo após o nascimento (Leão, Coitinho, Recine, Costa & Lacerda, 1992). No entanto, embora o aleitamento materno tenha sido iniciado, notou-se que o desmame é intenso nos primeiros dias e meses de vida. A proporção de crianças parcialmente desmamadas aos três meses e aos seis meses de vida é, respectivamente, de 43% e 61%. Ao contrário do esperado para estes pesquisadores, as mães de nível socioeconômico baixo tendem a amamentar por mais tempo. Por outro lado, o padrão de aleitamento exclusivo apresenta comportamento inverso. Geralmente as crianças de baixa renda são amamentadas exclusivamente ao seio por apenas dois meses, enquanto com as de classe média isso se dá por cerca de três meses. Tais comportamentos são bastante similares nas áreas urbana e rural.

Segundo Davanzo (1989), a amamentação ao seio é mais do que um ato de nutrição, e o leite materno é mais do que um simples alimento. Durante o aleitamento forma-se  um vínculo Este momento não se restringe a simplesmente receber um alimento, mas é, acima de tudo, um contato pessoal que forma a capacidade de amar (Maldonado, 1996). A comunicação estabelecida durante a amamentação é a primeira experiência socializadora do bebê, tendo um impacto sobre seu desenvolvimento futuro (Clark & Colete, 1984). Procianoy e Bercini (1983), comparando mulheres que estavam amamentando aos dois meses após o parto com mães que haviam interrompido o aleitamento materno antes deste período, encontraram um índice de interesse materno significativamente maior para as mães que praticavam a amamentação.

Seidl de Moura e Ribas (1998) obtiveram resultados interessantes em suas pesquisas com díades de mães e bebês recém-nascidos em relação ao contexto de amamentação. A duração média dos episódios de interação identificados no contexto de amamentação (53,3s) foi consideravelmente maior do que nos contextos de cuidado (9,75s) e de bebê no colo sem mamar (13,25s). Como apontam as autoras,

Uma interpretação possível para a maior duração dos episódios no contexto de amamentação pode ser a de que a posição em que os parceiros se encontram é facilitadora de maior engajamento, no sentido da manutenção do contato visual. A distância pequena em que os rostos ficam um do outro também parece propiciar o prolongamento do contato visual. (p. 12)

Talvez a alimentação freqüente seja uma adaptação para o desenvolvimento de algumas formas de relação social, em particular para o desenvolvimento de um elo precoce entre mãe e bebê. Durante este momento, muitas mães aproveitam a proximidade para tocar, olhar, falar e fazer uma série de atividades que as fazem sentir-se cada vez mais próximas deste bebê, que por sua vez não está passivo aos estímulos recebidos (Maldonado, 1996).

O ato de amamentar é uma prática que está cercada por uma série de outras práticas socioculturais. As mães recebem informações e constroem na cultura em que estão inseridas crenças de como devem agir em relação a seu bebê. A partir da confluência de diversos fatores, a mãe terá uma determinada prática, seguirá ou não uma rotina para amamentar seu bebê e planejará o seu desmame.

Segundo Cardinal Primeau (1998), o desmame pode ser definido como o processo de transição entre uma dieta exclusivamente láctea e uma dieta completamente diversificada. É neste momento do desenvolvimento que hábitos alimentares são introduzidos. Considera-se, também, que o retardo do desmame pode implicar em um atraso do desenvolvimento social e no estabelecimento de maus hábitos alimentares.

Na perspectiva atual sobre desmame, como observa Cardinal Primeau (1998), os pais devem ser orientados na escolha de alimentos apropriados e de formas de ajudar seu bebê em direção à própria independência. Com a introdução desta fase de alimentação, podem ocorrer transformações nas oportunidades de trocas entre a díade. Novos scripts poderão ser formados e serão necessários ajustes por parte do adulto e do bebê, de modo a propiciar um melhor relacionamento. Nestes ajustes estão incluídas, por exemplo, a mudança postural que essa nova fase exige e a seleção de meios e artefatos adequados para que o bebê se alimente. Todas essas mudanças relacionadas à alimentação são de fundamental importância para o desenvolvimento cognitivo infantil nos primeiros anos de vida, e não podem ser isoladas do plano social.

Cabe retomar neste ponto as discussões anteriormente realizadas sobre a importância da interação social como constitutiva do desenvolvimento (Vygotsky, 1984), e do momento da alimentação no processo de desenvolvimento e regulação cultural, segundo Valsiner (1997). Acompanhando essas ponderações, considera-se que o momento da alimentação é bastante propício para que haja trocas entre o bebê e seu cuidador. Assim, este contexto específico é essencial para o desenvolvimento inicial da criança como membro da cultura da qual faz parte.

 

O ESTUDO EMPÍRICO

A realização de investigações sobre interações adulto-bebê durante as fases da alimentação parece relevante por diversas razões. Pode-se destacar a existência de vários trabalhos relativos à amamentação e, em contrapartida, a uma ausência de investigação no período do desmame, principalmente no ambiente de creche. Foram investigadas quatro fases da alimentação: amamentação (1 mês), alimentação semi-sólida (5 meses; início do desmame, oferecimento de papas), alimentação branda (7 meses; alimentação um pouco mais consistente: arroz papa, carnes trituradas, etc) e alimentação sólida (24 meses; alimentação em pedaços consistentes).

Deste modo, focalizando o contexto específico de alimentação, visou-se investigar os scripts que parecem ser construídos culturalmente no ambiente creche, assim como os artefatos primários utilizados e suas relações com as expectativas culturais. Observando a natureza das interações adulto-bebê neste contexto, busca-se pontuar as características similares e as diferenças entre as fases da alimentação do bebê nos primeiros dois anos de vida. Além disso, visa-se discutir de que forma essas trocas entre adulto e bebê durante a alimentação contribuem para o desenvolvimento infantil.

 

MÉTODO

Os dados foram coletados nos anos de 1999 e 2000, na cidade do Rio de Janeiro.

Contexto

A família participante era de classe média, os pais moravam juntos e tinham um filho mais velho, além do bebê observado. O bebê entrou para  a creche aos 4 meses. A creche era particular e localizava-se próxima à residência da família.

Participantes

A mãe foi contatada durante a gravidez e convidada a participar da pesquisa. Foi acompanhado um bebê nascido a termo, saudável e sem alterações de desenvolvimento durante os seus dois primeiros anos de vida em momentos de alimentação. O bebê foi observado durante a fase de amamentação em sua casa com a mãe e, a partir da segunda fase de alimentação, na creche com a berçarista responsável por ele.

Instrumentos utilizados

Entrevistas semi-estruturadas

Foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas com a mãe, em sua residência, e com a berçarista, na creche onde trabalhava. Foram utilizados seis roteiros de entrevista desenvolvidos para esse estudo. Três entrevistas foram realizadas com a mãe durante as seguintes fases: nono mês de gestação, um mês de vida do bebê (fase de amamentação) e 24 meses de vida do bebê (fase de alimentação sólida). As demais entrevistas foram realizadas com a berçarista responsável pelo bebê, na creche em que ficava durante todo o dia, nas seguintes fases: 5 meses (fase de alimentação semi-sólida), 7 meses (fase de alimentação branda) e 24 meses (fase de alimentação sólida).

As entrevistas forneceram dados sobre alimentação do bebê; o hábito de seguir uma rotina para esses momentos; a forma de obtenção de informações a respeito da alimentação de bebês; as características identificadas no bebê durante a alimentação; e as expectativas e dificuldades nas diferentes fases da alimentação. As entrevistas foram transcritas e os conteúdos das falas dos adultos foram analisados por temas e por etapa da alimentação.

Observação e registro em vídeo

Os registros em vídeo foram analisados de acordo com o instrumento de observação e análise de interação mãe-bebê desenvolvido inicialmente por Ribas (1996) e empregado em pesquisas posteriores (Piccinini & cols., 2001; Seidl de Moura & Ribas, 1998). Foram acrescentadas algumas categorias, de forma a se adequar ao contexto específico de alimentação (e.g. oferecer alimento, mostrar objeto de alimentação, aceitar alimento, entre outras). As categorias de observação incluem interação e atividades. As interações foram caracterizadas quando um dos parceiros dirigia um comportamento social em relação ao outro e era respondido por ele com um comportamento social, num intervalo de até 5 segundos, permanecendo nesta troca interativa por pelo menos 6 segundos. Os episódios de interação identificados foram analisados em termos da sua descrição, contexto, quadro descritivo e duração e classificados em interações de domínio social (voltadas para a díade) e mediadas por objetos (incluindo objetos mediadores).

Foram observadas nos episódios de interação: as atividades dos adultos (gestos, vocalizações, fala, atribuição de significado, sorriso, toque, olhar o bebê, mostrar objeto, mostrar objetos específicos da alimentação, oferecer alimento, cantar e pegar no colo) e do bebê (olhar para o ambiente, olhar para o adulto, movimentar membros, tocar o adulto, mamar, segurar objeto, segurar objetos específicos da alimentação, vocalizar, sorrir, fechar os olhos, rejeitar alimento e aceitar alimento).

Também foram observados os tipos de artefatos utilizados neste contexto: higiene (guardanapos, toalhas, entre outros); alimentação (mamadeiras, colheres, pratos, entre outros); e entretenimento (brinquedos), e os scripts (chamar a atenção do bebê para o alimento, utilizando ou não artefatos culturais)

Durante a fase da amamentação o bebê foi observado com sua mãe em sua residência; nas demais fases, o bebê foi observado na creche, juntamente com a berçarista responsável por ele. Todas as sessões tiveram a duração da alimentação. Na amamentação a observação foi realizada no primeiro mês de vida (duração de 20 minutos). Na alimentação semi-sólida, aos 5 meses (duração de 36 minutos), na alimentação branda aos 7 meses (duração de 17 minutos), e, finalmente, aos 2 anos de idade (duração de 20 minutos). Ao total foram realizadas quatro observações.

Análise dos dados

Foram analisados todos os minutos filmados em intervalos de 30 segundos. Os dados foram levantados através do preenchimento da Folha de Registro de Interação e Atividades (fria), onde foram registradas as ocorrências de atividades do adulto e do bebê nos intervalos e de episódios de interação. Os episódios de interação foram descritos de acordo com as categorias mencionadas nas diferentes fases da alimentação do bebê. Os scripts foram descritos e analisados qualitativamente.

Os dados foram analisados em termos das atividades do adulto e bebê e instâncias de interação, comparando-se os momentos de observação, o tipo de alimentação e os artefatos utilizados. As entrevistas realizadas com os cuidadores do bebê foram transcritas e seus conteúdos foram organizados nos seguintes temas: características do bebê na alimentação, práticas de alimentação do bebê, conhecimento sobre a alimentação de bebês, importância do momento da alimentação, expectativas em relação à alimentação do bebê e problemas na alimentação do bebê. A partir das entrevistas inferiram-se as idéias e expectativas dos cuidadores e suas transformações durante as fases da alimentação do bebê. Essas idéias foram analisadas e discutidas em sua relação com as práticas, com as atividades e instâncias de interação observadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O bebê mamou no seio até os três meses, mas desde o primeiro mês tinha a alimentação complementada com mamadeira. Estes dados são congruentes com as expectativas da mãe de introduzir logo outros tipos de alimento, principalmente porque necessitava voltar a trabalhar. Iniciou a papa de frutas aos 4 meses e a sopa de legumes aos 6 meses. A comida mais sólida foi introduzida com 7 meses.

Na amamentação, a mãe relatou que um dos sinais de fome era a agitação, mas que no final da mamada costumava ficar sonolento. A berçarista, relatou que, na alimentação semi-sólida, percebia que o bebê estava com fome quando ele colocava a mãozinha na boca, e que geralmente no final da refeição o bebê ficava mais calmo. Na fase de alimentação branda, o sinal de fome observado era a agitação. Na alimentação sólida o bebê demonstrava ansiedade, mas já pedia verbalmente o alimento, tanto em casa como na creche. Nas duas últimas fases, ao término da refeição o bebê ficava mais tranqüilo.

Na amamentação, os horários e a  rotina estavam sendo estabelecidos. Nas demais fases, a berçarista afirmou a existência de um horário programado e de uma rotina fixa durante as refeições. Na alimentação sólida, a mãe relatou seguir horários programados em casa e tentava manter sempre os mesmos hábitos. Ao longo das fases de alimentação semi-sólida e branda, o bebê era alimentado no berçário. Na fase seguinte, alimentava-se no refeitório. Em casa, durante todas as fases, costumava ser alimentado na sala.

A berçarista, a partir da fase semi-sólida, sempre oferecia água e sobremesa ao bebê. Na alimentação sólida, a mãe relatou que em casa o bebê não comia  sozinho e a sobremesa era utilizada como recompensa. Na creche, o bebê sempre comia sozinho e negava auxílio. Geralmente havia duas colheres no prato, uma para o bebê e outra para a berçarista  auxiliá-lo, o que pôde ser observado no registro em vídeo.

A berçarista relatou ainda que a partir da alimentação semi-sólida utilizava artefatos próprios para alimentação (e.g. colher) e brinquedos. Na alimentação branda, afirmou não precisar utilizar brinquedos com esse bebê, mas na observação em vídeo ela os utilizou. Durante a fase de alimentação sólida em casa, geralmente a televisão estava ligada e sempre havia brinquedos ao alcance do bebê. Na creche, não era utilizado nenhum brinquedo, mas às vezes a berçarista cantava uma música ou chamava a atenção para as outras crianças. Nesta última fase, a alimentação era oferecida ao bebê junto com outras crianças, o que possibilitava trocas interativas entre eles.

Em relação às observações em vídeo, as atividades do adulto de olhar e tocar o bebê mostraram-se predominantes nas três primeiras fases da alimentação (100% dos intervalos). Na alimentação sólida, essas duas categorias diminuíram sua freqüência (olhou o bebê em 73% dos intervalos e tocou-o em 48%). A categoria de fala só foi predominante na alimentação branda (91% dos intervalos). A categoria de atribuição de significado só ocorreu a partir da alimentação semi-sólida (17% dos intervalos), e se intensificou na alimentação branda (35% dos intervalos), diminuindo novamente sua freqüência na alimentação sólida (25% dos intervalos).

Os adultos mostravam objetos ao bebê a partir da alimentação semi-sólida (26% dos intervalos), aumentando bastante sua freqüência na alimentação branda (53% dos intervalos) e diminuindo na alimentação sólida (3% dos intervalos). A categoria de mostrar objeto específico da alimentação só ocorreu na alimentação sólida e com baixa freqüência (3% dos intervalos). A categoria de gesto ocorreu com baixa freqüência nas três primeiras fases (3%, 10% e 12% dos intervalos respectivamente) e não ocorreu na última. A categoria de vocalização só ocorreu nas fases de alimentação semi-sólida (17% dos intervalos) e branda (41% dos intervalos). A categoria de oferecer alimento foi predominante nas fases de alimentação semi-sólida (99% dos intervalos) e branda (97% dos intervalos), diminuindo consideravelmente na alimentação sólida (28% dos intervalos), quando o bebê já se alimentava sozinho.

Em relação às atividades do bebê, na amamentação ocorreu um predomínio das atividades de mamar (100% dos intervalos) e olhar o adulto (83% dos intervalos). A categoria mamar ocorreu novamente nas fases de alimentação semi-sólida (2% dos intervalos) e branda (12% dos intervalos), com pouca freqüência. A categoria de olhar o adulto foi predominante nas fases de alimentação semi-sólida e branda (86% e 97% dos intervalos respectivamente), mas diminuiu sua freqüência na alimentação sólida (68% dos intervalos), onde o bebê se mostrava bastante interessado nas outras crianças. As categorias de olhar o ambiente (100% dos intervalos) e movimentar membros (100% dos intervalos) foram predominantes a partir da alimentação semi-sólida.

A categoria de tocar o adulto ocorreu com baixa freqüência durante a amamentação (7% dos intervalos), foi predominante na alimentação semi-sólida (83% dos intervalos), teve sua freqüência diminuída na alimentação branda (41% dos intervalos) e não ocorreu na alimentação sólida. A categoria de segurar objeto ocorreu em todas as fases e foi predominante na alimentação semi-sólida e sólida (96% e 98% dos intervalos respectivamente). A categoria de segurar objeto específico da alimentação ocorreu em todas as fases, mas sua freqüência foi maior na alimentação sólida (83% dos intervalos).

A categoria de vocalizar não ocorreu na fase de amamentação, mas sua freqüência se intensificou ao longo das fases (15%, 59% e 60% dos intervalos respectivamente). A categoria de rejeitar alimento ocorreu em todas as fases, assim como a categoria de aceitar alimento; mas esta última foi predominante nas fases semi-sólida  (97% dos intervalos) e branda (94% dos intervalos).

Em resumo pode-se dizer que o bebê aumentou o repertório de atividades relacionado ao ambiente (olhar o ambiente e segurar objetos) a partir da alimentação semi-sólida, mas não deixou de realizar as categorias relativas ao adulto (tocar e olhar). Estas só diminuíram na alimentação sólida, onde o bebê passou a olhar e tocar as outras crianças com mais freqüência. O adulto, por sua vez, a partir da alimentação semi-sólida, também passou a mostrar objetos ao bebê com mais freqüência. Já na alimentação sólida, percebendo que o bebê estava mais interessado nas outras crianças, praticamente não mostrou objetos e também diminuiu a freqüência de sua fala.

A duração dos episódios de interação não variou muito nas três primeiras fases  (14,1s; 13s; 14,4s, respectivamente). Já na fase de alimentação sólida, os episódios de interação com o adulto tenderam a ser mais curtos (8s). Em contrapartida, o bebê apresentou episódios de interação com os outros bebês e com duração semelhante à apresentada nas fases anteriores com o adulto (15s). A fase na qual o bebê mais interagiu com o adulto foi a da  alimentação branda (41% dos intervalos).

Na amamentação os episódios de interação se caracterizaram praticamente por trocas face –a face (interações de domínio social). Na fase de alimentação semi-sólida ocorreram interações de domínio social e interações mistas, ou seja, de domínio social e mediadas por objetos. Na alimentação branda, ocorreram interações de domínio social, de domínio mediado por objetos e interações mistas. Na alimentação sólida as interações com o adulto se caracterizaram por domínio social e e como mistas, e nas interações com outros bebês foram todas caracterizadas como mistas.

Na amamentação, as atividades da mãe e do bebê durante as interações foram mais limitadas. Nas fases seguintes as atividades do adulto e do bebê durante as interações foram mais complexas.

Em relação aos artefatos utilizados, na primeira observação a mãe só utilizou uma fralda para limpar a boca do bebê. Na alimentação semi-sólida e branda, a berçarista utilizou um bebê-conforto para o bebê sentar, prato e colher, lenço de papel para limpar o bebê, babadouro plástico e chocalho. Todos os artefatos utilizados fazem parte do dia-a-dia da creche, e de certa forma, auxiliaram para que o bebê se alimentasse e também não se sujasse muito. Na alimentação sólida, o bebê estava sentado em uma mesa infantil com mais três bebês. Os artefatos utilizados foram os mesmos, com exceção da não-utilização de brinquedos e da utilização de guardanapo ao invés de lenço de papel. Também havia uma colher a mais, com a qual a berçarista ajudava o bebê.

Na amamentação, o script observado foi: todas as vezes em que o bebê mamava no peito de olhos fechados, a mãe aumentava suas atividades (falava, tocava e vocalizava) na tentativa de despertar o bebê. O script que esteve presente na alimentação semi-sólida e branda era o seguinte: a berçarista balançava um brinquedo na frente de seu rosto para chamar a atenção do bebê, e logo que ele se voltava para ela, era-lhe oferecido o alimento.  Na alimentação sólida o script observado foi: o bebê alimentava-se sozinho e a berçarista só se aproximava dele quando percebia que ele estava com alguma dificuldade para se alimentar, ou para limpá-lo, ou então quando algum bebê o incomodava. Em seguida afastava-se e ficava apenas observando. Foi observado também um script entre os bebês: assim que terminaram de se alimentar, um bebê iniciava um movimento com os membros e era em seguida imitado pelos outros, até que outro bebê iniciasse outro movimento e se repetisse o comportamento. Também foi observado um script entre o bebê observado e outro bebê: o outro bebê pegava o prato de comida ou colocava sua colher no prato do bebê observado, este o pegava de volta e chamava o adulto, que interferia ajudando o bebê observado.

Na amamentação, o script parecia estar relacionado com o interesse da mãe de que o bebê se alimentasse naquele momento. Na alimentação semi-sólida e branda o script estava mais voltado para chamar a atenção do bebê para que ele se alimentasse. Na alimentação sólida, o adulto parecia agir como mediador entre os bebês e até mesmo entre o bebê observado e o comportamento de se alimentar sozinho.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde os primeiros dias de vida o contexto de alimentação parece ser essencial para a socialização da criança e para sua inserção na cultura. Não é só comida que ela está recebendo, mas começa a participar em um sistema de representações e práticas de sua cultura. Durante os momentos em que a criança é alimentada, trocas interativas ocorrem e são importantes para que haja um conhecimento mútuo entre adulto e bebê. Esse contexto propicia, assim, a criação de zonas de construção,  como entendidas por Cole e colaboradores. É através de trocas desta natureza que o bebê se desenvolve, segundo Vygotsky e desenvolve também sua noção de zona de desenvolvimento proximal.

Em geral pode-se dizer que o bebê tende a aumentar o repertório de atividades relacionadas ao ambiente ao longo de seu desenvolvimento e que o adulto tende a ajustar suas atividades segundo as pistas dadas pelo bebê, criando inclusive scripts a partir dessas pistas. Observa-se também uma tendência de aumento da freqüência das interações e também de sua duração ao se aproximar do término da alimentação.

A introdução de brinquedos durante a alimentação está de acordo com os resultados encontrados em outros estudos (Ribas, 1996), onde há um aumento crescente da busca do bebê por eventos e objetos do mundo exterior, e existe uma tendência do adulto em perceber estas pistas e incorporar estes elementos nas interações.

Já os artefatos utilizados na creche durante as refeições parecem limitar os movimentos do bebê nas fases de alimentação semi-sólida e branda, e promover maior movimentação na fase de alimentação sólida. Os artefatos também mostram certa preocupação com a higiene, impedindo que o bebê se sujasse muito. Estes resultados são consistentes com  os estudos de Cole (1996) e Harkness e Super (1994), onde se discute a forma como o ambiente é estruturado pelo adulto e como esta organização vai influenciar o desenvolvimento infantil, o que pode ser observado pelo fato de o bebê já se alimentar sozinho na fase de alimentação sólida. Este desenvolvimento do bebê possivelmente está relacionado ao fato de o cuidador oferecer ao bebê duas colheres, uma para que ele se alimentasse sozinho e a outra para que o cuidador o ajudasse, caso fosse preciso.

Ao longo de todas as fases, esse bebê foi estimulado com artefatos culturais, que, como define Valsiner (1997), limitaram ou promoveram ações, segundo as concepções e expectativas desses adultos em relação ao desenvolvimento dos bebês e de sua alimentação; e, de acordo com essas concepções, organizaram o momento de alimentação ao longo das fases. Na última fase observada, tanto a não-utilização de brinquedos na creche como o fato de o bebê se alimentar sozinho podem ser reflexos das zonas de movimentação livre e das zonas de promoção da ação, que foram criadas ao longo do desenvolvimento do bebê.

Pode-se citar também o fato de que, na creche, as zonas de desenvolvimento proximal e a zonas de construção ocorriam entre adulto e bebê e entre os próprios bebês. Como o número de parceiros estava sempre aumentando, a cada vez que entrava uma nova criança ou novo funcionário as atenções do bebê estavam mais voltadas para esses parceiros.

Os resultados alcançados neste estudo são também um reflexo das transformações ocorridas na instituição creche, que durante muito tempo tinha um cunho assistencialista, mas devido às mudanças políticas e culturais em relação ao atendimento de crianças pequenas nessas instituições, começa a demonstrar uma preocupação educativa com as crianças até mesmo nos momentos de cuidados físicos, como, por exemplo, a alimentação, aproveitando este contexto para estimular o desenvolvimento da criança, além de suprir uma necessidade fisiológica.

Entende-se que os objetivos propostos foram alcançados. Foi possível verificar as atividades dos adultos e do bebê ao longo das fases da alimentação, assim como a natureza das interações, os scripts e os artefatos culturais utilizados neste contexto, e ainda as expectativas e concepções dos cuidadores em relação à alimentação de bebês.

 

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Endereço para correspondência
Karla da Costa Seabra.
Rua Comandante Rubens Silva, 76, 203,
CEP 22745-280, Freguesia-RJ.
E-mail: seabrakc@uol.com.br

Recebido em 23/06/2004
Aceito em 10/01/2005

 

 

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