SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue3Vigotski y Bajtin: historicidad y dialogo author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.15 no.3 Maringá Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722010000300001 

EDITORIAL

 

 

São notórios o lugar de destaque e a importância conquistada por Psicologia em Estudo no cenário dos periódicos de psicologia. Penso que isso se deva, em especial, à forma como a revista vem sendo dirigida, além, evidentemente, da qualidade crescente dos artigos veiculados. Uma direção competente, democrática e cuidadosa, como era de se esperar para quem já sabia do espírito empreendedor e de zelo pelo coletivo como é o de nossa editora. É dentro desse espírito que me vi honrado com um convite para redigir um editorial, pelo qual agradeço. No entanto, pensava eu, que poderia um professor que se dedica quase que exclusivamente ao estudo dos fundamentos epistemológicos da psicanálise escrever para o editorial de uma revista aberta à publicação de artigos oriundos de pesquisas realizadas a partir das mais diferentes abordagens teórico-metodológicas presentes na psicologia, uma revista, para alguns, eclética. Assim, tal como diz o ditado, que uma goiaba não cai longe da goiabeira, não consegui imaginar outra coisa senão em convidar o leitor a pensarmos juntos, no espaço breve deste editorial, sobre algumas implicações epistemológicas que poderiam ser vinculadas à política de abertura desta revista às diferentes propostas de psicologia.

Sem que seja necessário mencioná-las, parece consensual o reconhecimento de uma pluralidade de propostas teóricas e metodológicas presentes no interior do que conhecemos por psicologia. Se essa constatação estiver correta, talvez pudéssemos considerar, com Thomas Kuhn, que tal diversidade se deva à juventude da psicologia como disciplina com pretensão científica; o que ela pode ser considerada, de fato, se comparada à física; afirmação, porém, que não parece sustentável em relação à biologia, à antropologia ou à sociologia, p.ex., disciplinas com nascimento praticamente contemporâneo ao da psicologia.

De qualquer modo, a história da psicologia terminou por revelar-nos o lado positivo da pluralidade de teorias e métodos, enquanto que a demonstração da irredutibilidade conceitual de uma proposta teórica às demais impôs o reconhecimento da necessidade de respeito pelas diferenças. Mas poderíamos lançar uma questão: será que respeito à diversidade é o bastante para manter viva a ambição cientifica da psicologia e/ou fazer avançar a práxis psi? Será que não estaria a psicologia ou nossas psicologias, embora jovens, já em vias de extinção? Dadas as dificuldades próprias do campo psi em estabelecer o objeto de seus estudos e pesquisas sobre uma base empírica, ao mesmo tempo em que carecemos de uma fundamentação teórica logicamente consistente acerca da subjetividade humana, não estaria a pluralidade de teorias e práticas psicológicas prestes a serem eliminadas, substituídas, frente ao avanço crescente das hard sciences no campo das ciências da vida, como, p. ex., os programas de pesquisas em neurociências? Afinal, a partir das conquistas teóricas proporcionadas pela biologia molecular, associadas à utilização de tecnologias igualmente avançadas de imagem e mapeamento funcionais do cérebro, os estudos desenvolvidos por alguns setores das neurociências estendem-se ao campo tradicionalmente tido como próprio da psicologia, e mesmo da psicanálise. No campo filosófico podem-se encontrar hoje estudos voltados para as possibilidades de uma naturalização da fenomenologia. De modo semelhante, têm-se no campo das ciências da vida programas de pesquisa como o de Eric Kandell, p. ex., voltados para o desenvolvimento de uma nova biologia da mente com pretensão de abarcar e explicar não apenas os fenômenos mentais, mas também a sociedade. No prolongamento de programas dessa natureza e apoiados em resultados obtidos por pesquisas específicas no âmbito neurocientífico conhece-se uma das mais recentes propostas lançadas pelo grupo de Mark Solms de aliança entre as pesquisas sobre o cérebro e a doutrina psicanalítica, a chamada neuropsicanálise.

Se o que se nos apresenta hoje diz respeito a um revigoramento da ambição reducionista de Comte ou se se trata da emergência de um novo paradigma a orientar, finalmente, os estudos e pesquisas sobre o fenômeno humano, sobretudo, os estudos sobre a subjetividade, pouco importa. Como talvez ponderasse Stuart Mill, um dos grandes arquitetos da psicologia,  antes de abandonar deslumbrada e apressadamente o terreno da psicologia em favor das novidades mais recentes, conviria a cada uma das distintas propostas de psicologia adotar uma postura crítica no sentido de examinar a coerência e consistência internas de sua conceituação. Assim fazendo, talvez cada uma das psicologias possa contribuir, à sua maneira, para pensarmos não a independência dos fenômenos estudados pelo campo psi, mas as justificativas lógicas a sustentarem a autonomia epistêmica da abordagem psicológica da subjetividade humana frente ao reducionismo das pesquisas baseadas nos processos materiais do cérebro. Afinal, a possibilidade mesma da existência da psicologia como disciplina com ambição científica só poderia estar justificada nesse tipo de autonomia.

Penso que na ausência de tal exame crítico acerca das bases conceituais que constituem cada uma das diferentes propostas teóricas, nossa jovem psicologia parece condenada a extinção muito antes de alcançar sua sonhada maturidade científica. Por outro lado, ao ocupar-se do exame crítico de suas bases conceituais, talvez possa encontrar, no prolongamento da pluralidade de propostas teóricas, senão um ponto comum convergente – uma aparente unidade da psicologia, aos moldes de Lagache -, ao menos questões e problemas comuns que nos permitam tomar cada uma das diferentes propostas teórico-metodológicas em psicologia não tanto como concepções isoladas ou meramente divergentes, mas como tentativas distintas de análise e discussão inspiradas em problemas comuns.

Nessa perspectiva, parece-me que os artigos apresentados neste número, em particular, assim como os publicados por este periódico, de modo geral, poderiam ser lidos como veiculadores desse espírito, a saber, vozes proferidas a partir de diferentes pontos de vista, mas que tratam do que interessa à psicologia, a subjetividade humana em suas diferentes modalidades, seja em sua expressão na cultura, na escola, no trabalho, na clínica, na teoria.

 

Helio Honda
Editor de Seção
Email: hhonda@uem.br