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Tempo

Print version ISSN 1413-7704

Tempo vol.18 no.33 Niterói  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-77042012000200004 

DOSSIÊ
HISTÓRIA DO TRABALHO E DOS TRABALHOS: NOVAS ABORDAGENS

 

 

Mãos unidas, corações divididos. As sociedades italianas de socorro mútuo em São Paulo na Primeira República: sua formação, suas lutas, suas festas

 

Hands joined, hearts divided. The Italian mutual assistance societies in São Paulo during the First Republic: their training, their struggles, their festivals

 

Les mains jointes, les coeurs brisés. Les sociétés italiennes d'aide mutuelle à São Paulo au cours de la Première République: leur formation, leurs luttes, leurs festivals

 

 

Luigi Biondi

Departamento de História – Unifesp. E-mail: luigi.biondi@unifesp.br

 

 


RESUMO

Neste artigo, o autor desenha um panorama do mutualismo italiano em São Paulo durante a Primeira República, desde suas origens. É analisada a formação das sociedades italianas de socorro mútuo, assim como daquelas associações mútuas em que os imigrantes italianos constituíam sua parcela preponderante, suas ligações com a tradição associativa italiana das regiões de origens dos imigrantes, seus posicionamentos e divergências políticos, sua relação com o movimento operário e com o mundo do trabalho em geral, em seus aspectos organizativos de sociabilidades, lazer ou luta. Construtoras de uma identidade italiana multifacetada e caracterizada politicamente, essas associações contribuíram para, e foram também expressão de, uma identidade de classe em formação.

Palavras-chave: Socorro mútuo, associações étnicas, imigração italiana, movimento operário.


ABSTRACT

The author gives an overview of the Italian mutualism in São Paulo since its origins, during the Brazilian First Republic. He investigates the making of the Italian mutual-aid societies, so as the associations where Italian migrants composed the most part, the ties with the Italian associational tradition of the regions where they came from, its political attitudes and differences, its relationship with the working-class movement and with the world of labour, by its organizational characteristics of sociability, recreation or fight. Builder of a multiple and politically characterized Italian identity, these societies concurred in creating – and were also an expression of – the making of a working-class identity.

Keywords: Mutual-aid societies, ethnic societies, Italian migration, labour movement.


RÉSUMÉ

Dans cet article, l'auteur dresse un tableau de mutualisme italienne à São Paulo au cours de la Première République, de ses origines. Il analyse la formation des entreprises italiennes de l'assistance mutuelle, les associations mutuelles, ainsi que ceux dans lesquels les Italiens étaient son prépondérante, ses liens avec la tradition italienne des régions associatives d'origine des immigrés, leurs positions et les différences politiques, leur relation avec la mouvement syndical et le monde du travail en général, dans ses aspects organisationnels de la sociabilité, les loisirs ou la lutte. Construction d'une identité italienne de multiples facettes et caractérisé politique, ont contribué à ces associations, et étaient aussi l'expression d'une formation de l'identité de classe.

Mots-clés: Sociétés de secours mutuels, sociétés ethniques, migration italienne, mouvement ouvrier.


 

 

A formação de associações italianas de socorro mútuo no Brasil foi parte importante da experiência migratória dos milhares de italianos que se estabeleceram temporária ou definitivamente no País desde as últimas duas décadas do período imperial. Assim como na Itália recém-unificada (1861), também nos locais de imigração os italianos foram sujeitos ativos de processos agremiativos parecidos com os que estavam ocorrendo em suas regiões de origem antes e durante a emigração.

Sua localização urbana e regionalmente caracterizada nos leva a evidenciar que o mutualismo era praticamente desconhecido de grande parte da população italiana, os milhares de camponeses, que constituíram o grosso da massa emigratória, e até da maioria dos citadinos das regiões meridionais. Para muitos destes, o associativismo étnico e mais tarde sindical será uma experiência vivenciada somente nos países de imigração e quase exclusivamente nas cidades americanas, só raramente nas áreas rurais, com algumas poucas exceções.

Até o início da década de 1890, quando do surgimento, na Itália, dos sindicatos – associações dedicadas quase exclusivamente à luta de classes (essencialmente negociação de salários e horários de trabalho entre trabalhadores e empresários, usando a greve como a mais difusa forma de luta) –, as sociedades de ajuda mútua constituíam a principal forma de agregação e amparo dos trabalhadores, sobretudo urbanos, concentradas na assistência social dos sócios, uma vez que não existia assistência pública alguma em nenhum desses campos.

Desde aquela época de emergência desse fenômeno associativo até as décadas de 1920 e 1930, as funções e o funcionamento das sociedades de socorro mútuo, na Itália assim como nas comunidades de italianos no exterior, incluindo São Paulo, permaneceram fundamentalmente os mesmos. Os sócios contri­buíam por mês para receber em troca, fundamentalmente, assistência sanitária em casos de doença, que podia ser oferecida diretamente nas estruturas da sociedade, ou, com mais frequência, de forma indireta por subsídio pecuniário. Em caso de necessidade de remédios, os sócios recebiam diretamente os medicamentos quando havia uma farmácia dentro da própria associação ou a esta ligada, ou um reembolso, se precisavam adquirir os remédios no mercado. Usual, mas não presente em todas as associações, sobretudo nas do exterior, era o auxílio em dinheiro, parcialmente substitutivo do salário, dado ao sócio quando ele estava impedido de trabalhar (fosse por acidente, doença ou outros motivos). Menos frequente ainda era a presença de fundos de aposentadoria que permitissem aos sócios receber um auxílio financeiro mensal ou em cota única quando terminassem de trabalhar: somente as sociedades maiores ou as mais consolidadas conseguiam alcançar esse objetivo. Contudo, muito comuns eram os auxílios pecuniários (às vezes contínuos por um tempo) à família do sócio que faleceu, assim como o funeral era sempre por conta da sociedade. Em muitos casos, as mútuas ofereciam também serviços educativos e culturais, abrigando escolas primárias para os filhos dos sócios, às vezes profissionalizantes ou até de alfabetização de adultos.

Na Itália, desde a década de 1870, mais profundamente depois de 1885, começou a difundir-se também o uso de fundos dedicados a socorrer os sócios em greve, sendo essa, evidentemente, uma das situações em que o trabalhador associado estava "impossibilitado" de trabalhar e, portanto, de receber um salário regular. Mas essa função, sobretudo a partir da primeira década do século XX, gradualmente foi absorvida pelas ligas de ofício e sindicatos, muitas das quais surgiram do seio das sociedades de socorro mútuo ou com o auxílio destas.1

Esse aspecto foi muito polêmico entre as associações mutualistas de italianos no exterior, onde muito raramente essas agremiações se dedicaram a criar tais fundos específicos para a greve.

É importante ressaltar, todavia, que as sociedades de socorro mútuo desenvolviam uma função de sociabilidade e cultural muito intensa e aberta também aos não sócios, permitindo estruturar ou revelando, sobretudo no exterior, as redes das quais os membros das agremiações e suas famílias faziam parte. Redes fundamentais para a inserção no mercado de trabalho, assim como para a defesa e a conquista de direitos e para a solidariedade nos momentos mais conflituosos e nos processos de organização política e sindical.

As cotas de participação nessas sociedades não eram altas, mas também limitavam o acesso a sócios que tinham salários estáveis, e não foi rara a coexistência, pelo menos até a década de 1880, de trabalhadores assalariados, artesãos independentes e até empresários, mas esse interclassismo foi diminuindo até desaparecer quase por completo, embora os trabalhadores mais qualificados e autônomos tenham continuado a formar a maioria dos membros.

Durante a década de 1890, a típica associação mutualista na Itália já era, sobretudo, uma agremiação de trabalhadores fechada aos empresários e, além de suas funções de assistência aos sócios, auxiliava os sindicatos em formação, colaborava com os grupos políticos republicanos, socialistas e às vezes anarquistas e abrigava e organizava festas, encontros e reuniões de todo tipo, políticas, culturais de lazer e esportivas, voltadas também para os trabalhadores não associados das localidades ou bairros onde a associação atuava. No Norte da Itália já tinham aparecido, aliás, associações de socorro mútuo entre camponeses.

Havia algumas exceções, sobretudo no contexto das regiões do Sul da Itália, onde o interclassismo ou a prevalência de membros de classe média, comerciantes, empresários e profissionais liberais e de posições políticas monarquistas, liberais e geralmente antissocialistas e católicas não raramente caracterizaram as associações de socorro mútuo, diferentemente do que acontecia no centro e no Norte da Itália, onde era dominante a identidade operária, anticlerical, republicana e socialista dessas associações.

Esse perfil e essa dinâmica associativa se transferiram também entre as comunidades de italianos no exterior em formação, entre, aproximadamente 1870 e 1930, com as mesmas divisões, uniões, solidariedades e conflitos por motivos políticos, regionais e de classe.

Diversamente do que estava acontecendo na Itália, onde as associações de socorro mútuo eram fortemente ligadas ao mundo do trabalho, quase exclusivamente urbano, e organizadas por cidade, bairro ou ofício, nas coletividades de imigrantes a sociedade de socorro mútuo se fundava quase sempre na comum origem nacional. Ser italiano era o critério principal de agregação, frequentemente formulado nos estatutos, outras vezes constituindo uma regra tácita. A esse critério nacional podiam ser acrescentados outros, que acabavam definindo melhor que tipo de associação aqueles imigrantes italianos estavam formando, se era aberta a todos os italianos independentemente de sua origem regional, se era limitada aos italianos residentes naquela cidade ou em determinados bairros, quando se tratava de grandes cidades, e assim vai, até chegar a limites mais estreitos, como a estruturação por ofício e por província ou cidade italiana de origem. Nascia, assim, o conceito de Sociedade Italiana de Mútuo Socorro (Società Italiana di Mutuo Soccorso, SIMS), título geralmente acompanhado por outro que a definia melhor ou a diferenciava de outras congêneres, nos centros urbanos de certo porte.

Essa característica étnica do associativismo dos imigrantes evidenciava, então, que a comum origem nacional era um aspecto identitário não desprezível, embora seja claro que também a identidade nacional estava em constante construção e transformação, quanto mais para os italianos, população que na época da grande emigração fazia parte de um mesmo Estado-nação há poucas décadas. Contudo, é necessário enfatizar que, se a nacionalidade aparecia como um agregador importante no exterior, ela era atravessada por leituras e interpretações diferentes e conflituosas, assim como foi problemático política, cultural e socialmente o próprio processo de unificação da Itália. Redes parentais, de vilarejo, regionais, ao lado de convivências e solidariedades de classe e políticas, sobrepunham-se e entrelaçavam-se na definição de cada associação patrícia.

No Brasil, e particularmente em São Paulo, essa específica experiência organizativa que foi a sociedade mutualista entre os imigrantes teve, então, as mesmas características duais, étnicas e de classe: às vezes misturadas, isto é, reunidas mais ou menos ambiguamente em uma relação abertamente conflituosa no seio de cada associação, outras vezes separadas, afirmando-se uma em detrimento da outra. Assim, da mesma forma que entre os italianos da Argentina e dos Estados Unidos, as associações mutualistas de imigrantes eram fundamentalmente baseadas na comum origem nacional (fechadas, portanto, a membros de outras nacionalidades), e não poucas vezes divididas regionalmente. O elemento "operário", como definidor dessas agremiações, era complementar e significado, em primeiro lugar, a partir da autodefinição étnica, ou seu espetro semântico era alargado a compreender também pequenos e médios empresários e comerciantes.2

O elemento étnico podia funcionar em diversos casos somente como um agregador "subterrâneo", quando as bases das sociedades giravam em torno da identidade de classe. Nesses casos, apesar de os nomes das sociedades apontarem para o internacionalismo e abrirem a filiação para sócios de diversas nacionalidades, desde que pertencessem ao mesmo ofício ou residissem no mesmo bairro popular, na prática eram formadas por membros que compartilhavam das mesmas redes de imigrantes italianos, tornando-as sociedades étnicas tanto quanto as outras que explicitavam essa característica em seus nomes. É o caso, em São Paulo, de associações como a Sociedade Cosmopolita dos Chapeleiros, localizada no Ipiranga, ou como a Società Operaia di Mutuo Soccorso de Água Branca: ambas, como muitas outras desse tipo, utilizavam quase somente seu nome em italiano, e o bilinguismo, se é que existia na prática, na verdade se limitava a um ou outro documento oficial produzido pela sociedade e ao nome. Apesar do cosmopolitismo anunciado em seu nome e de ser formada por socialistas que faziam do internacionalismo uma de suas identidades características, a sociedade dos chapeleiros era, na prática, fechada a outros trabalhadores imigrantes.3

Houve também o caso, em São Paulo, de sociedades de ofício que não somente eram na prática reduzidas aos italianos que as frequentavam, mas declaravam sua etnicidade no nome (registrado em cartório e usado em língua italiana). De forma semelhante, havia associações de bairro, teoricamente abertas, que, porém, eram formadas quase exclusivamente por imigrantes que desenvolviam o mesmo ofício, como a associação da Ponte Grande, onde se concentravam os toscanos (de Viareggio) que tiravam e transportavam areia do Tietê.

Enfim, a etnicidade das associações de socorro mútuo era complexa e multifacetada e se cruzava com outras identidades e bases organizativas. Nossa opinião é a de que, todavia, ao longo das três primeiras décadas da Primeira República, essas associações foram redefinindo sua identidade étnica, fosse italiana tout court ou italiana de tipo regional.

 

Um panorama geral do processo de organização das sociedades italianas na cidade de São Paulo

Concentrando nossa análise nas sociedades surgidas na cidade de São Paulo e deixando de lado, por ora, as agremiações cosmopolitas de ofício, no período entre o nascimento da primeira sociedade italiana e a década de 1920, temos as seguintes associações de socorro mútuo: Società Italiana di Beneficenza (1878); SIMS Vittorio Emanuele II (1879); SIMS Militi Italiani (1886); Unione Meridionale Italiana (1887); Unione Veneta San Marco (1888); SIMS Leale Oberdan (1889); SIMS Lega Lombarda (1897); SIMS Ausonia (1897); SIMS Campania (1897); SIMS Calabresi Uniti "Tommaso Campanella" (1897); SIMS Trinacria (1897); Società Democratica Toscana di Mutuo Soccorso "Galileo Galilei" (1898); Società Operaia di Mutuo Soccorso, Istruttiva e Ricreativa "Ettore Fieramosca" (1898); Fratellanza Italiana del Cambucy (1898); Società Operaia di Mutua Assistenza (1899); Società Operaia Italiana di Mutuo Soccorso e Cooperativa (1899); Società Italiana di Beneficenza e Rimpatrio (1899); SIMS Vittorio Emanuele III (1900); Operaia "Umberto I" (1900); SIMS Unione della Mooca (1902); Società Italiana Unione del Bom Retiro (1904); Società Italiana di MS (1904); Società "Italia" di MS (1905); Unione Operaia di MS della Barra Funda (1905); Unione Operaia del Ponte Grande (1905); Unione Operaia "Civiltà e Progresso" (1905); Società Operaia di MS di Água Branca (1909), posteriormente chamada de Sociedade Ítalo-Brasileira de Mutuo Socorro; Società Unione Viaggiatori Italiani (1911); Società Italiana della Mooca (1918); Società "Italia" de Bela Vista (1913); Società di Mútuo Soccorso del Cambucy (1922); SIMS Gabriele d'Annunzio (1923); Società di MS Colonia di Polignano a Mare-Bari (1923); Operaia Fuscaldese (1924); Unione della Mooca (1925); União Fraterna de Água Branca (1925).

Podemos logo observar que, até 1886, havia somente duas sociedades italianas. Foi durante a década de 1890, por ocasião do incrível aumento da imigração italiana em São Paulo, que o número dessas sociedades chegou a 17 agremiações. Das associações fundadas até o final do século XIX, só permaneciam ativas, em 1906:4 Santo Amaro, S. Bernardo e São Caetano; Ettore Fieramosca; Galileo Galilei; Leale Oberdan; Lega Lombarda; Militi Italiani; Società Italiana di Beneficenza – Ospedale Italiano "Umberto I"; Vittorio Emanuele II; Unione Meridionale. Em 1908, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Reino da Itália, dessas sociedades, somente a Unione Meridionale tinha deixado de existir.5

De fato, o grupo dessas 11 sociedades restantes constituiu o núcleo do associacionismo italiano em São Paulo, e todas ultrapassaram o ano 1920, com exceção da Militi Italiani, cuja vida foi bastante turbulenta: fundada em 1886, ainda existia em 1900, mas foi refundada em 1905 e durou até 1917, quando se fundiu com o Gruppo Reduci Patrie Battaglie.6

O processo de formação das sociedades mútuas, comparado com o que ocorria na Itália, não parece ter sido muito diferente, se pensamos que também no reino da Itália 25% das sociedades de socorro mútuo registradas em 1894 já não existiam mais em 1904, o que denotava uma dificuldade de existência das mútuas no momento em que o movimento sindical começava a se organizar localmente nas Câmaras do Trabalho (Camere del Lavoro) e nas ligas de ofício.7 De um ponto de vista geral, as sociedades mutualistas na Itália aumentaram até 1904 (com um enorme crescimento na década de 1880), mas entre 1894 e 1904 o número de seus sócios diminuiu.8

Depois de 1900, nota-se em São Paulo o surgimento de novas sociedades com características diferentes das que as precederam. Com o desaparecimento de muitas pequenas sociedades baseadas na origem regional de seus membros, novas SIMS foram fundadas entre seus ex-membros, e, ao mesmo tempo, difundiram-se as sociedades italianas de bairro, acompanhando, desse modo, o contínuo crescimento da cidade de São Paulo e sua expansão em direção aos bairros periféricos de instalação industrial ou ferroviária e às várzeas. O período de vida das mútuas de imigrantes italianos que surgem ao longo das primeiras décadas do século XX foi o que aparece no quadro a seguir:

 

 

Em termos gerais, podemos dizer que, entre 1896 e 1920, funcionaram pelo menos 15 associações de socorro mútuo italianas contemporaneamente (o auge foi alcançado em 1899-1900, com 20 associações).

As duas primeiras sociedades, a Società Italiana di BeneficenzaSIB (criadora do Hospital Italiano Umberto I em 1904 e que foi sempre a maior sociedade italiana de São Paulo) e a SIMS Vittorio Emanuele II, fundadas respectivamente em 1878 e 1879, constituíram dois projetos agremiativos abrangentes que, porém, foram sucessivamente acompanhados, durante a Primeira República, por uma miríade de associações que refletiam, após a imigração de massa, a tendência da comunidade ítalo-paulistana à fragmentação.

Em particular, a Vittorio Emanuele II constituiu o modelo de sociedade para todas as outras SIMS que surgiram no estado de São Paulo a partir de 1886, chegando, em alguns períodos, a abrigar, em seus salões, também as reuniões de outras sociedades mútuas, em nome de uma pretensa neutralidade política e regional e de uma identidade nacional constantemente afirmada. Por exemplo, durante a Primeira Guerra Mundial, inaugurou uma nova bandeira social, idêntica à do reino da Itália, com a participação da banda do XI Regimento dos Bersaglieri (os fuzileiros italianos) e com a presença do cônsul Angiolo Dall'Aste Brandolini,9 mas ao mesmo tempo adiou a festa de 38º aniversário de sua fundação, em 1917, em solidariedade ao movimento grevista de julho daquele ano,10 e por diversos anos abrigou em seu prédio a sede da sociedade operária Civiltà e Progresso, em cuja diretoria muitos eram os membros socialistas.

 

A diversificação associativa regionalista na época da grande imigração

A partir de 1886, novas sociedades surgiram, caracterizando uma segunda fase, que vai até 1896-1897, durante a qual o aumento da imigração italiana permitiu que o processo de formação das mútuas italianas em São Paulo se diversificasse, com a fundação de sociedades específicas por tendência política, por proveniência regional e por ofício.

Duas importantes sociedades, cuja vida foi bastante longa, também foram fundadas nesse período: a Leale Oberdan e a Unione Veneta San Marco, que foi a primeira mútua a nascer segundo um caráter regional, uma vez que os imigrantes italianos provenientes dessa região foram, durante as décadas de 1880 e 1890, a maioria dos italianos que se transferiram para o Brasil.11 Também a Leale Oberdan provavelmente tinha de início uma base regional entre os imigrantes do nordeste da Itália e fazia afirmação explícita de nacionalismo, pois era dedicada a Guglielmo Oberdan, nacionalista italiano de Trieste, súdito do Império austro-húngaro, morto pela polícia austríaca em 1882.12 Essa sociedade foi a SIMS com a vida mais longa e a que, com exclusão da SIB, teve o maior número de sócios: o número de seus associados foi aumentando ao longo das duas primeiras décadas do século XX, passando de 104, em 1904,13 para 1.060, em 1914.14 O maior crescimento foi depois de 1907, quando ainda tinha 260 sócios, passando para 403 em 1908 e para 759 em 1911.15

No final da década de 1880, surgiu a única sociedade de italianos do Sul até então, a Unione Meridionale Italiana, que desde seu nascimento juntava o socorro mútuo e a beneficência. Esta, de fato, não tinha como objetivo somente a assistência médica a partir das contribuições dos sócios, mas também o de ajudar, com todos os meios possíveis, as outras instituições italianas de beneficência.16 Em 1905, mudou de nome, passando a se chamar Società "Italia" di Mutuo ­Soccorso, em uma tentativa de abrir-se a sócios de diferentes proveniências regionais: essa decisão provocou provavelmente certo conflito interno, com a perda de mais de 100 sócios.17

Uma verdadeira explosão de sociedades italianas aconteceu entre 1896 e 1899, em particular em 1897, quando foram fundadas seis novas sociedades. Nessa nova fase do associacionismo italiano em São Paulo, cabe observar que isso foi causado sobretudo pela entrada de agremiações que tinham uma caracterização regional muito marcada, principalmente de regiões até aquele momento pouco presentes no panorama imigratório italiano para o Brasil. Claramente, o aumento da imigração italiana para São Paulo trouxe uma maior diversificação ao longo dos anos 1890, com, inclusive, um aumento considerável da presença de italianos provenientes do Sul nos próprios centros urbanos. Isso caracterizou a inserção dos imigrantes italianos no estado, no sentido de uma dicotomia geográfica marcante, pela qual a presença de italianos do Norte era particularmente concentrada nas áreas rurais ou nos centros urbanos do interior, enquanto a de italianos do Sul (os meridionali), na cidade de São Paulo, tendo, durante a primeira década do século XX, ultrapassado a de seus compatriotas setentrionais na capital estadual.

O grupo de sociedades de italianos do Sul compunha-se da SIMS Campania (que unia os italianos provenientes das cinco províncias dessa região, cuja capital é Nápoles), da Calabresi Uniti Tommaso Campanella (que unia os italianos provenientes da região da Calábria) e da Trinacria (dos sicilianos). Infelizmente, a SIMS Ettore Fieramosca era formada por italianos provenientes da região de Puglia, grupo regional de imigrantes consistente na capital a partir dos últimos anos da década de 1890.18 Também fundada por meridionais, ainda que aberta a todos os italianos, foi a SIMS Ausonia.19

Ainda que reduzido, o fenômeno mutualista do Sul da Itália estava concentrado justamente nas cidades grandes e médias das quais provinham. Podemos apresentar como exemplo, o caso dos Rossanesi (os habitantes que vinham de Rossano Calabro, na província de Cosenza; mas o raciocínio vale também para os calabreses da província cosentina como um todo). Essa cidade de poucos milhares de habitantes, cujos emigrantes que se dirigiam predominantemente para o Brasil instalaram-se no bairro da Bela Vista, tinha uma sociedade mutualista já em 1878 (a Società Operaia di Rossano). Na província de Cosenza, da qual provinha a quase totalidade dos calabreses que se transferiram para São Paulo, havia sociedades operárias de socorro mútuo em outros 39 centros em 1885.20

A fundação de SIMS de imigrantes do Sul da Itália foi acompanhado pelo nascimento de outras duas agremiações regionais que estarão entre as mais importantes mútuas em São Paulo, ao longo das décadas sucessivas: a Galileo Galilei e a Lega Lombarda.

A Galilei nasceu como sociedade de toscanos, que constituíam, entre os artesãos e os operários especializados de São Paulo, um núcleo já muito consistente na última década do século XIX. A Lega Lombarda nasceu, obviamente, entre lombardos, cidadãos provenientes de todas as províncias da Lombardia, cuja capital é Milão, e que constituíam 9,2% dos imigrantes italianos entrados no Brasil entre 1878 e 1902 (cerca de 90 mil indivíduos).21 Todavia, a sociedade não estava limitada à cidade de São Paulo e nem ao estado homônimo, mas era, teoricamente, aberta a todos os lombardos residentes no Brasil.22

Mas todas essas associações eram de fato regionais? Ao longo do tempo, elas foram perdendo suas características localistas, como demonstram tanto os estatutos, que foram sendo reformulados, quanto a presença de membros das diretorias provenientes de quase todas as regiões italianas, ainda que, provavelmente, o núcleo inicial dos sócios fundadores continuasse dirigindo a sociedade. No caso das mútuas do Sul, é preciso reafirmar que elas tiveram uma vida muito curta (com exceção da Ettore Fieramosca).

A Galilei, por exemplo, já em 1898 não usava mais o nome Società Democratica Toscana, mas somente Società Democratica, e nunca mais retomou o antigo;23 e, já em 1903, apresenta, entre seus diretores, o meridional Gaetano Pepe, que era originário da província de Salerno, e Alfonso Splendore, calabrês.24

Também a Lega Lombarda, ainda que conservasse como bandeira social, em 1910, a bandeira italiana com os emblemas das capitais da província da Lombardia, declarava, em seus estatutos, que podiam ser sócios todos os italianos imigrados no Brasil, excluindo somente os naturalizados.25 A Leale Oberdan, em 1914, contava com alguns diretores cujos sobrenomes eram, sem dúvida alguma, do Sul da Itália, como Onofrio, Di Pietro e De Gennaro.26

 

A expansão das SIMS de São Paulo nos bairros: o mutualismo dos operários especializados e dos artesãos no início do século XX

A partir de 1900, o panorama mutualista ítalo-paulistano modificou-se ainda mais: novas foram fundadas com base nos bairros, especificamente no Bom Retiro, na Mooca, na Barra Funda, no Cambuci (esta última, na verdade, surgiu antes de 1900), na Água Branca, na Ponte Grande e na Bela Vista. Também de bairro pode ser considerada a Sociedade Cosmopolita dos Chapeleiros, no Ipiranga. De todas essas sociedades, a da Penha (Vittorio Emanuele III) foi, depois de algum tempo, absorvida pela Vittorio Emanuele II, e a do Bom Retiro (Unione Italiana) associou-se à Sociedade Cooperativa Beneficente Paulista, que adquiriu sua sede. A sociedade Unione Operaia Ponte Grande dissolveu-se em 1911 por dificuldades financeiras.27 A Fratellanza Italiana, do Cambuci, deixou de existir sobretudo por causas políticas.

Esse desenvolvimento "bairrista" do mutualismo italiano estava associado, evidentemente, ao crescimento da cidade e ao fato de os bairros populares (e especificamente operários) terem uma população em sua grande maioria de origem italiana.

Todavia, notamos que as mútuas italianas não se difundiram no Brás; e na Mooca elas têm uma vida muito curta, pois a Unione desse bairro desaparece em 1904 e uma nova SIMS aparece ali somente em 1918. Uma sociedade Operaia Italiana Unione della Mooca ressurgirá ainda mais tarde, em 1925. A SIMS da Mooca, que nasceu em 1918, foi fundada, na verdade, por industriais e comerciantes italianos do bairro, mas era aberta também aos operários e aos brasileiros, e nasceu como sociedade recreativa e instrutiva, com o fim de criar, quando as condições assim o permitissem, uma seção de previdência e de cooperação.28

Considerando, no caso da Società Operaia Unione della Mooca, também a particularidade semântica do uso da palavra "operário" na época, a ausência de sociedades italianas nos dois principais bairros operários de São Paulo reforça a tese de que o mutualismo italiano era uma expressão auto-organizativa de artesãos e operários especializados e de pequenos industriais e comerciantes, ainda que isso não tenha significado uma ausência de relações com os operários italianos, presentes em grandíssimo número na Mooca e no Brás. A pequena sociedade Vittorio Emanuele III, da Penha, colocou seu interclassismo também no artigo 1º dos estatutos, declarando que era uma "corporação" formada por proprietários, comerciantes, operários e trabalhadores, identificando os operários, portanto, com os donos de suas oficinas.29

No caso do Brás, por exemplo, vários eram os italianos que eram sócios da Sociedade Beneficente União Internacional do Brás, fundada em maio de 1901, que ainda existia nos anos 1920. Mas, em geral, pode-se dizer que esta também – que associava em média, entre 1903 e 1906, 155 sócios e, em 1918, contava com somente 52 associados – não podia ser considerada uma associação mutualista na qual encontravam amparo as centenas de famílias de operários do Brás, considerando também que uma nova sociedade nesse bairro surgiu somente em 1911.

Ao contrário, os bairros periféricos da capital, que concentravam alguns estabelecimentos de médias dimensões, mas, sobretudo, pequenas e médias oficinas (com exceção da Lapa e da Água Branca, onde havia os depósitos da São Paulo Railway e a Fábrica de Vidros Santa Marina, mas cujos empregados tinham suas próprias mútuas), concentravam muitos artesãos e operários especializados de origem italiana cujas condições econômicas lhes permitiam a participação constante em mútuas.

O caso da sociedade da Barra Funda é também emblemático: sociedade de bairro sólida, financiou, durante a greve geral de 1907, a Federação Operária de São Paulo, que coordenava o movimento paredista.30 Sucessivamente, chegou a ter entre seus diretores o comerciante Ercole Cilento, calabrês, o industrial Antonio Bardella, o empreiteiro de obras Giulio Zaveri, mas continuou ostentando o nome Operária, que eliminou somente nos anos 1920.31 Igualmente, a Galileo Galilei, reduto de republicanos e socialistas do Círculo Socialista Internacional, contava, em seu conselho diretor de 1903, com o engenheiro Emidio Falchi e, no de 1912, com a presença de Pietro Morganti, na época já com alguns estabelecimentos de produção alimentar e dono da usina Monte Alegre, em Piracicaba.32

Contudo, em seus estatutos, nenhuma SIMS limitava o acesso de trabalhadores menos qualificados. Os estatutos da Lega Lombarda, por exemplo, mostram que a admissão de operários sem qualificação era uma norma, pois seu estatuto dizia explicitamente que o sócio podia votar mesmo que fosse analfabeto.33

Claramente, os salários de muitas famílias operárias não permitiam que muitos se associassem, mas se pensarmos no salário médio diário de um operário têxtil de 1912 (4$500), este, ainda considerando o fato de que o orçamento de uma família operária era, no fim do mês, sempre à beira do vermelho, não os impedia de pagar as mensalidades de uma sociedade de socorro mútuo, que giravam sempre em torno dos 2$000. Talvez tenha sido mais importante a influência de uma mobilidade espacial dos operários menos especializados e dos pedreiros, ainda pouco estudada, na verdade, associada aos períodos crônicos de desemprego na indústria paulista. Além disso, os sindicatos, que também funcionavam com cotas mensais do mesmo valor (a Fosp cobrava mil réis em 1907), concentravam as participações da maioria dos operários que tinham possibilidade de pagar mensalidades com constância.

Do ponto de vista da assistência fornecida, as mútuas de bairro não se distinguiam praticamente das outras: o único enfoque era que sua assistência deveria ser voltada para os residentes no bairro onde a sociedade residia, mas isso também era bastante aleatório. Claramente, a maior parte dos sócios era do bairro onde a sociedade tinha sido fundada, mas não havia nada nos estatutos que indicasse que a assistência médica ou que as condições para associar-se fossem exclusivas dos sócios residentes no bairro.

O artigo 2º dos estatutos da Unione Operaia da Barra Funda, por exemplo, que surgiu a partir de uma associação recreativa de operários italianos do mesmo bairro,34 afirmava que a sociedade desenvolvia sua ação na cidade de São Paulo, sem especificar o bairro.35 É provável também que fosse subentendido que podiam participar somente sócios residentes no bairro, pois, por exemplo, não era também especificado que os sócios devessem ser italianos, mas não há nenhuma diretoria dessa sociedade – e isso até os anos 1940 – em que apareça um não italiano, nem entre os conselheiros.

 

Solidariedade, trabalho e política: a afirmação da Itália republicana e socialista em São Paulo

Considerados o processo formativo, o funcionamento e o tipo de enraizamento das sociedades italianas de São Paulo, resulta um quadro geral do associativismo ítalo-paulistano bastante fragmentado e aparentemente frágil. Trata-se de ver, então, de que forma e em quais momentos essas relações se estabeleceram, quando eram mais conflituosas do que convergentes e por quê, quais os significados, explicitações e apropriações das identidades nacionais, étnicas e de classe.

Em São Paulo, como em Buenos Aires,36 o mutualismo não foi a base principal da qual surgiram os sindicatos (como ocorreu mais frequentemente na Europa), mas algumas ligas de resistência nasceram, sim, como desenvolvimento do socorro mútuo, inclusive étnico, e não poucas vezes as associações abrigaram reuniões, eventos, festas e sedes de sindicatos ou de trabalhadores organizados.

Mais, então, do que ressaltar a baixa adesão dos trabalhadores italianos em São Paulo a esse tipo de associações, queremos mostrar aqui que elas tiveram um espaço próprio dentro do mundo do trabalho, que não deve ser avaliado tanto em termos da penetração ou alcance de suas práticas assistenciais, mas sobretudo no âmbito da constituição e operacionalização de redes de militâncias e de sociabilidade dos trabalhadores. Ainda que muitos imigrantes não pudessem ou não quisessem se associar a sociedades mútuas, não raramente participavam das atividades que elas organizavam também para os não associados, assim como elegiam, para cargos de direção de seus sindicatos ou como lideranças nas greves e negociações salariais, membros diretores de sociedades étnicas de socorro mútuo.

No caso paulistano, em boa parte pela instabilidade organizativa do próprio movimento sindical, bem menos estruturado que nos casos argentino e estadunidense, diversas SIMS desenvolveram esse papel de sustentação "externa" das associações operárias sindicais e dos movimentos de luta.

A proximidade ou contraste com o movimento operário e com os movimentos sociais em geral se expressou politicamente em torno da significação da identidade nacional italiana, tanto na forma de um atrito ou conflito aberto entre sociedades predominantemente republicanas e as monarquistas como de um conflito interno a diversas associações. Para algumas associações e para diversos sócios, era formalizada uma crítica social às desigualdades, das quais a emigração de massa, vista como um êxodo da Itália, era vista como um efeito. As divisões foram se amplificando com o aumento do número de associações, podendo-se identificar também um recorte regional nessas posturas políticas e de classe, com as sociedades integradas sobretudo ou exclusivamente por italianos do Centro e do Norte geralmente próximas do movimento operário, contrastando com as de italianos do Sul, usualmente monarquistas ou governistas. Em termos sociais, é preciso dizer também que as segundas tinham um perfil social de classe média mais caracterizado.

Na capital paulista, podemos afirmar que SIMS Galileo Galilei, Lega Lombarda, Unione Veneta, Leale Oberdan, Operaia Barra Funda, Operaia Civiltà e Progresso, Operaia Água Branca e Cosmopolita dei Cappellai formaram o grupo de associações mútuas que mais apoiaram as organizações operárias e que tinham um imaginário identitário republicano que remontava ao radicalismo mazziniano.37

Entre os muitos sócios do Círculo Socialista Internacional que assumiram cargos na diretoria da Civiltà e Progresso, destacamos Guido Bertolotti (que foi presidente dela em 1916 e 1917), Ferdinando Boschini (membro da Lega Democratica Italiana e também da Unione Veneta), Alcibiade Bertolotti (irmão de Guido), Dante Ramenzoni, Amedeo e Quintilio Volponi.

Frequentemente, porém, as divisões ocorriam também no interior das sociedades, como foi, por exemplo, no caso da Fratellanza Italiana do Cambuci: em 1898, o presidente, Umberto Campetti, saiu da sociedade porque o conselho recusou sua proposta de participar da subscrição em prol das vítimas políticas das revoltas daquele ano; ainda em 1901, um grupo de sócios eleitos em cargos de responsabilidade foram forçados a abandonar a sociedade por contrastes políticos, no momento em que começaram a pressionar para que a associação se posicionasse politicamente e participasse mais ativamente do processo de organização sindical que estava ocorrendo naquele período. Os expulsos fundaram logo em seguida o primeiro círculo socialista de bairro em São Paulo: o Circolo Socialista Rionale "Enrico Ferri" do Cambuci (com cerca de 50 sócios).38

As duas tentativas feitas nos congressos gerais do associativismo italiano de 1897 e 1904 para unificar as sociedades italianas do estado de São Paulo em uma federação ou instituição única fracassaram por causa dessas fortes divergências políticas.39 Entre os promotores dessas iniciativas estava o republicano Domenico Rangoni: amigo de uma das mais famosas lideranças socialistas italianas, Andrea Costa, chegou ao Brasil em 1890 e logo iniciou com outros militantes da época, como Alcibiade Bertolotti (também socialista), a tentativa de organizar uma grande sociedade geral de socorro mútuo que ajudasse a resolver o problema da assistência para os milhares de imigrantes que estavam chegando, entrando em contraste com as autoridades italianas locais (que apoiavam um mutualismo mais restrito ou controlado por elas), com boa parte dos imigrantes de classe média e com o governo paulista. Rangoni e Bertolotti vinham de experiências pioneiras no Norte da Itália (Emilia e Lombardia) de organização do movimento operário durante a década de 1880 e tinham ligações com a tradição nacionalista e republicana revolucionária do movimento independentista italiano.

Nos anos seguintes, entre uma tentativa e outra de criar uma organização mutualista italiana única comum, a ação dessas duas lideranças, contando com o apoio de grupos republicanos e socialistas, de algumas associações italianas e de sindicalistas, foi sobretudo na direção de estruturar a Società Italiana di Beneficenza como uma grande associação de socorro mútuo que conseguisse abranger vários aspectos da assistência mútua nos moldes da democrática e socialista Società Umanitaria de Milão.40 Em relação à questão do Hospital Italiano, essa frente tinha como objetivo associar os italianos de São Paulo, incluindo os do interior, e converter o espírito de beneficência (que criava dependência desses trabalhadores com os principais empresários e comerciantes da comunidade ítalo-paulistana) em previdência e assistência mútua, fundando uma sociedade em torno de um núcleo de sócios formado por pequenos comerciantes, artesãos e operários especializados, os únicos que tinham a possibilidade de transferir parte do salário para um fundo comum, mas sem excluir os trabalhadores menos qualificados.

Portanto, interpretações políticas contrastantes sobre o papel, aberto e mutua­lista para os socialistas, republicanos e sindicalistas, ou fechado e paternalista-beneficente para os liberais e monarquistas da SIB, caracterizaram por anos as dificuldades de expansão do hospital italiano. A Sociedade Beneficente Portuguesa, com uma comunidade muito inferior de imigrantes lusos, chegava a ter mais de 3 mil sócios; a Beneficente italiana, que podia contar com uma comunidade estadual de quase 1 milhão de pessoas, poderia bem ultrapassar os mil sócios, o que não aconteceu no início do século XX.41

Em julho de 1901, eclodiu uma crise interna na SIB, pelo atraso no uso da verba destinada para a construção da seção mais importante dessa sociedade: o hospital.42 Esse conflito encontrava respaldo na ação do Avanti!, jornal socialista de língua italiana, na Lega Democratica Italiana (um amplo grupo político que juntava militantes socialistas e republicanos italianos) e ao mesmo tempo na SIMS Galileo Galilei, todos argumentando que os recursos econômicos da Società Italiana di Beneficenza tinham vindo de uma grande subscrição iniciada na década de 1890 e que envolveu todos os italianos do estado de São Paulo, e não somente os donativos dos sócios, na maioria empresários italianos ou profissionais liberais.43 A Galilei chamou, então, todas as sociedades populares italianas a se reunírem em duas grandes assembleias para pressionar para uma abertura e transparência da maior sociedade italiana:44 de fato, o presidente da SIB pediu demissões, e os estatutos foram reformados no sentido de um abertura democrática, com a admissão, finalmente, de novos sócios.45 A partir desse momento, além da implantação do Hospital Italiano (1904), socialistas como Bertolotti e Dante Ramenzoni (este último ligado também à Sociedade dos Chapeleiros) integraram regularmente o conselho diretivo da SIB (e, portanto, do Hospital Italiano) até o limiar dos anos 1920.

Não é de se estranhar que foi a Galileo Galilei a coordenar esse movimento de protesto e, em 1903-1904, também o congresso do associativismo italiano no Brasil, sendo essa uma sociedade cujos sócios eram em sua grande maioria republicanos e socialistas. Naqueles anos, entre o fim do século XIX e o início do XX, a Galilei tentava criar um movimento social-progressista que mediasse as exigências de representação política dos imigrantes italianos no estado de São Paulo, e particularmente na cidade. A Galileo Galilei e a Lega Democratica Italiana estavam, de fato, muito ligadas naqueles anos, tanto que a LDI colaborou para realização do projeto da Galilei de facilitar a abertura de escolas gratuitas em todos os bairros populares da cidade.

Particularmente nos primeiros anos do século XX, duas outras mútuas de imigrantes italianos agiam quase sempre de comum acordo com a Lega Democratica Italiana de São Paulo: a Unione Veneta e a Società Operaia, que são apresentadas a seguir. Significativamente, quando, planejando as atividades de criação de ligas operárias de ofício, assim como uma mais estreita relação com outras sociedades populares, a Lega escolheu instalar-se nos novos locais do Largo da Memória, foi seguida na nova sede também pelas duas antigas sociedades de socorro mútuo: a Societàdi Mutuo Soccorso "Unione Veneta San marco" e a Società Operaiadi Mutua Assistenza.46 Esses dois grêmios, sobretudo o primeiro, considerado uma "forte società", contavam com muitos sócios e com uma longa atividade. A força da Unione Veneta residia provavelmente no alto número de imigrantes provenientes dessa região, mas, mais especificamente, contava também com um núcleo de operários têxteis do Brás que vinham de experiências de greves na cidade de Schio e que por isso emigraram seguindo a cadeia migratória vêneta para o Brasil.47

A existência de uma sociedade italiana de caráter explicitamente regional vêneto, que mantinha estreitas ligações com um grupo socialista como a LDI e com o jornal Avanti!, questiona um dos rótulos colocados nos imigrantes dessa região de serem distantes da ação política em grupos radicais por seu pressuposto e enraizado catolicismo conservador.

A Società Operai di Mutua Assistenza tinha também as mesmas funções da Veneta, mas era constituída por um número menor de sócios, embora talvez com uma caracterização política mais forte, sendo composta também por homens que tinham participado das últimas guerras garibaldinas, propondo-se, então, como uma daquelas sociedades nas quais é perceptível, na passagem das velhas para as novas gerações, a continuidade entre os movimentos independentistas italianos revolucionários e os internacionalistas dos anos 1890, sobretudo de matriz mazziniana. Vale a pena dizer que o secretário dessa sociedade era Balvetti, também secretário do Circolo Repubblicano Sociale,48 e, em 1900, como secretário da Società Operaia, organizou uma comemoração no cemitério do Araçá no túmulo do republicano italiano Nicola Narratone, por ocasião de manifestações ocorridas na Itália pela morte de um dos últimos camaradas de Giuseppe Garibaldi, Nicola Stocchi, que personalizava a ligação entre o nacionalismo republicano dos Oitocentos e o socialismo.49

Essa configuração política, com seus conflitos e suas nuanças, se explicitava de forma muito clara também em outros momentos simbólicos para as comunidades de italianos no exterior. A principal festa cívica dos italianos de então, o dia 20 de setembro, que marcava a anexação de Roma ao reino da Itália (1870) e ao mesmo tempo o fim do poder temporal dos papas e a última e mais importante etapa do processo de unificação, estava carregada de múltiplas leituras e significados. Era a afirmação do triunfo da monarquia Savoia como guia da unificação do país, mas era também a afirmação do mais profundo anticlericalismo libertário e socialista e ao mesmo tempo da exaltação de todos os aspectos que se ligavam à história antiga e recente de Roma, tais como a antiga república romana e a mais recente experiência republicana revolucionária garibaldina de 1849. Em algumas SIMS monarquistas, como a Calabresi Uniti, por exemplo, o dia 20 de setembro era considerado festa oficial da sociedade e "a maior afirmação da nacionalidade italiana".50

Conflitos e divergências ocorreram em todas as comemorações dessa data em São Paulo, mas as de 1898 foram particularmente violentas, pois o conflito já existente no estado entre associações de socorro mútuo antimonarquistas e as governistas inseriu-se no contexto dos acontecimentos recentes de maio na Itália, quando, na manifestação contra a carestia de vida de Milão, o Exército disparou contra a multidão, matando dezenas de trabalhadores.

Foi justamente a Lega Democratica Italiana de São Paulo que organizou, a partir de junho-julho de 1898, uma grande subscrição em favor das famílias das vítimas da repressão e dos militantes presos a partir de maio. Porém, algumas sociedades italianas recusaram-se a fornecer esse auxílio, e chegou o dia da comemoração do 20 de setembro. Polemicamente, a Lega Democratica Italiana, com o apoio dos anarquistas de Il Risveglio, publicou um jornal especial nesse dia, dedicado às vítimas da repressão na Itália e, ao mesmo tempo, como evidente forma de protesto contra as associações italianas que se recusavam a participar da campanha. A participação nas comemorações oficiais do 20 de setembro podia ser considerada uma manifestação política de apoio à política repressiva do governo na Itália.

Entre os que responderam positivamente à subscrição promovida pela Lega estavam imigrantes espalhados por todo o estado e algumas sociedades e grupos italianos da capital paulista: a Unione Veneta San Marco, a Banda Musicale Giuseppe Verdi, a Galileo Galilei, o Grupo Reduci Patrie Battaglie e a Società Cosmopolita dei Cappellai.51 O conflito só precisava de uma faísca para se produzir, e ao vaiarem as agremiações que acompanhavam o grupo do cônsul italiano Gioia, quando este guiava o cortejo comemorativo do 20 de Setembro, os sócios das sociedades e grupos antimonarquistas tiveram de enfrentar a reação dos membros de outras SIMS. Em certo momento, alguns anarquistas e membros da Calabresi Uniti e da Trinacria começaram a disparar uns nos outros, até que estes últimos perseguiram o anarquista italiano Polinice Mattei, que tinha ficado isolado, e o espancaram até a morte.52

Anos depois, em 1911, só para citar outro exemplo, o 20 de setembro continuava despertando paixões em torno de sua simbologia republicana e libertária no ambiente associativo,53 assim como a apropriação de importantes vultos, como Giuseppe Verdi54 ou Giuseppe Garibaldi.55

 

Colaborações: o mutualismo italiano, os sindicatos e as greves em São Paulo

A relação do mutualismo ítalo-paulista com o movimento operário passava, então, por essas definições políticas e pelos militantes que transitavam ao mesmo tempo entre o mundo do socorro mútuo e aquele em formação do sindicalismo local. Vimos como a experiência associativa no mutualismo étnico foi de fundamental importância para a formação de uma das principais lideranças sindicalistas paulistanas, Giulio Sorelli, assim como foi prática comum e paralela de outro conhecido líder sindicalista-revolucionário, Alceste de Ambris, e de muitos outros militantes de base ou afirmados organizadores, como o socialista Teodoro Monicelli (que chegou a São Paulo em 1913).56

Aquele distanciamento progressivo que se supunha entre as sociedades de socorro mútuo e os sindicatos, até quando estes surgiram das primeiras, tornando-as supostamente "obsoletas", deve ser desmentido também para os processos organizativos que os trabalhadores italianos vivenciaram no exterior, em que a identidade nacional frequentemente caracterizava, mais do que a de classe ou conjuntamente com ela, essas associações.

A diferenciação funcional entre sociedades de socorro mútuo e sindicatos e a dimensão reduzida das primeiras em relação aos segundos, também em São Paulo, não significaram que as SIMS não compartilhassem os problemas que as organizações sindicais enfrentavam: muito pelo contrário, várias delas ajudaram financeiramente as ligas de ofício e os trabalhadores em greve.

Na greve geral de 1907, em São Paulo, desenvolveram esse papel de suporte justamente as sociedades nas quais os socialistas italianos e alguns republicanos ainda conservavam um poder considerável de direção, como a Società Internazionale do Brás, a Società Operaia da Lapa, a Unione Operaia Civiltà e Progresso, a Unione Operaia di Mutuo Soccorso da Barra Funda, a Unione Operaia da Ponte Grande, a Lega Lombarda, a Leale Oberdan e algumas de ofício, como a Società Barbieri e Parrucchieri (cabeleireiros) e a dos chapeleiros.57 O caso desta última é particularmente interessante, porque foi a sociedade em que mutualismo e luta de classes se entrelaçaram constantemente ao longo de sua longa existência entre a década de 1890 e a de 1920: às vezes, pela maior parte dos anos, funcionava somente como mútua, mas, em outros períodos, como em 1907, era também sindicato.

Por três anos consecutivos, de 1906 a 1908, o tesoureiro da Federação Operária de São Paulo, baluarte da ação direta e coordenadora da greve geral de 1907, foi o socialista Alfonso Contieri (também na direção do Centro Socialista Internazionale de São Paulo no período de 1907-1908) e representante da União dos Chapeleiros, da qual era membro do comitê diretivo desde 1904, no segundo congresso operário estadual.58 Seu papel como um dos principais organizadores da União dos Chapeleiros é, aliás, constantemente evidenciado por sua participação nas tratativas com os empresários em quase todas as greves, além da geral de 1907.

A presença notável de socialistas entre os chapeleiros, liga que contava com quase 900 filiados, remontava já a sua fundação em 1901 e ao papel que tiveram nos primeiros anos de desenvolvimento da liga dos chapeleiros os irmãos Ramenzoni, Dante e Lamberto, membros diretores da Cosmopolita. A União dos Chapeleiros, por muitos aspectos, carregava consigo as características socialistas em sua estrutura organizativa e também sua história de antiga sociedade de socorro mútuo, tanto que, quando começou a aumentar o número dos sócios, ela estruturou seu estatuto entre o de uma sociedade mutualista e o de um sindicato, sobretudo no que se referia a algumas limitações contra operários doentes crônicos, por exemplo, que não podiam ser admitidos, característica essa de sociedades mutualistas que se ocupavam de aposentadorias e períodos de doença, enquanto os sindicatos de ação direta limitavam estritamente o uso dos fundos à greve.

Outro caso emblemático foi o da Sociedade Aliança (sociedade de socorro mútuo entre garçons e cozinheiros da qual muitos militantes socialistas italianos de São Paulo eram sócios): tentou abandonar o mutualismo para se tornar uma liga de ofício e ao mesmo tempo para reverter o fundo social até aquele momento acumulado para constituir um restaurante cooperativo. Nesse processo, teve papel fundamental o socialista Fosco Pardini, que na Itália tinha sido secretário do sindicato de cozinheiros e garçons da Câmara do Trabalho de Carrara, conhecido centro anarquista e socialista revolucionário da Toscana, antes de emigrar. Travou-se uma batalha em prol da transformação sindicalista da sociedade entre os sócios ligados ao Centro Socialista Internazionale e a geração dos sócios mais velhos (e mais qualificados).59 Mas, ainda em 1917, embora participando da solidariedade aos outros sindicatos em greve, a sociedade continuava seguindo a velha fórmula do mutualismo, limitando-se à assistência a seus associados em caso de doença e morte.60

Nos anos seguintes, no período de fragmentação do mundo sindical paulistano, sobretudo entre 1912 e 1916, o mutualismo italiano local elaborou iniciativas novas no mundo do trabalho, por meio de formas de coordenação com grupos políticos, inclusive anarquistas, já trilhadas no começo do século XX e no fim do XIX.

Atenta à crise de desemprego que a economia paulista atravessava a partir de 1913, a nova Lega della Democrazia (construída nos moldes republicano-socialistas da Lega Democratica de 1898) liderou, em 1914, um movimento para a implementação de um escritório de informações e assistência para os trabalhadores italianos imigrados, que tinha a função de facilitar a procura de trabalho e de fornecer um pequeno auxílio para os mais necessitados, indicando-os para o serviço sanitário de algumas sociedades italianas de socorro mútuo.

Houve, particularmente, o empenho de Teodoro Monicelli, um experiente sindicalista, para transformar o recém-criado Ufficio Informazioni e Assistenza em uma entidade autônoma, que se abrisse à participação também de outras associações mutualistas e políticas e fosse o prelúdio de uma verdadeira organização sindical, moldada na estrutura de uma Câmara do Trabalho, como aquelas por ele dirigidas na Itália.

Em um período intermediário, faltando ainda um número suficiente de ligas operárias, essa instituição concentrou somente algumas das funções de uma Câmara do Trabalho, mas não ainda a mais importante de coordenação e realização de greves. Contudo, nasceu já com o principal objetivo do controle e emprego da mão de obra no mercado de trabalho. A fundação do Ufficio foi possível graças ao apoio dado por duas sociedades italianas de socorro mútuo que tinham relações estreitas com a Lega: a SIMS Leale Oberdan e a Società Unione Operaiada Barra Funda.61

Uma comissão, composta por Monicelli e outro militante socialista e sindicalista, Adelmo Giordani, e pelo presidente da Leale Oberdan, Andrea Calió, ocupou-se de redigir o estatuto do Ufficio, estabelecendo que a adesão devia ser feita por associação, em que cada sociedade elegia um representante próprio. Ao mesmo tempo, foi realizado um convênio com a Società Umanitaria de Milão (organização socialista que se ocupava também dos trabalhadores italianos emigrados) e com a Secretaria do Trabalho do governo italiano e o Commissariato Generale dell'Emigrazione.

O alastrar-se da crise de desemprego e de inflação induziu, então, a Lega della Democrazia, a partir de agosto de 1914, a dedicar-se à organização de um movimento de opinião pública (estruturado por associações) que se ocupasse de pressionar o governo municipal e estadual para que tomasse providências concretas para enfrentar a situação. Com a participação de quase todas as sociedades mutualistas de São Paulo, dessa vez pertencentes a várias nacionalidades, chegou-se à elaboração de uma série de reivindicações: início de uma série de trabalhos públicos; fixação dos preços máximos dos bens alimentares e fiscalização destes; abertura de mercados livres e armazéns municipais com alimentos a preço de custo; impedimento temporário dos despejos das casas; diminuição dos aluguéis das casas operárias; alavancagem de um projeto de fundação de vilas operárias, entre outras propostas.62

Essas atividades e reivindicações, que surgiram do encontro entre grupos políticos, sociedades mutualistas e uniões sindicais e que deram vida, em 1914, ao Comitato di Difesa Proletaria, também chamado de Comitê Proletário de Agitação Popular, constituíram a base dos protestos e do movimento que foram gradualmente emergindo em São Paulo nos anos da Primeia Guerra Mundial e que tiveram seu ápice na greve geral de 1917.63 Foi um modo de intervenção e de organização imediata de protestos, que depois será seguido em 1917 pela formação do Comitê contra a Exploração das Crianças, e, em julho de 1917, durante a greve geral, pelo Comitê de Defesa Proletária.

O movimento grevista de 1917 (e, particularmente, a greve geral de julho de 1917) colocou desafios de certo porte para o mundo mutualista italiano de São Paulo em sua relação com o movimento operário, pois a comunidade de imigrados italianos estava, na época, sujeita às pressões dos comitês locais de arrecadação de fundos para o Exército italiano em guerra, sem contar que não poucas famílias tinham parentes na frente na Europa. Portanto, aquelas tensões geradas pelos diferentes nacionalismos (o liberal conservador e o democrático socialista) se reapresentavam radicalizadas nesse contexto. É preciso lembrar que o conflito dividiu, em um plano global, internamente, as diversas "grandes famílias" da esquerda da época (social-democratas, anarquistas e sindicalistas revolucionários). Havia leituras e apropriações revolucionárias do conflito, e geralmente as sociedades de socorro mútuo italianas no exterior, independentemente de sua leitura, apoiavam a guerra, em conjunto com toda aquela parte do empresariado imigrado que estava na primeira fila dos entusiastas do conflito. Por outro lado, as SIMS não deixavam de ter relações com o mundo dos trabalhadores e de ter em seu interior militantes socialistas e sindicalistas firmemente contrários a essa configuração pró-guerra e depois envolvidos plenamente (como foi o caso de Monicelli, que frequentava a sociedade Leale Oberdan) na greve geral de 1917.

As mais importantes sociedades italianas de socorro mútuo de São Paulo, (Leale Oberdan, Galileo Galilei e Lega Lombarda) participavam da coleta dos fundos para os comitês em prol da Itália em guerra. Todavia, outras sociedades, como a Unione Operaia da Barra Funda e a Unione Operaia Civiltà e Progresso, por suas ligações mais estreitas com o Centro Socialista Internazionale, ajudaram mais na subscrição em prol dos grevistas.64

Contudo, a participação no Comitato Italiano Pro-Patria não impediu que sociedades como a Vittorio Emanuele II (a mais antiga SIMS de São Paulo) ou a Leale Oberdan interviessem em prol dos grevistas, com anúncios e manifestos de solidariedade moral ou financeira.65 A SIMS Leale Oberdan, por exemplo, funcionou como mediadora entre os proprietários de oficinas metalúrgicas e uma comissão de grevistas que representava os operários dessas mesmas oficinas.66 Sem falar daquelas mútuas que tinham uma base social profissional, como a Sociedade Alliança (sociedade mutualista formada na maior parte por empregados dos restaurantes, de origem italiana), que emprestou regularmente sua sede tanto para reuniões operárias de ligas de ofício como para a realização de comícios gerais e de conferências de propaganda.67

Essas ligações "perigosas" entre mutualismo italiano e movimento operário certamente não desapareceram por completo durante a década de 1920, quando da atenuação dos laços étnicos como definidores das formas de organização dos trabalhadores imigrados, após décadas de progressiva integração, ainda que, claramente, tenham diminuído em seu alcance e em sua importância: afinal, os imigrantes e seus filhos se viam cada vez mais como brasileiros.

No início dos anos 1920, por exemplo, o tipógrafo e sindicalista Ambrogio Chiodi e outros militantes socialistas de São Paulo, como Nello Colli e Adelmo Giordani, (re)fundaram a Sociedade de Mutuo Socorro do Cambucy, cujos estatutos, diferentemente dos da maioria das mútuas italianas fundadas naquela época, evidenciavam em muitos pontos sua origem socialista e republicana: eram consideradas datas de comemoração oficial da sociedade, de fato, os dias 14 de julho e 1º de maio.68 Ainda durante as décadas de 1920 e de 1930, diversas sociedades italianas de socorro mútuo (sobretudo a Lega Lombarda, a Unione Operaiadi Barra Funda, a União Fraterna da Lapa e Água Branca, a Società di Mutuo Soccorso del Cambucy) funcionaram como abrigo e apoio de grupos políticos socialistas e comunistas, especialmente no período da formação da Ação Nacional Libertadora (ANL).

Enfrentaram um processo violento de fascistização, por um lado, e de nacionalização brasileira, por outro, desde a segunda metade dos anos 1930 até adentrar os anos 1940, ressurgindo no pós-guerra como associações culturais, cuja atuação no processo organizativo dos trabalhadores italianos de São Paulo tinha-se tornado objeto de construção da própria memória identitária.

 

 

Artigo recebido em 26.1.2012 e aprovado para publicação em 16.4.2012.

 

 

1 ROBOTTI, Diego; GERA, Bianca. Il tempo della solidarietà. Milão: Feltrinelli, 1991.         [ Links ]
2 Le società di mutuo soccorso italiane e i loro archivi. Roma: Ministero per i Beni e le Attività Culturali, 1999;         [ Links ] FONZO, Erminio. "L'unione fa la forza". Società di mutuo soccorso e altre organizzazioni dei lavoratori a Napoli dall'Unità alla crisi di fine secolo. Soveria Mannelli-CZ: Rubbettino, 2010.         [ Links ]
3 HALL, Michael. O movimento operário na cidade de São Paulo: 1890-1954. In: PORTA, Paula (Org.). História da cidade de São Paulo: a cidade na primeira metade do século XX. São Paulo: Paz e Terra, 2004. v. 3, p. 259-289;         [ Links ] e "Os chapeleiros: notas e hipóteses", ago. 1988. (mimeo).
4 Il Brasile e gli Italiani. Florença: Edizioni del "Fanfulla", Bemporad & Figlio, 1906. p. 811-813.         [ Links ]
5 MINISTERO DEGLI AFFARI ESTERI. Le società italiane all'estero nel 1908. Bollettino del Ministero degli Affari Esteri, n. 3, p. 373 e 426, dez. 1908.         [ Links ]
6 Nos anos 1930, não temos mais referências da Galilei e da Fieramosca, que, em 1928, segundo o Anuário estatístico do estado de São Paulo, chegaram ao número mínimo de seus sócios (respectivamente, 91 e 93). Ao contrário, a Oberdan, a Lega Lombarda e a Vittorio Emanuele II foram fechadas somente durante a Segunda Guerra Mundial. A SIB – Hospital Italiano "Umberto I" continuou sua atividade ao longo das décadas de 1930 e 1940. Cf. Prontuários n. 10.182; nº 9.982; n. 9.983; n. 13.536; n. 10.569, Apesp, Deops/SP.
7 TOMASSINI, Luigi. Op. cit., p. 233.         [ Links ]
8 Em 1894, as sociedades mutualistas na Itália contavam com 994.183 sócios; em 1904, com 926.027. Id., p. 231.
9 La Rivista Coloniale, n. 6, 30 jun. 1916.         [ Links ]
10 Circoli e Società. Fanfulla, p. 5, 14 jul. 1917.         [ Links ]
11 Entre 1878 e 1886, entraram no Brasil cerca de 22 mil italianos provenientes da região do Vêneto, que na época compreendia também grande parte da atual região Friuli-Venezia Giulia e chamava-se Venezia, constituindo em torno de 30% dos italianos que naqueles anos imigraram no Brasil. No período 1887-1895, vênetos e friulanos foram quase 250 mil, perfazendo mais da metade de todos os italianos imigrados no Brasil naquele mesmo período. TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico. São Paulo: Nobel/IICSP, 1988. p. 39.         [ Links ]
12 Cf. Estatutos da Sociedade de Socorro Mútuo Guglielmo Oberdan. São Paulo: [S.l.], 1940. Prontuário nº 13.536, Apesp, Deops/SP. O artigo 38 declarava, além disso, que o dia 20 de dezembro, dia da execução de Oberdan, era uma das festas oficiais da sociedade.
13 Anuário estatístico do estado de São Paulo, 1904.
14 Alla Leale Oberdank. Avanti!, n. 6, 2 série, p. 3, 6 jun. 1914.         [ Links ]
15 Anuário estatístico do estado de São Paulo, 1908 e 1911.
16 Estatutos da Società Unione Meridionale Italiana. Diário Oficial do Estado de São Paulo, n. 84, p. 800, 13 abr. 1899.         [ Links ]
17 Il Brasile e gli italiani. Op. cit., p. 833.
18 Ettore Fieramosca, que aparecia bem no centro do estandarte oficial da sociedade, foi o cavaleiro que liderou um duelo contra um grupo de nobres franceses durante a ocupação do Sul da Itália pelo Exército francês, em 1503, em Barletta, na região de Puglia. Como Fieramosca era originário de uma família da nobreza de Capua, próximo de Nápoles, é também provável que a SIMS que levava seu nome fosse uma associação que agregava imigrantes do Sul da Itália de diversas regiões. Os nomes dos membros da associação também reforçam esta conclusão.
19 Extrato dos estatutos da SMS Ausonia. Diário Oficial do Estado de São Paulo, n. 1.821, 25 set. 1897.
20 CAPPELLI, Vittorio. Le donne in Calabrianelle società di mutuo soccorso (1875-1900). Movimento Operaio e Socialista, ano IV, nova série, n. 3, p. 287-296, 1981.         [ Links ] Id. Immigrazione transoceanica e socialismo: il caso di Morano Calabro tra Ottocento e Novecento. In: BORZOMATI, Pietro (a cura di). L'emigrazione calabrese dall'Unità a oggi. Roma: Centro Studi Emigrazione, 1982.
21 TRENTO, Angelo. Op. cit., p. 39.         [ Links ]
22 Artigo 1º do Statuto della Società Italiana di Mutuo Soccorso "Lega Lombarda". São Paulo: Typ. Ideal/F.lli Canton, 1910.
23 XX Settembre, 20 set. 1898.
24 Sempre Avanti!, n. 3, 16 dez. 1903.         [ Links ] Em 1912, por exemplo, pelo menos seis dos 18 membros da diretoria da Galileo Galilei eram certamente de origem meridional. Circoli e società. Fanfulla, p. 4, 30 jan. 1912.         [ Links ]
25 Artigo 3º e Condizioni di ammissione. In: Statuto della Società Italiana di Mutuo Soccorso "Lega Lombarda". São Paulo: Typ. Ideal/F.lli Canton, 1910. Cf. também Prontuário nº 10.569, Apesp, Deops/SP.         [ Links ]
26 Alla Leale Oberdan. Avanti!, n. 6, 2. série, 6 jun. 1914.         [ Links ]
27 Movimento operaio. Fanfulla, n. 20, p. 5, out. 1911.         [ Links ]
28 Prontuário nº 38.465, Apesp, Deops/SP e estatutos da Società Italiana Mooca. Diário Oficial do Estado de São Paulo, n. 178, 18 ago. 1918.
29 Diário Oficial do Estado de São Paulo, n. 98, p. 1.270, 3 maio 1901.         [ Links ]
30 O apoio aos grevistas foi notável e o financiamento à Fosp foi muito consistente, 610$500 réis, enquanto, só para ter uma ideia, as centenas de operários da Antarctica contribuíram na mesma subscrição com 61$500 réis. Festa Pro-Scioperanti. Avanti!, n. 1.717, p. 3, 11 jun. 1907; Movimento sindacale. Sottoscrizione Pro-Scioperanti. Avanti!, n. 1.721, p. 2, 15 jun. 1907.
31 Circoli e società. Fanfulla, n. 22, jan. 1912;         [ Links ] e Id. 12 jun. 1917; Diário Oficial do Estado de São Paulo, p. 2.382, 12 abr. 1921;         [ Links ] Prontuário nº 9.140, Apesp, Deops/SP.
32 Circoli e società. Fanfulla, p. 4, n. 30, jan. 1912;         [ Links ] Sempre Avanti!, n. 3, 16 dez. 1903.         [ Links ]
33 Artigo 1º, d) Capítulo II. In: Statuto della Società Italiana di Mutuo Soccorso "Lega Lombarda". São Paulo: Typ. Ideal/F.lli Canton, 1910. p. 12-13.
34 Il Brasile e gli Italiani. Op. cit., p. 813.         [ Links ]
35 Prontuário nº 09.140, Apesp, Deops/SP.
36 DEVOTO, Fernando J. La experiencia mutualista italiana en la Argentina, un balance. In: DEVOTO, Fernando J.; MIGUEZ, Eduardo J. (Orgs.). Asociacionismo, trabajo e identidad étnica. Buenos Aires: Cemla/CSER/IEHS, 1992. p. 169-185;         [ Links ] GANDOLFO, Romolo. Las sociedades italianas de socorros mutuos de Buenos Aires. Id., p. 311-332;         [ Links ] GODIO, Julio. El movimiento obrero y la cuestión nacional, Argentina, inmigrantes, asalariados y lucha de clases, 1880-1910. Buenos Aires: Erasmo, 1972.         [ Links ]
37 Diversas experiências e valores vindos do radicalismo democrático da primeira metade do século XIX formavam a base ideológica do republicanismo italiano, que tinha como núcleo principal o pensamento de Giuseppe Mazzini (1805-1872) e a ação de revolucionários como Giuseppe Garibaldi (1807-1882) e Carlo Pisacane (1818-1857). Do ponto de vista social, tinha muitas semelhanças com o socialismo e com o anarquismo e propunha uma República dos pequenos produtores e proprietários e a nacionalização de alguns bens e serviços. Os republicanos italianos participaram da 1ª Associação Internacional dos Trabalhadores e geralmente se associavam, nas eleições italianas, aos socialistas.
38 Partido Socialista. Avanti!, n. 39, p. 1, 13 jul. 1901;         [ Links ] Sempre Avanti!, n. 6, 19 dez. 1903.         [ Links ]
39 Italia e italiani al Brasile. Italia e Brasile, n. 8, p. 360-D, 367-371, ago./set. 1910.         [ Links ]
40 Federazione delle società italiane nello Stato di S. Paulo. Il Lavoro, ano II, n. 23, p. 1, 1º jul. 1894.         [ Links ]
41 Società Italiana di Beneficenza. Avanti!, n. 42, p. 1, 3 ago. 1901.         [ Links ]
42 Seduta tempestosa alla Società Italiana di Beneficenza. Avanti!, n. 38, p. 3, 6 jul. 1901.         [ Links ]
43 Società Italiana di Beneficenza. Avanti!, n. 40, p. 1, 20 jul. 1901.         [ Links ]
44 Società Italiana di Beneficenza. Avanti!, n. 42, p. 1, 3 ago. 1901.         [ Links ]
45 Ospedale Italiano Umberto I. Avanti!, n. 49, p. 2, 21 set. 1901;         [ Links ] Società Italiana di Beneficenza. Avanti!, n. 50, p. 3, 28 set. 1901.         [ Links ]
46 Società Popolari. Avanti!, n. 2, p. 3, 27 out. 1900, e n. 3, p. 3, 3 nov. 1900.         [ Links ]
47 Cf. VERONA, António Folquito. "O mundo é a nossa pátria": a trajetória dos imigrantes operários têxteis de Schio que fizeram de São Paulo e do bairro do Brás sua temporária morada, de 1891 a 1895. Tese (Doutorado) – FFLCH, USP, São Paulo,1999.         [ Links ]
48 Società Popolari. Avanti!, n. 13, p. 3, 12 jan. 1901.         [ Links ]
49 "San Paolo. Una commemorazione" e "Società Popolari", ambos em Avanti!, n. 2, p. 3, 27 out. 1900.         [ Links ]
50 Artigo 34 dos estatutos da Società Calabresi Uniti Tommaso Campanella, Diário Oficial do Estado de São Paulo, n. 1.832, p. 21.864, 9 out. 1897.         [ Links ]
51 XX Settembre, n. 20, set. 1898.         [ Links ]
52 Cf. a reconstrução feita por Gigi Damiani em A plebe, n.12, 20 set. 1919.
53 Circoli e società. Fanfulla, p. 5, 4 set. 1911.         [ Links ]
54 Giuseppe Verdi. Avanti!, n. 16, p. 3, 2 dez. 1901.         [ Links ]
55 Avanti!, n. 1.717, p. 1, 11 jun. 1907, e n. 1.719, 13 jun. 1907.         [ Links ]
56 Sobre De Ambris e Sorelli, cf. TOLEDO, Edilene. Travessias revolucionárias. Campinas: Unicamp, 2004.         [ Links ]
57 Ver as seções "Società, Circoli, ecc." e "Cronaca". Avanti!, série 1907-1908,         [ Links ] e também "La conquista delle otto ore" e "Sottoscrizione Pro-Scioperanti". Avanti!, n. 1.686, 6 maio 1907 a n. 1.748, 17 jul. 1907.         [ Links ]
58 "Relação do segundo congresso operário estadual. A Lucta Proletaria, supl. ao n. 14, 1º maio 1908. Alfonso Contieri foi também um dos principais organizadores das comemorações do 1º de Maio de 1907: Il 1º Maggio. Avanti!, n. 1.683, 2 maio 1907.         [ Links ]
59 "Uma simpaticíssima festa. Avanti!, 2 série, n. 16, p. 2, 15 ago. 1914;         [ Links ] Sociedade Alliança. Id., n. 26, p. 3, 24 out. 1914;         [ Links ] Uma conferenza ai camerieri. Id., n. 28, p. 3, 7 nov. 1914;         [ Links ] Fra i camerieri. Id., n. 56, p. 3, 5 jun. 1915.
60 Movimento operaio. Fanfulla, p. 5, 12 ago. 1917.         [ Links ]
61 Nella vita cittadina. In difesa dei lavoratori italiani. Avanti!, 2. série, n. 5, p. 2, 30 maio 1914.         [ Links ]
62 Da reunião participaram as seguintes associações: SIMS Leale Oberdan; Unione Operaia di Barra Funda; SIMS Vittorio Emanuele II; Centro Internazionale della Luz; Sociedade Beneficente dos Chaffeurs; Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas; Allgemeiner Arbeiterverei; Ufficio informazioni e assistenza per gli operaiitaliani; Deutscher Graphisker Verbandfur Brasilien; Sociedade Alliança; Sociedade Cooperativa Beneficente Paulista; Federación Española; União dos Canteiros; Lega della Democrazia; SIMS Galileo Galilei; SIMS Lega Lombarda; Federazione dei maestri Italiani; Sociedade Beneficente Portugueza. Ibid.
63 La disoccupazione. Avanti!, 2. série, n. 20, p. 1, 12 set. 1914,         [ Links ] e Actos do partido. Avanti!, 2. série, n. 23, p. 3, 3 out. 1914;         [ Links ] La Propaganda Libertaria, n. 14, p. 2, 10 out. 1914.         [ Links ]
64 Comité de Defeza Proletaria [sic]. Guerra Sociale, n. 56, p. 4, 11 ago. 1917.         [ Links ]
65 Agitazioni operaie. Fanfulla, p. 5, 17 jul. 1917.         [ Links ]
66 Ibid.
67 Movimento operaio. Fanfulla, p. 5, 12 ago. 1917, e Ibid., p. 4, 19 ago. 1917.         [ Links ]
68 A sociedade foi fundada no dia 27 de Fevereiro de 1922. Ambrogio Chiodi foi seu presidente por muitos anos. A data da tomada da Bastilha era definida, em seu estatuto, como "Dia de Confraternização dos Povos". Cf. Prontuário nº 770, Apesp, Deops e Estatutos da Sociedade de Mutuo Socorro do Cambucy, fundada em 27 de fevereiro de 1922. São Paulo: Typographia Modelo, 1928.         [ Links ]

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