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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.16 no.4 Maringá Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722011000400001 

EDITORIAL

 

 

Quando se faz psicologia, parece-nos que não estamos
fazendo ciência, e quando fazemos ciência, quase sempre
temos certeza de não estar fazendo psicologia

Pierre Grèco

 

Inauguro este editorial chamando a atenção para a epígrafe. Mesmo datada da década de 1960, ela ainda capta alguns impasses e paradoxos enfrentados pelas práticas de pesquisa em psicologia na contemporaneidade. Um dos mais perenes pode ser ilustrado com a seguinte pergunta: a pesquisa psicológica é qualitativa ou quantitativa? Essa questão parece ser parasitária de outra: a estrutura epistemológica de pesquisa em psicologia é das ciências humanas ou naturais? Esses questionamentos, por seu turno, parecem subscrever outro mais fundamental, que vai ao cerne das ponderações de Grèco: afinal, a psicologia é ciência?

Diferentes respostas foram dadas a essa questão. Examinarei algumas delas, em especial, as que declaram: "sim, a psicologia é uma ciência". Antes, contudo, cabe delimitar o contexto dessa discussão. Historiadores, filósofos e sociológicos da ciência têm anunciado uma profunda transformação no terreno científico. Essa mudança é caracterizada pela crise do modelo científico moderno e surgimento de um modo diferente de fazer ciência, denominado de ciência contemporânea, emergente ou pós-moderna. O modelo moderno de ciência perdurou por mais de três séculos, tendo seu apogeu no século XIX, palco do nascimento de propostas científicas de psicologia. Essa coincidência histórica deixou marcas no pensamento psicológico, principalmente no tocante ao estatuto de sua cientificidade.

No contexto do modelo moderno de ciência, algumas propostas de psicologia enunciaram: "sim, a psicologia é ciência, uma ciência natural!". O argumento que subjaz a essa assertiva parece ser este: a psicologia é uma ciência natural, pois seu objeto de estudo, de modo semelhante aos das ciências naturais (a natureza), é capaz de ser observado por mais de uma pessoa ao mesmo tempo; detém regularidades que, uma vez descobertas, podem ser traduzidas em leis, que permitirão explicar, prever e controlar o fenômeno sob investigação. Nessa ótica, a justificativa empregada para sancionar a cientificidade da psicologia está na sua similitude com a estrutura epistemológica da ciência física, mais especificamente, da física clássica ou newtoniana, o paradigma de conhecimento verdadeiro na ciência moderna. A psicologia teria, então, de emular os incrementos técnicos empregados pelas ciências naturais, investigando o seu fenômeno por meio de métodos quantitativos.

Ainda com base no modelo moderno de ciência, há outra resposta. A psicologia é ciência? "Sim", mas o argumento agora é diferente: "a psicologia é ciência, mas é ciência humana!". O homem, assunto da psicologia, resiste a uma explicação nos moldes das ciências naturais. Diferente do objeto dessas ciências, o fenômeno psicológico tem uma intencionalidade que não é captada por uma explicação mecanicista, assentada em causas antecedentes. Aliado a isso, o homem apresenta espontaneidade e dinâmica próprias que impedem a descoberta de leis gerais, e, consequentemente, a previsão do fenômeno psicológico. Em suma: a psicologia é uma ciência humana, isto é, da compreensão e não da explicação; da descrição e não da predição; das condições e não das variáveis; do sentido e do desejo, e não do comportamento; do interno e não do externo; da liberdade, e não do controle. Com base nessas especificidades, a psicologia deve buscar procedimentos que deem relevo a essas características notadamente "humanas"; o compromisso aqui é com os métodos qualitativos e não com os quantitativos. Com efeito, o modelo de ciência moderna deixou uma cicatriz no seio da própria psicologia: a dicotomia entre ciências naturais e ciências humanas, bem como suas expressões correlatas, "quantitativo versus qualitativo", "objetivo versus subjetivo", e assim por diante.

No entanto, a despeito de suas evidentes disparidades, há mais semelhanças entre ciências naturais e ciências humanas do que se possa imaginar. Ambas não parecem ter superado o modelo de racionalidade binário da ciência moderna, que pensa o fenômeno por meio de dualidades incompatíveis e inconciliáveis. De um lado, as ciências humanas parecem compartilhar com as ciências naturais a mesma visão determinista e mecanicista de natureza. Isso porque um dos argumentos empregados pelas ciências humanas para justificar a sua singularidade invoca justamente as analogias entre máquina e natureza: o homem deve ser estudado com outros recursos, diferente daqueles empregados no estudo da natureza, pois esta é mecânica e previsível, já aquele é intencional e imprevisível. Por outro lado, as ciências naturais parecem subscrever a mesma concepção de homem das ciências humanas. Não raro, as ciências da natureza acusam as ciências humanas de serem proto ou pseudocientíficas, pois o estudo do homem, em contraposição ao da natureza, resiste a leis, previsão e controle. Enfim, longe de superar, a dicotomia entre ciências naturais e ciências humanas acaba reiterando o modelo de racionalidade da ciência moderna; e longe de aproximar homem e natureza, acaba ampliando o abismo entre eles.

O modelo contemporâneo de ciência parece colocar as relações entre homem e natureza em outras bases. A visão mecanicista de natureza recebeu ácidas críticas, principalmente por parte das ditas "ciências duras", como a física e a química. Aliado a isso, o desenvolvimento das ciências biológicas nos séculos XIX e XX chamou a atenção para um elemento irredutível de acaso, desordem e imprevisibilidade no mundo natural, colocando em xeque as pretensões de o cientista encontrar regularidades infalíveis e certeza absoluta.

Ora, parece que a natureza está se humanizando...

Em contrapartida, as ciências do homem têm sugerido a possibilidade de se encontrar um mínimo de regularidade no fenômeno psicológico. Mas, tais como as da natureza, as regularidades do fenômeno psicológico são falíveis ou probabilísticas.

Ora, parece que o homem está se naturalizando...

A aproximação do homem com a natureza manifesta-se na ciência contemporânea na proposta de uma relação transdisciplinar entre os diferentes campos científicos. Nesse modo de relação, os contornos entre ciências naturais e ciências humanas tornam-se menos nítidos. No entanto, isso não implica em perda de identidade. A metáfora empregada por Boaventura de Sousa Santos elucida bem esse ponto: os diferentes campos do saber relacionam-se como "galerias temáticas onde convergem linhas de água que até agora concebemos como objectos teóricos estanques"1. O que se vê agora é a possibilidade das ciências humanas e das ciências naturais se comunicarem. Na acepção de Edgar Morin2, é exatamente isto que significa a transdisciplinaridade: a comunicação sem redução. Diferente disso, no modelo moderno de ciência o debate entre disciplinas era encorajado pelo reducionismo. Aliás, há ecos dessa proposta em declarações como as de que a psicologia atestará seu estatuto de cientificidade quando seus conceitos forem, no limite, passíveis de ser traduzidos em termos do léxico das neurociências.

A psicologia precisa não só conhecer, mas também participar do debate científico contemporâneo. Com isso, ela terá condições de elaborar outras respostas às espinhosas questões que sempre trazem à baila a problemática de sua cientificidade, como retrata o comentário de Grèco. Não apenas isso. Mais do que buscar respostas, a psicologia poderá colocar a si mesma novas questões, que fogem à racionalidade binária do modelo moderno de ciência. Talvez este seja um dos principais desafios às propostas de psicologia científica e, consequentemente, das práticas de pesquisa em psicologia: a comunicação sem redução, isto é, a transdisciplinaridade.

Mas como fazer isso? Eis uma questão que já traça outro itinerário para pensar as relações entre ciências naturais e ciências humanas. Uma resposta pronta e imediata é difícil de ser enunciada. Não obstante, podemos começar com algo simples tão simples que nos passa despercebido: vamos conversar?

Esperamos que as publicações veiculadas pela Revista Psicologia em Estudo, como as deste número, sejam um convite a essa reflexão.

A todos, uma boa leitura!

 

 

Carolina Laurenti
Editor de Seção
e-mail: laurenticarol@gmail.com

 

 

1 Cf. Santos, B. S. (2008). Um discurso sobre as ciências (5a ed., p. 20). São Paulo: Cortez. (Trabalho original publicado em 1987).         [ Links ]
2 Cf. Morin, E. (2008). Ciência com consciência (M. D. Alexandre & M. A. S. Dória, trads.) (12a ed. revista e modificada pelo autor). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (Trabalho original publicado em 1990).         [ Links ]