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Psicologia em Estudo

versão impressa ISSN 1413-7372versão On-line ISSN 1807-0329

Psicol. estud. v.13 n.2 Maringá abr./jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722008000200021 

ARTIGOS

 

Construção e validação da Escala de Percepção de Suporte Social1

 

Construction and validation of Perceived Social Support Scale

 

Construcción y validación de la Escala de Percepción de Soporte Social

 

 

Mirlene Maria Matias Siqueira

Doutora em Psicologia. Docente da Faculdade de Psicologia e Fonoaudiologia da Universidade Metodista de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O suporte social é apontado por estudiosos de diversas áreas do conhecimento como um fator capaz de proteger e promover a saúde. Este estudo teve como objetivo construir e validar, através de análise fatorial, a Escala de Percepção de Suporte Social (EPSS). A versão-piloto da EPSS, composta por 29 itens, foi aplicada a 437 pessoas (72 homens e 365 mulheres) com idade média de 23,93 anos. Análises fatoriais revelaram a existência de dois fatores consistentes que explicaram 47,33% da variância total, tendo o fator 1 reunido 19 itens que condizem a suporte prático com alfa de Cronbach de 0,91, enquanto o fator 2 reuniu 10 itens de suporte emocional com alfa de Cronbach de 0,92. Os resultados forneceram evidências de ser a EPSS uma medida bifatorial, com dois fatores consistentes e precisos, podendo ser utilizada como instrumento de diagnóstico ou de pesquisa.

Palavras-chave: suporte social, validade fatorial, medida psicológica.


ABSTRACT

Social support is pointed out by scholars from several areas as one of the factors able to protect and promote health. Current study constructs and validates, through factor analysis, the Perceived Social Support Scale (PSSS). The pilot version of the PSSS, composed of 29 items, was applied on 437 people – 72 men and 365 women – mean age 23.93 years. Factor analysis revealed the existence of two consistent factors which explained 47.33% of total variance. Factor 1 gathered 19 items related to practical support with Cronbach alpha 0.91, whereas factor 2 gathered 10 items related to emotional support with Cronbach alpha 0.92. Results provided evidences on PSSS as a bi-factorial scale, with two precise and consistent factors. It may be used as a diagnostic or research instrument.

Key words: Social support, factor validation, psychological measure.


RESUMEN

La ayuda social es señalada por estudioso de las áreas diversas del conocimiento como uno de los factores sociales con capacidad de proteger y de promover la salud. Este estudio que tenía como objetivo para construir y para validar, con el análisis factorial, la Escala de Percepción de Soporte Social (EPSS). Aplicaron al piloto de la versión del EPSS, compuesto para 29 artículo, las 437 personas, siendo 72 hombres y 365 mujeres con la edad media de 23.93 años. Los análisis factoriales habían divulgado la existencia de dos factores constantes que habían explicado 47.33% de la variación total, teniendo factor 1 juntaron el artículo 19 que condicen la ayuda práctica con la alfa de Cronbach de 0.91, mientras que el factor 2 juntó el artículo 10 de la ayuda emocional con la alfa de Cronbach de 0.92. Los resultados habían proveído a las evidencias de ser los EPSS a la medida bifactorial, de dos constantes y de factores necesarios, pudiendo ser utilizado como instrumento de la investigación o de la diagnosis.

Palabras-clave: Ayuda social, validez factorial, medida psicológica.


 

 

Evidências de que a ruptura de vínculos sociais aumentava a suscetibilidade a doenças diversas - como hipertensão arterial, depressão e tuberculose - contribuíram para reafirmar a estreita relação entre redes sociais e saúde (Chor, Griep, Lopes & Faerstein, 2001). Esta linha de pesquisa suscitou maior interesse entre pesquisadores quando Berkman e Syme (1979) divulgaram resultados de um estudo epidemiológico longitudinal de nove anos, período em que 6.928 adultos residentes na Califórnia foram avaliados em seus relacionamentos sociais e indicadores de saúde. O estudo revelou que índices mais elevados de integração social (manter o casamento, manter contatos com amigos, pertencer a organizações sociais e religiosas, etc.) estavam inversamente associados à mortalidade. A partir deste trabalho, estudiosos passaram a investigar com maior ênfase a interface ambiente social e saúde, procurando identificar tipos de relacionamento benéficos à saúde e a analisar como as experiências nas relações sociais produziam impactos na saúde física e como seria possível intervir no ambiente social para promover e proteger a saúde. A partir desta compreensão, diversos conceitos foram utilizados para desenhar uma vida socialmente saudável, dentre eles destacando-se suporte social (Cobb, 1976; Cohen, 1988, 2004), comboio social (Antonucci & Akiyama, 1994), bem-estar social (Keyes, 1998) e integração social (Berkman, Michael, Colditz & Kawachi, 2001; Brissette, Cohen & Seeman, 2000).

O suporte social é considerado capaz de gerar efeitos benéficos para a saúde tanto física como mental, guardando uma estreita relação com bem-estar (Rodriguez & Cohen, 1998). Trata-se de um conceito multidimensional, que se refere aos recursos materiais e psicológicos aos quais as pessoas têm acesso através de suas redes sociais.

O conceito de redes foi originalmente criado e desenvolvido no âmbito da sociologia antropológica. Sociólogos defendem a noção de que as redes têm algum poder sobre o comportamento social das pessoas nelas envolvidas (Mitchell, 1969). A importância das redes na construção social reside no pressuposto de que elas preenchem as necessidades individuais, criando para seus integrantes inúmeras oportunidades de manter sua identidade social, receber apoio, ajuda material, serviços, informações e novos contatos sociais (Berkman, 1995; Walker, Macbride & Vachon, 1977). Redes são definidas como uma teia identificada de relações sociais que circunda um indivíduo, bem como as características destas ligações, compondo-se do conjunto de pessoas com quem alguém mantém contatos sociais (Bowling, 1997). As redes são as fontes donde emanam suportes sociais para seus integrantes.

Na visão psicológica defendida por Cobb (1976), as informações que permitem ao indivíduo processar sua concepção do suporte social estão organizadas em três classes de crenças: de que é amado e que existem pessoas preocupadas com ele; de que é apreciado e valorizado; e de que pertence a uma rede social. Ao apresentarem sua concepção acerca de relações sociais de suporte, Kaplan, Cassel e Gore (1977) definiram suporte social como o grau em que as necessidades sociais de uma pessoa são satisfeitas através de sua interação com outros. Na década de oitenta, Thoits (1982) acrescentou às crenças defendidas por Cobb (1976) a ajuda instrumental, sugerindo que suporte social poderia articular não só crenças sobre acessibilidade a recursos afetivos (ser amado, cuidado, apreciado e valorizado) e crenças sobre pertencimento a redes sociais, mas também crenças de que nestas redes estariam disponibilizados recursos tangíveis e práticos (instrumentais). Como pode ser observado, nem Cobb nem Thoits defenderam o suporte informacional como uma categoria específica de recurso disponibilizado pelas redes. A partir de então, as definições de suporte social no campo da psicologia passaram a ser orientadas pela tipologia de suporte disponibilizado pelas redes sociais, bem como pelas necessidades individuais satisfeitas por estas teias.

Segundo Bowling (1997), suporte social pode ser definido como um processo interativo no qual ajudas de ordem emocional, instrumental ou financeira são obtidas de redes sociais. Na visão de Rodriguez e Cohen (1998), existem diferentes tipos de apoio que alguém pode receber da rede social, sendo três os mais amplamente estudados: suporte emocional, suporte instrumental e suporte informacional. Suporte emocional refere-se ao que as pessoas fazem ou dizem a alguém (dar conselhos, ouvir seus problemas, mostrar-se empático e confiável) e é percebido como expressão de carinho, cuidados e preocupação do outro. Suporte instrumental compreende as ajudas tangíveis ou práticas que outros (pessoas ou instituições) podem prover a alguém (cuidados com crianças, provisões de transporte, empréstimos de dinheiro ou ajudas com tarefas diárias). Suporte informacional inclui receber de outras pessoas noções indispensáveis para que o indivíduo possa guiar e orientar suas ações ao dar solução a um problema ou no momento de tomar uma decisão.

Na visão de Seeman (1998), suporte emocional e suporte instrumental são as duas maiores categorias de suporte social. Esse autor, discordando de outros (Bowling 1997; Rodriguez & Cohen, 1998), entende que suporte social de informação poderia ser incluído na dimensão suporte instrumental, apesar de ser classificado por outros autores como uma dimensão específica de suporte social.

Os recursos disponibilizados pela rede social e categorizados por Rodriguez e Cohen (1998) em três tipos poderiam constituir duas categorias de suporte, sendo uma de cunho eminentemente afetivo (suporte emocional), porque se origina de ações que demonstram afabilidade, afeição e carinho por parte alguém a outrem durante relações sociais. Os outros dois tipos, o instrumental e o informacional, reúnem doações de caráter utilitário, objetivo e prático. Assim sendo, suporte emocional reuniria os apoios que levam o indivíduo a acreditar ser possível encontrar, entre as pessoas de sua rede social, alento para reagir e superar os possíveis transtornos no âmbito afetivo, ou para dividir e compartilhar as alegrias advindas de suas realizações, conquistas e sucessos pessoais. Suporte prático, por seu turno, representa segurança e tranqüilidade para o indivíduo ao acreditar que existam, entre os integrantes de sua rede social, pessoas com disposição para suprir alguma necessidade de ordem prática.

Um desafio que se seguiu ao reconhecimento, iniciado nos anos setenta do século XX, do importante papel de suporte social para a saúde foi o desenvolvimento de medidas para avaliá-lo. As dificuldades em encontrar resultados consensuais sobre os efeitos benéficos de suporte social advêm, segundo Krause, Liang e Yatomi (1989), das diferentes concepções do construto que sustentam suas medidas. Estes três autores classificaram as medidas de suporte social em três categorias: (a) as que avaliam o número de contatos sociais mantidos pelos indivíduos; (b) as que identificam os tipos específicos de suporte social que são oferecidos aos indivíduos e (c) as medidas que avaliam as necessidades de suporte social aferindo o grau de satisfação com o suporte social recebido. Enquanto as medidas que avaliam números de contatos sociais (Berkman & Syme, 1979; Donald & Ware, 1982; Hirsch, 1980; House & Kahn, 1985) estão estreitamente associadas às características estruturais de redes (tamanho, dispersão geográfica, densidade, integração) ou à freqüência e natureza dos contatos dentro das redes (reciprocidade, intimidade, participação social), o segundo grupo (Barrera, 1980; Sherbourne & Stewart, 1991) enfatiza algumas variações na tipologia de suporte social (emocional, instrumental, informacional, interações sociais positivas e socialização) e o terceiro grupo (Broadhead, Gehlbach, Gruy & Kaplan, 1988; Patrão, Maroco & Leal, 2006; Ribeiro, 1999; Sarason, Levine, Basham & Sarason, 1983) focaliza o grau de satisfação com que o indivíduo percebe o tipo de suporte ofertado ou o grau de satisfação com alguns elementos integrantes de suas redes ao lhe ofertarem suporte. Segundo Uchino, Cacioppo e Kiecolt-Glaser (1996), os estudos iniciais sobre suporte social focalizaram-no como uma variável situacional e, posteriormente, o conceberam como uma variável individual. Nesta perspectiva, pode-se entender o porquê de serem as primeiras medidas de suporte social voltadas para a estrutura e funcionamento das redes, enquanto as mais recentes avaliam dimensões psicossociais tais como percepções de tipologias e satisfações com o suporte social.

Vários estudiosos (Bowling, 1997; McDowell & Newell, 1996; Payne & Graham-Jones, 1987; Rock, Green, Wise & Rock, 1984) já realizaram revisões das medidas de suporte social disponíveis na literatura. Conforme relato de McDowell e Newell (1996), a primeira escala que cobriu aspectos de suporte social foi a Berle Index, publicada em 1952. As conclusões destes autores revelam que existia, nos primórdios da pesquisa, uma preferência por medidas de um único item, uma variedade de concepções de suporte social sustentando a elaboração e operacionalização de medidas, sendo que, com algumas exceções, a maioria das medidas disponíveis na literatura carecia de dados sobre sua validade e precisão.

No Brasil já existem medidas que abarcam o conceito de suporte social, porém, são voltadas para o ambiente de trabalho em organizações. Tamayo, Pinheiro, Tróccoli e Paz (2000) desenvolveram e validaram, através de análises fatoriais, a Escala de Suporte Organizacional Percebido (ESOP), composta por seis fatores com alfas de Cronbach variando de 0,75 a 0,92, dois dos quais avaliam componentes de suporte social: suporte social no trabalho e suporte material. De acordo com Gomide Jr., Guimarães e Damásio (2004), suporte social no trabalho refere-se à crença global do empregado de que a organização empregadora oferece os três tipos de suporte social - emocional, instrumental (ou também chamado material) e informacional - necessários para a execução dos trabalhos. Estes autores construíram e validaram, aplicando análises fatoriais, a Escala de Percepção de Suporte Social no Trabalho, cujos três fatores teoricamente propostos mostraram-se consistentes e precisos, com alfas de Cronbach variando de 0,72 a 0,85.

Este estudo teve como objetivo construir e validar a Escala de Percepção de Suporte Social (EPSS), não específica para o contexto de trabalho, mas voltada para as relações sociais amplas, visando a apresentar aos pesquisadores brasileiros uma medida fatorial válida e precisa.

 

MÉTODO

Construção da EPSS

A construção da EPSS foi realizada em duas etapas. A primeira consistiu na escolha e definição das dimensões que a comporiam, as quais seriam os traços latentes a serem observados através de itens comportamentais (Byrne, 2001; Pasquali, 1997). Na seqüência, os itens da EPSS foram submetidos à análise teórica, com vista a identificar coerência entre as definições dos traços latentes (dimensões) e os comportamentos (itens) que os representariam empiricamente.

Elaboração dos itens

A versão inicial da EPSS foi sustentada por três dimensões teóricas que integram suporte social e apresentada por Rodriguez e Cohen (1998): suporte emocional, suporte instrumental e suporte informacional. As dimensões referidas seriam três traços latentes, os quais foram representados por 32 itens, constituindo-se, segundo Pasquali (1997), em " ... tarefas, ações empíricas por meio das quais o traço latente se manifesta" (p. 95). Deve-se ressaltar, contudo, que as ações contidas nos 32 itens da EPSS não constituíam tarefas ou atos do respondente, mas sim, ações de outrem. Neste sentido, o respondente da EPSS seria um observador solicitado a relatar a freqüência com que percebia a disponibilidade de oferta de suporte emocional, instrumental e informacional de pessoas integrantes de sua rede social. Enquanto suporte emocional agregou 12 ações de outrem com conotação de recursos afetivos, suporte instrumental reuniu outras 10 ações que implicavam na doação de recursos materiais e suporte informacional agrupou 10 atos de aclaramentos disponibilizados pela rede social (Figura 1).

 

 

Análise teórica dos itens

Um grupo de 10 doutores em psicologia, dos quais quatro eram professores de uma universidade federal situada em Minas Gerais e seis de uma particular do Estado de São Paulo, atuaram como juízes na fase de avaliação da correspondência entre definição das dimensões teóricas versus itens da EPSS. Para tanto, foi-lhes solicitado que, após lerem as definições das três dimensões e os 32 itens, estes apresentados de forma embaralhada, identificassem a qual das três dimensões de suporte social cada um dos itens correspondia. Após esta etapa, foram computados os índices de concordância (IC) entre os juízes, devendo-se reter apenas aqueles itens com IC superior ou igual a 0,80, o que corresponde à concordância entre oito dos dez juízes sobre a representação de um item acerca de um traço latente (Pasquali, 1997). Os resultados desta etapa informaram que sete itens tiveram IC inferiores a 0,80, três dos quais foram eliminados e quatro foram redigidos novamente. Ao finalizar essa etapa de análise, a EPSS ficou constituída por 29 itens, sendo 10 para representar suporte emocional, nove para conceber suporte instrumental e outros 10 para integrar suporte informacional.

Validação fatorial da EPSS

Participantes

A fase de validação fatorial da EPSS se constituiu de um estudo empírico do qual participaram voluntariamente 437 pessoas, com idade média de 23,93 (DP=7,36). Dessas pessoas, 83,7% eram mulheres e 16,5%, homens; em sua maioria (82,8%) eram solteiras e cursavam universidade (84,2%); e a parcela que trabalhava era de 43,5%, distribuída entre o setor privado (32,5%), setor público (5,5%) e terceiro setor (5,3%).

Instrumento

Os dados foram obtidos através da aplicação de um questionário auto-aplicável constituído de duas páginas. A primeira continha instruções e a apresentação do pesquisador; na segunda página estavam as instruções da EPSS, os seus 29 itens e a escala de quatro pontos para as respostas (1 = nunca; 2 = poucas vezes; 3 = muitas vezes; 4 = sempre) com a qual os participantes informaram a freqüência com que percebiam a possibilidade de contar com o apoio de alguém. No final do questionário, seis questões levantaram dados demográficos da amostra, relativos ao sexo, idade, estado civil, grau de instrução, estudos e trabalho.

Procedimentos

A aplicação do instrumento deu-se em ambientes diversificados. Quando se tratava de estudantes, a distribuição e o recolhimento do questionário foram coletivos e ocorreram nos horários de aula, após a autorização do professor e anuência dos alunos. A coleta de dados junto a pessoas não estudantes deu-se individualmente, em locais de trabalho ou em ambientes não especificados, visto que parte da amostra pôde responder ao questionário onde desejasse, após combinar prazo e forma de sua devolução. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, avaliado e aprovado junto com o projeto de pesquisa pelo comitê de ética e pesquisa de uma universidade, foi entregue a cada participante e restituído quando da devolução do questionário.

Análise dos dados

As análises estatísticas que permitiram avaliar a validade e precisão da EPSS foram realizadas através do SPSS para Windows, versão 14.0. Inicialmente, os dados foram submetidos à análise dos componentes principais, procurando-se descobrir o número de componentes significantes (autovalores maiores que 1,0) produzidos pelas 29 variáveis empíricas que compunham a forma-piloto da EPSS. A seguir, procedeu-se à análise fatorial exploratória, recorrendo-se ao método de extração dos eixos principais (PAF), quando foi solicitada a extração de três fatores, consoante a constituição teórica previamente imputada aos itens e rotação oblimin, visto que se tratava de três dimensões (traços latentes) supostamente intercorrelacionadas na composição do construto suporte social. Com base nos resultados produzidos pelos métodos de extração e rotação acima mencionados, foram tomadas decisões sobre a aplicação de outras análises que se mostraram adequadas em face das evidências empíricas obtidas, descritas na próxima seção.

 

RESULTADOS

Análises preliminares

Análises iniciais revelaram que os dados obtidos no presente estudo atendiam aos pressupostos para se proceder a análises fatoriais (Pasquali, 2005): a amostra com 437 participantes continha a razão de 15,07 pessoas por item (variável), o KMO foi elevado (0,953) e o Teste de Esferacidade de Bartlett's foi significativo (χ2 = 6467,225; gl = 406; p<0,01).

A extração de componentes principais, realizada com o objetivo de explorar a estrutura dos dados, apontou a existência de cinco componentes com autovalores superiores a 1,0 e capacidade de explicar 59,64% da variância total. Dentre estes cinco fatores, apenas o primeiro e o segundo detinham autovalores superiores a 1,5 e juntos explicavam 47,33% da variância total.

Uma inspeção no gráfico do scree (Figura 2) revelou que a partir do segundo componente a linha do gráfico começava a se tornar horizontal, indicando a possibilidade de que, a partir deste ponto, " ... a quantia de variância única começava a dominar a estrutura da variância comum" (Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005, p. 102), suscitando problemas na manutenção dos demais componentes a partir deste ponto na estrutura da EPSS. Conforme Hair et al., a variância comum representa a variância compartilhada por todas as variáveis submetidas à análise, a qual, no caso da EPSS, corresponde aos 29 itens. Destarte, tanto pelo critério de autovalor quanto pelo do gráfico dos autovalores, os 29 itens da EPSS pareciam estar organizados em dois, e não em três componentes, contrariando a estrutura teórica imputada à EPSS na fase de sua construção.

 

 

Análise fatorial

Para proceder ao exame da validade de construto da EPSS, foi realizada a análise fatorial através do método de extração dos eixos principais (Principal Axis Factoring - PAF) com rotação oblimin. Embora as análises preliminares sinalizassem a possível existência de dois, mas não de três fatores na estrutura dos dados, foi solicitada a extração de três fatores consoante a proposta de incluir três dimensões teóricas na estrutura da EPSS, estipulando-se como carga fatorial mínima 0,35 (positiva ou negativa), o que corresponde a uma variância comum entre item e fator da ordem de 12%, aproximadamente (Pasquali, 2005). Com base nestas análises, três itens não atingiram o critério de 0,35 de carga fatorial em nenhum dos fatores rotados. Os três fatores rotados ficaram assim constituídos: fator 1 agregou 13 itens tanto de suporte instrumental como de suporte informacional, e respondeu por 39,76% da variância comum, com alfa de Cronbach de 0,90; o fator 2, com 10 itens de suporte emocional, explicou 4,14% da variância comum, com alfa de Cronbach de 0,92; o fator 3, com três itens de suporte instrumental, explicou 3,34% da variância comum, com alfa de Cronbach de 0,65. Os resultados destas análises parecem não confirmar a estrutura de três fatores para representar as dimensões teóricas definidas para a EPSS, visto que o fator 1 agrupou itens de suporte instrumental e informacional e o fator 3 apenas itens de suporte instrumental. Ademais, o índice de precisão do fator 3 (alfa de Conbach igual a 0,65) estava abaixo de 0,70, valor mínimo para medidas psicológicas serem consideradas precisas (Pasquali, 1997).

Diante das evidências providas pelas análises descritas, foi solicitada uma nova extração dos eixos principais (PAF) com rotação oblimin, extração de dois fatores com carga fatorial mínima 0,35 (positiva ou negativa) sobre os 29 itens da versão inicial da EPSS.

Os resultados (Tabela 1) informaram que o fator 1 (suporte prático) explicava 39,66% da variância comum, autovalor de 11,50, e continha 19 itens referentes a apoios de natureza instrumental e informacional com cargas fatoriais variando de 0,38 a 0,78 e alfa de Cronbach de 0,91. Considerando-se que o fator 1 reuniu itens tanto de suporte instrumental quanto de suporte informacional, ele foi denominado de suporte prático. O fator 2 explicava 4,02% da variância comum, autovalor de 1,17, constituído por 10 frases referentes a ajudas de ordem afetiva, com cargas fatoriais entre –0,55 a –0,83 e alfa de Cronbach de 0,92. Dada a natureza estritamente afetiva dos apoios contidos nos itens do fator 2, ele foi denominado de suporte emocional. Esta solução de dois fatores revelou que os 29 itens da EPSS detinham cargas fatoriais superiores a 0,35 (positiva ou negativa) em um dos dois fatores rotados, tendo os dois fatores apresentado correlação elevada (r= –0,75).

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados do estudo merecem ser discutidos sob duas perspectivas: sob o enfoque teórico e à luz dos pressupostos da psicometria. No que tange à teoria, tem sido sustentada por alguns autores (Bowling, 1997; Rodriguez & Cohen, 1998) a existência de diversos tipos de suporte social, sendo os suportes emocional, instrumental e informacional os três mais estudados. Partidários desta visão consideram que os gestos solidários de suporte social poderiam ser categorizados a partir da natureza do recurso oferecido pelas redes sociais a quem deles necessita. De fato, a proposta de agrupar os gestos solidários de apoio social em categorias facilitou a compreensão psicológica do fenômeno e permitiu elaborar medidas para aferi-lo, enfatizando-se uma abordagem psicossocial do mesmo fenômeno, em detrimento da visão situacional que dominou os primórdios da pesquisa sobre suporte social, quando características das redes sociais eram utilizadas para avaliar suporte social.

No que se refere aos pressupostos psicométricos, vale ressaltar que, dentre os diversos instrumentos que se destinam a medir suporte social, apenas alguns aferem os tipos de suporte, e quando o fazem, raros são os que foram validados com base em análises fatoriais. Assim, a dimensionalidade do construto suporte social não passa pelo escrutínio de análises multivariadas para dar sustentação à suposição de que recursos diversificados se organizam em agrupamentos como, por exemplo, emocional, instrumental e informacional. Uma rara exceção é o caso da Escala de Percepção de Suporte Social no Trabalho - EPSST de Gomide Jr. et al. (2004), que contém três fatores consistentes e precisos para aferir a tipologia de suporte social apregoada por Rodriguez e Cohen (1998). Deve-se notar, contudo, que a EPSST foi construída e validada para um ambiente específico, o do trabalho, contexto social em que se torna mais fácil identificar diferenças entre recursos instrumentais e informacionais. Por outro lado, no ambiente social generalizado em que se articulam as relações sociais, talvez não esteja claramente delimitado quais recursos disponibilizados pela rede social se caracterizam como instrumental e quais se denominam informacionais. Neste ambiente, parecem ser claramente percebidos e demarcados os apoios de cunho emocional, enquanto os demais tendem a ser compreendidos como uma categoria ampla de ajudas práticas, não delimitadas nem definidas. Portanto, a proposição de três dimensões de suporte social, defendida por Rodriguez e Cohen (1998), parece difícil de ser comprovada empiricamente através de análises fatoriais, quando se busca construir medidas para o contexto de interações sociais genéricas, quais sejam, aquelas interações sociais que não se restringem a um ambiente específico.

Os resultados das análises fatoriais deste estudo parecem reafirmar as suposições tanto de Cobb (1976) quanto a de Thoits (1982) e de Seeman (1998) sobre a possibilidade de que suporte social abarque duas, mas não três categorias de recursos disponibilizados pela rede social. Estes autores sugeriram que suporte social seria constituído por três categorias de crenças: duas acerca de categoriais de apoios sociais (a emocional e a instrumental), sendo a terceira crença postulada pelos autores referente ao pertencimento a redes sociais.

Entende-se que a EPSS se constitui em uma medida válida e precisa. Os seus 29 itens possuem cargas fatoriais importantes (maiores que 0,35, positivas ou negativas) em apenas um fator, e os itens formaram dois fatores altamente precisos (alfas superiores a 0,90) e teoricamente consistentes, considerando-se que o primeiro fator possibilita avaliar suporte prático e o segundo fator permite mensurar suporte emocional, sendo estas duas dimensões as defendidas por pesquisadores de suporte social (Cobb; 1976; Seeman, 1982; Thoits, 1982).

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Mirlene Maria Matias Siqueira
Rua Myriam Dora Rossi, 100, ap. 84, Chácara Inglesa
CEP: 09726-100, São Bernardo do Campo-SP
E-mail: mirlenesiqueira@uol.com.br

Recebido em 06/09/2006
Aceito em 18/01/2007

 

 

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