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Psicologia em Estudo

versão impressa ISSN 1413-7372versão On-line ISSN 1807-0329

Psicol. estud. v.10 n.3 Maringá set./dez. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722005000300019 

ARTIGOS

 

Escala de coping religioso-espiritual (Escala CRE1): elaboração e validação de construto2

 

Spiritual/religious coping scale (SRCOPE Scale): elaboration and construct validation

 

 

Raquel Gehrke PanziniI; Denise Ruschel BandeiraII

IMestre em Psicologia. Doutoranda em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS
IIDoutora em Psicologia do Desenvolvimento, Professora Adjunta do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade da UFRGS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O coping religioso-espiritual (CRE), que descreve o modo como os indivíduos utilizam sua fé para lidar com o estresse, tem se mostrado associado com melhores índices de qualidade de vida e saúde física e mental. O objetivo deste artigo foi relatar a elaboração e o processo de validação de construto da Escala de Coping Religioso-Espiritual (Escala CRE), primeiro instrumento de avaliação de CRE do Brasil, com base na escala norte-americana RCOPE (Pargament, Koenig & Perez, 2000). O estudo foi realizado em duas fases: (1) tradução, adaptação e teste piloto (N=50), (2) teste de campo (N=616) e validação de construto. Análises fatoriais, de consistência interna e de correlação indicaram que a Escala CRE é válida e fidedigna, avaliando aspectos positivos e negativos do uso da religião/espiritualidade para manejo do estresse e constituindo-se em um instrumento compreensivo, teórica e empiricamente embasado, funcionalmente orientado, clinicamente significativo e útil a várias áreas da pesquisa científica.

Palavras-chave: psicologia da religião, avaliação psicológica, coping religioso-espiritual.


ABSTRACT

The spiritual/religious coping (SRC) refers to the way people use faith to cope with stress and has been associated with improvements in quality of life and physical and mental health. The aim of this article was to describe the elaboration and construct validation process of the Spiritual/Religious Coping Scale (SRCOPE Scale), the first instrument to measure SRC in Brazil, based on RCOPE Scale (Pargament & cols., 2000). The study comprehended two phases: (1) translation, adaptation and pilot test (N=50); (2) field test (N=616) and construct validation. Factorial, internal consistency and correlation analysis indicated SRCOPE Scale as a valid and reliable instrument. It assesses both positives and negatives aspects of SRC, resulting in a comprehensive, functional oriented, theoretical and empirically based, and clinically meaningful instrument, useful to different scientific research areas.

Key words: spiritual/religious coping, psychological assessment, psychology of religion.


 

 

O estresse é uma variável múltipla e um inevitável aspecto da vida (Lazarus & Folkman, 1984). A exposição freqüente, intensa ou crônica ao estresse está associada a numerosos efeitos adversos na saúde física e mental (Boudreaux, Catz, Ryan, Amaral-Melendez & Brantley, 1995). O que diferencia as pessoas é a maneira como manejam o estresse (Lazarus & Folkman, 1984), processo conceituado como coping (palavra inglesa sem tradução literal em português, podendo significar "lidar com", "manejar", "enfrentar" ou "adaptar-se a"). Quando as pessoas se voltam para a religião para lidar com o estresse, acontece o coping religioso-espiritual (CRE) (Pargament, 1997). Seus objetivos se coadunam com os cinco objetivos-chave da religião [busca de significado, controle, conforto espiritual, intimidade com Deus e com outros membros da sociedade, e transformação de vida (Pargament, 1997)] e com a busca de bem-estar físico, psicológico e emocional (Tarakwshwar & Pargament, 2001). Esforços no desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação de CRE têm sido realizados internacionalmente (Boudreaux & cols., 1995; Pargament, Koenig & Perez, 2000), mas no Brasil ainda não existiam instrumentos validados para avaliação de CRE, construto que tem se mostrado relevante em pesquisas relacionando religião/espiritualidade com saúde (Pargament, 1997; Siegel, Anderman & Schrimshaw, 2001) e qualidade de vida (Ferris, 2002; Skevington, 2002).

Estratégias religiosas de coping foram verificadas especialmente diante de situações de crise, tais como: problemas relacionados à saúde e ao envelhecimento, tipos doença, incapacidades e morte (Siegel & cols., 2001); perda de entes queridos (Park & Cohen, 1993) e guerras (Pargament & cols., 1994). As estratégias de CRE podem ser classificadas em positivas e negativas, conforme as conseqüências que trazem para quem as utiliza (Pargament, Smith Koenig & Perez, 1998). Evidências apontam um uso consideravelmente maior de estratégias de CRE positivas do que negativas para diferentes amostras em diferentes situações estressantes de vida (Pargament, Smith, & cols., 1998) e que estratégias de CRE não são apenas melhores preditores dos resultados de experiências estressantes do que medidas religiosas globais, mas acrescentam variância única à predição destes resultados, incluindo os de saúde e bem-estar, acima e além dos efeitos das estratégias de coping não religioso avaliadas (Pargament, 1997; Pargament, Smith & cols., 1998). No estudo de Koenig, Pargament e Nielsen (1998), estratégias positivas de CRE apresentaram correlação positiva com melhor saúde mental (menos sintomas depressivos e melhor qualidade de vida), crescimento relacionado ao estresse, crescimento espiritual e cooperatividade. Estratégias negativas de CRE tiveram correlação negativa com saúde física, depressão e qualidade de vida.

Da perspectiva da saúde pública, vários estudos demonstram que pessoas que apresentam envolvimento religioso têm menor probabilidade de usar/abusar de substâncias como álcool, cigarros e drogas, ou de apresentar comportamentos de risco, como atividades sexuais extramaritais, delinqüência e crime (revisão em Koenig, 2001). Além disso, a grande maioria dos usuários de serviços de saúde, avaliados em 350 estudos científicos, quer ser perguntada sobre sua espiritualidade e/ou suas crenças religiosas no contexto do cuidado à saúde (Connelly & Light, 2003). Em parte como resultado desses achados, o Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais IV (DSM-IV) realizou mudanças significativas em sua apresentação da religião, removendo as freqüentes ilustrações negativas da religião na psicopatologia e incluindo o Código V para Problemas religiosos e espirituais (Weaver & cols., 1998).

Dada a relevância apresentada pela variável CRE e a lacuna de instrumentos de CRE no Brasil, Panzini (2004) efetuou a tradução, adaptação e validação de construto, de critério e de conteúdo da Escala de Coping Religioso-Espiritual (Escala CRE), com base na escala norte-americana RCOPE (Pargament, Koenig & Perez, 2000), e investigou a relação entre coping religioso-espiritual, saúde e qualidade de vida (Panzini & Bandeira, no prelo). O objetivo deste artigo é expor parte desta pesquisa, referente à elaboração e validação de construto da Escala CRE. A intenção é contribuir para futuras pesquisas brasileiras nas áreas da Psicologia da Religião, Coping, Saúde e Qualidade de Vida, entre outras, fornecendo uma medida objetiva dos comportamentos nos quais as pessoas utilizam a religião/espiritualidade para lidar com o estresse.

 

MÉTODO

Fase 1: Tradução por especialistas da escala RCOPE, adaptação da escala à realidade cultural brasileira e teste piloto da Escala CRE

A tradução por especialistas (adaptação do 1º passo do método de Beaton, Bombardier, Guillemin & Ferraz, 2000) compôs-se de quatro etapas, sempre seguidas da submissão do material à pesquisadora responsável: (1) tradução para o Português (brasileiro) por quatro juízes bilíngües independentes; (2) síntese, por comparação, das quatro versões iniciais; (3) revisão da síntese por um comitê de especialistas (incluindo parecer escrito de um expert em Psicologia da Religião), para resolver divergências, avaliar os termos religiosos generalizados para uso com várias religiões/crenças, e consolidar todas as versões da escala, tentando manter, entre original e versão, equivalência semântica, idiomática, conceitual e vivencial de cada item do instrumento; e (4) análise da versão por duas especialistas independentes, em Coping ou Avaliação Psicológica.

A adaptação da escala traduzida à realidade cultural brasileira foi realizada através da análise de entrevistas semi-abertas com 10 líderes/expoentes religiosos (religiões católica, evangélica, espírita kardecista, judaica, batuque, e um representante sem religião, mas espiritualizado), visando: averiguar e receber sugestões quanto à tradução da escala, identificar estratégias de CRE ainda não contempladas, testar a compreensão dos termos religiosos generalizados e buscar critério adequado para a redução do número de itens da escala original de cinco para três variações frasais das 21 estratégias de CRE identificadas. Para esta redução, solicitou-se que cada entrevistado elegesse os dois itens mais descartáveis de cada cinco, para serem retirados. Como resultado destas entrevistas, em relação à RCOPE original, 28 itens foram modificados, 42 foram descartados e 33 foram acrescentados (3 variações frasais de novas 11 estratégias de CRE identificadas), resultando numa escala com 96 itens. Devido às várias modificações sofridas, esta foi renomeada para "Escala de Coping Religioso-Espiritual (Escala CRE)".

O teste piloto foi realizado em amostra de 25 universitários e 25 estudantes do ensino médio noturno (60%, 40%), de idades entre 16 e 42 anos (μ=21,66; dp=6,51), majoritariamente solteiros (86%), com renda familiar variada (82% entre 2-20 salários mínimos). Os principais resultados obtidos foram: (1) um bom nível de fidedignidade (α=0,96) da Escala CRE-versão piloto; (2) a retirada de seis itens que não demonstraram correlação significativa, nem com os itens de CRE positivo (CREP) nem com os de CRE negativo (CREN); (3) a inclusão de dois itens CREN, retirados da Red Flags Religion Coping Scale (Pargament, Zinnbauer & cols., 1998), buscando maior equilíbrio na proporção entre itens positivos/negativos de CRE; e, (4) uma versão da Escala CRE de 92 itens.

FASE 2: Teste de campo e validação da Escala CRE

Participantes

A amostra final deste estudo foi constituída de 616 participantes (65%, 35%) residentes no estado do Rio Grande do Sul (RS), a maioria em Porto Alegre (88,5%), com idade média de 41,38 (dp=18,44) e com, no mínimo, o segundo ano do ensino fundamental completo. Os participantes eram freqüentadores de instituições religiosas de diversas crenças (espírita, católica, evangélica, judaica, batuque, umbanda e teosofia) ou de grupos religiosos/espirituais não institucionalizados (de oração ou bioenergia) (74,5%); estudantes ou funcionários de universidades (13,5%); pacientes, familiares, visitantes ou funcionários de clínicas para tratamento de saúde (9,1%) e usuários da Internet (2,9%) (estudantes ou pós-graduados de universidades do RS contatados através de Web Mail). As características dos participantes segundo variáveis de interesse podem ser vistas na Tabela 1.

 

 

Instrumentos

Nesta fase, vários instrumentos foram aplicados. Para a validação de construto, objeto deste artigo, foram utilizados: (a) Consentimento Livre e Esclarecido; (b) Questionário Geral (dados demográficos, socioeconômicos, religiosos e de saúde), desenvolvido e testado na Fase 1; (c) Escala CRE (92 itens); (d) Escala de Atitude Religiosa (AR) (Fraga, França & Aquino, 2002), com 15 itens avaliados em três domínios: Conhecimento, Afeto e Comportamento Religioso.

As questões do Questionário Geral possibilitaram a elaboração e utilização de alguns índices de medidas religiosas: um unidimensional, como o item sobre a ajuda da religião/espiritualidade para lidar com o estresse (Ajuda/Stress); e três globais, como o Índice de Importância da Religião/Espiritualidade (IMPOREL: média de dois itens sobre a importância da religião independentemente da freqüência religiosa e a importância da religião/espiritualidade para lidar com os fatores estressantes de vida atuais), o Indicador Global de Atividades Religiosas (IGAR: média de três itens sobre a freqüência a instituições ou encontros de natureza religiosa, freqüência de tempo dedicado a atividades religiosas privativas e importância da religião, independentemente da freqüência religiosa) e a Medida de Grau de Crescimento Espiritual (CRESCESP: média de três itens sobre crescimento espiritual, crescimento junto a Deus e junto à instituição religiosa) – os dois últimos conforme o estudo de Koenig e cols. (1998).

Quanto à Escala CRE, basicamente sua instrução fornece os conceitos de coping religioso-espiritual e de estresse, pede a descrição breve da situação de maior estresse que a pessoa vivenciou nos últimos três anos e solicita que a pessoa responda o quanto fez ou não o que está escrito em cada item para lidar com a situação estressante. As respostas são dadas em escala Likert de cinco pontos (1-nem um pouco a 5-muitíssimo).

Procedimentos

Obedeceu-se às necessidades específicas de cada local de coleta e à ética em pesquisas com seres humanos, especialmente quanto a questões de confidencialidade e voluntariedade, tendo sido o projeto aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Inicialmente, foram obtidas autorizações das instituições ou dos líderes dos grupos contatados. A seguir foi realizada a abordagem coletiva (90%) ou individual (10%) dos participantes nos locais que freqüentavam. Após a apresentação da pesquisa, seus objetivos e convite à participação voluntária, estes eram instruídos quanto ao preenchimento dos instrumentos, recebendo protocolo completo, a ser devolvido em caixa lacrada nos respectivos locais freqüentados (76,5%) ou diretamente ao pesquisador e/ou seus auxiliares, no caso das aplicações presenciais (20,6%) e virtuais (2,9%). A ordem dos instrumentos foi alterada a cada 100 protocolos, com exceção do Consentimento Livre/Esclarecido e do Questionário Geral (sempre os dois primeiros).

 

RESULTADOS

Análises fatoriais

Todas as análises fatoriais exploratórias relatadas foram realizadas através do método de extração por análise dos componentes principais, método de rotação direct oblimin com normalização Kaiser, dado que os fatores se correlacionam (Pargament & cols., 2000). Dois itens que apresentaram problemas de compreensão durante a aplicação foram retirados. A solução para o conjunto total de itens foi de 15 fatores, explicando 59,80% da variância. Entretanto, segundo a literatura (Koenig & cols., 1998; Pargament, Smith & cols., 1998), uma solução de dois fatores (CREP e CREN) foi julgada adequada teoricamente para diferentes versões da Brief RCOPE. Como na análise fatorial exploratória induzida em dois fatores os itens dividiram-se praticamente conforme esperado teoricamente, resolveu-se realizar as análises fatoriais da Escala CRE separadamente para cada uma das duas dimensões, positiva e negativa.

Nesta análise induzida, só três itens carregaram em fatores opostos ao que afirma a teoria da Psicologia da Religião e Coping. Um foi retirado, mas dois itens (11 e 30), referentes à estratégia de CRE "Súplica por Intercessão Direta", classificada teoricamente como CREN e conceituada como tentativa de influenciar a vontade divina através de rogos/petições por Sua intervenção (Pargament, 1997), foram mantidos na dimensão positiva. A análise de conteúdo dos itens e da distribuição empírica (Panzini, 2004) mostrou que poderia haver uma discriminação entre súplicas negativas e positivas, segundo a intenção do suplicante. As primeiras foram conceituadas como rogos pelo apoio de Deus, tentando modificar Sua vontade segundo a vontade individual, e as segundas como rogos/orações buscando apoio de Deus, mas respeitando Sua vontade em detrimento da pessoal.

A análise fatorial exploratória inicial da Dimensão de CRE Positivo (68 itens) apontou 10 fatores. Análises do gráfico Scree Plot, segundo critério de Cattel (1966) e das teorias em Psicologia da Religião e Coping, sugeriram que a solução de oito fatores era mais adequada para representar esta dimensão. Percebeu-se que as respostas de dois itens (69 e 76) deveriam ser invertidas e que outros dois deveriam ser eliminados pelo critério da carga mínima 0,30 para permanência (Pasquali, 2001). Refeitas as análises, a Dimensão de Coping Religioso-Espiritual Positivo da Escala CRE ficou com 66 itens, distribuídos em oito fatores, deixando a Escala CRE com um conjunto de 87 itens. A Matriz Fatorial única desta dimensão, que obteve rotação convergente em 49 interações, está apresentada neste texto em duas tabelas: na Tabela 2 encontram-se detalhados os fatores P1 a P4, e na Tabela 3 os fatores P5 a P8.

A análise fatorial exploratória da Dimensão de CRE Negativo (21 itens) da Escala CRE ofereceu solução de cinco fatores. Conforme critérios apresentados anteriormente neste texto, elegeu-se a solução de quatro fatores (Tabela 4) como mais adequada para representar a dimensão negativa. Em ambas as dimensões, os itens que carregaram acima de 0,30 em mais de um fator sempre foram mantidos onde apontaram maior carga (16 itens). Definições operacionais dos fatores em Panzini (2004).

 

Índices de Avaliação da Escala CRE

A partir das análises fatoriais, foram criados índices para avaliar o participante através da Escala CRE: (1) CRE Positivo: indica o nível de CRE positivo praticado pelo avaliado através da média das 66 questões da Dimensão CREP; (2) CRE Negativo: indica o nível de CRE negativo praticado, através da média das 21 questões da Dimensão CREN; (3) CRE Total: indica a quantidade total de CRE's praticados pelo avaliado, através da média entre o Índice CRE Positivo e a média das respostas invertidas aos 21 itens CREN (CRE Negativo Invertido); (4) Razão CREn/CREP: revela a percentagem de CRE Negativo utilizado em relação ao CRE Positivo, através da divisão simples entre os índices básicos.

O índice Razão CREn/CREP é inversamente proporcional, pois espera-se que a pessoa apresente o Índice CRE Positivo mais elevado em relação ao Índice CRE Negativo, devido às conseqüências positivas e negativas que acarretam, respectivamente. Quanto mais baixo resultar seu valor, maior é o uso de CREP em relação ao de CREN, e vice-versa. Quanto ao CRE Total, já que as duas dimensões têm direções contrárias, seu cálculo é possibilitado pela inversão e, quanto maior seu valor, maior uso total de CRE pelo avaliado. Por último, em adição, para avaliar o quanto a pessoa utiliza certas estratégias de CRE, foi calculado um índice (P1 a P8/N1 a N4) para cada fator, computados pela média das questões que os constituem (fórmulas em Panzini, 2004).

Análises de Consistência Interna (Validade de Construto e Fidedignidade)

Foi calculado o Alpha de Cronbach (a) do conjunto de itens da Escala CRE (0,97), de suas dimensões e fatores. No geral, a escala apresentou um ótimo nível de consistência interna, sendo que a Dimensão CREP (0,98) e seus fatores (ver Tabela 2), em sua maioria, tiveram melhor desempenho que a Dimensão CREN (0,86) e seus fatores (ver Tabela 3) quanto à precisão. Apenas o fator N4 apresentou um nível um pouco abaixo do esperado.

Validade de Construto Convergente/Discriminante da Escala CRE

Análises de correlação (Tabela 5) foram realizadas entre as variáveis da Escala CRE e outras medidas religiosas espirituais: (a) Ajuda/Stress; (b) IMPOREL, IGAR e CRESCESP; e (c) AR Total (média de 14 itens da Escala AR). Confirmando a validade de construto convergente da Escala CRE, houve correlação positiva entre as variáveis positivas (dimensão e fatores positivos) desta com as outras medidas religiosas/espirituais (R/E) avaliadas. Confirmando a validade de construto discriminante da Escala CRE, não houve correlação ou houve correlação negativa entre as variáveis negativas da Escala CRE e as outras medidas R/E avaliadas, que apenas abrangem aspectos positivos.

 

DISCUSSÃO

1: Tradução

Embora o método de tradução reversa seja tradicionalmente utilizado, optou-se pelo método de tradução por especialistas: 1º) por concordar-se com Sandoval e Durán (1998), os quais afirmam que o primeiro não permite facilmente que bases culturais/conceituais do instrumento sejam transferidas para a linguagem desejada, por ênfase demasiada no retorno exato à língua original, emergindo, muitas vezes, uma tradução atravessada, entrecortada e desfavorável; e 2º) por julgar-se o segundo mais adequado para dar conta das diferenças idiomático-culturais entre português (brasileiro) e inglês (americano). A comparação entre as quatro traduções e a revisão pelos especialistas (do Comitê ou independentes) possibilitou maior número de alternativas para solução das dificuldades inerentes a qualquer processo de tradução.

Adaptação

É importante realizar a adaptação cultural dos itens para além da adaptação lingüística, bem como fazer mudanças de conteúdo e redação, procurando manter a validade de conteúdo dos instrumentos (Beaton & cols., 2000; Sandoval & Duran, 1998). Devido à maior diversidade religiosa/espiritual do Brasil em relação aos Estados Unidos, procurou-se adaptar a RCOPE à cultura brasileira. Itens nacionais foram criados (conforme 2º passo do método de Beaton & cols., 2000), gerando a Escala CRE.

Fase 2

A verificação das propriedades psicométricas do novo instrumento é parte do método de adaptação transcultural de medidas de auto-relato (3º passo de Beaton & cols., 2000) e é na convergência de resultados positivos de diversas técnicas que reside a garantia da validade e precisão encontradas (Pasquali,  2001). Assim, várias análises (fatoriais, de consistência interna, correlacionais) foram realizadas para determinar a fidedignidade e validade de construto da Escala CRE.

Análises fatoriais

A induzida em dois fatores comprovou empiricamente a diferenciação entre os construtos CREP e CREN. Estudos de validade de conteúdo (Panzini, 2004) demonstraram que as soluções fatoriais finais das duas dimensões de CRE sustentaram razoavelmente a estrutura teórica da escala. Os novos arranjos empíricos foram consistentes com a teoria de base, e os temas centrais de cada fator parecem uma evolução do arranjo teórico das finalidades gerais da religião/espiritualidade em objetivos mais específicos e definidos das estratégias de CRE. O critério proposto para distinção entre "Súplica por Intercessão Direta" positiva e negativa baseou-se nos dados empíricos e estatísticos desta pesquisa, porém incentivam-se posteriores discussões teóricas e estudos empíricos para aprofundar a questão.

A inclusão de itens de ação direta na escala foi relevante, pois muitas vezes o CRE é subestimado em sua utilização, por muitas estratégias serem utilizadas de forma complementar ou secundária às estratégias de coping não religioso-espiritual. A crescente procura de terapias alternativas pode ser um filtro para demonstrar quão atuante pode ser o CRE no cotidiano das pessoas, para além da busca de significado ou conhecimento/crescimento espiritual. Focar a investigação científica da religião/espiritualidade apenas nos níveis afetivo e cognitivo parece ser uma atitude reducionista, obscurecendo a influência comportamental, direta ou indireta, do CRE na vida diária.

Confirmando a boa performance psicométrica da escala, os fatores de ambas as dimensões apresentaram conjuntos de itens com cargas fatoriais satisfatórias. Apenas o P5, com menor número de itens, apresentou conjunto de cargas mais baixo. Os três primeiros índices de avaliação da Escala CRE permitem avaliar a quantidade total de CRE's positivo e negativo praticados pelo avaliado, separadamente ou em conjunto. Já o índice geral Razão CREN/CREP permite acessar a proporção entre estas quantidades. Se o mesmo indivíduo emprega CRE positivo e negativo para lidar com o estresse, é na proporção entre tais quantidades que reside a chave para determinar se, no geral, a pessoa está tendo conseqüências positivas ou negativas da utilização total que faz de coping religioso-espiritual. A clara definição deste elemento parece ser extremamente importante para dirimir as ambigüidades de dados encontradas por diferentes pesquisas quanto às conseqüências finais de pensamentos, sentimentos e comportamentos religioso-espirituais, já que, enquanto existem as já citadas inúmeras pesquisas recentes enfatizando o aspecto positivo, pesa também o cenário de muitas outras, especialmente na área clínica, lembrando-se a influência negativa que possam ter (Ness, 1999). A partir da teoria e dos resultados empíricos de parte desta pesquisa, postulou-se que a proporção mínima necessária para se obter um balanço positivo na qualidade de vida do indivíduo segundo o uso de CRE seria 2CREP:1CREN, gerando uma Razão CREN/CREP≤0,50. Futuros estudos poderão corroborar ou não nossos achados, confirmando ou não esta proposição. Já os índices fatoriais (P1-P8/N1-N4) proporcionam uma visão mais detalhada do conjunto de estratégias de CRE mais utilizadas pelo respondente. Enfim, a Escala CRE evidenciou validade de construto através das análises fatoriais realizadas e seus índices avaliativos vêm instrumentar a praticidade de sua utilização.

Análises de Consistência Interna

Os conjuntos de itens da Escala CRE apresentaram excelentes níveis de fidedignidade, assim como os fatores da dimensão positiva. Na dimensão negativa, os fatores N1 e N3 alcançaram níveis muito bons de validade e precisão, o fator N2 demonstrou um nível bom e o fator N4 encontra-se bastante próximo do aceitável. Não coincidentemente, os dois últimos fatores são os únicos com apenas quatro itens.

Validade de Construto convergente/discriminante da Escala CRE

Os índices da Escala CRE, em geral, correlacionaram-se bem com as outras medidas religioso-espirituais avaliadas (variáveis de construtos similares), confirmando sua validade convergente. Dado o fato de estas outras medidas abrangerem apenas o aspecto positivo da religiosidade, as correlações com os fatores negativos da Escala CRE terem se mostrado menores, conforme esperado, foi decisivo para a validação discriminante da Escala CRE. Corroborando a literatura, a Escala CRE apresentou um desempenho psicométrico melhor que as medidas globais (em relação a variáveis posteriormente estudadas), e estas últimas, em geral, obtiveram valores de correlação mais altos que a medida unidimensional.

A Escala AR também é formada apenas de itens de atitudes religiosas positivas. Assim, o fato de o AR Total ter apresentado ótima correlação com a dimensão positiva e seus fatores (re)confirma a validade de construto convergente, e o fato de este índice não ter apresentado correlação com a dimensão negativa e seus fatores (re)afirma a validade discriminante da Escala CRE, com a Escala AR. As correlações do AR Total com os índices Razão CREN/CREP e CRE Total, que integram os itens CREP e CREN da Escala CRE, foram elevadas, considerando-se a diferença entre as escalas. Entretanto, são logicamente compreensíveis, já que os índices gerais compensam a diferença ao relacionar CRE's positivos e negativos. Comparando-se as correlações entre os índices da dimensão positiva e seus fatores com o AR Total, percebe-se que, no geral, a correlação entre eles foi maior do que as obtidas com as outras medidas religioso-espirituais unidimensional e globais. Apenas o índice IGAR obteve correlação comparável à obtida pelo índice CRE Positivo. Embora tais índices tenham obtido níveis de correlação semelhantes, a avaliação multidimensional da Escala CRE demonstra vantagem clínica sobre a medida global IGAR, pois a ampla gama de comportamentos religioso-espirituais abrangidos fornece idéia mais profunda e detalhada do indivíduo.

 

CONCLUSÃO

Os resultados demonstram que a Escala CRE vem ao encontro da necessidade internacional de instrumentos mais compreensivos e abrangentes, que possam ser válidos e úteis em pesquisas e significativos na prática clínica, fato que se repete no Brasil. As diversas técnicas empregadas demonstraram e reafirmaram a validade e fidedignidade da Escala CRE e a viabilidade de sua utilização a partir dos parâmetros psicométricos definidos e investigados.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Raquel Gehrke Panzini
Rua Ramiro Barcelos, 2600, sala 120, Bairro Santana
CEP 90035-003, Porto Alegre-RS.
E-mail: ragepa@yahoo.com.br

Recebido em 29/03/2005
Aceito em 30/08/2005

 

 

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