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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.12 no.1 Maringá Jan./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722007000100021 

ARTIGOS

 

Alterações de estados de ânimo presentes em atletas de voleibol, avaliados em fases do campeonato1

 

Volleyball athletes’ mood changes in different competition phases

 

Alteraciones de estados de ánimo presentes en atletas de voleibol, evaluados en fases de campeonato

 

 

José Lino Oliveira BuenoI; Marco Antonio Di BonifácioII

IDoutor (livre docência). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto
IIMestre. Professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi avaliar as alterações de estados de ânimo em atletas de voleibol em função do sexo dos participantes e das fases da competição. Treze atletas do grupo feminino e 11 do grupo masculino preencheram a Lista de Estados de Ânimo Presentes, nos jogos da semifinal e final do campeonato. Os resultados descrevem um perfil comum para os dois grupos, independentemente da fase do campeonato, entretanto, o gênero feminino mostrou uma maior percepção em avaliar os estados de ânimo e um maior número de locuções. As locuções que apresentaram diferenças significativas no fator jogo mostram que a importância do jogo e a incerteza do resultado podem alterar estados de ânimo do atleta.

Palavras-chave: estados de ânimo, psicologia do esporte, voleibol.


ABSTRACT

Mood alterations in volleyball athletes with regard to the gender of participants and to different competition phases are provided. Thirteen female and eleven male athletes at a competition semifinals and finals accepted to fill the Present Mood States list. Results show that, regardless of the competition phase, a common outline for both groups is extant. Female athletes demonstrated a greater perception in evaluating mood states and used a higher number of phrases for self expression. Statements with significant differences in the game factor showed that the importance of the game and the uncertainty of results may change the athletes’ mood states.

Key words: Mood states, sport psychology, volleyball.


RESUMEN

El objetivo de esta investigación fue el de evaluar las alteraciones de estados de ánimo en atletas de voleibol, en función del género de los participantes y de las fases de la competición. Trece atletas del grupo femenino y once del grupo masculino rellenaron la Lista de Estados de Ánimo Presentes, en los juegos de la semifinal y final del campeonato. Los resultados describen un perfil común para los dos grupos, independientemente de la fase del campeonato; sin embargo, el género femenino mostró una mayor percepción al evaluar los estados de ánimo y un mayor número de locuciones. Las locuciones que presentaron diferencias significativas, en lo que respecta al factor juego, muestran que la importancia del juego y la incertidumbre del resultado pueden alterar estados de ánimo del atleta.

Palabras-clave: estados de ánimo, psicología del deporte, voleibol.


 

 

Uma das diretrizes da psicologia do esporte e do exercício é analisar cientificamente a interferência dos fatores psicológicos na performance do atleta. Segundo Samulski (2002) e Weinberg e Gould (2001), são primordiais, nestes estudos, a descrição, a explicação e o prognóstico de comportamentos, com a finalidade de aplicar e desenvolver programas de intervenção que visam ao melhor rendimento e bem-estar dos atletas.

Os atletas são submetidos a longas jornadas de treinamento, com alta intensidade e sobrecarga de esforço, o que mostra a importância de serem desenvolvidas as capacidades físicas, técnicas e táticas para o rendimento máximo da equipe. No entanto, Bizzochi (2000) mostra que as partidas, principalmente no voleibol de alto nível, têm sido definidas em favor da equipe que apresenta maior equilíbrio psicológico. Bompa (2002), examinando a periodização e as metodologias de treinamento, salienta quanto é importante e necessário um treinamento psicológico para assegurar um desempenho físico elevado, o que, conseqüentemente, trará melhoras na disciplina, confiança, força de vontade, perseverança e coragem do atleta.

É importante considerar que muitas das variáveis ligadas à plasticidade contextual que envolve os eventos esportivos tornam-se, também, relevantes para uma boa performance. O momento esportivo que o atleta vivencia na competição diante da sua torcida ou da adversária, a modalidade coletiva ou individual, o atleta ter contato físico ou não com o adversário, o gênero e a faixa etária podem afetar o desempenho do atleta na partida. Para avaliar os efeitos do local da competição, Bray e Martin (2003) realizaram uma pesquisa com esquiadores, fazendo uma análise do desempenho e de estados psicológicos pré-competitivos, na competição em casa e na casa adversária. Neave e Wolfson (2003) verificaram as mudanças emocionais de jogadores de futebol, não apenas em função do local do jogo, mas também em função do nível do adversário; times mais ou menos parelhos ou rivais. Nevill, Balmer e Williams (2002) mostram que o barulho produzido pela torcida leva o árbitro a aplicar decisões que reduzem o número de faltas contra o time da casa. De Rose Júnior, Deschamps e Kosakas (1999, 2001) desenvolveram estudos com atletas de diversas modalidades esportivas, coletivas ou não, e descreveram situações, relacionadas a fatores competitivos e extracompetitivos, que causavam mudanças psicológicas.

O voleibol é uma modalidade esportiva em que estes aspectos psicológicos envolvidos no desempenho de um atleta durante a disputa se mostram especialmente importantes. Feijó (1998) relata que o voleibol excede todos os outros esportes coletivos em matéria de tensão psicológica, uma vez que a equipe não tem contato físico com a adversária e o espaço a ser ocupado pelas equipes é delimitado por uma rede, não podendo ser invadido. Noce, Greco e Samulski (1997) comentam que o voleibol é uma modalidade esportiva extremamente dinâmica, que requer habilidade motora, precisão e muita regularidade na execução dos seus fundamentos, domínio de diferentes combinações de jogadas e raciocínio rápido, caracterizando um conjunto de exigências que podem gerar situações bastante estressantes. Brandão (1997) aponta determinadas qualidades psicológicas - tais como autoconfiança, valentia, determinação, disposição e vontade de vencer - como determinantes do bom desempenho do atleta numa disputa de voleibol.

Estas características psicológicas que atuam sobre o desempenho do atleta no voleibol podem ser afetadas pelo gênero. Samulski (1996) realizou um estudo com atletas femininas de voleibol utilizando um instrumento de teste para relacionar vários fatores e condições que exercem influência no rendimento, podendo ou não desencadear estresse no atleta, como: “machucar-se durante o jogo”, “preparação técnico-tática inadequada”, “conflito com as companheiras”, “nervosismo excessivo”, “errar jogadas no início do jogo”, “condicionamento físico inadequado”, etc. Os resultados mostraram que alguns destes fatores são estressantes e outros são motivadores, qualquer que seja a faixa etária do atleta.

Newby e Simpson (1996) desenvolveram um trabalho relacionando registros de humor e o desempenho com quinze jogadoras de voleibol, em jogo da final de campeonato universitário. Neste estudo eles associaram humores coletados com o Profile of Mood States (POMS) e percentuais estatísticos das tentativas de ataque e saque erradas e concluíram que o desempenho do atleta estava relacionado com o seu humor.

A consideração de que a prática esportiva envolve variáveis que alteram os estados emocionais do praticante levou os pesquisadores a preocuparem-se com a elaboração de instrumentos adequados para avaliação destes estados. É extremamente importante a utilização de instrumentos que dêem subsídios sustentáveis para se realizar uma coleta de dados fidedignos em relação ao objetivo desejado e dentro do contexto aplicado.

Engelmann (1986, 2002a, 2002b), a partir de vários trabalhos experimentais realizados com sujeitos brasileiros e em contextos também brasileiros, desenvolveu a Lista de Estados de Ânimo Presentes (LEAP), para ser usada na avaliação das alterações de ânimo de sujeitos no momento em que estão respondendo. A LEAP é uma lista com quarenta locuções escritas na primeira pessoa do singular, que demonstram estados de ânimo, havendo ao lado de cada locução uma escala com graus de intensidade. Esta lista de quarenta relatos verbais denotadores de estados de ânimo foi obtida a partir da classificação em categorias e subcategorias, compreendendo 370 relatos verbais de estados subjetivos. Engelmann realizou um estudo empregando análise fatorial das locuções da LEAP - conforme o valor hedônico e o grau de ativação atribuídos a elas pelos participantes -, buscando mostrar uma característica de aproximação dos relatos verbais e suas correspondentes locuções de estados de ânimo presentes. Assim, as 40 locuções foram distribuídas e agrupadas em 12 fatores.

A LEAP tem sido utilizada por experimentadores que trabalham com seres humanos ou por clínicos que desejam caracterizar estados de ânimo momentâneos. Bueno, De Martino e Figueiredo (2003) utilizaram a LEAP para descrever as alterações dos estados de ânimo em enfermeiras brasileiras em função dos turnos noturno e diurno de trabalho.

O objetivo desta pesquisa foi verificar as alterações de estados de ânimo momentâneos em atletas de voleibol. Foi empregado o formulário LEAP (Engelmann, 1986), que envolve a avaliação de uma ampla faixa de estados de ânimo, tanto de características positivas quanto de negativas. Estas alterações de estado de ânimo em atletas de voleibol foram examinadas em relação a um componente contextual, que são as fases do campeonato, levando em conta, ainda, as características de gênero dos atletas que poderiam acompanhar estas alterações.

 

MÉTODO

Participantes

Colaboraram neste estudo 23 atletas de duas equipes profissionais de voleibol, sendo 12 do grupo feminino e 11 do grupo masculino. As mulheres tinham idade média de 24 anos e os homens, de 22 anos. Todos os atletas que participaram do experimento já tinham várias atuações e experiências no Campeonato Nacional da Superliga de Voleibol em anos anteriores.

Material utilizado

Foi utilizada nesta pesquisa a Lista de Estados Ânimos Presentes (Engelmann, 1986, 2002a, 2002b), constituída de 40 locuções. A lista é apresentada em uma folha de papel com 40 linhas, contendo cada linha uma locução ladeada por uma escala de diferencial semântico. Esta escala é de quatro pontos, que representam os seguintes graus de intensidade: forte, mais ou menos, fraco e nada.

Procedimento

O formulário LEAP foi aplicado em um local reservado das dependências do ginásio de esportes onde as competições ocorreram, uma hora antes do início de cada jogo.  Cada atleta recebia do preparador físico de sua equipe uma caneta e duas folhas de papel grampeadas, a primeira contendo instruções de como responder ao formulário e a segunda, o formulário a ser preenchido. Os atletas eram orientados a ler as instruções e, logo em seguida, preencher o formulário. O tempo de preenchimento dos formulários foi em torno de 3 a 4 minutos. Após todos terem preenchido a LEAP, esta era recolhida pelo preparador físico e o técnico entrava no local para dar início à preleção aos atletas que costuma preceder cada jogo. Os formulários foram aplicados a duas equipes - masculina e feminina - que disputavam o  Campeonato Nacional da Superliga de Voleibol. Os jogos ocorreram na mesma época do ano para ambos os gêneros.

 

ANÁLISE DE DADOS

Aos graus de intensidade forte, mais ou menos, fraco e nada do diferencial semântico foram atribuídos, respectivamente, os valores 3, 2, 1 e 0 (zero). Foram calculadas as medianas dos valores de diferencial semântico para cada locução de estado de ânimo presente no início do primeiro jogo da semifinal e da final e do terceiro jogo da final, para os grupos masculino e feminino.

Descrição dos estados de ânimo presentes

As locuções onde a média do grupo apresentava valores acima de 1 foram consideradas presentes, e as locuções com média abaixo de 1, ausentes. Para a locução ser considerada presente nos dois grupos, este valor deveria aparecer em pelo menos cinco dos seis jogos analisados (primeiros da semifinal e final e terceiro e decisivo da final, para os grupos masculino e feminino). A locução foi considerada presente em apenas um dos grupos quando apresentou valores acima de 1 nos 3 jogos analisados daquele grupo.

Comparações entre sexo e entre jogos

Os resultados obtidos para cada locução foram comparados, usando-se a análise de variância de medidas repetidas (ANOVA), com dois fatores: gênero e jogos. A análise post hoc foi feita usando-se o teste Newman-Keuls. Foi considerado, para efeitos de significância, p£ 0,05.  Para as comparações de efeitos de gênero e de jogo só foram consideradas as locuções com valores de intensidade 1, 2 e 3.

 

RESULTADOS

As locuções presentes em ambos os grupos foram: “Estou alegre”, “Estou tomando cuidado”, “Sinto um desejo”, “Estou com esperança”, “Sinto-me interessado (a)”, “Sinto uma obrigação”, “Estou refletindo” e “Sinto saudade de alguém”. Nos sujeitos do gênero feminino também estavam presentes as locuções “Sinto um alívio”, “Acho algo gozado”, “Estou com sede”, “Estou com calor”, “Estou aceitando alguma coisa”, “Sinto admiração por alguém”. Nos sujeitos do gênero masculino apenas a locução “Sinto raiva” estava também presente.

Os resultados obtidos nessa pesquisa podem ser compreendidos, também, em relação ao conjunto de fatores que foram propostos por Engelmann (1986). A Tabela 1 apresenta as locuções que estão presentes em ambos os grupos, masculino e feminino, e também aquelas que estão presentes em um único grupo, agrupadas por fatores. As locuções presentes em ambos os grupos correspondem aos fatores III, VII e XII. Além disso, o grupo feminino apresentou outras locuções correspondentes especificamente aos fatores II, III, V, VIII e XI, enquanto o grupo masculino apresentou uma locução correspondente especificamente ao fator I.

 

 

A comparação dos dados referentes aos gêneros mostrou que os valores apresentados pelo grupo feminino foram sempre maiores que os do grupo masculino nas seguintes locuções: “Estou aceitando alguma coisa” (F (1,22)= 13,38), “Sinto uma admiração por alguém” (F (1,22)= 4,05) e “Estou com calor” (F (1,22)= 6,66).

A comparação dos dados referentes aos jogos mostrou que os valores de intensidade foram maiores no 3° jogo da final, em comparação com o primeiro jogo da semifinal, para os grupos masculino e feminino nas locuções: “Sinto uma necessidade” (F (2,44)= 5,32), “Sinto-me orgulhoso (a)” (F (2,44)= 3,72). A locução “Sinto-me calmo (a)” (F (2,44)= 3,09) apresentou significância marginal de p= 0,055, sugerindo  uma tendência de diminuição de valor de intensidade do primeiro para o último jogo.

 

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos com a LEAP permitem traçar um perfil comum e estável de estados de ânimo presentes nos atletas em ambos os grupos e independentemente do jogo, pela presença de estados de alegria, esperança, refletindo, tomando cuidado, e sentindo saudade, interesse, desejo e uma obrigação. Estes estados de ânimo implicam a ativação de processos psicológicos sugeridos por Noce e Samulski (2002b) como relevantes numa disputa de voleibol, tais como atenção, percepção, memória, tomada de decisão, motivação e controle emocional.

Por outro lado, existem diferenças específicas de sexo para algumas locuções. No grupo feminino foi possível detectar mais estados de ânimo presentes, demonstrando maior variabilidade e percepção do grupo em identificá-los. Nas mulheres, houve indicação de necessidades físicas (calor e sede) e de elementos afetivos (a locução “Sinto uma admiração por alguém” com valores maiores em comparação com o grupo masculino).

Pesquisas visando à avaliação de diferenças emocionais entre os gêneros mostraram que as mulheres expressam mais emoções e são mais afetuosas que os homens (Brody & Hall, 1993; Briton & Hall, 1995). Stefanello (1990), utilizando o Teste de Ansiedade em Competições Esportivas (SCAT), o Inventário de Ansiedade de Estado Competitiva (CSAI) e o Questionário de 16 fatores de Personalidade (16 PF), concluiu que a ansiedade em atletas de voleibol era maior no grupo feminino do que no masculino. Samulski (1996) descreveu fatores e condições que podem desencadear estresse em atletas infanto-juvenis femininas e adultas de voleibol: “Machucar-se durante o jogo”, “Preparação técnico-tática inadequada”, “Conflito com as companheiras”, “Nervosismo excessivo”, “Errar jogadas no início do jogo”, “Condicionamento físico inadequado”, etc. Noce e Samulski (2002a) verificaram que, para as atacantes de voleibol, a situação que causava maior estresse era sempre ter que enfrentar forte marcação de bloqueio nos momentos decisivos. 

A última partida do grupo feminino desta pesquisa foi realizada no ginásio adversário, o que pode explicar as variações de estados de ânimo deste grupo e especialmente uma tendência à redução no estado de calma. Segundo estudo realizado por Kerr e Schaik (1995), o nível de estresse em atletas aumenta em disputas no campo adversário, quando comparado com o registrado em jogo disputado em casa.

A presença da locução “Sinto raiva” somente no grupo masculino é coerente com o estudo de Kelly e Hutson-Comeaux (1999), que comentam que os homens demonstram mais raiva do que as mulheres em qualquer contexto. O estudo de Noce e Samulski (2002a) mostrou que a situação que causava maior estresse  em atacantes de voleibol masculino era  descrita como “O levantador não confia em mim”.

As diferenças registradas, nesta pesquisa, nas locuções em função do jogo mostram como a fase do campeonato pode alterar os estados de ânimo dos jogadores. Sentir uma necessidade ou sentir orgulho são estados de ânimo que podem acompanhar uma situação de decisão de campeonato, como foi indicado pelos valores de intensidade maiores para estas locuções no jogo da final, em comparação com o primeiro da semifinal. Martens (1987) aponta a importância do jogo em função da fase da competição como uma das fontes geradoras de estresse nos jogadores.

Todas as locuções presentes agrupadas, neste estudo, conforme os fatores propostos por Engelmann (1986, 1992, 2002a, 2002b) correspondem a estados de ânimo caracterizados tanto por valor hedônico positivo quanto negativo. Um instrumento de medida psicológica que tem sido amplamente usado em pesquisas sobre emoções em atletas é o POMS, examinando tanto modalidades esportivas coletivas como individuais  (Le Unes & Burger, 2000). O POMS mede seis estados emocionais transitórios, sendo cinco estados negativos (tensão, depressão, raiva, fadiga e confusão mental) e um estado positivo: vigor (Brandão, 1996; Weinberg & Gould, 2001). Entretanto, Yeung (1996) sugere que, por apresentar entre as seis dimensões de humor apenas uma positiva, o POMS acarreta falha metodológica para medir, de forma eficaz, o domínio de humor positivo. Le Unes e Burger argumentam que há uma certa validade nessa afirmação, uma vez que o POMS foi elaborado especificamente para medir estados de humor negativos. A LEAP, empregada nesta pesquisa, contém um grande número de estados de ânimo que podem se manifestar no sujeito, permitindo uma compreensão mais ampla dos estados de ânimo presentes - tanto de valor hedônico positivo quanto negativo - que outros instrumentos.

A LEAP, adotada nesta pesquisa, foi desenvolvida com população e contexto brasileiros. Os instrumentos que têm sido mais utilizados para avaliar aspectos psicológicos no esporte no Brasil não foram desenvolvidos em nosso país. Embora pesquisadores brasileiros, como Samulski (1992), Noce e Samulski (2002a, 2002b) e De Rose Júnior (1998), tenham elaborado testes, estes são orientados especificamente para situações ou sintomas de estresse no esporte.

A análise dos dados desta pesquisa, empregando-se os agrupamentos de locuções, confirma que as alterações de estados de ânimo correspondem a fatores determinados, definidos conforme o grau de ativação e de valor hedônico destes estados. Estas alterações de estado de ânimo são relacionadas à ativação de processos psicológicos específicos, ligados ao contexto dos jogos e ao gênero dos atletas. Os resultados desta pesquisa colaboram com a área das Ciências de Esporte, mostrando que o técnico deve adotar posturas adequadas - seja com a equipe, seja com um atleta -, que levem em consideração variáveis relacionadas com alterações nos estados de ânimo que ocorrem em função da modalidade esportiva, do gênero dos atletas, da fase do jogo e do local da partida.

 

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Agradecimentos

Agradecemos a colaboração de Franco A. R. Garcia.

 

 

 

Endereço para correspondência:
José Lino de Oliveira Bueno.
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Departamento de Psicologia e Educação, Universidade de São Paulo,
Avenida dos Bandeirantes 3900,
CEP: 14040-91, Ribeirão Preto-SP, Brasil.
E-mail: jldobuen@ffclrp.usp.br

Recebido em 09/04/2005
Aceito em 02/02/2006

 

 

1 Apoio: CNPq.

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