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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.10 no.2 Maringá May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722005000200011 

ARTIGOS

 

Mães avaliam comportamentos socialmente "desejados" e "indesejados" de pré-escolares

 

Mothers assess socially "desirable" and "undesirable" behavior of kindergarteners

 

 

Alessandra Turini Bolsoni-SilvaI; Edna Maria MarturanoII; Jair Wagner de Souza ManfrinatoIII

IDoutora, docente do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem da Faculdade de Ciências (FC) da Universidade Estadual Paulista - UNESP - Bauru
IIDoutora, docente do Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP - Campus Ribeirão Preto)
IIIDoutor, docente Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Estadual Paulista - UNESP - Bauru

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Comportamentos socialmente habilidosos promovem o desenvolvimento, ao passo que problemas de comportamento dificultam o acesso a novas contingências de reforçamento, facilitadoras da aquisição de repertórios de aprendizagem. Esta pesquisa investiga avaliações maternas de repertórios socialmente "desejados" e "indesejados" de crianças que, segundo o professor, apresentam problemas de comportamento. Participaram mães de 24 crianças indicadas pelo professor como tendo problemas de comportamento e mães de 24 crianças indicadas como tendo comportamentos socialmente "desejados". O Questionário de Comportamentos Socialmente Desejados e a Escala Comportamental Infantil de Rutter foram aplicados nas residências das participantes. Os resultados indicaram mais problemas de comportamento externalizante no grupo previamente indicado como tendo problemas; os grupos não diferiram quanto a comportamentos "desejados". Em ambos os grupos, as crianças obtiveram altos escores de comportamentos socialmente desejados, apontando reservas comportamentais. Também em ambos foram identificadas crianças que poderiam ser beneficiadas com programas para a promoção de interações sociais mais equilibradas, prevenindo problemas de comportamento.

Palavras-chave: problemas de comportamento, habilidades sociais, avaliação de comportamentos sociais.


ABSTRACT

Socially desirable behaviors promote development but behavior problems prevent the access to new reinforcement contingencies that could facilitate the acquisition of relevant learning repertoires. This work investigated assessments of mothers concerning socially "desirable" and "undesirable" behaviors in children whose teachers identified as having behavior problems. The sample consisted of 24 mothers of children indicated as having behavioral problems, and 24 mothers of children indicated as presenting socially desirable behaviors. Data about children's behaviors were collected during a home interview, when the Socially Desired Behavior Questionnaire and the Rutter Scale for Parents were filled out. Results indicated more externalized behavior problems among children previously identified as having problems, but there was no group difference in socially desirable behavior. Children in both groups had high socially desirable behavior scores, thus showing behavioral resources. Nevertheless, in both groups there were children who could benefit from programs to promote more balanced social interactions in order to prevent behavioral problems.

Key words: behavior problem, social skills, assessment of social behaviors


 

 

Este artigo pretende descrever e analisar relatos de mães de crianças pré-escolares acerca de comportamentos "desejados" e "indesejados" de seus filhos. Para tanto, é importante caracterizar tais repertórios.

Comportamentos "desejados" ou socialmente adequados são definidos por Bolsoni-Silva (2003) como aqueles que permitem a ocorrência de "saltos" comportamentais. Para melhor compreender esta definição, cabe destacar como Rosales-Ruiz e Baer (1997) entendem "saltos" comportamentais.

Estes pesquisadores definem tais comportamentos como mudanças que ocorrem ao longo do processo de desenvolvimento, fruto da interação organismo-ambiente. Estas mudanças seriam importantes ou para o indivíduo ou para a espécie, porquanto permitiriam à criança entrar em contato com contingências relevantes de aprendizagem, promovendo, assim, o seu desenvolvimento. Estas contingências são relevantes à medida que podem modelar outras habilidades; portanto, neste raciocínio, "saltos" seriam comportamentos decorrentes de outras habilidades.

Rosales-Ruiz e Baer (1997) oferecem alguns exemplos: a) aprender a engatinhar pode ser um "salto" à medida que amplia o acesso do bebê ao ambiente e suas contingências; b) aprender a ler acurada e fluentemente pode ser considerado um "salto", já que a leitura vai permitir à criança entrar em contato com outros conhecimentos, ou seja, com outros ambientes de aprendizagem.

De acordo com essa conceituação, comportamentos socialmente habilidosos poderiam ser entendidos como repertórios "desejados" no sentido empregado por Bolsoni-Silva (2003). Caldarella e Merrell (1997) distinguem cinco dimensões das habilidades sociais de crianças e adolescentes: a) habilidades de relacionamento com colegas, como elogiar, oferecer ajuda ou assistência, convidar para brincar; b) habilidades de automanejo, como concordar com outros quando apropriado, aceitar críticas, cooperar com outros; c) habilidades acadêmicas, como executar tarefas independente e individualmente, ouvir e cumprir as instruções do professor, utilizar o tempo de forma adequada; e d) habilidades de obediência, como seguir instruções e regras, completar tarefas e guardar apropriadamente brinquedos e objetos.

De forma análoga, à luz do conceito de "saltos" comportamentais, comportamentos "indesejados", freqüentemente referidos como problemas de comportamento, seriam déficits e/ou excessos comportamentais que dificultariam o acesso da criança a novas contingências de reforçamento, as quais, por sua vez, facilitariam a aquisição de repertórios relevantes de aprendizagem. Desta forma, tais excessos e/ou déficits poderiam trazer dificuldades em diversas áreas, tais como realização acadêmica e interações sociais com colegas e familiares.

Duas categorias amplas de comportamentos "indesejados" têm sido identificadas através de pesquisas: comportamentos internalizantes e externalizantes (Achenbach & Edelbrock, 1979; Hinshaw, 1992). Comportamentos internalizantes são evidenciados por retraimento, disforia e ansiedade (por exemplo, preocupação exagerada, tristeza, insegurança, timidez, medos, manifestações psicossomáticas, recusa escolar). Em contraposição, comportamentos externalizantes são marcados por impulsividade, explosividade, agressão, agitação, características desafiantes e anti-sociais (por exemplo, cometer furtos, mentir, "enforcar" aula, desrespeitar limites, envolver-se em brigas, agir impulsivamente, ser provocador e agressivo nos relacionamentos). Esses dois pólos dificultam os "saltos" comportamentais do desenvolvimento, através de mecanismos diversos. Manifestações internalizantes privam o indivíduo de interações com o ambiente, ao passo que comportamentos externalizantes geram conflito, freqüentemente ocasionando a disrupção dessas interações. Embora tratados como classes separadas de problema, a co-ocorrência de comportamentos externalizantes e internalizantes tem sido constatada em crianças clinicamente identificadas (Chazan, Laing & Davies, 1994).

Diferenças de gênero têm sido apontadas. Problemas externalizantes são mais freqüentes em meninos, ao passo que as meninas tendem a apresentar mais problemas internalizantes (Gerard & Buehler, 1999). Essas tendências têm sido observadas em diferentes culturas (Crijnen, Achenbach & Verhulst, 1997).

Comportamentos indesejados estão presentes no repertório de crianças sadias. Na fase pré-escolar, comportamentos externalizantes são mais freqüentes, como a agressividade, por exemplo. Como assinalam Papalia e Olds (2000), a maioria das crianças torna-se menos agressiva após a idade de seis ou sete anos, à medida que se tornam mais cooperadoras e empáticas. Trata-se, assim, de características transitórias do desenvolvimento normal. Entretanto, dependendo de sua intensidade e do modo como o ambiente lida com essas manifestações, elas podem vir a persistir e, nesse caso, constituir risco para o desenvolvimento nas fases subseqüentes da vida.

Dificuldades comportamentais freqüentemente são identificadas no contexto escolar. Em geral, a ênfase é colocada nos comportamentos externalizantes, com menos atenção aos internalizantes (Chazan & cols., 1994), provavelmente porque os primeiros têm maior visibilidade e interferem na dinâmica da sala de aula. Em parte, os pais concordam com essa avaliação, conforme demonstrado no estudo de Bolsoni-Silva, Del Prette e Oishi (2003). Ao compararem relatos de 30 cuidadores (pai, mãe ou outro) de pré-escolares com problemas de comportamento na visão do professor (IPC), com relatos de 30 cuidadores de crianças sem problemas, esses autores verificaram diferenças estatísticas para alguns comportamentos indicativos de problemas de comportamentos que foram mais freqüentemente citados pelos cuidadores do Grupo IPC: ficar retraído; demonstrar irritação; desafiar regras; manifestar inquietude; apresentar dificuldade para fazer amizades; fazer birras, manifestar hostilidade e destruir objetos.

A escola torna-se, assim, um contexto relevante para a prevenção (Del Prette & Del Prette, 2003), tendo no professor um importante papel na identificação dos alunos com dificuldades (Chazan & cols., 1994). Com vista à prevenção, tem sido demonstrada a importância do desenvolvimento de habilidades sociais em crianças que precocemente manifestam problemas de comportamento (Elias, Marturano, Motta & Giurlani, 2003). O pressuposto dessas intervenções é que haveria um déficit de habilidades sociais, associado aos comportamentos socialmente indesejados.

No presente artigo, investiga-se empiricamente esse pressuposto, em crianças pré-escolares, a partir da identificação da presença de problema de comportamento feita pelo professor. O objetivo é comparar as avaliações de mães de crianças com indicativos escolares de problemas de comportamento (IPC) e com indicativos de comportamentos socialmente "desejados" (ICSD), acerca de repertórios "desejados" e "indesejados" de seus filhos. Três hipóteses foram formuladas: (1) as mães de crianças indicadas pelo professor como tendo problemas identificam mais comportamentos "indesejados" em seus filhos, concordando com as indicações dos professores; (b) os comportamentos "indesejados" que diferenciam os grupos são os externalizantes; (c) as mães de crianças indicadas pelo professor como tendo problemas identificam menos comportamentos socialmente adequados em seus filhos.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram do estudo 48 mães de crianças com idade entre cinco e sete anos, matriculadas em 13 escolas municipais de educação infantil (EMEIS), distribuídas geograficamente por uma cidade do interior do Estado de São Paulo. Metade da amostra é composta por crianças com indicação escolar de problemas de comportamento (IPC), perfazendo um total de 24; e a outra metade possui 24 crianças com indicação escolar de comportamentos socialmente adequados (ICSD).

A Tabela 1 apresenta a distribuição por gênero e por idade das crianças estudadas.

 

 

A distribuição por gênero apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos IPC e ICSD (X2 = 6,76; p < 0,01), pois 25% das crianças indicadas como apresentando problemas de comportamento eram meninas e 75% meninos. Ao contrário, 58% das crianças indicadas como tendo comportamentos socialmente desejados eram meninas e 42% meninos. Em ambas as amostras, IPC e ICSD, 63% das crianças tinham seis anos de idade.

Instrumentos

Foram utilizados os seguintes instrumentos: a) Escala Comportamental Infantil B (ECI-B) para professores, de Rutter (Santos, 2002); b) Escala Comportamental Infantil A (ECI-A) para pais, de Rutter (Graminha, 1994); c) Questionário de Comportamentos Socialmente Desejados para Pais (QCSD-Pais), baseado em Silva (2000), que avalia a freqüência de comportamentos socialmente desejados, segundo relatos de pais e de mães; d) Questionário de Comportamentos Socialmente Desejados para Professores (QCSD-Professores), também baseado em Silva, que avalia a freqüência de comportamentos socialmente desejados, segundo relatos de professores.

A ECI-A para pais, com 36 itens, e a ECI-B para professores, com 26, avaliam se a criança possui ou não indicativos de problemas de comportamento. As duas versões compartilham 22 itens. Para cada pergunta há uma escala de três pontos (2 = se aplica; 1 = se aplica em parte; 0 = não se aplica), cujos escores são somados. Caso a soma atinja ou supere o valor 16 na ECI-A, ou 9 na ECI-B, há a indicação clínica para o atendimento psicológico.

Os Questionários de Comportamentos Socialmente Desejados (versão pais e versão professores) possuem uma lista de comportamentos socialmente "desejados" com uma escala de três pontos (2 = se aplica; 1 = se aplica em parte; 0 = não se aplica), cujos escores são somados, fornecendo o escore total da criança avaliada. A versão dos pais tem 19 itens e a dos professores, 24. Dezoito itens da versão para pais estão presentes na versão para professores.

Procedimentos

Para compor a amostra foram visitadas 13 EMEIS, solicitando-se a colaboração de professores (que assinaram um termo de consentimento informado), na indicação de até três alunos com: a) maiores indicativos de problema de comportamento; e b) maiores indicativos de comportamentos socialmente desejados. Os(as) professores(as) foram orientados(as) quanto à necessidade de sigilo sobre suas indicações e a responder aos pais que porventura perguntassem, terem sido as crianças escolhidas mediante sorteio, para evitar prejuízos à coleta de dados (vieses) e discriminação das crianças incluídas no estudo.

Foi perguntado aos professores/diretoria (ou aos próprios pais quando a escola não soube informar) se as crianças indicadas moravam com os pais biológicos, pois este trabalho teve por critérios a participação apenas de filhos de pais biológicos que vivessem maritalmente, à medida que variáveis genéticas e de relacionamento conjugal podem interferir no surgimento e/ou manutenção de problemas de comportamento. Outros critérios para incluir os participantes foram: a) crianças IPC atingirem a pontuação da ECI-professores (Santos, 2002) para problema de comportamento (maior ou igual a 9); b) incluir o mesmo número de crianças IPC e ICSD para cada professor(a), o que implicava que a criança indicada (IPC ou ICSD), ao não atingir os critérios acima mencionados, excluía automaticamente o seu par correspondente; em caso de empate, permanecia na amostra a criança com maior escore no instrumento QCSA-PR.

Os passos de coleta de dados junto aos pais foram: a) contato, por telefone ou pessoal, com os pais dos alunos indicados pelos(as) professores(as), para verificar o interesse em participar da pesquisa e adequação quanto aos critérios para entrar na amostra; e para agendar a aplicação dos instrumentos nas suas residências; b) visitas às residências, onde foram explicitados novamente os objetivos do trabalho, solicitando-se o consentimento e assinatura de um termo de consentimento informado; c) aplicação dos questionários do QCSA-Pais e da ECI pais. Os instrumentos foram aplicados pelas pesquisadoras, as quais fizeram as perguntas e assinalaram/anotaram as respostas. Foram oferecidos, ao final, os devidos agradecimentos e forma de contato, caso os participantes desejassem informações acerca do andamento da pesquisa.

Os participantes responderam nunca/quase nunca, algumas vezes ou freqüentemente às perguntas do questionário QCSA. Para a resposta nunca/quase nunca foi atribuído o escore 0 (zero), para resposta algumas vezes atribuiu-se o escore 1 (um) e para a resposta freqüentemente foi atribuído o escore 2 (dois). Pontuação semelhante foi atribuída aos itens da ECI, conforme instruções da escala (Graminha, 1998).

Foram feitas comparações entre grupos, focalizando os escores totais nos dois instrumentos, bem como os escores nos itens. Empregou-se o teste U de Mann-Whitney e as análises foram processadas no pacote estatístico SPSS. Nas comparações, os itens da ECI foram tratados separadamente, mas os resultados foram agrupados em conjuntos correspondendo, respectivamente, a comportamentos socialmente "indesejados" externalizantes e comportamentos socialmente "indesejados" internalizantes, a partir dos critérios citados por Achenbach e Edelbrock (1979) e por Hinshaw (1992). Algumas categorias não puderam entrar nestas classificações e são apresentadas como outros comportamentos socialmente "indesejados". As análises permitiram obter resultados comparativos dos Grupos IPC-Mães e ICSD-Mães acerca de comportamentos socialmente desejados e de problemas de comportamento de seus filhos.

O teste U de Mann-Whitney foi usado ainda para comparações de gênero dentro de cada grupo – IPC e ICSD, tend-seo em vista a diferença de gênero entre os grupos; tais análises visaram minimizar esta limitação.

 

RESULTADOS

Esta seção está organizada em dois conjuntos: 1. Repertório Comportamental "Desejado" de Filhos (obtido através do instrumento QCSA); 2. Repertório Comportamental "Indesejado" de Filhos (obtido através da ECI para pais).

Repertório Comportamental "Desejado" de Filhos (RCDF)

A Tabela 2 apresenta as médias de cada comportamento avaliado, para cada um dos grupos de mães, bem como os resultados das comparações entre os grupos. Encontram-se também os resultados das comparações de gênero em cada grupo.

 

 

Diferenças estatisticamente significativas foram encontradas a favor do Grupo de mães ICSD para os itens procura sua atenção e comunica-se de forma positiva. Observa-se também que os itens apareceram com freqüência média semelhante entre os grupos. Tendo em vista que o escore máximo em cada item é 2, pode-se dizer que a freqüência é alta para todas as respostas avaliadas em ambos os grupos, que parecem ser equivalentes quanto aos comportamentos "desejados", segundo os relatos de mães.

Quanto à comparação entre gêneros em cada grupo, observou-se que no grupo IPC as meninas tomam mais iniciativas e expressam mais suas opiniões, quando comparadas aos meninos.

Repertório Comportamental "Indesejado" de Filhos (RCIF)

O conjunto de dados referentes ao Repertório Comportamental "Indesejado" de Filhos (RCIF) é composto por quatro categorias de análise: a) dados gerais da ECI; b)comportamentos socialmente "indesejados" externalizantes; c) comportamentos socialmente "indesejados" internalizantes; d) outros comportamentos socialmente "indesejados".

Dados gerais da ECI

Ao comparar os grupos (IPC e ICSD) quanto ao valor total da ECI, verificou-se que as Mães IPC apresentaram escores superiores às Mães ICSD (p = 0,011).

Foi investigado também o significado clínico dos escores nos dois grupos. Para a Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter (adaptada por Graminha, 1994) o escore total acima de 16 caracteriza as crianças que necessitam de atendimento psicológico ou psiquiátrico (Graminha, 1998). Ao quantificar o número de crianças que apresentavam este perfil na amostra avaliada, verificou-se um total de 12 crianças no Grupo IPC, sendo 10 meninos e duas meninas, e um total de seis crianças no Grupo ICSD, sendo dois meninos e quatro meninas. Desta forma, ainda que, segundo o relato dos professores, no Grupo IPC, todas as crianças tenham atingido o escore na ECI, apenas 50% da amostra o atingiram, na opinião das mães. Já no grupo ICSD nenhuma criança teve o escore clínico na ECI – professores, mas 25% atingiram o escore na ECI, segundo o relato das mães.

Comportamentos socialmente "indesejados" externalizantes

Este agrupamento reuniu os itens: fica mal-humorado e nervoso; mata ou "enforca" aula; costuma roubar ou pega coisas dos outros às escondidas; destrói objetos; briga freqüentemente; irritável; desobediente freqüentemente; fala mentiras freqüentemente; maltrata outras crianças; não consegue permanecer numa atividade por mais de alguns minutos; muito agitado; impaciente, irrequieto; fala palavrões, nomes feios. A Tabela 3 apresenta os cálculos de médias e de desvios-padrão das respostas desse conjunto. Encontram-se também as comparações entre grupos e as comparações de gênero em cada grupo.

 

 

Resultados apontam diferenças estatísticas entre os grupos nos seguintes itens: fica mal-humorado e nervoso; destrói coisas próprias ou de outros; muitas vezes é desobediente; não consegue permanecer numa atividade por mais de alguns minutos; é muito agitado; é impaciente, irrequieto. Todos estes comportamentos foram mais freqüentemente citados pelas mães IPC que pelas mães ICSD. As demais respostas investigadas foram mencionadas igualmente entre os grupos. Não foram identificadas diferenças de gênero dentro dos grupos IPC e ICSD.

Comportamentos socialmente "indesejados" internalizantes

Neste conjunto foram agrupados os itens: tem queixas de dores de cabeça; tem dores de estômago; asma ou crises respiratórias; faz xixi na cama ou nas calças; faz cocô na roupa; tem dado trabalho ao chegar na escola ou se recusado a entrar; fica facilmente preocupado(a); tende a ser fechado – um tanto solitário; parece tristonho, infeliz ou angustiado; é muito agarrado à mãe; fica acanhado, tímido e se retrai; é inseguro; tem medo de coisas novas ou de situações novas. Pela Tabela 4 podem-se verificar as médias referentes às respostas da categoria Comportamentos socialmente "indesejados" internalizantes. A Tabela 4 contém ainda os resultados da análise estatística para comparar os grupos e os gêneros.

 

 

Como visto na Tabela 4, os grupos IPC e ICSD são equivalentes quanto aos itens de comportamentos internalizantes. Não foram encontradas diferenças nas comparações entre gêneros para ICSD, no entanto, chama a atenção comportamentos internalizantes (recusa-se a entrar na escola, tem muita preocupação e é fechada, solitária) terem aparecido mais freqüentemente para meninas que para meninos no Grupo IPC.

Outros comportamentos socialmente "indesejados"

Este conjunto reuniu os itens não incluídos nos agrupamentos precedentes: ele gagueja; há alguma outra dificuldade de fala, além da gagueira; há dificuldade de alimentação; é uma criança difícil; há dificuldade com o sono; não é querido por outras crianças; apresenta movimento repetitivo ou tiques; chupa os dedos; rói as unhas ou os dedos. A Tabela 5 apresenta as médias das respostas da categoria Outros comportamentos socialmente "indesejados". Podem ser visualizados também os resultados da análise estatística, bem como suas comparações decorrentes.

 

 

Foi encontrada diferença para o item não é querido pelas outras crianças, que foi mencionado mais freqüentemente pelas mães IPC. Não foram encontradas diferenças nas comparações entre gêneros.

 

DISCUSSÃO

Duas das três hipóteses formuladas na introdução se confirmaram. O grupo com problemas de comportamento, indicado pelos professores, foi avaliado pelas mães como tendo mais problemas, e as diferenças incidiram, sobretudo, em comportamentos externalizantes. Por outro lado, não se encontraram indícios de um repertório mais pobre de comportamentos socialmente "desejados" nesse grupo. Desse modo, não se confirmou a presença de um déficit de habilidades sociais, associado aos comportamentos socialmente indesejados, nesta amostra de pré-escolares.

De forma geral, poucas diferenças foram encontradas quanto ao repertório comportamental "desejado" das crianças, sugerindo que tanto as indicadas como tendo comportamentos socialmente "desejados" como as indicadas como tendo comportamentos "indesejados" devem apresentar "bons" comportamentos na presença das mães. Esses achados, se confirmados em estudos de replicação, têm importante implicação para o planejamento de estratégias preventivas destinadas a atenuar problemas de comportamento em pré-escolares, através do treino ou desenvolvimento de habilidades sociais. Parece que as crianças participantes deste estudo dispõem de um repertório adequado, mas talvez não tenham a oportunidade de mostrá-lo na escola, onde provavelmente comportar-se segundo as normas e convenções é ignorado, ao passo que agir de modo impulsivo e intrusivo é fortalecido pela conseqüente atenção do adulto e dos colegas. Quando a criança apresenta excesso de respostas "indesejadas", mas tem em seu repertório as respostas apropriadas, um modelo de intervenção baseado no fortalecimento de respostas incompatíveis com o comportamento perturbador pode ser suficiente para melhorar os problemas de comportamento.

Esses resultados também sugerem que os professores, ao indicarem as crianças com problemas de comportamento, levaram mais em consideração os comportamentos "indesejados" que os "desejados", o que concorda com Romero (1995), que chama a atenção para a percepção negativa dos professores em relação a estas crianças.

Diferenças estatísticas foram encontradas para alguns comportamentos "indesejados", os quais foram mais freqüentes no Grupo IPC. A maior parte dessas diferenças é consistente com os resultados do estudo de Bolsoni-Silva, Del Prette e Oishi (2003).

Algumas diferenças de gênero foram encontradas, parte das quais coerente com dados de estudos anteriores. Em primeiro lugar, já na composição dos grupos verificou-se que no Grupo IPC foram mais indicados meninos que meninas, concordando com a literatura da área, que refere ser a prevalência maior para meninos (Crijnen & cols., 1997). Os resultados de escores totais da ECI identificaram, no Grupo IPC, um maior número de meninos (10) que atingiram o escore clínico quando comparados às meninas indicadas (duas), o que confirma, de certa forma, a maior vulnerabilidade dos meninos. Em segundo lugar, e de certa forma contrapondo-se a esses resultados, comparações por itens da ECI não identificaram diferenças entre gêneros, com exceção de alguns comportamentos socialmente "indesejados" internalizantes (fica facilmente preocupado, recusa-se a entrar na escola e tende a ser fechado), que foram mais freqüentemente apontados para as meninas. Esses resultados são apenas parcialmente concordantes com estudos prévios, segundo os quais problemas internalizantes seriam mais freqüentes em crianças mais velhas e em meninas, ao passo que problemas externalizantes seriam mais freqüentes em crianças mais jovens e em meninos (Crijnen & cols., 1997; Gerard & Buehler, 1999). Na presente investigação, realizada com pré-escolares, as meninas aparentemente têm comportamentos mais maduros, visto que, no grupo ICSD, elas apresentam médias mais altas que os meninos em algumas habilidades interpessoais, como tomar iniciativas e expressar opiniões; na mesma direção, no grupo IPC, as meninas mostram mais freqüentemente problemas internalizantes, que são mais comuns entre crianças mais velhas.

Os resultados indicaram que crianças IPC apresentam maior número de comportamentos indicativos de problemas de comportamento que as ICSD, especialmente os externalizantes. Por outro lado, algumas crianças no Grupo ICSD também apresentaram escore total na ECI que justificaria atendimento psicológico ou psiquiátrico, o que permite levantar pelo menos duas hipóteses: haveria diferentes percepções entre professores e mães a respeito do comportamento das crianças, ou então as crianças comportam-se de forma diferente em casa e na escola.

Pelo menos em parte, as diferenças encontradas podem também estar relacionadas ao gênero das crianças, pois o Grupo IPC é formado especialmente por meninos. A cultura colabora para a manutenção de comportamentos coercitivos (Sidman, 1995), especialmente para os homens em que comportamentos agressivos acabam sendo mais tolerados (Barbour, Eckhard, Davison & Kassinove, 1998; Heyman, Brown, Feldbau-Kohn & O'Leary, 1999; McCollaum & Lester, 1997). No entanto, as comparações realizadas identificaram poucas diferenças significativas entre gêneros. De qualquer forma, estudos futuros deveriam trabalhar com grupos equivalentes quanto ao gênero das crianças, para que questões como estas fossem mais bem equacionadas.

Esta pesquisa sugere que ambos os Grupos, IPC e ICSD, apresentavam reservas e déficits comportamentais, portanto, poderiam ser beneficiados de intervenções, a fim de promover relacionamentos mais equilibrados e evitar ou mesmo remediar problemas de comportamento. Como apontado por Rosales-Ruiz e Baer (1997), comportamentos socialmente habilidosos podem ser considerados "saltos" comportamentais à medida que expõem a criança a novas contingências de reforçamento, ou seja, ao interagir com colegas e adultos de forma socialmente habilidosa, pode conseguir atenção, e também ser menos rejeitada, ser mais convidada para festas etc., de forma que sucessivamente será exposta a outras contingências que irão modelar seu repertório social, indispensável para a adolescência e vida adulta.

Estudos futuros poderiam avaliar variáveis antecedentes e conseqüentes para cada resposta "desejada" e "indesejada", a fim de identificar variáveis das quais o responder é função e, portanto, maximizar informações acerca desta população, o que poderá subsidiar intervenções futuras.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Alessandra Turini Bolsoni-Silva
Av. Eng. Luiz Edmundo C. Coube, s/n, Vargem Limpa
CEP 17015-970, Bauru-SP
E-mail: bolsoni@fc.unesp.br

Recebido em 23/08/2004
Aceito em 30/05/2005