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Tempo

Print version ISSN 1413-7704On-line version ISSN 1980-542X

Tempo vol.21 no.37 Niterói Jan./June 2015  Epub July 21, 2015

http://dx.doi.org/10.1590/tem-1980-542x2015v213703 

Artigo

Construção de hegemonia político-cultural no contexto da transição: narrativas sobre democracia e socialismo em Encontros com a Civilização Brasileira, Cuadernos de Marcha (segunda época) e Controversia (1979-1985)1

Construcción de hegemonía politico-cultural en el contexto de transición: relatos acerca de la democracia y del socialismo en Encontros com a Civilização Brasileira, Cuadernos de Marcha (segunda época) y Controversia (1979-1985)

La construction de l’hégémonie politique et culturelle dans le contexte de la transition: Narratives sur la démocratie et le socialisme dans Encontros com a Civilização Brasileira, Cuadernos de Marcha (seconde époque) et Controversia (1979-1985)

Cristiano Pinheiro de Paula Couto1 

1Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo(SP) - Brasil. E-mail: cristianoppc@usp.br


Resumo

Na América Latina dos anos 1960, a “necessidade histórica” de uma ruptura revolucionária impôs-se de tal forma que, em alguns momentos, até mesmo partidos conservadores viram-se compelidos a propor uma “revolução em liberdade”. As investidas da contrarrevolução iriam provocar inversões: se, nos anos 1960, a “revolução” foi o discurso hegemônico, nos anos 1980, o mote dominante foi a “democracia”. Veio incontornável dos debates travados nos círculos intelectuais e nas organizações partidárias da América Latina durante o fim dos anos 1970 e no transcurso dos anos 1980, a “questão democrática” pertence ao campo semântico de uma categoria imprescindível para o estudo das revistas político-culturais latino-americanas desse período, qual seja, a democracia. Nesse contexto de transição, parte significativa da batalha das ideias, na América Latina e em outras regiões do Ocidente, estava centralizada na noção de democracia, reclamada por quase todas as vertentes ideológicas. Tendo em conta esse contexto de transição, proponho-me a analisar, no corpus de textos de três publicações político-culturais latino-americanas, a tensão e os nexos entre dois grandes relatos da modernidade: democracia e socialismo.

Palavras-chave: democracia; socialismo; periodismo político-cultural.

Resumen

En Latinoamérica de la década de 1960, la “necesidad histórica” de una ruptura revolucionaria fue imposta de un modo que, en algunos momentos, hasta partidos conservadores se encontraron compelidos a proponer una “revolución en libertad”. Clave esencial de los debates en los círculos intelectuales y en las organizaciones partidarias de América Latina en el fin de la década del 70 y en el transcurso de los 80, la “cuestión democrática” pertenece al campo semántico de una categoría de vital importancia para el estudio de las revistas politico-culturales de América Latina en ese período, es decir, la democracia. Se llegó de modo incontenible de las discusiones enfocadas en los círculos intelectuales y en las organizaciones partidarias de Latinoamérica a los fines de los años 1970, y durante los años 1980, la “cuestione democrática” perteneció al campo semántico de una categoría imprescindible al estudio de los periódicos político-culturales latinoamericanos de esa época, cualquiera que sea la democracia. Siguiendo eso sentido de transición, una parte significante de la batalla de ideas, en Latinoamérica y en otras regiones del Occidente, fue centralizada en el concepto de democracia, la cual es reclamada por casi todas las vertientes ideológicas. Llevando en cuenta eso contexto de transición, me propongo a analizar, en el corpus de los textos de tres publicaciones político-culturales latinoamericanas, la tensión y los nexos entre dos grandes reportos de la modernidad: democracia y socialismo.

Palabras clave: democracia; socialismo; periodismo político-cultural.

Résumé

Dans l’Amérique Latine des années 1960, la “nécessité historique” d’une rupture révolutionnaire s’est imposée d’une telle manière qu’avec le temps, même les parties conservateurs se sont trouvés obligés de proposer une révolution dans la liberté. Les assauts de la contre révolution en Amérique Latine provoquèrent des inversions: si, dans les années 1960, la “révolution” était le discours hégémonique, dans les années 1980, le slogan dominant était démocratie. En étant un sujet inéluctable des débats dans les cercles intellectuels d’Amérique Latine et les organisations politiques à la fin des années 1970 et tout au long des années1980, la question de la démocratie appartient au champ sémantique d’une catégorie essentielle pour l’étude de journaux politiques et culturels publiés en Amérique Latine durant cette période, c’est-à-dire, la démocratie en soi. Dans ce contexte de transition, une part significative de la bataille des idées en Amérique Latine et d’autres régions occidentales était centrée sur la notion de démocratie, largement revendiquée par presque tous les courants idéologiques. En prenant en compte ce contexte, je propose d’analyser, à l’intérieur d’un corpus de textes dans trois journaux politiques et culturelles d’Amérique Latine, les frictions et les rapports entre deux grands récits de la modernité: la démocratie et le socialisme.

Mots-clés: démocratie, socialisme; revues politiques et culturelles.

Abstract:

In Latin America of the 1960s, the “historical necessity” of a revolutionary rupture was imposed in such a way that, at times, even conservative parties found themselves compelled to propose a “revolution in liberty”. The assaults of the counterrevolution would provoke inversions: if, in the 1960s, the “revolution” was the hegemonic discourse, in the 1980s, the dominant motto was “democracy”. Being an ineluctable topic of debates in Latin-American intellectual circles and party organizations during the late 1970s and throughout the 1980s, the “issue of democracy” belongs to the semantic field of an essential category for the study of political and cultural journals published in Latin America during that period, that is to say, democracy per se. In this context of transition, a significant fraction of the battle of ideas, in Latin America and other regions of the West, was centered on the notion of democracy, broadly claimed by almost all the ideological trends. Taking into account this context of transition, I propose to analyze, within the corpus of texts published in three political and cultural Latin American journals, the frictions and nexus between two major narratives of modernity: democracy and socialism.

Keywords: democracy; socialism; political and cultural journals.

Na América Latina dos anos 1960, tamanha magnitude foi alcançada pela “necessidade histórica” de uma ruptura revolucionária, instigada pela explosiva combinação de marasmo econômico, estrutura social tradicional e fervorosa mobilização social que, no Chile, até mesmo um partido de centro como a Democracia Cristã viu-se compelido a propor uma “revolução em liberdade”.2 As devastadoras investidas da contrarrevolução iriam provocar formidáveis inversões: “Si la revolución es el eje articulador de la discusión latinoamericana en la década del 60, en los 80 el tema central es la democracia. Al igual que en el período anterior, la movilización política se nutre fuertemente del debate intelectual (grifo no original)”.3 Eis aí a grande virada no pensamento crítico latino-americano formado nas fileiras do marxismo, uma virada que foi do “louvor da revolução” ao “louvor da democracia”.4

Filão incontornável dos debates travados nos círculos intelectuais e nas organizações partidárias da América Latina durante o fim da década de 1970 e no transcurso da década de 1980, tempo de transição, a democracia constitui uma categoria imprescindível para o estudo das revistas culturais latino-americanas desse período. Nesse contexto de rupturas e de acalorado debate político-ideológico, parte significativa da batalha das ideias, na América Latina e em outras regiões do Ocidente, estava centralizada na noção de democracia, reclamada por quase todas as vertentes ideológicas, fossem conservadoras, fossem progressistas.

Conforme o sociólogo britânico Paul Hirst (1947-2003), a democracia representativa passou a ser, na década de 1980, na Grã Bretanha e em todos os outros países ocidentais, “o idioma dominante no discurso político” (tradução minha),5 uma ferramenta de legitimação insubstituível: “Independentemente de suas perspectivas, todos são democratas; e qualquer um com o mínimo de preocupação em obter sucesso político evita escrupulosamente criticar a democracia por temor ao ostracismo” (tradução minha).6 Na América Latina, pelo menos expressamente, no momento em que as ditaduras começaram a desfalecer, poucos atrever-se-iam a aceitar outra designação que não fosse a de democrata convicto.

A aparente unanimidade em torno do conceito de democracia não estava livre, porém, de cismas. Naquele período, a definição dessa ideia foi, em parte, um tipo de índice do conflito pela hegemonia política e cultural, e até mesmo dentro dos estratos vinculados ao pensamento de esquerda da América Latina a definição da ideia de democracia produziu dissensões, com repercussão nas revistas político-culturais. Seja como for, em virtude do sentimento de derrota resultante da repressão feroz dos movimentos “contestatários”7 e do consequente arrefecimento dos projetos revolucionários conduzidos pelas guerrilhas armadas urbanas e rurais que se haviam espalhado em vários focos pela América Latina, ganharam relevo, no pensamento político das esquerdas latino-americanas, discussões impulsionadas pela preocupação com o desenvolvimento e com a reformulação de conceitualizações teóricas capazes de dar suporte e alento a uma nova cultura política nucleadora:

La última década, particularmente terrible para la América Latina por el saldo de derrotas populares que ella envuelve en tantos países, ha permitido despertar el interés y la pasión de la discusión de la democracia en diversas fuerzas políticas de la región y ello es una de las razones que explican el crecimiento de la socialdemocracia en América Latina.8

Para as esquerdas, o processo implicou inflexões ideológicas: “La experiencia del autoritarismo impactó profundamente la visión de la izquierda acerca de la democracia”.9 Foi o projeto democrático aquele para o qual convergiram muitos intelectuais que se confrontaram com o esgotamento do compromisso revolucionário e com o desengano provocado pelos abusos do que se convencionou designar como socialismo real. O periodismo político-cultural não ficou alheio, obviamente, aos processos políticos e sociais que marcavam esse momento transicional. Como sugeriu Denise Rollemberg: “O tema da revolução, que povoara a imaginação da esquerda e sobressaía nas páginas da imprensa, vai pouco a pouco cedendo lugar ao grande tema do fim dos anos 1970: a democracia”.10 Núcleos teórico-ideológicos e instrumentos de atuação política e cultural, as três publicações analisadas neste artigo circularam nesse período em que a democracia se tornou uma tópica inevitável.

Com seu Conselho Consultivo integrado por quase cinco dezenas de intelectuais egressos de variadas facções da esquerda e de diferentes setores da sociedade, entre os quais figuraram Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Ferreira Gullar e Arthur Giannotti, e dirigida por Ênio Silveira (1925-1996), a revista Encontros com a Civilização Brasileira (1978-1980) manteve e ampliou a linha de conduta intelectual da sua exitosa predecessora, a Revista Civilização Brasileira (1965-1968). O projeto político-cultural da coleção dos anos 1970, que teve 29 números, perpetuava uma identidade fortemente definida pelo nacionalismo populista.

Os Cuadernos de Marcha, em sua segunda época (1979-1985), foram publicados no México, sob a direção de Carlos Quijano, como continuidade do projeto político-cultural iniciado em 1939, em Montevidéu, no semanário Marcha, empastelado em 1974 pela ditadura uruguaia, projeto irradiado igualmente na primeira época dos Cuadernos de Marcha (1967-1974). No seu Conselho Editorial, estiveram: Teresa De Barbieri, Samuel Lichtensztejn, Carlos Martínez Moreno, Gustavo Melazzi, Nelson Minello, José Manuel Quijano, Ruben Svirsky, Raúl Trajtenberg e Guillermo Waksman. A publicação teve 27 números e apareceu no exílio de seu diretor e de seus integrantes não como uma criação ex nihilo. Em vez de instituir um campo de reflexões sem antecedentes, foi inscrita na história de uma publicação previamente existente. Tencionava-se a manutenção de um projeto estabelecido, voltado para a análise dos problemas nacionais (i.e. uruguaios) e latino-americanos sob o prisma do socialismo, do anti-imperialismo e do latino-americanismo.

Na América Latina, pelo menos expressamente, no momento em que as ditaduras começaram a desfalecer, poucos atrever-se-iam a aceitar outra designação que não fosse a de democrata convicto

Fundada em 1979 por Jorge Tula, tendo circulado em 13 números até 1981, Controversia foi resultado de uma série de reflexões iniciadas dentro de círculos marxistas e socialistas e de facções do peronismo de esquerda, provindos da comunidade de exilados argentinos no México, cujas relações com a luta armada, em um passado bastante próximo, haviam sido estreitas, destacando-se, no seu Conselho de Redação, entre outros, Nicolás Casullo, Héctor Schmucler, Oscar Terán, José Aricó e Juan Carlos Portantiero. Seu próprio nome evidencia a última palavra sobre o projeto político-cultural que defendeu, expresso na tentativa de publicar reflexões críticas sobre a derrota de projetos políticos com que seus integrantes estiveram comprometidos, bem como sobre o marxismo, a democracia, o populismo argentino, o socialismo nos países do Pacto de Varsóvia etc.11

José María Aricó (1931-1991), desde os anos 1960, na revista Pasado y Presente, e depois em Cuadernos de Pasado y Presente, já desenvolvia a reflexão sobre os elos incertos entre democracia e socialismo. Mais adiante, nos primeiros anos da década de 1980, o mesmo Aricó, com sua peculiar inclinação para defender e reivindicar a potência crítica do marxismo, contanto que o pensamento de Marx fosse colocado permanentemente em diálogo e confronto com diferentes realidades nacionais e com outras tradições do pensamento social e político, passou a preconizar o entendimento da democracia como um “valor universal”, como se pode atestar neste trecho da entrevista, emblematicamente intitulada “América Latina: el destino se llama democracia”, concedida, em 1983, a Horacio Crespo:

En esta desaparición de las fronteras fijas entre democracia radical y socialismo, el mito de la democracia, de la invención democrática, puede convertirse talvez en el mito laico que unifique a las fuerzas sociales en pro de su recomposición. Pienso que la conquista de la democracia como un elemento sustantivo en sí mismo, como un objetivo ideal que se agote en sí mismo debe tender a transformarse en el nudo central de la actual reconstrucción de la cultura de izquierda en América Latina (grifo meu).12

Depois dos sucessivos estremecimentos que afetaram o socialismo real no decorrer da segunda metade do século XX, entre os quais o Relatório Khrushchev (1956) sobre os crimes do estalinismo, a invasão da Hungria pelos tanques soviéticos (1956), a Primavera de Praga (1968), o caso Padilla (1971), a revelação da realidade sinistra do Gulag13 e as atrocidades cometidas, no Camboja, pelo Khmer Vermelho (1975-1978), o dogmatismo marxista-leninista passou a ser intensamente questionado, cedendo lugar ao fortalecimento de um socialismo de cunho heterodoxo, mais reformista e, frequentemente, mais aberto ao diálogo com intelectuais identificados com tradições do pensamento liberal, como Max Weber, Carlo Rosselli e Norberto Bobbio.

Bobbio, cujo pensamento difundiu-se, ao menos na Argentina, desde os anos 1940 do século XX, foi, décadas adiante, em contexto de aguda instabilidade na Itália, defensor não de uma síntese, mas de um “compromisso” entre o liberalismo político e o socialismo econômico. Na América Latina, nos anos 1980, circunstância em que as ditaduras se empenhavam em manter legitimidade no enfrentamento com movimentos sociais gradativamente mais organizados, o pensamento de Bobbio alcançou importante repercussão.14

No auge da Guerra Fria, entre 1976 e 1978, quando a jovem república italiana passava por um momento de forte agitação política e de crise econômica que se prolongaria até à década seguinte, período que veio a ser caracterizado como anni di piombo,15 Aldo Moro, ex-primeiro-ministro da Itália, jurista e destacado politico católico, influente nos círculos doroteanos, buscava reabilitar a “saída histórica” defendida por Enrico Berlinguer em 1973, isto é, uma composição entre os legatários de Palmiro Togliatti, os comunistas, e os seguidores da democracia cristã. Tratava-se, em síntese, de um entendimento das principais forças políticas italianas de então em um bloco de poder situado entre as extremidades, um compromesso storico de centro-esquerda. Buscando deslegitimar o Partido Comunista Italiano (PCI), que naqueles anos gozava de grande prestígio, a Operazione Gladio, rede anticomunista de inteligência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com o intuito de manter a “estratégia da tensão”, apoiada pelos Estados Unidos e pela máfia italiana, envolveu-se no assassinato de Aldo Moro, perpetrado por membros das obscuras Brigadas Vermelhas. Norberto Bobbio, politólogo e filósofo de inspiração liberal, foi um notório defensor desse compromesso storico, impedido de se realizar devido às contingências geradas pela Guerra Fria, quando a Itália parecia pronta para conduzir um projeto de desenvolvimento nacional. Outro italiano, Lelio Basso (1903-1978), presidente do Partito Socialista Italiano di Unità Proletaria (PSIUP) e integrante, em 1967, do Tribunal Russell, escrevia em meados da década de 1970, em texto posteriormente traduzido e publicado na revista Encontros com a Civilização Brasileira, aquilo que pensava sobre o conceito de democracia preconizado por Bobbio:

Tive a impressão de que as respostas dos marxistas às críticas ao marxismo impulsionadas por Bobbio foram débeis e que, em geral, predominou uma tendência a alinhar-se nas mesmas posições do crítico, aceitando suas proposições sobre a democracia, mas o conceito de democracia defendido por Bobbio é a concepção da “democracia burguesa”, ou, em outras palavras, a democracia meramente representativa e parlamentar.16

Defenestrado, na década de 1960, com José María Aricó, depois do lançamento da revista Pasado y Presente, dos quadros do Partido Comunista da Argentina (PCA) por defecção ideológica - devendo-se considerar, ainda, como motivador desse alijamento certa propensão jdanovista17 existente na direção do PCA18 - Juan Carlos Portantiero (1934-2007), no desarraigamento do exílio no México, relativizando o juízo crítico que parte do pensamento de esquerda latino-americano tivera por muito tempo sobre a democracia, declarou o seguinte:

La tragedia que vivían nuestros pueblos nos obligaba a pensar de otra manera: las subestimadas “libertades burguesas” eran una valla que separaba la muerte de la vida. Confirmando esa dura verdad que la experiencia nos proporcionaba, aparecían unas sugestivas voces teóricas. Por ejemplo, la de Enrico Berlinguer quien en 1977 y en Moscú, en ocasión del 60º aniversario de la Revolución de Octubre, decía: “La democracia no es hoy apenas terreno al cual el adversario es obligado a retroceder; es el valor históricamente universal sobre el cual fundar una original sociedad socialista.” La democracia como valor universal. Detrás de la frase, pronunciada en pleno centro del hielo brezhneviano, se abrían múltiples caminos de indagación. Por lo pronto, la abstracta separación, tantas veces utilizada entre “democracia formal” y “democracia real” (la primera, obviamente, la capitalista; la segunda, socialista) perdía su rigidez {...}. El mínimo de democracia está constituido por la democracia política, sin la cual no existe como tal, por más espíritu de equidad que procure albergar.19

Não foi casual a referência que fez Portantiero ao secretário-geral do PCI, Enrico Berlinguer. Assim como a difusão do pensamento político liberal, a influência do pensamento crítico italiano vinculado com correntes de esquerda era forte na Argentina, e vice-versa, uma vez que na Itália a produção teórico-crítica argentina tinha recepção, como aconteceu com a revista Controversia, que, traduzida, lida e discutida, adquiriu prestígio na cultura política italiana, como salienta Alberto Filippi.20

Talvez não seja lícito afirmar que essa influência, na Argentina, fosse ampla e irrestrita, pois as correspondentes organizações partidárias locais inclinavam-se a defender concepções diferentes, algumas vezes irreconciliáveis. A rigidez da abstrata separação entre “democracia formal” e “democracia real”, que Portantierto ansiou haver sido superada, permanecia, todavia, operante em perspectivas de alguns setores da esquerda intelectual argentina: “¿Qué es lo que esperamos? La democracia burguesa, que nos permita realizar lo que nosotros queremos: la lucha ideológica”.21 Para aqueles que assumidamente preconizavam posições marxistas-leninistas, como David Tieffenberg, exilado em Barcelona, havia uma nítida distinção entre, pelo menos, dois tipos de democracia, sendo que um desses tipos não poderia ser pensado como “valor em si mesmo” como fim, apenas como meio:

Depois dos sucessivos estremecimentos que afetaram o socialismo real no decorrer da segunda metade do século XX, o dogmatismo marxista-leninista passou a ser intensamente questionado

{...} claro que es un instrumento {a democracia burguesa}, nunca es un fin. Lo que es un fin es la democracia social, autogestionaria. Ahí está el contenido que yo le doy a esa palabra. Pero para llegar a la democracia autogestionaria hay que andar mucho, mucho. Incluso hay que terminar con el estado, un poco lo que quieren los anarquistas, pero que el marxismo plantea con la etapa previa de la toma del poder, etapa indispensable, imprescindible.22

No Brasil, o contexto era semelhante. A perspectiva “instrumental” e “taticista” sobre a democracia dominou por muito tempo a orientação de significativos setores da esquerda, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas, nos anos 1970, começou a perder primazia. De acordo com a análise de Daniel Pécaut sobre a evolução política dos intelectuais brasileiros no período entre o ano de 1974 e os primeiros anos da década de 1980,

O fenômeno mais importante que caracteriza a evolução política dos intelectuais - a descoberta da sociedade civil e da democracia política - enraíza-se talvez na crise de referências que serviam antes para garantir sua identidade: o nacionalismo, o populismo, a configuração da sociedade pela via estatal (grifo meu).23

O editor Ênio Silveira e o crítico Carlos Nelson Coutinho estavam, também, atentos às tendências que surgiam na Europa, e a ideia defendida por Berlinguer em Moscou, no ambiente solene, grave e não raro asfixiante que costumava caracterizar as cerimônias organizadas pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS), ideia de acordo com a qual a democracia deveria ser entendida como um “valor historicamente universal”, repercutiu no Brasil por meio da revista Encontros com a Civilização Brasileira:

Ao insistir nos aspectos formais da luta pela restauração das liberdades democráticas o editor dá sinais de que efetivamente o faz não somente enquanto artifício tático, conforme aparece nos documentos do Partido Comunista. Ênio Silveira, desta forma, antecipa, no Brasil, a concepção de uma democracia como “valor universal”, conforme expressão utilizada por Carlos Nelson Coutinho em artigo publicado originalmente na revista Encontros com a Civilização Brasileira, em 1979, valendo-se da crise, que se intensificava, do modelo teórico marxista-leninista.24

No Brasil, estava “descoberta”, como anotou Daniel Pécaut, a “democracia política”. A despeito da reação crítica25 que o artigo de Carlos Nelson Coutinho provocou, como as objeções de José Paulo Netto manifestas no texto “Notas sobre a democracia e a transição socialista”, publicado no sétimo número da revista uspiana de professores e pós-graduandos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a revista Temas de Ciências Humanas, houve, naquele momento de rupturas, no pensamento político de grupos influentes da esquerda intelectual brasileira, uma importante inflexão: “Para significativos setores da esquerda, a defesa da democracia não deve ter mais um valor tático, mas adquirir um valor estratégico, um valor em si mesmo” (grifos no original).26

Nos anos de derrocada do regime militar, a publicação dirigida por Ênio Silveira e citada por Vieira, a revista Encontros com a Civilização Brasileira, embora sofresse os efeitos dos deslocamentos ideológicos das frações do pensamento crítico envolvidas com a resistência contra a ditadura, foi corresponsável pela difusão, no Brasil, de uma nova concepção de democracia, de um paradigma que se tornaria preponderante na orientação política de grupos prestigiosos da esquerda brasileira.27 Em um contexto social turbulento, marcado pela busca de autonomia do Estado tanto pela burguesia como pelo movimento operário, o pensamento de esquerda brasileiro, influenciado pelas formulações que vinham ganhando destaque na Europa, iniciou uma nova fase de revisões críticas: “Em oposição à ditadura, a esquerda teve que incorporar, como nunca o fizera, o tema da democracia e também empreender o esforço de melhorar o conhecimento da realidade brasileira, criando e incorporando novas formulações teóricas” (grifo meu).28

Intitulado “A democracia como valor universal”, o artigo de Carlos Nelson Coutinho foi dividido em duas porções: “Algumas questões de princípio sobre o vínculo entre socialismo e democracia política” e “O caso brasileiro: a renovação democrática como alternativa à via prussiana”. Transcorridas duas décadas, Coutinho, ao contextualizar o uso da expressão do secretário-geral do PCI no título de seu ensaio, observou que a intenção que o animara foi empregar a ideia de Berlinguer “- naquele momento de simultâneo combate contra a ditadura e contra o dogmatismo ‘marxista-leninista’ - como bandeira de luta”.29 Herege do pensamento marxista brasileiro, Coutinho, em retrospectiva, definiu o texto desta maneira: “Tratava-se de um ensaio contra a corrente, tanto que gerou intensas polêmicas, provocando dissensos e consensos”.30

Na passagem da década de 1970 para a de 1980, abalados pela angústia acumulada em anos seguidos de sistemática e institucionalizada violência disseminada na América Latina pelo terrorismo de Estado e pressentindo, talvez, o inglório desenlace que o colapso da ordem soviética produziria no campo socialista internacional, grupos da esquerda latino-americana buscavam meios de renovação. Por um lado, avaliava-se que, para compensar os efeitos da falência do “socialismo real”, a modernização era imperiosa. Por outro, muitos deixaram de perceber a democracia unicamente como um conjunto de ideias, uma superestrutura indissociável da etapa burguesa do capitalismo monopolista. Para Coutinho, o ensaio, escrito nesse contexto, teve:

{...} papel no processo de reavaliação da democracia pela esquerda brasileira, reavaliação que, diga-se de passagem, possibilitou a alguns dos seus segmentos enfrentarem com razoável serenidade, ou pelo menos sem abalos traumáticos, a crise terminal do chamado “socialismo real”.31

Deixou-se de aceitar uma identificação necessária da democracia política e de seus institutos com os valores burgueses, a mesma associação, vale notar, que já na virada do século XIX para o XX suscitava acirradas polêmicas, como a que dividiu “ortodoxos” e “revisionistas” da II Internacional. Ao contrário, rejeitou-se a identificação estrita da democracia com sua forma estatal (burguesa ou proletária) e contestou-se a concepção instrumentalista do Estado, seja como mecanismo neutro (acima das classes), seja como sustentação de um aparato coercitivo desprovido totalmente de autonomia.

Deixou-se de aceitar uma identificação necessária da democracia política e de seus institutos com os valores burgueses

De acordo com a análise desenvolvida pelo crítico baiano na revista Encontros com a Civilização Brasileira, aquela identificação provinha de uma visão “estreita”, baseada em equivocada concepção da teoria marxista do Estado, e tinha origem, principalmente, em um distorcido entendimento das “tarefas” que deveriam ser realizadas pelas forças populares brasileiras no contexto da transição alavancada pelo enfraquecimento do regime de exceção que vigorava no Brasil desde os anos 1960, pela extenuação do reconhecimento internacional desse regime e pela crescente mobilização das forças sociais. Tais tarefas supunham o choque entre duas concepções acerca da via conveniente para o socialismo: uma que fazia meio de “guerra de posições”; e outra, em contraste, que defendia o recurso à “guerra de movimentos”. Enquanto esta sustentava o confronto imediato pelo socialismo, o assalto ao poder, aquela apoiava um investimento longo, no interior do Estado, para a construção dos pressupostos políticos, econômicos e ideológicos suscetíveis de consolidar o estabelecimento paulatino do socialismo brasileiro. “La gran enseñanza de los golpes militares es que el socialismo no puede (no debe) ser un golpe”.32 A concepção da “guerra de posições” preconizava um entendimento unidirecional da política, uma vez que se baseava na premissa de que a condução estratégica do assalto ao poder seria concentrada, dependendo exclusivamente de uma organização - partido ou movimento -, expropriando o poder de decisão da participação popular. A democracia, desse modo, teria somente uma qualidade instrumental e tática, e as experiências de democratização dos variados espaços em que acontecem os pequenos êxitos da realidade cotidiana dos setores populares teriam menor importância. Sobre a ideia de democracia como mera forma de governo a ser superada pelo socialismo, Aricó, ironizando o que era costumeiro na Terceira Internacional desde sua fundação até o ano de 1935, comentou: “Aferrados al mito del socialismo como superador de la democracia, los comunistas acabaron instalando una autocracia. Lo que quedó fue cualquier cosa, pero nunca socialismo”.33 A crítica do intelectual cordobês não se restringe aos comunistas. Aricó não poupa, também, os social-democratas: “Tratando de no abandonar el campo de la democracia, los socialdemócratas olvidaron el socialismo”.34

Para Coutinho, claramente fiel à primeira concepção, a esquerda brasileira deveria assimilar as novas referências teóricas que se vinham desenvolvendo no movimento socialista europeu, especialmente o italiano, um conjunto de conceitos que estavam sendo formulados no arcabouço teórico do que, então, designou-se como eurocomunismo.35 A transição por que passava o Brasil deveria integrar uma lenta “guerra de posições” dentro dos marcos da síntese político-ideológica que começava a ser estimulada entre socialismo e democracia:

{...} o valor da democracia não se limita a áreas geográficas. Pois se há por sua vez algo de universal nas reflexões teóricas e na prática política do que é hoje chamado de eurocomunismo, esse algo é precisamente o modo novo - um modo dialeticamente novo, não uma novidade metafisicamente concebida como ruptura absoluta- de conceber essa relação entre socialismo e democracia (grifos no original).36

Sobre o propósito que o motivou a escrever aquele ensaio iconoclasta, Coutinho observou:

Na conjuntura de 1979, quando ainda eram incertos os caminhos dessa transição e a esquerda brasileira vivia sérios dilemas de identidade {…}, sublinhar a ineliminável dimensão democrática do socialismo aparecia, certamente, como uma tarefa prioritária. Naquele momento, era preciso acentuar com ênfase que, sem democracia, não existe socialismo {…}(grifos no original).37

Entretanto, havia, no Brasil, correntes de pensamento, como facções do PCB, que continuavam a entender a democracia única e simplesmente como instrumento de corrosão da ordem burguesa, como etapa antecedente ao socialismo, ou, ainda, reconheciam a democracia meramente como obstáculo a ser transposto pelas forças de uma vanguarda revolucionária. Até mesmo o fiasco da invasão soviética do Afeganistão, no dia 25 de dezembro de 1979, não demoveu essas correntes da esquerda brasileira, para as quais o eurocomunismo poderia ser entendido apenas como abandono do socialismo, ou, possivelmente, do mesmo modo como sugeriu o líder comunista albanês, Enver Hoxha (1908-1985), isto é, como anticomunismo.38 Ao dar apoio incondicional às considerações de Berlinguer em Moscou, Coutinho, que estivera exilado em Bolonha e depois em Paris, no ensaio publicado na revista Encontros com a Civilização Brasileira, fustiga alguns postulados do PCB:

{...} há correntes e personalidades que revelam ter da democracia uma visão estreita, instrumental, puramente tática; segundo tal visão, a democracia política - embora útil à luta das massas populares por sua organização e em defesa dos seus interesses econômico-corporativos - não seria mais, em última instância e por sua própria natureza, do que uma nova forma de dominação da burguesia, ou, mais concretamente, no caso brasileiro, dos monopólios nacionais e internacionais (grifos no original).39

Inserindo-se no debate sobre a democracia insuflado pela transição política que ganhava forma e representando, em parte, a posição da revista Encontros com a Civilização Brasileira, o crítico polemizou com algumas perspectivas teóricas do PCB, partido de que era um quadro destacado, vinculado à tendência conhecida como renovadora, de Armênio Guedes e Davi Capistrano da Costa. Em 1982, em virtude do enfraquecimento dessa tendência nas orientações do partido, o crítico e tradutor de Gramsci abandonou o PCB. Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e outros intelectuais da tendência renovadora foram qualificados, de modo depreciativo, como “direitinha”, pelos grupos do PCB terminantemente hostis ao revisionismo.

Naquele contexto, as intervenções fulminantes de Carlos Nelson Coutinho dirigiram-se, de modo geral, como o próprio crítico veio a referir, à compreensão de correntes de pensamento ligadas ao marxismo-leninismo sobre a relação da democracia com a transição política brasileira e com o devir do socialismo no Brasil:

Qualquer tentativa de impor modificações radicais por meio da ação de minorias (militares ou não) levará as forças populares a grandes desastres políticos {…}. O “golpismo de esquerda” - que infelizmente marcou boa parte do pensamento e da ação política das correntes populares no Brasil - é apenas uma resposta equivocada e igualmente “prussiana” aos processos de direção “pelo alto” de que sempre se valeram as forças conservadoras e reacionárias em nosso País. Quanto mais se torne efetiva a socialização da política, tanto menos será possível invocar a justificação relativa de processos desse tipo.40

Pode ser interessante lembrar a nota informativa que habitualmente aparecia logo depois de cada sumário da revista Encontros com a Civilização Brasileira. A indefectível nota registrava o que segue: “sempre visando o diálogo e o debate sobre problemas do humanismo contemporâneo, {Encontros} é uma publicação aberta a várias correntes da cultura internacional {...}.” Pode-se concluir, raciocinando metonimicamente, que a revista, uma vez que se considerava “aberta a várias correntes da cultura internacional”, também o seria em relação à cultura nacional. Como sua exitosa antecessora, cujos responsáveis pretendiam “oferecer uma tribuna a todas as tendências de esquerda e inspirar-se no exemplo de Les Temps Modernes”,41Encontros pretendia-se heterodoxa. Com efeito, pelo menos no que teve a ver com o debate sobre a democracia, essa manifesta posição da revista foi respeitada. Do contrário, não haveria, talvez, espaço para o ensaio de Adelmo Genro Filho, “A democracia como valor operário e popular”,42 escrito, conforme o próprio autor refere, como “resposta a Carlos Nelson Coutinho”.

Em nome de uma “ontologia humanista” e de uma “ética revolucionária” sob a plataforma teórica do marxismo, Adelmo Genro Filho pretende refutar o enfoque do ensaio de Carlos Nelson Coutinho, a começar pelo título, “A democracia como valor universal”, “síntese mais perfeita” do “equívoco” desse enfoque, sugerindo, pelo emprego de uma visível paródia, novo título e nova tese: “A democracia como valor operário e popular”.43 Para Coutinho, tendo a “questão democrática” como foco de análise, tratava-se, antes de mais nada, “de conquistar e depois de consolidar um regime de liberdades fundamentais”,44 o que permitiria, paulatinamente, pela aliança dos interessados segmentos da sociedade, o aprofundamento de uma “democracia organizada de massas”.45 Ora, por contraste, para Adelmo Genro Filho, tais proposições pareciam demasiadamente “simplistas” e, talvez, até mesmo ingênuas:

Quais as forças interessadas na conquista e na permanência das “regras do jogo” da democracia liberal - burguesa? Absolutamente nenhuma. A burguesia no Brasil já fez sua revolução. O bloco hegemônico aposta na abertura como uma jogada de recuo tático, aliás, uma “abertura” a seu modo. {…} Os trabalhadores e as demais classes populares igualmente não estão interessados na permanência das “regras do jogo” da democracia formal. Estas, são apenas aspectos das reivindicações potencializadas objetivamente pela estrutura econômica existente (grifos no original).46

Refratário a qualquer tipo de política de aliança com setores da burguesia, a mesma que levara o PCB, nos anos anteriores ao golpe de abril de 1964, a apostar em um pacto com a “burguesia progressista”, Adelmo Genro Filho reconhece que os setores burgueses não hegemônicos buscam, no máximo, uma parcela de influência no bloco de poder, sempre levando em consideração a “inviabilidade histórica de um desenvolvimento capitalista autônomo no quadro das relações econômicas internacionais”.47 Como decorrência dessa premissa, a avaliação de Adelmo Genro Filho assume, de maneira implícita, que o caráter da burguesia brasileira, com sua revolução já realizada, seria fundamentalmente bonapartista. Associando a abordagem de Coutinho a outro enfoque divulgado na mesma publicação, ou seja, a perspectiva defendida pelo dirigente comunista italiano, Lucio Lombardo Radice, no texto “Um socialismo a ser inventado”,48 Genro Filho sugere que essas duas orientações teóricas são, na prática, reformistas. Lombardo Radice era, naquele momento, um apoiador do eurocomunismo, tendência na qual reconhecia um paradigma de superação tanto do modelo soviético como do modelo social-democrata. Ambas as formulações incorrem em erro, na avaliação de Genro Filho, na medida em que renunciam à categoria “revolução”, suplantada pela confiança na busca da hegemonia enquanto processo contínuo:

O reformismo, entre os marxistas, via de regra não é uma postura consciente, é um espaço que fica entre a análise e a realidade. Coutinho instaura esse espaço em seu artigo quando não capta a complexidade das potências que contém a sociedade brasileira. Mas a origem do erro é produto de um tipo de marxismo muito conhecido na Europa, especialmente no seu horror à categoria “revolução” quando se trata de política.49

Irredutível, Genro Filho não aceita abandonar os esquemas que haviam sido norteadores inquestionáveis de segmentos nada insignificantes do movimento socialista latino-americano e brasileiro durante parte considerável do século XX: “Indicada a ruptura como essencial, a revolução como categoria imprescindível do marxismo, só então pode-se colocar a possibilidade de que o novo Estado mantenha certas formas da democracia burguesa” (grifos no original).50 Com uma interpretação que toca as raias do purismo, conclui:

{...} falar de “socialismo” com “democracia política” é uma postura teórico-metodológica por demais conhecida na história das lutas operárias, que não faz avançar um centímetro sequer as questões reais do exercício de poder no socialismo. Ao contrário, elide o problema da verdadeira e original democracia operária e popular por construir. Portanto, a perspectiva da análise marxista coloca exatamente o problema da “democracia como valor operário e popular” e não como “Valor Universal”.51

Para Aricó e outros integrantes de Controversia, como Portantiero, a tradicional dicotomia entre democracia política, “formal”, e democracia econômica e social, “real”, recorrentemente afirmada pela intelectualidade de esquerda, era uma separação vaga, contraproducente naquele contexto. De acordo com Portantiero, convinha “{...} apreciar la cuestión democrática como un bien valioso en sí mismo para una sociedad gravemente enferma de autoritarismo”.52

Mais do que insistir em deficiências e limitações da democracia política e em supostos potenciais prodigiosos de uma democracia econômica e social, mais do que superestimar as responsabilidades de segmentos sociais dominantes e de fatores político-econômicos exógenos, importava buscar nas próprias ações e no pensamento dos movimentos populares as contradições que poderiam debilitar o irrestrito desenvolvimento da democracia:

{...} discutir sobre democracia no puede significar mostrar la responsabilidad de los militares, el imperialismo, la oligarquia y la gran burguesia, por su falencia, sino indagar en la propia realidad de las clases populares, en su propia interioridad, para encontrar allí las razones de su debilidad: mostrar su presencia en su propia fuerza, en las organizaciones sociales en que se organiza, en las fuerzas políticas en que se expresa, en las ideologías a partir de las cuales conoce a la sociedad y a sí mismas. {...} Se trataria, como disse Tomás Borge, de buscar el monstruo en nosotros mismos, y no ya fuera de nosotros (grifos no original).53

Poucos meses antes de sair o primeiro número de Controversia, Portantiero escreveu, na segunda época dos Cuadernos de Marcha, como colaborador temporário, em um número inteiro dedicado à situação na Argentina, sobre as transformações macropolíticas do capitalismo e seus efeitos na América Latina:

La reorganización en curso del capitalismo mundial afecta de manera muy especial a aquellas naciones que pertenecen al tipo que Wallerstein llama “semiperiféricas”, es decir, que ocupan una posición intermedia en la división internacional del trabajo y que, en momentos de crisis de la economía mundial, resultan particularmente sensibles a la necesidad de reubicación en el sistema. Y ese es el caso de nuestras burguesías.54

A reacomodação à qual aludiu Portantiero, ou melhor, o aggiornamento da superestrutura decorrente das metamorfoses econômicas produzidas pela emergência de um novo ciclo histórico no desenvolvimento do capitalismo, requeria mudanças políticas. Nos países centrais, a revolução científico-tecnológica também já havia libertado forças históricas de transformação. Se a arena de lutas sociais que se descortinava era construída dentro dos marcos da democracia liberal e do Estado de Direito, fazia-se necessária, para o campo da intelectualidade crítica latino-americana, a reflexão sobre as posições políticas e os paradigmas teóricos que deveriam ser defendidos na nova conjuntura, como se pode inferir destas observações de Portantiero, excerto de ensaio publicado no primeiro número da revista Controversia:

El golpe militar de marzo de 1976 replantea ahora toda la cuestión y coloca las bases para una redefinición profunda de la problemática aquí esbozada. Por un lado, la democracia formal ya no aparece como un puro reclamo liberal. Por el otro, la hondura de la crisis y el monto de los cambios que el grupo dominante quiere efectuar en la Argentina, obligan a pensar en cuáles serían las bases para la estructuración de un proyecto democrático que sea a la vez político y social, formal y fundamental. {…} a partir de un examen de la discusión que sobre la democracia tiene lugar hoy en la Argentina habría que ver cuáles son en esta hora las condiciones sociales que pueden hacer posible a la democracia; qué “estilo de desarrollo” le es afín y cuál le es irremediablemente hostil.55

O mais plausível era supor que a produção de novas relações sociais poderia ser construída sob regimes democráticos e dentro de marcos institucionais

Ciente de que a transição democrática seria um processo conduzido pelo bloco hegemônico, por representantes das forças sociais que haviam dado sustentação política ao regime ditatorial - uma “modernização” da sociedade e do Estado, organizada pelo próprio Estado -, Portantiero expressou nessas observações reservas análogas àquelas manifestadas por Carlos Quijano neste fragmento do texto que abriu o número de estreia da segunda época dos Cuadernos de Marcha: “Sin duda el ‘restablecimento de la democracia’ tiene prioridad. Pero ¿de qué democracia se trata? O, si se prefiere, ¿de qué instituciones democráticas se trata?”.56 Tanto o sociólogo argentino como o economista uruguaio, ambos pertencentes à rede de intelectuais platinos exilados no México após a ascensão dos regimes militares ao poder nos países do Cone Sul, parecem antever os rumos que a política latino-americana iria percorrer nos albores da transição que se insinuava. Entre o assombro e a esperança, Carlos Quijano, enfant terrible do periodismo político-cultural latino-americano, parece manifestar, neste trecho, a percepção de que o contexto requeria sínteses em vez de opções insuladas, de falsas bifurcações: “Democracia, integración, ruptura del molde capitalista, he ahí, según pensamos y creemos con angustia y esperanza, las metas de nuestro difícil y exultante quehacer. Otra América vendrá. ¿Cuál? No lo sabemos. No hay modelos. La que seamos capaces de construir”.57

A crise teórica que se abateu sobre o movimento socialista internacional e sobre o pensamento de esquerda latino-americano, na esteira da dissolução e da derrota militar do campo popular, das guerrilhas armadas, fez com que o antagonismo excludente socialismo versus barbárie, de Rosa Luxemburgo, fosse substituído pela busca de conciliação entre duas correntes de ideias que se vinham digladiando há quase 200 anos: a democracia e o socialismo. No limite das possibilidades de transformação que se apresentavam, sem haver espaço para rupturas bruscas, o mais plausível era supor que a produção de novas relações sociais poderia ser construída sob regimes democráticos e dentro de marcos institucionais. Ganhou alento, assim, o reformismo democrático, a confiança no sucesso das grandes frentes, das alianças. Mais do que mera decorrência dos “encaixes” e “modernizações” alavancados pela superestrutura emergente, a democracia, naquele momento, foi, como defendeu Portantiero, um conceito que esteve embutido no centro dos dilemas por que passava o marxismo:

{...} la relación entre democracia y socialismo está en el mismo centro de la polémica actual del marxismo contemporáneo. Más aún: quisiera decir que si el marxismo no resuelve esa dificultad de la interacción entre ambos términos estará agotado como programa de la revolución contemporánea y quedará confinado como una teoría estatalista de la acumulación del capital en sociedades atrasadas (grifo meu).58

O revigoramento do movimento socialista, como potência histórica de transformação, como “força mítica”, dependia, por conseguinte, da relação que se deveria buscar estimular, de acordo com o que se pode ler neste trecho escrito por José Aricó, entre as ideias de “socialismo” e de “democracia”:

Sobre los pilares de las ideas de “socialismo” y de “democracia” (y de democracia formal, acentuaría) puede constituirse esa síntesis de la que requiere hoy el movimiento socialista para reconquistar la unidad entre teoría y práctica, ética y política, ser y deber ser que constituyó durante muchos años la razón de su capacidad expansiva y transformadora, el secreto de su fuerza mítica (grifo meu).59

A síntese entre essas duas ideias, portanto, de cuja conciliação se esperava encontrar instrumentos capazes de oferecer respostas à crise que se abatia sobre o marxismo, sobre os intelectuais e sobre a esquerda, consistiu no principal desafio a que se propôs o pensamento independente latino-americano ao longo do período em que circularam as três publicações que compõem o objeto deste artigo.60 Essa síntese ocorreu, principalmente, sob a influência do pensamento de Gramsci, como assinalou Rollemberg: “O conceito de democracia foi ampliado em segmentos da esquerda. Gramsci aparece como importante referência”.61 Em suma, o alargamento do conceito de democracia implicou a assimilação de um entendimento da política como zona de permanente conflito e o abandono, crítico, na visão de Ariana Reano, da “antigua concepción de lo político como unidad sin fisuras, es decir, la vieja idea de la sociedad socialista sin contradicciones”.62 Assim, a conquista da hegemonia, uma vez que mediada irresistivelmente pela política, agora compreendida como lugar de incessante conflito, passa a ser concebida como realização permanente.

1Trabalho realizado com apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

2Norbert Lechner, “De la revolución a la democracia”, In: ______., Los patios interiores de la democracia, subjetividad y política, Santiago de Chile, FLACSO, 1988, p. 23. Ao passo que a modernização desenvolvimentista enfrentava obstáculos em quase toda a América Latina, agravando problemas sociais, assistia-se a rápidas e radicais mudanças conduzidas pela Revolução Cubana, evidenciando a inviabilidade do modelo de desenvolvimento capitalista vigente e a consequente necessidade histórica de uma ruptura revolucionária no subcontinente. Bukharin, influente teórico marxista e político soviético, condenado à morte e executado em 1938 nos Processos de Moscou, nos seus escritos sobre o materialismo histórico, explicou a categoria “necessidade histórica” deste modo: “Quando consideramos que um determinado fenômeno foi uma necessidade histórica, o que pretendemos é afirmar que esse fenômeno deve necessariamente suceder, a despeito de ser bom ou mau” (grifo no original, tradução minha). Nikolai Bukharin, Historical materialism. A system of Sociology, Abingdon, Routledge, 2011, p. 47. Embora o sentido moderno da revolução esteja nas antípodas daquilo que, no âmbito da astronomia, conotava primordialmente, isto é, um movimento cíclico, um outro sentido derivado do termo astronômico preservou-se no emprego atual da ideia de revolução, ou seja, o sentido de irresistibilidade, difundindo-se de maneira contundente no pensamento ocidental a partir do fim do século XVIII, como observado por Hannah Arendt: “La noción de un movimiento irresistible, que el siglo XIX iba pronto a traducir conceptualmente a la idea de la necesidad histórica, resuena desde la primera hasta la última página de la Revolución francesa”. Hannah Arendt, Sobre la revolución, Madrid, Alianza Editorial, p. 64. De modo geral, os termos e expressões grafados entre aspas ao longo deste texto e redigidos imediatamente antes de notas derivam de paráfrases, aparecendo do mesmo modo originalmente. O leitor poderá encontrar melhor desenvolvimento sobre esses termos na fonte.

3Norbert Lechner, op cit., p. 24.

4Raul Burgos, Os gramscianos argentinos. Cultura e política na experiência de Pasado y Presente, Tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1999.

5Paul Hirst, “Representative democracy and its limits”, The Political Quarterly, vol. 59, n. 2, 1988, p. 190.

6Paul Hirst, “Representative democracy and its limits”, The Political Quarterly, vol. 59, n. 2, 1988, p. 190. Hostilizado por cientistas sociais conservadores e liberais e por marxistas, comprometido com a formulação de uma armadura conceitual para uma teoria da democracia associativista, Hirst, quando a democracia representativa estava no auge, atreveu-se a formular uma crítica ao “idioma dominante”: “Desafiar o idioma dominante parece ser suicídio político, mas tal desafio precisa ser feito em nome da democracia” (tradução minha). Ibidem.

7Oscar Terán, Nuestros años sesentas. La formación de la nueva izquierda argentina (1956-1966), 3. ed., Buenos Aires, Ediciones el Cielo por Asalto, 1993, p. 11. Junto com os termos “críticos” e “denuncialistas”, Terán emprega a expressão “contestatários” para se referir a uma geração de intelectuais argentinos, na qual não deixa de se incluir, que articulou, nos anos 1960, a renovação teórica e o desejo da ação política contínua dinamizada pelas paixões ideológicas. Guardadas as diferenças, essa atitude intelectual, baseada no pensamento de Gramsci e na noção sartreana de “compromisso”, definiu um clima de ideias extremamente abrangente, com repercussão no meio intelectual que formulou os projetos político-culturais das três publicações analisadas neste artigo.

8José R. Eliaschev, “Una nueva ecuación para América Latina”, Controversia. Para el exámen de la realidad Argentina, año II, n. 9-10, 1980, p. 41.

9Gerardo Caetano; Adolfo Garcé, “Ideas, política y nación en el siglo XX”, In: Oscar Téran (coord.), Ideas en el siglo. Intelectuales y cultura en el siglo XX latinoamericano, Buenos Aires, Siglo XXI Editores, 2004, p. 354.

10Denise Rollemberg, Exílios, entre raízes e radares, Rio de Janeiro, Record, 1999, p. 200.

11Por razões de espaço, selecionou-se, nas revistas analisadas, um corpus de texto que busca condensar os eixos argumentativos deste artigo. Destacaram-se textos de cinco autores: José Aricó e Juan Carlos Portantiero, por terem sido expoentes da “nova esquerda” argentina e figuras emblemáticas do grupo Pasado y Presente, em cuja história Controversia se inclui, tendo em conta o afastamento que esse grupo promoveu em relação às posições da esquerda tradicional; Carlos Quijano, porque, como sugeriu Onetti, “Quijano era Marcha”, motivo pelo qual Ángel Rama criou o apodo “Carlos Marcha”; e os brasileiros Carlos Nelson Coutinho e Adelmo Genro Filho, por terem sido as figuras-chave da polêmica sobre a democracia publicada em Encontros com a Civilização Brasileira. Não é ocioso lembrar, como o fez Pablo Rocca, daquilo que David Bennett observou sobre a operação de leitura de uma revista, pois, enquanto leitores, aqueles que analisam uma revista, ao (re)construírem uma narrativa, selecionam e omitem fragmentos, como o faz igualmente o mero leitor circunstancial: “Parece seguro assumir que poucos números de revistas são lidos in toto. A recepção de uma revista emula sua produção editorial: ler, aqui, é uma atividade de seleção e omissão que produz o texto como uma (espacial) colagem ou (temporal) montagem de fragmentos em provisórias e indeterminadas relações. A experiência de leitura de revistas é uma experiência de descontinuidade” (tradução minha). David Bennett, “Periodical fragments and organic culture: modernism, the avant-garde, and the little magazine”, Contemporary Literature, vol. 30, n. 4, 1989, p. 480. Pablo Rocca, “Por qué, para qué una revista (Sobre su naturaleza y su función en el campo cultural latinoamericano)”, Hispamerica, año XXXIII, n. 99, 2004, p. 4. Assim, mesmo que a escolha de artigos para análise seja devidamente justificada, os nexos que essa seleção produzir serão porventura provisórios e indeterminados, resultantes de uma operação quase sempre não linear.

12José María Aricó, “El destino se llama democracia”, In: Horacio Crespo (ed.), José Aricó: entrevistas (1974-1991), Córdoba, Ediciones del Centro de Estudios Avanzados, Universidad Nacional de Córdoba, 1999, p. 29.

13Do russo “ГУЛАГ”, acrônimo de: Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional e Colônias. Tendo funcionado de 1930 a 1960, na ex-União Soviética, o Gulag foi um sistema concentracionário onde estiveram aprisionadas multidões de dissidentes políticos, dos quais muitos pereceram de frio, fome, doenças e exaustão.

14A importância da recepção do pensamento de Bobbio na América Hispânica e no Brasil foi devidamente analisada em: Alberto Filippi; Celso Lafer, A presença de Bobbio: América Espanhola, Brasil, Península Ibérica, São Paulo, UNESP, 2004. Para os objetivos do que é discutido neste artigo, vale consultar especialmente os seguintes capítulos: “Os ‘gramscianos argentinos’ e a interpretação da relação bobbiana entre liberalismo e socialismo”, “Bobbio na Argentina: das ditaduras ao retorno da cultura política democrática”, de Alberto Filippi; e “A presença de Bobbio no Brasil”, de Celso Lafer.

15Essa caracterização foi inspirada no filme de Margarethe von Trotta, Die Bleierne Zeit (Os anos de chumbo), pertencente à safra do que foi caracterizado como o “novo cinema alemão”. Galardoado com o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza de 1981, o filme esteve em cartaz em São Paulo no ano de 1983.

16Lelio Basso, “Democracia e socialismo na Europa ocidental”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 24, 1980, p. 107.

17O Jdanovismo tem origem no nome de seu principal artífice e instigador, Andrei Alexandrovitch Jdanov (1896-1948), e consistiu na ingerência das autoridades soviéticas sobre a cultura. Até a sua morte, Jdanov dedicou-se a restringir todas as liberdades dos produtores culturais. O Jdanovismo desenvolveu-se sistematicamente após a Segunda Guerra Mundial. Entre suas vítimas, estiveram os escritores Mikhail Zoshchenko (1894-1958) e Anna Akhmatova (1889-1966) e os músicos Dmitri Shostakovitch (1906-1975) e Serguei Prokofiev (1891-1953). Jdanov foi considerado o carrasco cultural de Stalin. O ponto de partida do Jdanovismo foram os ataques obscenos, em 1946, contra as revistas literárias Zvezda e Leningrad, penalizadas pelo Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) por terem servido como plataforma para os textos de Zoshchenko e de Akhmatova. Na música, o censor dessa política cultural de cerceamento foi o compositor Tikhon Khrennikov (1913-2007), derivando disso o termo “Khrennikovismo”. Essa definição do Jdanovismo pode ser encontrada em: Henri Dorion; Arkadi Tcherkassov, Le russionnaire: petite encyclopédie de toutes les Russies, Québec, Éditions MultiMondes, 2001, p. 119.

18De acordo com o historiador argentino Horacio Tarcus, esse tipo de prática “expurgatória”, pelo menos na Argentina, não foi exclusivo do comunismo ortodoxo, uma vez que os partidos críticos à ortodoxia, como os trotskistas, maoístas e guevaristas, fundavam-se sobre uma estrutura centralista e verticalista, altamente hierarquizada. Nas palavras do próprio Tarcus, baseavam-se em “una cultura interna sofocante que si bien vive de los pleitos internos, al mismo tiempo ha sido históricamente intolerante con los disidentes”. Horacio Tarcus, “Notas para una crítica de la razón instrumental. A propósito del debate en torno a la carta de Oscar del Barco”, Políticas de la Memoria, n. 6-7, 2006/2007, p. 24.

19Juan Carlos Portantiero apud Gerardo Caetano; Adolfo Garcé, “Ideas, política y nación en el siglo XX”, In: Oscar Téran (coord.), Ideas en el siglo. Intelectuales y cultura en el siglo XX latinoamericano, Buenos Aires, Siglo XXI Editores, 2004, p. 354-355.

20Alberto Filippi, La cultura política latinoamericana en la segunda mitad del siglo XX. Las contribuciones de José Aricó entre marxismos teóricos y socialismos reales, Córdoba, 26 de setembro de 2011. Conferência proferida na abertura das Jornadas Internacionales José María Aricó e realizada no Pabellón Residencial, Facultad de Filosofía y Humanidades, Ciudad Universitaria, Universidad de Córdoba, Argentina.

21Mempo Giardinelli, “David Tieffenberg: el socialismo que está solo y espera”, Controversia. Para el exámen de la realidad argentina, año II, n. 4, 1980, p. 11.

22Ibidem.

23Daniel Pécaut, Os intelectuais e a política no Brasil. Entre o povo e a nação, São Paulo, Ática, 1990, p. 281-282.

24Luiz Renato Vieira, Consagrados e malditos: os intelectuais e a Editora Civilização Brasileira, Brasília, Thesaurus, 1998, p. 193.

25Além das objeções de José Paulo Netto, o texto publicado em Encontros com a Civilização Brasileira, “A democracia como valor universal”, valeu ao autor, conforme o próprio Carlos Nelson Coutinho lembra depois de 20 anos, no prefácio que escreveu em livro que reúne seus ensaios sobre a conturbada relação entre democracia e socialismo, duras críticas, tanto das correntes marxistas-leninistas como de reputados liberais. Na segunda nota desse prefácio, são referidos os seguintes textos: do lado marxista-leninista, o panfleto de Octávio Rodrigues, Contra o revisionismo, {s.l.} {s.n.}, 1979, 55 p., e o ensaio de Adelmo Genro Filho, irmão de Tarso Genro, intitulado “A democracia como valor operário e popular”, publicado também na revista Encontros com a Civilização Brasileira, no 17º número, de novembro de 1979, p. 195-202; do lado liberal, os dois ensaios do diplomata e crítico José Guilherme Merquior: “Marxismo e democracia”, republicados em José Guilherme Merquior, As idéias e as formas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, p. 232-240.

26Caio Navarro de Toledo, “A modernidade democrática da esquerda: adeus à revolução?”, Crítica Marxista, n. 1, São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 28.

27Não se pode deixar de mencionar, também, como núcleo ideológico de renovação da cultura marxista brasileira nos anos 1970, a revista Temas de Ciências Humanas (1977-1979), cujo editor foi Raul Mateos Castell. Marcos Del Roio, “Leandro Konder e um capítulo da história dos intelectuais”, In: Maria Orlanda Pinassi (org.), Leandro Konder: a revanche da dialética, São Paulo, Boitempo, 2002, p. 131.

28Ibidem, p. 130.

29Carlos Nelson Coutinho, Democracia: um conceito em disputa. Disponível em: <http://www.socialismo.org.br/portal/filosofia/155-artigo/699-democracia-um-conceito-em-disputa->. Acesso em: 21 de novembro de 2012. O ensaio de Carlos Nelson Coutinho publicado na revista Encontros com a Civilização Brasileira foi considerado por Marco Aurélio Nogueira e por Marcos Del Roio (op cit., p. 132) como um “divisor de águas” para o marxismo brasileiro. Conforme Nogueira (apud Toledo, “A modernidade democrática da esquerda: adeus à revolução?”, Crítica Marxista, n. 1, São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 29, nota # 5), o texto de Coutinho “impulsionou realinhamentos teóricos fundamentais e, sobretudo, ajudou a consolidar, entre muitos revolucionários, uma cultura política democrática e uma visão moderna de socialismo”.

30Carlos Nelson Coutinho, Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo, São Paulo, Cortez, 2000, p. 9.

31Carlos Nelson Coutinho, Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo, São Paulo, Cortez, 2000, p. 10.

32Francisco Weffort, 1984, apud Norbert Lechner, “De la revolución a la democracia”, In: ______., Los patios interiores de la democracia, subjetividad y política, Santiago de Chile, FLACSO, 1988, p. 26.

33José María Aricó, “Ni cinismo ni utopia”, Controversia. Para el exámen de la realidad argentina, año II, n. 9-10, 1980, p. 15.

34Ibidem.

35Marcos Del Roio apresenta a seguinte definição: “A expressão ‘eurocomunista’ tem origem na publicística do debate político italiano, referindo-se à estratégia desenvolvida pelo então secretário-geral do PCI, Enrico Berlinguer, conhecida como ‘compromisso histórico’. Simplificadamente, constituía um projeto de aliança entre massas comunistas e católicas no marco da defesa e aprofundamento da democracia. O respaldo teórico era oferecido por uma certa leitura de Gramsci, que colocava a questão democrática no centro da ação político-cultural dos comunistas. {...} O que se buscava era um novo nexo estratégico entre democracia e socialismo” (grifo meu): Marcos Del Roio, “Leandro Konder e um capítulo da história dos intelectuais”, In: Maria Orlanda Pinassi (org.), Leandro Konder: a revanche da dialética, São Paulo, Boitempo, 2002, p. 133.

36Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 9, 1979, p. 34.

37Carlos Nelson Coutinho, Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo, São Paulo, Cortez, 2000, p. 12.

38Enver Hoxha, O eurocomunismo é anticomunismo, São Paulo, Anita Garibaldi, 1983.

39Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 9, 1979, p. 34.

40Carlos Nelson Coutinho, “A democracia como valor universal”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 9, 1979, p. 45.

41Daniel Pécaut, Os intelectuais e a política no Brasil. Entre o povo e a nação, São Paulo, Ática, 1990, p. 207.

42Adelmo Genro Filho, “A democracia como valor operário e popular”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 17, 1979, p. 195-202.

43Ibidem, p. 196.

44Carlos Nelson Coutinho, op cit.

45Ibidem, p. 46.

46Adelmo Genro Filho, “A democracia como valor operário e popular”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 17, 1979, p. 197.

47Ibidem.

48O texto publicado em Encontros com a Civilização Brasileira é uma adaptação de livro homônimo publicado no mesmo ano na Itália. Lucio Lombardo Radice, Un socialismo da inventare, Roma, Editori Riuniti, 1979.

49Adelmo Genro Filho, op cit., p. 198-199.

50Adelmo Genro Filho, “A democracia como valor operário e popular”, Encontros com a Civilização Brasileira, n. 17, 1979, p. 202.

51Ibidem.

52Juan Carlos Portantiero, “Transición a la democracia en Argentina: ¿un trabajo de Sísifo?”, Cuadernos de Marcha, segunda época, año IV, n. 22, 1983, p. 16.

53José María Aricó, “Ni cinismo ni utopia”, Controversia. Para el exámen de la realidad argentina, año II, n. 9-10, 1980, p. 17.

54Juan Carlos Portantiero, “De la crisis del país popular a la reorganización del país burgués”, Cuadernos de Marcha, segunda época, año I, n. 2, 1979, p. 12.

55Idem, “La democracia difícil. Proyecto democrático y movimiento popular”, Controversia. Para el exámen de la realidad argentina, año I, n. 1, 1979, p. 7.

56Carlos Quijano, “Los caminos de la liberación”, Cuadernos de Marcha, segunda época, año I, n. 1, 1979, p. 3.

57Ibidem.

58Juan Carlos Portantiero, “De la crisis del país popular a la reorganización del país burgués”, Cuadernos de Marcha, segunda época, año I, n. 2, 1979, p. 12.

59José María Aricó, “La crisis del marxismo”, Controversia. Para el exámen de la realidad argentina, año I, n. 1, 1979, p. 13.

60Entre a grande quantidade de publicações nucleadoras de formações de esquerda, como Encontros com a Civlização Brasileira, a segunda época dos Cuadernos de Marcha e Controversia, constituintes da constelação de periódicos político-culturais latino-americanos que circularam no contexto da transição democrática, duas delas, uma argentina e uma brasileira, Punto de Vista e Novos Estudos do CEBRAP, foram analisadas por Ana Cecilia Arias Olmos, de acordo com quem: “En efecto, en el contexto de la transición, ambas publicaciones respondieron a los lineamientos éticos e ideológicos de una izquierda democrática para reclamar la efectivación de los derechos civiles y asumir la tarea de recuperar un ejercicio de ciudadanía que había sido sustraído por severos y prolongados regímenes autoritarios”. Ana Cecilia Arias Olmos, “Práctica intelectual y discurso crítico en la transición. Punto de Vista y Novos Estudos del CEBRAP”, Revista Iberoamericana, vol. 70, n. 208-209, 2004, p. 940. Essa constelação de periódicos e as redes que a compuseram, ora convergentes, ora divergentes, orbitaram o conceito de democracia.

61Denise Rollemberg, Exílios, entre raízes e radares, Rio de Janeiro, Record, 1999, p. 200.

62Ariana Reano, “Controversia y La Ciudad Futura: democracia y socialismo en debate”, Revista Mexicana de Sociología, vol. 74, n. 3, 2012, p. 494.

Recebido: 12 de Setembro de 2013; Aceito: 12 de Fevereiro de 2014

Coordination of translation: Thaís Iannarelli

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