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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.18 no.1 Maringá Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722013000100006 

ARTIGOS

 

A ideologia do corpo feminino perfeito: questões com o real

 

The ideology of the perfect female body: issues with real

 

La ideología del cuerpo perfecto de la mujer: problemas con el real

 

 

Aluísio Ferreira de LimaI; Karina de Andrade BatistaII; Nadir Lara JuniorIII

IDoutor em Psicologia (Psicologia Social) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, com pós- doutorado em Psicologia Social pela mesma universidade. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará - UFCl
IIPsicóloga. Psicóloga do Núcleo de apoio a saúde da família de Uruburetama – CE. Pesquisadora do Paralaxe: Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica. Universidade Federal do Ceará – UFC
IIIDoutor em Psicologia Social. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNISINOS – São Leopoldo-RS. Pesquisador do Paralaxe: Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente artigo se propõe refletir sobre como na sociedade capitalista contemporânea algo da ordem do real se inscreve no corpo feminino. Para tanto discorreremos acerca das categorias “corpo feminino” e “Real” à luz da teoria psicanalítica para, por fim, apresentar de que modo eles se articulam no contexto social atual, mais especificamente no capitalismo de consumo. Discutiremos como a mulher tem aderido à ideologia do corpo perfeito, na tentativa de evitar deparar-se com sua falta. Nesse momento daremos destaque à submissão às cirurgias estéticas na atualidade, as quais, paradoxalmente, são possibilidade de gozo e lançam a mulher na sua condição de não toda e ao encontro com o Real. O artigo pretende apresentar como no corpo da mulher há uma marca denunciando algo que falha na sociedade capitalista, que, por sua vez, por meio da ideologia do gozo pleno, busca afastar, neste caso, a mulher do seu desejo.

Palavras-chave: Teoria psicanalítica; capitalismo; corpo.


ABSTRACT

The paper proposes to consider how  something of the order of the Real is registered in the female body in the contemporary capitalist society. For this we will discuss about the categories  “female body” and “Real” in the light of psychoanalytic theory to finally present how they are articulated in the current social context,  more specifically in  consumer capitalism. We will discuss how the woman has  joined to the ideology of the  perfect body in an attempt of avoiding to come across his lack. At this time we will highlight the submission to the cosmetic surgeries in the present: those that, paradoxically, are a possibility of pleasure (jouissance) and throw the woman to her  non-whole condition as well as to the encounter with the Real. The article shows how in the the female body there is a mark denouncing something that fails in the capitalist society, which in turn, through the ideology of  full pleasure (jouissance), search for moving away, in this case, the woman of her desire.

Key words: Psychoanalytic theory; capitalism; body.


RESUMEN

Este artículo propone una reflexión sobre como en la sociedad contemporánea capitalista algo de la orden del real se escribi en el cuerpo femenino. Asi discorreremos sobre las categorias “cuerpo femenino” y “Real”, a la luz de la teoría psicoanalítica, para hablar como ellas se articulan en el actual contexto social, específicamente en el capitalismo de consumo. Vamos a discutir cómo la mujer se ha adherido a la ideología de un cuerpo perfecto en un intento de evitar encontrarse con su falta. En este momento nos centraremos en la presentación de la cirugía estética en la actualidad: cirurgías que, paradójicamente, son posibilidades de gozo para la mujer y su encuentro con lo Real. El artículo muestra cómo en el cuerpo de una mujer existe una marca de denuncia la falta en la sociedad capitalista, que a su vez, a través de la ideología del gozo pleno, pone a otro lado, en este caso, la mujer a distancia de su deseo.

Palabras-clave: Teoría psicoanalítica; capitalismo; cuerpo


 

 

Na sociedade capitalista contemporânea, o corpo, assim como outras questões humanas, parece já não ser mais fonte de “pecados” universais e, possivelmente por isso, ou por outras coisas mais, torna-se justificativa, ou até mesmo desculpa, para os excessos de nossa sociedade. O corpo explorado, responsável pela força de trabalho e pela produção de mercadorias (Marx, 1890/1984), é ao mesmo tempo o corpo necessário para o consumo das mercadorias e para busca e obtenção de prazer e gozo, sendo por essa condição o centro das preocupações. Não por acaso as novas descobertas científicas de cura de doenças e retardamento do envelhecimento, como as cirurgias plásticas e outras, aparecem como imperativos do bem-viver, criando a ilusão de se viver sem dor e distante da morte. Na sociedade capitalista de produção de consumo, onde a indústria cultural reproduz a ideologia da não repressão e “revela-se em todos os setores como liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa” (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 156), a imagem corporal torna-se uma representação fundamental, porque é através dela que se ganha reconhecimento estético, saúde, bem-estar, fama e status social e financeiro. Dissemina-se a ideia de que o corpo é um objeto de propriedade particular no qual o sujeito tudo pode; no entanto  a sociedade capitalista omite que “esse tudo pode” é uma ilusão, pois ela impõe padrões para o ideal corporal, portanto o sujeito é mero executor das normas de consumo em seu próprio corpo; como afirma Ramos (2008), a ideologia da sociedade de consumo se inscreve no corpo. Com essa inscrição, o corpo passa a ocupar uma posição de mal-estar na cultura, porque  nele se apresentam os males da cultura como sintoma (anorexia, bulimia, drogadição, etc.), como já assinalava Freud no início do século XX.

Em O mal-estar na civilização (1930/1996), Freud aponta três fontes de mal-estar na cultura: a decrepitude do próprio corpo, a força da natureza e a dificuldade de estabelecer relações interpessoais. Freud acredita que essa última fonte talvez seja a mais penosa de todas e crie a necessidade da cultura que, paradoxalmente, sustenta a responsabilidade da sua miséria e busca por felicidade.

Nesse trabalho o autor ainda nos ensina que a busca pela felicidade na vida se relaciona diretamente com a busca da fruição da beleza, e adverte que essa “atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-lo bastante” (Freud, 1930/1996, p. 90). A discussão desenvolvida por Freud ajuda a entender por que, ao longo de toda a história, percebemos o sujeito buscando diversos meios de tentar esteticamente se apropriar e moldar o próprio corpo. Podemos pensar, também, ancorados nas considerações de Quinet (2006), que o ato de intervenção e modificação do corpo é uma tentativa simbólica de inclusão no laço social realizada por homens e mulheres que implica de forma contundente o Imaginário e o Real, e mais, o real do próprio corpo1.

Na lógica capitalista de consumo, há uma valorização exacerbada do corpo feminino como objeto de gozo fálico, pois nesse lugar (o corpo da mulher) se diz que se pode gozar. Por isso nessa lógica de gozo há uma ordem a ser cumprida: o corpo feminino passou a ter caráter de objeto de consumo, e como tal, indústrias especializadas passaram a produzir produtos corporais - cosméticos, remédios para emagrecimento, aparelhos de ginástica, moda e intervenções cirúrgicas. Tudo para manter o corpo saudável, jovem e belo, apto a ser devorado simbolicamente como objeto de gozo no laço social capitalista.

Na tentativa de se distanciar do corpo real, entendido como aquele marcado pela falta2, muitas vezes a mulher, impelida por imperativo de gozo, busca compulsivamente modificar o corpo, recorrendo a métodos de remodelamento. São desde procedimentos superficiais aos mais invasivos, como as cirurgias plásticas e implantes. Tais procedimentos, assim como as demais mercadorias, exploram “os lados sempre insatisfeitos de seu ser... e oferece(m)-se como se anunciasse(m) a satisfação” (Haug, 1997, p. 77), que se desfaz logo que o consumidor toma posse do que é oferecido, tão logo descobre que a mercadoria não conseguirá suprir sua falta constitutiva, remonta uma lógica de demanda insaciável. Nessa lógica da demanda insaciável sempre há uma busca pelo gozo pleno, entendido como “um lugar perfeito, pleno de gozo e proteção – no qual se experimenta o que Freud, baseado em Romain Rolland, chamou de ‘sentimento oceânico’” (Lara Junior & Ribeiro, 2011, p. 591).

As mercadorias e intervenções cirúrgicas remontam o cenário da perfeição inexistente. Como essa montagem não passa de ilusão, essa mulher, muitas vezes, ao se deparar com sua condição faltosa depara-se com o Real, que aparece inscrito no corpo como trauma. Lembremos o caso da modelo eleita Miss Brasil em 2001, cujo título foi questionado quando veio a público que seu corpo fora submetido a uma longa série de cirurgias plásticas, revelando-se como uma produção — uma beleza talhada com bisturis e modelada em silicone — em vez de ser e expressão da “beleza natural feminina”.

Com base no exposto, o presente artigo se propõe refletir sobre como na sociedade capitalista contemporânea algo da ordem do real se inscreve no corpo feminino. Neste sentido, pensamos ainda que  a submissão às cirurgias plásticas e outras adequações do corpo aos modelos impostos pela sociedade se relaciona com as tentativas de proteção simbólica e com a fantasia de realidade da mulher diante de um Real devastador e traumático. Para tanto, abordaremos a compreensão de cada categoria – Corpo feminino e Real – à luz da teoria psicanalítica lacaniana para, por fim, apresentar de que modo eles se articulam no contexto social atual, mais especificamente, no capitalismo de consumo. A escolha do feminino como referência, longe de restringir as questões do corpo a um único gênero, remete à especificidade do ser mulher na teoria da psicanálise, seu gozo suplementar particular e sua peculiar inserção na condição desejante. Tratamos, assim, de um corpo feminino tardo-moderno que, longe de restrito à compreensão anatômica, ao mesmo tempo em que é falado, também é falante; um corpo que encarna uma espécie de moral e do qual a mulher é encarregada de cuidar de acordo com as demandas culturais.

 

ALIENAÇÃO E SEPARAÇÃO

Para uma melhor compreensão desse processo e sua relação com a sociedade capitalista de consumo, acreditamos que seja prudente apresentar outra articulação importante, que se refere à concepção de eu e sujeito do inconsciente, pontos cruciais para se entender a constituição do sujeito em Freud e Lacan, o que inevitavelmente nos obriga a apresentar e discorrer, mesmo que brevemente, sobre os mecanismos de alienação e separação.

No Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1964/1990), discorrendo sobre a questão da transferência, fala do sujeito como aquele que é representado por um significante para outro significante. O grande outro aparece como o tesouro dos significantes. Lacan apresenta, então, as duas operações que regulam as relações do sujeito com o Outro: a alienação e a separação. A entrada do sujeito na linguagem e sua relação com os significantes originam alienação, a primeira relação de causação do sujeito, e está relacionada ao primeiro significante da cadeia com o qual a criança se identifica. Devido a essa alienação em relação ao Outro, o sujeito não irá se inscrever no discurso senão representado, ou seja, estando submetido a uma objetivação imaginária. Desse modo, as primeiras imagens do corpo próprio infantil são introjeções de imagens do corpo do outro ou da imagem especular vinda do exterior. Essa lógica de captação de imagem está presente durante todo o desenvolvimento subjetivo. É ela que guiará a constituição do eu. Consequentemente, “a experiência de produzir uma imagem corporal é alienação de si no sentido de submissão da referência-a-si a referência-a-outro.” (Safatle, 2004, p. 11)

Neste narcisismo primário o sujeito irá construir sua unidade corporal. A partir da imagem corporal a criança estabelece a diferença entre seu corpo e o mundo  e assim estrutura toda a sua vida e fantasia. Neste sentido, o processo de formação do eu como unidade de síntese de percepções está condicionado à constituição de uma imagem do corpo que servirá como matriz imaginária. Ao ser o sujeito tomado pela linguagem se instaura nele o desejo decorrente da perda do objeto a (aquilo que se perdeu em sua relação com o Outro), de modo que o “desejo causado pelo objeto a, então, não é o desejo de objetos nomeáveis pela linguagem” (Dias, 2010, p. 27). O desejo se origina na segunda operação de causação do sujeito – a separação. Esse processo se refere à intersecção entre o sujeito e o Outro, a qual produz duas faltas simultâneas: a falta que o sujeito encontra no Outro e a falta constitutiva do sujeito, sua falta anterior, de seu próprio desaparecimento.

Podemos observar que, enquanto a alienação se dá pelo deslizamento de significantes, a separação se apresenta como uma vontade de saber mais do que aquilo que o Outro possa dizer. Na separação há uma quebra da cadeia significante que o aliena a discursos totalizantes e estes lhe prometem a reconstrução de seu laço simbiótico com a mãe, lançando assim o sujeito em busca do seu desejo. Assim, dessa operação se destaca o objeto a. A operação de separação é importante porque permite ao sujeito encontrar uma brecha entre os significantes que sustentam a alienação e se deparar com seu desejo (a verdade sobre si mesmo) e com a impossibilidade de sua completude, o que, inevitavelmente, faz com que o sujeito passe a suportar a origem, sua falta primordial. Esse processo evidencia que a alienação e a separação funcionam de forma dialética. Destarte, nesse processo dialético o desejo é o que falta na linguagem, o que não possui uma demanda precisa, por isso sempre convoca o sujeito a algo mais fora da lógica da alienação.

Inserido no processo de alienação e separação, o corpo é entendido como uma sequência de significantes onde se inscreve uma marca histórica, situando-o como suporte de desejo, da ligação sujeito-significante no laço social. Nesse processo o corpo também sustenta a relação do sujeito com o Outro. Os ditos desse Outro do sujeito é que inscreverá todos os afetos do corpo, seja pela forma de significações seja pelos vestígios de gozo barrado (Quinet, 2004). Deste modo, “se a imagem do corpo próprio é sempre a sedimentação heteróclita de imagens ideais socialmente desejáveis, então não há nada de próprio na imagem do corpo” (Safatle, 2004, p. 12). O corpo próprio é, na verdade, o corpo do Outro. Desde sua origem o corpo é o lugar do Outro, espaço em que está inscrita a marca do significante. O corpo é o meio no qual o eu se coloca como objeto de desejo do Outro, este que é compreendido em sua estrutura sociossimbólica.

Neste sentido podemos dizer que a psicanálise funda um corpo que, ao mesmo tempo em que está vinculado à constituição do eu e a edificação do aparelho psíquico, também é construído a partir da relação do sujeito com a alteridade; portanto corpo está presente na constituição do ser da linguagem, do desejo e do gozo. Essa forma de concepção corporal é efeito de uma relação indissociável entre o sujeito e a cultura. Vale ressaltar que as representações corporais, com suas promessas de gozo, acabam por negligenciar as tensões presentes na gênese da imagem do corpo.

Sobre essa relação do desenvolvimento do eu associado à percepção corporal do sujeito Lacan faz uma articulação entre corpo, ipseidade, imagem e identificação social, de modo que a gênese do eu está fundamentalmente associada ao processo de formação da imagem do corpo próprio. Com a entrada de um outro na relação edípica da criança com a mãe, a criança é inserida  no campo da linguagem, inaugurando assim suas relações inconscientes com o grande outro (Outro). Quando esse Outro se estabelece na estrutura do sujeito, agora para sempre castrado, há sempre um resto de gozo para sempre perdido, mas incessantemente buscado: a compulsão à repetição. A partir desse resto de gozo nasce o corpo simbólico.

O corpo simbólico é aquele que, atravessado pelos significantes da linguagem e do gozo, torna-se responsável por distribuir o prazer no corpo, sempre faltoso. Ele resiste sempre ao corpo orgânico e reúne inúmeras artimanhas para identificações e significações do corpo, sejam elas estéticas, religiosas, artísticas ou biológicas. Com a entrada do sujeito na relação significante e o simultâneo surgimento do Outro, o corpo simbólico surge como resistência ao corpo orgânico, o qual passa a ser determinado não mais por suas necessidades biológicas, mas pelos significantes do Outro. A entrada do sujeito na linguagem estabelece um resto de gozo que está perdido para sempre, mas que o sujeito busca incessantemente (Dias, 2010).

Esse corpo simbólico, como afirma Lacan (1970/1992) em O avesso da psicanálise, tem a estrutura de um saber. Se só existe gozo no corpo e o saber é meio de gozo pela incidência desses significantes (S2), chega-se a uma dimensão do corpo simbólico. Existe também outro aspecto da corporeidade que não se inscreve como sujeito e também não se aliena como objeto: aquilo que Lacan chamará de real do corpo e que faz oposição ao corpo. O sujeito só reconhece seu corpo pelo olhar do outro, que faz a função de espelho e por sua vez é carregado de expectativas e ideologias; ou seja, o outro não reflete a imagem do corpo próprio, mas o que ele deseja, e tudo isso produz, inevitavelmente, uma insatisfação constitutiva. Neste sentido, a imagem do corpo pode ser compreendida como uma imagem na qual o sujeito se aliena em uma forma-objeto; no entanto, uma vez que essa forma de objeto não consegue dar conta da totalidade do sujeito e essa compreensão da corporeidade é sempre vacilante, esse sujeito impulsiona seu corpo pulsional na busca de possibilidades de modificação desse corpo imaginário pelos mais diversos meios.

 

O CORPO FEMININO COMO UMA “MARCA” NA SOCIEDADE DA INSATISFAÇÃO ADMINISTRADA

O corpo feminino aparece atravessado por uma questão entre ele mesmo e o Outro. Algo lhe intercepta as palavras, silencia o seu dizer e nesse lugar surge o real do corpo como palco para esse indizível da feminilidade. Assim, o corpo torna-se um instrumento para inserção no universo feminino. Na falta de um significante que o descreva, o feminino permanece inesgotável. Este que “diz respeito não ao que se inscreve na ordem simbólica, mas àquilo que, incessantemente, não para de não se escrever, o que equivale a dizer, pede para se inscrever” (Assoun, 1993, p. 10). A mulher está submetida a esse significante que está no discurso do Outro.  Não bstante, mais do que diante do ter ou não ter o falo, a mulher se inscreve como ser o falo. Para Lacan “é a ausência do pênis que faz dela um falo” (Soler, 2005, p.34).

No momento em que o tornar-se mulher inscreve-se como transformação corporal, o corpo feminino sofre uma falicização; portanto há na mulher uma elevação do autoinvestimento, ligado à busca fálica. Atravessada pela castração simbólica ela se inscreve na ordem desejante, submetendo-se à logica objetal; mas “seu querer-feminino, irredutível ao simbólico, busca através da feminilidade transformar a falta num ‘tesouro de encontros’, numa riqueza infinita de invenções femininas que se desfazem ininterruptamente, levando o feminino, como tal, a existir ainda que inominável, pontual e evanescente.” (Assoun, 1993, p.12). É importante destacar que a castração na menina é vivenciada de forma diferente do menino. Enquanto, diante da ameaça, ele recalca totalmente o gozo, conduzindo-se ao gozo fálico segundo os significantes viris, ela, embora também tenha sua fantasia de gozo absoluto barrado, vivencia completamente a castração. Esse algo que escapa à castração é o que diferencia a mulher, no entanto essa diferenciação diante da castração se dá naquilo que se refere ao gozo, e não à identidade. O gozo feminino é, então, sem limite; é um gozo Outro, para além do fálico, é suplementar, “incognoscível pelo homem, mas indizível pelas mulheres” (Roudinesco, 1998, p. 300).

Obviamente, a compreensão psicanalítica da mulher vai além do que concerne às vicissitudes das pulsões e à sexualidade feminina. A escuta do discurso das histéricas, marcado pelo contexto da sua época, possibilitou a Freud elaborar reflexões importantes sobre as consequências da feminilidade para a cultura. Apresentava-se uma figura feminina subjugada em diversos âmbitos: o sociocultural, em que ela era impedida de exercer suas possibilidades intelectuais e criativas, ficando excluída do mundo produtivo e sem poder exercer nenhuma atividade fora do lar; e o âmbito sexual, em que ficava subjugada à figura masculina, sendo impedida de representar esse desejo, visto como um dano psíquico. Não havia espaço para prazer ou gozo, pois sua função social não era compatível com um ser desejante e de gozo (Soler, 2005). A histérica denunciava no corpo uma civilização demasiadamente fálica, que se opunha ao querer feminino. Assim, pelo corpo ela marca uma denúncia histórica, material de algo no laço social que a impedia de assumir seu desejo.

A mulher freudiana apresenta um duplo contraditório: ao mesmo tempo em que é concebida como frágil, dependente, passiva, designada ao casamento e à maternidade, é também aquela que – embora na figura da histérica – transgride as normas sociais, tendo o corpo sexualizado e marcado pelo anseio de gozo. Esta é ao mesmo tempo desejada e temida. Dessa forma, o desejo arrebatador da mulher desconstrói o ideal de feminilidade da época, saindo da postura autoritária até então a ela reservada.

Na sociedade contemporânea surge outro perfil social, diferente daquele percebido por Freud, e com isso o papel da mulher no laço social sofre modificações. Como relata Soler (2005, p. 124), “(...) a instituição familiar, os semblantes e os discursos referentes ao gozo sexual já não são o que eram há algumas décadas.” A partir desse novo perfil as imagens e símbolos femininos foram substituídos, e a mulher sagrada, de inocência virginal, foi substituída por “Lolitas” e pela mulher fatal hollywoodiana, as quais posteriormente deram lugar às “top models de olhar vazio” (Soler, 2005).

O modelo atual de feminilidade é marcado por uma supervalorização do corpo como objeto narcísico de gozo: mulher sensual, erótica, bela e sujeita a uma imagem de seu corpo, tentando a qualquer custo manter o ideal de beleza e juventude, para responder ao imperativo de gozo da sociedade de consumo, que é “goze a todo custo”, e o corpo se torna o depositário dessas experiências incomensuráveis. As cenas e sintomas histéricos, tratados na época de Freud como negativos e patogênicos, na contemporaneidade são estimulados pela mídia, através do investimento libidinal do próprio corpo, exibindo-o e erotizando-o como um objeto a ser consumido e tragado junto com as marcas. Através de um investimento narcísico, o corpo feminino torna-se objeto de satisfação sexual. A mulher moderna é marcada pela busca por um corpo perfeito e por se fazer desejada enquanto objeto sexual. Nesse mesmo sentido, partes do corpo feminino que remetem às fantasias e experiências sexuais infantis de carga pulsional intensa (como boca, seios e pele), nessa nova cultura de culto ao corpo são erotizadas, e transformadas em elementos constituintes da fantasia masculina. Esses elementos corporais, ao mesmo tempo em que remetem à mãe, representam a prostituta, na figura de um desregramento sexual em que seria possível vivenciar um lado perverso da sexualidade e uma plenitude de gozo (Soler, 2005), e isso empurra a mulher e o homem não para um movimento de separação, que os levaria ao encontro de seus desejos, mas para a lógica da alienação – lugar da plenitude de gozo.

Dessa forma, a busca da mulher por um corpo ideal, ao mesmo tempo em que possibilita um excesso de gozo do corpo perfeito, torna-a escrava desse ideal, denunciando um “mal-estar” da cultura contemporânea: o excesso de consumo. Essa cultura de consumo subjuga o corpo em nome de uma estética, com a promessa de juventude, saúde, sucesso e felicidade, de modo que tais excessos acabam por provocar sofrimentos psíquicos. Os ideais de beleza e de corpo feminino, longe de serem apenas uma imposição cultural, são também uma demanda do ser mulher, na tentativa de mascarar a falta constituinte. Essa busca por um corpo perfeito, por uma perfeita feminilidade, é manobra utilizada para evitar o contato com a castração. A imagem do corpo, ao ocultar e indicar, ao mesmo tempo, a condição feminina, mostra-nos quão multifacetada pode ser a feminilidade. A mulher, que, historicamente, teve a palavra tão impedida, passa a se servir do real do corpo no lugar da sua palavra, porque no corpo dessa mulher contemporânea, que segue os padrões determinados, se inscreve algo que denuncia a lógica do capitalismo contemporâneo, que é tamponar a falta; e, como assinala Lara Junior (2010, p. 17), podemos pensar que o capitalismo oferece a falsa possibilidade de tamponar essa falta criando artifícios para que esse sistema seja hegemônico.

Neste sentido, pensamos que uma fantasia que a mulher possui nessa sociedade capitalista é a busca incessante por um corpo ideal que lhe reduza o mal-estar, por isso as indústrias da beleza e da estética aumentam a cada dia seus lucros com a crescente adesão às práticas estéticas. Ademais, embora as cirurgias plásticas não sejam procedimentos recentes, na última década a busca por procedimentos de modificação corporal aumentou consideravelmente. De acordo com as informações fornecidas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – SBCP, a cada ano, cerca de 500 mil pessoas se submetem a cirurgias plásticas no Brasil. “O país fica atrás apenas dos EUA, líder em número de cirurgias estéticas. Segundo salienta Osvaldo Saldanha (Secretário Geral da SBCP), estima-se que o número de cirurgias aumente de 20% a 30% por ano.” (Trinca, 2008)

Mais que o fascínio pelas inovações tecnológicas, a grande adesão feminina a essas inovações ressalta as implicações psíquicas da constituição do ser mulher. A estética corporal aparece como uma urgência feminina, tendo seu desdobramento no corpo simbólico (Souza, 2010), embora a possibilidade de reconfiguração corporal não signifique a realização de ideais. Podemos de fato transformar radicalmente o corpo, ou ainda, explorar de formas extremas nossas experiências sensoriais; mas um ponto insiste em permanecer, “e ainda com mais força: a dependência fantasmática do eu ao olhar desejante do Outro” (Safatle, 2004, p. 13).

Na sociedade contemporânea, na qual a indústria cultural subverte o discurso pela fixidez da identidade e sua imutabilidade, vive-se a exaltação da metamorfose, com a estimulação, a reconfiguração contínua e a construção performativa de identidades (Lima, 2010); mas, no que se refere à política de identidade voltada para a construção de uma identidade corporal feminina, percebe-se que está condicionada a instrumentos midiáticos. Embora a imagem desse corpo mutável já fizesse parte do imaginário cultural por décadas, atualmente a publicidade faz com que ela se estabeleça no cerne da cultura de consumo.  A mídia funciona como um Outro, porque incentiva e promove , como escreve Safatle (2004), “a dependência fantasmática do eu ao olhar desejante do Outro”. Assim, as mulheres que se submetem a essa lógica se tornam prisioneiras do próprio corpo, pois ficam presas à lógica da alienação, e com isso se tornam insaciáveis diante de tantas exigências do Outro. O mercado capitalista sabe disso, e por isto oferece tantas “promoções” e facilidades para se obter o corpo perfeito. O corpo passa a ter um valor de mercado, não somente como mão de obra, mas um valor estético para consumo.

De acordo com Safatle (2008), na cultura capitalista contemporânea a retórica do consumo e a indústria cultural passaram por algumas mutações extremamente significativas nas últimas décadas, pois hoje os laços sociais se estabelecem segundo a lógica do consumo. Safatle acredita que, enquanto o capitalismo de produção era regido pela repressão, o capitalismo de consumo é regido pela não repressão, o que, inevitavelmente, gera algumas consequências e uma nova ética: a ética do direito ao gozo (Safatle, 2008, p. 126). Essa “ética do direito ao gozo” se tornou uma necessidade de sobrevivência para muitos sujeitos da sociedade do capitalismo de consumo. Longe de estar submetida à dialética prazer-desprazer, esta nova sociedade é regida por um imperativo de gozo. Enquanto o prazer existe nos moldes do equilíbrio e da satisfação, o gozo está além do princípio do prazer: ele é desestabilizador, traumático e excessivo (Žižek, 2006). Na sociedade regida por esse novo imperativo de gozo, a economia libidinal sofre impacto decisivo, aproximando-se de certo ideal de gozo. Nela impera a lógica da acumulação de bens, da plasticidade da produção, dos imperativos de mobilidade, flexibilização e multiplicidade.

A lógica de consumo e a busca pelo gozo pleno (sem restrições superegoicas) fazem com que passemos de uma sociedade de satisfação administrada para uma sociedade de insatisfação administrada. Essa sociedade se alimenta dos frágeis vínculos com os objetos e valores, havendo uma crise de legitimidade em que ocorre uma desvalorização dos objetos de consumo e dos sujeitos, de forma que estes não mais se identificam com identidades fixas, mas com identidades cada vez mais flexibilizadas. “Na verdade, eles são cada vez mais chamados a sustentar identificações irônicas, ou seja, identificações nas quais, a todo o momento, o sujeito afirma sua distancia em relação aquilo que ele está representando ou, ainda, em relação suas próprias ações.” (Safatle, 2008, p.134). Nessa tentativa de administrar a insatisfação, temos uma mudança constante de objetos de desejo e, ao mesmo tempo, uma subjetividade flexível que a torna apta a responder imediatamente aos apelos de consumo. Tal flexibilidade também se inscreve no corpo, porém  esse corpo aparece cada vez mais como matéria plástica, “espaço de afirmação da pretensa multiplicidade” (Safatle, 2004, p. 1). Acreditando na promessa de completude e na possibilidade de tamponar a falta, o sujeito passa a estabelecer laços sociais mediante a obtenção de bens – gozando entre corpos.

 

EXISTE ALGO DO REAL NO CORPO FEMININO

Como nos lembra Žižek (2003), Lacan já afirmava que o sujeito possui uma resistência ao saber (“não quero saber disso”) para evitar se deparar com sua falta estrutural. Este “não querer saber” é utilizado na lógica do capital para incentivar o consumo, e a promessa ideológica vendida junto com os objetos devorados é o tamponamento irrestrito da falta.  Žižek acredita que para desmantelar as operações ideológicas no laço social é necessária uma política do real. Para defender essa política, esse autor, baseado em Lacan, diz que o real é designado como uma realidade fenomênica e impossível de simbolizar. Em outras palavras, para Lacan o Real não é impossível no sentido de nunca poder acontecer, mas exatamente o contrário: é por ele acontecer que possui o caráter traumático.

Assim, o Real é algo que podemos encontrar. Ele é impossível não apenas no sentido de um encontro faltoso: sua impossibilidade se dá no fato de que, devido ao seu caráter traumático, somos incapazes de enfrentá-lo. O sujeito cria estratégias para evitar tal encontro, uma das quais consiste exatamente em mantê-lo na condição de um ideal indefinido, sendo eternamente adiado. Afinal, o Real só existe partindo de um a priori ilusório, a partir do que podemos supor dele. Saber o que existe por trás dessa ilusão é impossível. O Real é o que está fora do simbólico, o que nos falta “é o vazio básico, e a ilusão é que podemos recuperá-lo” (Žižek, 2006, p. 85). O Real possui, assim, um caráter ilusório, traumático demais para ser encontrado, pois a experiência de encontro com ele possui uma dimensão incestuosa e autodestrutiva. O Real como esse algo impossível, o que nos falta, articula-se com a lógica do desejo e com o ideal de um objeto inatingível, estruturando-se em torno de um vazio primordial - dano a priori, de modo que os objetos de desejo empíricos não mais coincidem com o que foi perdido, já que o objeto perdido nunca existiu de fato.

Para o referido autor, o Real se manifesta de diferentes formas, de modo que nele é projetada a tríade Real, Simbólico e Imaginário. Assim, temos o Real real, o Real simbólico e o Real imaginário. O Real real é caracterizado pela “coisa horrenda: a cabeça da medusa, o alienígena do filme, o abismo, o monstro” (Žižek, 2006, p. 87). O Real simbólico pode ser representado por fórmulas científicas sem sentido, tendo-se como exemplo a física quântica. Nós não conseguimos integrá-las no horizonte dos significantes, portanto são sem significação, sem sentido. Já o Real imaginário “designa não a ilusão do real, mas o real da própria ilusão” (Žižek, 2006, p. 88). Ele é representado por traços elusivos, substanciais, que incomodam. É o ponto do Real no Outro. O Real, assim, não é sempre implacável, podendo surgir como algo frágil, que transparece ou se destaca no Outro.

A imagem do Real no Outro é retratada pelo incômodo ao deparar-se com outro que não segue a lógica tida como ideal para a obtenção de gozo  (pode ser aquele que fuma ou que come em excesso). A imagem de um Outro que goza demais  se torna  insuportável. A proximidade com o Outro é desconfortante. Assim, não é apenas o encontro com o Real que é traumático, mas também o saber sobre ele.  As pessoas não estão preparadas para tal constatação, elas precisam ter esperanças, fazendo trabalhar a fantasia. Essa imagem do Real fornecerá um cenário imaginário que permite responder ao desejo do Outro; no entanto, quando alguém se oferece como o objeto de desejo do Outro, o que está em jogo é o seu próprio desejo.

Observamos a procura feminina por uma corporeidade desejável. Numa busca incessante pelo objeto a, outrora perdido, há um direcionamento pulsional para o real do corpo, produzindo um corpo fragmentando, onde cada fragmento é investido individualmente e oferecido ao Outro. Este, por sua vez, recebe permissão de modificá-lo e interroga incessantemente sua imagem corporal. Os corpos, assim, são manipulados em busca de uma perfeição inalcançável e, ao mesmo tempo, desejada e perseguida.

Na sociedade contemporânea, ao mesmo tempo em que as cirurgias plásticas são vivenciadas como possibilidades de gozo pleno, fazendo com que cada vez mais mulheres recorram a intervenções estéticas em busca do corpo idealizado, essas mesmas intervenções lançam a mulher ao Real, ao encontro de sua falta, de sua constituição não toda, pois o gozo alcançado por ostentar um corpo fetichizado é fugaz, visto que, pela própria demanda incessante do Outro oportunizada pela lógica capitalista, os ideais  demandados e alcançados sempre se diluem, atualizando assim a lógica da compulsão à repetição que atualiza o cenário de gozo pleno, nunca alcançado.

Para Žižek, a estratégia da lógica capitalista serve principalmente para evitar o enfretamento com o Real, “precisamente, situá-lo como um ideal indefinido, que é eternamente adiado” (2003, p. 91). Tal estratégia é reforçada pela indústria cultural, sobretudo pelos ideais veiculados midiaticamente e pelos apelos de consumo da beleza. Vende-se um corpo perfeito, mas esse ideal é inalcançável. Não se diz quando é obtido. É indefinido. Vemos que o corpo feminino aparece cada vez mais como matéria plástica. Essa plasticidade do objeto de desejo cria um fluxo contínuo de equivalências, no qual o desejo é frequentemente reeditado. Žižek (2003, p. 100) assinala ainda que o supremo paradoxo do Real é o fato de que “não se pode ter tudo, não porque alguma coisa lhe faça oposição, mas por causa desse autobloqueio puramente formal, estruturalmente intrínseco.”

Podemos dizer, a título de ilustração, que, ao submeter-se à cirurgia de aumento da mama para contemplar um ideal de beleza, a mulher depara-se novamente com a falta. Desse modo, se em sua realidade a modificação corporal era sinônimo de gozo pleno, ela observa que após a cirurgia ela continua impossibilitada de corresponder ao ideal impossível. Diante do impossível, vê-se invadida pelo Real, que denuncia sua condição faltosa e incompleta, e isso lhe causa angústia.

Tal manobra é respaldada pela fantasia. A mulher, por “não querer saber”, foge da realidade que se apresenta, através do mecanismo da fantasia, que, para a psicanálise, compreende uma cena imaginária na qual o sujeito representa a realização de seu desejo e determina um caminho em direção ao gozo. Sem a ação estruturadora da fantasia o sujeito não saberia como desejar e estabelecer uma relação com o objeto. (Safatle, 2003, p. 188). A fantasia é um modo de defesa contra a castração. É o mecanismo capaz de permitir que o sujeito invista libidinalmente no mundo dos objetos e que os objetos possam adquirir valor e significação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos dizer que o real eclode no corpo da mulher em forma de trauma (erros médicos nas cirurgias, intermináveis operações plásticas, implantes, etc.), de beleza artificial, de corpo moldado cirurgicamente para ser uma “Miss”, como no exemplo citado aqui. Nesse cenário totêmico o corpo é corpo oferecido como objeto a ser consumido nos rituais consumistas que se inauguram todos os dias em nossa sociedade. Neste sentido, cada marca mostra sua mulher a ser consumida junto com seu produto.

Entendemos que as inscrições no corpo feminino, assim como Freud percebeu em suas pacientes histéricas e depois Lacan vê de forma ampliada, a mulher pertence ao campo da linguagem, e, longe de possuir um corpo próprio, constrói para si um corpo simbólico a partir das imagens e do ideal socialmente desejável, de modo que seu corpo tem algo do corpo do Outro que sofre os efeitos do discurso. Por isso podemos supor que algo não funciona bem para as mulheres, as quais, em muitos casos, não conseguem simbolizar esse incomodo, porque delas também foi retirado o saber sobre si que as faz repetir a lógica incessante do gozo: não querer saber para não se defrontar com o real de sua existência - a falta.

Afinal, vimos que no capitalismo de consumo a mídia atua como esse Outro, apresentando uma crescente erotização dos corpos e ocupando cada vez mais lugar de objeto de desejo. Neste contexto há uma busca desenfreada pela estética, na tentativa de obter um corpo ideal.  A estética “vem representando mais uma, dentre tantas outras tentativas de contornar as vias da feminilidade contemporânea, de modo que o feminino não pára de inscrever sob a condição de enigma.” (Souza, 2010)

Assim como a histérica freudiana, a mulher contemporânea continua utilizando o corpo no lugar da palavra, corpo que é constituído pelos efeitos do discurso. Diferentemente da histérica, que fala por meio de conversões histéricas da singularidade de seu desejo, tendo lugar no limite entre o Real e a linguagem, a mulher contemporânea busca afastar-se desse Real, investindo libidinalmente em seu próprio corpo. Entre as diversas formas de intervenção vimos que as cirurgias plásticas se apresentam como um artifício feminino para tentar simbolizar a própria feminilidade e sua condição faltosa de reajustar o que falta e o que excede no real do corpo. Isso é possível pelo fato de estarmos atravessados pela fantasia, identificados com ela. É ela que estrutura o excesso que resiste à nossa imersão na realidade diária. Assim, a fantasia estrutura o excesso que resiste à total imersão no Real.

O Real é o verdadeiro contrário da realidade. O encontro com o Real é, assim, a realidade que, ao perder o alicerce da fantasia, torna-se repulsiva, dolorosa e insuportável. A mulher, diante do Real, sente a necessidade de ter esperanças e faz trabalhar a cena imaginária, que representa a realização de seu desejo e determina um caminho em direção ao gozo. Essa cena imaginária a que se dá o nome de fantasia não é construção de uma aparência, que seria distorção ou recalcamento de uma realidade psíquica positiva primeira; ela é o modo de defesa contra a experiência angustiante da inadequação entre o desejo e os objetos do mundo empírico (Žižek, 2006; Safatle, 2003). A inadequação do desejo refere-se ao fato de que, quando se chega muito próximo do objeto de desejo, as fantasias se transformam em repugnância diante do Real. O sujeito precisa estar inscrito numa ordem simbólica apaziguadora, ele precisa estar armado de uma fantasia, que é uma garantia contra o Real traumático (Žižek, 2003; Soler, 2004).

O encontro com esse Real, seja ele propiciado por eventos ou internos externos ao sujeito, é acompanhado de uma angústia conjugada a situações traumáticas. Essa angústia é um efeito do Real, o qual é representado por tudo aquilo que é inassimilável à realidade psíquica. Podemos dizer que as intervenções no corpo feminino se sustentam porque na sociedade capitalista de consumo persiste a ânsia pelo gozo pleno e uma tentativa desenfreada de se distanciar do Real. Ao invés de proporcionar meios de significá-lo, ela o nega. Não obstante, embora tentemos evitá-lo, o Real acontece, e esse é o trauma. Como entende Žižek (2006, p. 89), “A questão não é que o Real seja impossível, mas que o impossível é Real. Um trauma ou um ato é justamente o ponto em que o Real acontece, e isso é difícil de aceitar”.

Por outro lado não podemos deixar de salientar que, embora no capitalismo de consumo existam diversas ofertas de mercadorias com a promessa de tamponamento da falta constitutiva e distanciamento do Real, estas sempre aparecem aos sujeitos como promessas fracassadas e os conduzem à angústia. Como assinala Soler (2004, p. 87), se, de um lado, o trauma “se conjuga ao fato de que o simbólico não recobre o real em sua totalidade; do outro, o inconsciente-tela é, ele próprio, ferida inscrita no âmago do ser.” Desse modo, se há na mulher, para Lacan, uma lógica (neurótica que se estende à histérica) de “não querer saber disso”, evitando deparar-se com sua falta, a própria condição do corpo feminino acaba por proporcionar encontros com o Real, uma vez que através do corpo feminino o Real fura o simbólico e se apresenta à mulher de forma traumática. Algo falha na sociedade capitalista.

 

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Endereço para correspondência
Aluísio Ferreira de Lima. Av. da Universidade, 2762, Área II, Centro de Humanidades, Campus do Benfica, CEP 60020-180, Fortaleza-CE, Brasil.
E-mail: aluisiolima@hotmail.com

Recebido em 21/03/2012
Aceito em 23/08/2012

 

 

1 “Os laços sociais são formações discursivas que permitem a metabolização e até mesmo a colonização do gozo que vai até a coletivização. Os discursos como laços sociais são formas de tratamento do real do gozo pelo simbólico. É um tratamento civilizatório que delineia e regula as relações dos homens entre si que são feitas de libido e tecidas pela linguagem....” (Quinet, 2006, p. 49).
2 Essa falta é inerente aos seres da linguagem e constituinte do sujeito. Representada pelo objeto a lacaniano, ela atua como condição de desejo. Na busca do sujeito por um objeto perdido, o objeto a, o desejo se apresenta simbolizado nos objetos da realidade.

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