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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.13 no.3 Maringá July/Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722008000300011 

ARTIGOS

 

Viajando com jovens universitários pelas diversas brasileirices: representações sociais e estereótipos1

 

Traveling with students through Brazilian varieties: social representations and stereotypes

 

Viajando con jóvenes universitarios por las diversas naturalidades brasileñas: representaciones sociales y estereotipos

 

 

Angela ArrudaI; Luana Pedrosa Vital GonçalvesII; Sara Costa Cabral MululoIII

IDocente do Departamento de Psicologia Social e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
IIMestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
IIIPsicóloga

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo investigar como a visão dos estudantes sobre as naturalidades brasileiras comparece na representação social do Brasil por meio do estudo de seus estereótipos. Os dados foram coletados com a utilização da técnica de completar frases. Participaram da pesquisa 1.029 alunos do 1º ano de universidades públicas e privadas, de cinco cursos, da faixa etária de 17 a 24 anos, de ambos os sexos, de sete estados brasileiros. As respostas passaram por uma análise de conteúdo categorial temática. Elas indicaram que cerca de um terço dos jovens se recusou a dar respostas generalizantes e hierarquizantes das naturalidades, o que sugere uma visão de um único Brasil apesar de suas diferenças. Por outro lado, mesmo as respostas estereotipadas nos sugeriram um desenho interessante dos brasileiros e dos "Brasis", permitindo identificar um campo estruturado de significações, saberes e informações que expressam suas diversidades, contrastes e desigualdades.

Palavras-chave: representação social, estereótipos, estudantes universitários.


ABSTRACT

Current paper studies how students' vision of natives from different Brazilian states contributes to the social representations of Brazil through the study stereotypes. Data were collected by completive sentences. One thousand and twenty-nine private and public 1st and 2nd year university students, aged 17 to 24, males and females, from seven states of Brazil, took part in the survey. Analysis of material was made through thematic content analysis. Results indicated that around one third of the students refused to give generalizing and hierarchized answers. This fact probably means that their idea of Brazil is of a single country in spite of its differences. However, even the stereotyped answers suggested an interesting idea of Brazilians and of Brazil, in which a structured field of meanings, knowledge and information which expresses its diversity, its contrasts and inequalities, may be identified.

Key words: Social representation, stereotypes, college students.


RESUMEN

Esta encuesta tuvo como objetivo investigar como la visión de los estudiantes sobre las naturalidades brasileñas participa en la representación social del país por medio del estudio de sus estereótipos. Los datos fueron recogidos utilizándose la técnica de rellenar frases. Participaron de la investigación 1.029 alumnos de primer ingreso de instituciones de educación superior de carácter público y privado, de cinco cursos, con edades entre los 17 y 24 años, de los dos sexos, de siete provincias brasileñas. Se recurrió al análisis de contenido categorial para la comprensión de las respuestas. Ellas indicaron que cerca de una tercera parte de los jóvenes se recusó a dar respuestas generalizantes y hierarquizantes de las naturalidades, lo que sugiere una visión de un único Brasil aunque delante de sus diferencias. Por otra parte, aunque las respuestas estereotipadas nos ofrecieron un dibujo interesante de los brasileños y de los Brasiles, permitiéndonos identificar un campo estructurado de significaciones, saberes e informaciones que muestran sus diversidades, contrastes y desigualdades.

Palabras-clave: Representación social, estereótipos, estudiantes universitarios.


 

 

Um dos mitos da brasilidade é o da unidade nacional, apesar de nosso território abrigar diferentes modos de falar, de ser, de viver. A construção do Brasil enquanto unidade, isto é, enquanto nação, como em outros países, foi feita a partir da ação do Estado, e não de que seu povo se sentisse unido por uma mesma origem (Carvalho, 1999).

A nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos (Anderson, 1992), uma abstração simbólica sociocultural e politicamente construída, que permite que um gaúcho se sinta tão brasileiro quanto um amapaense. Alguns trabalhos da psicologia ambiental sobre os vínculos afetivos que os humanos tendem a estabelecer com o lugar (Brown, 1987; Valera, 2002) destacam a ligação territorial como peça importante, mas não única, contribuindo para a construção da idéia de que indivíduos de mesma origem geográfica tenham laços e identidade que os diferenciem dentro de um território como o brasileiro.

Após a tarefa da descoberta e conquista, o governo colonial dividiu o Brasil em um conjunto de capitanias que freqüentemente ignoravam a existência umas das outras (Carvalho, 1999). Várias denominações de naturalidades são muito recentes. Os paulistas já se chamavam assim no final do século XVI. Os pernambucanos, desde antes da ocupação holandesa. No período da independência os baianos eram baienses. O Rio de Janeiro, depois que a família real chegou, era a Corte. Gaúcho era um termo depreciativo, o vagabundo que matava uma vaca dos outros, comia e deixava o resto apodrecendo no campo. Na maior parte do Brasil as pessoas não se pensavam como um povo (Mello, 2003). A forma como estas variações da brasilidade são pensadas atualmente é o interesse desse trabalho, que pretendeu investigar como a visão de um milhar de estudantes sobre as naturalidades brasileiras comparece na representação social do Brasil nas respostas, geralmente apoiados em estereótipos. Naturalidade, no trabalho em questão, é o qualificativo que indica a unidade da federação brasileira em que a pessoa nasceu (Ferreira, s.d.).

Este trabalho faz parte do Projeto Imaginário e Representações Sociais do Brasil, que teve como objetivo, entre outros, estudar o imaginário brasileiro e as representações sociais de jovens universitários a respeito do país.

 

O CONCEITO DE ESTEREÓTIPO E A PERSPECTIVA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

O estereótipo constituiu presença marcante na psicologia social do século XX (Aronson, 1979; Crutchfield, 1971; Krech & Maisonneuve, 1973; Rokeach, 1981; Sherif & Sherif, 1956). Algumas de suas características, para Maisonneuve (1973), são: a uniformidade (ele se difunde de maneira uniforme em um grupo ou população); a simplicidade e pobreza das caracterizações evocadas por ele; a pregnância, que implica graus de adesão variável, chegando até à sua integração a sistemas de valores e de condutas dos sujeitos; o tom afetivo, denotando a ausência de neutralidade; o conteúdo, que abarca indicadores sumários, mas sempre distintivos, que permitem identificar o objeto. Assim, para este e outros autores, todo estereótipo se caracterizaria pela rigidez, esquematismo, tonalidade avaliativa e especificidade.

Não obstante, o conceito de estereótipo na Psicologia Social não é unívoco. Ele oportuniza pelo menos duas propostas principais. A primeira engloba os trabalhos de perspectiva cognitivista, prioriza o tratamento das informações, suas estruturações e processos. A segunda, discursivista, vê os estereótipos como crenças transmitidas pela linguagem e pelos agentes de socialização, o que explicaria o consenso existente em relação aos grupos sociais (Berting, 2001; Böetsch & Villain-Gandossi, 2001).

Adotamos uma perspectiva intermediária, seguindo a Teoria das Representações Sociais, que não considera o individual e o coletivo como antítese, mas sim, como vivendo uma tensão criativa (Farr, 1996). Neste sentido, o estereótipo pode ser entendido como um dos componentes da representação social. São muitas as pesquisas de representações sociais que têm utilizado o conceito de estereótipo para o estudo da discriminação (Echebarría, 1997; Lacassagne, Salès-Wuillemin, Castel & Jébrane, 2001; Moscovici & Perez, 1997; Philogène, 1999), mas elas geralmente não têm se detido nas relações entre estereótipo e representações sociais.

Numa perspectiva mais contemporânea, certos estereótipos estão ligados à construção da alteridade, uma vez que as relações entre o outro e o mesmo são regidas pelas instituições e sistemas de representação e de pensamento (Jodelet, 1998). Por outro lado, os estereótipos não são algo necessariamente negativo. Possuem uma função, ao garantirem uma economia cognitiva, porque simplificam a complexidade de informações a que somos submetidos, permitindo que sistematizemos nossas percepções e nos comuniquemos mais facilmente. Neste sentido, o estereótipo pode ser considerado uma forma reduzida de representação. Ele também funciona como dispositivo de categorização que permite aos grupos a cômoda distinção do "outro" em oposição a si. É a função sociopsicológica de expressar a identificação/inclusão ou alterização/exclusão dos indivíduos numa coletividade de valores comuns, compartilhados por um grande número de pessoas; assim, vai além dos processos cognitivos individuais. Pode expressar e veicular representações, e até objetivá-las. É uma forma de categorização com forte coloração afetiva; é socialmente compartilhado, permite ao grupo organizar uma realidade e influencia os processos de comunicação.

Como as representações, os estereótipos envolvem os aspectos cognitivos, afetivos e pragmáticos de uma coletividade. Eles não estão isolados: assentam-se sobre sistemas de raciocínio, de linguagens, tal como as representações sociais, mas têm um foco mais restrito. O estereótipo não apresenta a mesma complexidade da representação social, que, para elaborar o objeto, agencia um universo de opiniões, juízos, afetos e imagens, como afirmam Moscovici (1978) e Jodelet (2001). A representação se estrutura num campo que contém imagens e modelos articulados e hierarquizados, nem todos da mesma precisão de um estereótipo, embora uma representação social possa dar origem a um estereótipo. Essa, contudo, não é uma relação necessária. Moscovici (1978) acredita que a opinião é uma forma de pensamento pouco estável que incide sobre pontos particulares, um momento da formação de atitudes e estereótipos. Dessa forma, o estereótipo seria apenas uma fatia retirada à substância simbólica longamente elaborada pelos indivíduos e coletividades.

Ao formar uma representação social, os grupos tendem a "criar" realidades que confirmam a validade das explicações e elementos contidos nela. A representação social, ou aspectos dela, podem ser expressos por uma estereotipia quando acontece a naturalização. O estereótipo, então, se torna o concentrado que resulta do processo de representar. Este, por sua vez, ocorre num contexto social, baseado nos sistemas de pensamento do grupo; estereótipos podem incidir sobre tal processo como parte das opiniões, imagens, crenças, elementos culturais, ideológicos, esquemas de categorização etc, (Jodelet, 2001; Vala & Monteiro, 2002), num jogo de co-engendramento.

 

MÉTODO

Participaram da pesquisa 1.029 estudantes universitários do 1º ano de Medicina, Engenharia, Serviço Social, Enfermagem e Pedagogia de universidades públicas e privadas dos estados Pará, Goiás, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, de ambos os sexos (74% feminino e 26% masculino). Os participantes tinham de 17 a 30 anos, mas a grande maioria (77%) tinha até 24 anos.

A opção por universitários deveu-se à necessidade do nível de ensino médio completo para responder ao instrumento. A escolha das carreiras foi feita em função de análises (Silva & Hasnbalg, 2000) do nível socioeconômico dos seus alunos.

Aplicaram-se três questionários: um sobre o perfil do sujeito e dois nos quais se pediu para desenhar, localizar e falar de diversos aspectos do Brasil. O trabalho aqui apresentado refere-se à questão que pedia aos sujeitos que completassem frases sobre cada uma das 27 naturalidades brasileiras, como: "Cearense é..." / "Capixaba é...". Eles podiam preencher as frases na quantidade e forma que quisessem.

Para a análise das respostas foi montada uma matriz de análise de conteúdo categorial temático (Bardin, 2003). A unidade de registro foi a frase. Após a codificação, as respostas foram processadas pelo programa SPSS.

 

BRASILEIRICES DESCONHECIDAS E BRASILEIRICES SOCIOAFETIVAS

Logo chamou a atenção a alta freqüência de respostas em branco ou repetidas em todas as naturalidades (como "brasileiro", "normal", ou "é quem mora em..."), conforme mostra a Figura 1. A freqüência da não-resposta se aproxima ou ultrapassa 50% para 18 das 27 naturalidades. Apenas duas apresentam menos de 20% de não-resposta: baianos e cariocas. Isto sugere, de início, uma dificuldade em preencher a questão, e que ela não seja apenas uma reação ao número de itens a completar, mas também fruto de um razoável desconhecimento.

 

 

O primeiro no ranking da falta de resposta é o potiguar (62%), o que pode ser atribuído ao desconhecimento tanto do natural do Rio Grande do Norte quanto do seu gentílico. No conjunto, a Região Norte concentra alguns campeões dos sem resposta (roraimense, rondoniano e amapaense, todos com mais de 50%). O mesmo sucede com o Centro-Oeste (mato-grossense do sul e mato-grossense). Os naturais dos estados interioranos, portanto, provocaram o silêncio dos participantes da pesquisa. Já o Nordeste, região de outros campeões (potiguar, piauiense, e sergipano, todos acima de 50%), apresenta naturalidades com baixo índice de respostas em branco: os baianos (18,2%) e os cearenses (22,2%), como no Norte os amazonenses (35,9%).

No Sul-Sudeste se destacam o capixaba (51%), cujo gentílico apresenta a mesma característica comentada para o potiguar, e o mineiro (25,9%). Em contrapartida, como no Nordeste, aí estão as naturalidades com menos respostas em branco: carioca (18%), paulista (23,4%), mineiro (25,9%) e gaúcho (29,3%).

A categoria "ignoradas" reuniu declarações como "desconheço", "não sei", podendo beirar a menos-valia, como "um ninguém", "indiferente", "não fede nem cheira". Ela vem coroar, sobretudo, algumas naturalidades das regiões Nordeste (potiguar, piauiense) e quase todas as do Norte. No Sudeste se destaca o capixaba e no Centro-Oeste o mato-grossense. As naturalidades potiguar e capixaba possivelmente receberam esse qualificativo devido ao que já foi comentado.

No pólo oposto, as naturalidades mais destacadas, que foram menos deixadas em branco, são: carioca, baiano, cearense, paulista, mineiro, gaúcho, brasiliense. Elas apresentaram maior densidade socioafetiva, com mais respostas como legal, triste, trabalhador, valente, calmo etc. Esse mapeamento das brasileirices remete-nos à questão do conhecimento, da informação como uma das dimensões da formação dos estereótipos. O peso da dimensão afetiva parece confirmar sua preponderância na estereotipia, provavelmente generalizando, neutralizando, ou enviesando a informação.

Os dados não apenas chamam a atenção para a existência de um grande Brasil provavelmente desconhecido; eles sugerem a existência, nessa população, de grupos que se posicionam diferentemente diante das brasileirices: um que entra no jogo fazendo atribuições de traços salientes a cada naturalidade (68,5% dos 1029), fruto da seleção e acentuação típicas do estereótipo, como dizia Maisonneuve (1973); outro que não entra no jogo, seja por desconhecimento, seja por desafiliação deste tipo de proposta (cerca de 30% dos participantes).

O grupo que não diferencia as naturalidades ou deixa as respostas em branco também interessa nessa discussão. Esta reação à atribuição de características estereotipadas às naturalidades às vezes parece expressar fórmulas do "politicamente correto" ("é como os outros", "é normal"), mas também sugere o que Maisonneuve (1973) denominou de campo de aceitação do estereótipo, que permitiria perceber as linhas de estratificação social e as zonas de afiliação a ele. Um conjunto de estudantes, por alguma razão, teria se recusado a afiliar-se, preferindo colocar as naturalidades em termos de origem geográfica ou de normalidade, sem atribuir-lhes caracterizações simplificadoras e genéricas, que reforçam de forma caricatural as diferenças.

Os traços atribuídos às naturalidades estabelecem uma divisão imaginária do Brasil: as brasileirices menos comentadas, sobretudo no interior, e as que recebem mais características nos espaços foco de maior investimento, densidade populacional e poder. Com raras exceções, como o Distrito Federal, estes espaços se situam no litoral, porta de entrada do país historicamente. Esse Brasil "mais conhecido" corresponde aos mais antigos e maiores núcleos de colonização (Prado Jr., 2000). Em contraposição, as naturalidades omitidas estão nas áreas por longo período descritas como vazias, territórios a serem explorados, em representações do país como não-integrado. Esse modelo de Brasil está na nossa memória social e parece ter emergido nestas respostas.

 

BRASILEIRICES EM CONTRASTE: O NORTE E O SUL

O desenho da organização das características atribuídas apresenta outra linha imaginária dividindo o Brasil em Norte e Sul, habitado por brasileirices contrastantes. As respostas indicam três divisões que marcariam esta bipolaridade (ver Figura 2):

 

 

a) Uma divisão étnica - a identificação "índio", "descendente de índio", "quase um índio", aconteceu sobretudo com as naturalidades do Norte (amazonense, acreano e amapaense). O "mestiço/moreno" - "caboclo", "pardo" - aparece nos naturais desses estados e do Maranhão. Os "brancos" também chamados de "um povo branco demais", "branquelo", são mais identificados aos naturais dos estados da Região Sul: catarinenses, paranaenses e gaúchos. Já os "negros" - "descendente de negro", "preto", "sarará" - apesar de pequena expressão numérica, só são identificados por uma naturalidade: os baianos. Mineiro, paulista e brasiliense não receberam nenhuma categorização étnica. Temos, então, uma nítida divisória aqui: negros e índios, sobretudo no Norte, e brancos mais presentes no Sul.

b) Uma divisão socioeconômica - "Rico", "civilizado", "moderno", caracterizam sobretudo os naturais do Sudeste e Sul: paulistas, catarinenses e paranaenses. "Pobre", "miserável", "excluído", qualificam os representantes do Norte e Nordeste: cearenses, acreanos, piauienses, amazonenses, maranhenses e paraibanos. Enquanto os "pobres" estão no Norte, os "ricos" estão no Sul. A bipolaridade ricos e pobres vem se sobrepor, assim, àquela entre brancos e não brancos - índios, negros e mestiços.

c) Uma distinção física - Características físicas depreciadas ("cabeça chata", "feio", "pé-rachado") foram destacadas para os cearenses e paraibanos, e ausentes entre os naturais dos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Nota-se a prevalência da Região Sul quando se trata de beleza, ausente nas respostas sobre cearenses, alagoanos, piauienses e paraibanos.

Com "feios" no Norte e "bonitos" no Sul, fecha-se a tríplice divisão em dois Brasis: um, do povo pobre, negro, índio ou mestiço, e feio, no Norte; outro, rico, branco e bonito, no Sul. A diversidade das brasileirices, assim, recobre, além da especificidade de cada naturalidade, a visão da condição desigual dos brasileiros, apelidada de Belíndia, devido ao convívio da riqueza da Bélgica com a miséria da Índia.

 

BRASILEIRICES SINGULARES

As brasileirices mais destacadas são singulares devido ao tipo de categorização que recebem e à exclusividade desta. Ressaltamos quatro eixos de diferenciação: o psicossocial, o cultural, o instrumental e o ético-político.

Brasileirices segundo o "temperamento"

O eixo de categorias intitulado "aspectos socioafetivos" foi o mais presente. Caracterizar as naturalidades, assim, passa antes de tudo pelo crivo psicossocial. A individualização da naturalidade provocada pela pergunta facilita esse tipo de olhar, mas não explica a distribuição desigual destes aspectos entre as naturalidades. A Figura 3 mostra as principais características que foram destacadas para algumas naturalidades

 

 

Embora os naturais de todos os estados sejam considerados como alegres - risonho, contente - são os baianos, cariocas, cearenses (entre 10 e 20%), pernambucanos e maranhenses (entre 5 e 10%) os mais freqüentemente vistos assim. Ser acolhedor (agradável, meigo, gentil) também caracteriza os brasileiros de todas as latitudes, mas há os mais acolhedores: os baianos, pernambucanos, cariocas e cearenses, junto com os goianos. A tranqüilidade (que pode aparecer como lerdeza) caracteriza mais fortemente o mineiro e baiano (ambos em torno de 20%): "na sua", "calmo". Os mais virtuosos/esforçados (persistentes, trabalhadores) foram os paulistas, gaúchos e paranaenses.

A presença generalizada dessas quatro características sugere que elas provavelmente compõem o núcleo da representação social do brasileiro para essa população. A representação social atua na construção da realidade do grupo e possui funções identitárias. Por estar em constante mudança, a identidade social leva o grupo a se definir em relação ao objeto e ao Outro, e a representação social funcionaria, nesse processo, como "imagens de ligação" que estariam no centro dos processos identitários. O fato de as naturalidades valorizarem determinadas qualidades reforça a idéia de sua conotação identitária provir do conhecimento da pertença a um grupo social, associada ao valor (geralmente positivo) e ao significado emocional dessa pertença para ele (Baugnet, 1998). Ao mesmo tempo, a repartição desigual dessas qualidades apontaria para a existência de brasileiros "mais brasileiros" do que outros?

Quais as características mais exclusivas ou específicas de poucas naturalidades? A primeira é ser desagradável. "Arrogante", "sisudo", "insuportável", e caracterizam principalmente os paulistas (mais de 20%), cariocas e brasilienses (em torno de 15%), oriundos de centros de poder no país; mas também os gaúchos e catarinenses em menor proporção. Os 'campeões da antipatia', portanto, são provenientes de estados cujo status na federação é privilegiado de alguma forma - política, econômica ou cultural. O paulista é visto ao mesmo tempo como o mais trabalhador, o brasiliense como detentor de poderes políticos, o carioca como "bom de papo", o gaúcho e o catarinense como "ricos, inteligentes e bonitos". Essa junção de diferentes dimensões compõe uma relação entre poder e arrogância. O estereótipo como um componente da representação social não se relaciona somente ao conhecimento que se tem sobre a naturalidade, mas envolve em grande medida os afetos por ela despertados. Os julgamentos associados aos estereótipos não se constroem pelo simples tratamento cognitivo das informações veiculadas a respeito dos estados e suas gentes, mas mostram que os indivíduos do grupo se sentem pessoalmente envolvidos (Marques & Paez, 2002). Até que ponto estas presunções se baseiam na experiência vivida dos sujeitos e circulam na cultura quanto à correspondência entre poder e arrogância?

A reunião dos valentes e violentos ("destemido", "machão"), embora pouco importante quantitativamente, é específica dos gaúchos (cerca de 10%), paraibanos, cearenses e alagoanos (até 5%). "Sangue quente", "cabra da peste", "arretado" foram privilégio dos nordestinos, com destaque para os paraibanos. Já "violento", "brigão", "pistoleiro", "matador" identificaram o alagoano. Seriam essas denominações fruto de uma memória social que inclui as brigas de clãs em Alagoas e no Ceará?

A categoria "malandro" também expressa ambigüidade. Atribuída sobretudo a cariocas (14,3%) e mineiros (8,2%), mostra o carioca como herdeiro do termo clássico, enquanto o mineiro é visto mais como sonso, sorrateiro ou silencioso. Ser "sensual/sedutor", qualidade ressaltada por estudiosos (Freyre, 1992) e presente na imagem do brasileiro concebida pelos estrangeiros, foi pouco freqüente (cinco naturalidades, todas em torno de 1%). Para esses jovens esta não aparece como uma característica definidora dos brasileiros. Os "grupos marginalizados/diferentes" foram associados sobretudo aos gaúchos, principalmente com respostas como "gay", e aos piauienses, com a caracterização de "sofredor" e "triste". Estas qualificações, de alto teor afetivo-avaliativo, referem a construção de naturalidades como alteridades.

Assim, as brasileirices vistas pelo ângulo socioafetivo apontam ao mesmo tempo para qualidades e defeitos. Uma parte das primeiras é amplamente compartilhada, indicando um possível componente do núcleo da representação social do brasileiro para esses jovens - a alegria, a hospitalidade, a tranqüilidade e o esforço. Já os defeitos e as qualidades ambíguas vão caracterizar naturalidades específicas, confirmando a variedade de possibilidades psicológicas para os brasileiros. Características opostas às mais comuns - desagradável, arrogante, fechado - são encontradas nos lugares agraciados com um status superior em termos políticos, econômicos ou culturais. Por sua vez, algumas características ambíguas, como a que situa naturalidades entre grupos socialmente marginalizados, ou as associa a aspectos criticáveis da política, são bastante pontuais. A memória social parece ter um papel neste tipo de categorização. Ao mesmo tempo, características que marcaram a imagem do brasileiro no passado, como a sensualidade, a malandragem, aparecem em baixa ou reduzidas a espaços restritos. O julgamento positivo ou negativo das naturalidades depende do lugar de onde o sujeito fala, ou seja, do seu grupo. Assim, a lentidão é vista positivamente pelos próprios baianos e negativamente pelos de outros estados. Os sujeitos de São Paulo foram os únicos que se auto-atribuíram qualificativos como estressados e muito apressados. Observamos aí jogos identitários e de alteridades na oposição rápido/lento.

Brasileirices da tipicidade

Considerando-se as respostas que ressaltam as características culturais típicas de regiões ou estados, os mais lembrados foram os gaúchos e os mineiros, com destaque especial à "culinária": "bom de chimarrão", "amante do churrasco" e "pão de queijo". Em seguida, o baiano é destacado por festas, músicas e danças ("regueiro", "bailarino de samba"). Também são identificados por essa manifestação cultural, embora de forma menos significativa, o maranhense, o pernambucano e o carioca. O goiano é ressaltado pela "cultura do interior", como o amazonense, mineiro, potiguar. Já quando se trata de "linguagem, fala típica" ("oxente", "sotaque puxado", "tchê"), os indicados foram do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.

Por fim, apesar de pouco quantitativas, as naturalidades mais relacionadas à natureza são a amazonense, a carioca e a catarinense, reafirmando a relevância da floresta amazônica e das praias, encontradas em outras respostas do questionário. A distribuição dessas características entre as naturalidades está ilustrada na Figura 4.

 

 

Brasileirices instrumentais

Outro eixo de classificação das naturalidades foi o das "ocupações". Situado fundamentalmente na região Centro-Oeste, associa-se à agropecuária (mato-grossense, mato-grossense do sul e goiano, todos em torno de 5%). As demais atividades foram inexpressivas: o extrativismo do amazonense; a produção cultural do pernambucano; a indústria do paulista; e atividades ilícitas dos cariocas, possivelmente pelas informações sobre tráfico de drogas e violência veiculadas nos meios de comunicação.

Brasileirices ético-políticas

O último eixo, apenas residual, destaca "aspectos negativos relacionados à política": "corrupto", "marajá" e "politicamente incorreto", atribuídos a brasilienses e alagoanos. O espírito crítico de parte dessa população se manifesta aqui, ainda que muito modestamente. A memória recente da vida política do país inspiraria tais atribuições.

Sintetizando

As brasileirices mais destacadas se singularizam segundo ângulos diferentes, sistematizados em quatro eixos diferenciadores: o socioafetivo, o cultural, o instrumental e o ético-político. O primeiro, mais denso, é pregnante na definição das naturalidades, sobretudo aquelas provenientes dos estados mais conhecidos.

As naturalidades nordestinas, como a do carioca, são consideradas as mais alegres, acolhedoras e tranqüilas, expressão da dimensão socioafetiva positiva encontrada nos trabalhos de Domínguez (1993) e Montero (1993) sobre os venezuelanos. Tais pesquisas referem também a dimensão moral e sua bipolaridade, positiva (honesto e confiável) e negativa (desonesto, oportunista), que se relaciona ao nosso eixo ético-político, denominação de Sawaia (1995) e que possui sua expressão no brasiliense e no alagoano. Com efeito, os aspectos negativos da política (corrupção, descaso, incompetência das autoridades) são os distintivos dessas naturalidades.

Já os naturais do Centro-Oeste, interioranos, são identificados sobretudo pelas atividades ligadas à agropecuária. Os da Região Norte, que apresentam a menor densidade socioafetiva, também não se destacam em nenhum outro aspecto. Outros se destacam por aspectos da cultura: mineiro, gaúcho, baiano e goiano. Os menos conhecidos são os mais distantes dos grandes centros onde se sabe pouco sobre como é a sua gente e mais sobre suas belezas naturais e culturais. Observa-se que uma parte das características ressaltadas nas naturalidades está ligada aos sentidos, ao corpo, como a culinária, dança, música, fala, sugerindo que a identidade dos brasileiros, no que se refere à cultura, seja, ao menos em parte, "corporificada", passe pelo corpo, já que não ganharam ênfase características culturais de outro tipo, como as lendas, mitos, crenças. Teria a sensualidade se transferido para o terreno da cultura, deixando de ser uma disposição ou essência dos brasileiros?

As brasileirices singulares, destarte, são naturalidades que ganharam um destaque socioafetivo bem-delineado, ou a identificação por características de um outro eixo, adquirindo um perfil singular entre as demais. Esta conjugação pode provir de um maior conhecimento, informação, familiaridade ou afeto - (des)afiliação ao estereótipo, (des)apreciação, (des)aprovação - em relação a essas populações.

 

CONCLUSÃO

Os dados nos permitiram formular mais do que meras listas de estereótipos: ofereceram um desenho que contribui para a composição da representação do próprio Brasil. Esses estereótipos fazem parte dos modelos e imagens que compõem o campo da representação; são objetivações constituídas através do processo da seleção e da naturalização de características das naturalidades. Não obstante, o somatório deles, por si só, não nos permitiria contemplar tal campo, pois subtrai o caráter organizado, hierarquizado e articulado, que configura a teorização leiga sobre o objeto. Eles emergem de um contexto (histórico, político, informacional) e são, ao mesmo tempo, expressão da "impregnação afetiva da qual os elementos da representação são objeto" (Campos & Rouquette, 2003, p. 4), dando indício de que a dimensão afetiva tem um papel organizador da representação, e não somente disparador. Ela contribui para a hierarquização e estruturação do campo da representação, repartindo o Brasil em diferenças e fincando divisórias, como se viu. Os modelos, imagens e classificações presentes nos discursos desses jovens se entretecem na rede de significações, saberes e informações que expressam diversidades, contrastes, hierarquias e desigualdades para mostrar os vários Brasis e suas brasileirices, ricas e pobres, bonitas e feias, brancas e pretas. Elas objetivam um país paradoxal, contrastado, e o desejo ambíguo dos jovens, que identificam os males da desigualdade, da urbanização desordenada, e expressam o estereótipo dos feios, pobres e pretos acantonando-os nas regiões mais desfavorecidas do país, não sabemos se produzindo ou acolhendo esta alteridade. Os estereótipos, ao serem parte de representações sociais mais amplas, não são uma generalização absoluta. Aliás, uma razoável proporção destes mesmos jovens até recusa tais classificações, como de resto quaisquer outras que encerrem as diferenças num mesmo pacote que não o de que são todos brasileiros. A igualdade na diversidade seria, então, o porto seguro das diversas brasileirices?

 

REFERÊNCIAS

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Agradecimentos

Agradecemos a todos da equipe do Projeto Imaginário e Representações Sociais do Brasil, que nos auxiliaram a produzir esse trabalho.

 

 

Endereço para correspondência:
Luana Pedrosa Vital Gonçalves
Av. Atlântica, 1186/601, Copacabana
CEP 22021-000, Rio de Janeiro-RJ
E-mail: luavital@globo.com

Recebido em 09/05/2006
Aceito em 27/09/2006

 

 

1 Apoio: FAPESP, FCC, FUJB e CNPq.