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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.15 no.2 Maringá Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722010000200021 

ARTIGOS

 

Práticas da psicologia clínica em face do sofrimento psíquico causado pelo desemprego contemporâneo

 

Psychology clinical practices towards psychological suffering caused by contemporary unemployment

 

Prácticas de psicologia clinica frente al sufrimiento psíquico causado por el desempleo contemporáneo

 

 

Daniel AbsI; Janine Kieling MonteiroII

IPsicólogo, Mestre em Psicologia, Doutorando em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul–UFRGS
IIDoutora em Psicologia, Professora na Graduação e no Mestrado em Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo-RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo objetivou compreender as práticas da Psicologia Clínica em face do sofrimento psíquico causado pelo desemprego contemporâneo. Para tanto, foram entrevistados 8 psicólogos da região metropolitana de Porto Alegre, abordando os seus entendimentos sobre as temáticas de trabalho e desemprego, as suas consequências para a subjetividade dos pacientes, as intervenções utilizadas, o auxílio da abordagem teórica nessas intervenções e as possíveis contribuições da Psicologia em relação ao fenômeno estudado. Foi realizada análise de conteúdo para os dados coletados. Os enunciados foram agrupados em quatro temáticas, com as respectivas categorias: Trabalho, Desemprego, Intervenções sobre o desemprego na clínica e Lugar da Psicologia em face do desemprego.  Os enunciados destacaram a falta de operadores clínicos para se lidar com esse fenômeno. Concluiu-se que o desemprego é uma temática da clínica psicológica contemporânea, e que esta necessita produzir operadores capazes de, na clínica, dar conta de fenômenos contemporâneos que estão emergindo, como o desemprego. Concluiu-se igualmente que são necessários mais estudos abordando essa temática.

Palavras-chave: Desemprego; psicologia clínica; saúde mental.


ABSTRACT

This paper aims at understanding the practices of Clinical Psychology towards psychological suffering caused by contemporary unemployment. To this end, eight psychologists from Porto Alegre outskirts were interviewed. They were asked about their understanding of issues regarding work and unemployment and consequences to patients' subjectivity, intervention practices they used and the relationship of these interventions to theories and possible contributions of psychology towards the phenomenon under scrutiny. Content analysis was used to study the data collected during the interviews.Psychologists' utterances have been divided in four groups based on the following categories: work, unemployment, interventions towards unemployment and psychology's contributions to unemployment. The author concludes that clinical psychology needs to prepare professionals who are able to deal, in their clinical practices, with ever emerging contemporary phenomena  such as unemployment. It is also highlighted that more investigations on this area of study are necessary.

Key words: Unemployment; clinical psychology; mental health.


RESUMEN

Este estudio tuvo el objetivo de comprender las prácticas de Psicología Clínica frente al sufrimiento psíquico causado por el desempleo contemporáneo. Para tal, fueron entrevistados 8 psicólogos de La región metropolitana de Porto Alegre, abordando sus entendimientos de las temáticas de trabajo y desempleo, consecuencias estas para la subjetividad de los pacientes, intervenciones utilizadas, auxilio del abordaje teórico en estas y posibles contribuciones de la Psicología frente al fenómeno estudiado. Fueron realizados análisis del contenido para los datos colectados. Los enunciados fueron agrupados en cuatro temáticas, con sus respectivas categorias: Trabajo, Desempleo, Intervenciones sobre el desempleo en la clínica y lugar de la Psicología frente al desempleo. Los enunciados destacaron la falta de operadores clínicos para lidar con ese fenómeno. Ese estudio concluyó que el desempleo es una temática de la Clínica Psicológica contemporánea, y que hay una necesidad de producirse operadores que den cuenta, en la clínica, de fenómenos contemporáneos que están emergiendo, como el desempleo, y que más estudios son necesarios acercándose a esta temática.

Palabras-clave: Indicadores de bienestar; organización; instrumento.


 

 

Este estudo objetiva entender como os psicólogos clínicos compreendem o desemprego e intervêm, na sua prática clínica, em relação a esse tema. Entende-se que existe um sofrimento específico relacionado à categoria trabalho justamente na situação de não trabalho ou desemprego. Acredita-se ser pertinente aprofundar os estudos nesta área e compreender as práticas que estão ocorrendo relativamente a essa temática.

Para tanto, fez-se necessária a intersecção de dois campos tradicionais da Psicologia: o que aborda o trabalho e o que contempla os processos de saúde e doença.  As dificuldades na pesquisa com esses campos distintos se encontram, neste caso, tanto na definição de desemprego, que se traduz como fenômeno contemporâneo complexo, quanto na pluralidade que caracteriza a Psicologia Clínica. Espera-se, com a execução desta pesquisa, contribuir para a elaboração de intervenções futuras com esse público. 

 

TRABALHO E DESEMPREGO

Para o desenvolvimento deste estudo, entendemos o trabalho como um termo polissêmico e que exige pesquisa continuada em face das transformações velozes que a temática experimenta (Santos, 2000). Uma das perspectivas possíveis, em tal diversidade de sentidos, é a abordagem do trabalho como central ao ser humano. São autores que postulam essa abordagem, como Christophe Dejours (1992) e, com outros  posicionamentos teóricos e metodológicos, como Wanderley Codo (2004), que traduzem da melhor forma o sentimento dos desempregados.  Tais fundamentações foram abordadas nos estudos de Santos (2000), Coutinho e Jacques (2004) e Ackermann et al. (2005) sobre o desemprego. Apesar de Dejours (1992) e Codo (2004) apontarem perspectivas teóricas diferentes sobre o trabalho  e a saúde mental, salienta-se que a centralidade é um elemento que os aproxima. O desemprego, como é tratado neste estudo, é um fenômeno complexo que somente a partir da década de 1930 é que surge, realmente, com o status de uma categoria de representação. Ele se complexifica com as novas tecnologias, a reestruturação produtiva, o trabalho informal e a mudança do perfil do trabalhador, tornando-se de difícil definição.

Estudos recentes apontaram o desemprego como relacionado a desfechos clínicos como a depressão (Gallo et al., 2006; Stankunas, Kalediene, Starkuviene & Kapustinskiene, 2006) ansiedade (Comino et al., 2003; Stankunas et al., 2006; Syed et al., 2006), baixo sentimento de bem-estar (Carrol, 2007; Kennedy & McDonald, 2006) e o transtorno bipolar ( Bowden, 2005; Lima, Tassi, Novo & Mari, 2005), entre outras psicopatologias.  Este quadro, por si só, justificaria a inserção desta temática numa discussão do âmbito da Clínica Psicológica.

Consideramos necessário, para este estudo, que as reflexões sobre a saúde mental do desempregado se façam para além de uma perspectiva epidemiológica, evidenciando a necessidade de uma clínica psicológica que se amplie nas forças e tensões que compõem o trabalho humano contemporâneo, a fim de dar conta dos seus efeitos. No entanto, a inexistência da categoria trabalho na prática clínica pode ser compreendida como uma fragilidade no entendimento e tratamento de diversas psicopatologias. O que se compreende, no mesmo sentido que Jacques e Codo (2002), é que as ações entre a clínica psicológica e o trabalho deveriam ser mais articuladas.

Não obstante, foi a busca por articuladores teóricos que trouxessem, à luz da clínica, a problemática do desemprego, que pautou a pesquisa e as reflexões aqui apresentadas. A escassez de trabalhos dedicados ao tema e as fronteiras rígidas dos campos de atuação do psicólogo, em que a Psicologia Clínica não poderia ter o desemprego como foco de pesquisa e intervenção, apresentaram-se como obstáculos a serem superados.  A construção do problema de pesquisa perpassou esses desafios e focou o entendimento desses profissionais a respeito do que é o trabalho e o desemprego e de como poderiam intervir em relação a estes fenômenos.

O objetivo principal deste estudo foi compreender as práticas clínicas da Psicologia relacionadas ao sofrimento psíquico causado pelo desemprego, e os objetivos específicos foram descrever como o trabalho e o desemprego estão sendo entendidos pelos psicólogos clínicos e que intervenções estão sendo produzidas por eles.

 

MÉTODO

Delineamento

Esta pesquisa é um estudo de caráter exploratório e descritivo. Utiliza-se de uma perspectiva qualitativa para o desenvolvimento dos objetivos propostos. Seu planejamento foi flexível, possibilitando o abarcamento de questões variadas da clínica em face do desemprego, e isto pode proporcionar aos estudos posteriores a constituição de hipóteses e a familiarização com o tema (Gil, 2002).

Participantes

Participaram oito psicólogos clínicos, com dois a vinte e sete anos de formados, dois a vinte anos de prática clínica e vinte e sete a cinquenta e dois anos de idade, sendo sete do sexo feminino e um do sexo masculino. Cinco deles exercem a prática clínica em caráter particular, em consultório próprio ou alugado, um deles a exerce na rede pública de saúde, um trabalha em convênio com empresas e um atua clinicamente numa organização não governamental. Quanto às orientações teóricas, três afirmaram seguir orientação psicanalítica, dois atuam com a terapia cognitivo-comportamental, um com a psicoterapia transpessoal, um com orientação humanista e um  com orientação esquizoanalítica.

A pesquisa foi realizada na região metropolitana de Porto Alegre e os participantes foram selecionados entre os profissionais registrados no Conselho Regional de Psicologia (CRP/07) do Rio Grande do Sul. O convite foi realizado por conveniência e os participantes foram contatados por meio de instituições de formação ou por indicação de colegas. Foi utilizado como critério de inclusão estar regularmente inscrito no CRP/07 há pelo menos dois anos e possuir formação na área clínica e/ou estar atuando na clínica há no mínimo dois anos. O fato de atenderem ou não desempregados foi desconsiderado, por se compreender que a temática desemprego está presente em variadas situações clínicas, podendo ser parte de relatos de trabalhadores empregados ou mesmo de familiares de desempregados.

Procedimentos éticos

Por ocasião da realização da entrevista, os psicólogos foram convidados a participar na pesquisa e claramente informados de que sua contribuição ao estudo era voluntária, podendo ser interrompida em qualquer etapa, sem nenhum prejuízo. Também preencheram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Informado. Todos os cuidados foram tomados para garantir o sigilo e a confidencialidade das informações e preservar a identidade dos participantes. Foram disponibilizados aos participantes os resultados desta pesquisa e observadas as questões éticas inerentes a pesquisas com seres humanos conforme prevê a Resolução do Ministério da Saúde N.º 196/96. Esta pesquisa foi encaminhada ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e aprovada sob o número  CEP 07/039.

Procedimentos de coleta de dados

Os participantes foram contatados por intermédio de instituições de formação, ou por indicação de colega já entrevistado, e depois de confirmada a disponibilidade para colaborar com a pesquisa foi agendada uma entrevista. Esta foi conduzida de forma semiestruturada, a fim de proporcionar aos participantes inteira liberdade ao exporem suas perspectivas. As entrevistas foram gravadas e transcritas para fins de análise.

As questões que nortearam a entrevista foram desenvolvidas a partir dos objetivos propostos e compreenderam o entendimento, na prática clínica, do trabalho, do desemprego e das consequências destes para o sujeito/paciente. Também foram colocadas em pauta as intervenções utilizadas em face desse fenômeno, quanto a teoria ajudava nelas e o que o psicólogo apontava como razões para a pessoa permanecer desempregada sem conseguir realocação. Proposições de como a Psicologia poderia intervir em relação a esse fenômeno constituíram a última questão.

Procedimentos de análise dos dados

Para análise dos dados foi utilizada a análise de conteúdo (Bardin, 1977). O método consiste em três fases: descrição dos enunciados discursivos, inferência de hipóteses e categorias e interpretação, por fim, os resultados encontrados pela dedução sobre elementos simbólicos e valorativos (Bardin, 1977). As fases foram realizadas pelo pesquisador.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os enunciados foram agrupados em quatro temáticas, elaboradas a partir dos discursos: Trabalho, Desemprego, Intervenções sobre o desemprego na clínica e Lugar da Psicologia diante do desemprego.  Em cada uma delas os enunciados estão agrupados em subcategorias.

Trabalho

Nesta temática encontram-se todos os conteúdos manifestos pelos participantes referentes às vivências e concepções do mundo do trabalho, excluindo-se os diretamente relacionados ao desemprego. Destes, derivaram duas categorias: o trabalho como necessidade e o trabalho como sofrimento.

O trabalho como necessidade foi abordado pelos participantes como fonte de três elementos: sobrevivência, desenvolvimento pessoal e bem-estar psicológico. A sobrevivência alude ao trabalho como fonte principal de subsistência: "O trabalho não é um lazer, é subsistência. Se não trabalhar, vai viver do quê?" O desenvolvimento pessoal se refere às redes de relação, convívio e inserção social que se estabelecem a partir do trabalho. Estas relações foram relatadas como essenciais pelos participantes ao desenvolvimento pessoal do indivíduo: "(...) no trabalho (...) teus colegas às vezes se estendem como amigos. O trabalho se estende para além da firma e vira festa, convivência. Sem a firma, você não percebe nada das suas potencialidades."

O bem-estar psicológico agrupa sentimentos como autoestima e autoconfiança dos indivíduos nas suas capacidades, os quais são compreendidos como importantes e advindos da relação do homem com o seu trabalho.

O trabalho como sofrimento refere-se ao impacto que exerce, causando intenso sofrimento nas relações familiares e sociais e nas condições físicas e emocionais, conforme os enunciados dos participantes:

Ele (paciente) tem problemas com o chefe, com os colegas... sabe? Então chega em casa e briga com a mulher"; "O stress e o abalo com as condições de trabalho é tanto hoje em dia, que gera problemas sérios até na saúde física.

Os resultados encontrados apontaram para vivências do trabalho relativas, principalmente, à necessidade e ao sofrimento. Essas vivências  são compreendidas como desprovidas de prazer: "O trabalho é mais um fator de ansiedade do que propriamente dito um fator de prazer."

Os relatos dos participantes se aproximam das discussões sobre o sofrimento no trabalho e fazem referência ao tripalium (origem do termo trabalho), que era um instrumento de três pés destinado a torturas e o lugar onde se colocam os bois para serem ferrados (Santos 2000).  Já o impacto nas relações familiares e sociais, expresso pelos psicólogos entrevistados, também é descrito por esse autor como vergonha, impotência sexual, culpa, solidão, humilhação, tristeza e depressão (Santos, 2000). 

Numa análise dos enunciados, as necessidades descritas - de sobrevivência, desenvolvimento pessoal e bem-estar psicológico - puderam ser hierarquizadas. A sobrevivência aparece nos enunciados como um nível de subsistência sem o qual não podem ocorrer nem o desenvolvimento pessoal nem o bem-estar psicológico. O desenvolvimento pessoal aponta as diversas formas de relacionamento interpessoal, convívio e inserção numa rede social que o trabalho propicia. O bem-estar psicológico pode ou não ocorrer com a existência das duas categorias anteriores, pois se refere principalmente ao desenvolvimento da auto-estima como consequência do reconhecimento do trabalho, do sentido do trabalho, da subsistência garantida e do bom relacionamento interpessoal: "A mulher reclama e os filhos também de não terem as coisas e ele se percebe  cada vez menos homem."

O trabalho como sofrimento e o trabalho como necessidade não são categorias excludentes entre si, tanto que todos os participantes apontaram aspectos das duas, o que pode implicar na vivência do trabalho como algo necessário, imprescindível, e ao mesmo tempo sofrido. Outra implicação são as intervenções relativas a essa vivência, as quais, ao mesmo tempo em que tentam restituir o trabalho, porque o entendem como necessário, procuram também minimizar seus efeitos, porque compreendem que estes são danosos.

Desemprego

Nesta temática estão os conteúdos manifestos pelos participantes como vivências e concepções do desemprego percebidos nas suas práticas clínicas. Os conteúdos referem-se a: vivências de caráter positivo do desemprego, vivências de caráter negativo do desemprego e causas do desemprego.

As vivências de caráter positivo do desemprego são percepções de experiências do desemprego apontadas como benéficas ao desenvolvimento do sujeito. São vistas como: agente de mudança na vida dos pacientes - "(...) tem gente que fica desempregada e não se atira ao mar, muda de vida e vai em busca de outra profissão que lhe dê algum lugar ao sol" - e/ou como gerador de autonomia - "(...) tem muita gente que aprende a se virar sozinha, sem patrão, e acha isso muito bom."

As vivências de caráter negativo do desemprego estão relacionadas às percepções dos entrevistados sobre o desemprego como fonte de sofrimento e psicopatologias. O desemprego é visto pelos participantes como uma vivência de desamparo, de exclusão, de falta de perspectiva, de intenso medo e receio  e de despotencialização de capacidades: "(...) acho que é como perder o chão, sem saber para onde ir ou o que fazer com a sua vida, pelo menos assim eu tenho escutado na clínica"; "tem medo de entregar currículo, de receber não e  de voltar pra casa, parecem ter  medo de tudo"; "na minha prática a gente vê que um anúncio num jornal representa mais de cem currículos e ele coloca o currículo ali já de forma negativa, com menos valia. Ele não tem mais confiança nas suas potencialidades."

Os conteúdos referentes às causas apontadas pelos participantes para se ficar e permanecer desempregado agrupam-se em causas externas ao trabalhador e causas referentes ao trabalhador.  As causas externas ao trabalhador são as condições adversas do mercado de trabalho, falta de oportunidade de formação e qualificação, e o desemprego como uma questão social de difícil solução. Esta última é marcada pela indefinição dos participantes, que, quando questionados melhor a respeito, somente a remetem à sociedade: "(...) é porque sociedade e governo têm uma boa parcela de responsabilidade"; "(...) acho que é uma questão social."

Como causas referentes ao trabalhador são agrupadas as experiências anteriores negativas com o trabalho, a não procura por formação e qualificação e a desistência de vagas - "(...) as pessoas têm dificuldade de se recolocar no mercado de trabalho por conta das outras experiências que não foram assim muito boas"; "(...) tem os que, mesmo tendo chance, não procuram um aperfeiçoamento."; "(...) eles (desempregados) entregam o currículo, mas não vão mais atrás, não acreditam em si e logo desistem de procurar (vagas)."

As vivências que o trabalhador experiencia com o desemprego são marcadas por um forte caráter moral: vivências boas, quase um bom desemprego, e vivências ruins, sentidas na experiência de um mau desemprego. Para evidenciar esse aspecto, as categorias foram divididas em vivências positivas e negativas do desemprego. A compreensão moral do desemprego remete à sua construção, quando, a partir do liberalismo, a vagabundagem transforma-se em um ato voluntário e por isso, um delito social, passível não mais só de assistência, mas também de repressão. Essa dicotomia entre assistência e repressão é percebida já no advento dos primeiros escritórios de empregos na Inglaterra, responsáveis por fazer a triagem entre os bons e os maus sem emprego.  Os primeiros, bons desempregados, são fruto da conjuntura econômica, e os segundos, ou não são "empregáveis ou são preguiçosos, e dependem, por isso, da assistência ou da repressão" (Gautié, 1998. p.75).  O caráter moral exposto pelos entrevistados remete o mau desemprego a uma vivência de desamparo, exclusão, falta de perspectiva, medo, receio e falta de capacidade.  Como aspectos positivos desta condição são relatados os casos daqueles desempregados que conseguem mudar de vida mudando de profissão principalmente, e/ou aqueles que se tornam autônomos, fugindo da relação assalariada de trabalho.

A compreensão moral da vivência do desemprego e a consequente divisão entre um bom desemprego e um mau desemprego vão ter efeitos na construção das práticas clínicas. Estas, além de transitar entre a recondução ao emprego e a atenção aos efeitos dele, vão compreender "recompensas" aos que respondem positivamente, seja investindo em outras carreiras, seja investindo na autonomia, assim como estratégias repressivas aos que respondem negativamente.

As causas apontadas pelos participantes para se ficar e permanecer desempregado também obedeceram a uma ordem moral de categorização, em relação direta com as vivências positivas e negativas, já discutidas. O desemprego causado por fatores exteriores ao trabalhador, como as condições do mercado de trabalho e a falta de oportunidade de formação e qualificação, não imputam culpa ao trabalhador por seu desemprego - muitas vezes, de longa duração; no entanto, as causas apontadas como referentes ao trabalhador remetem a ele a responsabilidade por sua condição de desempregado, limitando-se a explicar que eles passam a não acreditar mais em si e por isso desistem das vagas e da qualificação.  A relação entre as causas e a vivência do desemprego se dá por aqueles que "vencem" as causas e mudam de vida e se estabelecem com autonomia, e aqueles que "perdem" e desistem da busca de emprego, vivenciando o medo, a exclusão e o desamparo. Santos (2000) também aponta essa relação entre os sentimentos de vencer e perder que o desempregado vivencia e a percepção de si como um vencedor que subitamente se torna um perdedor.

Intervenções sobre o desemprego na clínica

A execução das intervenções compreende os conteúdos manifestos pelos participantes que descrevem como operacionalizam a intervenção sobre a queixa do paciente referente ao desemprego, e agrupam-se em duas categorias: intervenções que excluem o fator "trabalho" e intervenções que o contemplam.

As intervenções que excluem o fator "trabalho" foram identificadas como aquelas referentes à busca de outros elementos ligados à queixa do paciente. Essa busca ocorre com o sentido de que outros aspectos da vida do sujeito possam justificar o sofrimento relatado, sem que estes estejam diretamente relacionados ao trabalho. A análise dessas intervenções destaca que a busca de outros fatores ocorre mesmo nas queixas relacionadas diretamente ao trabalho. No manejo destas, os psicólogos entrevistados buscam, em alguns casos, outras razões e motivos, como, por exemplo, desentendimentos familiares e eventos estressores, sobre os quais irão intervir – "(...) tento avaliar todo o contexto da pessoa, porque tem coisas que podem ser do momento e de outras coisas que ele tá vivendo." Vasques-Menezes (2004) aponta também essa prática e critica a forma como muitas vezes são ignoradas as queixas emitidas pelos pacientes referentes a experiências vivenciadas na relação com o trabalho. Segundo Jacques e Codo (2002), essa ausência da categoria trabalho na prática clínica pode ser compreendida como uma fragilidade no entendimento e tratamento de diversas psicopatologias. Codo (2004) também descreve essa busca do terapeuta por razões para as patologias que encontra na clínica, e critica, de igual forma, o descaso com que se ignora o trabalho como um fator de risco importante na produção e desencadeamento delas.

As intervenções que contemplam o fator "trabalho" foram descritas pelos participantes a partir da compreensão, relatada por eles, da vivência do trabalho como singular e particular de cada paciente. Foram agrupadas em: a escuta do sofrimento, indicação de terapias associadas e auxílio na reinserção no mercado de trabalho.

A escuta do sofrimento compreende o acolhimento do sofrimento relatado pelos pacientes. Nas intervenções que contemplam o trabalho percebe-se que as respostas são de conteúdo generalista, como entendem a escuta. Ela aparece mais como acolhimento passivo do que como uma intervenção formalmente construída - "(...) penso em primeiro lugar na escuta, em acolhimento, porque as pessoas chegam geralmente muito abaladas, muito desacreditadas."

A indicação de terapias associadas, por sua vez, compreende o uso de outras intervenções em associação com a psicoterapia, como o uso de medicamentos, ginástica, dança e ioga - "(...) eu mandei ela para um psiquiatra tomar medicação e ela não quis. Me disse que tomar remédio não ia dar emprego para ela, se não ter o que fazer era o que deixava ela deprimida".

O auxílio na reinserção no mercado de trabalho foi a intervenção mais relatada, compreendendo os questionamentos sobre busca de vaga e a orientação/planejamento de carreira.  Os questionamentos são inquirições frequentes aplicadas por todos os participantes aos pacientes desempregados, com o fim de os pressionar a buscar vagas. A orientação/planejamento de carreira compreende, segundo os enunciados, a reorganização do sentido profissional, organização de currículos, indicação de locais com vagas abertas, "dicas" de entrevista e orientação vocacional - "(...) lemos juntos os classificados";

(...) o meu papel talvez seja mostrar como a pessoa está se posicionando nesse momento, talvez mostrar também outras alternativas as quais ela possa recorrer, dar algumas dicas de como se encontra o mercado de trabalho, dar algumas dicas do que seria necessário para um preparo pessoal para se reinserir no mercado, um incentivo.

A obrigação de trabalhar que tem o paciente e os conteúdos da primeira temática (o trabalho como sofrimento e como necessidade) vão se evidenciar mais fortemente nestas intervenções. O bom e o mau desemprego, já discutidos, aqui aparecem com mais ênfase na elaboração dessas intervenções relatadas, e as estratégias de assistência parecem se atualizar mais fortemente nas práticas de orientação e planejamento de carreira. Ao mesmo tempo, lançam mão de questionamentos como, por exemplo, inquéritos frequentes sobre a busca de vaga e a procura por formação, o que sugere o uso de estratégias repressivas e coercitivas - "(...) eu questiono se tá buscando outra colocação. Pergunto se tá se movimentando."; "(...) ela saía daqui e ia largar currículo. Eu perguntei se era antes ou depois da sessão, ela disse que depois, para ter algo para responder na hora que eu pergunto se procurou vaga essa semana. Acho que funcionou.".

Essas intervenções foram relatadas como frequentes pelos participantes e atualizam as estratégias, tanto de assistência como de repressão, de que se tem lançado mão desde a constituição do desemprego (Gautié, 1998).  O modo como se lida com essa questão, apresentado nas práticas aqui descritas, parece muito mais uma reprodução das estratégias já desenvolvidas para se lidar com a questão social do desemprego nos últimos séculos do que com uma invenção de novas práticas que contemplem o sofrimento que o desemprego tem produzido na contemporaneidade.

Lugar da Psicologia no tocante ao desemprego

As ações da Psicologia em relação ao desemprego relatadas pelos participantes puderam ser compreendidas em três grandes subcategorias: ações de prevenção, ações de tratamento e ações políticas.

As ações de prevenção são as atividades que podem ser desenvolvidas pelos psicólogos enquanto agentes transformadores das organizações, como a orientação profissional/vocacional e a qualificação das seleções/avaliações psicológicas, desenvolvendo intervenções que transformariam o sentido do trabalho para os trabalhadores, como seminários e palestras – "...incitando os profissionais a pensarem sobre suas funções, e o devido prazer encontrado no trabalho, instigando e levando a valorização do trabalho como fonte de prazer e conquistas pessoais."

As ações de tratamento incluem as atividades de escuta, nos ambientes clínicos e organizacionais, com o fim de minimizá-los. A escuta, para participantes, caracteriza-se pelo acolhimento do sofrimento relacionado ao trabalho - "(...) acolhendo as angústias, medos e dificuldades que aparecem, mesmo em espaços dentro das empresas."

As ações políticas compreendem o trabalho social em organizações não governamentais e a conscientização política dos trabalhadores.  Elas podem ocorrer tanto individual quanto coletivamente:

(a Psicologia pode) se motivar para fazer algum trabalho, para provocar mudanças sociais, ajudar a população a se posicionar frente a algumas coisas, a se opor a situações que não concorda em termos de governo, a ter uma visão crítica de mundo, que as coisas não são assim mesmo e pronto.

Verificou-se também, quanto ao lugar que a Psicologia pode ocupar em relação ao desemprego, que se diversificam as posições e a escuta clínica aparece como a única categoria de tratamento visualizada pelos participantes. Paralelamente, os entrevistados deram ênfase à prevenção, ,  colocando a Psicologia como uma disciplina que poderia intervir mais fortemente nas escolas e nas empresas, ressignificando o trabalho e orientando crianças e jovens na sua inserção no mercado. A responsabilidade da Psicologia do Trabalho e organizacional também foi apontada no tocante à urgente qualificação das suas intervenções referentes às avaliações psicológicas, recrutamentos e seleções, e ao lugar que ela ocupa nas empresas e organizações em relação aos trabalhadores. O caráter político que a Psicologia pode desenvolver na população trabalhadora também foi ressaltado pelos participantes. A partir das categorias encontradas é possível, mais uma vez, compreender que o entendimento dos participantes é de um trabalho e um desemprego que não são tradicionalmente um objeto de intervenção e preocupação da clínica psicológica.

Como conteúdos não agrupados em categorias específicas estão as afirmações de que a qualificação e a formação não garantem vagas de emprego e que o fator "trabalho" é referido pela totalidade dos participantes como pauta nos atendimentos clínicos, muitas vezes se apresentando como um dos motivos para a busca de acompanhamento psicológico. Quanto à formação, os participantes afirmaram, em sua totalidade, que a formação complementar e o referencial teórico os auxiliam nas intervenções, mas a formação a nível de graduação não os auxilia tanto. Não foram encontradas diferenças, nos conteúdos relatados, em relação às abordagens teóricas dos participantes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

São dois os aspectos em que se espera que esta pesquisa possa contribuir. O primeiro se refere a problematizar a significativa presença da categoria trabalho na clínica psicológica e o que se está fazendo com ela. O segundo se refere a operar, pesquisando e intervindo, no limite entre os campos da Psicologia Clínica e da Psicologia do Trabalho, a fim de colaborar com essa problemática.

Conseguiu-se delimitar três categorias de intervenção que contemplam o trabalho/desemprego, mas a primeira, a da escuta, surge sem uma definição formal; a segunda, encaminhando para outros campos profissionais, mais na esperança que deem conta de uma questão de difícil solução do que de associação entre intervenções; e a terceira, executando ações, originalmente da Psicologia do Trabalho, com o fim de realocação no mercado de trabalho.

A pergunta - desafiadora e comprometedora - que permanece é se as práticas aqui descritas podem ser percebidas num status de prática clínica.  Tal ideia coloca em questão que a Clínica Psicológica pode não saber muito bem o que fazer com a temática do desemprego e necessita urgentemente de operadores que deem conta, na clínica, dos fenômenos contemporâneos que estão emergindo.  Essas novas estratégias só poderão advir se a aposta for feita numa clínica que se amplie em face dessas questões e se permita inventar, conjugando conhecimentos e superando-os no esforço por entender o humano, no princípio proposto por Lagache (1949) à Clínica Psicológica.

As discussões aqui propostas estão longe de se esgotar e necessitam de estudos outros, dispostos a ultrapassar os limites que os próprios campos impõem à pesquisa. Ao final deste estudo, percebeu-se a expressiva presença do desemprego nos consultórios de atendimento, nos relatos sobre os pacientes feitos pelos psicólogos clínicos entrevistados a respeito dos seus efeitos sobre a saúde mental, e conclui-se que o desemprego é, efetivamente, uma questão para a clínica.

 Os fenômenos, igualmente complexos, de origem social e efeitos significativos na saúde mental, como a violência ou o abuso sexual, já encontram ressonância na clínica, onde operadores já foram desenvolvidos; no entanto é preciso ultrapassar os limites entre os campos da clínica e do trabalho e investir nos tensionamentos possíveis para que outras práticas de ordem terapêutica possam se produzir.

Neste sentido, acompanha-se Naffah Neto (1994) quando entende a tarefa terapêutica a partir da origem do termo na palavra grega therapeia, que possui o significado de cuidado, previsão, solicitude, trato e tratamento. O terapêutico, assim, é comprometido com certa plasticidade inerente à vida, acompanhando-a e cuidando dela em sua constante instabilidade. Nesta perspectiva, antes de sanar o patológico, o terapêutico tem de abrir possibilidade à criatividade em ruptura a toda a serialização vigente.

Este estudo pretendeu contribuir neste sentido, principalmente no caráter pioneiro de ouvir a Psicologia Clínica no que ela tem a dizer sobre o tema, problematizando-o a partir de sua ótica. Possui, no entanto, limitações, principalmente no que tange à especificidade do sofrimento dos desempregados, que não foi focalizado aqui. Pode-se destacar, por exemplo, que nos enunciados dos participantes não houve menção às vivências de roubo, prostituição, drogadição, tráfico de entorpecentes, e às intervenções que a religião produz no desempregado, descritas por Santos (2000), omissão que se encontra ainda sem resposta e necessita de maior investigação. Essa proposta, necessária para se avançar na constituição de intervenções nesse público, poderá ser objeto de estudos posteriores.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Daniel Abs
R. Líbero Badaró 65/603, B. Passo da Areia
CEP 91340-230, Porto Alegre-RS, Brasil
E-mail: absdacruz@gmail.com

Recebido em 22/10/2008
Aceito em 17/11/2009

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