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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.16 no.1 Maringá Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722011000100011 

ARTIGOS

 

Proposição bakhtiniana para análise da produção em psicologia1

 

Proposing an bakhtinian perspective in order to probe psychological works

 

Propuesta bakhtiniana para el análisis de la producción psicológica

 

 

Alexandre de Carvalho CastroI; Francisco Teixeira PortugalII; Ana Maria Jacó-VilelaIII

IDoutor em Psicologia Social. Professor Adjunto do CEFET-RJ, Brasil
IIDoutor em Psicologia Clínica. Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, Brasil
IIIDoutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Professora Adjunta da Universidade Estadual do Rio de Janeiro-UERJ, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O texto visa apresentar possibilidades de uso da Filosofia da Linguagem de Bakhtin na análise de documentos, na pesquisa em história da psicologia e em outros campos. Observa-se que as proposições bakhtinianas não devem ser utilizadas como um conjunto de regras fixas e imutáveis  a serem aplicadas a um objeto visando encontrar seu enunciado,  visto que sua proposta envolve indeterminação, duplicação e ambiguidade. Assim, em cada investigação o caminho e o objeto devem ser construídos. O texto apresenta, de forma concisa, não só as idéias centrais da Filosofia da Linguagem, mas também as questões de autoria, temas  e formas discursivas, bem como  os riscos das formas de tematização  estática e/ou deslocada.

Palavras-chave: Bakhtin; enunciação; autoria


ABSTRACT

The paper aims to provide possible uses of Bakhtin's Philosophy of Language in the document analysis, in the investigation  of  the history of psychology and other fields. Insofar as bakhtinian’s proposals involves indetermination, duplication and ambiguity, it is remarked his propositions should not be conceived as fixed and permanent rules to be applied to a subject as a way to reveal it. Therefore the method and subject should be created each and every investigation. This paper shows concisely the main proposals of his philosophy of language, the problems of authorship, themes, discursive genres and the risks of static and/or displaced analysis of the themes.

Key words: Bakthin; utterance; authorship


RESUMEN

El texto tiene como objetivo presentar posibilidades del uso de la Filosofia del Lenguaje de Bakhtin para el análisis de documentos en la investigación de la historia de la psicología y otros campos. Se senãla que las proposiciones bakhtinianas no deben ser utilizadas como un conjunto de reglas fijas e inmutables,  para ser aplicado a un objeto esperando mostrar su contenido, porque ella se presenta como una propuesta que envuelve indeterminación, duplicación y ambiguedad. Así para cada investigación el camino y el objeto deben ser construidos. El texto presenta, de forma concisa, no solo las ideas centrales de la Filosofia del Lenguaje sino también las interrogantes de autoría, temas y formas discursivas, así como los riesgos de formas de tematización  estática y/o traspuestas.

Palabras-clave: Bakhtin; enunciación; autoría


 

 

Como e para quê fazer um recorte histórico na investigação psicológica? Seria possível falar da subjetividade sem uma estranheza, exterioridade ou diferença que a constituiria? Essa dupla questão da alteridade e do sentido e valor da história implica algumas posições de base relevantes para os historiadores da psicologia.

Entendendo a história não apenas como uma série de fatos passados, mas como em contínua construção — por se referir a uma sociedade sempre em movimento —, como ação da memória que busca, a partir do presente, conhecer o passado e  traçar perspectivas para o  futuro, o presente texto reflete nosso interesse em subsidiar, teórica e metodologicamente, as investigações  acerca da construção dos saberes e práticas em Psicologia no Brasil.

Para nós, investigar a história da Psicologia permite proceder à desnaturalização de nossos atuais saberes e práticas. Estes não são o resultado de uma evolução ininterrupta em direção a um perfeito conhecimento científico, um desenvolvimento em singela linha reta, antes, referem-se a alternativas que em determinados momentos foram escolhidas, vencendo a batalha nos jogos de forças e tendências diversas que caracterizam a constituição da ciência. Encontrar o ignorado, o encoberto, permite-nos verificar as condições de possibilidade do surgimento ou consolidação do saber — e também, se quisermos correr os “riscos da história-ficção” (Stengers, 1990, p. 75), pensar o que poderia ter sido e não foi.

Destarte, construir uma narrativa implica a descoberta de lutas, de jogos em que há vencidos e vencedores. Implica também a necessidade de uma escolha analítica que permita dar sentido àquilo que o documento apresenta, para que não seja somente um “jornalismo retrospectivo”, conforme a expressão de Châtelet (1974, p. 211).

Disso decorre que há diferentes perspectivas historiográficas que resultam nas mais diversas metodologias neste processo de construção de uma história da ciência. Como pesquisadores em história da psicologia, temos nos preocupado em consolidar formas específicas que orientem nossas diversas pesquisas. Trabalhando principalmente com fontes documentais escritas e orais, vimo-nos lidando com a questão do discurso, palavra polissêmica que vai desde aquela referência à retórica no senso comum - como a arte de falar bem -  até a  linguística de Saussure, além das mais recentes perspectivas derivadas da pragmática, do relativismo e do construcionismo social. Neste sentido, a pretensão deste texto é, a partir da análises teórico-metodológica, oferecer um possível ferramental analítico para investigações (não só histórica) que trabalhem com discursos escritos (documentos públicos, institucionais, privados), icônicos ou imagéticos ou discursos orais.

Se pretendemos trabalhar com discurso e atentamos para a polissemia do termo, é importante explicitar nossa compreensão a respeito.  Entendemos que qualquer definição já é uma declaração de filiação teórica, uma tomada de posição no contexto de diversidade que o termo envolve. Para nós, discurso é uma possibilidades de ação social pela qual os seres sociais influenciam-se reciprocamente e constroem o mundo que os cerca. Arendt (1991), por exemplo, diz que no mundo grego clássico “ação” significava tanto o ato heróico na guerra — que podia levar seu autor à singularização — quanto a fala determinante na assembléia. Assim, a ação implica uma resposta não necessariamente prevista em sua proposição, e é da imprevisibilidade da ação que surge seu componente político, no sentido de que ela influencia o outro a partir do sentido que é criado na comunicação.

Destarte, discurso está imbuído da noção de “sentido”. Este

(...) é uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas — na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas — constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos à sua volta. (Spink & Medrado, 2004, p. 41)

Nosso interesse pelo discurso implica a necessidade de entender as perspectivas de sua análise que vêm sendo utilizadas nas Ciências Humanas Sociais. A Análise do Discurso (AD) é, em suas principais linhas, uma proposição francesa, que parece representar a tradição d'explication du texte. Neste campo, poderíamos dizer que a análise do discurso busca responder à questão como ler e entender um texto. Para essa questão existem diferentes respostas.  Em comum, talvez possamos dizer que estas tratam do papel do falante, consideram a importância da enunciação (de um conjunto de enunciados que formam uma unidade contrária a outro conjunto), sendo  seu sentido determinado por fatores extralinguísticos. Neste sentido, pode-se dizer que a AD busca averiguar quem fala, a quem é dirigida a fala, o que significa o que foi dito na arena da enunciação.

Pela relevância que atribuímos à enunciação, temos tentado averiguar a possibilidade de uso da Filosofia da Linguagem de Bakhtin2.  Um primeiro cuidado que devemos tomar ao buscar as sugestões de Bakhtin para uma metodologia das ciências humanas consiste em não utilizá-las como uma fórmula, um conjunto de regras que devem ser aplicadas a um objeto a fim de encontrar um enunciado, mero efeito circunstancial de uma máquina legitimadora — a metodologia científica. Não devemos supor que, ao apresentar e discutir algumas de suas propostas, encontraremos um caminho bem-pavimentado de acesso a um objeto escolhido. Sua proposta envolve uma indeterminação, uma duplicidade e uma ambiguidade ao estabelecer apenas uma orientação que exige, a cada investigação, a construção de um caminho e de um objeto. Não cabe aqui a apresentação de uma norma da linguagem a ser utilizada ou de procedimentos experimentais de revelação de um objeto previamente determinado; esboçaremos, ao contrário, uma reflexão sobre a construção de uma pesquisa: o que fazer para elaborar um tema e as formas discursivas sem de antemão reduzi-los a uma repetição.

Objetivando atender à proposição de fornecer uma formulação analítica para a análise documental, este texto percorre os seguintes caminhos: a filosofia da linguagem em Bakhtin; autoria e formas discursivas; temas e formas discursivas; tematização dinâmica e não deslocada.

 

IDEOLOGIA E ALTERIDADE: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A REFLEXÃO HISTÓRICA A PARTIR DE BAKHTIN

As contribuições de Bakhtin para o sentido e o valor da história e para a importância do outro decorrem de sua filosofia da linguagem. Ainda que o livro Marxismo e filosofia da linguagem (Bakhtin, 1929/1997) sugira no título a prevalência do marxismo na determinação da filosofia da linguagem, este privilégio não deveria ser  admitido sem uma análise mais detida. Não nos estenderemos nesses comentários, mas apenas apontaremos algumas das dificuldades em aceitar candidamente este determinismo. Em primeiro lugar, o problema da autoria e do título do livro: Volochinov ou Bakhtin?  Nesta polêmica, atribui-se a Volochinov a adequação do título e de algumas partes do livro às duras regras do stalinismo,  que, com suas interdições e monologismos, forçou modificações na obra para sua publicação. Em segundo lugar, a alteridade e o dialogismo adotados por Bakhtin, apesar da adoção dos enunciados concretos existentes num grupo (como o marxismo), levam-no a desvendar e elaborar novos enunciados, e não simplesmente revelar o que essa visão de mundo conteria em seu subsolo.

Assim, cuidando em não apresentar regras metodológicas a serem seguidas (como se sua enunciação e uso fossem isentos de valor) e prestigiando sua filosofia da linguagem, buscaremos expor suas contribuições para uma pesquisa de cunho histórico em Psicologia e a importância do outro neste trajeto.

Nossa proposta não consiste em fornecer uma metodologia passo a passo para aplicação a qualquer recorte histórico, projeto que poderia ser feito tentando sistematizar O contexto de François Rabelais, texto integralmente dedicado a uma análise de Rabelais e seu contexto. Como sabemos, a construção de um objeto se faz no embate com este mesmo objeto, pois as categorias não lhe preexistem, são construídas ao longo do exercício. Neste sentido, ele mantém apenas uma ligação com uma concepção bastante geral do modo de funcionamento da linguagem e do homem, constituindo um contrassenso formular as regras básicas para o trabalho em história da Psicologia.

Partindo de uma sugestão de Bakhtin (1929/1997), buscaremos determinar um sentido da palavra ideologia: “A única maneira de fazer com que o método sociológico marxista dê conta de todas as profundidades e de todas as sutilezas das estruturas ideológicas "imanentes" consiste em partir da filosofia da linguagem concebida como filosofia do signo ideológico” (p. 38).

A filosofia do signo ideológico está na base de seus estudos, pois para Bakhtin (1929/1997) o ideológico corresponde ao signo. “Tudo que é ideológico possui um valor semiótico (…) O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes” (p. 32). A característica básica do signo (signo ideológico) está em ser interativo e, em decorrência, está no encontro do social e do individual, do presente e do passado, do sistemático e do expressivo, do biológico e do cultural, do geral e do específico, do sociológico e do psicológico. Sua especificidade está em remeter a uma outra realidade. Tão real quanto esta outra realidade a qual remete, o signo surge da tensão dialógica:

Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (Bakhtin, 1929/1997, p. 31) [grifos do autor]

O ponto de partida de sua filosofia está justamente nesta concepção de signo. O signo não deriva da consciência individual, como propõem o psicologismo e o idealismo, nem mesmo de uma entidade social fundamental, como sugerido pelo sociologismo. O signo encontra seu sentido e sua origem na interação verbal, na necessária participação do outro.

A crítica de Bakhtin às concepções idealistas e psicologistas da consciência como anterior aos signos poderia ser estendida aos estudos atuais sobre o funcionamento cerebral e suas consequências no psiquismo. Trata-se do problema das origens, dessa exigência criada pelos pesquisadores de estabelecer um ponto fixo capaz de explicar toda a variação humana ou de, a partir dela, encontrar sua lógica. Bakhtin percebe claramente que esse é um problema que tem sua fonte em uma tentativa monológica, principalmente porque suas próprias afirmações e seu pensamento privilegiam a variedade das relações sociais e suas tensões, por ele entender que é no movimento da interação entre os homens que se encontra o ponto de partida, sempre dual e sempre endereçado.

Toda teoria que ignora o processo concreto de comunicação e interação verbal termina por criar conceitos metafísicos ou construir uma subjetividade anterior às trocas entre os homens, ficando seu surgimento sempre transferido para outro tempo e outro local.

O que chamamos de psicologia do corpo social e que constitui, segundo a teoria de Plekhánov e da maioria dos marxistas, uma espécie de elo de ligação entre a estrutura sócio-política e a ideologia no sentido estrito do termo (ciência, arte, etc.), realiza-se, materializa-se, sob a forma de interação verbal. Se considerada fora deste processo real de comunicação e de interação verbal (ou, mais genericamente, semiótica), a psicologia do corpo social se transforma num conceito metafísico ou mítico (a “alma coletiva”, “o inconsciente coletivo”, “espírito do povo”, etc.). (Bakhtin, 1929/1997, p. 42)

A proposta de que a “consciência só pode surgir e se afirmar como realidade mediante a encarnação material em signos” (Bakhtin, 1929/1997, p. 33) permite escapar ao artifício reducionista da origem ao preço, é certo, de admitir histórias tensas e variadas. Se a ideologia não decorre da consciência e, antes, o contrário é o que mais se aproxima do razoável, só podemos compreender e dar alguma realidade à consciência na medida em que esta possa ser significada.

Submeter o surgimento do signo e do ideológico a uma realidade específica como a socioeconômica corresponderia a restringir ou sobrevalorizar um aspecto entre a variedade das interações humanas, ainda que tais aspectos sejam prevalentes em determinado recorte histórico social.

A ideologia como significação da comunicação social está diretamente relacionada às condições materiais da existência (a seu contexto). “O signo nada mais é do que a materialização desta comunicação” e a palavra, “fenômeno ideológico por excelência” (Bakhtin, 1929/1997, p. 36), corresponde à precipitação do signo na linguagem, ou seja, ao aspecto semiótico e ao papel condicionante da comunicação social.

Devemos buscar o sentido da palavra mais do que o da ideologia, para compreender as reflexões de Bakhtin, pois: “Toda refração ideológica do ser em processo de formação, seja qual for a natureza de seu material significante, é acompanhada de uma refração ideológica verbal, como fenômeno obrigatoriamente concomitante” (Bakhtin, 1929/1997, p. 38).

A valorização da tensão, da comunicação e da interação necessária à função semiótica fornece argumentos simples, potentes e esclarecedores ao trabalho de Bakhtin. Sua determinação da palavra e da linguagem não resulta na busca de um sistema estável. Como a partir da palavra, sempre polissêmica e comunicativa, encontrar uma estrutura absolutamente fechada? Sua crítica principal ao saussurianismo (elas servirão também ao estruturalismo nascente então3) está na oposição entre  língua e fala, no isolamento que esta operação confere à língua. Bakhtin nunca isola o signo da função comunicativa e da tensão que o constitui e, consequentemente, privilegiará sempre a enunciação, o contexto a que ela se liga, de que ela é simultaneamente a expressão e o meio de atualização. O signo é a arena onde se desenvolve a luta entre os indivíduos e suas organizações sociais.

É nesta série que se podem inserir as consequências para uma pesquisa histórica em Psicologia. Sem comentar as consequências para a Psicologia da noção de consciência acima exposta (que não são poucas), passemos às sugestões quanto a uma história, citando uma longa passagem:

Todo signo, como sabemos, resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. Razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece. Uma modificação destas formas ocasiona uma modificação do signo. É justamente uma das tarefas da ciência das ideologias estudar esta evolução social do signo linguístico. Só esta abordagem pode dar uma expressão concreta ao problema da mútua influência do signo e do ser; é apenas sob esta condição que o processo de determinação causal do signo pelo ser aparece como uma verdadeira passagem do ser ao signo, como um processo de refração realmente dialético do ser no signo. (Bakhtin, 1929/1997, p. 44)

 

AUTORIA E DIALOGISMO

Como dito, este texto tem por objetivo apresentar algumas contribuições téorico-metodológicas no âmbito da pesquisa em História da Psicologia, a partir das teorias de Mikhail Bakhtin. Em decorrência disso, é preciso deixar claro que a elaboração de uma proposta que se entenda como bakhtiniana necessita, fundamentalmente, incorporar — entre alguns outros elementos, detalhados mais adiante — a perspectiva na qual Bakhtin situa a autoria de um trabalho (Bakhtin, 2000), pois pode acontecer que o pesquisador, a despeito de aludir aos termos oriundos das análises de Bakhtin, produza sugestões e reflexões antitéticas aos termos evocados.

Ora, é fácil verificar que a própria elaboração de um artigo científico ou paper se situa em dadas condições sociais de autoria. As chamadas “normas para submissão de artigos”, aliás onipresentes em todos os periódicos indexados, são um exemplo claro de que,  na dinâmica das práticas sociais, as questões que circunstanciam a autoria de um trabalho científico são concomitantemente reguladas e reguladoras.

Assim sendo, principalmente no caso de propostas metodológicas bakhtinianas, já que “o autor corresponde ao conjunto dos princípios criadores” (Bakhtin, 2000, p. 220), esse autor-criador (distinto do autor-pessoa) precisa proceder a um deslocamento de lugares de enunciação a partir da apropriação de vozes sociais. Isto, naturalmente, significa indicar a impossibilidade de conceber o texto acadêmico como um mero discurso direto e unívoco sobre as coisas em si mesmas, sobretudo porque aludem a objetos de estudo inseridos na realidade social.

Desse modo, um texto acadêmico apresenta um dado de singularidade - uma vez que composto por um ou mais escritores (autores-pessoa) -, mas o que o torna efetivamente acadêmico é a sua construção pelo autor-criador, instância eminentemente social que produz uma dada obra aceita no âmbito acadêmico. Isso significa, em outras palavras, que a constituição da função estético-formal do autor-criador serve para caracterizar um modo de ser do discurso. Consequentemente, o fato de se poder afirmar: “esse artigo de História da Psicologia é de fulano” indica tratar-se de um discurso que deve ser recebido de uma maneira socialmente instituída; ou seja, que ele não deve ser apreendido como um discurso neutro ou indiferente, mas, ao contrário, consiste numa prática discursiva a reivindicar um estatuto diferenciado, um lugar referencial de autoridade.

Não obstante, esse fato não constitui propriamente uma novidade (vide Foucault (1992) bem como os experimentos da psicologia social cognitiva) uma vez que distinções entre autor-pessoa (entendido como um indivíduo empírico) e autor-criador (concepção de dada função social) são amplamente reconhecidas no horizonte teórico das análises do discurso, sendo atualmente “um lugar comum nas teorizações estéticas” (Faraco, 2005).

No que diz respeito à elaboração de uma proposta metodológica — objetivo principal deste texto — o que se configura como indispensável, entretanto, é enfatizar o adequado posicionamento do autor-criador enquanto função engendradora da obra ante as distintas práticas discursivas do horizonte teórico em questão, inclusive mediante a ação de refletir e refratar o tema em questão. Logo, uma investigação bakhtiniana deve tornar-se outra relativamente a si mesma, e ver-se pelos olhos de outro, pois somente assim, através de uma análise mediada pelo diálogo com os outros, o texto produzido será efetivamente dialógico.

O próprio termo “dialogismo”, cunhado por Bakhtin (1929/1997), pode aqui ser usado para designar um procedimento discursivo que reúne, absorve e reelabora as réplicas de outro. Através do dialogismo, a investigação em História da Psicologia deve ter por interlocutor o próprio texto, onde se instalam processos de frequentes releituras à medida que é escrito.

Por outro lado, não é o caso de entender “o dialogismo” de forma reducionista, como uma categoria de análise meramente instrumentalizável. A visão deve ser mais ampla, a partir da ideia de que o dialogismo favorece um olhar compreensivo e abrangente dos processos históricos, fundamentalmente porque implica conceber a produção discursiva como um vasto e complexo universo de interações orientadas sócio-historicamente. Daí a necessidade de um olhar que vislumbre a “consciência individual” imersa nos signos sociais, em meio às assimétricas relações sociointeracionais (Faraco, 2001).

Tais considerações preliminares remetem à constatação de que, em torno da apropriação de Bakhtin no Brasil, há diversas posições dialógicas que se apresentam em uma dinâmica de múltiplas inter-relações responsivas. Dito em outras palavras, isto aponta a necessidade de um texto assumidamente bakhtiano buscar refletir/refratar vozes diversas, como num caleidoscópio de cores distintas, de tintas variadas - o que é o nosso propósito aqui.

De fato, a relevância de toda esta discussão ocorre por conta daquilo que alguns autores têm identificado, neste país, como sendo a construção de um “arcabouço teórico-reflexivo” (Brait, 2005) acerca do pensamento bakhtiniano. Dessa forma, em nossa proposta téorico-metodológica, convém investigar os percursos assumidos por outros autores e os materiais utilizados na construção de tal arcabouço. Por essa razão os tópicos a seguir contemplarão alguns elementos distintivos de uma investigação psicológica bakhtiniana.

 

TEMAS E FORMAS DE DISCURSO NA INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA BAKHTINIANA

Em sua tese de doutoramento, Castro (2005) observa  que sua incorporação do instrumental bakhtiniano decorreu de sua  perspectiva de  que os fundamentos da  Psicologia não são fisiológicos ou biológicos, mas sociológicos. Esta análise decorre principalmente de sua compreensão de que a “consciência” constitui um fato social-ideológico não acessível aos métodos tomados de empréstimo à fisiologia ou às ciências naturais. Aquela investigação consistia, portanto, numa tentativa de superar a mediação da psicologização das particularidades de um dado indivíduo, em prol de uma visão dialógica em que o plano sócio-histórico viesse a sobressair.

Realmente, tanto as psicologias de base fisiológica e biológica quanto o idealismo cometem um erro fundamental (Bakhtin, 2004): o pesquisador que elege como objeto de estudo a consciência individual perde o foco da vida em sociedade. Esse equívoco é responsável não só por uma confusão metodológica acerca da inter-relação de domínios diferentes do conhecimento, mas também por uma distorção radical da realidade estudada, pois a criação ideológica — ato eminentemente social — é introduzida à força no quadro da consciência individual. Isso significa dizer que a regularidade social objetiva da criação ideológica, quando indevidamente interpretada como em conformidade com as leis da consciência individual, é transportada para os recônditos pré-sociais do organismo psicobiofisiológico.

Na visão bakhtiniana, a consciência só pode ser adequadamente compreendida na perspectiva sociológica, pois assim adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais (Bakhtin, 2004). Neste sentido, a lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social; e vale lembrar: se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada.

Assim, em oposição à falsa dicotomia de que o psiquismo é individual e a ideologia é social, Bakhtin considera que o indivíduo, enquanto detentor dos conteúdos de sua consciência e autor responsável dos seus pensamentos, é um fenômeno puramente socioideológico. Todo pensamento de caráter cognitivo materializa-se na consciência, no psiquismo, apoiando-se no sistema ideológico. Neste sentido, o conteúdo do psiquismo individual é tão social quanto a ideologia.

Em suma, a crítica de Bakhtin à Psicologia que circunscreve o estudo das ideologias ao estudo da consciência implica uma nova abordagem e um novo âmbito de estudo. Para ele, a investigação psicológica deve ser construída em função de dois eixos básicos. Em primeiro lugar, ela deve trilhar o caminho que busca o “conteúdo dos temas” que se encontram atualizados, no corpo social, num dado momento do tempo; mas, concomitantemente, também deve percorrer a trilha dos “tipos e formas de discurso” através dos quais esses temas tomam forma, são comentados e debatidos no meio social (Bakhtin, 2004).

Destarte, no que diz respeito especificamente à história da Psicologia, a investigação deve eleger certos “temas”, situando-os em seu contexto sociocultural e buscando as práticas discursivas em que eles emergiram. O grande desafio, todavia, é dar conta do significado dos temas, porque o sentido de uma dada palavra pode mudar de acordo com o contexto da interação social dialógica em que ela é usada.

O tema da loucura, para ficar em um único exemplo, mostra quanto os sentidos variam segundo diferentes modos de subjetivação, pois uma mesma palavra —  por exemplo, “pinel” — pode eventualmente servir para descrever posições sociais diametralmente opostas: o alienista e o alienado4.

 

OS RISCOS DA TEMATIZAÇÃO ESTÁTICA

Como o sentido das palavras pode constantemente variar a partir dos usos (e abusos) específicos de cada interação social, o pesquisador incorrerá em grave equívoco se considerar os temas de estudo em História da Psicologia como sendo fixos e estáticos. Em outras palavras, numa abordagem bakhtiniana é necessário perceber que temas como, por exemplo, “psicologia experimental”, não significam a mesma coisa, nem sincronicamente (na Alemanha ou nos Estados Unidos), nem diacronicamente (nos séculos XIX e XX). Outro exemplo: a “psicologia empírica” de Wolf, na Alemanha do século XVIII, é bem diferente do empirismo do behaviorismo.

Quando o pesquisador considera as palavras, os termos e, consequentemente, os temas a eles vinculados como sendo estáticos, acaba por fixar-se na mediação que uma pretensa materialidade do signo supostamente oferece, e assim perde o dado analítico que seria o mais importante, pois as mudanças de sentido das palavras são capazes de registrar as fases transitórias mais íntimas e mais efêmeras das mudanças sociais. A palavra é justamente o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem-formados (Bakhtin, 2004).  Por isso está longe de ser adequado o procedimento de atribuir um sentido unívoco a dado tema isolado como se uma única apropriação de sentido, tanto em História da Psicologia quanto em outros campos do conhecimento, bastasse a si mesma. Na perspectiva bakhtiniana, a análise do tema só é possível com sua inclusão no contexto histórico. Qualquer enunciação monológica é uma abstração que deve ser evitada, pois leva ao risco de transformar o contexto em um absoluto.

Essas ponderações poderiam ser consideradas desnecessárias em certos ambientes, pois os critérios de relativização de sentidos são aceitos em muitas vertentes teóricas atuais; mas  dimensão dialógica deste texto  impõe ressaltar que as temáticas sociais estão vinculadas a processos históricos, não constituindo jamais normas fixas. A recente tentativa de produzir uma espécie de dicionário dos principais termos do pensamento bakhtiniano oferece um curioso exemplo de como produzir um contrassenso teórico-metodológico às suas próprias contribuições neste campo. Assim, não obstante Bakhtin (2004) ter anatematizado os “objetivistas abstratos” que isolam e estabilizam a significação de palavras fora do contexto, a fim de encerrá-las num dicionário, professores brasileiros se envolveram em um malsucedido projeto em que listavam “uma infinidade de termos, apontando uns para os outros” (Brait, 2005, p. 9).

 

RISCOS DA TEMATIZAÇÃO DESLOCADA

Eventualmente, em vez de as categorias bakhtinianas viabilizarem a compreensão de um dado tema, algo distinto ocorre, sobretudo quando a temática é deslocada de modo a forçosamente se encaixar em alguns outros conceitos e noções previamente definidos. Um exemplo desses deslocamentos pode ser visto em autores que contemplam Bakhtin como precursor de alguma coisa. Neste sentido, pode-se citar Sobral (2005), para quem o Círculo de Bakhtin “antecipa o que a física moderna viria a comprovar” (p.138).

Em que pese ao fato de serem muito conhecidas as críticas feitas em forma de paródia pelo físico Alan Sokal aos autores de ciências humanas e sociais que se referem impropriamente às categorias da física quântica (através de artigo irônico publicado na revista americana “Social Text”), o problema da proposta de  Sobral (2005) não é só esse.

De acordo com Bakhtin (2004), assim como para observar o processo de combustão convém colocar o corpo no meio atmosférico, de igual modo, para se identificar o sentido dos temas é preciso situar os sujeitos no meio social. Consequentemente, a concepção de um Bakhtin deslocado no tempo e no espaço, visto que só se é precursor a posteriori, escamoteia a situação social e histórica da produção do discurso.

Em História da Psicologia deslocamentos impróprios podem ocorrer, por exemplo, em análises que tentem ligar, numa convergência superficial, dois fenômenos fortuitos situados em planos diferentes. Essa crítica é especialmente válida em relação às apropriações da historiografia francesa na análise da constituição de hospícios na realidade brasileira. Em decorrência de vários estudos feitos sobre o alienismo no século XVIII, principalmente, no contexto francês, por Foucault (1987), muitos pesquisadores brasileiros conceberam um desenvolvimento quase evolutivo das práticas sociais referentes à loucura (ver, por exemplo, Machado, 1978 e Costa, 1999), principalmente porque transplantam para o Brasil a interpretação de um fenômeno ocorrido na Europa no século XVIII e XIX, concebendo que por aqui necessariamente aconteceu sempre o mesmo processo, ou seja, os dispositivos de tratamento da doença mental transitaram da obra de caridade até chegar ao predomínio do olhar médico (Castro, 2007; Patto, 1996).

A ideia bakhtiniana, então, é que evitar os riscos da tematização deslocada implica abandonar inferências com base em uma correspondência pela qual “A” causa “B”, decorrentes de processos de causalidade mecanicista, em prol de investigações que situem as temáticas psicológicas no conjunto da vida social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Fazer história — estudar a evolução social do signo linguístico — está no centro das ciências humanas. Para estudar a história da Psicologia, nada mais legítimo do que elaborar a história dos signos.

Um dos aspectos que mais nos chamaram a atenção em Bakhtin foram o respeito e a importância conferidos aos discursos por ele analisados. Assim, quando ele aponta as falhas das concepções saussurianas e idealistas do signo, vemos claramente como elas foram importantes como posições bem-definidas para elaboração de seu próprio discurso. É justamente a valorização do sistema e da consciência – respectivamente nos casos dos saussurianos e dos idealistas - que faz aparecer a importância da comunicação, do processo real de interação verbal que nos permite escapar tanto da noção de origem como do sociologismo e do psicologismo. Bakhtin reconhece a importância de uma obra ao criticá-la e não a toma em bloco, não entende que o discurso exista como uma unidade sólida. Essa polifonia explicitada em análises sobre a obra de Dostoiéski ou em comentários sobre os gêneros discursivos parece ser adotada como postura intelectual.

A riqueza de suas análises sempre está ligada a um objeto, pois Bahktin não faz teoria no vazio. Assim vamos descobrindo, maravilhados, sua valorização do encontro dialógico, da tensão interindividual, da arena da palavra. Em Discurso na arte e discurso na vida vemos aparecer o presumido como elo entre o dito e o não dito, a significação e o extraverbal, a importância do julgamento de valor e da entoação neste processo, ou seja, a ampliação do horizonte de análise de um discurso (uma vez que julgamento de valor e entoação são considerados perigosos para uma perspectiva científica embasada no paradigma das Ciências Naturais), com a introdução do herói entre o escritor e o leitor. Vemos também a valorização do riso, a desconstrução da oposição erudito/popular etc. Considerações deste tipo abrem um novo campo de trabalho e avaliação para a psicologia ao valorizar justamente o que vem a ser uma dificuldade propalada nesta disciplina: a dificuldade em estabelecer padrões. Para Bakhtin, as ciências humanas não devem buscar estes padrões unívocos, mas sim, a valorização de enunciados concretos, sempre dependentes do contexto e, consequentemente, em constante modificação.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Alexandre de Carvalho Castro.
Departamento de Ensino Superior (DEPEA), CEFET. Av. Maracanã, 229, CEP 20271-110, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.
E-mail: o.aken@uol.com.br

Recebido em 29/10/2009
Aceito em 25/01/2011

 

 

1. Apoio: CNPq; FAPERJ.
2. Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi um teórico russo vinculado ao que se convencionou chamar de “Círculo de Bakhtin”, grupo também integrado por Pável Nikoláievitch Miedviédev (1895-1975) e Valentin Nikoláievitch Volochinov (1895-1936) que nos anos 20 se reunia para debater diversas questões literárias e culturais (Clark & Holquist, 1998). A obra de Bakhtin, que foi preso e exilado no Casaquistão em 1928, permaneceu na obscuridade durante grande parte de sua vida, tanto em face da ostensiva repressão do stalinismo, quanto pela condição de parte dela ter sido publicada originalmente com o nome de seus amigos, mortos na década de 30. De fato, Miedviédev publicou “O método formal no estudo literário”, em 1928; e Volochinov, por sua vez, figurou como responsável, dentre alguns artigos, por “Freudismo” (1927) e “Marxismo e Filosofia da Linguagem” (1929). Cumpre ressaltar, contudo, que explicitamente atribuídas a Bakhtin, sem pseudônimos, também foram publicados algumas obras. O livro “Problemas da Poética de Dostoiévski”, lançado em 1929, época em que ele estava exilado e sem contatos com o mundo acadêmico, somente chamou efetiva atenção em fins da década de 50, por iniciativa de alguns alunos da pós-graduação do prestigiado Instituto Gorski, em Moscou. Esse mesmo grupo de estudantes, que no início nem tinha idéia de que o desconhecido autor ainda estava vivo, estimulou posteriormente Bakhtin a lançar uma nova edição de seu “Dostoiévski”, em 1963. Além disso, ajudaram-no a resgatar sua tese de doutoramento — concluída em 1940 e, após seis longos anos esperando o fim da guerra para avaliação, rejeitada pela banca — sob o título “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais”. Em 1975, pouco antes de morrer, Bakhtin publicou ainda “Questões de literatura e estética”, livro composto de artigos dos anos 30, em sua maioria. De forma póstuma, por iniciativa de seus editores, veio também a lume, em 1979, uma nova coletânea com artigos inéditos e fragmentos de épocas variadas: “Estética da criação verbal”.
3. Embora a corrente estruturalista funcional em linguística cujos principais nomes são André Martinet e Émile Benveniste, ressalte a função comunicativa na estruturação da linguagem, suas análises privilegiam sempre o aspecto sistemático no que diz respeito aos problemas colocados pelos diferentes contextos de enunciação.
4. Philippe Pinel (1745-1826), médico iluminista, considerado o fundador da moderna psiquiatria. No Rio de Janeiro, na linguagem cotidiana o termo “pinel” é utilizado para designar não só o “louco”, mas também para classificar pessoas cujos atos indiquem que está fora do controle de si, está ”pinel”.

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