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Psicologia em Estudo

versão impressa ISSN 1413-7372

Psicol. estud. v.13 n.3 Maringá jul./set. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722008000300010 

ARTIGOS

 

Adoção e exclusão insidiosa: o imaginário de professores sobre a criança adotiva1

 

Insidious adoption and exclusion: the imaginary of teachers on the adopted child

 

Adopción y exclusión insidiosa: el imaginario de profesores en relación al niño adoptivo

 

 

Mariana Leme da Silva PontesI; Jaqueline Caldamone CabreraI; Marcela Casacio FerreiraII; Tânia Maria José Aiello VaisbergIII

IGraduanda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas
IIDoutora em Psicologia. Docente da Faculdade de Jaguariúna-SP
IIILivre-docente. Docente da Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A presente pesquisa focaliza o imaginário coletivo de professores sobre a criança adotiva por meio do uso do procedimento de desenhos-estórias com tema e de narrativas psicanalíticas elaboradas pelas pesquisadoras após as entrevistas individuais. O conjunto do material foi analisado de acordo com a teoria psicanalítica dos campos, permitindo a apreensão de dois campos psicológicos não-conscientes, o abandono infantil e a infertilidade, os quais se articulam e dão origem ao campo mais abrangente da exclusão radical da pessoalidade originária da criança adotada.

Palavras-chave: adoção, imaginário coletivo, professores.


ABSTRACT

Current research focuses on teachers' imaginary on the adopted child through the use of story-pictures procedures with a theme and through psychoanalytical narratives elaborated after interviews. Material was analyzed according to the psychoanalytical theory of fields, what allows the understanding of two non-conscience psychological: the abandoned child and infertility. Both fields are articulated under the wider psychological field of the radical exclusion of the original personality of the adopted child.

Key words: Adoption, collective imaginary, teachers.


RESUMEN

La presente investigación focaliza el imaginario colectivo de profesores en relación al niño adoptivo, por medio del uso del procedimiento de dibujos-historias con tema, y de narrativas psicoanalíticas elaboradas por las investigadoras después de las entrevistas individuales. El conjunto del material fue analizado de acuerdo con la teoría psicoanalítica de los campos, permitiendo la aprehensión de dos campos psicológicos no-concientes, el abandono infantil y la infertilidad, los que se articulan originando el campo más amplio de la exclusión radical de la personalidad originaria del niño adoptado.

Palabras-clave: Adopción, imaginario colectivo, profesores.


 

 

Em um país como o Brasil, onde as diferenças sociais são gritantes, os direitos humanos são muitas vezes violados e o cuidado à infância é francamente insatisfatório. Um grande número de crianças encontra-se institucionalizada, à espera de adoção eventual, que tende a se tornar cada vez mais improvável à medida que o tempo passa e elas se tornam mais crescidas. Muitas crianças abrigadas, com mais de dois anos de idade, já têm compreensão suficiente para nutrir expectativas ansiosas de serem escolhidas e acolhidas por casais interessados, mas na maior parte das vezes, permanecem frustradas, porque os casais brasileiros preferem bebês.

Configura-se, assim, um fenômeno de exclusão social bastante evidente, que impede muitas crianças de crescerem em ambiente familiar. Poder-se-ia, a partir daí, imaginar que os bebês efetivamente adotados teriam, por seu turno, evitado um destino de exclusão. Entretanto, se examinarmos o problema atentamente, veremos que a situação é mais complexa e que aí poderemos detectar a ocorrência de um fenômeno, mais disfarçado e sutil, que afeta aqueles que foram aceitos exatamente pela sua condição de bebês, incapazes, portanto, de ter memória consciente da vida anterior à adoção. Evidentemente, não desconhecemos o fato de que se encontra em vigor, atualmente, nas famílias, a prática de revelar à criança, verbalmente, sua condição de adotiva ou de "filho do coração"; entretanto, não há como ignorar que o fato de a criança ser buscada, quase exclusivamente, por casais com dificuldades reprodutivas, quando ainda é um bebê, serve perfeitamente a propósitos, nem sempre claramente conscientes, de ruptura de todo e qualquer vínculo da criança com a família e grupo social de origem. Como resultado, a criança adotiva pode ser aceita, em muitos casos, porque nem parece adotiva, o que configura uma situação de discriminação e exclusão verdadeiramente insidiosa, que pode gerar efeitos devastadores em termos dos sofrimentos emocionais envolvidos. Este quadro incide diretamente sobre processos de emergência da pessoalidade individual conhecida como constituição de self (Winnicott, 1960), afetando a possibilidade de se alcançar uma posição existencial que permita ao indivíduo não apenas escapar à psicopatologia, mas também se sentir vivo, real e capaz de gestualidade espontânea e transformadora (Winnicott, 1971). Tal questão, que é fundamental no campo da psicopatologia psicanalítica, vem recebendo, mais recentemente, grande atenção por parte de sociólogos, capazes de compreender quão importante é o campo social nos delicados processos de constituição de self (Giddens, 1999).

A partir de uma linha, aqui por nós propugnada, que pode reconhecer na exclusão sutil da criança adotada uma problemática importante, defendemos a idéia de que as práticas de adoção no Brasil devem ser examinadas desde perspectivas comprometidas com a questão do respeito à alteridade e com o combate à exclusão. Resolvemos, então, abordar o imaginário social sobre a criança adotiva, tendo em vista fornecer subsídios na busca coletiva de soluções psicossociais. A presente pesquisa optou por investigar o imaginário social de professores sobre a criança adotada, levando em conta seus determinantes afetivo-emocionais inconscientes. Abordamos o imaginário coletivo como ambiente, no sentido winnicottiano do termo, que resulta da continua atividade humana de produção de sentido. É em seu contexto que surgirão condutas que, quando discriminatórias, geram efeitos psicológicos importantes (Bleger, 1963; Winnicott, 1971).

Acreditamos que a investigação sobre o imaginário coletivo pode contribuir para transformações no sentido da superação de preconceitos e da conquista coletiva de uma sensibilidade emocional eticamente amadurecida, a partir da ruptura dos campos emocionais inconscientes que sustentam pensamentos e práticas; ou seja, entendemos que mudanças verdadeiras dependem não apenas de informação e esclarecimento, mas também de atenção psicológica clínica, em vertentes preventivas e interventivas, capazes de lidar com temores e angústias coletivos subjacentes. Nesta linha, mantemos próxima interlocução com a proposta psicoprofilática de José Bleger (1976), entendendo que a própria escuta, propiciada pela pesquisa, já se constitui como intervenção, na medida em que favorece um contato vivencial dos participantes com suas próprias fantasias e concepções. Deste modo convidamos os pesquisadores da temática da exclusão a examinar um grupo específico, a criança adotada, vítima de preconceito mais sutil, ao mesmo tempo em que propomos aos estudiosos da adoção focalizá-la deste a perspectiva da exclusão.

Atualmente, a literatura sobre a exclusão social é verdadeiramente copiosa e transdisciplinar. Nossa entrada neste campo de estudo e intervenção deu-se há algumas décadas, no contexto específico do estudo de representações sociais sobre o louco e/ou doente mental, elaboradas por diversos grupos sociais, mais ou menos diretamente vinculados a esta problemática. Uma tese de doutorado (Machado, 1995) e uma de livre-docência (Aiello-Vaisberg, 1999) foram momentos importantes de sistematização e elaboração reflexiva sobre um grande conjunto de resultados de pesquisas voltadas à exclusão psiquiátrica. Por outro lado, a potencialidade heurística revelada pela metodologia que utilizamos revelou-se igualmente útil na investigação sobre imaginário e exclusão de outras figuras sociais, tais como soropositivos, deficientes físicos, homossexuais, crianças-problema, obesos e outros, do que resultou produção igualmente expressiva2. Entretanto, o aspecto fundamental, a ser aqui destacado, diz respeito, mais precisamente, à constatação de que representações preconceituosas são construídas sobre fundos afetivo-emocionais inconscientes marcados pelo temor às condições de vida daqueles que são objeto do preconceito. Em linhas gerais, abordando diferentes condições, encontramos um quadro bastante semelhante ao constatado por Joffe (1994, 1996, 1998) quando abordou psicanaliticamente o imaginário social relativo aos soropositivos.

Ao realizar um levantamento bibliográfico sobre a criança adotiva e a adoção, deparamo-nos com diferentes modalidades de estudos dentro da psicologia (Ferreira & Aiello-Vaisberg, 2004; Ferreira, 2006). Grosso modo, encontramos dois tipos de pesquisa: algumas, mais raras, que privilegiam dimensões sociais, culturais e históricas, e outras, mais marcadamente clínicas. Como exemplos do primeiro tipo de pesquisa podemos citar trabalhos como os de Gagno e Weber (2003), Costa e Campos (2003, 2004), Levy e Jonathan (2004) e Fonseca (2006), que apontam a existência de marcados preconceitos, bem como a importância da carência socioeconômica. Aqueles trabalhos que se debruçam sobre o tema da adoção a partir de um olhar clínico, tanto buscam identificar sinais psicopatológicos na criança e em seus pais como esmiuçar condições comportamentais e subjetivas subjacentes ao processo de adoção, chegando, em alguns casos, a considerar, com relativo aprofundamento, sentidos inconscientes de adoções consumadas. São exemplos de estudos a partir desses vértices os textos de Ducatti (2003), Ebrahim (2001), Hamad (2002), Hutz (2003), Levinzon (2004), Paiva (2004) e Reppold e Iyama (2004) além do clássico estudo de Dolto (1998). Enquanto os primeiros trazem contribuições importantes, deixam, por não ser este o seu objetivo, de detalhar as vivências emocionais, correndo o risco de se tornarem excessivamente abstratos e afastados do acontecer humano. Por outro lado, os trabalhos realizados sob um viés clínico, por adotarem visões psicopatológicas que tendem a pensar a interioridade corporal ou pessoal como sede do pathos (Ionescu, 1994), limitam-se à consideração de fantasias e desejos dos mais proximamente envolvidos, sem chegar a contextualizá-los socialmente de modo satisfatório. Seguindo linhas gerais de uma clínica que tende a pensar o sentido emocional como evento intrapsíquico, não alcançam a noção de que a psique é produção intersubjetiva de sentidos (Herrmann, 1979), deixando de levar em conta o ambiente ou mundo humano de modo suficiente (Winnicott, 1965). Desta forma, não chegam a propor uma investigação do imaginário social acerca da adoção, mediante a qual seja possível conhecer o ambiente psicológico mais amplo (Bleger, 1963), uma vez que a complexidade da vida social ensina que as práticas sociais não se mantêm apenas sobre as fantasias daqueles diretamente envolvidos numa dada problemática, exigindo a consideração mais ampla do imaginário de outros grupos sociais. Assim, levando em conta os diversos problemas que cercam a questão, entendemos como oportuna a realização de estudos capazes de levar em conta o modo como diferentes segmentos e agentes sociais - e não apenas aqueles que desejam adotar crianças - lidam com a adoção. Usando a psicanálise, levantamos questionamentos relativos às dimensões inconscientes das condutas sociais relativas à adoção, pois é duvidoso que, sem tal conhecimento, possa-se chegar a transformações eticamente desejáveis.

No momento, escolhemos acessar o imaginário social pela via de professores do ensino fundamental e médio, tanto porque representam uma camada eventualmente melhor informada da população, como também por estarem sempre próximas de crianças, mães e famílias, e de suas dinâmicas de relacionamento afetivo. Cabe aqui lembrar que sérios e conseqüentes esforços no sentido de busca de inclusão social, concebida como gesto humano eticamente fundado, têm sido levados a cabo no contexto da instituição escolar. Entretanto, tais estudos têm sido realizados por educadores, que se inscrevem, compreensivelmente, numa perspectiva que visa primordialmente atender ao direito das pessoas deficientes à educação formal. Uma grande maioria destes estudos acaba revelando que a preocupação dos educadores se articula primariamente ao redor da busca de conhecimentos e técnicas para lidar com necessidades especiais que possam favorecer a aprendizagem (Sant'Ana, 2005), mas tais estudos não penetram nas sutilezas relacionais que afetam de modo emocional profundo a vida daqueles que visam incluir, como bem mostra a cuidadosa pesquisa de Kaiado (2006), que realizou escuta sensível e atenta das vivências escolares de deficientes visuais. Este estudo mostra que, se a questão dos métodos didáticos não pode ser desconsiderada, é preciso perceber que a questão primordial reside, sempre, no reconhecimento da plena humanidade dos portadores de necessidades especiais.

Não obstante, vale aqui notar que nossa pesquisa, por não focalizar nenhuma forma específica de deficiência, mas a criança adotada, que não exige adaptações em termos dos métodos pedagógicos utilizados, pode fazer emergir questões relativas ao "diferente" que dizem respeito mais diretamente às dimensões afetivo-emocionais subjacentes, que podem incluir, em níveis profundos, temores e ansiedades não conscientes, mas capazes de produzir efeitos na dimensão relacional.

 

ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

Entre as diversas linhas teóricas que orientam a psicologia, a psicanálise tem se mostrado uma forma coerente de investigação da subjetividade coletiva, na medida em que seu método propicia acesso às complexidades emocionais e existenciais da dramática humana (Aiello-Vaisberg, 2004; Bleger, 1963). Assim, realizamos o presente estudo ancoradas na expectativa de elucidar aspectos emocionais relevantes, mas eventualmente não conscientes, da prática psicossocial da adoção.

No que tange aos modos ou às técnicas3 pelos quais o método psicanalítico pode ser concretizado, vale dizer, a sessão psicanalítica, a interpretação onírica ou os procedimentos denominados projetivos, elegemos estes últimos, por compreendê-los como mais próximos das exigências necessárias para essa pesquisa. Não obstante, é fundamental acrescentar que não o fazemos segundo uma ótica positivista, que tem na psicometria o seu ideal, mas usando este tipo de procedimento como recurso dialógico, uma vez que adotamos uma perspectiva epistemológica que concebe a produção de conhecimento no contexto da intersubjetividade. Como recurso dialógico, o procedimento projetivo favorece a instauração de um campo propício à comunicação emocional profunda, permitindo que aspectos de vida geradores de ansiedade possam ser abordados de modo relativamente protegido em termos emocionais. Mais especificamente, decidimos fazer uso do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, idealizado por Aiello-Vaisberg (1995, 1997), para a investigação de representações sociais, a partir do procedimento originalmente concebido por Trinca (1976) como instrumento psicodiagnóstico.

Estabelecemos como objetivo da presente pesquisa a identificação de campos psicológicos não conscientes sobre os quais se sustenta o imaginário social de professores em relação à criança adotiva. Os campos psicológicos não conscientes são, segundo Bleger (1963), o ambiente vivencial onde transcorre a experiência de indivíduos e coletivos, sendo que aquela porção menor deste campo, da qual o agente tem consciência, é denominada campo da consciência.

A metodologia consistiu no uso do procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, que, desde uma perspectiva epistemológica intersubjetiva, deve ser compreendido como recurso mediador capaz de facilitar a comunicação, incluindo dimensões emocionais inconscientes. Tratando-se de estudo qualitativo de caráter exploratório, trabalhamos com um grupo constituído por vinte professoras do ensino fundamental, com idade variável entre 25 e 55 anos, metade vinculada a escolas públicas e metade a escolas particulares. Optamos, portanto, pelo uso de amostragem não-aleatória, de tipo intencional, considerando que a maior proximidade com crianças, decorrente do próprio ofício, forneceria o tipo de sujeito representativo e emblemático4 daquilo que circula no imaginário social.

Os encontros com os participantes ocorreram individualmente, através de entrevistas em seus domicílios, de acordo com a disponibilidade do professor. Cada participante foi convidado a desenhar uma criança adotiva e a inventar uma história sobre a figura desenhada, a qual foi escrita pela própria pessoa no verso da mesma folha. Após as entrevistas, elaboramos narrativas do acontecer clínico (Aiello-Vaisberg & Machado, 2005), que incluem tanto as lembranças de detalhes do encontro, tal como foi vivenciado pelas pesquisadoras, como as produções das vinte participantes.

Como material, utilizamos folhas de papel sulfite branco, lápis de cor, lápis preto, borracha, canetas azuis e pretas. Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O material clínico que examinamos constituiu-se pelo conjunto de vinte desenhos-estórias, que se articularam a vinte narrativas do acontecer clínico, narrativas que foram redigidas pelas pesquisadoras após cada um dos encontros. A confecção destas narrativas se fez como trabalho associativo, em estado de atenção equiflutuante, de modo que cada pesquisadora deixava-se invadir não só pelas lembranças do acontecido durante a entrevista, mas também pelas memórias emocionais emergentes (Aiello-Vaisberg, 2005). A análise do corpus composto pelos desenhos-estórias e pelas narrativas foi realizada de acordo com as regras constitutivas do método psicanalítico, tendo em vista a apreensão dos campos psicológicos não-conscientes a partir dos quais se sustentam as representações relativas à criança adotiva. Seguimos os passos recomendados por Herrmann (1979), que distingue três fases do processo metodológico: deixar que surja, tomar em consideração e completar o desenho ou configuração, para analisar o material produzido, tendo em vista a detecção interpretativa dos campos psicológicos temáticos não-conscientes. Deve, portanto, ficar claro, que não operamos segundo um modelo de análise de conteúdo baseado em categorias, mas levamos em conta cada produção como uma totalidade capaz de veicular comunicações sob as quais subjaz um substrato afetivo-emocional não-consciente, que pode ser inferido pelo método psicanalítico.

À guisa de resultados - termo não totalmente adequado para descrever aquilo que pode ser descoberto no contexto de pesquisas clínicas que se realizam a partir de uma perspectiva que pensa a produção de conhecimento, nas ciências humanas, como empreitada que se faz em campo intersubjetivo -, encontramos que o imaginário destes professores organiza-se primordialmente a partir de dois campos temáticos, de caráter psicológico não consciente: "abandono infantil" e "infertilidade".

A questão da infertilidade é invocada, nas produções dos professores, como principal motivação para a adoção. De fato, a adoção aparece como alternativa última para a realização do desejo de maternidade e paternidade, após várias tentativas frustradas de gestação. Assim, a adoção se configura, segundo uma ótica bastante individualista, como solução para o problema do casal, sem levar em conta os carecimentos da criança. Este achado coincide com o que relatam Gagno e Weber (2003), que focalizaram a representação da adoção nas mídias brasileira e francesa, encontrando que esta prática é concebida primordialmente como "alternativa à infertilidade", buscando manter o padrão da família biológica.

"Márcia e Pedro já estavam casados, há dez anos. No início do casamento, optaram por não ter filhos para que pudessem consolidar suas profissões. Tinham sucesso profissional, excelente situação financeira e uma bela casa confortável. No entanto, esta era vazia, fria. Decidiram ter um filho. Porém, Márcia não conseguia realizar o sonho de toda mulher: "Ser Mãe". Foi ao médico, psicólogo e nada. Pedro mais relutante, dizia que o problema era com sua esposa. As brigas começaram. Pedro não aceitava a idéia de ter algum problema. Depois, foi ao médico e ficou constatado um problema. Márcia consolou o marido e disse que não tinha problema, que eles poderiam adotar uma criança. Deus estava mostrando o outro lado - adotar por amor, dizia ao seu marido. Pedro não concordou. Recordava de adoções, em sua pequena cidade, que não deram certo. Márcia a cada dia que passava ficava triste, deprimida e este temperamento afetou seu relacionamento em casa e em sua vida profissional. A situação estava cada vez mais complicada. Pedro começou a chegar tarde em casa. A separação parecia inevitável.Sua vida profissional também não era a mesma.Quando a situação estava insuportável, o amor que sempre existia no casal falou mais alto.Pedro e Márcia deixaram de lado as brigas e sentaram para conversar. Perceberam a crise que estavam enfrentando.Num clima de amor, decidiram adotar uma criança. Após os trâmites legais, trouxeram a criança para casa. Seu nome era Antônio. A paz voltou a reinar naquela casa que já não era fria, vazia. Havia vida. Quando Antônio estava com três anos de idade, uma surpresa: Márcia estava grávida. Pedro havia feito um tratamento. Seu problema foi superado".

O campo do abandono aparece, em nosso material, quando ocorre uma sintonia imaginária entre o participante e a figura desenhada, que se faz em termos de uma sensibilização em relação ao sofrimento, à angústia e às decepções das crianças que esperam por adoção. Nesta linha, aparece, em várias produções, a fantasia de se deparar com uma criança desamparada e sofrida que, ao ser adotada e salva do abandono, traria consigo um benefício para a vida do adotante.

"Havia muitas crianças no lugar onde eu vivia e, todos os dias iam casais nos visitar. Era uma alegria, mas no final eles iam embora e, nos deixavam sozinhos. Isto era muito triste para mim. Tinha dias que esses casais levavam crianças com eles para adoção. Essa era nossa esperança e expectativa. Por isso, que quando eles (casais) iam embora ficávamos muito tristes. Até que um dia, um casal começou a brincar comigo e me adotaram. Fiquei muito feliz. Hoje tenho um lar, um pai e uma mãe que me amam como filho. Mas, ainda fico triste ao lembrar que muitas crianças não puderam ter um fim como o meu. Ficando abandonados e a espera de amor".

Se prosseguirmos numa linha associativa, pode se tornar claro que a articulação entre estes dois campos, infertilidade e abandono infantil, é exatamente o que configura um campo maior, que pode ser precisamente denominado como campo da exclusão insidiosa. Podemos pensar que, como a adoção é feita primordialmente para superar a frustração, torna-se realmente intolerável aceitar uma criança que já tenha memória. Em conseqüência, podemos dizer que a criança é aceita se pairar, em termos fantasiosos, a possibilidade de ser esquecida sua verdadeira origem. A criança é - e não é - filha daqueles pais. Opera-se assim uma dinâmica semelhante àquela que constrói figuras como "o negro de alma branca" ou a do "judeu que nem pareceu judeu". Entretanto, a situação reveste-se de gravidade de certa forma maior, porque ser judeu ou ser negro são atributos de self, mas não o próprio ser, o núcleo ou a raiz do "me" e do "not-me" (Winnicott, 1971).Assim, o modo como a sociedade brasileira se comporta diante da prática de adoção gera pesada carga sobre os ombros da criança adotada. Não nos locomovemos, aqui, num campo de ocorrência de exclusões aparentes, como a internação asilar do louco ou o asilamento de deficientes físicos (De Paula, 2000), mas num campo de sutil banimento da história e da pré-história individual.

Não foram observadas diferenças entre os professores em relação ao fato de trabalharem em escolas particulares ou públicas. Quanto à idade, em função da sua grande variação entre os entrevistados, não foram permitidas extrapolações no estudo acerca dessa diferença.

 

DISCUSSÃO

Tendo-se em vista nossas reflexões, há que fazer uma ressalva importante. Nossa conclusão não deve ser consumida de modo a gerar mais preconceito contra a pessoa adotada. Dizer que os adotados são onerados por viverem no contexto de um imaginário que concebe a adoção como tamponamento da impossibilidade reprodutiva de alguns não significa, de modo algum, que adotados sejam, quando comparados à população geral, fatalmente mais comprometidos do ponto de vista emocional, pois os processos de maturidade emocional são de tal modo complexos, e a potencialidade criadora humana pode assumir tal força, que qualquer tipo de afirmação taxativa deve ser vista com reservas. Não se trata, pois, de usar o termo "adotado" como sinônimo de "emocionalmente comprometido", mas de rever práticas sociais num sentido de favorecer o desenvolvimento de laços humanos mais altruístas, generosos e dignos.

Podemos, assim, finalizar concluindo que coexistem, no imaginário dos professores pesquisados sobre a adoção e a criança adotiva, duas visões até certo ponto antagônicas. De um lado, há indícios de haver uma consciência coletiva capaz de perceber que a existência de crianças disponíveis para a adoção aponta para uma grave problemática social, o que se evidencia quando surge o campo psicológico do abandono infantil. Por outro lado, prevalece uma perspectiva segundo a qual a criança abandonada aí está para resolver o sofrimento daqueles que não têm condições de gerar filhos biológicos. Tais achados nos levam a refletir no sentido de que é urgente uma mudança psicossocial, pois a prática da adoção, em nosso país, acaba se realizando muito mais pelo viés da resolução da infertilidade do que levando em conta os carecimentos radicais da população infantil abandonada. Tal mudança deve incidir, a nosso ver, tanto no plano da consciência social como no das práticas relativas ao cuidado e proteção da criança, que podem incluir estratégias de guarda por parte de pais adotivos que levem em conta, de modo profundo e radical, as necessidades infantis. A problemática da adoção parece desnudar certa contradição relativa à atribuição de marcada afetividade ao brasileiro, pois o quadro geral aponta menos para a generosidade e para o afeto e mais para a prevalência de atitudes narcisicamente autocentradas.

Finalmente, vale acrescentar que a necessidade de negação da história pregressa da criança, por parte dos pais adotivos, é conduta de caráter defensivo, que resulta de sua dificuldade em elaborar o drama da infertilidade. Tal conduta pode ser - e é - perfeitamente compreensível do ponto de vista clínico, especialmente em vertente psicanalítica, mas consiste, de fato, num movimento velado de exclusão da pessoalidade originária do adotado, que, sendo inconsciente, não deixa de carregar em si uma carga de violência.

 

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Endereço para correspondência:
Tânia Maria José Aiello Vaisberg
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Centro de Ciências da Vida
Rua John Boyd Dunlop s/n, Jardim Ipaussurana
CEP 13059-900, Campinas-SP
E-mail: tanielo@uol.com.br

Recebido em 09/05/2006
Aceito em 27/09/2006

 

 

1 Apoio: CNPq e FAPIC.
2 As investigações poderão ser vistas em Aiello-Vaisberg (1994), Aiello-Vaisberg e Camps (2002) e Martins (1998).
3 No paradigma moderno, "técnica" significa um bem fazer independente do estilo pessoal de quem faz. No campo psicanalítico, parece-nos mais coerente, do ponto de vista epistemológico, falar em procedimentos ou recursos, uma vez que não faz sentido pensar em um "saber fazer" independente da pessoalidade do analista.
4 É importante enfatizar que, quando pesquisamos o imaginário relativo a assuntos eventualmente ligados a condutas preconceituosas, é importante encontrar sujeitos capazes de expressão subjetiva que, deste modo, devem ser não apenas representativos, mas também emblemáticos, portando-se como verdadeiros porta-vozes daquilo que nem sempre é enunciado. Este ponto é discutido com profundidade por Machado (1995).