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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.12 no.1 Maringá Jan./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722007000100009 

DOSSIÊ- PSICOLOGIA E FAMÍLIA

 

Largada pelo marido! O estigma vivido por mulheres em Tianguá-CE

 

Abandoned by her husband! The stigma confronted by women in Tianguá-Ce

 

¡Dejada por el marido! El estigma vivido por mujeres en Tianguá-Ce

 

 

Virginia MoreiraI; Dilcio GuedesII

IDoutora em Psicologia Clínica. Professora titular da Universidade de Fortaleza-CE
IIMestre. Professor Assistente da Universidade Estadual do Piauí

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo descreve um estudo sobre a vivência de rompimento do casamento de mulheres deixadas por seus maridos. Teve como objetivo compreender como mulheres de Tianguá – CE - Brasil vivenciavam a ruptura da relação, descrevendo os fatores reconhecidos como agentes do rompimento da relação amorosa. A partir da experiência vivida morando em Tianguá, nossa hipótese era que essas mulheres vivenciavam o rompimento como uma experiência estigmatizada de desestruturação de sua vida pessoal. Utilizando a metodologia fenomenológica crítica com base na filosofia de Merleau-Ponty, realizamos entrevistas semi-estruturadas com 15 mulheres, com idade entre 25 e 35 anos, que haviam morado com o parceiro e com ele tinham filhos e cuja relação marital tinha se rompido havia pelo menos dois anos. Os resultados confirmaram nossas suspeitas: as mulheres colaboradoras deste estudo se sentiam estigmatizadas, encontrando no corpo um aparato para as emoções que expressavam sua dor e reconhecendo-se como incompetentes e discriminadas pela cultura patriarcal local.

Palavras-chave: ruptura de relacionamento, estigma, fenomenologia.


ABSTRACT

This paper describes a study concerning the experience of women being abandoned by their husbands. It aimed at understanding how women from Tianguá-CE-Brazil experienced the breaking up of a relationship, by describing the factors recognized as agents responsible for the breaking up. Based on experiences lived in Tianguá, the hypothesis raised was that those women had experienced the breaking up as a stigmatized experience of destruction of their personal lives. The critical phenomenological methodology, based on Merleau-Ponty’s philosophy, was used to carry out semi-structured interviews with 15 women, from 25 to 35 years old, who had lived with their partners for at least 2 years and had had children with them. The results have confirmed the hypothesis raised: the women, subjects of the investigation, felt stigmatized with the breakup, thus finding in their bodies a support to express their emotions and pain, besides recognizing themselves as incompetent and discriminated by the local patriarchal culture.

Key words: breakup, stigma, Phenomenology.


RESUMEN

Este artículo describe un estudio sobre la vivencia de rompimiento del casamiento de mujeres dejadas por sus maridos. Tuvo como objetivo comprender cómo mujeres de Tianguá-Ce-Brasil vivenciaban la ruptura de la relación, describiendo los factores reconocidos como agentes del rompimiento de la relación amorosa. La partir de la experiencia vivida viviendo en Tianguá, nuestra hipótesis era la de que esas mujeres vivenciaban el rompimiento como una experiencia estigmatizada de desestructuración de su vida personal. Utilizando la metodología fenomenológica crítica, con base en la filosofía de Merleau-Ponty, realizamos encuestas semiestructuradas con 15 mujeres, con edad entre 25 y 35 años, que habían vivido con la pareja y con él tenían hijos y cuya relación matrimonial se había roto hacía por lo menos dos años. Los resultados confirmaron nuestras sospechas: las mujeres colaboradoras de este estudio se sentían estigmatizadas, encontrando en el cuerpo un aparato para las emociones que expresaban su dolor y reconociéndose como incompetentes y discriminadas por la cultura patriarcal local.

Palabras-clave: ruptura de relación, estigma, fenomenología.


 

 

Entendemos vivência como a experimentação de sentimentos no presente imediato, de natureza pré-reflexiva e passível de ser referida como conceito. A vivência seria o pólo subjetivo do fenômeno; seria aquilo que se constitui na nossa relação com o mundo, sendo o conceito primeiro e anterior a qualquer elaboração, assim como a forma como sentimos e avaliamos as coisas (Amatuzzi, 2000; Bruns & Holanda, 2003). 

Esta pesquisa sobre a vivência de rompimento do casamento de mulheres deixadas por seus maridos teve como objetivo compreender como mulheres da cidade de Tianguá, no Ceará, Brasil, vivenciaram a ruptura da relação decidida pelo companheiro, descrevendo os possíveis fatores reconhecidos como agentes de rompimento da relação vivenciada. A partir da experiência vivida pelo segundo autor deste artigo, que morou e trabalhou como psicólogo em Tianguá, nossa hipótese, aqui entendida como suspeita ou desconfiança (Moreira, 2004), foi que estas mulheres vivenciavam o rompimento como desestruturação de sua vida pessoal e emocional, permeada pelo estigma vivido como vergonha e sentimento de incompetência ante o papel de esposa, evitando, assim, contatos sociais e se fazendo resistentes a novos relacionamentos.

Good (2002) argumenta que a pesquisa sobre estigma necessita identificar os processos sociais e culturais que ligam categorias de pessoas aos estados morais desvalorizados e investigar como estes estão presentes na vida cotidiana dos indivíduos e suas famílias, como são tratados os dilemas morais, as relações sociais cindidas e as possibilidades da vida para aqueles afetados. Nesse sentido é que se fazem necessárias as pesquisas sobre estigma pautadas nas experiências vividas das pessoas (Kleinman, 1995; Link & Phelan, 2001). Esta pesquisa pretende ser uma contribuição neste sentido.

Definimos estigma, neste estudo, como um atributo, uma marca, que diferencia, que inferioriza. Em uma perspectiva fenomenológica merleau-pontyana, o estigma é entendido de forma mundana, ou seja, na interseção da relação entre o homem e o mundo; existe na mútua constituição entre o homem e o mundo.

 

A PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA CRÍTICA DE MERLEAU-PONTY

A fenomenologia, para Merleau-Ponty [1945 (1994)], não é um idealismo transcendental, pois quer tematizar a existência, o ser-no-mundo em sua facticidade. Isso significa dizer que o objeto de seu interesse é um homem concreto e histórico, logo, multifacetado, ou seja, com múltiplas dimensões. Neste sentido, sua proposta filosófica remete-se à descrição do real para se chegar à compreensão mesma do fenômeno. Seu interesse está, também, no mundo que já está ali, e sua tentativa primordial é simplesmente descrevê-lo, pois o rigor da ciência é, inclusive, sobreposto à experiência do mundo vivido. Isto implica em que a fenomenologia enfatize a experiência como primordial para a compreensão do lebenswelt (mundo vivido). Esta compreensão ocorre na interseção de experiências subjetivas minhas com as do outro em variados horizontes vivenciais, como o espaço, o tempo, o corpo e a própria intersubjetividade.

Sob a ótica merleau-pontyana, estamos nos referindo a um homem mundano, com uma concepção de ser-no-mundo anterior à reflexão, portanto, vivencial. Este homem é concreto, antes mesmo de ser refletido, como dado de realidade. Por isso, tem infinitas possibilidades de escolha, que lhe permitem possuir uma compreensão singular do mundo e nele se mover de forma também singular. Trata-se de sua experiência de lebenswelt (mundo vivido), e, conseqüentemente, de sua maneira de se perceber e de perceber o outro no fluxo da existência. O homem mundano está entrelaçado ao mundo, constitui-se na interseção do universal com o singular pela mutabilidade de seu estar no mundo, de forma múltipla e com contornos variados, constituindo-se em torno de um fluxo constante de significados (Moreira, 2001, 2002, 2005).

Nesta perspectiva, entendemos a vivência destes sujeitos como construção de múltiplas dimensões, fundamentada na tensão de polaridades concebidas pela consciência de um homem entrelaçado a um mundo concreto, histórico e social, intrinsecamente constituído neste e com o mundo (Merleau-Ponty, [1960(1964)]). Esta constituição vivencial é justamente a construção que o sujeito realiza consigo mesmo e com os outros, a partir da inter-relação das experiências pré-reflexivas e reflexivas, num contínuo fluxo da existência, atrelada à facticidade do mundo, tal como se apresenta.

Assim, faz sentido o que Merleau-Ponty [1945(1994)] sustenta, ao dizer que, para percebermos esta relação, é preciso "suspendê-la” e admirar o que se passa diante do mundo, porque somos, do começo ao fim, em relação ao mundo, sendo que a única maneira de realizar tal movimento é, provisoriamente, “recusar-lhe nossa cumplicidade”. Trata-se da redução fenomenológica, que não tem o sentido de abstrair-se em uma unidade da consciência, porém de se afastar para ver o estranho e o paradoxal desta imbricação, ainda que não possamos esquecer que isto nunca ocorrerá de forma incompleta, pois estamos ligados ao mundo e o mundo, a nós.

Nesta perspectiva, não nos importam, tão-somente, as condições objetivas do mundo em que o sujeito vive, mas também os sentidos atribuídos por ele a esse mundo. Foi nesta perspectiva que buscamos compreender a vivência das colaboradoras desta pesquisa, as mulheres que foram “largadas pelos seus maridos”, em Tianguá, no interior do Ceará.

A ótica do pesquisador fenomenólogo mundano

Com a lente fenomenológica merleau-pontyana nos entendemos como pesquisadores mundanos, e é pela mútua constituição também do pesquisador com o mundo que acreditamos que ele não escolhe ingenuamente um fenômeno para estudar. Freqüentemente o pesquisador tem pistas, suspeitas, hipóteses sobre o que pretende pesquisar. A palavra hipótese, proveniente do termo grego hypóthesis por meio do latino hypothese, significa “suposição, conjetura, acontecimento incerto, eventualidade, suposição duvidosa, mas não improvável...” (Ferreira, 1975, p. 728).

Pesquisadores fenomenólogos geralmente se negam a utilizar hipóteses, alegando que eles vão voltar às coisas mesmas de Husserl, ao fenômeno tal como ele aparece, independente de qualquer idéia pré-concebida. Esta posição (...) diz de uma visão idealista da fenomenologia, mais apoiada no primeiro Husserl, e que do ponto de vista político pode ser perigoso já que omite uma posição do pesquisador, quando ele de fato a tem, de alguma forma (...) O pesquisador jamais será neutro, e, na medida em que faz parte do mundo, o constitui e é constituído por este, o conhece, este mundo lhe é familiar. Será justamente para romper esta familiaridade que ele utilizar-se-á da redução fenomenológica (...) O pesquisador vive um atolamento no mundo que é congênito; ele não é um passarinho capaz de praticar um pensamento de sobrevôo, esquecendo este atolamento, o que tanto irritava a Merleau-Ponty (Moreira, 2004, p. 452).

Os questionamentos que deram origem a este estudo partem de inquietações surgidas da inserção de um dos pesquisadores, o segundo autor deste artigo, enquanto ser mundano, na realidade específica de Tianguá, no Ceará. Se estamos usando a lente da fenomenologia de Merleau-Ponty e tratando de um homem enraizado no mundo, não podendo ser pensado de forma ingênua, entendemos que, ao decidir desenvolver esta pesquisa, tampouco fomos ingênuos: tínhamos suspeitas sobre os assunto, desconfiávamos que seria interessante pesquisar este tema. Suspeitávamos que as mulheres “largadas pelos maridos” naquela cidade vivenciavam estigma por este fato. Baseávamo-nos nos cotidianos naquela cidade, onde percebíamos o papel das esposas na dinâmica familiar, culturalmente constituída em torno de valores patriarcais. Nos discursos das mulheres daquela cidade era comum escutar dois elementos vivenciais: a vergonha de ser vista como mulher “largada” e o medo da solidão. Ao “estranhar” aquela cultura, como pesquisadores o fazíamos perpassados pelas facticidades decorrentes da nossa própria constituição mútua com o mundo (Moreira, 2001, 2002, 2004). Nesse sentido é que, ao nos debruçarmos para estudar o fenômeno que nos intrigava – o vivido pelas mulheres largadas pelos respectivos maridos – não o fizemos ingenuamente, mas sim, criticamente, tendo inclusive uma hipótese: a de que estas mulheres viviam o estigma por serem abandonadas pelo marido, hipótese esta que, como pesquisadores fenomenólogos, colocamos “entre parênteses”, buscando compreender o vivido da experiência como um todo, a partir de seus fenômenos emergentes.

Relações amorosas e contemporaneidade

As formações e rompimentos dos relacionamentos humanos, em termos afetivo-amorosos, são vivenciados conforme o contexto social onde se constituem. Trata-se de uma relação, conceitualmente definida como um tipo de inter-relacionamento social com implicações afetivas e sexuais (Miljkovitch, 2001, 2003; Moser, 1994; Schachner & Shaver, 2004). Neste amplo e complexo contexto, a ruptura de um relacionamento pode decorrer de motivações singulares e articuladas às condições emocionais específicas do casal. Muitos autores tratam da separação e do divórcio (Costa, 1998;  Féres-Carneiro, 1998, 1999; Guedes, 2002) e alguns propõem variadas perspectivas de compreensão do fenômeno da ruptura, sobretudo na dimensão das diferenças de gênero (Boris, 2002; 2005).

Na opinião de Fères-Carneiro (1998, 1999, 2003), o fenômeno da separação pode ser entendido como uma conseqüência da falha da inter-relação afetiva em torno da individuação e do respeito à alteridade do parceiro. Entretanto, a autora esclarece que é necessário compreender que a simbiose da conjugalidade e a individuação devem ser alternadas para se constituir um equilíbrio dinâmico na relação a fim de que não haja sufocamento nem desligamento, pois, caso contrário o rompimento pode ser motivado. Estas duas polaridades, constituindo-se mutuamente e sem síntese, como diria Merleau-Ponty [1945(1994)]; mantêm a ambigüidade e a multiplicidade de escolhas no projeto da existência nesse plano interpessoal.

Baseados em estudos sobre rompimentos de casais, Guedes & Miljkovitch (2005) ensinam que a separação se dá processualmente, construída por ambos, assim como foi construído o vínculo; no entanto, sugerem que os motivos mais comuns são as diferenças de expectativas recíprocas, discrepância de percepção do indivíduo que se idealizava, pseudo-altruísmo, que torna o outro dependente da relação, competição de saber (e poder, ao acrescentar o fator econômico-cultural), ciúme excessivo, ressentimentos não resolvidos, relacionamentos paralelos, dessexualização, gravidez como forma de "prender" o outro e o não-compartilhar da vida cotidiana.

São várias as reações emocionais decorrentes da separação, entre as descrições dos autores estudados. Carvalho (2000) e Guedes & Miljkovitch (2005) apontam-nos uma convergência de reações, como susto e confusão em um primeiro momento, ante a decisão final do rompimento (quase sempre protelada), e em seguida o desencadeamento do sentimento de frustração, raiva e decepção.

 

MÉTODO

Local do de estudo

Tianguá é uma cidade a 315km da capital do Ceará. Situa-se em um entroncamento rodoviário por onde escoam produtos primários e secundários para outros estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Como tal, resguarda suas características tradicionais de urbanização rural, mas também absorve a influência dos grandes centros. Sua característica geopolítica predominante é a flutuação populacional, devido aos intensos movimentos migratórios. Estatisticamente, possui mais mulheres do que homens. Sociologicamente, é marcada pelas características da sociedade patriarcal, pelo crescimento demográfico desgovernado e por intensas diferenças socioeconômicas, ainda sendo influenciada pelo poder exercido por famílias aristocráticas locais.

Colaboradoras

Enquanto pesquisadores fenomenólogos, trabalhamos com colaboradores, pessoas que vivenciam ou haviam vivenciado o fenômeno a ser estudado. Ou seja, queríamos aprender com a pessoa que vivenciara o fenômeno de ser “largada pelo marido” sobre o significado desta sua experiência vivida.

Participaram desta pesquisa quinze (15) mulheres de Tianguá – CE – Brasil, que aparecem neste artigo com nomes fictícios. Elas foram selecionadas considerando-se os seguintes critérios de inclusão: estarem na faixa etária entre 25 e 35 anos, terem completado o primeiro grau, residirem em Tianguá, terem sido casadas e ter morado com o parceiro pelo menos durante um ano e haverem rompido sua relação amorosa por decisão do parceiro, pelo menos dois anos antes desta pesquisa.

Procedimentos

O grupo de colaboradoras foi constituído pelo processo de “bola de neve”, ou seja, após o encontro com pessoas-chave (as primeiras que foram informadas sobre o estudo e se mostraram interessadas em participar), estas informaram e indicaram outras pessoas também interessadas, e assim sucessivamente. Seguindo a proposta de Patton (2002) e de Turato (2003), optamos por este processo por não querermos ser mais um agente de promoção do estigma, ao identificarmos pessoal e diretamente as mulheres “largadas”. Assim, favorecidos pela dinâmica local de reconhecimento e partilha das experiências “estigmatizantes” entre as pessoas “estigmatizadas” – muito comum em sociedades com baixa taxa de urbanização - pudemos ser apontados como acolhedores de suas queixas, a partir da postura de escuta fenomenológica, compreensiva, sem preconceitos e confirmadora do vivido. A seleção das participantes se pautou nos critérios de inclusão descritos anteriormente. Um roteiro de entrevista semi-estruturada foi elaborado. Marcamos, inicialmente, um encontro para falar sobre a pesquisa, quando consultávamos as mulheres sobre o seu interesse em dela participar. Se mostrassem interesse, solicitávamos que nos indicassem um local apropriado e reservado, num dia e horário determinados. Iniciávamos a entrevista com um rapport, pedindo que nos falassem sobre a sua relação com seus ex-maridos, introduzindo, em seguida, a pergunta disparadora: "Como foi para você esta vivência de rompimento?".

As entrevistas buscaram ser facilitadoras da expressão da experiência vivida destas mulheres, com o uso de técnicas de intervenção fenomenológica (Moreira, 2001). Tiveram a duração aproximada de 20 a 30 minutos, por uma questão metodológica: não estávamos preocupados com a saturação do conteúdo da vivência, mas com o foco experiencial, trabalhando o conteúdo emergente, segundo a orientação de Creswell (1998). As técnicas de intervenção fenomenológica foram principalmente a intuição eidética, como abertura para o significado do outro, a fim de aprender o sentido da experiência, e a redução fenomenológica, como recurso de advertência à relação intrínseca com o nosso mundo e o mundo do sujeito, voltando ao mundo antes do conhecimento e de toda determinação científica, abstrata. Todas essas características da entrevista delimitaram-se em torno da necessidade de compreender, o mais proximamente possível, a realidade existencial do sujeito, e para tanto, fez-se necessário pôr “entre parênteses” os elementos que circundam a relação intersubjetiva engendrada, dando-nos conta desta. O efeito intersubjetivo articulado entre a descrição e a redução remeteu a outra técnica de intervenção fenomenológica: a fala autêntica, como um feedback ou fala mobilizadora que nos permitiu dar-nos conta de sentidos antes não percebidos. Nesta perspectiva, ver e ouvir fenomenologicamente constituíram, ainda, posturas de intervenção que permearam toda a metodologia desenvolvida neste estudo, pois foi através destas intervenções que abrimos espaço para a possibilidade de perceber o outro de forma plena e “ver o invisível”, muito além do verbal (Moreira, 2001).

Procedimento de análise das entrevistas

O texto nativo das entrevistas - ou seja, a transcrição literal da entrevistas gravadas - foi analisado conforme a metodologia fenomenológica critica (Moreira, 2001, 2004). O ponto principal da análise foi a descrição das experiências vividas no cotidiano das pessoas ante o rompimento das relações amorosas. Foi realizada em passos, a saber: 1) divisão do texto nativo em movimentos, como marcos da fala dos sujeitos, como pausas breves, silêncios, mudanças de entonação de voz, expressões corporais súbitas (mudança de posição, choro, agitação, etc.)  e mudanças do contexto semântico do discurso; 2) descrição dos movimentos, onde esclarecemos com nossas palavras o conteúdo do relato em forma descritiva; 3) versão do sentido descrito, ou significado da vivência, como uma leitura psicológica da vivência, como uma resposta aos nossos afetamentos ao significado da experiência; e 4) articulação com a hipótese (ou saindo dos parênteses), que foi o momento de análise de cada movimento em termos do que a literatura aponta sobre a unidade experiencial exposta na fala e como nos posicionamos, reflexivamente, sobre ela, sobretudo atentando para a relação da entrevista. Neste último passo da análise também pudemos focalizar a possível presença do estigma na experiência das mulheres “largadas pelo marido”.

A análise compreensiva foi baseada no referencial filosófico de Merleau-Ponty. Esse modelo foi escolhido pela sua viabilidade em investigações qualitativas, que envolvem temas delicados e íntimos, mobilizando uma afetação emocional, e porque nos possibilitou uma compreensão empática e acolhimento existencial para o aproximar-se da vivência, como condição de existir. Após o trabalho de análise crítica (e clínica) dos dados, convergimos as falas, presentes em cada relato, que se articulavam em torno de um sentido correlato ou similar, nomeando temas, que chamamos de unidades de significado. As unidades de significado foram reorganizadas tendo-se em vista a convergência de conteúdos em categorias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Chegamos a alguns elementos “descritores” do modo de viver e pensar a experiência vivida da ruptura dessas mulheres. Tais “descritores” estão expostos como “manchetes” de nossa compreensão, tendo em vista um olhar crítico-fenomenológico, conforme a metodologia empregada.

Um destes descritores é “o corpo como receptáculo do vivido”. Para Merleau-Ponty [1945(1994)], o mundo entra e está no homem pelo corpo e este mesmo corpo faz parte do mundo como uma dimensão insolúvel, mas plenamente interseccionada com a dimensão outra do corpo-mundo. A vivência destas mulheres, em muitos aspectos, fora marcada pelo sofrimento psíquico, que se sinalizou, ao nosso ver, pela via do somático, com reações que atingiam seus corpos em pontos de vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade talvez seja a linguagem do invisível, um outro contorno para a elaboração da experiência. No entanto, a dor e a vivência se constituem numa só, pois, como Merleau-Ponty [1945(1994)] assinala, não é pela percepção exterior que discriminamos o sentido para a própria existência, pois ele já está aí. A dor, como "aparato" para um sofrimento interpessoal (o rompimento), possui um sentido que se articula ao modo como vivenciamos esta relação com o mundo (que inclui essa dor). Daí a compreensão das reações somáticas sofridas por estas mulheres. Muitas dessas reações são organicamente parecidas entre elas, mas é o sentido dado, peculiar à forma de estar-no-mundo, que as especifica.

"...É um negócio ruim que dá na boca do estômago...é esse negócio de ter sido traída, sabe? Sei lá...uma vontade de chorar...uma coisa ruim...mas eu num vou chorar mais não... Um aperto no peito, uma dor na boca do estômago, vontade de chorar, que dá raiva, sabe? [silêncio]" (Maria)

Com esta fala percebemos que as reações somáticas podem ser compreendidas como respostas orgânicas que possibilitam a elaboração de vivências reprimidas pelo alto teor afetivo que envolvem, mas também podem referir-se a uma forma de se ver no mundo, como referência primeira para juntar-se a outras percepções que formarão o escopo da vivência própria, como se vê a seguir:

"...Confusa, né? Sem entender nada...O que é que ele ia fazer em Fortaleza, ainda naquele estado? Chorava feito uma condenada...Eu tava com depressão, e o médico disse que era depressão mesmo e passou uns calmantes pra mim...Eu tomei...como é, menino, o nome?...Não lembro não...eu sei que eu só fazia dormir...acordava tonta, tonta...Éé uma coisa ruim, uma vontade de chorar o tempo todo, não tinha vontade de fazer nada, nem de comer, nem sair." (Antonieta)

Embora as colaboradoras mencionadas apresentassem sinais que apontam a depressão, tais como a insônia, os transtornos alimentares e a baixa auto-estima (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - Fourth Edition [DSM-IV], 1994), os discursos pareceram indicar dificuldades para entrarem em contato com o teor afetivo do sofrimento, talvez como uma forma de se proteger. A depressão foi uma forma de vivência muito mencionada entre as entrevistadas. Esta é uma das manifestações psicopatológicas mais freqüentes na contemporaneidade, e parece atingir não só as camadas sociais mais favorecidas, mas também as pessoas com baixo poder aquisitivo. A diferença parece estar na forma de manifestação: enquanto as pessoas com maior poder aquisitivo reclamam de questões de ordem subjetiva, as pessoas pobres reclamam de doenças orgânicas com fundo emocional (Moreira, 2002).

Outro “descritor” é o sentimento de solidão. As colaboradoras relataram um profundo sentimento de solidão diante da vivência do rompimento. Estas mulheres haviam sido preparadas para assumir um casamento e servir ao marido e filhos "para sempre". Não ter mais esta perspectiva parece tê-las deixado sem norte, desamparadas. É preciso compreender que a vivência de solidão decorrente do rompimento das relações amorosas vividas não é uma circunstância, mas uma maneira de significar a ausência do outro e do papel que ambos, anteriormente, assumiam (de marido e mulher), e muitos outros papéis correlatos que assumiam no dia-a-dia. A fala abaixo é uma ilustração disto:

"... No começo foi horrível, porque eu achava que ele, o meu ex-marido, ia voltar.  Porque eu só tive um homem na vida...Quem é que vai querer casar com uma mulher como eu, que só sei as coisas de casa, acostumada com aquele homem? Por isso que eu digo, se ele quisesse voltar, mesmo tendo as raparigas dele, era até melhor...mas ficava com antes..." (Francisca)

O "descritor"; seguinte desvela outra característica da vivência, que é o peso do estigma de ser “a mulher largada”. Na microcultura de Tianguá, este elemento tem forte significado, podendo alterar todo o ritmo de vida da mulher que foi abandonada pelo marido, chegando, inclusive a pô-la em evidência pejorativa. Aquela cidade se apóia em aparatos de controle social tais como regras sedimentadas na ideologia sexual dominante, com predomínio da cultura patriarcalizada pelo microssistema familiar. As mulheres se sentem estigmatizadas por esta nova situação em suas vidas, além de desorientadas, como foi exposto na seção acima. Esta confusão de idéias e a pressa em se reorganizar frente a papéis passíveis de legitimação social são permeadas de culpa e vergonha, como expressam:

"... Porque é muita vergonha, sabe? Parece até que você é uma doente, que não soube segurar o marido. E são 17 anos, sabe? E agora? Eu nem falo p’ras pessoas isso, sabe? Vão dizer que eu sou doida por querer um homem desse...mas eu casei com ele foi por amor, sabe? Eu deixei a casa da minha mãe escondida por ele...deixei de estudar e tudo....tinha que trabalhar e você acaba sabendo que as pessoas ficam dizendo que você é a rapariga do fulano, que quando emprenhou ele deixou..."  (Lourdes)

Esta evidência do contexto da cidade parece sugerir que as mulheres deixadas são vistas como "descartadas". O estigma no contexto descrito é muito presente. As mulheres parecem retrair-se por isso, evitando contatos (solidão imposta). Parece também que a mulher excluída é destratada, porque passa a ser vista, pelo que percebemos, como objeto de uso, "falida". Assim, estas mulheres se confundem e se desesperam, adoecem. Os dados de realidade estão aí, como parte do mundo cultural que compartilham. Talvez fosse por estarem presas a um único contorno, sustentado pela tradição, que estas mulheres foram desestabilizadas quando do rompimento de suas relações amorosas; porque não tinham experienciado outros contornos. Moreira (2001) teoriza sobre as formações psicopatológicas a partir da metáfora de múltiplos contornos na pintura de Cezánne, discutidos na obra de Merleau-Ponty, sendo que os múltiplos contornos seriam, como possibilidade de existência, saudáveis psicologicamente. Já a representação do único contorno é a dimensão de inflexibilidade existencial, portanto a doença subjetiva. A ausência dos contornos seria a psicose, em que não há referência a um sentido intercambiável (Moreira, 2005).

A “presença de outra mulher ou outra constituição de família” é outro “descritor” da vivência dessas mulheres. Podemos analisar estes fatos por variados ângulos. O mais evidente é o prisma da cultura local. Conforme mencionamos, em Tianguá a quantidade de homens e de mulheres é inversamente proporcional. Percebemos que, enquanto as mulheres concorrem para se aproximar e conquistar um homem, os homens podem “escolher a dedo" (segundo várias colaboradores diziam) aquela que mais lhes aprouver. Além disso, existe a representação da infidelidade conjugal, pregada desde cedo no imaginário do menino,  típica do imaginário do “homem “macho”, presente nas sociedades tradicionais e patriarcais que o pai deseja para o filho. Tal modelo de relação parece se configurar em torno da possibilidade do descartável (Boris, 2002).

Por outro ângulo, a superdependência (necessidade de simbiose e confirmação da submissão ao poder masculino) e a crença na sacralidade do papel da esposa-mãe, pregada desde cedo no imaginário feminino, parecem criar fundamentos para outros envolvimentos emocionais dos maridos, independentes da relação. Num sentido mais restrito e psicológico, a simbiose unilateral da mulher em relação ao individualismo unilateral do marido parece desencadear um campo de inter-relação aberto à inclusão de outras pessoas, sem grandes prejuízos sociais para o homem (Boris, 2005). Assim, uma delas disse:

"Foi de uma hora pra outra... Ele vinha com uma história de abrir um comércio em São Luís e eu achava que não ia dar certo; aí quando foi ver ele já tinha era família lá... [silêncio]" (Leoneide)

Trata-se, em todos os casos, de uma situação sui generis. Neste contexto, o comum é a configuração de uma família tradicional, cujo valor de manutenção do casamento são as máximas do convívio social. No entanto, a surpresa do rompimento unilateral mexe com toda a rede simbólica que legitimava a relação afetiva. Essa tomada de decisão rompe com o ideário, gerando uma dissonância diante do status quo de esposa. Diante de tais circunstâncias, como essas mulheres procuraram enfrentar e superar suas dificuldades ante a vivência estigmatizada de ruptura? Os elementos concernentes ao modo como essas mulheres enfrentaram o corte da relação são expostos a seguir.

Um “descritor” evidenciado foi  “o trabalho como reativador da vida”. Esta foi a forma mais concreta como estas pessoas deram um novo sentido ao seus projetos existenciais. Se antes viviam em torno da manutenção da casa, preparando-a para a chegada do marido provedor e cuidando dos filhos, futuros detentores dos bens produzidos pelo pai, agora parecem enfrentar a necessidade de ser autônomas para garantir a sobrevivência física e psíquica, reelaborando sua funcionalidade, um novo papel social, mesmo que ainda se sintam marginalizadas e desintegradas diante das emoções e do estigma que abalaram suas crenças sobre o mundo e sobre si. Vejamos uma ilustração desta vivência: 

"...Eu continuo a minha vida, pago minhas contas, trabalho... e não quero outro homem mais não...Se ele voltar bem, se não...tudo bem...mas eu num quero homem mais não...Mas nós nos separamos assim... Ele paga algumas coisas da menina, mas eu posso trabalhar e com o que ganho já estou juntando pra alugar uma casinha, né? " (Zélia)

Algumas mulheres apresentam uma tentativa de síntese de sua vivência, a partir da reflexão de seus sentimentos. Percebemos que elas queriam manter o ritmo de suas experiências cotidianas, mas o marido poderia reinserir-se nestas experiências. Ou seja, a ambigüidade continua sendo uma marca de seus discursos. É o que Guedes & Miljkovitch (2005) nos apontam: após a fase de isolamento e autopiedade, algumas mulheres buscam um novo sentido para a vida. Umas conseguem mais rápido do que outras, pelo aparato emocional que possuem e pelo modo como o elaboraram, mas parecem sempre tender para uma reorganização dos projetos existenciais.

Finalmente, outro “descritor” da forma de lidar com a vivência da ruptura evidenciada nos discursos dessas mulheres foi “a busca de Deus” como aparato para a solução dos problemas decorrentes da separação e para o enfrentamento da vivência de ser abandonada. Entendemos a questão das crenças como uma característica cultural do povo brasileiro e do nordestino, sobretudo. Para Monteiro (2000), o povo cearense, por exemplo, além de se vangloriar da sua forma de lidar com os infortúnios da seca e outros sofrimentos decorrentes dela, é um sujeito trabalhador e fiel às tradições que resguardam sua espiritualidade. Não significa entregar-se ao dogma (o que pode acontecer outras vezes), mas encontrar um aparato para o enfrentamento do real com suas próprias forças. Uma fala nos ilustra essa peculiaridade:

"Eu tenho é vontade de ir pra Fortaleza ou ir pra Brasília, mas Brasília é mais longe e deve ser difícil a vida lá... Fortaleza é mais perto daqui, onde estão minha mãe e meus irmãos, que também são separados... Parece uma praga de família, né? (risos). Mas lá eu acho que vou ter mais oportunidade de trabalho, né?...Eu acredito muito em Deus, sabe? Se ele decidiu ir embora, é porque Deus achou melhor assim. Eu agradeço a Deus por ter saúde e poder trabalhar para viver. Casei cedo achando que ia viver com o … pra sempre. Mas nada é pra sempre... só a misericórdia divina" (Marcicléa)

Está presente, aqui, outra característica da localidade que também interfere nas produções intersubjetivas do lugar: a flutuação populacional. A idéia que se tem é que sair da cidade para ir a uma cidade mais desenvolvida traria melhorias na qualidade de vida, por conta das oportunidades de trabalho mais amplas. Estas falas trazem também um sentido para outra característica do “cearense”: aquele que deixa a terra para buscar novas perspectivas de vida em outras localidades, o que não deixa de ser uma crença popular tradicional dessa região do país. Verificamos a necessidade de identificar algo, no campo fenomênico dessas mulheres: cada uma dessas saídas foi elaborada no que há de idiossincrásico em suas vivências, mas circunscritas no universo que compartilhavam; trata-se de uma dialética sem síntese, decorrente da tensão das polaridades, afirmadas em ambigüidades inerentes à constituição do homem mundano, como nos disse Merleau-Ponty [1945](1994)].

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Compreendemos que a vivência compartilhada com as mulheres de Tianguá nos mostrou que elas  experienciam o rompimento como uma situação estigmatizada, que as destitui de um papel previamente orientado pelo mundo cultural em que se inserem, mas que as desorganiza por não encontrarem, nessa nova situação de vida experiências no campo fenomenal que as façam articular novos suportes de sustentação no mundo. Assim, sentem-se confusas e obnubiladas, surpreendidas por uma decisão da qual haviam sido apenas comunicadas.

Propomos, aqui, a entrevista fenomenológica e seus modelos de intervenção (Moreira, 2001, 2004) como propiciadores de intenso contato com as colaboradoras desta pesquisa, ao ponto de facilitar desdobramentos vivenciais que, algumas vezes, possibilitaram a estas mulheres a ampliação de suas percepções sobre o vivido e a reelaboração de seu posicionamento perante um novo projeto existencial após o rompimento. Destarte, a entrevista é não apenas um importante instrumento de análise fenomenológica, mas, sobretudo, de treinamento de escuta ativa e empática, podendo ser útil para estudos de casos clínicos.

Uma contribuição deste artigo pode ser descrever como esta pesquisa fenomenológica crítica tomou o vivido (o fato de o segundo autor deste artigo ter morado em Tianguá, no interior do Ceará), como pista para aquilo que desejávamos compreender. Seu resultado foi mais descritivo-compreensivo do que explicativo. Portanto, a comunicação destes resultados visou a criar presença, em detrimento de estabelecer relações de causa e efeito, parte e todo, antecedente e conseqüente.

Finalmente, nossa compreensão do fenômeno estudado – ser “largada pelo marido” em Tianguá, no Interior do Ceará – apontou que: surpreendidas pela decisão estigmatizante do marido, sentem-se doentes, somatizam reações emocionais com dores no peito e/ou abdominais, sentem náuseas e vomitam, não conseguem dormir ou se alimentar, perdem a vitalidade e a disposição física, demonstrando sinais da depressão. Sentem-se, forçadamente, solitárias, pois além de perderem o marido, como provedor; perderam suas referências próprias, como mulheres com relação matrimonial. A solidão imposta advém deste desconhecimento de si e da necessidade de recolhimento para se reencontrarem nesta vivência estigmatizada de ser “largada pelo marido”. Estão situadas em uma região do Nordeste do Brasil, onde não se aceita que as mulheres sejam deixadas pelos maridos, pois a expectativa cultural determina que elas devem manter o casamento, mesmo que haja relações extraconjugais do cônjuge. A estereotipia decorrente do rompimento alicerça-se na representação da mulher renegada e usufruída, portanto descartável. Ser descartável iguala-se à posição de “mulher da vida” ou “rapariga” ou, em termos mais formais, de prostituta. Daí a vergonha e a necessidade de recolhimento, reconhecendo-se como fracassada em não ter conseguido manter tal instituição. Todos estes elementos vivenciais, visto que fazem parte de uma dinâmica tensional de polaridades sem síntese, confirmam nossa hipótese (como desconfiança) de que as mulheres de Tianguá, no Interior do Ceará, no Nordeste do Brasil, que foram “largadas pelo marido”, vivenciam o rompimento como experiência estigmatizada de desestruturação de sua vida pessoal e emocional, permeada pela vergonha e sentimento de incompetência ante ao papel de mulher casada.

 

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Endereço para correspondência:
Virginia Moreira.
Mestrado em Psicologia, Universidade de Fortaleza,
Av. Washington Soares, 1321,
CEP 60811-341. Fortaleza-CE.
E-mail: virginiamoreira@unifor.br

Recebido em 31/03/2006
Aceito em 26/10/2006

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