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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. Estud. vol.25  Maringá  2020  Epub Mar 16, 2020

https://doi.org/10.4025/psicolestud.v25i0.44987 

ARTIGO

“SE EU SOUBESSE, NÃO TERIA VINDO”: IMPLICAÇÕES E DESAFIOS DA ENTREVISTA QUALITATIVA1

“SI SUPIERA, NO ESTARÍA AQUÍ”: IMPLICACIONES Y DESAFÍOS DE LA ENTREVISTA CUALITATIVA

Luiza Sionek2  3 
http://orcid.org/0000-0002-3368-3384

Dafne Thaissa Mineguel Assis3 
http://orcid.org/0000-0002-0424-7671

Joanneliese de Lucas Freitas3 
http://orcid.org/0000-0002-0856-3460

3Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba-Pr, Brasil.


RESUMO

Por se tratar de uma técnica que privilegia a investigação do sentido, a entrevista é uma das ferramentas mais utilizadas em pesquisas qualitativas. Faz-se necessária, portanto, uma reflexão sobre seu uso. O objetivo deste artigo é discutir os desafios, para a equipe de pesquisa, na utilização da entrevista qualitativa e seus possíveis impactos à pessoa entrevistada. A análise, sustentada em trechos de entrevistas extraídos de diferentes projetos, debruçou-se sobre dois aspectos: 1. a relação entre pesquisadores e participantes; e 2. possíveis implicações para entrevistados. Discute-se que a entrevista se constitui no campo intersubjetivo pesquisador-participante, com variabilidades e influências contextuais, que estão para além da possibilidade de controle total sobre o processo, evidenciando o papel ativo de ambos no acontecimento da entrevista. A respeito das implicações, observa-se que a entrevista possibilita um momento oportuno para a expressão de experiências não reveladas em outros contextos e que, ao revisitar sua história, a percepção sobre ela e sobre si pode se alterar ao longo da narração. Estes aspectos fazem com que a entrevista seja momento de constituição de sentidos e não de mero relato, o que pode também implicar mobilização de afetos. Diante dessas questões, nota-se que a entrevista pode oferecer, concomitantemente, risco de sofrimento e possibilidade de ressignificação para os participantes. Concluímos que, tanto do ponto de vista ético quanto da viabilidade da pesquisa, é necessário para a condução da entrevista conhecimento teórico-metodológico, acolhimento e empatia, bem como disponibilidade e confiança por parte de quem narra sua história.

Palavras-chave: Pesquisa qualitativa; ética; entrevista

RESUMEN

Por tratarse de una técnica que privilegia la investigación del sentido, la entrevista es una de las herramientas más utilizadas en investigaciones cualitativas, configurándose necesario la reflexión sobre su uso como instrumento. El objetivo del presente artículo es discutir los desafíos para el investigador en la entrevista cualitativa y posibles impactos para el participante-entrevistado. El análisis, fundamentada en extractos de entrevistas retirados de diferentes proyectos, se centró en dos aspectos: 1. La relación entre investigador y participante y 2. Posibles implicaciones para el entrevistado. Se discute que la entrevista se constituye en el campo intersubjetivo investigador-investigado, con variabilidades e influencias contextuales que están más allá de la posibilidad de control total del investigador sobre el proceso, evidenciando el papel activo de ambos en el acontecimiento de la entrevista. Con respeto a las implicaciones, se observa que la entrevista es oportunidad de expresar experiencias no reveladas en otros contextos y que, al revisar su historia, la percepción del narrador sobre ella y sobre sí mismo puede cambiar. Estos aspectos hacen de la entrevista momento de constitución de sentidos y no mero relato, lo que puede también implicar en la movilización de afectos no elaborados. Ante estas cuestiones, se nota que la entrevista puede ofrecer concomitantemente riesgo de sufrimiento y posibilidad de resignificación para el participante. Concluimos que, tanto desde el punto de vista ético, como de la viabilidad de la investigación, es necesario al entrevistador no sólo el conocimiento teórico-metodológico, sino también acogida y empatía, y por parte del participante, disponibilidad y confianza.

Palabras clave: Investigación cualitativa; ética; entrevista

ABSTRACT

Since the interview is a technique that favors the investigation of meaning, it is one of the most used tools in qualitative research, requiring a study on its uses. This article aimed to discuss the challenges for the researcher in the use of the qualitative interview and possible implications for the interviewed. Our analysis, based on excerpts from interviews drawn from different research projects, focused on two aspects: 1. The relationship between researcher and participant, and 2. Possible implications for the interviewee. We argue that the researcher-participant intersubjective field constitutes the interview, with contextual variability and influences that preclude the possibility of complete control of the process by the investigator, conferring an active role to both interactors. Concerning the implications for the interviewee, we point out that the interview is an opportunity for the participant to reveal previously untold experiences, and that, by revisiting his/her history; the narrator may change his/her perspective about it and about him/herself. These aspects turn the interview into a moment of sensemaking and not a mere report, which may also imply the mobilization of unelaborated affections. Given these issues, we note that the interview may concomitantly present to the participant the risk of suffering as well as the possibility of making new understandings about their experiences. We conclude that from an ethical point of view, considering as well the viability of the research, the interviewer must display not only the required theoretical and methodological knowledge but also acceptance and empathy, whereas the participant must show availability and trust.

Keywords: Qualitative research; ethics; interview

Introdução

“É, eu achei que não me mobilizasse tanto [...]”. Esta frase, proferida por uma participante durante uma entrevista, catalisou as discussões já em curso em nosso grupo de pesquisa, sobre as relações entre pesquisador-participante e o manejo de uma investigação qualitativa no âmbito da psicologia e das ciências sociais. Tratando-se de um grupo que trabalha com pesquisa qualitativa fenomenológica na área da psicologia, o que frequentemente abarca temas significativos presentes ou passados na vida das pessoas, fez-se imprescindível refletir acerca do impacto de participar de uma entrevista. Embora a pesquisa qualitativa abrace uma série de perspectivas epistemológicas diferentes, a entrevista é, sem dúvida alguma, a técnica mais frequentemente utilizada em trabalhos qualitativos, contando com pequenas modificações em seus procedimentos (Brinkmann, 2013; Wolgemuth et al., 2015).

A entrevista tornou-se uma ferramenta amplamente utilizada no contexto das ciências humanas e sociais, pois é um método privilegiado para a investigação do sentido. A compreensão dos sentidos e significados dos fenômenos é o objetivo central das pesquisas qualitativas (Turato, 2005) que têm como fundamento epistemológico o reconhecimento da subjetividade e dos campos simbólicos e intersubjetivos (Minayo, 2017). Embora na pesquisa qualitativa sejam utilizadas distintas fontes e diversos tratamentos de dados, bem como variadas estratégias de coleta, há entre elas um intuito predominante: “[...] compreender o sentido ou a lógica interna que os sujeitos atribuem a suas ações, representações, sentimentos, opiniões e crenças” (Minayo & Guerriero, 2014, p. 1105). Desse modo, participar de uma entrevista qualitativa requer abertura às experiências vividas, potencialmente mobilizadoras de afetos, especialmente quando a temática da entrevista diz respeito a um conteúdo sensível (Alsaawi, 2014; Thompson & Chambers, 2012).

Brinkmann (2013) aponta que as pesquisas costumam demonstrar pouco interesse a respeito da função das entrevistas e sobre seu papel como prática social produtora de conhecimento. Apesar disso, a literatura especializada já tem se dedicado a refletir acerca da experiência de participar de uma entrevista qualitativa nas mais diversas áreas das ciências sociais, apontando riscos e benefícios dessa participação (Wolgemuth et al., 2015). Ademais, esse é um problema que envolve potencialmente questões éticas que são especialmente importantes na construção de um projeto, tal como previsto, inclusive, pela resolução nº 510, de 07 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que dispõe sobre as normas aplicáveis a pesquisas em ciências humanas e sociais. Segundo Wolgemuth et al. (2015), os riscos e os benefícios das entrevistas qualitativas não parecem estar associados a epistemologias ou a métodos específicos, mas à própria condução da entrevista qualitativa, seja ela semiestruturada ou não estruturada, apesar de os riscos nem sempre estarem claros às equipes de pesquisa.

A literatura acerca da pesquisa qualitativa compreende que os dados de uma entrevista são produzidos na relação intersubjetiva que se dá entre quem participa e quem investiga, de modo que aquele que conduz a entrevista possui papel fundamental neste processo (Andrade & Holanda, 2010; Minayo & Guerriero, 2014), não ocupando, portanto, uma posição de neutralidade, ou de mera observação do fenômeno a ser estudado. Nesse sentido, as entrevistas caracterizam-se por encontros sociais e subjetivos, em que o diálogo entre quem entrevista e quem é entrevistado é um momento peculiar no qual os sentidos das experiências e dos fenômenos em tela, paulatinamente vão sendo instituídos, abertos e investigados. À medida que alguém conta sua história, tem a possibilidade de revisitar momentos vividos, com suas alegrias, dificuldades e sentimentos, podendo perceber nuances sobre suas experiências que ainda não lhe estavam claras e que ganham novos contornos. É um momento em que pode, portanto, mobilizar afetos, engendrando vivências de ansiedade sobre as quais quem entrevista precisa estar atento e advertido (Peixoto & Freitas, 2016).

Assim como os entrevistadores, os entrevistados também possuem papel ativo na condução da entrevista, nem sempre claro aos primeiros, não apenas pelo fato de que responder à uma entrevista produz uma narrativa sobre o perguntado, mas pelo modo que os participantes conduzem a fala nesse processo, e por vezes, resistem a algumas questões e procedimentos (Kizlari & Fouseki, 2018). De fato, o estudo de Wolgemuth et al. (2015) aponta que participantes de entrevistas qualitativas as percebem como emocionalmente intensas, estressantes e, por vezes, dolorosas, mas também catárticas, produtoras de maior autopercepção e autoconfiança, além de frequentemente promoverem alívio e darem voz a populações desprivilegiadas.

Desse modo, este artigo tem por objetivo discutir os desafios para pesquisadores na utilização da entrevista qualitativa e possíveis impactos para os participantes, destacando aspectos positivos e negativos. Para tanto, serão tomados, como ponto de partida, trechos de entrevistas realizadas em diferentes projetos de uma mesma linha de pesquisa da qual as autoras são pesquisadoras.

Método

Embora este artigo tenha o objetivo de discutir problemas teórico-práticos que envolvem entrevistas qualitativas abertas e não se enquadre como um relato de pesquisa, utilizamo-nos de trechos de entrevistas de pesquisa para explicitar e sustentar nossas reflexões e argumentações. Os trechos de entrevistas utilizados para a discussão fazem parte do banco de dados do grupo de pesquisa “Laboratório de Psicopatologia Fundamental”, referente a diversos projetos da linha de pesquisa “O luto e suas interfaces”, e foram realizadas entre os anos 2012 e 2018. Deste modo, as entrevistas utilizadas fazem parte de pesquisas que investigam as vivências que emergem diante do luto. Todas foram conduzidas individualmente, partiram de uma pergunta disparadora, eram entrevistas abertas e não possuíam roteiro estruturado. Cada uma delas aconteceu em um único encontro, com duração aproximada de 01 hora, em sala reservada no Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Universidade Federal do Paraná e foi supervisionada por uma das autoras. Sabendo-se que a entrevista poderia gerar mobilização ou constrangimento aos participantes, foi esclarecido a eles que sua participação seria voluntária e que poderiam interrompê-la a qualquer momento, sem qualquer dano ou prejuízo. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Cada projeto possui aprovação em separado em comitê de ética4 e em todos foram tomadas as condutas éticas, conforme resoluções 466/2012 e 510/2016 do CNS.

Ressaltamos que, com a finalidade de minimizar potenciais riscos, o grupo de pesquisa oferece atendimentos em formato de plantão após a entrevista, com o objetivo de acolhimento, bem como eventual encaminhamento para atendimento no CPA. Este atendimento pode ser solicitado pelos entrevistados, mesmo alguns dias após a realização da entrevista. Além disso, temos por prática entrar em contato com eles, na semana seguinte após a entrevista, com o intuito de verificar como se encontra em relação aos conteúdos da entrevista e reforçar a disponibilidade para acolhimento, caso seja necessário. Mesmo quando oferecido, ninguém sentiu necessidade de encaminhamento.

As entrevistas aqui utilizadas foram selecionadas por mencionarem algum aspecto sobre a participação no processo de pesquisa. Ou seja, as entrevistas cujos extratos foram aqui utilizados não foram realizadas com o objetivo de compreender aspectos do uso dessa ferramenta e das implicações para os participantes entrevistados. Contudo, elas forneceram rico material que subsidiou e fomentou nossas discussões. Uma vez selecionadas as entrevistas, foram separados os trechos para análise que se referiam explicitamente ao processo da pesquisa. Em um primeiro momento, analisou-se o modo como a entrevista impactava as pessoas envolvidas e depois, foram agrupados os diferentes trechos a partir de suas similaridades. Finalmente, tais trechos foram reunidos qualitativamente conforme o conteúdo a que se referiam em dois grandes eixos, abordando as duas principais temáticas recorrentes: 1. a relevância da relação entre entrevistador e entrevistado e 2. os desconfortos, sentimentos, riscos e benefícios na participação em entrevistas qualitativas. Este último eixo, pela sua riqueza e complexidade, foi desmembrado em três subtemas, a saber: a. a entrevista como espaço de expressão; b. a entrevista como potencialmente mobilizadora de afetos; e c. a entrevista como abertura para novos significados.

Discussão

O primeiro eixo de análise, ‘Relação pesquisador-pesquisado’ procura refletir sobre essa relação e como alguns elementos que lhe são inerentes podem impactar na condução e nos resultados da entrevista. O segundo eixo, a saber, ‘Os desconfortos, sentimentos, riscos e benefícios na participação em entrevistas qualitativas’, como o próprio nome descreve, discute os afetos que podem emergir na entrevista qualitativa, bem como seus riscos e benefícios. Este eixo foi desmembrado em três subtemas que permitissem uma discussão que abrangesse diferentes aspectos envolvidos no entrevistar e as dimensões que se apresentam para além do resultado imediato a partir dos dados obtidos, mas que tangenciam os processos subjetivos e pessoais ali envolvidos, especialmente por parte dos entrevistados. Deste modo, discute-se a entrevista como a. espaço de expressão; b. potencialmente mobilizadora de afetos; e c. abertura para ressignificação das experiências ali relatadas.

Relação pesquisador-pesquisado

Em pesquisa qualitativa, seja em psicologia, ciências sociais ou na área da saúde, a reflexão sobre o encontro entre pesquisadores e participantes possibilitou novas compreensões sobre o contexto em que se desenvolvem as diferentes formas de produção do saber. A relação entre sujeito cognoscente e objeto a ser conhecido não pode ser mais entendida como sendo simplesmente entre um sujeito que busca conhecer e um objeto que se apresenta para quem conhece, uma vez que seu ‘objeto’ é um ‘sujeito’. Estabelece-se, pois, uma relação entre dois sujeitos, abrindo-se um campo intersubjetivo e socialmente delimitado. Este campo intersubjetivo enseja a configuração de um contexto propício para a emergência de afetos e de relatos sobre as experiências do cotidiano. Nesse sentido, a entrevista “[...] não é simplesmente um trabalho de coleta de dados, mas sempre uma ‘situação de interação’ na qual as informações dadas pelos sujeitos podem ser profundamente afetadas pela natureza de suas relações com o entrevistador” (Minayo, 2004, p. 114, grifo do autor). Entretanto, essa relação não se resume ao momento do encontro e à sua dinâmica própria, mas já começa a ser delimitada pelo modo de recrutamento, como é comunicado o tema da pesquisa, o que se passa antes de se iniciar a gravação e até mesmo algumas diferenças, tais como classe social, gênero, idade ou raça, que interferem e modificam essa relação e o resultado da entrevista e de sua análise (Alsaawi, 2014).

A formação e o preparo de entrevistadores também merecem atenção e certamente influenciarão no estabelecimento do rapport e na posterior condução da entrevista. Muitas vezes, apela-se para um roteiro altamente estruturado como uma tentativa de lidar com estes problemas. Entretanto, o roteiro serve apenas como guia, pois não há como produzir controle total sobre o momento da entrevista, nem tampouco sobre se o que é demandado ou perguntado será efetivamente relatado. Assim, não é possível prever todas as situações que podem emergir, uma vez que esta é uma prática que se constitui não apenas pelo planejamento, mas também se configura no desenrolar do encontro, seja ele face a face, via telefone ou videochamadas, se desvelando no campo intersubjetivo constituído entre entrevistadores e entrevistados (Minayo, 2004). Rosenblatt (1995) ressalta que devido a esse caráter de imprevisibilidade, é impossível alertar os participantes sobre todos os riscos de conceder uma entrevista, bem como garantir que os compreendam em sua totalidade, por mais que devam ser tomadas todas as precauções e esforços possíveis nessa direção.

Uma entrevista realizada sem o devido cuidado ético, sem sólida fundamentação teórico-filosófica, bem como a falta de habilidade do entrevistador, pode não somente enfraquecer a pesquisa e induzir resultados, como oferecer riscos e causar danos à pessoa entrevistada. Negar a possibilidade de eventuais riscos pode incorrer em negligência, pois até mesmo perguntas sobre estado civil, parentesco, idade e profissão, podem impactar os participantes a depender de sua história de vida. Ainda que sejam consideradas simples, tais questões podem gerar constrangimento e serem desagradáveis, como, por exemplo, em uma situação na qual a pessoa desconhece o nome da mãe ou do pai ou acabou de passar por um processo de divórcio (D’Espíndula & França, 2016). Ademais, temas não tão explícitos, tais como diferenças de gênero, de linguagem ou classe social, podem produzir impactos na narração que muitas vezes são negligenciados tanto na entrevista, quanto no momento da análise (Kizlari & Fouseki, 2018).

Na maioria dos casos, entrevistados e entrevistadores não se conhecem previamente, o que pode trazer dificuldades para os pesquisadores. A falta de confiança dos participantes nos entrevistadores, a falta de interesse pela pesquisa e o receio em abordar com alguém desconhecido temas íntimos, dolorosos ou que confrontem seus valores (González Rey, 2005), exige daquele que entrevista uma postura de acolhimento desde o momento do primeiro contato. É impossível, portanto, afirmar que a entrevista é isenta de riscos, independentemente do seu grau de estruturação. Por outro lado, os participantes não são passivos neste processo. Assim, é ingênuo não percebermos a possibilidade de surgirem resistências a certos procedimentos e perguntas como, por exemplo, evitar assinar o TCLE ou mesmo negar ou tergiversar em algumas respostas (Kizlari & Fouseki, 2018).

Percebe-se que entrevistadores e entrevistados possuem, portanto, papel crucial na condução da pesquisa, uma vez que a entrevista não se trata de mera coleta de dados, quando alguém simplesmente responde a consignas. Nesse sentido, é primordial que a equipe esteja bem alinhada com os objetivos da pesquisa, com o método utilizado, com a fundamentação teórica e que possua treinamento para condução da entrevista. Isso diz respeito tanto à habilidade dos entrevistadores de realizarem perguntas adequadas, que atinjam o objetivo proposto e que aprofundem o relato, quanto à habilidade de escuta, acolhimento e suporte que podem se fazer necessários durante a entrevista e, ainda, à possibilidade de analisar a entrevista não apenas a partir do explícito, entendendo que o participante também está presente e ‘dizendo’ algo sobre o tema pesquisado em seus silêncios, recusas e tergiversações. Esse cuidado no preparo da equipe é essencial para garantir tanto a viabilidade do estudo quanto uma condução ética e atenta aos riscos, bem como uma análise criteriosa e respeitosa.

Para exemplificar a dificuldade e a sutileza desta relação, apresentamos um exemplo que ocorreu em nosso grupo de pesquisa. Em duas pesquisas diferentes a respeito da vivência de luto por suicídio, foram realizados recrutamentos em um mesmo grupo de enlutados, nos quais uma mesma pessoa se disponibilizou a participar de ambas as pesquisas. Durante uma das entrevistas, a participante relatou que embora tenha se disponibilizado anteriormente, recusou-se a participar da primeira pesquisa, pois no contato telefônico realizado para marcar a entrevista, a pesquisadora utilizou o termo ‘suicida’ para se referir à sua filha, o que lhe desagradou profundamente. Posteriormente, participou da segunda pesquisa. Ao final, quando perguntada se gostaria de dizer mais alguma coisa sobre o tema do diálogo, revela:

[...] e a [pesquisadora] foi e falou isso [suicida] e eu falei: ‘me desculpe, mas na sua entrevista eu não quero falar, eu não consigo falar na tua entrevista’, eu não, não fui, sabe, porque ela me falou essa palavra. [...] A [pesquisadora] até ligou pra mim: ‘ah, eu tô fazendo um trabalho assim e assim, mas sobre pessoas suicidas’; ‘[pesquisadora], eu não tenho como falar, eu não tô bem, não vou, eu vou só atrapalhar o seu trabalho. Procure outras pessoas!’. Tá, por causa dessa palavra que dói lá no fundo, porque a gente como mãe não aceita.

Durante seu relato, a participante fez questão de explicar a sua primeira negativa, pois sabia que os entrevistadores pertenciam ao mesmo grupo de pesquisa. Ainda que a temática de ambas as pesquisas fosse semelhante (sua experiência de luto pelo suicídio de sua filha), o convite foi aceito por ela, no segundo contato, porque o pesquisador enfatizou seu interesse em saber sobre sua experiência de luto sem mencionar o suicídio, o que possibilitou à participante abertura e disponibilidade para participar. O entrevistador acolheu essa queixa e ofereceu atendimento e a possibilidade de conversar com a supervisora de pesquisa, também sua conhecida, o que foi recusado por ela. Este foi um dos acontecimentos que fomentou a escrita posterior deste trabalho.

Este episódio demonstra que o cuidado com a entrevistada perpassa todos os momentos do processo: desde o convite até a finalização da pesquisa. Demonstra também o fato de que o controle e o poder sobre a entrevista são partilhados entre as duas partes envolvidas. D’Espíndula e França (2016) assinalam que ao se conduzir uma entrevista, deve-se atentar à escolha do vocabulário e também aos elementos não verbais da comunicação, tais como sinais de preocupação e tensão ou de alívio e conforto. Acrescentamos que tal atenção deve estar presente desde o primeiro contato com possíveis participantes até o momento da análise. Desse modo, é necessário que o entrevistador desenvolva habilidade para lidar com as questões emocionais que possam emergir, com o significado social dos temas com os quais vai trabalhar, não apenas oferecendo uma atmosfera de acolhimento, segurança e compreensão, mas também abertura para compreender e analisar os diferentes modos como os entrevistados se engajam na entrevista, seja respondendo às perguntas, seja resistindo a elas.

A entrevista e seus impactos

Os impactos da entrevista podem ser variados. A fim de discutir tais possibilidades, este eixo foi dividido em três subtemas que emergiram durante as análises dos trechos de entrevista selecionados. Os três subtemas foram: a entrevista como espaço de expressão de sentidos para os entrevistados; como mobilizadora de afetos; e como abertura para a emergência de novos significados sobre suas experiências. A discussão deste eixo, portanto, será apresentada por meio desses subtemas.

Espaço de expressão

Sendo a entrevista um convite para que a entrevistada fale sobre um tema específico de sua história de vida, esta torna-se um espaço singular para a expressão de sentidos e para a construção de reflexões, ou mesmo para o simples compartilhar. A atmosfera criada pelo convite e pela disponibilidade de alguém treinado para ouvir seu relato, pode fazer com que a entrevistada se sinta à vontade para falar sem reservas sobre sua experiência. Em especial, em entrevistas que possuem temas considerados sensíveis ou tabus, como o luto; esse fato pode se tornar ainda mais evidente, como explicitou uma das entrevistadas ao falar sobre sua perda gestacional: “É bom falar, porque é meu filho… muitas pessoas não querem falar, mas ele é meu filho… ele é... é uma parte minha… é... enfim, é um pedacinho meu…”.

A literatura aponta que não é incomum que entrevistados afirmem que a entrevista lhes proporcionou uma oportunidade para contar situações sobre as quais nunca haviam falado com outras pessoas anteriormente (Copes, Hochstetler, & Brown, 2012; Rosenblatt, 1995; Wolgemuth et al., 2015). Uma de nossas entrevistadas deixou claro que se sentiu à vontade para falar de algo que tinha restrição para dizer a outras pessoas em outros contextos. Ao relatar sobre sua experiência de perda gestacional, pôde expor a raiva e a inveja que sentia de outras mulheres que tinham filhos, e até mesmo do seu animal de estimação que teve cria na época: “Eu acho que você é a primeira pessoa que eu falo isso... disso assim ‘até a porcaria da cadela teve filho e eu…’”.

Nesse sentido, compreendemos que é possível que a entrevista proporcione um espaço acolhedor e seguro que permita a expressão de aspectos da história dos entrevistados, bem como afetos que muitas vezes não têm possibilidades de serem expressos em outras relações. Por um lado, o convite para a entrevista, que pode ser compreendido como um ‘quero te escutar’, até a relação de confiança por outro, que pode vir a ser estabelecida durante a entrevista, por se encontrar assegurada pela garantia do sigilo, pode fazer com que a entrevistada se sinta escutada sem julgamentos e tenha sua experiência legitimada. Outra participante da pesquisa sobre perda gestacional relatou que pessoas do seu círculo social não compreendiam seu sofrimento e não validavam sua experiência. Ao final de sua entrevista, explicitou que se sentia bem ao relatar sua história para alguém que se mostrava interessada e que lhe permitia falar:

Eu falo que pra mim é um prazer falar... é um prazer poder contar a minha história, porque não é uma história feia. É triste? É... triste... mas quem sabe da minha tristeza alguém aprenda alguma coisa... Então, assim, eu não me sinto triste, mal, quando eu falo, pelo contrário, eu me sinto leve... é mais uma oportunidade de estar falando e eu gosto de falar pouco, né? [risos] Então pra mim é uma oportunidade ótima... sempre quando alguém abre espaço pra eu falar e deixa [ênfase] eu falar... dão atenção a isso... eu sinto que compreende o que eu tô falando, pra mim é ótimo, me sinto muito bem

Diferentemente de outros métodos de pesquisa, tais como questionários, na entrevista qualitativa há um contexto diferenciado para a expressão das experiências, uma vez que promove, além de um lugar de escuta, o aprofundamento do que é relatado. Uma de nossas entrevistadas afirmou que, comparado à sua participação em outras pesquisas que tinham o questionário como ferramenta de coleta de dados, falar sobre sua história e experiência de luto nesse tipo de entrevista foi bastante diferente:

Esse modelo de questionário não tem a mesma emoção do que falar pra alguém o que você sente assim. É bem [ênfase] diferente. Porque eu já respondi alguns [questionários] de luto online, assim, e: ‘Sim. Não. E blá-blá-blá’. Tipo, bem fácil, né? Porque você não... Não vive, você não experiencia tudo aquilo na sua cabeça e coração. Acho que isso é diferente mesmo, e é bem legal poder, é... sei lá, participar.

Enquanto o questionário apresenta questões fechadas com respostas pré-determinadas, as entrevistas semiestruturadas ou abertas possuem a especificidade de ser um diálogo que se constitui em um campo intersubjetivo, a partir de um tema focal. As perguntas vão sendo elaboradas à medida que os sentidos vão se revelando na fala, nos gestos, emoções e reações dos entrevistados, que vão paulatinamente sendo percebidos e significados pelos pesquisadores (Abrahams, 2017). As entrevistadoras têm, portanto, a função de acolher e facilitar a narrativa dos participantes por meio de questionamentos e até mesmo silêncios e gestos, que além de alinhavarem o tema da pesquisa com o que é narrado, emergem a partir do que a própria narrativa desperta. A entrevista pode se configurar, deste modo, como espaço de expressão singular, campo intersubjetivo que se constitui entre pesquisadores e participante, entre o que é falado e o que é escutado, entre o que se revela e o que se mantém velado, como fundo, onde quem entrevista acolhe o dito e o não dito, em busca do sentido daquele que é entrevistado sobre sua história. Destarte, a entrevista é considerada frequentemente como um lugar seguro para falar sobre emoções que muitas vezes estão contidas (Wolgemuth et al., 2015) e podem ser vistas como uma possibilidade de se expressar e ser escutado, além de oferecer uma oportunidade para ressignificação e autorreflexão. Por outro lado, revisitar a própria história e se permitir falar sobre sua experiência pode mobilizar afetos desagradáveis, intensos e imprevistos, o que abordamos no tópico a seguir.

Mobilização de afetos

A mobilização de afetos é um aspecto relevante na condução de entrevistas, mas nem sempre levada em conta na elaboração dos procedimentos e das perguntas, ou mesmo na análise, de modo que muitas entrevistas com intensa expressão de sentimentos podem ser vistas como malogradas. Em nossa experiência, percebemos que a mobilização de afetos com frequência é uma surpresa para participantes, mas não deveria sê-lo para entrevistadores, especialmente não iniciantes.

Em uma entrevista sobre perda gestacional, uma participante afirmou: “[...] é um episódio que... sério, eu guardei dentro daqueles três meses, tá voltando agora, assim, falando com você. Não, eu deixei... Não pensei mais no assunto mesmo!”. Essa frase foi dita logo no início da sua entrevista, sendo que antes de entrar na sala havia anunciado à entrevistadora que seu luto era um tema muito tranquilo e que esperava poder contribuir com a pesquisa. Porém, logo ao começar a contar sobre sua perda gestacional, surgiram sentimentos e reações emocionais que ela mesma não previra. Segundo seu relato, após nova gestação posterior à perda, não havia mais falado sobre o assunto. Demonstrou surpresa ao se encontrar tão sensibilizada: “[...] eu acho que agora ainda não sei... Eu nunca mais tinha falado disso [pausa]. E eu não sabia que me mobilizava tanto assim, mesmo. Pra mim, tava bem mais tranquilo”. A entrevista a sensibilizou de modo inesperado e é possível afirmar que houve um estranhamento seu, diante de suas próprias reações: “[...] eu fiquei assustada de ter me emocionado desse jeito, porque isso nunca mais tinha acontecido”.

Como discutido anteriormente, as entrevistas qualitativas possuem caráter imprevisível, tornando impossível antever todas as emoções e afetos que surgirão no momento em que se relata uma experiência passada ou presente, sendo, portanto, imprescindível que os entrevistadores estejam atentos aos entrevistados, provendo suporte tanto no momento da entrevista, quanto após a sua realização, salvaguardando uma conduta ética. Conforme D’Espíndula e França (2016), pesquisadores comumente minimizam a possibilidade de risco quando a pesquisa é qualitativa e se utiliza de entrevista. O que elas consideram um grave erro, uma vez que a própria resolução CNS nº 466 (2012, inciso V) afirma que “[...] toda pesquisa com seres humanos envolve risco em tipos e gradações variados”. Além disso, essa resolução caracteriza como risco a “[...] possibilidade de danos à dimensão física, psíquica, moral, intelectual, social, cultural ou espiritual do ser humano, em qualquer pesquisa e dela decorrente” (Resolução CNS nº 466, 2012, inciso II.22). Entendemos que em entrevistas qualitativas, em particular com temas sensíveis, a possibilidade de dano é expressiva e devem, portanto, serem tomadas as devidas precauções para minimizá-lo. (Re)viver esses sentimentos pode ser doloroso e angustiante, visto que é possível que essa experiência já esteja de alguma forma organizada e com significados sedimentados. Nesse sentido, a literatura indica o surgimento de dor emocional como potencialmente danoso (Copes et al., 2013) que pode implicar resistência a alguns tópicos ou a evitação de algumas perguntas ou mesmo em choro e desistência. A experiência de participação em uma entrevista pode ser interpretada como uma avaliação, ameaça, aborrecimento ou invasão de privacidade. Além disso, seria ingênuo pensar que a mobilização que emerge durante o relato não tenha para os participantes repercussões após a finalização da entrevista, de modo que é importante na pesquisa com certas temáticas ponderar um cenário complexo, tanto de possibilidade de reorganização dos próprios sentimentos quanto de existência de rede apoio.

Uma das participantes da pesquisa sobre perda gestacional relatou que após o nascimento do segundo filho guardava seus sentimentos relacionados à perda em uma ‘caixinha’, para que fosse possível dar continuidade à vida. Porém, ao participar da entrevista acabou por relembrar episódios dolorosos e manifestou ter ficado emocionada. Falar sobre seu luto e se permitir ser questionada, levou-a a entrar em contato com a experiência de perda anteriormente vivida e com sentimentos que estavam ‘guardados em uma caixinha’ [sic], isto é, já instituídos como história, como fundo, velados no todo da significação de sua perda. Ela evidencia que essa mobilização não se encerra na entrevista, repercutindo para além desse momento:

Entrevistadora: Então tá, e como é que você tá sentindo agora [em relação a compartilhar sobre a perda gestacional]?

Participante: Não, tá… assim, fechando a caixinha [riso]. Mas foi bom falar sobre isso também, né? Às vezes é bom você trabalhar isso também… vou sair mais emotiva, isso com certeza!

Outra entrevistada também deixou claro que entrar em contato com sua vivência foi bastante mobilizador. O trecho a seguir surgiu no momento em que a entrevistadora percebeu a sua emoção e perguntou o que a emocionava: “Ahh... Acho que a sensação, assim, de reviver tudo isso tão especificamente”. Na continuidade dessa fala, como forma de cuidado com a participante, a entrevistadora relembrou que ela poderia interromper a entrevista a qualquer momento caso desejasse, porém, sua resposta evidenciou que sua emoção era inerente à narrativa: “Não tem problema, é só emoção. E emoção tá aí né, não tem jeito [leve risada]”.

Nota-se que relatar uma experiência singular não é um ato banal.

Outro aspecto, que explicitou a entrevista como uma técnica que pode mobilizar afetos, foi a expressão em algumas entrevistas a respeito de como é difícil falar sobre experiências. Uma participante, ao contar sobre a perda de seu pai, declarou que se tivesse sido convidada para a entrevista alguns anos antes, provavelmente teria recusado.

Mas antes, assim, se fosse [há] alguns anos, talvez eu não tivesse aqui dando essa entrevista, porque talvez eu não conseguisse, sabe? Era bem difícil. Eu evitava, se as pessoas falavam sobre isso, tipo, eu, ‘ah, vou ali na cantina e já volto’, sabe?! Não quero escutar porque sei que não dou conta. Então, agora tá bem mais tranquilo, não que seja fácil [ênfase], mas tá mais tranquilo do que um dia já foi.

Na mesma perspectiva, outra participante considerou que caso soubesse que a perda ainda a sensibilizava, não teria aceitado o convite para participar: “É, eu achei que não me mobilizasse tanto... agora que eu tô trazendo pra assim, e hoje eu tô falando disso e tá mexendo. Eu... eu não esperava... talvez se eu esperasse eu num... não estaria aqui [voz tremida]”. Diante da surpresa ao se emocionar, a entrevistadora além de reforçar que poderiam encerrar a entrevista a qualquer momento, adotou uma postura acolhedora e reforçou o compromisso assumido no TCLE.

Estes fatos nos fazem refletir sobre a importância da preparação da equipe, como dito anteriormente. Entendemos que esta preparação vai além da entrevista a ser realizada, pois envolve o estudo sobre a entrevista como técnica, suas relações éticas, teóricas e epistemológicas com a perspectiva adotada e também sobre a sua utilização no contexto de pesquisas acadêmicas. Ainda, abarca o desenvolvimento de atitudes de acolhimento, abertura e cuidado ao longo da formação, precisando a equipe, portanto, estar preparada para lidar com as mais diversas situações. Assim, em concordância com D’Espíndula e França (2016), entendemos que algumas perguntas precisam ser feitas sobre o processo de elaboração de projetos de pesquisa qualitativa em especial e a condução dessas entrevistas: O que tem sido pensado de fato para minimizar os riscos em pesquisas com entrevistas? O quanto fica claro aos participantes que podem eventualmente experienciar desconforto e que a entrevista pode ser mobilizadora de afetos? O TCLE tem sido mero protocolo a ser cumprido? Vamos além e acrescentamos: O quanto as equipes se preparam para suas entrevistas? Como têm se preocupado em desenvolver suas habilidades em acolher o sofrimento humano? Há atenção às pessoas que participam das entrevistas, para além do conteúdo do relato?

Abertura para novos significados

A entrevista qualitativa permite - e por vezes provoca - que os participantes revisitem sua história e, por conseguinte, vivenciem sentimentos e elaborem reflexões. Ao relatar sua experiência, é possível que se deparem com aspectos que lhes estavam opacos e que são desvelados e percebidos ao longo da entrevista. Ou ainda, situações e significados que lhe eram conhecidos e que, no desdobramento da narrativa, são vistos desde outro prisma. Deparar com a própria vida ou com uma experiência significativa específica é uma oportunidade para ressignificações e tomada de novas perspectivas, novos sentidos.

Uma de nossas entrevistadas relatou que, ao ter a oportunidade de falar sobre suas várias perdas gestacionais e organizar seu discurso ao longo da entrevista, notou ao longo de sua narrativa que a laqueadura realizada depois de suas cinco gestações assumiu um sentido até então despercebido. Segundo ela, o procedimento de esterilização foi “[...] onde a cura [da dor] fechou o seu ciclo”. Ela disse: “[...] nunca tinha parado pra fazer essa reflexão, mas conversando aqui, agora... Não, realmente... é... a laqueadura foi o ponto final desse ciclo”.

Percebe-se, a partir desse trecho, que a entrevista deve ser pensada como um processo que tem abertura para novas significações falantes e prenhes de sentidos, constituídas na relação entre a atualidade daquilo que se abre no momento da narração e o já instituído, o já significado. A entrevista não é um momento de mera ‘coleta’, mas uma abertura para o desvelamento de significações. A história que se relata encontra ecos, fissuras e possibilidades de troca no encontro intersubjetivo com os pesquisadores, abrindo um novo campo de significação. A narrativa que se evidencia nesta situação conecta a pessoa entrevistada às suas memórias e à sua história, instituindo novas relações entre as experiências passadas e o seu lugar no presente, como podemos perceber na fala de um de nossos entrevistados em uma pesquisa sobre a perda dos pais durante a adolescência.

O que, o que eu fico emocionado [agora], é mais de lembrar das coisas que eu passei. Pra falar assim, vamos dizer, do que eu sinto hoje, é… num traz tristeza. É mais assim, saudade, mas a tristeza que dói eu não tenho. É mais lembrar desses momentos que doeram muito no passado.

Nessa mesma direção, ao responder no final de sua entrevista como estava se sentindo, outra participante esclarece que sua fala não é uma história que é contada a partir de fatos, mas uma história que se constitui na tensão entre o que foi vivido e os significados que se delineiam no momento da entrevista.

Mexe, mas é re-trabalhar de novo e guardar. É lógico que a hora que sair [da entrevista] tô do lado de fora da porta, a gente encontra o mundo real de novo, né… E volta a ser do nosso jeitinho, e volta ao normal. Mas agora no momento, aquela dorzinha… tá latente.

Como citado anteriormente, há o risco de mobilização emocional em uma entrevista qualitativa, especialmente quando se interroga sobre uma vivência delicada, tal como o luto, o que pode ser assustador e ameaçador, produzindo fugas e resistências que devem também, lembramos, ser analisadas. Por outro lado, nem sempre a mobilização é necessariamente indesejada ou algo a se evitar. A entrevista pode criar para os entrevistados situações que envolvem restrições, assim como possibilidades de novas significações. Compreendemos que ao recontar sua história, há a possibilidade de que novos sentidos sejam desvelados.

Narrar é imprimir um estilo ao próprio existir, abrir possibilidade de sentido entre o jogo do possível e do necessário dentro da sua história. A autocompreensão que a narrativa provoca ao narrador, junto com a capacidade de ressignificação e transformação que enseja, é semelhante ao que se pode alcançar com a clínica psicológica. Isto é, a narrativa propicia abertura para regiões inexploradas de si (Peixoto & Freitas, 2016, pp. 150-151).

Não queremos defender aqui que a clínica e a pesquisa se constituem como um mesmo trabalho, nem poderiam, mas que a instituição de procedimentos em uma entrevista não tem o poder de controlar totalmente o que se produz como significação, e que narrar uma história de si é transitar entre a inovação e a sedimentação do que se compreende sobre o que se fala e mesmo sobre si e sua história. Quando falamos de algo que nos concerne e ocupa, há sempre uma tomada de posição, explícita em maior ou menor grau. Quanto mais ameaçadora for a situação, maior a possibilidade de se recorrer a clichês, a sentidos cristalizados, ao que já está dito e repetido sobre si. O que de fato aponta para o caráter de abertura, que é uma entrevista, é a possibilidade de refletir sobre um tema que é significativo, seja um luto, uma vivência no trabalho ou a experiência de ter adoecido (Abrahams, 2017).

Em um dos trechos da pesquisa sobre perda gestacional, uma participante explicita a abertura que a entrevista pôde proporcionar. Ela afirmou que, no momento da entrevista, pôde compreender uma relação entre seu luto e a aproximação afetiva com sua irmã. Além disso, declarou estar surpresa com suas reações emocionais, afirmando não saber descrevê-las. Posteriormente, nomeou-as como ‘dor’.

Entrevistadora: Você falou que não sabia o quê?

Participante: Que doía. Assim, é... eu acho que sim. Porque isso que eu... tá se passando aqui... eu acho que é dor... aquilo que eu não sabia chamar, eu acho que é isso... [silêncio longo]

Não podemos afirmar com certeza sobre como foi para a entrevistada desvelar aspectos da sua experiência que lhe eram opacos até aquele momento. Compreendemos que existe o risco de que esse novo significado ‘dor’ tenha sido uma experiência angustiante. Por outro lado, é possível pensar que essa abertura para novas possibilidades de sentidos, em alguma medida produza mudanças importantes e até mesmo seja eventualmente terapêutica, tal como apontam os achados de Wolgemuth, et al. (2015) e de Rosenblatt (1995). Conforme esses estudos, é comum que os entrevistados elaborem reflexões sobre as próprias experiências de maneira espontânea durante a entrevista, que nomeiem e identifiquem sentimentos, o que muitas vezes resulta em uma sensação de catarse, ‘limpeza emocional’, de integração e cura.

Considerações finais

Neste artigo nos debruçamos sobre a entrevista qualitativa, a fim de refletir a respeito da utilização desta técnica, ressaltando as implicações para os participantes e os desafios para a equipe de pesquisa. Dois aspectos se mostraram como relevantes: o papel que a relação desempenha nesse contexto e a potência da própria entrevista como espaço de expressão, de mobilização de afetos e aberturas de novos significados. Uma vez que buscam apreender a experiência tal como significada pelos participantes, as entrevistas qualitativas possuem grande potencial para a mobilização de sentimentos e afetos, o que pode oferecer ao mesmo tempo riscos e possibilidades novas, para os participantes, de elaboração e percepção sobre o vivido e sobre si.

A respeito dos riscos no contexto da entrevista, alguns pontos precisam ser considerados. Como discutido, não é possível antever a reação de alguém ao relatar sua história. Por isso mesmo, é imprescindível que os entrevistadores, além de conhecerem a ferramenta que estão utilizando, desenvolvam a habilidade de acolhimento de um sofrimento eventual e busquem saber quais são os riscos possíveis de seu procedimento, explorando formas para minimizá-los. Defendemos este aspecto por entendê-lo como uma questão de ordem ética e não apenas epistemológica. Em nosso grupo, temos o costume de entrar em contato com os participantes algum tempo após a realização da entrevista. O contato é realizado em especial com aqueles que se mostraram mais sensíveis ao longo do processo, com o objetivo de verificar como a pessoa se encontra, suas emoções e considerações sobre ter partilhado temas tão importantes para si. Quando é percebido que ela se mostra ainda muito mobilizada pelo tema em função da entrevista, são oferecidos alguns atendimentos, como descrito, e até mesmo encaminhamentos para serviços específicos, caso seja necessário. Não queremos sugerir esta como uma única possibilidade para lidar com eventuais riscos, apenas exemplificar um modo possível de lidar com eles, mas que também pode ser falho. O que se destaca é o fato de que é imprescindível que os grupos de pesquisa não minimizem os efeitos de uma entrevista qualitativa na vida das pessoas, como se este fosse um procedimento neutro e sem repercussões.

Em relação às possibilidades que a participação em uma entrevista pode oferecer, notamos que ao relatar sua experiência e revisitar sua história de vida, há quem experimente uma nova forma de olhar para si e para o que foi vivido, possibilitando abertura para a instituição de novos sentidos e ressignificação daqueles sentidos sedimentados e já anteriormente constituídos para si em sua história. Ademais, a entrevista pode se tornar espaço de expressão de uma vivência que muitas vezes não encontra ecos em outros contextos.

Diante do exposto, ressaltamos que é preciso sensibilidade e responsabilidade ética na condução da entrevista, a fim de oferecer o suporte necessário. É fundamental que se leve em consideração desde questões mais simples, como disponibilidade de tempo e ambiente propício, até questões mais complexas como habilidade profissional e pessoal para lidar com o sofrimento alheio, embora saibamos que a avaliação dessa última seja difícil e controversa, e acabe ficando a cargo de cada grupo. A postura assumida é imprescindível para se conduzir uma entrevista, não somente do ponto de vista ético, mas também do ponto de vista da viabilidade da pesquisa, uma vez que a falta de rigor pode enviesar, conduzir ou mesmo impossibilitar a realização da pesquisa, além de oferecer riscos para os participantes. Uma boa entrevista se constitui para além de perguntas bem-feitas e respostas bem elaboradas ou que atendam ao desejo ou à ansiedade dos entrevistadores. Uma boa entrevista perpassa, antes de tudo, pela postura de acolhimento, atenção e cuidado para com quem participa, bem como pela sua disponibilidade, entrega e sensação de conforto. Desse modo, reiteramos que a entrevista se constitui como campo intersubjetivo, evidenciando participação ativa tanto dos pesquisadores, quanto dos entrevistados, enunciando não só o tema a ser estudado, mas também as instituições históricas particulares do que se narra, tanto quanto as instituições invisíveis que perpassam as relações entre ambos, tais como gênero e linguagem, por exemplo, que não foram aqui discutidos, mas merecem atenção de estudos posteriores.

Referências

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1Apoio e financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

4Número dos projetos aprovados pelo Comitê de Ética da UFPR/CAAE: 10891313.7.0000.0102; 56202316.0.0000.0102; 71548017.4.0000.0102

Recebido: 18 de Outubro de 2018; Aceito: 24 de Junho de 2019

2E-mail: luizasionek@gmail.com

Luiza Sionek: Mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Dafne Thaissa Mineguel Assis: Mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Joanneliese De Lucas Freitas: Professora do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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