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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.11 no.1 Maringá Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722006000100007 

ARTIGOS

 

Ritual de casamento e planejamento do primeiro filho

 

Wedding ritual and first-child planning

 

 

Rita de Cássia Sobreira LopesI; Clarissa MenezesII; Gisele Pinheiro dos SantosIII; César Augusto PiccininiIV

IDoutora pela Universidade de Londres. Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
IIMestre em Psicologia e Doutoranda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
IIIGraduanda do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista de Iniciação Científica, CNPq
IVDoutor pela Universidade de Londres. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo investigou a existência ou não de ritual de casamento e sua relação com o planejamento do primeiro filho. Participaram quarenta e sete casais que esperavam seu primeiro filho, entrevistados conjuntamente no último trimestre da gravidez. Os resultados, analisados através de análise de conteúdo, mostraram que a maior parte dos casais (53%) relatou ter tido ritual de casamento e ter planejado a primeira gravidez, enquanto 25% dos casais não relataram nenhuma das duas situações. Desta maneira, constatou-se uma associação estatisticamente significativa entre a presença de ritual de casamento e o planejamento da gravidez do primeiro filho. Os resultados apóiam a expectativa inicial de que o modo como ocorre a transição para o casamento desempenha um papel importante no planejamento da primeira gravidez. O ritual de casamento claramente demarca o início de um novo núcleo familiar, a passagem para a adultez e a potencial transição para a parentalidade.

Palavras-chave: ritual de casamento, planejamento do primeiro filho, ciclo de vida familiar


ABSTRACT

This study investigated the existence of a marriage ritual and the planning of a first-child. Forty-seven couples, who were expecting their first child were interviewed jointly in the last trimester of pregnancy. The results, obtained from content analysis, showed that most couples (53%) reported that they had had a marriage ritual and that they had planned the first pregnancy, while 25% of the couples did not report any of the two situations. Therefore a statistically significant association was found between the presence of a marriage ritual and the first-child planning. The results gave support to the initial expectation that the way the transition to marriage takes place, has an important role in the first-child planning. Marriage rituals clearly demarcate the beginning of a new family, the transition to adulthood and the potential transition to parenthood.

Key words: Marriage ritual, first-child planning, family life cycle.


 

 

A partir da perspectiva da teoria familiar sistêmica, uma idéia importante na compreensão do funcionamento das famílias é a de ciclo de vida da família. As famílias se desenvolvem com o passar do tempo, na medida em que entram e saem de diferentes estágios. Carter e McGoldrick (1995) desenvolveram a noção de ciclo de vida da família, dividindo-o em seis estágios, cada qual com determinados desafios e tarefas desenvolvimentais: (a) os jovens solteiros; (b) o novo casal; (c) famílias com filhos pequenos; (d) famílias com filhos adolescentes; (e) o ninho vazio; e, finalmente, (f) famílias no estágio tardio de vida. De modo geral, em nossa sociedade, a passagem da primeira etapa (jovens solteiros) para a segunda (o novo casal) tende a ser demarcada por um ritual de casamento, comumente um casamento civil e/ou religioso. Já a transição para a terceira fase (famílias com filhos pequenos) é demarcada pela gravidez do primeiro filho de um casal, a qual pode ser planejada ou não. Desta forma, o presente estudo visa examinar a existência ou não de ritual de casamento na união dos casais e sua relação com o posterior planejamento, ou não, da primeira gravidez.

Em relação aos rituais de casamento, constatou-se que a literatura da área de família em geral tem enfocado mais os rituais familiares do que os rituais de casamento propriamente ditos. Neste sentido, recentemente, Fiese, Tomcho, Douglas, Josephs, Poltrock e Baker (2002) realizaram uma revisão qualitativa dos artigos existentes relativos ao tema dos rituais familiares. O primeiro estudo por eles mencionado foi a pesquisa qualitativa realizada por Bossard e Boll (1950), os quais concluíram que os rituais são poderosos organizadores da vida familiar, mantendo sua estabilidade durante períodos de estresse e transição. Outros estudos vêm apontando a importância dos rituais familiares na qualidade da parentalidade (Niska, Snyder, & Lia-Hoagberg, 1998; Seynour, Brock, During, & Poole, 1989; Sprunger, Boyce, & Gaines, 1985), no ajuste familiar e infantil (Fiese, 1992; Schuck & Bucy, 1997; Reiss, 1989; Steinglass, Bennett, Wollin, & Reiss, 1987) e no relacionamento conjugal (Gottman, 1994; Fiese, Hooker, Kotary, & Schwangler, 1993). Segundo a revisão de Fiese e cols. (2002), nos vinte e cinco anos que se seguiram ao trabalho de Bossard e Boll a maioria dos trabalhos realizados teve enfoque teórico, com destaque para os principais elementos que constituem um ritual (Imber-Black, Roberts, & Whiting, 1988; Selvini-Palazzoli, Boscolo, & Pratta, 1977). A partir dos anos 1980 alguns pesquisadores começaram a organizar estudos empíricos sobre os rituais familiares, os quais vêm sendo realizados até hoje. Fiese e cols. (2002) concluíram sua revisão apontando a limitação dos resultados de tais estudos, em função das inconsistências metodológicas dos mesmos, e recomendando que novos estudos sejam realizados, em um esforço para demonstrar a importância dos rituais familiares na vida das famílias contemporâneas. 

Dentre os rituais familiares, os rituais de casamento, especificamente, não têm sido estudados por muitos pesquisadores. Em pesquisa em banco de dados eletrônico (PsycInfo) com o termo wedding ritual, localizaram-se apenas dois estudos. Um deles se dedicou a descrever os rituais de casamento na cultura tailandesa (Limanonda, 1995); o segundo estudo foi o de Kitahara (1974), que investigou a cerimônia de casamento como um rito de passagem, e as mudanças percebidas pelos indivíduos depois da mesma. O autor sugeriu, a partir de seus resultados, que uma das funções do ritual de casamento seria ajudar o individuo a se ajustar a uma nova vida, a de casado, sendo que os comportamentos esperados de uma pessoa casada, em nossa sociedade, são muito diferentes dos de uma pessoa solteira. Com o termo wedding ceremony apareceram cinco artigos no PsycInfo, os quais são estudos sobre os aspectos culturais específicos dos rituais de casamento em pequenas sociedades (Field, 1970; Ghaemi, 1999; Hartley & Beaver, 1989; Purohit, 1989; Winn, 2004).

Na Enciclopédia Internacional de Casamento e Família, o termo “cerimônia de casamento” é considerado equivalente  a ritual de casamento (Ponzetti Jr., 2003a). Para o autor, os rituais ou cerimônias que celebram a formação de um novo casal são praticamente universais, assim como o fato de a assunção dos papéis de marido e mulher claramente demarcarem o início de um novo núcleo familiar, a passagem para a adultez e a potencial transição para a parentalidade.

A importância da transição para a parentalidade no processo de desenvolvimento das famílias foi enfatizada por Pittman (1994), ao apresentar o que ele denominou de pontos críticos enfrentados por um casal. Segundo o autor, no passado os casais tinham maior consciência da iminência da parentalidade, uma vez que a gravidez ocorria logo após o casamento e o início da vida sexual. Entretanto, atualmente, em função do controle de natalidade, muitos casais têm a possibilidade de desassociar a parentalidade e o início da atividade sexual e do casamento. Desta maneira, o nascimento dos filhos passou a poder ser planejado, apesar de muitas vezes ocorrerem gravidezes sem planejamento, ainda mais considerando-se que novos recursos contraceptivos são acessíveis e utilizados apenas por uma parcela da população, em função das condições socioeconômicas das famílias.

O ato de construir um planejamento consciente sobre o número e o momento do nascimento dos filhos foi conceituado como “planejamento familiar” por Ponzetti Jr. (2003b). Isto incluiria  o momento do nascimento do primeiro filho, a distância entre os nascimentos e quando se deve parar de ter filhos. Pode incluir abortos, discussão dos diferentes tipos e significados de contracepção e testes e, até mesmo, tratamentos de fertilidade.

O tema do planejamento da gravidez tem sido também pouco investigado pelos pesquisadores. Com o intuito de investigar o planejamento da primeira gravidez, entre outros aspectos, Greene, Joy, Nugent e O'Mahony (1989) pesquisaram, em Dublin, 100 mulheres primíparas casadas e 100 solteiras, a respeito do planejamento da gravidez e dos métodos contraceptivos utilizados. Os autores encontraram que 19% das mulheres casadas e 64% das solteiras nunca haviam usado método contraceptivo. Além disso, 25% das mulheres que haviam usado algum método contraceptivo mencionaram que sua gravidez resultara de uma falha no mesmo. Com relação ao planejamento da gravidez, é interessante que 89% das mulheres solteiras do referido estudo não haviam planejado sua gravidez, enquanto apenas 20% das mulheres casadas mencionaram ausência de planejamento de sua gravidez. Esta diferença no planejamento ou não da primeira gravidez, entre mulheres casadas e mulheres solteiras,  sugere que haveria uma relação entre ritual de casamento e planejamento da gravidez, tema do presente estudo.

Também com o intuito de estudar os fatores relacionados à gravidez planejada e à não planejada, Rosenfeld e Everett (1996) entrevistaram 110 mulheres norte-americanas grávidas. Os resultados  mostraram que 65% das gravidezes não haviam sido planejadas. Além disso, foi constatada  uma associação estatisticamente significativa entre o não-planejamento da gravidez e o fato de a gestante ser solteira ou separada. Mães solteiras planejaram menos sua gravidez do que mães casadas.  Os autores relacionaram a ausência de  planejamento da gravidez com o fato de não ter havido  um ritual de casamento.

A relação entre ritual de casamento e planejamento da gravidez é também indiretamente sugerida por outros autores. Por exemplo, Boarini (2003), em sua reflexão acerca da nova e da velha família, sugere que a união entre o homem e a mulher tem sido selada por muitos anos em nossa sociedade burguesa como eterna e como tendo a finalidade central da procriação, apesar das mudanças contemporâneas que nos obrigam a repensar tal relação. Também Bradt (1995), autor da abordagem sistêmica, sugeriu que existe uma relação entre a existência de ritual de casamento e o planejamento da gravidez. Ele entende que, no momento em que a transição para o casamento é assumida socialmente e demarcada por um ritual social de mudança de status, a emergência do planejamento do filho torna-se esperada, uma vez que é a etapa seguinte do ciclo de vida da família.

A partir do que foi exposto, é plausível supor que o modo como ocorre a transição para o casamento (com ou sem ritual de casamento) desempenhe um papel importante no planejamento ou não da primeira gravidez. Assim, o objetivo do presente estudo foi o de  examinar a presença de ritual de casamento e sua associação com o planejamento da primeira gravidez, relação esta indiretamente apontada pela literatura da área (Boarni, 2003; Greene, Joy, Nugent & O'Mahony, 1989; Rosenfeld & Everett, 1996), mas ainda pouco explorada.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram do presente estudo quarenta e sete casais, formados por mulheres e homens com idade entre 20 e 40 anos (média de idade das mulheres = 27,6 anos e média de idade dos homens = 30,5 anos), que esperavam seu primeiro filho, nos quais as mulheres não apresentaram problemas de saúde durante a gravidez. Os casais eram de diferentes níveis sócioeconômicos e residiam na região metropolitana de Porto Alegre. O nível sócio-econômico foi considerado nesta pesquisa a partir da conceituação de Hollingshead (1975), que considera escolaridade e status ocupacional para classificar os indivíduos. A escolaridade dos participantes variou entre Ensino Fundamental incompleto (11% das mulheres e 11% dos homens) e completo (4% das mulheres e 11% dos homens), Ensino Médio incompleto (4% das mulheres e 2% dos homens) e completo (22% das mulheres e 22% dos homens), curso superior incompleto (20% das mulheres e 22% dos homens) e completo (33% das mulheres e 22% dos homens) e pós-graduação (6% das mulheres e 9% dos homens). Houve uma diferença similar em termos do status ocupacional da profissão dos casais, variando de profissões de “baixo status” (32% em profissões classificadas de 1 a 4 na escala de Hollingshead -1975, adaptada para este estudo por Frizzo & Tudge, 2002), status médio (27% em profissões classificadas de 5 a 6), e de “alto status” (41% em profissões classificadas de 7 a 9).

A amostra foi selecionada, com base nos critérios descritos acima, dentre os participantes do “Estudo Longitudinal de Porto Alegre: da Gestação à Escola” (Piccinini, Lopes, Sperb & Tudge 1998). Esse estudo iniciou acompanhando 77 gestantes que não apresentavam intercorrências clínicas, seja com elas mesmas seja com o bebê, que era seu primeiro filho. Os maridos ou companheiros também foram convidados a participar do estudo caso residissem juntos em situação matrimonial. Os participantes representavam várias configurações familiares (nucleares, monoparentais ou recasados), de diferentes idades (adultos e adolescentes) e com escolaridade e níveis socioeconômicos variados. O estudo envolveu várias fases de coleta de dados, desde a gestação até os sete anos das crianças (gestação, 3o, 8o, 12o, 18o, 24o, 36o meses e 6o e 7o ano de vida da criança). Teve por objetivo  investigar tanto os aspectos subjetivos e comportamentais das interações iniciais pai-mãe-bebê como o impacto de fatores iniciais do desenvolvimento nas interações familiares, no comportamento social de crianças pré-escolares e na transição para a escola de ensino fundamental. O convite inicial para participar do estudo ocorreu quando a gestante fazia pré-natal em hospitais da rede pública da cidade de Porto Alegre (51,2%), nas unidades sanitárias de saúde do mesmo município (7,3%), através de anúncio em veículos de comunicação (26,8%) e por indicação (14,6%).

Para o presente estudo foram considerados apenas os dados obtidos por instrumentos aplicados na gestação.

Delineamento e procedimentos

Foi realizado um levantamento sobre a história de cada casal, buscando-se investigar a presença de ritual de casamento e sua relação  com o planejamento da gravidez do primeiro filho. Cada casal foi contatado quando a esposa estava no terceiro mês de gestação. No primeiro momento, solicitou-se que as gestantes preenchessem uma Ficha de Contato Inicial. Aquelas que corresponderam aos critérios para inclusão no estudo longitudinal foram contatadas novamente e convidadas para, juntamente com seus companheiros, participar do estudo.  Foi agendado então um encontro na própria residência do casal, quando assinaram o Consentimento Livre e Esclarecido e  responderam à Entrevista de  Dados Demográficos do Casal e  à Entrevista com o Casal sobre sua História1.

Instrumentos

Para fins de coleta de dados foram utilizados os seguintes instrumentos: Entrevista de Dados Demográficos do Casal (GIDEP, 1998): visava obter dados demográficos do casal, como escolaridade, idade, trabalho; Entrevista com o Casal sobre sua História (Castoldi & Lopes, 1998), em que o casal era solicitado a contar a história de seu relacionamento, desde que haviam se conhecido até o momento da pesquisa, e suas expectativas futuras sobre a relação. Em particular, investigavam-se as motivações da escolha conjugal, as circunstâncias do encontro inicial, a saída da casa dos pais, a presença ou não de ritual de casamento, o início da vida a dois, como estavam naquele momento e o que esperavam para o futuro.

 

RESULTADOS

A análise de conteúdo de Laville e Dionne (1999) foi utilizada para se examinarem as respostas dos casais, tomando-se por base duas categorias temáticas geradas a partir da literatura: 1) ritual de casamento; 2) planejamento da gravidez do primeiro filho. Inicialmente, foi realizada uma análise qualitativa de conteúdo, buscando-se identificar como os casais falavam sobre a presença/ausência de ritual de casamento e presença/ausência de planejamento da gravidez. Num segundo momento, através de análise quantitativa, fez-se um levantamento de freqüência da presença/ausência de ritual de casamento e presença/ausência de planejamento da gravidez entre os casais. A análise de freqüência deu origem a quatro grupos de casais: 1) com presença de ritual e de planejamento da gravidez; 2) com ausência de ritual e de planejamento da gravidez, 3) com presença de ritual e ausência de planejamento da gravidez; e 4) com ausência de ritual e presença de planejamento da gravidez.

A seguir, serão apresentadas as categorias temáticas, exemplificadas com verbalizações ilustrativas dos casais. Ao final, apresenta-se a distribuição de freqüência dos casais em cada grupo encontrado (Tabela 1).

 

 

Quanto ao ritual de casamento

A maior parte dos casais (68%) mencionou ter realizado um ritual de casamento, demarcando sua união e a passagem para a segunda etapa do ciclo de vida da família, enquanto 32% deles não mencionaram ritual de casamento. Entre os que mencionaram  o ritual de casamento, a maioria (51%) referiu que ele ocorreu  por vontade própria dos cônjuges, como no exemplo a seguir: “O casamento foi mais pra oficializar assim, foi uma decisão nossa, não gostava desse negócio meio indeterminado, minha namorada, assim, não é minha esposa, essas coisas assim... As coisas têm que ser certinhas”. Outro participante mencionou ainda: “A gente já tava praticamente vivendo junto, eu ia dormir lá ou ele vinha aqui, aí a gente resolveu casar”. Outro exemplo é o seguinte: “Com nós foi tudo rápido, nos conhecemos, começamos a namorar, deu quatro meses e casamos, estávamos apaixonados”.

Vários casais (32%) mencionaram a presença de uma “pressão social” relacionada com a existência de ritual de casamento, como fica evidente no seguinte trecho de uma entrevista: “A gente casou, fez tudo direitinho, fez festa, filmou e tudo”. Houve ainda a seguinte fala: “Tem que casar pra depois ter filhos...” ou  “A gente fez tudo certinho, noivamos, casamos, tudo como tinha que ser”.

A pressão das famílias de origem para que houvesse o ritual de casamento foi mencionada por 15% dos casais, como destacado no caso a seguir: “A gente casou assim mais por uma pressão da família, a família dela cobrava o civil e a minha pelo religioso. No interior tem muito essa preocupação, tem que casar pra depois ter filhos, tem que fazer tudo direitinho”. Outra fala referente à pressão familiar foi a seguinte: “Para o meu pai as coisas têm que ser como devem ser, ele quis que tivesse civil e religioso”.

Por fim, constatou-se a presença de  um casal que realizou ritual de casamento em função do surgimento da gravidez. Este casal relatou, em um trecho de sua entrevista: “Nós éramos namorados há dois anos, aí eu engravidei, depois de três meses a gente casou”.

Dos casais que não tiveram ritual de casamento, alguns relataram que foram morar juntos sem uma data definida ou mesmo uma conversa a respeito, como ilustra o exemplo: “Durante o namoro ou eu dormia na casa dele ou ele na minha, aí foi indo, foi indo, quando a gente viu a gente já tava morando junto” . Em outros casos, a falta de ritual de casamento foi atribuída às elevadas  despesas que acarretam a festa e a cerimônia de casamento,  como no exemplo a seguir: “Casamento a gente vai deixar pra mais tarde, né, é muito gasto, muita despesa”.

Quanto ao planejamento da gravidez

Com relação à gravidez do primeiro filho, que demarca a transição para a terceira etapa do ciclo de vida da família, constatou-se que a maior parte dos casais (60%) planejou a gravidez, enquanto os demais (40%) não o fizeram.

Entre os que planejaram a gravidez foram destacados relatos como: “A gente ficou tentando dois anos até ela conseguir engravidar. Quando o resultado dava negativo sempre era uma tristeza, tanto é que quando a gente soube que ela tava grávida, a gente nem acreditou... Nosso bebê foi bem planejado, foi esperado por toda a família”.

Entre os casais em que a esposa  engravidou sem um planejamento prévio, destaca-se o seguinte relato: “Eu não sou muito de planejar as coisas, ela também não. Não penso muito na gente, assim, na hora a gente vê. Agora a gente tá esperando o nenê, só isso”. Houve, ainda, as seguintes falas: “Não foi uma gravidez planejada. Nós estávamos noivos, íamos casar no fim deste ano quando de repente... Mas acabamos aceitando tudo muito bem” e “O bebê não foi planejado, quando eu menos esperava vi que eu tava grávida”.

O ritual de casamento e o planejamento da gravidez

Apoiando a expectativa inicial, o ritual de casamento esteve associado com o planejamento da gravidez do primeiro filho, como fica claro nos dois relatos a seguir: “O casamento foi mais pra oficializar assim... E depois a gente pensou: se um dia vai ter um filho, como é que vai ser se os pais não são casados? Ia ser ruim né, as coisas têm que ser certinha” e “Tem que casar, pra depois ter filhos”.

Por outro lado, a ausência de ritual de casamento esteve muito associada com ausência de planejamento da gravidez do  primeiro bebê, como pode ser visto no exemplo a seguir: “A gente não tinha planos pra casar, aí quando eu vi, eu tava grávida. Foi aquele susto,  a gente não sabia bem o que fazer, aquela reação na hora  vou tirar... não vou tirar... foi bem difícil”.

O teste estatístico utilizado foi o chi-quadrado, o qual revelou uma associação estatística significativa (x2= 14,32;  p<0,001) entre a presença de ritual de casamento e planejamento da gravidez . Como pode ser visto na Tabela 1, entre todos os casais que tiveram ritual de casamento (68%) a grande maioria deles planejou a gravidez (53%), enquanto poucos não o fizeram (15%). Por outro lado, entre todos os casais que não tiveram ritual de casamento (32%) a maioria também não planejou a gravidez (25%) e poucos o fizeram (6%).

 

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo apóiam a expectativa inicial de que o modo como ocorre a transição para o casamento parece desempenhar um papel importante para o planejamento da primeira gravidez. Desta maneira, constatou-se uma associação significativa entre a presença de ritual de casamento e o planejamento da gravidez do primeiro filho. Neste sentido, um ritual de casamento pode indicar a capacidade dos membros da família de fazer as mudanças necessárias de status e passar para estágios futuros do ciclo de vida familiar, em se tratando de famílias de classe média, em sociedades ocidentais.

Além disso, a existência de um ritual simbolizando a escolha do(a) companheiro(a) pode fortalecer os laços emocionais do casal, o que confirma a literatura da área quanto à importância dos rituais familiares em geral (Bossard & Boll, 1950; Fiese, 1992; Fiese e cols., 2002; Gottman, 1994; Reiss, 1989; Seynour e cols., 1989; Sprunger e cols., 1985; Steinglass e cols., 1987) e dos rituais de casamento em particular (Kitahara, 1974). Esse fortalecimento facilita a construção de planos comuns, incluindo a formação de uma nova família; e é justamente o planejamento da primeira gravidez que demarca o início desta construção conjunta.

Azevedo (1987) também apontou que a presença de ritual de casamento nos casais significa uma escolha implícita do(a) futuro(a) pai(mãe) dos próprios filhos. Como foi visto, em alguns exemplos essa relação aparece de forma explícita nas falas dos casais do   presente estudo. Essa implicação pode  também ajudar a entender  as razões pelas quais se verificou uma associação significativa entre ritual de casamento e planejamento da primeira gravidez.

A relação entre ritual de casamento e planejamento da gravidez do primeiro filho também pode ser entendida à luz do estudo de Rosenfeldt e Everett (1996) e de Greene e cols. (1989), os quais constataram que a maioria das gestantes que não havia planejado a gravidez era solteira ou separada. Desta maneira, os autores relacionaram o fato de não haver planejamento da gravidez com o fato de não haver uma relação conjugal de comprometimento estabelecida socialmente.

Examinando especificamente os achados sobre a existência de ritual de casamento nos casais do presente estudo, percebe-se que a maioria destes realizou algum tipo de ritual de casamento, embora as justificativas para tal opção tenham sido bastante variadas. O casamento, no entendimento de Ponzetti Jr. (2003a) e de Kitahara (1974), representa uma mudança de status nos indivíduos e de sua posição em relação à sociedade . No casamento, o homem e a mulher passam a ser esposo ou esposa de seu cônjuge e devem comportar-se não mais como indivíduos solteiros, mas como casados e comprometidos social e emocionalmente. Esse comprometimento, demarcado por um ritual de casamento, é buscado por muitas pessoas quando resolvem partilhar sua vida com outrem, o que é coerente com a revisão de Fiese e cols. (2002), que constataram que alguns pesquisadores apontaram a relevância dos rituais familiares em geral para a  relação conjugal.

Dos casais do presente estudo que realizaram algum tipo de ritual de casamento, percebe-se que a maior parte escolheu realizar uma cerimônia religiosa além do casamento civil. Segundo Linton (1987), a preferência por parte de muitos casais pela cerimônia religiosa se dá justamente por seu aspecto ritual solene e formal. O ritual de casamento religioso inclui a participação e a assinatura de inúmeras testemunhas que vinculam os nubentes e fazem-se co-responsáveis pelo cumprimento das finalidades do casamento consideradas em cada religião.

Com relação aos achados relativos ao planejamento da gravidez do primeiro filho, percebe-se que a maior parte dos casais no presente estudo referiu ter planejado sua primeira gravidez. Este fato pode ser entendido a partir da perspectiva referida por Pittman (1994) de que atualmente o início da atividade sexual e a parentalidade estão desassociados e os casais podem escolher e planejar o momento da gravidez dos filhos. Entretanto, é preciso mencionar que o número  de casais que referiram não ter planejado a gravidez do primeiro filho foi também alto. Este dado é relevante e, inicialmente, pareceu incoerente, uma vez que atualmente se conta com uma grande variedade de formas de planejamento familiar e de controle de natalidade. Na verdade, isto representa o que ocorre na população brasileira como um todo, sendo que nem todos os indivíduos têm acesso à informação sobre contracepção, tampouco têm acesso a programas de controle de natalidade, o que já fora apontado por Boarini (2003) em sua reflexão sobre a nova e a velha família.

Com o intuito de dar continuidade ao presente estudo, pretende-se efetuar, futuramente, uma análise longitudinal que envolva o desenvolvimento do casal e do bebê em cada um dos grupos de casais identificados: os que tiverem ritual de casamento e planejaram a gravidez; os que não tiveram ritual de casamento e não planejaram a gravidez; os que tiveram ritual de casamento e não planejaram a gravidez e os que não tiveram ritual de casamento e planejaram a gravidez.

Desta forma, poder-se-ão verificar as repercussões que a existência de ritual de casamento, ou não, e de planejamento da gravidez do primeiro filho, ou não, pode ter na construção de um espaço para o bebê e na construção da parentalidade. O ritual de casamento e o planejamento da gravidez fazem parte da pré-história da criança (Szejer & Stewart,1997). Essa pré-história vai possibilitar, ou não, a construção de um projeto de parentalidade e a criação de um espaço para o bebê.

 

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Endereço para correspondência
Rita de Cássia Sobreira Lopes
Rua Ramiro Barcelos, número 1853, apartamento 112, bairro Bom Fim
CEP 90035-006, Porto Alegre-RS
E-mail: sobreiralopes@portouceb.com.br

Recebido em 18/11/2004
Aceito em 30/09/2005

 

 

1 Neste encontro foram realizadas ainda entrevistas individuais com a mãe e com o pai, conforme descrito em Piccinini e cols. (1998).

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