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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.19 no.4 Maringá Oct./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/1413-73722374307 

Artigos

A LÓGICA DO AUTISMO: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DA AUTOBIOGRAFIA DE UM AUTISTA

THE AUTISTIC LOGIC: AN ANALYSIS THROUGH THE AUTOBIOGRAPHY OF ONE AUTISTIC

LA LÓGICA DEL AUTISMO: UN ANÁLISIS A TRAVÉS DE LA AUTOBIOGRAFÍA DE UN AUTISTA

Marina Bialer 1  

1Universidade de São Paulo, São Paulo-SP, Brazil


RESUMO

A literatura referente ao autismo fornece indícios das condições nas quais é possível a saída do fechamento autístico. Há o testemunho da vontade de muitos autistas de romper com as barreiras de autoproteção, desde que haja respeito à lógica autística, o que fornece indícios das possibilidades terapêuticas e de caminhos viáveis para o tratamento que podem ser encontrados na análise da autobiografia do escritor autista Naoki Higashida. O presente texto analisa o potencial transformativo da escrita, propiciando a mudança da posição subjetiva do autista. A invenção da literatura de Naoki retrata os efeitos terapêuticos da escrita, evidenciando a sua importância enquanto ferramenta de (auto)tratamento no autismo, fornecendo-nos indícios das condições nas quais é possível a saída do fechamento autístico, através das diversas estratégias que inventou, as quais, com uma eficácia relativa, permitem-lhe manter seus pseudópodes estendidos em direção aos outros. Conclui-se que a escrita no autismo pode viabilizar tanto um trabalho autoterapêutico quanto o manejo do tratamento pelo analista.

Palavras-Chave: Psicanálise; autismo; autobiografia

ABSTRACT

The literature of autistic persons provides evidence of the conditions under which it is possible to overcome the autistic aloneness. There is the testimony of many autistic people about their will to break down the barriers of self-protection, since there is a respect for autistic logic, which provides evidence of the therapeutic possibilities and viable ways for treatment that can be deployed from the analysis of the autistic writer Naoki Higashida's autobiography. This paper examines the transformative potential of writing in autism, providing the changes of the subjective position of the autistic. The invention of Naoki's literature portrays the therapeutic effects of writing, highlighting its importance as a major tool for (self-) treatment in autism, giving us clues about the conditions which make possible leaving the autistic isolation, through those various created strategies that, with a relative effectiveness, allow him to keep his pseudopods extended towards others. We conclude that the writing in autism may enable both the (self)therapeutic work and the orientation of treatment by the analyst.

Key words: Psicanálise; autismo; autobiografia

RESUMEN

La literatura de autistas nos da indicios de las condiciones bajo las cuales se puede encontrar una salida para el aislamiento autístico. Se observa como muchos de los autistas declaran su voluntad de romper las barreras de autoprotección, siempre y cuando exista respeto a la lógica autística. Esto pone de relieve las posibilidades terapéuticas y los caminos que se pueden tomar en el tratamiento y que se desprenden del análisis de la autobiografía del escritor-autista Naoki Higashida. En este trabajo se analiza el potencial de transformación de la escritura como instrumento que propicia un cambio en la posición subjetiva del autista. La invención de la literatura de Naoki retrata los efectos terapéuticos de la escritura, destacando su importancia como una potente herramienta para el (auto)tratamiento en el autismo, dándonos indicios de las condiciones bajo las cuales se puede encontrar una salida para el aislamiento autístico, por intermedio de sus varias estrategias inventadas que, con una eficacia relativa, le permiten mantener sus pseudópodos extendidos hacia los otros. Se concluye que la escritura en el autismo puede facilitar tanto un trabajo auto-terapéutico como el manejo del tratamiento por el analista.

Palabras-clave: Psicoanálisis; autismo; autobiografía

A leitura das várias autobiografias escritas por autistas evidencia a importância que tem para estes indivíduos o estudo do próprio psiquismo como alicerce para a análise da lógica do autismo. Podemos observar um esforço sistemático de análise do próprio funcionamento psíquico em Annick (Deshays, 2009), Birger (Sellin 1995; Sellin, 1998), Carly (Fleischmann, 2012), Donna (Williams, 1994; Williams, 1996a; Williams 1996b; Williams, 2012), Elisabeth (Bonker & Breen, 2011), Gunilla (Gerland, 2004), Ido (Kedar, 2013), Josef (Glorion & Schovanec, 2012), Naoki (Higashida, 2013), Temple (Grandin, 2011 ; Grandin & Scariano, 2005 ) e Tito (Mukhopadyay, 2011a; Mukhopadyay, 2011b; Mukhopadyay, 2011c). Há uma sistematização evoluída e consistente da compreensão do autismo construída em Birger, Donna e Temple, e, embora somente as duas últimas explorem uma vertente de elaboração acadêmica deste conhecimento, os três autores realizam uma sistematização do pensamento em um trabalho intelectual que não deixa nada a desejar a Schreber, célebre caso de psicose cuja sistematização de pensamento delirante alicerçou Freud (2003) no estudo da paranoia e embasou algumas das principais formulações lacanianas sobre a psicose paranoica (Lacan, 1981, 1966/1999, 2001), e sobre as grandes construções elaborativas, delirantes ou não, sobre a construção da personalidade e sobre o funcionamento singularizado do psiquismo. Em Annick, Dawn, Ido, Gunilla, Josef e Naoki há uma sistematização do pensamento sobre o funcionamento psíquico e uma apreensão extremamente perspicaz do funcionamento autístico, o que também é esboçado por Elisabeth, embora não totalmente sistematizado pelos próprios autores. Podemos apontar em todos os autores autistas analisados a presença da "mente de um cientista" (Bonneh, 2013, p.10) engajado no esforço de compreensão, análise e sistematização da lógica do autismo, sendo o foco do presente texto a análise da autobiografia do jovem japonês autista escritor Naoki Higashida.

A METODOLOGIA DE ANÁLISE DA LITERATURA PRODUZIDA POR AUTISTAS

Enquanto a porta de entrada para o estudo das psicoses no campo lacaniano foi a paranoia, justamente aquelas psicoses cujos delírios permitiam aos psicóticos a concretização de elaborados mecanismos de defesa, os estudos do autismo no campo lacaniano têm predominantemente focalizado o autista em seu fechamento autístico caracterizado pelos movimentos estereotipados, pela ausência ou presença rudimentar de comunicação com os outros e pela necessidade de manter sob controle um mundo imutável. Foi construída uma importante bagagem de articulação clínico-teórica que permitiu compreender a dinâmica psíquica de diversos autistas que manifestavam quadros kannerianos na clínica, como podemos observar nos pertinentes estudos de importantes estudiosos desta clínica como Jerusalinsky (1989; 2010), Laznik (1997), Perrin (2009), além de duas revistas científicas de excelente qualidade dedicadas ao estudo das psicopatologias na infância (Les Feuillets du Courtil e Estilos da Clínica), os quais analisam com precisão clínica o funcionamento psíquico do autista com quadro kanneriano e seus movimentos de abertura na infância.

Propomo-nos, não obstante, seguir outra vertente da tradição da psicanálise lacaniana e nos debruçar, inicialmente, sobre as soluções mais exitosas expressas nas autobiografias escritas por autistas para clarificar tanto mecanismos incipientes em jogo no autismo quanto a viabilidade da aquisição de novas capacidades psíquicas a partir do desenvolvimento de estratégias de (auto)tratamento no autismo. A partir do contato com a literatura produzida pelos escritores autistas é possível observar as condições necessárias para a construção de soluções singulares elaboradas de acordo com as nuanças da estrutura subjetiva do autismo. O abandono parcial ou total do mundo autístico, de um fechamento em si mesmo ou de uma relação exclusiva com objetos ou com um outro, pode ser seguido de uma abertura em direção ao laço social, viabilizando uma evolução dentro do espectro autístico. Embora somente uma pequena minoria dos autistas obtenha tal funcionamento elaborado, Maleval (2009) ressalta a importância destes ensinamentos para balizar o trabalho e a clínica com autistas em estados de fechamento ou encapsulamento nos quais o acesso ao funcionamento psíquico é tão difícil.

Neste sentido, uma importante ponte pode ser feita entre o estudo do campo de manifestações do autismo na criança - como descrito por Lefort e Lefort, 2008 e as expressões literárias de autistas. Além de estabelecer importantes critérios para a clínica diferencial da psicose e do autismo na infância, Rosine Lefort retrata minuciosamente a clínica do autismo através de crianças muito pequenas em fechamento autístico ou com outras manifestações do autismo kanneriano. Além destes importantes estudos clássicos da psicanálise com crianças autistas, a proposta metodológica de pesquisa do psicanalista Maleval, professor de psicopatologia da Université Rennes 2, abarca como material clínico de estudo o estudo das defesas mais elaboradas e complexas através da análise da literatura específica e dos materiais autobiográficos produzidos por autistas. Esta metodologia permite compreender algumas facetas das defesas menos elaboradas manifestas na clínica do autismo, permitindo-nos alicerçar-nos nas autobiografias tanto para aprofundar nossa compreensão sobre o funcionamento psíquico do autista encapsulado quanto para abarcar o autista capaz de estabelecer sólidos laços sociais e afetivos e elaborar soluções psíquicas com extrema habilidade.

O método utilizado no presente artigo é o método psicanalítico de estudo de caso, tomando como objeto de estudo uma autobiografia escrita por um autista, com o objetivo de explicitar a lógica do autismo evidenciada nos seus escritos, seguindo a proposta metodológica de pesquisa de Maleval (2009).

O AUTISMO E OS SINTOMAS AUTÍSTICOS

O presente texto analisa a autobiografia de Naoki, escritor autista japonês, escrita quando ele tinha treze anos. O livro de Naoki alterna textos escritos como respostas a questões realizadas por um interlocutor que lhe coloca várias questões sobre o autismo e textos que são pequenas estórias inventadas. Ele afirma utilizar tais escritas para elaborar algo que aprendeu sobre a maneira como as pessoas não autistas pensam e sentem em relação a situações específicas, e relata que, ao escrever, busca o que possa inscrever tal experiência na sua mente. Ele relata estar constantemente ligado a tudo o que ocorre à sua volta, tentando construir um arcabouço de experiências que lhe permita se compreender e compreender o mundo que o circunda, utilizando-se da escrita como um espaço para a construção de um saber sobre si mesmo e sobre o autismo.

Inicialmente, podemos pontuar algumas das observações e interpretações que Naoki dá para o autismo e para os sintomas autísticos. Para Naoki, o autismo é primordialmente compreendido como subsequente a um quadro emocional, mais especificamente, a um estado emocional de desespero estrutural. Primordialmente, Naoki caracteriza o autista como alguém que não tem habilidades enunciativas para falar e que tem um corpo desconectado da mente, não conseguindo expressar de maneira apropriada o que sente, e em decorrência destas características, para o autista, sobreviver é uma batalha diária em um mundo vivido como pouco compreensivo para as nuanças do funcionamento autístico.

É interessante enfatizar a maneira como Naoki destaca sua impossibilidade de controlar alguns de seus comportamentos "it's as if we don't have any say in it" (Higashida, 2013. p.14), o que remete tanto à tradução de que era algo alheio à sua vontade quanto à tradução literal de que ele não tinha nisto uma fala-enunciação, o que podemos remeter à desconexão entre seu corpo e sua mente pela falta da incorporação do significante primordial. Naoki tem uma linguagem que pode ser assimilada, mas a ausência da incorporação primordial do traço simbólico do Outro acarreta a vivência da linguagem como estrangeira, assim como a impossibilidade de ancoragem de alíngua no corpo. No ser humano, é o significante que permite esta imbricação entre o corpo e a mente em decorrência da incorporação do Outro da linguagem. No caso do autista, o significante não é incorporado pela falta do traço do gozo do Outro na apreensão de si mesmo e na sua estruturação, e por consequência, a estruturação do autista na relação com o campo da linguagem se dá por uma não marcação do corpo próprio pelo campo significante primordial.

É premente na literatura dos autistas escritores e na clínica do autismo o funcionamento dissociado entre o campo ideativo e o campo energético-motor, sendo que Naoki salienta não ter a capacidade de controlar o corpo próprio, descrevendo a emergência de comportamentos fora do seu controle que surgem nele mesmo como se ele fosse guiado por um controle remoto, tendo um corpo-"robô defeituoso" (Higashida, 2013. p.21) automatizado e independente da sua vontade. Naoki afirma sofrer por não poder controlar seus próprios comportamentos, relatando que críticas e punições pelo fato de ele não ter-se comportado adequadamente nestas situações aumentavam ainda mais o seu sofrimento, desembocando no sentimento de incompreensão e de abandono pelo resto do mundo.

É interessante ressaltar que Naoki remete a dificuldade para se apropriar do corpo próprio ao sentimento de que ele não tem um corpo próprio, salientando ter o sentimento de estar preso dentro de seu corpo, tentando batalhar para conseguir se apropriar parcialmente deste para poder realizar o que deseja. Apesar de todo o esforço, a imbricação entre o pensamento e a motricidade muitas vezes lhe é impossível, e lhe ocorre a invasão de comportamentos bizarros, independentes dele próprio, o que sinaliza algumas das consequências de sua mente não ser ancorada no corpo próprio. Nas palavras de Naoki, a vivência de não ter o corpo e a mente ancorados é "como se o meu corpo todo, com exceção da minha alma, sinta como se ele pertencesse a outra pessoa e eu não tivesse nenhum controle sobre isto. Eu não acho que você pode imaginar quão agonizante é esta sensação" (Higashida, 2013. p. 40).

É interessante que ao tentar estudar a origem destes comportamentos incontroláveis, Naoki relata ter que entrar em uma batalha consigo próprio, como se o seu cérebro mandasse sinais para o seu corpo, contra a sua vontade, e que ele perdesse o controle sobre esta dimensão da sua mente. Neste âmbito, ele aponta quanta energia ele usa para entrar em combate consigo próprio, para tentar romper com automatizações ou outros comportamentos que explodem no seu corpo.

Uma das estratégias que Naoki utiliza para fazer a conexão entre o seu pensamento e a sua ação é o que ele designa por "verbal prompt" (Higashida, 2013, p. 104), que se caracteriza como uma dica dada por outras pessoas que permite que ele inicie um movimento, sendo que após alguma prática, seria possível ele ser capaz de operacionalizar o link entre o pensamento e a ação sem o intermédio da dica-estímulo dada por outra pessoa. Outra estratégia que Naoki avalia poder ajudá-lo a fazer a ligação entre a sua mente e o corpo é o ensino visual e figurativo de como se realizam certas ações em um passo a passo ilustrado.

A não imbricação entre o corpo e a mente também é destacada por Naoki pelo "gap entre o que eu estou pensando e o que eu estou dizendo" (Higashida, 2013, p. 17), ressaltando que as palavras que ele diz são aquelas que estariam acessíveis no momento da fala, não necessariamente em relação com o que ele pensava falar, podendo expressar bobagens ou "verbal junk" (Higashida, 2013. p. 21).

Além disto, Naoki aponta que muitas vezes o que ele ia dizer desaparecia da sua mente antes que ele pudesse falar e ele acabava se perdendo nos turn-talking, sentindo-se submergido pelo fluxo das palavras dos outros que ele não consegue acompanhar. É tamanha a dificuldade de Naoki em se apropriar da linguagem para se comunicar e se expressar que ele relata sentir-se vivendo todos os minutos da sua vida falando uma língua estrangeira. A estrangeirice da linguagem pode ser remetida à falta de incorporação do significante primordial no autismo, o que o torna, efetivamente, um estrangeiro para a linguagem. A relação do autista com a linguagem pode se manifestar pela prevalência dos signos, alicerçando uma linguagem factual que pode se alternar ao surgimento de frases espontâneas que emergem de modo irruptivo e manifestam o objeto voz marcado de afeto. Além destas manifestações, Maleval (2009) ressalta a presença frequente de uma língua privada no autismo "mais conectada à melodia que à significação" (Maleval, 2009, p. 249), que não objetiva a comunicação, mas alicerça um prazer e um gozo solitário no manejo da língua, caracterizando a relação de borda do autista com a linguagem. É o retrato da assimilação do autista ao campo significante primordial, e não de uma incorporação, sendo tal relação caracterizada por Perrin (2010) pela existência de um significante vago no autismo.

Naoki salienta a dificuldade em utilizar a sua voz para se comunicar escrevendo que a facilidade com que as pessoas não autistas podiam se comunicar lhe parecia mágica (Higashida, 2013), enquanto para ele ter que expressar seus sentimentos ou ser obrigado a tomar a palavra para dizer algo demandado por outra pessoa exigia um esforço às vezes insuportável. Não obstante, existe uma zona de prazer na relação de Naoki com a linguagem, particularmente quando ele emite palavras sem finalidade comunicativa, pelo mero prazer de manusear sons e ritmos, principalmente aqueles já conhecidos. Neste âmbito, a reiteração incessante de palavras e frases familiares está, para Naoki, na origem de um manuseio solitário da linguagem que lhe produz diversão, embora aos olhos dos outros pareça ser uma inutilidade. Além da dimensão de produção de um prazer solitário, este uso de linguagem pela repetição era essencial para que Naoki obtivesse tempo para processar o que foi dito tentando encontrar no seu registro caótico de informações prévias, sem organização central, alguns indícios ou dicas do que foi escutado. Pela falta de um organizador significante primordial para gerir inputs atuais e passados e de um repertório organizado sobre o qual se ancorar para digerir o que escuta, Naoki ressalta ter que procurar o registro de uma experiência prévia que se assemelhe ao que está vivendo, em um processo de busca do encaixe visual ou da ordem imagética. Quando este processo lento e complexo falha, Naoki se torna incapaz, por exemplo, de responder a uma questão, o que podia desencadear uma crise de explosão da voz destacada da dimensão significante da linguagem. Tomado por estes ataques de pânico, ele era invadido pelo sentimento de desamparo, o que, secundariamente, alterava a sua capacidade de percepção sensória e de processamento.

Neste âmbito, algumas estratégias inventadas por Naoki buscam lhe assegurar o sentimento de segurança e afastar o caos e a invasão da agitação, procurando evitar que ele caísse no sentimento de total desamparo e pânico. Segundo Naoki, a obsessão fixa em um movimento (estereotipia), ou ainda um pensamento ou interesse, não se remetem à sua volição, mas a uma necessidade existencial, pois, caso contrário, ele enlouqueceria. Estas obsessões são remetidas a uma função calmante essencial para o estabelecimento de um equilíbrio emocional-energético, sendo que ele afirma não ter controle sobre o início ou término das suas obsessões, mas relata que muitas vezes, após algum tempo, não é mais necessário manter estes comportamentos obsessivos; quando deixa de ter esta função importante para o equilíbrio vital, o comportamento obsessivo desaparece espontaneamente. Embora o comportamento possa se extinguir sozinho, com a aquisição de outras modalidades de compensação e equilíbrio, Naoki ressalta que nos casos em que o comportamento provoca demasiado sofrimento nas pessoas próximas, estas pessoas podem tentar removê-lo, desde que elas tenham em mente que, em muitos casos, este comportamento será transitório e que a atitude de deixar que esta necessidade desapareça sozinha é uma atitude eficaz. Naoki se sentia triste por não conseguir mudar sozinho alguns de seus comportamentos que produziam sofrimentos aos outros, relatando que, embora pudesse parecer para as outras pessoas que ele, assim como outros autistas, não aprendia a mudar seu comportamento porque não queria, ele vivenciava estes comportamentos como algo que tomava controle do seu corpo contra sua vontade.

Os comportamentos obsessivos e as estereotipias são modalidades de relação com o mundo exterior que por si mesmas criam barreiras de proteção corporal e de controle das entradas de estímulos externos. Tal bloqueio pode ser compensatório pelo não funcionamento do crivo significante. Frayssinet (2012) sintetiza duas funções estruturais das estereotipias: uma função de dar bordas de proteção ao corpo, protegendo-o dos outros e da presença do Outro e mantendo ou recuperando-se de uma situação angustiante, e uma função de tratamento da relação com a linguagem. Neste âmbito, as estereotipias de Naoki são importantes para o seu funcionamento autístico, exercendo o importante papel de organizar seu pensamento e estabilizar sua energia. Birger Sellin afirma que os comportamentos bizarros, inadequados, as estereotipias e outras manifestações estrangeiras são originados de um "sistema" (Sellin, 1998, p. 62) que permite ao autista tecer um sentimento de segurança. Ele refere que tal sistema tem um sentido que precisa ser decifrado, mas que a chave deste mistério só pode ser disponibilizada por cada autista. Embora considere vários de seus comportamentos estereotipados "intoxicantes" (Sellin, 1995, p.109), ele aponta a necessidade das estereotipias para promover uma segurança em face de um mundo vivido como caótico e cheio de invasões sensoriais, acarretando um sentimento de iminente risco existencial.

Naoki afirma movimentos repetitivos como pular e bater as mãos lhe permitiam sentir as partes de seu corpo, que outrora lhe eram inacessíveis. Já tapar os ouvidos era a maneira de Naoki criar barreiras de proteção que impedissem que ele fosse invadido por ruídos intensos que ameaçassem o seu sentimento de segurança e proteção. O prazer com a rotação de objetos (spinning) é atribuído por Naoki à busca da sensação de segurança e beleza produzida pela regularidade do movimento, pela imutabilidade reconfortante em oposição ao sentimento de estar permanentemente a esmo, sem referências fixas para balizar a vida, na apreensão do corpo próprio, do mundo, do tempo e do espaço.

Bater os dedos e mãos (flapping) na frente da sua face lhe permite modalizar a entrada da luz que podia ser percebida de uma maneira mais delicada, o que ele opõe à percepção direta da luz, sem o filtro do bater das mãos, o que faz com que seus olhos doam ao serem invadidos por tanta luminosidade. A apreensão da luz filtrada produz um sentimento de alegria e tem uma qualidade terapêutica, pois a luz gentil teria a capacidade de consolá-lo, fazendo suas lágrimas desaparecerem.

É interessante apontarmos outros dois aspectos das repetições salientados por Naoki. Primeiramente, uma vez estabelecido um circuito de repetição, a realização desta repetição é extremamente prazerosa, originando um "buzz elétrico" (Higashida, 2013, p. 98) no seu cérebro; o segundo aspecto é decorrente da automatização do circuito de repetição, uma vez que pela repetição do mesmo movimento ou circuito haveria o imprinting desta sequência. Para romper com a tendência a estas repetições, Naoki salienta que a sua vontade própria não bastava, sendo muitas vezes essencial a intervenção de uma pessoa que, alicerçada na vontade preliminar do autista de romper o automatismo, oferecesse um singelo consentimento à intervenção do outro, pudesse auxiliá-lo.

Se por um lado há a necessidade de realizar atividades repetitivas com objetos conhecidos, por outro, Naoki ressalta a sua vontade de poder aprender coisas novas e a necessidade, para isto, de obter ajuda externa. Neste sentido, ele aponta a importância de ser respeitada a sua necessidade tanto ter de segurança assegurada pelas atividades com repetição e ordem, quanto de contar com o apoio de alguém capaz de pressioná-lo com gentileza, alicerçado na vontade do próprio Naoki de aprender. Aliás, Naoki relata seu sentimento de intensa tristeza por se sentir incompreendido por outras pessoas não autistas, que "não entendem quão famintos por conhecimento são as pessoas com autismo" (Higashida, 2013. p. 81), ressaltando sua vontade de poder estudar livros difíceis e complexos, pois ele tem vontade de "aprender um milhão de coisas" (p. 81).

Além da desconexão entre o corpo e a mente, da dificuldade para se apropriar da dimensão enunciativa pessoal da linguagem e dos sintomas estereotipados e repetitivos como estratégias de defesa, Naoki considera haver no autismo uma solidão autística vivida como um aprisionamento do qual o autista quer se libertar e não no qual ele tenha vontade de viver isoladamente. Naoki sublinha sua vontade de estar com outras pessoas e considera que os autistas ficariam reclusos e isolados por uma dificuldade em se comunicar com os outros e uma incapacidade das outras pessoas de compreender as nuanças do funcionamento autístico e não por uma vontade do autista de ficar efetivamente sozinho. Neste sentido, ele ressalta que quando ouvia uma pessoa descrevê-lo como alguém que preferiria ficar na dele, sem outras pessoas, ele se sentia "desesperadamente solitário" (Higashida, 2013. p. 27), sofrendo imensamente por não poder expressar quão desejoso estava de poder estabelecer laços com os outros e com eles se comunicar. Impossibilitado de falar, ele permanecia preso em um quadro de mutismo autístico, o que lhe acarretava um sentimento de intenso desamparo, que desembocava em crises de pânico e no sentimento de ser louco.

Outra manifestação autística que Naoki refere ser sistematicamente mal compreendida pelos mais desavisados é a sua aparência de frieza emocional. Naoki relata que geralmente suas expressões faciais naturais só podem se expressar quando ele está sozinho; neste sentido, ele esclarece que a sua postura de "estoico" (Higashida, 2013. p. 56) evita que as outras pessoas percebam situações nas quais ele está em intenso sofrimento e angústia, manifestando mecanismos defensivos de autoproteção. Sozinho ele podia descansar sem ter que se encaixar na lógica dos outros e no esforço exaustivo de ter que entender o que as outras pessoas estavam pensando e comunicando.

A dificuldade no processamento sensorial presente em diversos autistas é atribuída por Naoki à impossibilidade de apreensão do corpo próprio; ele correlaciona vários de seus comportamentos (como a reiteração incessante de frases na linguagem de papagaio) a tais dificuldades sensoriais. Ressalta que repetia, não por não ter entendido o que havia sido dito, mas porque nesta repetição incessante podia operacionalizar o registro e a memorização do que foi escutado.

Naoki evidencia a importância da invenção de modos de organização da realidade que não sejam baseados no significante, havendo a prevalência da referência da imagem e do signo na construção do seu pensamento autístico. A busca da fixidez na organização das informações no autismo pode dar origem à hipertrofia do pensamento, alicerçando um modo de acumulação de informações e de organização fundada privilegiadamente na fixidez dos referentes e das imagens. O autista prefere construir este arcabouço de informações através de modalidades de assimilação que permitam evitar a presença do Outro, favorecendo a aprendizagem por meio da televisão, da leitura, da assimilação de imagens e desenhos, mantendo-se desconetado da presença enunciativa, em um tipo de aprendizagem que anula a presença da voz gozosa do Outro, viabilizando tentativas de suplência à falta estrutural do simbólico, do significante-mestre como organizador do mundo. É neste sentido que Maleval (2009) ressalta a importância, para muitos autistas, da leitura de calendários, de anuários e vários outros sistemas classificatórios. Isto constitui um esforço de categorização, de colocar ordem no mundo, de descobrir pontos fixos nas variações e de estabelecer constâncias em um mundo caótico sem a organização do significante-mestre. Assim sendo, tais aquisições de conhecimentos, mesmo que possam em alguns casos apresentar uma faceta compulsiva e quase estereotipada, são importantes para o autista assegurar que o seu mundo não seja demasiadamente caótico.

A busca da imutabilidade e da manutenção do mesmo é atribuída por Naoki à necessidade de desenvolver estratégias para se proteger do caótico e do imprevisível, por exemplo, através da busca de familiaridade e da sua preferência por comerciais de TV ou programas para crianças, relatando o gosto por cenas repetitivas e estórias previsíveis. O ato de colocar os objetos em ordem, no mesmo lugar, e as diferentes modalidades de quebra-cabeça, produziam em Naoki o sentimento de ter seu cérebro revigorado e tranquilizado. O gosto por números, calendários, timetables, também está presente em Naoki, e este manuseio produzia o sentimento de previsibilidade e simplicidade, ao contrário, por exemplo, da complexidade existente nas relações humanas. Neste sentido, Naoki tinha um gosto particular por tudo o que o ajudasse a aprender as regras e diretrizes de funcionamento, as quais lhe serviam como um amparo, por serem um modelo previsível que lhe permitia compreender a lógica subjacente aos modelos e regras.

Naoki tem preferência por livros visuais, e atribui sua dificuldade em ler textos com frases longas ao fato de se perder neles, não conseguindo encadear o que se trata no texto no decorrer de uma longa leitura. Se por um lado ele ressalta que os livros visuais lhe permitem abrir a sua imaginação, por outro, ele considera ser importante desenvolver estratégias que permitam a leitura de textos com frases longas. Neste âmbito, ele relata a importância de encontrar pessoas que possam auxiliar o autista no processo de aprendizagem, respeitando as particularidades do seu funcionamento psíquico, por exemplo, a necessidade de mais tempo para compreender frases longas. Naoki escrevia letras no ar, procedimento que lhe permitia registrar algo que ele havia vivido e que ele queria poder lembrar posteriormente. É interessante expor que Naoki afirma ser isto um registro de letras-signos-símbolos, o que ele distingue do registro de imagens como cenas. Ele salienta ainda que estas letras são substitutas da dimensão vocal da linguagem - do registro das palavras faladas ou das canções utilizadas por pessoas não autistas, sendo esta preferência pelas letras atribuída às suas propriedades de fixidez e imutabilidade em comparação com outros registros.

Além disto, Naoki relata que apreende um objeto detalhe por detalhe e que somente após um longo processo mental pode obter uma visão do objeto inteiro. A apreensão da realidade de Naoki se operacionaliza através de detalhes que fragmentam o objeto apreendido em uma modalidade de ligação tão intensa com os objetos que Naoki os descreve como seus companheiros/amigos. Se por um lado esta modalidade de ligação aos detalhes-objetos dificulta a apreensão global do objeto, por outro ela permite a Naoki encontrar a beleza singular de cada objeto, correlativa ao sentimento de beleza e à sensação de segurança, que também são obtidos nas relações de Naoki com a natureza.

A sensação de paz, alegria e liberdade quando imerso na natureza - por exemplo, nadando -, permite que Naoki mantenha a invasão sensorial controlada e se sinta mais equilibrado. Além disto, nestas situações, imerso na natureza, ele não se sente demandado por outros humanos. Ligado à natureza, Naoki encontra um espaço de liberdade sem a opressão de um mundo de significantes. É tamanha a importância da sua relação com a natureza que Naoki afirma que a natureza é, para ele, tão importante quanto a sua própria vida. É através do seu vínculo com a natureza, em uma relação que ele descreve como uma amizade que toca profundamente seu coração e libera nele uma recarga de energia vital que lhe permite ter o sentimento de ter recebido uma permissão para ser vivo. Podemos apontar em Naoki a importância vital deste acesso a uma fonte vital, não marcada pelo gozo intrinsecamente humano. No contato com a natureza Naoki sente-se derreter, tornando-se único com ela e produzindo uma sensação tão prazerosa que ele esquece ser um humano separado da natureza.

A natureza tem a habilidade de acalmá-lo quando ele está nervoso e de sentir empatia e rir junto com ele quando ele está feliz; ela promove um sentimento de segurança reconfortante por estar sempre lá e lhe permite sentir-se parte de algo cuja existência lhe precedeu e que permanecerá existindo depois dele. Podemos, assim, apontar tanto uma dimensão de filiação não humana ou de pertença, quanto o sentimento de compreensão por outros seres não parasitados pela linguagem, parasitagem que é gerada pela incorporação do significante. A relação do autista com a linguagem permite o manuseio da linguagem de modo que o campo significante é assimilado pelo autista, mas não há uma relação de marcação do seu corpo pelas marcas do significante incorporado. O autista não pode recorrer ao significante para nele localizar o gozo, ele precisa inventar outras estratégias para modalizar a dimensão do gozo da linguagem.

Uma das modalidades de organização da linguagem e de ancoragem premente na biografia de autores autistas é a escrita, a qual é uma importante modalidade terapêutica inventada por Naoki. Seu método de escrita, além de lhe permitir comunicar-se com os outros, posibilitava-lhe "ancorar" (Higashida, 2013. p. 7) palavras que iriam flutuar tão logo ele as quisesse emitir oralmente. Ao contrário da dificuldade em enunciar algo verbalmente, Naoki encontra uma modalidade para se expressar fluentemente pela escrita. Inicialmente Naoki escrevia tendo ao seu lado a sua mãe, que ocupava a função de apoio/facilitador, oferecendo o apoio das suas mãos, que deveriam ser suportadas pelas mãos da sua mãe para que ele pudesse realizar os movimentos necessários para escrever. Em seguida ele começou a apontar letra por letra o que queria dizer, podendo se comunicar com as pessoas por este método.

Naoki enfatiza a sua felicidade por poder se comunicar com as outras pessoas pela escrita, em oposição ao aprisionamento de estar impossibilitado de se expressar pela voz e de dizer o que sentia e pensava. Nas palavras de Naoki: "Eu não tenho problema para ler livros em voz alta e cantar, mas tão logo eu tente falar com alguém, minhas palavras se esvaem" (Higashida, 2013, p. 3). Mesmo quando consegue falar algumas poucas palavras, Naoki ressalta que, com frequência, diz o oposto do que havia querido dizer. Ele distingue uma voz intencional desta voz sobre a qual ele não tem controle. Esta voz emerge como um grito, sendo que Naoki não consegue que ela não surja de maneira explosiva e suas fracassadas tentativas de controlá-la implicam um intenso sofrimento, o que é caracterizado por Naoki pelo sentimento de estar estrangulando sua própria garganta.

A escrita/publicação da autobiografia de Naoki também é atribuída à sua vontade de compartilhar o que pensa e o que sente sobre o funcionamento autístico, para expandir a compreensão do autismo e do "que está acontecendo dentro de nossos corações e mentes" (Higashida, 2013. p. 20). Naoki ressalta a importância de as pessoas familiares não desistirem dos autistas e terem uma tolerância e reconhecimento de que eles precisam de ajuda externa. Em vários trechos Naoki se dirige explicitamente ao seu leitor, pedindo que lhe dê apoio emocional e aposte na possibilidade dele de desenvolver suas potencialidades. Neste âmbito o leitor do texto é convocado a oferecer suporte emocional, o que pode ser evidenciado nas reiteradas declarações/convocações do leitor realizadas por Naoki: "Por favor, não desista de nós [autistas]" (Higashida, 2013. p. 42).

Através de suas estórias, Naoki afirma ter esperança de que, ao ler estas estórias, as pessoas não autistas compreendam melhor quão dolorosa é a sua experiência de vida cotidiana. Neste sentido, sua escrita de estórias é dirigida como um pseudópode, na esperança de que os outros humanos possam compreender quanto ele gostaria de poder expressar seus sentimentos e se comunicar com as pessoas de quem gosta e quão hercúlea é para ele esta tarefa.

A escrita impulsiona Naoki a uma compreensão de si mesmo e a uma modalidade autoterapêutica de expressão que lhe permite colocar em palavras o que vivencia e traduzir a lógica do seu autismo. Os escritos são pseudópodes tanto no sentido de se direcionarem aos leitores, oferecendo um compartilhamento de experiências subjetivas, quanto pelos efeitos autoterapêuticos que o fato de escrever produz em Naoki. A possibilidade de abandonar a fortaleza autística em direção ao laço social exige que o autista possa estender seus pseudópodes em direção ao mundo, a partir do preenchimento de algumas condições que lhe permitam sentir segurança no mundo. Através da sua escrita, Naoki elaborou questões de intensa importância subjetiva: como se apropriar do fluxo de energia vital, a imbricação entre o corpo e a mente, a dependência de um apoio externo para adquirir um movimento mais dinâmico, a importância da extensão de pseudópodes para o seu psiquismo, o medo ante a imprevisibilidade do mundo e o desamparo.

A marcante ausência de enunciação, a verborragia e as especificidades do balbucio do autista estão interconectadas com a recusa à dimensão gozosa da linguagem no autismo, que implica na singular modalidade de inscrição no campo da linguagem. Se por um lado, quando forçado a tomar uma posição enunciativa o autista é confrontado com a dimensão vital da língua e com sua dimensão pulsional, podendo ser tomado por violentas angústias e retornar ao fechamento em si mesmo em um isolamento de autoproteção e recusa, por outro lado, os testemunhos e a literatura de autistas demonstram que em certas condições a expressão pessoal do autista é possível; no entanto, para que seja possível a enunciação sem que haja uma invasão pela angústia em face da dimensão gozosa da linguagem, a escrita pode ser uma estratégia essencial existencialmente para que o autista possa se expressar, amenizando a angústia e permitindo a concretização de processos de elaboração psíquica através da escrita, como podemos evidenciar na estória "I'm right here" (Higashida, 2013), cujo personagem principal é um garotinho que vive um intenso estranhamento de si mesmo: ele não consegue mais se apropriar do próprio corpo para realizar ações motoras e percebe o mundo a sua volta em câmera lenta. Não sabe mais se o que ele pensa advém da sua mente ou de outra pessoa. Seu corpo vive em um permanente estado de imobilidade, exigindo um intenso esforço para ser mexido com efetividade. Às vezes seu corpo se automatiza e faz movimentos independentes da sua vontade e ele se torna invisível para os outros humanos, não conseguindo fazer-se ver ou ouvir, vivendo em um mundo paralelo, impedido da possibilidade de se comunicar diretamente com as outras pessoas. O garoto cai em um estado de total desespero quando um anjo vem do céu para lhe dizer que ele ainda não havia se dado conta de que estava morto e que deve ir para o céu. Quando ele chega ao céu, seu corpo desaparece completamente e ele não tem mais nada que o ligue à terra. Além de não ter mais corpo, o garotinho sente a energia saindo totalmente dele, o que provoca ainda mais apreensão e ele começa a pensar como poderia viver estando morto e sem um corpo. Como espírito ele consegue se comunicar com sua mãe, por exemplo, através de movimentos do vento, mas não pode fazer nada para aliviar o sofrimento dos pais pela sua morte. Em face do desespero de não poder ajudar os pais por estar morto, o garotinho pede ajuda a Deus e volta para a Terra tendo que apagar sua existência anterior, nascendo no corpo de uma nova filha de seus pais denominada "Esperança" (Higashida, 2013, p. 132).

É através da personificação no garotinho desta estória que Naoki pôde elaborar questões de importância subjetiva: como se apropriar do fluxo de energia vital, a imbricação entre o corpo e a mente, a dependência de um apoio externo para adquirir um movimento mais dinâmico, a importância do laço afetivo com a sua família, o medo em face da imprevisibilidade do mundo e o desamparo. Naoki pôde realizar um importante percurso, que retrata um trabalho (auto)terapêutico do qual sua escrita é um aspecto de importância essencial. Naoki se tornou capaz de se expressar com fluência, concretizando uma literatura autoral na qual podemos notar vários dos mecanismos psíquicos que ele operacionalizou os quais lhe permitiram estender seus pseudópodes e se comunicar através da sua escrita.

Podemos concluir, enfatizando a importância da literatura autobiográfica no campo do autismo como um importante meio de expressão de vários autistas, mesmo daqueles que se encontrem em um quadro de mutismo autístico. A escrita de autistas evidencia a lógica do autismo, como demonstramos em Naoki Higashida, permitindo que surja o que Birger Sellin (1998) descreve como uma escrita sobre "a dor de uma solidão" (p. 41), "de uma angústia" (p. 41) e "de uma esperança" (p. 41). Birger opõe a voz retida do mutismo autístico - equivalente a uma fala "na mente solitária" (Sellin, 1995, p. 102) atribuída a pensamentos loucos, rápidos, sem fim - ao pensamento que, ao ser colocado em palavras, permite sistematizar o fluxo de ideias, produzindo um alívio do "caos de pensamentos" (p. 103) através do (auto)tratamento operacionalizado por uma escrita terapêutica no autismo.

Naoki também opõe a solidão infindável e abismal quando sozinho, preso no mutismo e no encapsulamento do autista, à liberdade encontrada pela fluidez de pensamentos viabilizada pelo escrever e pelo encontro com o leitor. Evidenciamos que a escrita de Naoki possibilita a extensão dos seus pseudópodes em direção ao outro humano, favorecendo o laço social, permitindo a organização do seu pensamento e viabilizando importantes funções autoterapêuticas, o que traz eficazes balizas para a clínica do autismo e a importância terapêutica da escrita autobiográfica para diversos escritores autistas.

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Recebido: 02 de Maio de 2014; Aceito: 04 de Setembro de 2014

Endereço para correspondência: Rua Dr. Homem de Melo, 407, ap. 71 - CEP 05.007-001 - São Paulo-SP, Brasil. E-mail: mbialer@hotmail.com

Marina Bialer: doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, pós-doutoranda na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

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