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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.8 no.3 São Paulo July/Sept. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-78522000000300004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Procedimentos de um banco de ossos e a aplicabilidade dos enxertos por ele proporcionados

 

 

Milton V. RoosI; Antero Camisa Jr.I; Alexandre Fróes MichelinII

IMédicos preceptores da residência médica do CEOP. Serviço de cirurgia do quadril
IIMédico residente R2 do CEOP

 

 


RESUMO

Os autores demonstram neste estudo a viabilidade e funcionabilidade de um Banco de Ossos e a experiência da utilização durante os dezessete anos de sua criação.
O objetivo deste estudo é demonstrar a importância da manutenção de um serviço de Banco de Osso, bem como mostrar suas utilidades nos diversos tipos de intervenções ortopédicas. Ficando demonstrado, o protocolo para obtenção de possíveis doadores, métodos para retirada e armazenagem desses ossos, e a sua utilização em diversos procedimentos ortopédicos.

Descritores: Banco de Ossos, aloenxerto


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de tecidos homólogos para transplante vem aumentando consideravelmente nesta última década. Técnicas cirúrgicas aprimoradas, desenvolvimento de drogas imunossupressoras e os avanços gerais da medicina, vêm facilitando o uso de vários órgãos para transplantee em pacientes como por exemplo rins, coração, pulmão, fígado, córneas e ossos.

A tentativas de uso de enxerto ósseo homólogo datam do século passado, porém o reconhecimento dos processos infecciosos e a não observância dos métodos de assepsia redundaram em repetidos fracassos, fazendo com que o método fosse relegado.

Algumas tentativas esporádicas de prevenção de ossos, ocorreram desde que Ollier, originalmente, discutiu o conceito em 1967, mas o primeiro esforço conjunto para armazenar ossos para uso eletivo e uma descrição da eficácia clínica, foi dada por Inclan em 19422, 3. Verbeek & Kingma relataram, em 1953, o uso de enxerto ósseo cortical em um banco de ossos da Holanda5, 9. Porém a sistemática de retirada, tratamento e estocagem de tecidos foram sistematizadas pelo professor Imamanaiev na Rússia durante a década de 604. A partir de então grande número de técnicas de conservação e armazenamento, além de pesquisas laboratoriais, visando conservar o potencial biológico do enxerto têm sido descritas.

Em 1982 foi criado em Passo Fundo - RS o Banco de Ossos, sendo o primeiro serviço institucionalizado do Brasil. A partir de então, o material estocado tem sido utilizado de forma sistemática, com sucesso, em centenas de casos complexos de reconstrução do esqueleto ósseo, ressaltando-se que os primeiros casos de transplantes de fêmur do Brasil também foram realizados em Passo Fundo - RS pela equipe do Centro de Estudos Ortopédicos no Hospital São Vicente de Paulo.

O objetivo do presente estudo é demonstrar a importância da manutenção de um serviço de banco de ossos, por sua facilidade de implantação e grande importância na recuperações do tecido ósseo em diversos tipos de intervenções ortopédicas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Doadores: São doadores potenciais de osso, paciente com morte cerebral cuja família dê consentimento para a doação dos órgãos e paciente hígidos submetidos à cirurgias eletivas como artroplastia de quadril, nos quais será ressecada uma porção óssea.

Os potenciais doadores devem obedecer critérios para serem admitidos para doação, critérios esses semelhantes aos da American Association of Tissue Banks for Boné Donation2, como por exemplo, não ter história de infecção ou potencialidade infecciosa antes da obtenção do enxerto, ter um curso de internação hospitalar afebril, não ter estado por mais de 72 horas em respirador, não estar acometido de doença crônica ou infecto-contagiosa ou mesmo estar sob uso crônico de esteróides.

Após a admissão desses pacientes, é realizada uma revisão da história médica pregressa a fim de descartar a presença de alguma patologia que venha a impossibilitar o aproveitamento do material para transplante. Também é retirada amostra de sangue para ser submetida a exames (Quadro 1).

 

 

A seguir faz-se a retirada do elemento desejado, que deve ser iniciada pelos membros e por último do quadril, por ser uma região mais propícia a contaminação7. Neste procedimento devem ser seguidas rigorosamente as regras de assepsia e anti-sepcia comuns a um ato cirúrgico convencional.

Osso Utilizado e Armazenagem: São utilizados fêmur, joelho e ilíaco, podendo ser retirados úmero, costelas e ossos longos em geral. Após a retirada dos ossos é procedida a limpeza de todas as partes moles, inserções musculares e periósteo. Então é feita a lavagem com soro fisiológico e gentamicina (80mg para cada 500ml de soro fisiológico) e estocado em recipiente plástico estéril e hermeticamente fechado e mantido a uma temperatura de cerca de 20° negativos em um freezer convencional. Nessa temperatura, as enzimas presentes no tecido ainda estão ativas e eventualmente destruirão o tecido7, 6. É oportuno lembrar que a estas temperaturas não se recomenda utilização de ossos com mais de seis meses de armazenamento.

Receptores: A utilização dos aloenxertos de ossos de bancos está indicada em pacientes que necessitam de reparação de fraturas, artrodeses, reconstruções em lesões císticas, pós remoção de tumores, e é também amplamente utilizado em reconstruções do quadril em casos de revisão de artroplastia total de quadril1.

 

RESULTADOS

O uso de enxerto homólogo de osso oriundo de Banco de Ossos tem se mostrado vantajoso em muitos aspectos como a não necessidade de sacrifício das estruturas normais e ausência de morbidez do local doador2, 3, 7. Não havendo a necessidade de um acesso cirúrgico secundário, em conseqüência, os riscos de infecção da ferida cirúrgica serão menores, bem como a perda sanguinea adicional ou prolongamento do tempo de anestesia, lembrando ainda o menor desconforto pós operatório. Além disso, o emprego desse método proporciona ao ortopedista uma grande quantidade de material e uma variedade de formas anatômicas. Outras vantagens seriam a sua biocompatibilidade8, baixa imunogenicidade e custo operacional não muito elevado.

 

DISCUSSÃO

A manutenção de um serviço de Banco de Ossos em locais onde se realizam intervenções ortopédicas, passará a curto prazo, a ser imprescindível, tendo em vista os benefícios advindo de procedimentos que necessitam lançar mão de grandes quantidades e diversas formas anatômicas de material que deverá estar estocado.

 

Figura 1

 

Segundo Tomford, W. W., MD et. All.7, o Banco de Ossos não é uma tarefa fácil, pois requer um ambiente legal de contribuição tanto das famílias dos doadores como dos médicos, além de instalações confiáveis. Em antigos registros médicos e representado em obras de arte, desde há muitos séculos, já se observava o desejo de reparar ou substituir partes lesadas ou doentes, por meio de transplante de tecidos saudáveis4, porém, as aplicações clínicas de aloenxertos humanos têm ocorrido mais recentemente e tem procurado a cada momento melhoria das condições cirúrgicas para que os objetivos sejam satisfatoriamente alcançados.

 

 

De acordo com Friedlaender, G. E., MD, 19822, as inovações técnicas na cirurgia ortopédica reconstrutiva e a evolução da metodologia do banco de ossos não estão apenas ligadas intimamente mas são também interdependentes. Sem a disponibilidade de aloenxertos maciços de tamanho e forma apropriados, estas inovações não poderiam ser consideradas.

 

Figura 3

 

Mankin, H. J., MD, et. All.7, em um estudo sobre a experiência clínica com implante de aloenxerto, em mais de 10 anos, acompanhou 150 pacientes e demonstrou que o índice de fracassos em cirurgia de tumor foi menor de 10% em dois ou mais anos após a cirurgia, e esses resultados foram classificados como bons ou excelentes.

Do exposto sabe-se que muitos estudos ainda deverão ser desenvolvidos sobre o presente assunto, porém o que se depreende no momento, baseado em experiências e na literatura são as vantagens e benefícios desse tipo de sistema e conseqüente utilização.

 

CONCLUSÃO

Neste trabalho, os autores procuraram demonstrar que a implantação de um serviço de banco de Ossos, dentro das normas legais e seguindo os preceitos da bioética, mostrou-se prático e funcional, sendo de importância relevante tendo em vista a sua aplicabilidade e bons resultados obtidos em cirurgias como as já citadas.

 

REFERÊNCIAS

01. AMSTUZ, H.C., MA, S.M., JINNAH, R.H. & MAI, L.: Revision Of Asseptic Loose Total Hip Artroplasties. Clin. Orthop. 170:21, 1982.         [ Links ]

02. FRIEDLAENDER, G.E.: Current Concepts Review Bone-Banking. J. Bone Joint Surgery 64-A: 307 - 311, 1982.         [ Links ]

03. FRIEDLAENDER, G.E.: Current Concepts Review Bone-Banking. J. Bone Joint Surgery 69-A: 786 - 790, 1987.         [ Links ]

04. IMAMALIEV A.: Transplante De Los Extremos Articulares. Tradução do russo, Moscou, 1971.         [ Links ]

05. LINCLAU, L.: Deep Fronzen Cancellous Allografts In Orthopaedic Surgery. Acta Orthop. Belg. 50:545 - 556, 1984.         [ Links ]

06. STEFANI, A. E., OLIVEIRA, L. F. M. & FERNANDEZ, P.: Banco De Osso: UmMétodo Simplificado. Ver. Brás. Ortop. 24/3: 66 - 72, 1989.         [ Links ]

07. TOMFORD, W.W., DOPPELT, S.H., MANKIN, H. J. & FRIEDLAENDER, G. E.: Bone Bank Procedures. Clin. Orthop. 174: 15 - 21, 1983.         [ Links ]

08. URIST, M. R. & STRATES, B. S.: Bone Morphogenetic Proteins. J. Dent. Res. 30: 1.392 - 1.406, 1971.         [ Links ]

09. VERBEEK, O. & KINGMA, M.I.: Citado por Linclau, L. 1984.         [ Links ]

 

 

Trabalho realizado no Centro de Estudos Ortopédicos de Passo Fundo.
Localizado à rua Paissandu, 928 Centro. Passo Fundo - RS
Fone: (54) 313-4333

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