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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.15 no.3 Maringá Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722010000300014 

ARTIGOS

 

Prática de parapente e comportamentos de risco: uma análise a partir do conceito de redoma sensorial

 

Practice of paraglider and risky behaviors: an analysis starting from the concept of sensorial dome

 

Practica del paraglider y comportamientos de riesgo: un análisis a partir del concepto de redoma sensorial

 

 

Jairo Antonio PaixãoI; Guilherme TucherII; Vera Lucia Menezes CostaIII; Ronaldo Eugenio Calçada GabrielIV

IGraduado em Educação Fisica. Doutor em Ciência do Desporto. Professor da Faculdade de Minas, Muriaé e Faculdade de Viçosa
IIGraduado em Educação Física. Mestre em Ciência da Motricidade Humana. Professor e coordenador do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física da Faculdade de Minas
IIIGraduada em Educação Física. Doutora em Educação Física. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Gama Filho
IVGraduado em Educação Física. Doutor em Ciências do Desporto. Professor Associado da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo analisa, a partir do conceito de redoma sensorial (Almeida, 2008), aspectos que permeiam a atuação dos praticantes da modalidade parapente. Foi possível verificar, através de uma pesquisa descritivo-exploratória, que o domínio da técnica e o uso de equipamentos adequados, apesar de imprescindíveis, não garantem o êxito desses atores. Muitas vezes as situações de risco vivenciadas agregam, num primeiro momento, um verdadeiro arcabouço de elementos sensoriais extraordinários, porém vivências diárias numa dada modalidade podem levar à banalização desses elementos por parte do praticante, transformando-se em elementos sensoriais ordinários. Na prática de modalidades de esporte de aventura tal transformação poderá influir negativamente, por exemplo, na manutenção da integridade física e emocional do praticante.

Palavras-chave: Redoma sensorial; parapente; comportamentos de risco.


ABSTRACT

This study analyzes, starting from the concept of sensorial dome (Almeida, 2008), aspects that permeate the practice of the paraglide sport. It was possible to verify through a descriptive and exploratory  search, that the mastery of technique and the use of  appropriate equipment, though  essential,  does not  guarantee the success of these actors. Many times, the risky situations experienced in the adventure sport, join at a first moment a true outline of extraordinary sensorial elements, but the daily living observed in a given modality can lead to the banalization of those elements by the practitioner, becoming ordinary sensory elements. This transformation can present implications when practicing adventure sports, for instance, in maintaining the physical and emotional integrity of the practitioner.

Key words: Sensorial dome; paraglider; risky behaviors.


RESUMEN

Este estudio analiza, a partir del concepto de redoma sensorial (Almeida, 2008), aspectos que permite la práctica de las diferentes modalidades del deporte de aventura. Fue posible verificar a partir de una investigación exploratoria descriptiva, el campo de la tecnología y utilizar el equipo adecuado, aunque no es esencial garantizar el éxito de estos actores que las situaciones de riesgo, vividas por el practicante en las diferentes modalidades que componen el deporte de aventura, agregan en un inicio una verdadera gama de elementos sensoriales extraordinarios. Sin embargo, las vivencias diarias observadas en determinada modalidad pueden conducir a la vulgarización de estos elementos por parte del practicante, transformándose en elementos sensoriales ordinarios. Tal transformación podrá presentar implicaciones en la práctica de las modalidades del deporte de aventura en el medio natural como, por ejemplo, la integridad física y emocional del practicante.

Palabras-clave: Redoma sensorial; paraglider; comportamiento de riesgo.


 

 

 

REDOMA SENSORIAL: SUBSÍDIOS PARA UMA ANÁLISE

No esforço por compreender o complexo das aventuras esportivas do homem no meio natural, busca-se discutir alguns de seus aspectos a partir de um significativo estudo realizado por Almeida (2008) no livro "Ritual, risco e arte circense: o homem em situações-limite", o qual desenvolve o conceito de redoma sensorial. As incursões realizadas pelo autor no campo das artes cênicas e circenses, balizadas pela filosofia e pela sociologia, possibilitaram adentrarmos num universo no qual o risco configura-se em meio a rituais, símbolos e busca pelo prazer e pela performance nas práticas corporais em que o homem se coloca em situação-limite.

Partindo do entendimento do conhecimento do senso comum como processo sensorial, Almeida (2008) afirma que a aquisição deste conhecimento pelo homem se processa de forma multissensorial, uma vez que mobiliza um verdadeiro arcabouço sensorial cotidiano que, por meio dos canais sensoriais, permite perceber diferentes elementos, como sons, odores, tato, cinestesia, noção de distância, temperatura, sabores e outros.

Como ocorre com o senso comum, que se determina por um conjunto de sensações conhecidas, confiáveis e dominadas por meio da prática constante, também a redoma sensorial ordinária forma-se a partir do conjunto de sensações que o indivíduo está acostumado a vivenciar. Assim, ela estrutura-se a partir do arcabouço sensorial básico estabelecido por determinada sociedade num dado momento histórico, como, por exemplo, o grau de limpeza aceitável de uma casa, uma sensação ou um comportamento diante de uma situação conhecida.

Destaca-se que a redoma sensorial ordinária forma-se a partir de elementos que, por sua constante presença no cotidiano, tornaram-se automáticos, "velhos conhecidos" e, por conseguinte, não mais recebem a devida atenção. Isso se deve a que, na grande maioria das vezes, o indivíduo se esquece de que se encontra envolto por uma redoma.

No que se refere às relações estabelecidas pelo indivíduo no meio social, é fundamental as redomas sensoriais serem compreendidas como construções sociais, uma vez que são produzidas e compartilhadas por um grande número de pessoas (Almeida, 2008). Desta forma, a visualização de uma redoma sensorial torna-se complexa, haja vista que os sentidos ordinários do ser humano acabam perdendo a capacidade de perceber a complexidade das ações praticadas no cotidiano. Como exemplo, o citado autor menciona a ação de se aguardar um sinal vermelho ficar verde para se atravessar a faixa de pedestres. Na verdade, trata-se de uma ação que reúne uma grande quantidade de códigos sensoriais socialmente produzidos. O autor reforça esta ideia ao afirmar que

(...) a lida cotidiana com os sentidos é, na verdade, uma atividade tão complexa como a atividade do trapezista. Normalmente não se percebe isso apenas porque as pessoas de uma mesma sociedade compartilham as mesmas redomas e são todas 'trapezistas' também (Almeida, 2008, p. 83).

Desta forma, percebe-se que não apenas o conhecimento, mas também os sentidos são histórico-culturais. Para perceber esta afirmação, basta pensar nas dificuldades enfrentadas por um índio ao se movimentar numa grande cidade e nas dificuldades correspondentes de um homem urbano em se orientar por entre a natureza selvagem. Embora, para cada um desses atores, as redomas sensoriais sejam ordinárias, em contrapartida trata-se de duas redomas sensoriais ordinárias diferentes, se consideradas as dimensões histórico-culturais. Assim, "... duas redomas sensoriais ordinárias, produzidas por diferentes sociedades, serão sempre extraordinárias quando vislumbradas uma a partir da outra" (Almeida, 2008, p. 83).

Retomando o exemplo de um índio e de um homem urbano e a permuta de ambientes, podemos afirmar que eles experimentariam elementos inéditos se comparados  àqueles que formam suas redomas sensoriais ordinárias em suas respectivas vidas cotidianas. Disso decorreria que a redoma sensorial ordinária seria substituída por uma redoma sensorial extraordinária. Com isso, aguçar-se-iam os sentidos no indivíduo, o qual, indubitavelmente, colocar-se-ia em estado de alerta. O autor acrescenta que o deslocamento de apenas um elemento sensorial que compõe uma redoma sensorial ordinária já seria suficiente para que uma surgisse nova redoma - no caso, uma redoma sensorial extraordinária. Isso significa que, uma vez retirados ou deslocados de suas redomas ordinárias de origem, os elementos sensoriais produziriam um evento potencialmente extraordinário.

Tendo-se o risco, a aventura e as fortes emoções como eixos norteadores das diferentes modalidades de esporte de aventura, a realidade evidencia que apenas dominar a técnica não é suficiente para se evitarem acidentes. Trata-se de uma vertente esportiva que demanda do praticante prudência e capacidade de manter a atenção constante no decorrer da prática (Le Breton, 2004; Morgan & Fluker, 2006; Ryan, 2003; Spink, 2001). Neste contexto, o presente estudo teve por objetivo investigar situações de risco vivenciadas por praticantes de parapente a partir do conceito de redoma sensorial.

 

A PRÁTICA DE ESPORTE DE AVENTURA VISTA POR ENTRE A REDOMA SENSORIAL

O conceito de redoma sensorial fornece pistas para o entendimento da prática de esporte de aventura e da busca incessante do praticante por emoções fortes. As diversas modalidades que compõem o esporte de aventura praticado em ambientes naturais distintos - como o aéreo, o aquático e o terrestre - reúnem um verdadeiro conjunto de elementos potencialmente extraordinários como aqueles ligados ao fator risco. Para além do ambiente natural, no qual se configuram as modalidades de esporte de aventura, o risco e a busca por desafios apresentam-se como uma condição sine qua non para a realização dessas práticas desportivas (Elmes & Barry, 1999; Loewenstein, 1999).

De acordo com Ashcroft (2001, p.14), desde os tempos clássicos o homem convive com situações de risco, ligadas, na maioria das vezes, aos fenômenos naturais e climáticos, como verões escaldantes, invernos glaciais e águas gélidas. Por outro lado, com o advento dos avanços tecnológicos observados no final do século XIX e início do XX, o homem se coloca diante de novos riscos.

Na sociedade ocidental, como afirma Costa (1999), a organização social e cultural busca, sobretudo, controlar os perigos que possam prejudicar a coletividade, como, por exemplo, aqueles ligados à preservação ambiental, representados principalmente pelos riscos de poluição a que somos submetidos. Desta forma tem-se uma situação paradoxal: de um lado a sociedade globalizada, preocupada em afastar o risco, busca desenvolver constantemente programas de prevenção e de controle, e do outro, as práticas individuais voltam-se à exposição voluntária de si, ou seja, busca-se vivenciar o risco de formas variadas, principalmente por meio das práticas físicas e esportivas na natureza.

Vale ressaltar que em alguns casos, dependendo do tipo de ocupação profissional, esses riscos constituem-se como parte inevitável do trabalho (Ashcroft, 2001). De uma maneira geral, o risco, como afirma Le Breton (2004), mantém-se num horizonte insuperável da condição humana. Estudiosos como Beck (1993); Giddens (2002); Sánchez (1996) e outros, ao discutirem aspectos pertinentes à sociedade, apresentam como eixo comum em suas discussões o emprego da expressão sociedade do risco para conceituar a sociedade contemporânea. A partir daí é possível afirmar que o risco constrói-se nas condições sociais e culturais de cada comunidade, incorpora fragilidades e varia em função de tempo e de lugar.

Ao se considerar o risco presente na prática das diversas modalidades de esporte de aventura na natureza, faz-se necessário ponderar aspectos como a manutenção da integridade física e emocional do praticante, o condicionamento físico, o desenvolvimento de habilidades necessárias à modalidade de aventura em questão, equipamentos e vestimentas apropriados, uma adequada hidratação e ingestão de nutrientes, a existência ou não de equipes de resgate e socorro e as características do ambiente natural no qual ocorrerá a modalidade em questão, dentre outros.

Não obstante, estudos nesta área (Ryan, 2003; Page, Bentley, & Walker, 2003; Morgan & Fluker, 2006) demonstram que, apesar da necessidade de procedimentos que visem à integridade física e emocional dos praticantes das diferentes modalidades de esporte de aventura, não se pode perder de vista que tais procedimentos apresentam-se como uma faca de dois gumes, ou seja, o controle total dos riscos eliminaria a atratividade e as fortes emoções buscadas pelos praticantes. Destarte, ao se adotarem procedimentos no intuito de controlar o risco, cumpre considerar variáveis como nível da atividade e habilidades do praticante (Wilks & Atherton, 1994; Bentley, Macky & Edwards, 2006).

Percebe-se, então, que as experiências vivenciadas a partir das modalidades de esporte de aventura em muito diferem da previsibilidade vivida pelo indivíduo no cotidiano das cidades – na rotina dos ambientes de trabalho, na prática de modalidades realizadas em instalações esportivas convencionais – pois os diferentes meios naturais impõem àqueles que ousam desafiá-los a prontidão para situações bruscas, inesperadas e imprevisíveis. Tais situações demandam do praticante procedimentos e ou ações rápidas com vista a não somente finalizar uma manobra ou atingir o cume de uma montanha, mas ainda resguardar sua integridade.

Diferentemente do que ocorre nas modalidades clássicas de esporte, como o futsal, vôlei e outros, as práticas ligadas ao esporte de aventura na natureza caracterizam-se pela complexidade das intenções com que o praticante adere a elas. Exemplo disto é, na contemporaneidade, a busca voluntária do praticante por romper com a redoma sensorial ordinária na qual está envolto o seu cotidiano pela necessidade de experimentar emoções fortes e de caráter não duradouro. Esta necessidade, na maioria das vezes, é proveniente do aumento do controle emocional na vida das pessoas adultas na atual sociedade de consumo.

Nesta perspectiva, o indivíduo, ao enfrentar o mundo, checa suas marcas, num esforço por concretizar o real que lhe escapa, imprimindo sentidos aos seus limites. A morte que ele se autoinflige testa o valor de sua existência. Paradoxalmente, trata-se de uma sociedade que desfruta de um clima de segurança nunca visto na história1. Na ânsia de viver, o indivíduo se autoimpõe a necessidade de dar valor à sua presença no mundo. Insatisfeito, ele se orienta para lazeres em que ignora o perigo, mas superestima suas capacidades e busca superá-las (Costa, 1999; Le Breton 2004).

Desta forma, o indivíduo busca rebelar-se contra as amarras sociais, como, por exemplo, a rotina estressante que atualmente o cerca (Elias, 1995; Maffesoli, 2001). Assim, a partir da prática de esporte de aventura, o praticante busca em si mesmo, no seu limite físico, a sua referência. Bentley e Page (2007) definem o praticante de esporte de aventura como aventureiros que exploraram preferencialmente regiões não deterioradas e exóticas do planeta, buscando vivenciar vários níveis de risco, excitação e tranquilidade sem, contudo, abrir mão dos ininterruptos desafios pessoais.

Ao se considerar a prática das diferentes modalidades de esporte de aventura a partir do conceito de redoma sensorial, instiga-se a reflexão sobre aspectos que envolvem o comportamento do praticante diante dos procedimentos que visam à sua integridade física ou emocional.

As vivências práticas em uma dada modalidade conduzem o praticante a um quadro de baixa coesão sensorial de elementos potencialmente extraordinários como o risco, a vertigem, as fortes emoções e outros. Em outras palavras, no âmbito da redoma, os elementos sensoriais extraordinários contidos numa modalidade de esporte de aventura, que, numa situação prática, poderiam vir a aguçar os sentidos do praticante e colocá-lo em estado de prontidão/alerta, deixariam de existir, uma vez que, pela ação cotidiana desse praticante em busca do domínio desses elementos, estes passariam da condição de elementos extraordinários para a de ordinários. Logo, pode-se afirmar que elementos envolvidos numa situação de risco já não colocam o praticante num estado de prontidão/alerta, uma vez estabelecida a redoma sensorial ordinária. É importante ressaltar que não se trata de um suicida, e sim, de um indivíduo que busca vivenciar, de maneira prazerosa, situações de risco por meio das modalidades que compõem o esporte de aventura nos diferentes ambientes naturais. 

Para compreender a situação de risco percebida na prática do esporte de aventura será considerada a modalidade de montanhismo. De acordo com a Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada, a maioria dos acidentes apresenta como causa primária os comportamentos de risco2, ou seja, as ações e/ou atitudes do praticante diante do risco inerente a essa modalidade de esporte de aventura. Geralmente, os comportamentos de risco tornam-se uma constante na prática desta vertente esportiva, o que contribui para o aumento de acidentes de gravidades variadas para o praticante.

 

 

Ao se analisar a pirâmide dos acidentes, percebe-se que os comportamentos de risco encontram-se na base; no entanto, embora ocupem posição privilegiada nesta escala, os comportamentos de risco, por terem se tornado elementos ordinários em momentos que antecedem, e mesmo naqueles em que se efetiva a prática de determinada modalidade de esporte de aventura, algumas vezes não recebem a importância devida por parte dos praticantes.

Somado a tudo isso encontra-se ainda o fator "excesso de autoconfiança", que contribui para o aumento, por parte do praticante experiente numa dada modalidade (Elmes & Barry, 1999; Morgan & Fluker, 2006), da desconsideração de procedimentos essenciais à manutenção de sua integridade física e emocional.

A autoconfiança, que pode ser entendida a partir do significado atribuído a autoeficácia, segundo Bandura, (1997, p.3), é entendida como "a crença na própria capacidade de organizar e executar cursos de ações requeridas para produzir determinadas realizações". Trata-se do grau de convicção que tem um indivíduo de que poderá realizar com êxito uma determinada tarefa ou de um considerável nível de confiança em suas habilidades (Bandura, 1995; Feltz & Chase, 1998). Vários estudos têm se dedicado à autoeficácia, como, por exemplo, aqueles relacionados à motivação, à evasão escolar, ao rendimento escolar, bem como à adesão e permanência em determinadas modalidades esportivas (Bandura, 1995; Bzuneck, 2006, Feltz & Chase, 1998; Medeiros, Loureiro, Linhares & Marturano, 2000).

Em modalidades como parapente e asa-delta, é essencial que o praticante domine todas as técnicas de voo, além das informações meteorológicas. Ele deverá perceber e calcular atenciosamente cada possibilidade de risco, para que o programa de voo seja realizado com tranquilidade e lhe proporcione prazer. Ainda assim, observam-se alguns casos de acidentes, em que o praticante - por imprudência, distração ou falta de controle - machuca-se ou até mesmo perde a vida (Abdalad, 2005).

 

MÉTODO

A presente pesquisa foi realizada a partir do conceito de redoma sensorial de Richardson, 1999, e Thomas e Nelson, 2002, tendo como objetivo desvelar aspectos ligados a situações de risco vivenciadas por 19 praticantes de parapente nos quais 14 eram do sexo masculino e 05 do sexo feminino. Para a coleta dos dados foram utilizados dois instrumentos: um questionário semiestruturado e um questionário de autoeficácia (Self-efficacy) (Sherer, 1986; Bandura, 1995; 1997).

O questionário com questões abertas e fechadas foi estruturado em duas partes. A primeira parte se constituiu de perguntas abertas e fechadas, com o objetivo de identificar as características dos informantes (formação, tempo de atuação, idade, gênero, local de residência e experiência na modalidade de parapente); e a segunda, constituída de questões abertas, buscou enfocar aspectos ligados à prática e desempenho dos praticantes na referida modalidade esportiva. Na análise dos dados coletados, foi empregada a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2008), Lakatos e Marconi (2007). De início analisou-se o conteúdo nas respostas dos participantes, para, num momento posterior, estabelecer uma identificação de categorias sistemáticas e suas respectivas correlações.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com relação ao tempo de experiência com a prática do parapente, o grupo participante do estudo apresentou uma média de 2,3 anos (8 meses- 6 anos). Em geral, a prática de tal modalidade ocorre de forma não sistemática, como, por exemplo, nos finais de semana, feriados e períodos de férias. Dentre os praticantes entrevistados, 86% têm curso superior e residem em Minas Gerais em cidades próximas a Governador Valadares, o que facilita ainda mais as práticas no Pico da Ibituruna. Suas ocupações profissionais são bem diversificadas, evidenciando profissionais liberais, como comerciantes, funcionários públicos bem como professores que atuam em diferentes segmentos da Educação Básica e Superior.

Os resultados apontados sobre a autoeficácia (conforme o gráfico 1) mostram como a menor pontuação 78 pontos e como a maior, 105 pontos, com desvio padrão de 9,18 e média de 91,47. Esses dados podem ser traduzidos, em termos avaliativos, como um alto nível de autoeficácia geral percebido pelos praticantes no que se refere ao domínio de habilidades e procedimentos na realização de tarefas e ações do dia a dia.

 

 

Quando questionados sobre a ocorrência de acidentes e situações de grande risco, percebeu-se que 74% dos praticantes entrevistados já haviam vivenciado pelo menos uma vez tal experiência. Os principais motivos apontados constam no Gráfico 2, a seguir:

 

 

No tocante aos motivos apontados pelos praticantes para a ocorrência de acidentes e situações de grande risco, as maiores frequências concentram-se nas categorias "falta de domínio de conhecimento técnico", "falha no equipamento" e "avaliação equivocada e ou descuido dos riscos inerentes à prática do parapente". Considerando o destaque atribuído pelos praticantes ao domínio da técnica como condição imprescindível para se evitarem acidentes, recorremos a Le Breton (2004), o qual, ao discutir a pedagogia do risco, afirma que as experiências adquiridas e a integração gradual das técnicas minimizam as ameaças ou as circunscrevem a pontos em que se exerce vigilância. A menor desatenção pode causar sérios problemas. Cumpre considerar ainda que a prática de parapente esporte de aventura, estimulada pelo desenvolvimento da pesquisa científica tanto na melhoria da performance técnica como na produção de material, possibilita cada vez mais ao praticante vivenciar as fortes emoções dentro de uma margem de controle do risco, por exemplo, a cada vez que o praticante se atira num salto de parapente.

A avaliação equivocada e/ou descuido por parte desse grupo de praticantes pode ser mais bem elucidada por meio da teoria da redoma sensorial (Almeida, 2008), segundo a qual, em virtude do domínio da técnica, os procedimentos necessários à prática do parapente, bem como as sensações vivenciadas no momento de prática, passam de experiências extraordinários para experiências ordinárias na percepção do praticante. Com isso há uma diminuição no nível de vigília nos comportamentos considerados de risco para esses praticantes.

Mesmo após vivenciar, na prática de parapente, situações de grande risco e acidentes, uma parcela expressiva dos participantes (65%) afirmou que a busca pelas sensações proporcionadas pela prática da referida modalidade em nada foi afetada e que procura estar mais atenta e vigilante nos momentos de prática. Embora o esporte tenha uma tendência a domesticar o ambiente, formalizá-lo, impor-lhe regras, é no meio natural – com ênfase, neste estudo, no ambiente aéreo, onde é quase impossível controlar as informações que podem orientar as decisões dos praticantes – que se afirma a necessidade de aprender a ler os obstáculos, decifrar as artimanhas da velocidade e direção do vento e da temperatura, para decidir a melhor intervenção. É essa incerteza informacional que provoca e compõe o desafio dessa prática corporal na natureza. Lidar com ela é que desenvolve a ousadia desses aventureiros e desencadeia-lhes o prazer na atividade.

Para os demais participantes, situações envolvendo grandes riscos e acidentes são eventos "normais" quando se pratica uma modalidade de esporte de aventura; no entanto reconhecem que a adoção de procedimentos e equipamentos adequados e a permanente atenção podem atenuar a incidência de acidentes.

A sensação de liberdade e as fortes emoções compensam o risco com que os praticantes irão se deparar no momento da prática, os quais não podem ser interpretados como suicidas, e sim, como pessoas que gostam de vivenciar situações de risco que lhes causem prazer. Eles se lançam em situações que lhes permitem calcular os riscos e lhes dão condições de controlar o imponderável naquele momento. Le Breton (2004) alerta sobre a atitude contrafóbica, em que um indivíduo, em vez de evitar ou fugir de situações de risco, lança-se em sua direção. Trata-se de uma maneira refinada de esses indivíduos enfrentarem o medo, dissipando-o e sentindo a provisória sensação agradável de tê-lo dominado.

 

CONCLUSÃO

A análise da prática do parapente - uma modalidade de esporte de aventura - e dos comportamentos de risco a partir do conceito de redoma sensorial permite afirmar que a consideração do risco como elemento constitutivo da respectiva vertente esportiva suscita reflexões. O fragmento de canção a seguir contribui de forma simples e ao mesmo tempo extraordinária para compreender a temática abordada e sobre ela refletir:

Animal arisco

Domesticado esquece o risco

Me deixei enganar

E até me levar por você (...)

(Fera ferida. Roberto e Erasmo Carlos)

A domesticação das experiências efetivada pela passagem do "extraordinário" para o "ordinário", percebida pelo indivíduo no decorrer da prática de uma modalidade de esporte de aventura e risco calculado, poderá representar o diferencial entre êxito ou comprometimentos de diferentes ordens. Faz-se necessário que o praticante tenha em mente que o risco físico é inerente às modalidades de esporte de aventura e que sua segurança é primordial.

Além do domínio da técnica, da adaptação físico-motora e mesmo da manipulação dos equipamentos específicos a uma dada modalidade, o praticante precisa conscientizar-se de que sensações como a superação dos próprios limites e o gosto pela aventura, encontradas em práticas físicas nos diferentes ambientes naturais, precisam ser buscadas na mesma proporção em que o são as fortes emoções, a vertigem e o risco.

Os riscos vivenciados na prática de parapente são livremente escolhidos como valor pelos praticantes. Trata-se da forma mais genuína do risco-aventura provido do sentido lúdico, uma vez que a atitude de vivenciar fortes emoções no momento do voo é tomada por esses aventureiros como um risco no qual ousam jogar-se a si mesmos com total confiança no domínio cada vez maior da técnica e da qualidade dos equipamentos, fruto dos avanços ininterruptos da tecnologia. Manifestam ainda uma atitude audaciosa para poderem desencadear esse risco, autorizada pela ideia confiante de serem capazes de se lançar no espaço contra os obstáculos da natureza, associada a um excitante e reconfortante prazer de realizar e de tê-lo feito com sucesso a partir do programa de voo preestabelecido.

Sendo assim, os resultados deste estudo parecem apontar que o maior desafio a ser vencido pelo praticante de parapente está em não perder o sentido e as implicações do risco para sua integridade física.

Por fim, em decorrência do aumento do número de praticantes das diferentes modalidades que compõem o esporte de aventura e risco na natureza, particularmente das práticas ligadas ao voo livre, como parapente e asa-delta, ressalta-se a importância de se desenvolverem estudos acadêmicos que procurem, sobretudo, ampliar o entendimento da busca por fortes emoções sob a égide do risco por praticantes na contemporaneidade.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Jairo Antônio da Paixão
Apartado 1013
CEP 5001-801
Vila Real, Portugal
E-mail: jairopaixao2004@yahoo.com.br

Recebido em 03/02/2009
Aceito em 13/05/2010

 

 

1 Como afirma Costa (1999), o investimento em prêmios de seguro observado nesta contemporaneidade é pode ser interpretado como uma forma de reconhecimento da incerteza que envolve o homem. É possível encontrar infindáveis categorias de seguro. Busca-se desta forma assegurar quase tudo, como por exemplo, automóvel, viagem, como precaução contra incêndio, roubo, invalidez permanente, acidentes, partes do corpo (para o público ligado ao mundo das artes, atletas, dentre outros.) morte, de saúde dentre outros.
2 Entre os comportamentos de risco encontram-se uma alimentação inadequada, o desconhecimento das técnicas e do ambiente natural, condições meteorológicas, o uso de roupas e equipamentos que não atendem às exigências para a prática da modalidade de parapente.

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