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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. Estud. vol.24  Maringá  2019  Epub June 10, 2019

https://doi.org/10.4025/psicolestud.v24i0.38337 

ARTIGO

A ETNOPSICANÁLISE DE DEVEREUX NO FILME JIMMY P.: UMA INTRODUÇÃO À CLÍNICA TRANSCULTURAL

EL ETNOPSICOANÁLISIS DE DEVEREUX EN LA PELÍCULA JIMMY P.: UNA INTRODUCCIÓN A LA CLÍNICA TRANSCULTURAL

1 Centro de Ciências Humanas, Departamento de Psicologia, Universidade Estadual de Maringá, Maringá-PR, Brasil.


RESUMO

Georges Devereux (1908-1985) é conhecido como, juntamente com Géza Rohéim (1891-1953), um dos criadores da etnopsicanálise, disciplina que articula os saberes da Psicanálise e da Antropologia. Sua primeira grande obra foi Psychoterapie d’un indien des plaines, livro publicado em 1951 e que narra a análise de um indígena Blackfoot, ex-combatente da Segunda Guerra. O livro foi a base para a elaboração do filme Jimmy P., traduzido no Brasil como Terapia intensiva. O objetivo deste artigo é apresentar uma discussão introdutória a algumas das ideias de Devereux a partir de recortes do filme Jimmy P., dirigido por Arnaud Desplechin em 2013. Além disso, também buscamos as aproximações e inovações do autor em relação a Freud. Concluímos que, no que diz respeito às aproximações enquanto técnica e prática entre Devereux e Freud, observamos no filme que Devereux incorpora à sua técnica a prática da interpretação dos sonhos, a associação livre e faz referências à teoria freudiana durante o tratamento, como o complexo de Édipo e a transferência. A partir das intuições freudianas sobre a relação entre cultura e psiquismo, Devereux avança para a formulação de uma etnopsicanálise, resultado do reconhecimento do entrelaçamento inseparável de esquemas individuais e culturais. Se as proposições de Devereux fomentaram na França o desenvolvimento de uma prática clínica que considera as diferenças culturais de populações de imigrantes oriundas de diferentes países, mais promissoras ainda parecem ser as chances de florescimento de uma psicanálise transcultural num terreno fértil em diversidade étnica como o Brasil.

Palavras-chave: Etnopsicanálise; psicanálise e cultura; psiquiatria transcultural

RESUMEN

Georges Devereux (1908-1985) es conocido, juntamente con Géza Rohéim (1891-1953), como uno de los creadores del etnopsicoanálisis, asignatura que articula los saberes del Psicoanálisis y de la Antropología. Su primera gran obra fue Psychoterapie d’un indien des plaines, libro publicado en 1951 y que narra el análisis de un indígena Blackfoot, ex-combatiente de la Segunda Guerra. El libro fue la base para la elaboración de la película Jimmy P. y fue traducido en Brasil como Terapia intensiva. El objetivo de este artículo es presentar una discusión introductoria a algunas de las ideas de Devereux a partir de trechos de la película Jimmy P., dirigida por Arnaud Desplechin en 2013. Además, buscamos las aproximaciones e innovaciones del autor con relación a Freud. Concluimos que, en lo que dice respecto a la aproximación en cuanto a la técnica y práctica entre Devereux y Freud, observamos en la película que Devereux incorpora a su técnica la práctica de la interpretación de los sueños, la asociación libre y hace referencias a la teoría freudiana durante el tratamiento, como el complejo de Edipo y la transferencia. A partir de las intuiciones freudianas sobre la relación entre cultura y psique, Devereux avanza para la formulación de un etnopsicoanálisis, resultado del reconocimiento del entrelazamiento inseparable de esquemas individuales y culturales. Si las proposiciones de Devereux fomentaron en Francia el desarrollo de una práctica clínica que considera las diferencias culturales de poblaciones de inmigrantes oriundas de diferentes países, más promisoras aún parecen ser las probabilidades de florecimiento de un psicoanálisis transcultural en un terreno fértil en diversidad étnica como Brasil.

Palabras clave: Etnopsicoanálisis; psicoanálisis y cultura; psiquiatría transcultural

ABSTRACT

Georges Devereux (1908-1985) is known for being, together with GézaRohéim (1891-1953), one of the creators of ethnopsychoanalysis, a subject that articulates the knowledge of Psychoanalysis and Anthropology. His first great work was Psychoterapie d’un indien des plaines, a book published in 1951 and that narrates the analysis of a Blackfoot American Indian, ex-combatant of the Second War. The book was the basis for the elaboration of the movie Jimmy P., translated in Brazil as Terapiaintensiva. The aim of this study was to present an introductory discussion to some of Devereux’s ideas from clippings of the film Jimmy P., directed by Arnaud Desplechin in 2013. In addition, we also looked for the author’s approaches and innovations in relation to Freud. We concluded that, in the matter of approaching as a technique and practice between Devereux and Freud, we observe in the movie that Devereux incorporates to his technique the practice of dream interpretation, free association, and makes references to Freud’s theory during the treatment, as the Oedipus complex and transference. Starting from Freudian intuitions about the relation between culture and psyche, Devereux advances for the formulation of an ethnopsychoanalysis, a result of the recognition of the inseparable interweaving of individual and cultural schemes. If the propositions of Devereux promoted in France the development of a clinical practice that considers the cultural differences of populations of immigrants from different countries, more promising still appear to be the chances of a transcultural psychoanalysis flourishing in a fertile terrain in ethnic diversity such as Brazil.

Keywords: Ethnopsychoanalysis; psychoanalysis and culture; transcultural psychiatry

Introdução

Um dos autores que defende a renovação produzida pela etnopsicanálise no campo das ciências humanas, Roger Bastide (2015), informa-nos que entre as preocupações que teriam impulsionado as reflexões de Georges Devereux (1908-1985), uma delas diz respeito à constatação de uma dificuldade manifesta de comunicação entre as disciplinas que integram esse âmbito do conhecimento. Desde seus estudos etnográficos iniciais, Devereux teria colocado como tarefa a reflexão sobre os fundamentos das duas disciplinas envolvidas em seu trabalho, a saber, a etnologiae a psicanálise, a fim de tentar ultrapassar o estado de desordem então reinante ao menos numa parte desse domínio do saber. A proposta de uma etnopsicanálise como uma nova disciplina, mais abrangente e rigorosamente fundamentada, resultaria desse empreendimento.

Pode-se perceber a partir dessas considerações preliminares a importância e a envergadura do empreendimento etnopsicanalítico de Devereux, cuja explicitação de forma ampla ultrapassaria os limites deste trabalho. Por outro lado, considerando a escassez ainda verificada no Brasil de trabalhos sobre o assunto, o objetivo deste artigo é apresentar uma discussão introdutória a algumas das ideias do autor. Dado que em nossos estudos o interesse principal voltou-se para a discussão de alguns aspectos da prática e da técnica da etnopsicanálise; e dado que, conforme informa-nos Menninger, citado por Devereux (2013), “[...] a primeira teoria e o primeiro exemplo concreto da utilização dos mecanismos culturais em psicoterapia” (p. 41-42, tradução nossa)3, encontra-se em Psychoterapie d’un indien des plaines: realité et rêve, livro no qual Devereux relata a análise desenvolvida com um indígena americano, ele servirá indiretamente de base para a discussão feita neste artigo, pois a discussão será baseada principalmente na análise de alguns recortes do filme intitulado Jimmy P. (Desplechin, 2013), realizado a partir do livro.

O filme possibilita explorar alguns aspectos característicos da abordagem transcultural desenvolvida pelo autor, cuja regra fundamental, por assim dizer, consiste na necessidade, por parte do analista, de conhecer a cultura na qual se encontra inserido o paciente (Nathan, 2013a). A tese central de Devereux (2013), segundo a qual o conhecimento por parte do analista, senão de fatores culturais específicos, ao menos do esquema cultural geral determinante da economia e psicodinâmica de pacientes oriundos de territórios culturais alheios ao seu, abre a possibilidade de pensarmos o sentido inovador, o alcance e a importância de uma clínica psicanalítica transcultural nos dias atuais.

Para Devereux, é fundamental que o analista considere a cultura enquanto experiência vivida, pois independente de qual seja a cultura do paciente, o que varia de uma sociedade a outra não são “[...] os materiais culturais utilizados - estes são rigorosamente os mesmos na Patagônia e no Japão, em Madagascar e no Canadá -, mas a maneira pela qual se organizam” (Laplantine, 1998, p. 72). Neste sentido, convém esclarecer que Devereux diferencia a cultura no sentido particular (a cultura de um grupo ou sociedade específica) da Cultura em si enquanto fenômeno universal (Araújo, 2016), condição da experiência humana em geral.

A ideia de uma Cultura em si, com ‘C’ maiúsculo, decorre da compreensão do papel constitutivo do fator cultural para o psiquismo humano, de modo que se poderia falar de uma correspondência ou homologia entre ambos. Isso significa que, para Devereux, um não pode ser concebido sem o outro, nem este sem aquele. A coemergência entre ambos implica no fato de “[...] ser impossível conceber uma cultura que não fosse vivenciada por um psiquismo [...] e, reciprocamente, é impossível pensar a própria formação da personalidade [...] independente da cultura” (Laplantine, 1998, p. 73).

Do ponto de vista da prática clínica, Devereux (1978) diferencia três tipos de psicoterapias etnopsiquiátricas4: a intracultural, a intercultural e a transcultural. Na primeira, paciente e terapeuta seriam do mesmo meio cultural e o terapeuta considera a dimensão cultural no tratamento. Na segunda e terceira, paciente e terapeuta seriam de culturas diferentes, mas enquanto que na psicoterapia intercultural o terapeuta conheceria bem a cultura específica do paciente e a manejaria com fins terapêuticos, na transcultural o terapeuta levaria em conta a Cultura em si e utilizaria esse pressuposto no diagnóstico e condução do tratamento.

Na França, p. ex., as ideias de Devereux teriam contribuído para o desenvolvimento de práticas terapêuticas com migrantes, inicialmente com Tobie Nathan, aluno de Devereux, e Marie Rose Moro. De acordo com Saglio-Yatzimirsky, (2015), a primeira consulta etnopsiquiátrica teria sido realizada por Tobie Nathan, em 1979, no serviço de psiquiatria de Serge Lebovici, no Hospital de Avicenne, situado em Bobigny, Seine-Saint Denis. O hospital Avicenne é um hospital público, inaugurado em 1935, com o objetivo de ser um hospital franco-muçulmano em Paris e atender principalmente a população argelina e marroquina, no contexto da colonização. No entanto, esse hospital passou a atender a população do norte de Paris, região que concentra uma população marcada pela pobreza, forte mistura cultural e comunidades de origem africanas e asiáticas.

A partir da experiência realizada em Avicenne, Tobie Nathan funda o Centro Georges Devereux, em 1993, vinculado ao Departamento de Psicologia da Universidade Paris 8. O Centro Georges Devereux é o primeiro e único centro universitário clínico no interior de uma UFR (Unidade de Formação e Pesquisa) francesa e surge com o objetivo de ser estritamente voltado à psicologia e à pesquisa clínicas, oferecendo consultas etnopsiquiátricas gratuitas a famílias de imigrantes (Nathan, 2013b).

Assim como na França, acreditamos que num país multicultural como o Brasil a etnopsicanálise de Devereux pode trazer contribuições para a pesquisa e intervenção junto a indivíduos de diferentes contextos culturais, não somente daqueles provenientes de outros países, mas também com nossos povos indígenas que são de 305 diferentes etnias (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2012).

Quanto à exposição, após uma breve apresentação de alguns antecedentes históricos para contextualizar minimamente a emergência da etnopsicanálise, passaremos à discussão de alguns aspectos da técnica utilizada por Devereux no tratamento de seu paciente indígena, chamado de Jimmy P. Serão considerados aspectos do manejo da transferência, da técnica da interpretação dos sonhos e a consideração do complexo de Édipo, p. ex., a fim de destacar, a partir de trechos do filme cotejada com a leitura do livro, suas semelhanças e diferenças em relação a Freud, assim como algumas das inovações introduzidas por Devereux.

Alguns antecedentes da etnopsicanálise na obra de Freud

A etnopsicanálise é uma disciplina que articula os saberes da antropologia e da psicanálise. Um marco da aproximação entre essas duas disciplinas teria sido a publicação do livro ‘Totem e tabu’, em cujo prefácio Freud (2012, p. 14) diz que o livro é uma primeira tentativa de “[...] aplicar perspectivas e resultados da psicanálise a problemas ainda não solucionados pela psicologia dos povos”. Esclarece, além disso, que o livro busca “[...] fazer a intermediação entre etnólogos, linguistas, folcloristas etc., de um lado, e psicanalistas, de outro [...]” (p. 15). Já no final de sua vida, quando escreveu Moises y la religion monoteísta, Freud (1996) assim resumiu as hipóteses etnográficas nas quais se baseou para escrever ‘Totem e tabu’.

De Darwin tomei a hipótese de que o homem viveu originalmente em pequenas hordas, cada uma dominada brutalmente por um macho mais velho, que se apropriava de todas as fêmeas e castigava ou matava todos os machos jovens, incluindo seus próprios filhos. De Atkinson, procede a segunda parte desta descrição: o sistema patriarcal teve seu fim em uma rebelião dos filhos, que se aliaram contra o pai, mataram-no e devoraram seu corpo em comum. Seguindo a teoria totêmica de Robertson Smith, presumi que a horda paterna cedeu logo o lugar ao clã fraterno totêmico. Para poder viver unidos em paz, os vitoriosos renunciaram às mulheres, pelas quais haviam matado o pai, e aceitaram submeter-se a exogamia. [...] Em lugar do pai erigiu-se um determinado animal como totem, aceitando como antecessor coletivo e como divindade tutelar: ninguém podia maltratá-lo ou matá-lo; mas uma vez no ano toda comunidade masculina reunia-se em um banquete em que o animal totêmico, até então reverenciado, era despedaçado e devorado em comum (p. 3320, tradução nossa)5.

A partir dessas ideias, Freud fundamentou e ampliou sua noção de complexo de Édipo, lançou os fundamentos de sua teoria sobre o social e a cultura. Para ele, o sentimento ambivalente vivenciado por crianças e pelo neurótico no complexo de Édipo estaria relacionado ao sentimento nutrido pelos irmãos, na horda primordial, em relação ao pai (a ontogênese repete a filogênese). Tanto os primeiros como os segundos sentiriam ódio pelo pai que impedia a realização do desejo sexual, ao mesmo tempo em que também sentem amor e admiração. Com o assassinato do pai, o sentimento instaurado entre os irmãos na horda primitiva teria sido o da culpabilidade, e o pai morto, substituído por um totem, teria adquirido simbolicamente uma força muito maior da que tinha em vida. As proibições que ele fazia em vida passaram os irmãos a fazer-se a si mesmos, dando origem aos tabus totêmicos - não matar ou maltratar o totem e a lei da exogamia, que proibia relações sexuais entre os membros de sexo oposto de um mesmo totem - os quais coincidiriam com os desejos reprimidos na criança no período do complexo de Édipo. Estas proibições instituídas com o assassinato do pai visavam assegurar a manutenção da nova ordem. Em nome da igualdade e da sociedade fraterna, os irmãos renunciaram às mulheres e à disputa pelo lugar daquele que os dominava pela força, ou seja, os irmãos fazem um pacto de renúncia.

Embora Freud considerasse ‘Totem e tabu’ um de seus livros mais bem escritos, segundo Strachey (2008), foi um de seus livros mais criticados. Entre as diversas críticas que recebeu, está o questionamento do antropólogo Bronislaw Malinowski acerca da universalidade do complexo de Édipo. Malinowski, tendo como base os dados coletados em Nova Guiné, junto aos trobiandeses, argumentava que o complexo de Édipo não se verificava entre esse povo, aplicando-se somente às famílias burguesas das grandes cidades, tal como Viena (Bastide, 2015; Barros & Bairrão, 2010).

Ciente das críticas de Malinowski a ‘Totem e tabu’, Freud teria convidado o antropólogo e psicanalista Géza Rohéim (1891-1953) para viajar até a Nova Guiné, com objetivo de responder aos questionamentos sobre a universalidade do complexo de Édipo, tarefa que Rohéim realizou com o financiamento de Marie Bonaparte (Barros & Bairrão, 2010). Rohéim foi o primeiro antropólogo a se tornar psicanalista e o único psicanalista apto, na época, a rebater as críticas de Malinowski com argumentos não apenas teóricos (Roudinesco & Plon, 1998).

Georges Devereux e a formulação da etnopsicanálise

Géza Rohéim foi juntamente com Georges Devereuxum dos criadores da etnopsicanálise, embora seja Devereux o primeiro a empregar este termo. No número 1 da revista Ethnopsichiatrica, Devereux (1978) assim definiu a nova disciplina, também denominada por ele de etnopsiquiatria.

A etnopsiquiatria - necessariamente concebida como etnopsicanálise (infra) - é uma ciência pluridisciplinar e não interdisciplinar. Ela parece ser a mais compreensiva das ciências do homem, tanto das ciências puras quanto das aplicadas e também dos pontos de vista diacrônicos e sincrônicos. Reconhecida ou não como tal, seu problema de base é aquele que sustenta todas as ciências do homem: a relação de complementariedade entre a compreensão do indivíduo, da sociedade e de sua cultura (p. 1, tradução nossa)6.

Laplantine (1998) considera que a característica principal da etnopsiquiatria de Devereux é a sua epistemologia complementarista que tem como base três princípios: especificidade disciplinar, não simultaneidade e complementariedade. A especificidade disciplinar da etnopsiquiatria refere-se a sua constituição pela articulação entre etnologia e psicanálise e não da fusão entre as duas disciplinas, ou seja, se caracteriza pela complementaridade entre as abordagens que tem metodologias e problemáticas próprias, ambas necessárias para compreensão da complexidade dos fenômenos (daí a ideia de uma epistemologia da complementariedade). Neste sentido, a pluridisciplinariedade e não a interdiscplinariedade que traz implícita a ideia de que uma disciplina pede socorro à outra, podendo a dispensar quando achar conveniente (Laplantine, 1998).

A não simultaneidade, aplicação do princípio de incerteza de Heisenberg, implica na impossibilidade de uma análise simultânea de um mesmo fenômeno em diferentes termos. Devereux (2015) procura esclarecer esse princípio por uma situação tomada como exemplo, de um marido que dá brincos de presente a sua mulher; nesse exemplo, quanto mais exploramos os motivos psicológicos desse ato menos compreendemos sua dimensão social, não sendo possível uma análise simultânea das duas dimensões.

Ao comentar a metodologia inovadora de Devereux, Moro (2010) considera que o autor construiu as bases teóricas da disciplina e um método original e subversivo, o complementarismo.

O complementarismo se opõe ao comparativismo na medida em que as lógicas culturais são exploradas enquanto tais, elas servem de suporte às associações e ao material clínico. O instrumental antropológico permite propor e explorar o domínio da relação e de co-construir com o paciente os sentidos culturais sobre os quais virão se assentar os sentidos individuais (Moro, 2010, p. 36, tradução nossa)7.

Os estudos de Devereux no campo da antropologia antecederam sua aproximação à psicanálise. Em Paris, estudou com Marcel Mauss, e em 1932 já escrevia artigos para a revista American Antropologist. Em 1933, conseguiu uma bolsa de estudos e partiu para os Estados Unidos, onde estudou inicialmente os Hopi e em seguida os Mohaves. Depois foi para a Nova Guiné e Indochina. Neste período estudou as culturas indígenas e não ocidentais, fez uma espécie de autobiografia científica que se tornou a base de seus escritos epistemológicos sobre contratransferência e a angústia do observador (Devereux, 2012). Em 1935 defendeu sua tese em antropologia na Universidade da Califórnia, sob a orientação de Alfred Kroeber, com o título A vida sexual dos índios Mohaves, prosseguindo com suas pesquisas sobre sexualidade e suicídio entre os indígenas (Bloch, 2000).

Segundo Roudinesco e Plon (1998), foi o trabalho de campo que fez Devereux refletir sobre a diversidade das doenças mentais em diferentes culturas. Porém, foi somente após a Segunda Guerra que ele se voltou para psicanálise, primeiro na França, sendo analisado por Marc Schlumberger, transferindo-se depois para os EUA. Em Topeka, no Kansas, trabalhou na então famosa clínica de Karl Menninger, onde realizou a análise de um indígena ex-combatente da Segunda Guerra. Esta análise foi minunciosamente transcrita por Devereux e publicada em 1951 no livro Psychoterapie d’um indien des plaines primeiramente em inglês com o título Reality and dream: the psychotherap yof a plains indian), considerado a sua primeira grande obra.

Fragmentos de um relato clínico-etnopsicanalítico: o tratamento de Jimmy P. por Georges Devereux

No livro onde apresenta o relato do tratamento, Psychoterapie d’un indien des plaines, na tradução francesa aqui utilizada, Devereux (2013) narra 30 sessões de análise de um indígena norte-americano que, após ter combatido na Segunda Guerra, foi internado em um hospital para veteranos de guerra em Topeka, com queixas de crises de ansiedade, pesadelos, fobias (de altura e água), dores de cabeça e alcoolismo. Não encontrando causas fisiológicas que explicassem as queixas do indígena e suspeitando que se tratava de um caso de esquizofrenia, os médicos e o psicólogo do hospital de Topeka resolvem chamar Devereux para elaborar um parecer antropológico sobre o caso. Logo de início, Devereux descarta a hipótese de esquizofrenia e se propõe a conduzir psicanaliticamente o tratamento do indígena. Durante as sessões (que eram diárias), embasado na psicanálise freudiana, leva o paciente a evocar lembranças de seu passado e relatar seus sonhos.

Psychoterapie d’um indien des plaines, segundo Nathan (2013a), discípulo e principal divulgador na França das ideias de Devereux, é um dos poucos livros na produção da psicanálise que expõe um caso clínico integral e rigorosamente, além de desenvolver uma hipótese inovadora, segundo a qual “[...] para tratar um indígena Blackfoot, não basta dominar a psicopatologia; é necessário um conhecimento dos Blackfeet - da cultura Blackfoot - isto para encontrar o núcleo da personalidade e mobilizar suas próprias forças” (Nathan, 2013a). Em outras palavras, Nathan esclarece que a hipótese levantada por Devereux estabelecia as condições necessárias para a condução adequada do tratamento do paciente, um indígena da tribo denominada pés pretos; era preciso mais do que o domínio da psicopatologia por parte do analista, era necessário conhecer a cultura do povo indígena do qual Jimmy P. fazia parte.

O livro teria encantado o diretor de cinema, Arnaud Desplechin, que o leu na década de 1990 e fez a adaptação do livro para o cinema. O diretor teria conversado com Elisabeth Roudinesco, que fez o prefácio da edição francesa do livro de Devereux, publicado pela primeira vez na França em 1998. Além disso, Desplechin teria realizado um amplo trabalho de pesquisa nos Estados Unidos que incluiu visitas e conversas com os indígenas da etnia pés pretos, em uma reserva, visita ao hospital em Topeka, entrevistas com pessoas que conheceram e conviveram com Georges Devereux e também com veteranos de diferentes guerras (Jimmy P., 2017)

O filme chegou às telas do cinema em 2013 e recebeu o título de Jimmy P., seguindo o modelo dos casos clínicos de Freud - no Brasil, o filme foi intitulado Terapia intensiva (Desplechin, 2013). O filme traz recortes das sessões transcritas no livro e, até onde pudemos cotejar, é fiel ao texto e bem sucedido na passagem da linguagem escrita para a cinematográfica.

A história de Jimmy P. e o encontro com Devereux

Jimmy P. tinha em torno de 30 anos quando foi para o hospital em Topeka, ele pertencia à tribo dos Blackfoot, denominada de Wolf por Devereux para preservar a identidade do paciente (Roudinesco, 2013). Ele nasceu em uma reserva indígena, seu pai morreu de uma doença do coração quando ele tinha cinco anos. Pouco depois da morte do pai, ele encontrou a mãe na cama com outro homem, indo depois disso morar na casa da irmã mais velha. Jimmy era o mais jovem de uma família com muitos irmãos. Sua família fazia parte de uma seita protestante muito rígida (Devereux, 2013).

Segundo Devereux (2013), a infância de Jimmy teria sido marcada por três incidentes traumáticos. O primeiro, a descoberta da sua mãe na cama com outro homem; o segundo, o afogamento e a morte de uma colega de brincadeiras, situação na qual ele não teria tentado fazer nada para salvá-la; e o terceiro, quando a irmã o flagrou acariciando os genitais de uma menina mais velha que ele, irmã da colega que morrera afogada. Os três incidentes traumáticos são retratados no filme.

Jimmy estudou em uma escola confessional na reserva. Na adolescência engravidou uma jovem, parente próxima do seu cunhado e não reconheceu a paternidade, cujo escândalo levou-o a abandonar a escola. Quando de sua internação no hospital, sua filha vivia com a avó materna e não recebia nenhuma ajuda do paciente. No decorrer das sessões, Jimmy manifesta uma intensa culpa pelo abandono da filha e decide assumir a responsabilidade pelo cuidado dela assim que sair do hospital (Devereux, 2013).

Quando adulto, Jimmy trabalhou no rancho da irmã e se ocupou de trabalhos temporários. Ele se casou com uma jovem Blackfoot de sua idade. Foi enviado para Europa para lutar na Segunda Guerra, mas não participou de combates, trabalhou em serviços de guarda. Durante o tempo que passou na Europa, descobriu o adultério de sua esposa que já estava vivendo com outro em sua propriedade. Uma queda o faz fraturar o crânio e ele é levado de volta para os Estados Unidos, passando a receber uma pensão do governo pelo acidente, divorciando-se em seguida. Com o divórcio, voltou a viver no rancho da irmã e aí começaram a surgir os sintomas que o levam para o hospital em Topeka (Devereux, 2013).

Fundada em 1926 por Karl Menninger, a Clínica de Menninger, em Topeka, recebeu psiquiatras e psicanalistas que fugiam do nazismo na Europa. Foi um importante centro de estudos e pesquisas que agregava o hospital de veteranos de guerra. Em Topeka, tudo devia ser mensurado e comunicado, o texto de Devereux obedece a estes princípios realistas, sendo este um dos fatores que explicariam a distância do estilo do relato do caso Jimmy P. quando comparado ao estilo romanceado dos casos clínicos de Freud (Roudinesco, 2013).

No primeiro encontro entre paciente e analista, Devereux se apresenta como antropólogo do hospital e a primeira pergunta que faz a Jimmy é qual é o seu nome indígena. Neste primeiro encontro, Devereux demonstra seu conhecimento sobre os povos indígenas e sua simpatia por eles. O paciente, antes calado, passa a contar sua história e se impressiona com o conhecimento de Devereux sobre os indígenas das planícies dos Estados Unidos. Em uma cena no pátio, Jimmy pergunta a Devereux o que faz um antropólogo (Desplechin, 2013).

Jimmy- O que faz um antropólogo?

Devereux- Bem [...] Estudamos todos os aspectos dos seres humanos. A língua, os conhecimentos, a fisiologia...

Jimmy-É por isso que conhece palavras indígenas?

Devereux -É. Eu vivi durante 2 anos entre os Mojaves.

Jimmy- No deserto?

Devereux- Foi. Consegui aprender sua língua e sua história.

No filme, é possível verificar em diversos momentos Devereux perguntando a denominação indígena para pessoas e situações. Devereux também expõe o conhecimento que ele tem sobre culturas indígenas, quando fala de si mesmo como ‘espírito protetor’ (na análise de um sonho), quando pergunta a Jimmy se sua mãe e irmã tinham ‘coração viril’ (o que causa surpresa ao paciente) e quando fala do sentido do sonhos (predizem o futuro) na cultura do paciente.

A relação analista-paciente

A relação entre o analista e o paciente, segundo Devereux (2013), teria sido excelente, o que lhe permitiu tomar notas quase textuais das sessões, prática não recomendada por Freud (2010). Para Freud, tomar notas durante as sessões interferiria na atenção flutuante do analista, contrapartida da atitude do analisando de dizer tudo o que lhe vier à mente (associação livre). A atenção flutuante consiste em escutar o paciente sem a preocupação de lembrar posteriormente ou não (entrega total à memória inconsciente), ou seja, evita a atenção deliberada e as percepções subjetivas (opiniões e pressupostos, por exemplo), para não correr o risco de selecionar o material que lhe é apresentado, negligenciando, dessa forma, fatos importantes. Ao focar a atenção para um determinado elemento mais do que os outros, alerta o autor, o analista estará arriscando a descobrir nada além do que já sabe. Para Freud, mesmo que se trate de um estudo de caso, em psicanálise, a transcrição durante a sessão seria menos útil do que se poderia esperar. Além de poder causar má impressão no analisando e posteriormente tornar o caso cansativo para o leitor.

Freud (2010) também recomendava que o analista não falasse de sua vida pessoal com o analisando com objetivo de estabelecer uma relação de igualdade e confiança, pois seria sugestão e não psicanálise. “O médico deve ser opaco para o analisando, e, tal como um espelho, não mostrar senão o que lhe é mostrado” (p. 159). Além disso, recomendava ao psicanalista que tomasse como modelo o cirurgião que deixa seus afetos e até mesmo sua compaixão pelo ser humano de lado e concentra sua energia na operação.

Devereux contrariava também esta recomendação de Freud, pois em diversos momentos fazia relatos de sua vida pessoal durante as sessões. Também vemos no filme várias cenas em que Jimmy e Devereux se encontram em outros contextos que não o setting terapêutico. O analista acompanha o paciente para pegar seu cheque de pensão, o convida para um passeio de carro, os dois também aparecem juntos no cinema e na barbearia. Estas atitudes de Devereux, retratadas no filme, parecem ser semelhantes às que ele teve também com outros pacientes, conforme esclarece Nathan (2013a).

Ele [Devereux] nos contava que na saída de uma sessão, quando o paciente estava particularmente angustiado, ele sugeria ao paciente conversar um pouco. Não era raro que ele convidasse um paciente a ficar para jantar ou que ele o acompanhasse ao longo do caminho para acalmar a intensidade das emoções provocadas pelo tratamento (p. 2, tradução nossa)8.

Com base em sua própria experiência como analista é que Devereux (2013) criticaria a postura etnocêntrica do analista, dizendo que ela é que impõe a maior dificuldade no tratamento dos indígenas das planícies. Critica também um tratamento que visa à adaptação passiva do paciente à sociedade, pois a questão é mais ampla e devemos nos perguntar se a sociedade permitirá a readaptação do paciente e o recompensará por isto.

A interpretação dos sonhos e o complexo de Édipo

Jimmy sonhava muito e pertencia a uma tribo que valorizava o conteúdo manifesto do sonho. Os índios das planícies consideravam o sonho não somente como um acontecimento sobrenatural, mas também como realidade objetiva, razão pela qual eles interpretavam os sonhos como sucesso ou fracasso na vida, prescrevendo linhas de conduta e tabus. O paciente, por sua vez, considerava seus próprios sonhos como algo real, como ensaio ou preparação sobre seus próprios poderes e sobre a realidade (Devereux, 2013).

Segundo Rodinesco (2013, p. 24), Devereux utilizou com Jimmy “[...] a técnica própria ao freudismo clássico [...]”, como a interpretação dos sonhos, a especial atenção à sexualidade, mas, para além do freudismo, na medida em que conhecia a cultura do indígena em tratamento pode estimular a relação transferencial para que o analista passasse a ocupar o lugar de ‘espírito protetor’. No entanto, Devereux (2013, p. 224, tradução nossa)9 considerava que sua técnica

[...] é muito mais limitada que aquela da análise clássica do sonho. Porque, mesmo que sua eficácia terapêutica seja compreendida em termos de teoria psicanalítica, trata-se de uma psicanálise modificada ou abreviada - ela é somente uma psicanálise de expressão e de apoio.

Uma diferença adicional entre a interpretação dos sonhos apresentada por Devereux (2013), em relação à interpretação clássica da psicanálise que visa o conteúdo latente por trás do manifesto, reside no fato de que ele trabalhava sobre o conteúdo manifesto e selecionava o que interpretar, deixando de fora certas partes importantes do sonho, a fim de evitar certos riscos como dos insights traumáticos. Além disso, conhecer a cultura do paciente era fundamental para saber a dosagem do insight e para identificar a oportunidade de interpretação.

Devereux (2013) discorre sobre sua técnica, apresentando seis pontos sobre quais conteúdos devem ser interpretados no sonho e como deve ser o seu manejo. Primeiro, o material ego-sintônico, o conteúdo prazeroso do sonho, as experiências agradáveis e as belas imagens. Segundo, o comportamento positivo que mostra sucessos, atos de generosidade, uma vez que o que aparece no sonho é entendido pelo paciente como ensaio para ações bem sucedidas na vida real. Terceiro, as interpretações caracterológicas, que consistiam em destacar caracteres típicos do paciente que aparecem no sonho e que são também caraterísticos da sua conduta, pois era mais fácil ao paciente aceitar interpretações do seu comportamento no sonho do que as referentes a seu comportamento na vida real. Quarto, os mecanismos de defesa, ajudando o paciente a tomar consciência de quais eram úteis e quais eram inúteis ou autodestrutivos. Quinto, o conteúdo concernente à realidade externa, em relação ao qual Devereux incentiva o paciente a enfrentar seus problemas segundo o modelo tradicional de sua cultura, pois entendia que os sonhos na cultura do paciente são ensaios para ação e resolução de conflitos. E, por último, e não menos importante, a interpretação da transferência considerando o modelo tradicional de relações interpessoais do paciente,a fim de desmitificar a tendência deste a representar o analista como omnisciente e onipotente.

Na primeira sessão retratada no filme, após ter apresentado um parecer à equipe do hospital de que Jimmy não era louco e tendo recebido autorização para atendê-lo, Devereux pergunta a Jimmy se ele sonhou e este relata dois sonhos. O primeiro em que ele descarnava um boi e o outro em que lutava com outro homem que o atacava com uma faca. Nas intervenções, Devereux faz questionamentos (p. ex. sobre a raça do boi, sobre como era o homem e como estava vestido, sobre o que tinha em comum nos dois sonhos), busca as associações do paciente e pergunta como os antepassados Blackfoot interpretariam aquele sonho. Como Jimmy diz não saber responder, o próprio Devereux comenta que para os Blackfoot os sonhos predizem o futuro, ele entende que os sonhos dizem respeito ao passado.

Em outra sessão retratada no filme (Desplechin, 2013), Jimmy novamente relata dois sonhos, desta vez sonhos com Devereux.

Jimmy - Havíamos saído para caçar. Eu tinha um fuzil. Mas você não. E, de repente [...] eu vi um urso. Meu fuzil emperrou. O urso começou a nos perseguir. Eu continuava a puxar a alavanca e nada acontecia. Então [...] você me disse para colocar uma bala de cada vez. Eu fiz isso. E então, pulei para outro sonho. Agora estávamos caçando raposas. Eu tinha um calibre 22 e você não tinha nada, novamente. Eu matei uma raposa. Eu a peguei do chão. Estava falando com você, quando olhando novamente vi que segurava um bebê pelas pernas. A raposa se transformou em um bebê.

Devereux- E, aí [...] Um bebê vivo?

Jimmy- Ele estava morto, ou dormindo. Depois eu acordei, suando.

Devereux- Em seu sonho, sou como um amuleto feito de cabeças de animais dos antepassados. Sua proteção dá coragem.

Jimmy- Os antepassados diziam que sonhavam com um castor. O castor lhes dava conselhos e sua benção. Por isso eles rezavam para o castor.

Devereux- Percebeu o porquê começou a falar comigo sobre religião? Sonhar comigo foi como sonhar com um espírito protetor. Você sentiu medo quando o fuzil emperrou?

Jimmy- Não, não tive medo.

Devereux- Nos sonhos, nós buscamos dizer alguma coisa a nós mesmos. O que você está tentando dizer? Você não consegue matar um urso, mas consegue matar uma raposa em seu sonho. Talvez o sonho esteja lhe dizendo para começar por suas pequenas preocupações.

Jimmy- É uma boa interpretação.

Nessa passagem do filme, vemos a interpretação de Devereux sobre o conteúdo manifesto do sonho, considerando o sentido do sonho na cultura do paciente, como um ensaio para a realidade. Devereux destaca os aspectos positivos deste que não pode matar um urso, mas pode matar uma raposa e o incentiva a começar pelas pequenas preocupações. O mesmo acontece também com o manejo da transferência, conforme comentamos acima, em que Devereux emprega elementos da cultura do paciente, no caso ‘o espírito protetor’, para enfatizar seu papel como o de alguém que apoia o paciente.

Na transcrição da sessão no livro Psychoterapie d’un indien des plaines, consta uma nota de rodapé que diz que os Cheyennes quando se exprimem em inglês denominam a ejaculação sexual de tiro de fuzil. Na análise da sessão, Devereux (2013) intervém e considera o analista no sonho como alguém que não tem fuzil, mas que dá conselhos. Ou seja, o analista estaria sendo tomado por um substituto parental indulgente à sexualidade, e o fuzil que falha antecipa conteúdos que aparecerão posteriormente nas sessões, como a impotência sexual parcial do paciente e os componentes sadomasoquistas em relação ao ato sexual parental. Estes elementos, presentes na análise, não foram interpretados ao paciente.

Retomando Rodinesco (2013), é possível dizer que Devereux se aproxima de Freud na importância que dá aos sonhos e à sexualidade. No caso dos sonhos, sempre busca as associações do paciente, tal como Freud, mas, como mencionamos antes, seu trabalho não visa o conteúdo latente do sonho e sim se detém no conteúdo manifesto. Já em relação à sexualidade, Devereux concorda com a universalidade do complexo de Édipo, mas destaca algumas especificidades do complexo de Édipo vivenciado pelos indígenas das planícies.

Segundo Bastide (2015), os homens pertencentes às tribos dos índios das planícies direcionam a hostilidade à mãe que frustra. A hostilidade entre os homens é institucionalizada e se expressa em competições, sendo sua origem localizada no ódio ao pai. No entanto, este ódio estaria, por sua vez, subordinado à hostilidade original em relação à mãe, o que configuraria um complexo de Édipo invertido (negativo). Sobre os costumes destes povos, Devereux (2013) destaca que um deles é a exigência de que irmãos do mesmo sexo, marido e sogra, esposa e sogro evitem o contato, o que caracteriza uma formação reativa contra desejos incestuosos e hostilidade. A rivalidade guerreira (entre homens) também seria uma formação reativa contra sentimentos homossexuais, de dependência e masoquismo.

Sobre o complexo de Édipo, Freud (2011, p. 40) diz que, em sua forma simples e positiva no menino, é caraterizado pela “[...] postura ambivalente ante o pai e a relação objetal exclusivamente terna com a mãe [...]”. No entanto, Freud destaca que o complexo de Édipo simples não é o mais frequente, é uma mera esquematização com fins práticos. O mais comum é complexo de Édipo completo, em que a mãe, assim como o pai, é objeto de uma postura ambivalente, ou seja, ao mesmo tempo em que é o objeto de amor, é também a rival que desperta ciúmes e hostilidade. É o complexo de Édipo completo, com atitudes ambivalentes em relação a ambas as figuras parentais que encontramos na descrição dos costumes dos índios das planícies, com a especificidade de que na cultura há uma forma institucionalizada e coletiva de expressão da hostilidade em relação à figura paterna.

Continuando a descrição da sessão acima mencionada, vejamos como aparece a hostilidade em relação às mulheres (Desplechin, 2013):

Devereux- O bebê estava nu. Era menino ou menina?

Jimmy- Ele não estava ferido, não havia nenhum buraco nele.

Devereux- Tente adivinhar.

Jimmy- Uma menina, talvez.

Devereux- Quem era essa menina?

Jimmy- No início, era uma raposa. E quando olhei para o chão, era um bebê menina.

Devereux- As raposas são peludas. Quando um bebê nasce, ele tem pelos em algum lugar?

Jimmy- Ao sair de uma mulher?

Devereux- O que acontece em seguida?

Jimmy- Eu falhei com ela.

Devereux- Como assim, falhou?

Jimmy- Eu agi errado.

Devereux- Você não podia fazer nada. Era jovem, havia pressões. Se falhou com sua filha, não havia outro jeito. Pense, você tinha 17 anos, não possuía nada. Atualmente, ajuda sua filha. É bondoso com ela. É isso que importa.

No filme, Devereux comenta que o sonho representaria a negação do paciente de que o bebê estava morto, pois a expressão ‘não tinha um buraco’ representaria sua tendência a representar as mulheres (pessoas que tem um furo) como cegas ou mortas e sua angústia de castração. Em outra sessão retratada no filme, quando Jimmy falava de sua infância, Devereux lhe pergunta se quando criança já tinha espiado os adultos e ele relata o episódio em que viu a mãe na cama com outro homem, acontecimento que o fez abandonar a casa materna para viver com sua irmã mais velha. No filme, este episódio é representado pela cena em que Devereux apresenta o caso aos médicos (Desplechin, 2013) e diz:

Por natureza, um menino se enxerga substituindo o pai desaparecido na cama dos pais. Quanta decepção quando descobre sua mãe nos braços de outro. O lugar era meu! O menino vê o pênis do amante, não pode evitar o fascínio. Não acredito que o menino deseje esse pênis. Ele é Hamlet, deseja o lugar do amante!

Considerações finais

A partir do filme Jimmy P. (Desplechin, 2013), buscamos apresentar uma discussão introdutória à etnopsicanálise de Georges Devereux, tentando identificar algumas de suas aproximações e inovações em relação à psicanálise, em particular, à freudiana. No que diz respeito às aproximações entre Devereux e Freud, observamos no filme que Devereux incorpora à sua técnica a prática da interpretação dos sonhos (embora seu trabalho vise o conteúdo manifesto do sonho), a associação livre e faz referências à teoria freudiana durante o tratamento, como o complexo de Édipo e a transferência. Uma das maiores inovações de Devereux parece ter sido a introdução de elementos da cultura do paciente na interpretação dos seus sonhos e no resgate das suas lembranças, o que caracterizaria, de acordo com a própria definição de Devereux (1978), uma psicoterapia intercultural.

Mesmo partindo das bases teóricas e técnicas estabelecidas por Freud, a consideração do esquema cultural do paciente na análise leva-o naturalmente a introduzir estas inovações, como visto no caso da técnica da interpretação dos sonhos (ao considerar sentido dos sonhos na cultura do paciente) e na indução do processo transferencial (psicanalista como espírito protetor). O pressuposto teórico que sustenta essa prática é o da indissociabilidade entre psiquismo e cultura, em que esta é concebida como experiência vivida, constitutiva daquele; psiquismo este que, por sua vez, se expressa a partir dos elementos da cultura.

Apesar da necessidade de estudos mais abrangentes e aprofundados para melhor compreendermos o sentido e alcance do empreendimento de Devereux, sobretudo estudos acerca dos fundamentos epistemológicos da etnopsicanálise, conforme já reivindicava Bastide (2015),a discussão preliminar aqui apresentada parece anunciadora da potencialidade inscrita na proposta de uma prática psicanalítica transcultural, ainda carente de estudos no Brasil.

Referências

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3“[...] la première théorie et le premier exemple concret de l’ utilisation de leviers culturels en psychothérapie”.

4Segundo Nathan (2013b), Devereux utilizava o termo etnopsiquiatria para designar o campo de pesquisa e intervenção clínica e etnopsicanálise para designar a metodologia, o complementarismo. Neste artigo, optamos por adotar o termo etnopsicanálise também para incluir o campo de pesquisa e de intervenção clínica, tal como nos escritos de Marie Rose Moro.

5“De Darwin tomé la hipótesis de que el hombre vivió originalmente en pequeñas hordas, cada una dominada brutalmente por un macho de cierta edad, que se apropriaba todas las hembras y castigaba o mataba a todos los machos jóvenes, incluso a sus propios hijos. De Atkinson procede la segunda parte de esta descripción: dicho sistema patriarcal tocó a sufinen una rebelión de los hijos, que se aliaron contra el padre, lo dominaron y devoraron su cuerpo en común. Siguiendo la teoría totémica de Robertson Smith, admmití que la horda paterna cedió luego el lugar al clan fraterno totemístico. Para poder vivir unidos en paz, los hermanos victoriosos renunciaron a las mujeres, a las mismas por las cuales habían muerto al padre, y aceptaron someterse a exogamia. [...] En lugar del padre se erigió a determinado animal como totem, aceptándolo como antecesor coletivo y como genio tutelar: nadie podia dañarlo o matarlo; pero una vez en el año toda comunidad masculina se reúnia en un banquete, en el que el totem, hasta entonces reverenciado, era despedaçado y comido en común”.

6“L'ethnopsychiatrie, nécessairement conçue comme Ethnopsychanalyse.Elle semble être la plus compréhensive des sciences de l'Homme, tant pures qu'appliquées. Reconnue ou non comme telle, son problème de base est celui qui sous-tend toutes les sciences de l'Homme : le rapport de complémentarité entre la compréhension de l'individu et celle de la société et de sa culture”.

7“Le complémentarismes’oppose au comparatisme dans la mesure où les logiques culturelles sont explorées entant que telles, eles servente de support aux associations et au matériel clinique. L’ outil anthropologi que permet de poser et d´explorer le cadre de la relation et de coconstruire avec le patient des sens culturels sur lesquels viendront s’arrimer des sens individuels”.

8“Il nous racontait qu’à l’issue d’une séance, où le patient avait été particulièrement angoissé, il luiproposait de bavarder un moment. Il n’était pas rare qu’il invite un patient à rester dîner ou qu’il l’accompagne un bout de chemin pour apaiser l’intensité des emotions déclenchées par la cure”.

9“[...] est beaucoup plus limitée que celle de l ‘ analyse classique du rêve. C’ est pourquoi, même si son efficacité thérapeutique est compréhensible en termes de théorie psychanalytique, il ne s’agit pas d’une psychanalyse ‘modifiée’ ou ‘abrégée’ -elle n’ est qu’ une psychothérapie d’ expression et soutien.”

Recebido: 24 de Julho de 2017; Aceito: 08 de Agosto de 2018

2E-mail: edomingues@uem.br

Eliane Domingues: professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UEM. Mestre e doutora em Psicologia Social, pela PUC-SP.

Hélio Honda: professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UEM. Doutor em Filosofia, pela Unicamp.

Juliana Gomes dos Reis: acadêmica do curso de Psicologia da UEM.

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